ABRIL DE 2006

domingo, 30 de abril

Nas horas vagas

meu trabalho

é separar diamantes

do cascalho

 

Não me procures

em minha poesia

É mais fácil

te encontrares

 

Irrespirável ar

Água intragável

Até quando viver?

Tudo deu de aquecer

Mundo pôs-se a secar

O homem é deplorável

Nem Deus quer crer

Já começa a cismar

no ato impensável

de a criação matar

e com ela morrer

“Sou responsável

como todo ser

 

Por tentar te entender,

desculpa, releva, perdão.

Humilde, devo reconhecer

a audácia da pretensão.

Foges à compreensão,

ó dona sem explicação.

 

Quis te dar algum sentido,

alcançar tua significação.

Fui imperito, desentendido,

nada passou de suposição.

Falhou a minha percepção.

Para ti não há conclusão.

 

Chamar-te mulher-enigma

é simplificar a indefinição,

pois quebras o paradigma

do que é real ou ilusão.

Interpretas com perfeição

a rainha da dissimulação.

 

sábado, 29 de abril

Enriqueço urânio.

Meus reatores são

o crânio

e o coração.

Se posso explodir

de tanto pensar,

de tanto sentir?

Não! E sim reagir

em meu nuclear 

efeito de cindir

atômica harmonia.

Ser radioativo,

sou todo energia

em tudo que vivo.

Só gero alegria,

amor e poesia.

 

sexta-feira, 28 de abril

Presta atenção: o que vês

(mirrados) são ipês

sem floração, desfolhados.

Não crês? Então espera

pela nobre estação da criação,

a primavera.

 

Para tua asseveração,

tenras desabrocharão

flores brancas e rosas

(belamente maravilhosas),

flores roxas e amarelas

(maravilhosamente belas).

 

Cores: escolhe, acolhe, colhe.

E todo ipê que doravante olhe

na paisagem, sem retoque

e sem maquiagem, se toque:

à sua momentânea feiúra aceita,

com sua beleza vindoura deleita.

 

Pois logo, majestoso se enfeita,

na exata hora flore, se colore

sem que nada o arvore e o acelere.

Não se apavore, não se desespere,

se considere e crê: és um ipê.

Se decore, se primavere, sê.

 

quinta-feira, 27 de abril

Vivo nu se de palavras não me visto.

São brancas? Transparentes? Curtas?

Fora de moda? Vanguardistas? Livres?

Palavras nuas revestem o meu viver.

Palavras cruas na carne do escrever.

 

Das idéias inacabadas

elejo esta: a do país do futuro,

um túnel de final escuro,

com pistas esburacadas,

trajeto inseguro.

Não é o país do presente,

a tempo e a hora,

urgente.

Aqui, agora,

pra gente.

É o país do povobjeto,

do decreto secreto,

do rei analfabeto,

do politicamente

incorreto.

 

A sexta letra é inicial de

fé futuro felicidade fim f

lávio

 

Hoje de manhã, quando ia para o trabalho pela Alameda das Rosas, em Goiânia,

como estava com o braço apoiado na porta do carro,cheia de cor e esbanjando lindeza

veio uma borboleta e pousou tranqüilamente em meu ombro, ali ficando o quanto quis.

Sentindo-me homenageado, admirado prendi a respiração. Para ela este poeminha...

 A borboleta é só um instante.

Vive o lapso. Um quase-nada,

mas intensamente seus vôos.

Mínima. Íntima da brevidade,

resumidas horas seu resistir.

Síntese alada da eternidade,

lacônica leveza de asas e ar,

livre concisão de ser e estar,

quanto pode querer ou sentir?

(Pergunta para não descobrir).

Qual borboleta assim é amar.

Qual borboleta é assim existir.

 

segunda-feira, 24 de abril

Faz-me rir

esse teu ir-e-vir

(bem-me-quer-mal-me-quer).

Se despetalas a flor,

se tiras do pólen a dor,

não consegues me ferir.

És boa mulher.

Não o amor

bom de sentir.

 

sexta-feira, 21 de abril

Meu amor me basta

Quando eu o distancio

ou ele de mim se afasta

 

No teu futuro incerto

vejo uma cigana cega

lendo tua mão direita

 

Turistas em Curitiba

Enquanto passeávamos de mãos dadas

pela poética pedreira Paulo Leminski

numa fenda colhi uma florzica de nada

para minha amada Nastassia Kinsky

Anos após me vejo de calças abaixadas

na concreta pedreira Paulo Leminski

com uma doida de pedra ali ajoelhada

a chupada Monica Samille Lewinsky

Então cheguei à conclusiva autopiedade

do quanto caiu meu padrão de qualidade

 

Vejo-me em ti

Vejo-te em mim

Duas paisagens sem sol

Um no outro em desencontros

Distantes e ausentes dia e noite

Em ti eu me vejo sem brilho

Eu te vejo em mim sem calor

Dois desprovidos de luz e cor

Falta às paisagens o sol do amor

 

segunda-feira, 17 de abril

Mesmo

que a esmo

e trôpego

um bêbado

vesgo

se intrometa

no trânsito

o tráfego

fluirá

do engarrafamento

o féretro

sairá

 

Na verdadeira acepção da palavra

Novidadeira concepção da palavra

Na derradeira decepção da palavra

A costumeira percepção da palavra

Na primeira recepção da palavra

Na interesseira opção da palavra

A palavra é ação dicção ficção 

 

Sempre me vi

nunca me olhei

Cego que sou

nem reparei

Cara caolho

era eu rei

No Circo Ciclope

meu olho furei

À vista de todos

sangue chorei

Se riram? Não vi

não sei

 

A linha escrita no buraco da agulha

costura um texto no tecido do papel

perpassa o vazio e sua ponta aponta

alinhavando letras palavras e versos

E eu visto a camisa feita de poemas

 

Carvões queimam

Chamas puríssimas

Alvíssimas cinzas

Carvoeiros pretossem

Seus pulmões ardem

Escarro: coisa verde

Livrai-os dos fornos

do inferno

 

sábado, 15 de abril

Dá-me o mapa de teu corpo.

Não há? É território inexplorado?

Então serei o desbravador.

Nem que eu leve a vida inteira.

Abrirei picadas. Traçarei a geografia.

Vou arar cultivar colher e comer.

Teu corpo será minha casa.

O melhor lugar do mundo.

Pátria de amor e prazer.

 

I -

O coração não raciocina

Não é inteligente

Não maquina

Nada tem em mente

O coração só sente

apreende e nada ensina

O coração é turbina

Torna o sangue fluente

O bombeia e o disciplina

a circular pela corrente

O coração só sente

Não produz adrenalina

 

II -

O sentir não vem da mente

nem o pensar do coração

Mas de modo consciente

intelectualizam a emoção

Pensam sentimentalmente

Sentem sem imaginação

 

quinta-feira, 13 de abril

Se não amar

porto não há

e o corpo é

ilha

 

Ainda que seu dia-a-dia

não seja só de poesia

não reclama

declama

celebra o ar que respira

Torna febril a vida

Delira

e da lida

sua chama

inflama

na pira

 

Eu te garimpo

E te lapidando

te e/levo ao Olimpo

 

O que te olha não são meus olhos.

Não sou eu em mim quem te vê.

És tu te vendo com a visão do eu

sem me ver-te no olhar que olhas.

Acaso és invisível ou te avistas

só em ti como inexistente ser?

Não me veja te olhando às cegas

que sol sem céu não tem nada a ver.

 

- O outro é o outro nele

e dele é ele em si

aquele que nele é seu

somente e semelhante

o outro é só mais um

- O outro é doutro se

em outro não é o mesmo

e diverso difere de outrem

não sendo o ser que é

sua vida não dá outra

 

domingo, 9 de abril

Não será uma inundação

de lágrimas no coração?

Ou a força do temporal

de teu eu sentimental?

Quem sabe a enxurrada

magoada da namorada?

Do constante chuvaréu

pinga fel ou goteja mel?

A chuvarada sem cessar

fará teu amor desbotar?

Só porque tem chovido

teu amor fica encolhido?

Ao desabar tempestade

na mina brota saudade.

Ela aflora toda molhada

sequinha pra ser amada.

Aproveita a chuva lá fora

se reacenda e a namora.

Ou sê apenas o amigo

que se chove dá abrigo.

E depois quando estiar

faça do amor luz solar.

 

sábado, 8 de abril

Não te peço caminhos

por onde sigo

e nem te impeço caminhes

comigo

 

Cristo vê o Mundo

o acha estranho

E de braços abertos

mede Seu arrependimento:

- É desse tamanho

 

Ela é muito fofa

Eu a vejo falsa magra

Mas ela se acha balofa

 

sexta-feira, 7 de abril

Algo há em mim - em nós

Silêncio de alto e bom tom

Céu menor que nossa voz

Ouvidos para nenhum som

Dois juntos porém tão sós

Noite insone e chuva atroz

Faz frio e é teu o edredom

Seca o rio por falta de foz

 

Não sei mais de onde vim

Não tenho endereço certo

Meu corpo lar não habita

Moro bem dentro de mim

na imensidão dum deserto

Sou nômade e sou eremita

Longe vou e já estou perto

 

A poesia e eu

batemos bola

em passes curtos

e precisos

 

No que depender de mim

teu telefone será silêncio

não ouvirás nenhum trim

 

Nem sempre vibra

(até porque se solidifica)

E às vezes estremece

enfraquece desequilibra

(e quando se sensibiliza

trepida abala o alicerce)

E o coração debilitado

é coração desabitado

 

Ora, ora, Goiás, pois, pois

Não vou dar nome aos boys

nem apelidar aos bois

 

Ele: Então amor é assim?

Ela: Assim como?

Ele: Pões cabresto em mim

e eu te domo?

Ela: Quanto mais domesticável

tanto mais amado.

Ele: Ah, que amável...

Já me sinto adestrado.

Ela: Meu amo...

Ele: Amo...

 

Borboleta moderna

vive muito

em tatuagem na perna

 

Ah, fala sério tipo assim:

se vais estar me ligando

não vou estar te atendendo

e nem estar te retornando

 

Beco sem saída

para a urgente fuga da vida

Caminho sem volta

para quem do ciúme se solta

 

segunda-feira, 3 de abril

Até que não é muito

É bem pouco e – se tanto

comporta meu coração

abrange meu silêncio

envolve minha fala

torna-me inexistente

É quase nada aliás

Menos que isso talvez

só a simplicidade do eu

a te buscar nas minúcias

à sombra de ti imensa

ocultando-me invisível

 

domingo, 2 de abril

Floresta de uma só árvore

confia nas sementes desta

pois uma árvore somente

de outras infesta a floresta

Se férteis são as sementes

nesta árvore que resta

verde há de haver sempre

a verde esperança atesta

A árvore sobrevivente

a outras vida empresta

Desmatam covardemente

mas a natureza contesta

insiste em ser resistente

não desiste de ser honesta

por si só se refloresta

 

Eu não brinco comigo.

Comigo eu não brigo.

Eu sou meu amigo.

Sou o que digo.

Eu me sigo.

Umbigo.

Trigo.

 

O vivido dividido

entre ávido e vívido

ritmo e síntese

íntimo e istmo

O vivido subdividido

entre isto ou aquilo

simples e sempre

som e céu

o tido

e o havido

o vivo

e o não-vivido

 

sábado, 1 de abril

Depois de tua aparição

e de nosso conhecimento

recebi nova certidão:

a de renascimento

 

De minha totalidade

agora sei

que minha cara metade

encontrei

Ó breve felicidade

adie a eternidade

 

É mais que suficiente

para tua sede tanta

essa água corrente

que tua vulva decanta

quando tu toda ardente

vai de vadia a santa

e assim tão veemente

à minh’aridez suplanta

e com jacto insistente

rega a haste da planta

que te dou insolente

mas em ti se agiganta

para a agonia urgente

de teu senta-e-levanta

quando tu literalmente

me almoça e me janta

 

Extraio da loucura

toda doçura por ti

e dou-te um naco de néctar

tal pássaro-colibri

ou já um cadinho de mel

qual abelha-jataí

 

Fica com teus contrastes

Sigo com meus paradoxos

Tu e eu: almas paralelas

(Não bate sol em nossas celas)

 

Vê o garboso cavalo no alto da montanha

Exibe-se aos teus olhos em galopes de encanto

Suas crinas ventam fosforescências

Ele é indomado ele é indomável ele é

Corcel do azul de meu peito campestre

Monta em mim, amazona silenciosa

Adestra-me e das nuvens não cairás

 

ABRIL DE 2005

sábado, 30 de abril

Teu arredio beijo quer o meu beijo tímido

para que nossos lábios se percebam

em linguagem de olhos fechados.

Sopra uma brisa quando nos beijamos.

O azul da leveza de uma asa nos enlaça.

O frescor do momento nos expande.

Tu e eu em simplicidade e graça

levitamos em nós já com saudade de tudo.

E ao viver a eternidade deste segundo único,

abrimos nossos olhos e respiramos mudos.

 

sexta-feira, 29 de abril

Sei quando sim.

Sei quando não.

Ou talvez nem isso.

 

Desapaixonarei-me de ti.

Te desamarei, minha exmusa.

Meus versos te descantarão.

Desinspirarás ao antilírico

apoeta que serei pós-tu.

 

Desiludido volto.

Não devia ter vindo

(ou será ter ficado

ou ido?)

 

Eu te percebo.

- Não a cura:

placebo.

 

Não atrita,

grande pedra,

ou viras brita.

 

Ela é mais ela.

Ela fica na dela.

Mas tem um medo que péla

(ou gela),

se percebe que não lhe dou mais trela,

se digo que não mais penso nela,

se acho outra ainda mais bela,

se ao amor o coração cancela.

Aí vem me engambela,

aí já é mansa e não apela,

aí é que por mim se mela,

aí eu já apaguei a vela,

aí ela já não é mais aquela

que de meu coração faz capela

e eu me libertei de sua cela

úmida, sem uma única janela.

 

quarta-feira, 27 de abril

Amo!

Mas amar não devo.

Amor impróprio

e indevido.

Amar-te,

como me atrevo?

Sentir-te

é tão sem sentido.

Como posso

se não posso?

Abandonar-te

aqui em mim

é o melhor final

que esboço

e a esse amor

dar logo fim.

Não te amo,

insisto e repito.

Não e não e não,

eu reitero.

Mas não sou

nada convicto.

Meu não

nem eu considero.

Então te amar

é obsessivo,

é louco tormento

e fixação.

Dando um basta

é que vivo

a um amor

sem compaixão.

Amor assim

não me merece.

Amor ruim

de se ter no peito.

Amor ilógico

que me adoece.

Amor que dói

e não tem jeito.

 

Não sendo teu

não me pertenço.

Meu não sou,

vivo suspenso.

Me perco em mim

sem ti.

Meu além?

- Ali.

Se não estás

não te sigo.

Me abandono,

me desabrigo.

Desassossegado

não vou.

Ando calado,

assim estou.

Sequer existo,

pois teu não sendo,

tu não me tendo,

eu me desisto.

 

O amor que te dou é simples

mas eu o complico.

Implico, multiplico

uma coisinha de nada por cem

e sem razão fico,

com cara de ridículo,

me sentindo minúsculo,

pagando o maior mico.

O amor que te dou é manso

mas eu o enfureço.

Cresço, apareço em cima

de algo que não tem nada a ver,

então me desconheço, faço,

aconteço, quase te desmereço.

É quando me acho beócio

com minha serenidade indócil, 

em que por conta de coisas bobas, 

mais que emburrar, emburreço. 

O amor que te dou é muito.

O amor que te dou é tudo.

O amor que te dou é meu.

 

Quem me possui

não me quer.

Até me instrui

a não sofrer.

Que coisa mais sui

generis, mulher!

Pode saber: fui.

- Vou te esquecer.

 

A coisa coisou

no verbo coisar.

Eu não coiso.

Eu não coisei.

E só coisarei

contigo, coisinha.

(Comigo tu coisas?)

 

De amor viver

(E viva o amor)

Vivendo ama

Amando e vivo

 

sábado, 23 de abril

Acaso Deus existe?

No bico do passarinho

Deus é alpiste?

Fica triste

o Deus que nos repreende

dedo em riste?

Deus ri de Si mesmo,

de Si faz chiste?

Deus no trono, é top,

figura no pop list?

 

Houve um tempo

em que uma musa havia,

mas esse tempo passou

e essa musa envelheceu,

a inspiração se renovou

nas malhas do meu eu.

A musa que me ganhou

com o tempo me perdeu.

A poesia que ficou

outras musas comoveu.

A poesia do que sou

faz o poeta ser mais seu.

 

Janelas para paisagens

que se oferecem a olhos

que nada vêem.

São invisíveis todas as coisas.

Todas as coisas insensíveis são.

 

Não são indecências

ao teu ouvido.

São inocências

- e estou comovido.

As palavras sussurradas

com ardor

expressam fúria,

tesão, gozo, amor.

O teu corpo fogoso

se contorcendo. 

E louca e febril

te ouço gemendo.

Como-te com fome,

sou teu macho.

Deliro em ti, por ti,

levanto o facho.

Abrasas-te, me abraças,

me diluis

em partículas, néons,

raios de luz.

Em ti se resume

a propícia delícia

de tocar-te

com a essencial carícia.

Extasiados buscamos

o aconchego

um no corpo do outro:

que sossego!

Somos dois sóis

em sono prazeroso,

sorridentes levitando

depois do gozo. 

 

Meu dia acorda 

quando ouço tua voz,

raiozinho de sol

na manhãzinha.

Meu dia termina

quando adormeces

em brancos lençóis 

ouvindo a minha.

 

Amar-te é perder-me

em vazios de mim

à procura de nós.

É distorcer a luz

para confundir o som

de meu eu aflito.

É ir sem caminho,

ficar por ficar,

sem quê nem porquê.

Amar-te é brincar de pique

de correr, de esconder.

Conto até cem, até mil

e nunca te encontro,

e não tenho escolha

a não ser sentir.

Sentir-me sempre,

simples e só, só e perdido,

só e contido, só e sereno,

só e a fim.

 

Talvez a falta,

não o excesso.

Ou o desejar

por ter demais.

O não querer

por ser impossível.

Ou o dispensar

ante a fartura.

Amor, ah, amor,

isso é loucura?

És mesmo criador,

criatura?

 

As alcinhas leves

de teu vestidinho solto

me mantêm suspenso.

Plenitude de admiração.

Mulher-primavera

ante meus olhos e desejos

espargindo pólens

e néctar.

 

Para meus olhos

me faço de cego.

Não vê-los

para não fitar-te,

refletindo-me teu e só,

nas lágrimas azuis

que deles hão de minar

por ti.

 

quinta-feira, 21 de abril

Triplicado de raios

(essas finas agulhas)

nas manhãs de abril

o céu é tão sol

que o azul até dói

 

Quero te amar mais que já amo 
mas já é amor demais 
Quero dar-me mais a ti 
mas já me dou mais que sou capaz 
Quero saber-me teu como jamais fui 
mas que teu me sei e que serei mais 
Te amo tanto que não há quanto
É em mim um todo de um tudo sem fim
Ainda pouco ou menos que poderei um dia
Porque amor assim é sempre crescente
Inadiável amor presente e por isso urgente
Amor que só a ti darei a ti somente

 

Lua de mel

Sol não com raios

mas néctares

 

Da primavera de ti

sou apenas uma folha

de árvore que não flori

 

Não são pétalas

ó rosa rosinha rosae

São camadas de beleza

 

Nós na chuva os dois

imóveis trêmulos livres

molhados até nos nomes 

agudos acentos em nossos ás

líquidos pingos em nossos is

 

Nuvem de único formato

Sou colecionador de estrelas

Em ti habito os silêncios

 

Janelas para paisagens

que se oferecem aos olhos

que mais nada vêem

São invisíveis todas as coisas

As coisas todas invisíveis são

 

Houve um tempo

em que musa havia

Mas esse tempo passou

a musa envelheceu

a inspiração se renovou

nas malhas de seu eu

A musa que lhe ganhou

com o tempo lhe perdeu

A poesia que ficou

a outra não comoveu

Um poeta dá-se à musa

ou para luz ou puro breu  

 

Acaso Deus existe?

No bico do passarinho

Deus é alpiste?

Por que Deus nos repreende

com dedo em riste?

Deus ri de Si mesmo

de Si faz chiste?

Deus é top

no pop list?

 

terça-feira, 19 de abril

É quando sorris

que bate sol

em tua cara

Tudo aclara

quando iluminas

Geras energia

que a nada

se compara

És como mil turbinas

de grandes usinas

como a de Itumbiara

Sorria

minha ensolarada

e não pára

 

Te amo em tua carne farta

e a como em mesa posta

Em teu suculento corpo

rumino as delícias

do lauto repasto

E tudo eu gosto

E sou bom garfo

E sou bom prato

Almoço mais que posso

Janto outro tanto

Faminto te sinto

Satisfeito te aceito

E agradecido sou servido

 

A arte

de amar-te

(para quem não sabe)

está na parte

que não me cabe

 

Perder-me

por dar-me

a ti

E nem um se

E nenhum não

ou algum senão

Dei-me

Perdi

 

Sendo apenas amigo

não te atropelo

se te persigo

Como amigo é impossível

pois não consigo

Apenas amigo eu digo

coisas ao teu ouvido

quando te ligo

Somente amigo não brigo

e se me enciúmo sofro

me sujigo

Um reles amigo exíguo

qual sombra te sigo

te protejo do perigo

no tempo te abrigo

ao sol – por ti

me fustigo

sou teu doce de figo

teu crime e castigo

canção atonal de Arrigo

cura de vitiligo

mito do Egito antigo

teu chão

teu cão

teu pão

trigo

   

Tento buscar

teu olhar

na distância

e não o alcanço

Perdido em teu ar

sou todo alheamento

já não me respiro

não me comporto

Teu sorriso me dói

se estás feliz

Sofro por saber

que não sou eu

que feliz te faço

 

domingo, 17 de abril

Para quê raios de sol, 

se por não dormires comigo

acordado me mantenho,

assim meio luz e calor

em altíssima combustão?

Vem, para noites inquietantes.

Mas não quero que durmas,

quero te manter acesa,

em chamas a meu lado,

dois corpos inflamáveis

mesmo após a explosão.

Fica, para manhãs sonolentas.

 

Sou teu amigo

em dias de chuva.

Teu amigo sou

em dias de sol.

Sou amigo-abrigo.

Contigo e teu.

Água e sombra.

 

sexta-feira, 15 de abril

Te amo quer dizer tudo,

ou o te amo nada diz?

Porque se te amo muito,

em silêncio ecoa um bis.

 

Todo tanto que te amo

nada é se de mim ris.

Que rindo de meu amor,

com teu riso me agredis.

 

Entre te amo e te adoro,

a vida está por um triz.

Dor, tesão e lágrimas,

deixam a laser cicatriz.       

 

Se te amo em ti me amo,

ou se não, o que eu fiz?

Se reclamas, eu declamo

versinhos escritos a giz.

 

Eu te amo e como como

teu corpinho de anti-miss.

Tu e eu nos deliciamos,

sou papaia e és cassis.

 

quinta-feira, 14 de abril

Esquece.

E não fraqueja.

Por que amar

quem não te deseja?

Se perceba

e a si se ame

ou sofra,

se fustigue

e não reclame.

Para quê, em vão,

doar-se tanto,

se no fim de tudo

será só desencanto?

Acorda.

Permita-se,

a vida se oferece.

Não fraqueja,

e quem não te ama,

esquece.

 

quarta-feira, 13 de abril

Amar-te como te amei já não mais te amo.

Como também não amo em mim aquele amor.

Amei-te tanto que tanto amor foi diluindo,

foi diluindo, diluindo e desiludiu-se.          

Amei demais, amei às cegas, amei sem Norte.

Amei a ti mais que a mim, mais que aos meus.

Não mais te amo, não mais te amo, não mais, não mais.

Graças a Deus, graças a Deus, graças a Deus...

 

A mão sem o toque é mão inútil.

O tato é fato, pois que sente e percebe.

E como só te acaricio em pensamento,

a mão reclama – a mão preterida,

sem serventia, mão sem ação, noção,  

mão em vão, a mão deixada na mão.

Soberba mão, queixosa e fria, à revelia.

Mão sem tocar-te, mão imprestável,

mão inquieta, mão difícil, mão vazia.

 

Morder tua boca como à carnuda maçã.

Suculenta boca, molhada, melada, gostosa.

Boca louca, de onde ecoa voz melodiosa 

e qual ímã me atrai, boca oca, boca pouca,

boca macia que me sacia e se quer mordida.

Boca faminta, boca sedenta, boca atrevida,

boca orifício, boca delícia, sugada, lambida.

Bebe água de bica, me supre e me nutre.

Boca que beijo, me baba, me banha, me bole.

Boca, meu bem, saliva e lábios, boca a boca,

dá-me de ti anestesia, dormência e mel.

 

Dormir não consigo!

Amo-te tanto que por ti sou desejos.

Ardo, queimo, tesão demais, ai, meus ais.

Só quero a ti, em tudo estás, em tudo, tudo.

Infiel não serei, finjo querer, minto, é verdade.

Mas é pura bobagem: eu sei ser só teu,

e eu sou teu só, teu unicamente, única Musa.

Mulher desejada, mulher escolhida, mulher preferida,

delícia de mulher, mulher habitante de meu pensar,

mulher fugitiva de meu sentir. Me tens, me reténs,

todo ou nada, muito e sempre, eu teu em teu eu.

Eu só, e sendo , ainda teu sou. Louco por ti,

doido confesso, te amo sem cura, calado te amo.

Quando vou acordar?

 

segunda-feira, 11 de abril

Sonhos não se resolvem

se tens dores na alma,

dores de aflição e loucura.

O impossível acordar

jamais deixará a noite,

a eterna noite silenciosa 

de teus angustiados sonhos.

Delira insone tua agonia louca. 

 

Cérebro acima,

coração abaixo

- ou vice-versa:

ampulheta.

A areia escorre.

E dispersa.

 

Noite.

Cartógrafo insone

faço o mapa das estrelas.

Eu-em-mim-sou-sem-fim.

 

Estando a moldar argila,

da argila esculpiu Adão,

de Adão evacuou um ser,

um ser modelado a mão,

a mão que tocou sem ver,

sem ver caiu em tentação.

 

Que seja tudo em silêncio.

Meu próprio silêncio em silêncio.

Tão absoluto em mim resumido,

que nem meu pensar eu ouça

e meu sentir para sempre emudeça.

 

sábado, 2 de abril

I

PERCEBEMO-NOS

ÍNTIMOS

AMANDO EM NÓS

O QUE EM AMBOS

UM DO OUTRO

CARECE

II

EM TI POUSO

EU QUE TEU SOU 

PÁSSARO SÓ VÔOS

ASAS DE PAZ

EM TÃO PLENA

DISTÂNCIA

III

SERENA-TE

EM MIM TE ACOLHO

FIRMAMENTO MEU

SUAVIDADE MINHA

SONHA SEM DOR

EM TUDO ME TENS

 

sexta-feira, 1º de abril

Não um rio,

que rio tem margens,

tem cursos a seguir,

sedes por saciar

e mar para desaguar.

Não sou rio de ir.

Nem rio de ficar.

Eu transbordante,

inundado,

me brotando,

de mim minando-me,

olho d’água  

em meu olhar.

 

Por mim,

me faço simples

som de estrela.

Me diluo,

me estilhaço,

grão de areia.

Eu mínimo,

humilíssimo,

força inteira.

 

ABRIL DE 2004

 

sexta-feira, 30 de abril

escreve em maiúscula escreve
escreve A M O R essa palavra forte
essa palavra atormentada pelo mundo
resignada plangente serenada
perdurando em corações entrelaçados
metáforamor poéticamor
escreve a m o r escreve
essa palavra MAIÚSCULAMOR

 

doçura:
somos
dois
gomos


peito meu
essa leveza toda só tem uma explicação
talvez ela tirado a blindagem de meu coração

 

Só de te imaginar longe já me sinto sem brilho.
Quando estás perto sou feito de luz,
minhas cores se espalham,
meu corpo se faz sol,
meus olhos transbordam raios matinais,
minhas mãos tocam o azul do ser - e eu sou.
Sinto-me inteiro ao teu lado, pleno, múltiplo,
tantos quero ser que nem me comporto
em mim.
Juntos somos a expansão de nós mesmos...
Triunfantes em nossos sonhos,
realizados em nossos encontros.
Tua partida me faz querer tua volta.
Quero o teu retorno para ontem
- o amanhã está tão longe...
Partir significa despertar a saudade?
Distância é o mesmo que ansiedade?
Sem ti, tudo em mim é silêncio.
Silêncio absoluto do estar sozinho,
desamparado, desprotegido,
respirando a ofegante falta que sinto de ti,
de teu carinho e de tua carícia,
de tua presença que me ilumina,
me enche de cores e me faz brilhar.
Seja breve.
Não posso ir contigo -
mas me leve!

 

só sei que sonhei
não me lembro bem da paisagem
se era um trigal amadurecido
ou uma imensa plantação de girassóis
acordei entre pães e flores
pães fresquinhos e amarelas flores reluzentes
estávamos ao teu lado
eu e meus desejos ardentes

 

sinto muito
mas só muito amor
é tudo o que sinto

 

aqui estamos:
fomos nos corrigir
acertamos

Um homem feliz, longe de perturbações.
Alheio a tudo, caminha entre os demais,
todos comuns, olhos sem brilho, a esmo.
A praça tem mais sol, é delirante.
A cidade basta ao seu caminhar e ritmo.
O coração doendo de aguda alegria...
O peito dolorido só de lembrar.
Respira e dói sua gostosa sublimação.
Andar lépido, camisa de vento,
asas que o prazer tornou invisível.
O amor anestesia.

O amor redime o homem.
O céu é aqui e lá...

Dentro dos teus olhos
o menino de ontem
passeia pela praça,
prolongado pelas tardes.
Sem cautela, solto,
pele de veludo,
cabeça de lirismo,
poesia entre os dedos.
Vês, na distância,
o menino-desatino,
o menino-sem-destino,
o teu singelo menino,
simples, simples.
Guarda-me em teus olhos,
assim como sempre.
O menino de ontem.
O teu homem de agora.

 

Não são apenas palavras,
que estas podem ser escritas ou ditas
com a mesma intensidade da flor
brotando no lodo da pedra.
São atos sem omissões.
Uma culpa minha, máxima e assumida.
Meu corpo sem o teu é só abandono.
Só abandono. Abandono só.
Transpirando suores queixosos
de suprema falta de comunhão.

 

Sempre assim.
Nosso primeiro encontro foi tão lindo
que o mais recente a ele se compara.
Cada dia melhor. Cada vez maior.
Nosso amor vai atravessar o século.
Dois universos fundidos em um.
Cada dia maior. Cada vez melhor.
Sonhos integrados à difícil realidade.
União de almas e corpos. Passado e futuro.
Tão bom quanto foi, é e será.

Impossível me foi fugir de tua presença.
Penetravas meu mais indevassável escudo.
Eu: tão forte, tão frágil. Louco por ti.
Não consegui esconder este sol de amor ardente.
Sementes afloraram. Meu amor-alimento.
Quanto mais distante, mais presente estavas.
Pensamentos em segredo. Delírios azuis.
Assim permaneci até te rever.
Foi quando o céu juntou-se ao chão.
Tua ausência se aproximou. O amor fecundou-se.
Alimentamos-nos de flores
e não temos mais fome. Juntos estamos.

 

Meu amor de tanto tempo
me transmitiu silêncios, absolutas verdades:
um sonho não se resume a meio caminho andado,
quando há infinitudes no caminhar para sempre.
Desejos são mais que suspiros: concretizam-se
na ardência de corpos que se descobriram
ainda no frescor de peles orvalhadas,
inocentemente despertas para o prazer.
Esperar é saber que não há fim no eternizado...
(Pronuncio em pensamento teu nome minha vida toda).
Todos os soluços me lapidaram. Todos.
Aprendi com meu amor que o tempo
não é feito de mármore.
O tempo (menos forte que nosso sentimento)
é exclusivo para quem busca seu tempo.
Tudo é tão sublime entre nós que o ontem permanece futuro...
Ando atormentado comigo,
prazerosamente admirado
com os ensinamentos por ela transmitidos,
a mais absoluta verdade em forma de silêncio,
tudo tão fundo e belo, tudo tão alto e claro.
Meu amor de tanto tempo é um amor eterno
e novo.

claridade do dia
tanta luz me cega
não quero sair do quarto escuro
o escuro sim me conhece
meu amor não suporta tanta luz
meu amor não comporta luminosidades
meu amor compete com o sol

contigo consigo
fazer um carinho e sonhar
torna-se doce meu olhar
também é quando desperta
o instinto animalesco
de meu coração dantesco
 
afaga o rosto afaga o corpo
teu cheiro é suave é tudo suave
nossas mãos são nuvens
somos duas raízes suspensas
sem fundo e sem fim

quando a tarde pára
sinto que somos nós
para sempre
o mesmo velho sol
este amor queimando
o peito é o tempo
a tarde é o coração
ardendo em solidão

Tudo que foi em nós guarda um sabor
de fome, de olhos, de mãos, de toques,
de carícias, de cheiros, de luz, de chuvas,

sobretudo de sóis.
A vida ficou esplêndida a partir de nós...
Somos um arquivo de acontecimentos memoráveis...
Mais dia, menos dia, rasgaremos as tardes
e devoraremos as noites.
Minha alma já sonhou com frutos menos doces
- cultivei um pomar e agora ela vem colher,
adocicando cada um destes frutos,
(a)provando-os,
com suas mãos sutis, com sua boca carnuda.
Ela gosta do caldo que destilei, ela gosta muito.
Por ela todos estes frutos são os melhores
e mais saborosos,
para ela todos estes frutos foram cultivados,
ela dá sabor a tudo que foi em nós
gosto de saudade,
essa frutífera árvore
que também possibilita sombra.

Há muita luz em meus dias agora.
As segundas se vestem de branco
e ficam transparentes.
As terças ficam impassíveis
diante de tanta claridade.
As quartas, essas são invisíveis,
trespassadas de raios.
As quintas todas parecem tardes
ensolaradas de abril.
Sextas pintam paredes
de uma alvura incomensurável.
Os sábados luzentes atropelam os domingos
que por sua vez se parecem com os demais
dias da semana.
Minha palidez de poeta descansa. Então escrevo:
há muita luz em meus dias agora.
Meus dias agora transbordam,
entornados em tua luz.
Nosso amor torna tudo tão nítido...

 

presta atenção em mim
vê que no fundo no fundo
meu silêncio é trilha sonora
meu amor é antes e agora
e depois é a melhor rima para nós dois

roubei-te um beijo
desde então vivo com febre
delírio de amor interminável

até quando a estrela guia
se desorienta
a saudade se apresenta
o amor aumenta
e o mais a gente inventa

 

contigo

meu amor

passeia de mãos dadas
com o futuro

 

quando me encontrou pela primeira vez
chegou de mansinho e foi tudo mansidão
esplendor de amplidão na imensidão tão

 

esta página
tem margens
impossível falar de meu amor
dentro dela

 

O amor me ilumina, entre o sol e a noite.
Sentimento que em mim repousa e me faz recolher
ao aconchego de sua essencial natureza.
Amor exigindo cuidados. E calma.
Com suas asas, o amor acolhe meu sono.
Durmo no colo do amor. Um segundo. Muitas horas.
Ele é pleno de surpresas e me encanta.
O amor. Meu amor por ela.
O amor maior que a vida me dá como único.

 

Aos meus olhos, és a minha própria visão.
O dom de enxergar vem de ti. Te vejo em tudo.
Em tudo te vejo. No invisível estás. No intocável.
No que há de mais obscuro em mim. No fundo mais fundo.
És a forma de todas as coisas que aprecio.
Meu subterrâneo, minha superfície, as alturas minhas.
No escuro te tateio, te acho, te ilumino.
Quero ver. Não me cegues deixando-me.

 

gosto do escuro
no escuro o amor nos ilumina
a luz transborda de nós
de nossos corpos saem faíscas
espocam fagulhas e centelhas
amarelas e vermelhas
além do mais
fico de olhos fechados
para só ver o que sinto

te encontrei
como a melhor de minhas metáforas
talvez por isso
minha poesia seja tão simples
doce raiz
de inspirada simplicidade

 

no nosso amor
toda lucidez

é louca
toda loucura

é pouca

podes caminhar
ainda que não ao sol
sou tua sombra
fiel

 
depois de toda essa convivência
cheguei à conclusão
de que ando parecido contigo
mas és tão linda –
é muita pretensão o que digo


como fazes parte
do que escrevo
faço questão
de estar dentro
do que lês


 nossos corpos
se comportam
(quando se fundem
se confundem)


o tanto que te amo
me traz a interrogação
em busca de uma conclusão:
meu coração é cabeça
ou minha cabeça é coração?


ando meio lírico ultimamente
o coração incinerado
gravo versos em pedras
meus assuntos são alegres
intraduzíveis sentimentos
tanta leveza invejando as nuvens
ando pelo campo e me misturo à paisagem

 
não há uma ordem de coisas
acontecimentos revertidos em saudades
pensamentos / lembranças / memórias
uma bonita história de amor
uma infinita passagem de vida
uma duradoura paixão delicada
tudo tem origem e nada tem fim
porque tu te eternizas em mim

 

formo contigo um par
és o poro por onde respiro
sou através de ti toda luz
e o prazer da intensidade

me proporcionas
tanta claridade
a luminosidade é tanta
que chego a ficar transparente
presença de amor ausente
ausência de amor presente

 
era um ser sem prumo
deste-me um rumo
era um ser sem casa
abriste-me tua asa
era um ser sem ritmo
tornaste-me teu cara íntimo
agora não sei viver sozinho
sem ti não tenho caminho
quero estar sempre contigo
estás aqui e agora comigo


grito -
minha voz é azul
meu silêncio tem a cor
que melhor te convém
meu bem
tuas palavras são azuis também

 
meu amor
é um rio submerso
oculto
quer saciar tua antiga sede

 
te olho e vejo uma árvore
e às vezes vejo um pássaro

sou eu pousado em ti

o
encanto
da
vida
é
fazer
da
vida
um
encanto
estou
encantado
com
ela
ela
é
todo
encantamento

nosso amor
ave em vôo
sem jamais pousar

ancorado em ti
o azul me eleva
o silêncio é voraz
sou um incêndio
estou varado de luz

somos dois raios
talvez
conseguíssemos
habitar
o sol


Fosse eu inventor de palavras,
todas as coisas teriam denominações novas.
O amor, por exemplo, haveria de ser representado por um termo
que o expressasse por inteiro,
como razão universal de tudo,
com todas suas alegrias, inquietações, ânimo,
segurança, harmonia, paz e tristezas.
Não será a palavra amor
uma palavra já inventada
para significar felicidade e sofrimento,
vida e eternidade, isso e muito mais?
Talvez, então, para mim todas as coisas
possam ser amadas, em vez de serem
simplesmente chamadas.
Teu nome quer dizer que te amo.
Te amo e por isso me chamo.


Tamanha alegria me embaraça
ante os mais simples viventes.
Olham em meus olhos e estes brilham mais.
Meu nariz empinado me projeta...
Fico constrangido com meus passos lépidos.
Minhas mãos debulham carícias.
Sou inteiramente fragmentado de visível
e notável felicidade.
Tão alegre assim, frágil e forte.
Ó amor, quão grandioso é teu poder,
tua capacidade infinita de dar ternura
a um homem.
Todos me invejam, mirando-se nessa plenitude.
Sou imensamente eu. Estou demais comigo.
Sinto-me eterno. E terno.


Não é nosso amor uma promessa
feita no deserto.
Regamos flores, pois sempre haverá água farta
e chão fértil.
Esperança, um outro nome nosso, nosso maná.
Nos alimentamos do tempo da espera
e a paciência é nossa companheira mais simples e mais sincera.
Habitamos, cada um em seu canto,
grandes cômodos.
Nestes cômodos abrigamos as memórias vivas.
Fazemos do tempo e da distância elos e laços
de uma união que jamais se desatará
e se faz forte.
As coisas intocadas permanecerão conosco.
Se estavam pendentes, não estão mais.
As flores estão vivas. A água é cristalina e fresca.
Ofereço-te buquês de alegria.
Tens sede de felicidade.


A tarde se inclina e a noite cai.
Tão linda essa palavra: crepúsculo.
O lusco-fusco revela a primeira estrela.
E a primeira estrela que vejo
deseja o ardor de meu ardente desejo.
Nessa hora a solidão se veste de negro
e se faz confundir-se com a escuridão.
Parecem gêmeas, mas se diferem.
Uma é compaixão pura. A outra gera
desassossego e faz silêncio.
Ambas me espreitam.
Meu amor cresce intermediando a tarde
e a noite.

 

nosso amor um pic-nic
estou no maior pique
sou incontido dique
tenho insondável psique
não há nada em que não me arrisque
me permita que eu te disque
se te ver deixa que eu pisque
se eu for peça para que eu fique
de tudo menos de mim abdique
querendo te dou meu cic
te confesso meu nick
me revelo num clic
até já estou mais liric
te escrevo poemas com bic
(computador não complique)
esse amor é simplesmente chic

 

quarta-feira, 28 de abril

As quatro estações de nosso amor

Nossos encontros sempre traduzem muitos desejos:

calor de sonhos em nossos corações ensolarados...

Cultivamos em nosso peito as flores de um amanhã iluminado,

pleno de certezas, emoção comovida, respiração ofegante,

planos de vida, brilho de olhos que ouvem,

quando o silêncio fala por si para dizer tudo.

Nosso amor está na primavera...

 

Tua voz é mais que um som. Pulsa dentro de mim

como a estrela guia na noite silenciosa de meu corpo frágil.

Nele tudo é desejo quando fica essa sensação de ausência...

Meu corpo sabe perceber, pode pressentir a distância

que não deseja, quando só te quer por perto, aqui dentro,

onde só há um caminho para seguirmos juntos.

Nosso amor é e será capaz de transpor o outono...

 

Te busco a cada instante em sensações que me doem:

medo de perder, coragem de dizer, vontade de só sentir

aquilo que não me faça sentir tão só, distante de mim,

como o menino de anos atrás que já te perseguia

sem ao menos saber que existias. Ou seja, era teu

antes que pudesses imaginar que também eras minha.

Nosso amor agasalhou-se em nosso inverno...

 

Que não seja por descuido nosso deixarmos se perderem

tantos sonhos sonhados, momentos vividos e extasiados.

Se nuvens sombrias insistirem em encobrir nosso sol,

as certezas serão maiores que as dúvidas,

e em nós tudo será como antes,

como sempre desejamos, com uma doçura carinhosa e segura.

Nosso amor há de se fortalecer em seu mais pleno verão...

 

Delícia é uma palavra bonita.

Delícia é uma palavra gostosa.

É crua, furtiva, louca...

Convoca ao rio que sede não sacia.

Sua água é de pouca lucidez.

Nada concede. Nada concebe.

Delícia lembra carne para o desejo.

Piedade é tal qual humilhação.

Quero comer. Fome de divindade.

Que delícia devorar-te, glutão confesso.

Delícia não é uma palavra. É gozo.

 

Maior esplendor não há

que este amor delicado,

cuja face nem o coração conhece.

Este amor todo ele feito de vôo,

de infinita bondade, de eterna paciência.

Amor ao qual me entrego sem medo.

Sua embriagues me dá alegria.

Alegre, sou lúcido. Contenho-me assim.

O esplendor é este sol no corpo

que o amor, ardoroso, me dá.

 

Ainda suspiro, sem me distrair.

Será indestrutível este amor?

Sua imagem é para sempre?

A ele bendigo com ofegante aflição.

Sinto-o vivo, transformando-me.

Ora me fortalece. Ora me enfraquece.

Amor sem eira na beira do céu.

Céu completo, pântano de desejos,

Repouso de minha eterna saudade.

Ele me vê prostrado, silencioso,

humilde, contrito, quase humilhado.

Ele é imenso, incomensurável.

Eu o exalto. Eu sou um mínimo grão.

 

Quero resplandecer a todo momento.

A cada momento hei de te sentir eterna.

Eternidade minha. Perfeição sublime.

Teu corpo me seduz – tenho pólens.

Posso fecundar-te em primaveras.

Sou teu exilado. És minha pátria.

Teu corpo é florido – doces pétalas.

Quero uma tarde chuvosa para tudo.

Nem precisa ser domingo. Hoje mesmo.

Teu corpo me dá poder. Divina inspiração.

Choro de prazer. Agora sei da perfeição.

Eternidade minha em fração de segundos.

 

Ser frágil, estremeço de prazer.

A engrenagem de nossos corpos...

Torrentes insaciáveis. Necessidades mil.

Delicado demais te tocar. Desperta-me

o teu toque tão dedicado. Ai, ai...

O princípio de tudo é pura poesia,

rara poesia, louca e sã.

Compasso corporal. Força, fúria,

delicadeza e dedicação. Voz do amor.

Mistério gozoso. Satisfação impetuosa, jorrando.

 

Para onde o amor me leva,

é para lá que eu vou...

Desarmado de princípios e propósitos.

Feito de carne, vertigens e êxtase.

Ser eterno em segundos de prazer.

O amor me toma pela mão

e me guia sobre trevas e píncaros.

Tudo me faz agüentar, mas dormir

não me deixa, por quais motivos não sei.

Ou sei e acho demasiadamente gostoso,

intraduzível, soberano e sem-fim.

Nessas horas o triunfante sou eu.

Eu todo suspiros, feliz em brasas.

Já com saudades da próxima vez.

Com vontade imensa de só ficar acordado.

Tenho fome, tenho fome e a fome

é maior que o sono.

 

O que sabia de mim não sei mais.

Divido-me em antes e agora. E depois?

Venho descobrindo novidades.

Cada encontro um sabor, um cheiro.

As pedras que chutei, retornaram.

Se tocá-las, é bem capaz

de se transformarem em flores,

em pluma, orvalho ou algo similar.

Que magnitude em mim.

A paz do jamais experimentado.

Paz incompreensível, consciente de si,

força vital, um quase dom.

Se quisesse, faria milagres, o impossível até...

A serviço do amor, tudo posso.

Alcanço a plenitude, posso tudo.

 

Cada encontro um favo de mel.

Eu, zangão, entre a flor e a abelha

que ela é, sabe ser, delicada e a fim.

Sem ela e o ar nada há.

Respiramo-nos, confortáveis.

Penso nela diuturnamente. O oxigênio

é ela, só que visível e palpável.

Ar nos pulmões. Ar no cérebro.

O coração bombeia. Ela é o sangue também.

Nosso amor é doce. Energia e vigor.

Colméia de desejos nosso amor.

 

Agora sei: existi não existindo.

Resisti a mim enquanto eu.

Homem de sonhos esquecidos.

Solitário em suas tempestades.

Sem esperar nada, avesso aos dias,

não admitindo saudade.

Com sua doce presença, serena e suave

a mansa musa resgatou-me.

Abriu-se o tempo. Findou o silêncio.

A existência para mim é esperança.

Minha alegria transforma o mundo.

Ela é minha felicidade. Sou feliz!

 

Não há ternura maior

que teu doce olhar sobre mim.

Fico todo iluminado quando me vês.

Olhos encantadores. Beleza rara. Calmos.

Têm linguagem sem palavras...

Me vêem, apaziguado e febril.

Minha iluminação se expande.

Teu doce olhar sobre mim é só encanto.

Essa ternura mais suave

que a mais leve das manhãs.

A última estrela.

O primeiro raio de sol.

 

Não falamos palavras vazias.

Frases de nossas bocas permaneceram,

ecoando em nós, confidentes.

Nos unem, qual elos de certeza.

Hibernadas, nossas vozes se ouviram,

circularam em nosso sangue,

vida mantida no tempo de espera.

Há sentimentos para sempre.

Intraduzíveis. Indizíveis.

Palavras indestrutíveis do silêncio.

Silêncio que ouvimos e que nos ouve.

 

É assim que te amo: plantador

de árvores gigantes, cujas sombras

só gerações futuras desfrutarão.

Cuido de ti pacientemente...

Fico tranqüilo, regando-te,

frondosa mulher em mim fincada.

Há em meu peito um jardim secreto.

Aí te plantei para ser mais humano.

És minha vida e me sinto mais ameno.

Árvore eterna do meu eu arvorado.

 

Começaste em mim antes que soubesses

do meu tímido existir em abstração.

Te vi de manhã. (A manhã inaugura sóis.)

Já te trazia por meu querer.

(Queria alguém como tu.)

Uma pessoa que me apaziguasse.

Musa que me desse alento e cantos.

Os dias antes de ti

te anunciavam para mim.

Te descobri minha. Me descobriste teu.

Obsessão de vida. Amanhecer de meus dias.

Quando chegaste eu já te esperava

fazia um tempo.

Findaram-se as noites. Suave manhã

se desdobrando em outras manhãs

e trazendo novos cantos.

 

Somos um do outro

dentro e fora – antes e agora.

Um do outro fomos – e seremos.

Te pertenço e não sou meu.

Sou teu, dando-me por inteiro.

Entregue a ti e em paz comigo.

Amando-te e respeitando-te

em expansão infinita.

A vida torna-se maior.

Torna-se melhor a vida.

 

Diante de ti não sei me expressar bem.

Palavras fugidias me faltam.

Olho-te para te dizer tudo.

(Mas também meu olhar é às vezes mudo.)

Sei fazer poemas. Versos livres

que continuam te pertencendo...

A dona do poeta o compreende e o aceita.

(Palavras escritas compensam as não ditas.)

E ficam, inauditas...

 

A mais amada não calcula o tanto,

não imagina o quanto, não sabe de nada.

Ela não tem idéia. Não é capaz de ter noção

de minha multiplicidade por ela. De meu

gorjeio de homem-pássaro, ultrapassando

seus ares de menina ainda acordando a mulher.

Não posso definir-me por sua conta.

Penso ser e sou mais que o pensado.

A mais amada é o centro de tudo.

Fez-se luz de minha eternidade. Essência

pura de espiritual matéria.

Minha amada é o meu sol.

 

eu te amo

às vezes é doce a dor

de ser feliz

 

eu te amo

às vezes a fonte bebe

de sua própria sede

 

eu te amo

às vezes a ternura é sangue

em nossas veias de emoção

 

eu te amo

um momento em ti

é toda eternidade em mim

 

Como um sino silencioso na torre

como o horizonte que permite o além

como a essência que nutre desejos

como a certeza de algo já confirmado

como a lágrima doce da alegria

como a manhã dormindo seu sono

como um olhar só de carinho

como cheiro impregnado

em todos os sentidos

eu te reencontrei

para novamente encontrar-me

como presença indefinida no tempo

como palavra de um poema sem chuva

como espaço vazio agora preenchido

eu te reencontrei e em ti tenho vivido

 

amar e querer-te bem

dona de mim senhora do meu prazer

caminho de novo a tua estrada

não me encontro mais sozinho

estás comigo não sou mais ausência

todas as sombras clarearam

tudo posso em ti meu amor

 

tudo é muito suave agora

suave e leve quase pluma

o vento é sopro de aragem

nossas vozes doce música

tudo em nós levita

nossa órbita é aquém

bem aqui

chegou a primavera

diferente de todas as outras

somos nós em nossa luminosidade

a fonte viva todas as cores

 

Viajo em torno de ti.

Em roda de ti dou mil e umas voltas.

Encontro coisas que não sei nomear.

Sou de muitos jeitos e sou todo mistério,

porque em tua circunferência há o indesvendável,

não há limite para minhas andanças, divagações,

devaneios, buscas desenfreadas, correria louca...

Em torno de ti fico tonto de tanto girar, gravitar,

levitar, orbitar, endoidecer, pulsar, espairecer...

Perco a pouca lucidez que tenho,

a minúscula noção de perigo que me resta,

as ínfimas necessidades do dia a dia...

Vivo à revelia de mim, revelado em ti...

Tudo que bate volta à forma mais pura.

És meu universo, meu mundo além do corpo,

o qual habito integrado a ele, uno,

ilimitado, vário, múltiplo,

mas como parte plena de sua atmosfera,

respirando-te, meu ar, meu ar, meu ar,

meu ar de existência sem demarcações...

 

Busco consolo, fico enternecido,

acordo exausto.

O calendário na parede

mostra o tempo parado.

Nunca fui chegado a datas. Que dia é hoje?

Amanhã terá sabor de depois de amanhã?

Desde que conheço o amor

me dou por satisfeito.

Tudo me basta e tanto mais quero, insaciável.

Aprecio quintais, hortas de poesia.

Concedo-me à divindade,

qual anjo que jamais alçou vôo. Cultivo coisas.

Cada coisa cultivada alimenta um segredo.

Desde que conheço o amor

me dou por insatisfeito.

Confesso tudo. Inconfessáveis são os sonhos. Segredos, não.

Acordo exausto. Ó noite feita de sobressaltos.

Ó vontade de acordar com ela,

mansamente feroz, teso.

Muito mais que o amor da satisfação

e insatisfação, dela me vem este que é só doçura e consolo.

E muito mais que isso: prazer.

 

domingo, 25 de abril de 2004

Amor: fragmentos

de frações de segundo

aos quatro ventos.

 

Impossível.

Impossível é esconder

tua luz dentro de mim.

 

Revela-me um grande país

de insondáveis paisagens

a geografia de teu corpo.

 

Nuvens realçam,

com suas rendas,

o azul.

 

Na ponta dos dedos,

suas carícias

são fachos de luz.

 

Tua boca

é um cantinho

de açucenas.

 

Queres a intensidade

de duas asinhas

em meu azul imenso?

 

Se posso te exprimir

por palavras, digo:

és inefável.

 

Mais de mil aromas

tem a florzinha suave

de teu sorriso tranquilo.

 

Teus olhos têm palavras

Teus olhos têm palavras.

Frases de ver/olhar.

Leio amor na visão de mim.

Ouço amor visivelmente.

Amor me vê de retinas claras.

Amor me observa de íris livre.

Se fechas os olhos, anoiteço.

Manso, descanso, alcanço esse par

de infinitos olhos em silêncio.

Abres, e o sol, turbilhão de dizeres

fala por teus olhos, em cores falantes.

Amor me ouve no que falares.

Amor existe se me olhares.

Teus olhos traduzem sentimentos vários.

Olhar de amor, resumo de dicionários.

 

Na distância

entre uma estrela

e outra

tua ausência exata

se silencia absoluta.

A vastidão imensa

se faz oca e neutra

qual espaço

di profundis

gruta.

 

Queres sentir com a inteligência

- Mas que falta de sensibilidade...

O amor beira, sim, a demência

Sim, de loucura, de insanidade...

 

O amor é o apogeu da doidice

O absurdo habitando o coração

Se a temeridade não existisse

amar não seria uma irreflexão

 

Sê imprudente, ama, extravasa,

comete a paixão de sofrer da luz

Essa doença obscurece e vaza

entre corpos que se vestem nus.

 

Foge às normas, extravagante,

busque em ti a falta de senso

Tudo é leve para o titubeante

Tudo é pesado para o denso

 

Ama, ama com o pensamento

Ama, sente só com a cabeça

E não será amor sentimento

mas razão que te enlouqueça

 

Ama com toda tua inteligência,

com perspicácia e com agudeza

Teu intelecto ama em essência

e teu coração em profundeza

 

Só que entre o pensar e o sentir,

o raciocínio ágil e a percepção,

se o cérebro ama a lógica de existir,

o coração só quer outro coração

 

Estou no sereno

para te dar o luar.

Colho girassóis à noite

para teus buquês de orvalho.

 

te busco em mim

e em mim estás

e estou em ti

eu para sempre

tu eternamente

aqui

 

leves carícias

plumas ao vento

de teu corpo

suave

 

te vejo

desejo

se sonho

me assanho

me dou

te ganho

me unhou

te arranho

me bates

apanho

 

goza

musa

minha poesia

toda prosa

 

a rosa

cada pétala

se despetala

ao falo

da língua

que a cala

 

Muitos beijos

De olhos fechados,

te beijo com lábios molhados

no orvalho sereno do coração.

 

(Beijamos em sublime silêncio,

prostrados nessa viagem,

nossa prece de emoção).

 

Nossas bocas conversam.

Falamos uma mesma língua,

sugando a mais louca paixão.

 

Hálito suave, doçura,

desejo, leveza, candura,

brisa, ternura, ímpeto, tesão...

 

E não sendo primeiro, nem último,

é único, gostoso e múltiplo...

...Cada beijo tem nova feição.

 

E beijando, a vida é sonho...

O amor é uma pátria livre

na volúpia da imaginação.

 

Sol em silêncio

Não há bom dia,

se tua voz não ouço a me desejar

- um Sol nascente a me negar um simples raio,

dentre os zilhões de sua esfera.

 

Não há boa tarde,

se a outra metade do dia se passa em teu silêncio

- e no olho do céu o Sol reina sem ver na distância

um ofuscado eu em seu esplendor.

 

Não há boa noite

se tua ausência se acrescenta à escuridão

- e o Sol abaixo do horizonte me deixa sem sono e sonhos,

esperando por seu ciclo silencioso de amanhã.

 

arco e flecha

a palavra flecha

atingiu o alvo:

teu ouvido

 

na ponta da seta

o substantivo amor

fincado cupido

 

minha sintaxe

acertou a mira

nessa audição

 

a inflexível flecha

esticou-se no arco

de teu coração

 

poesia andante

encontrei a garota de meus sonhos

e ela nem sabe que eu existo

cabelos compridos

lépida

fagueira

linda de viver

passa por mim todo dia

esbanjando ternura

e um aroma de sabonete infantil

 

ah angelical senhora senhorita

és tão linda que meu instinto poeta secou para sempre

como não me percebes

inexisto

o invisível ser de alma enternecida por ti

ó inspiração pura

piração livre

tão dispersa assim

 

ancoro em teu corpo-porto

minha nau imaginária

de teus mares espaciais

porque contigo estou

nas nuvens

mulher-cais

 

de beleza

pura e rara

és o mais raro

e puro exemplo

toda ela está em meus olhos

e se em meus olhos ela está toda

exata e nítida

a contemplo

 

meu nome

nada significa

ante a ausência

do teu

 

não tenho graça

não sou batizado

não há certidão

nem nasci

 

sou anônimo

inexisto

incógnito

até sem óbito

 

sem apelido

sem referência

me identifico

como um não-ser

 

só teu nome

dá significado

à existência

do meu eu

 

pois nomeias

à minha essência

me denominas e sou

se me chamas meu amor

 

e sendo teu me sinto vivo

me reavivo em ti

minha vida em teu querer

pensando sendo existindo

 

sábado, 24 de abril

favos

de mim podes esperar

(que são favas contadas)

os teus favos de mel

para noites meladas

em que vais te lambuzar

em nossa cama pleno céu

 

preciso de alguém

e sendo tu

de mais ninguém

 

chegastes imprevista

eu estava indeciso

amor à vista

 

te amo

ao dizer

te amo

acalmo

em mim

a saudade

e se tua ausência

reclamo

e se na distância

te chamo

a chama

do amor

inflamo

quando digo

te amo

 

tanto pensar

que tormento

em nenhum

momento

conseguir

fugir

de um único

pensamento

meu

que por seu turno

é todo

e diuturno

teu

 

preciosa

te percebo

diamante

rara demais

explodindo

preciosidades

 

te encontro

mina de ouro

valor sublime

incalculável

tudo brilha

 

te descubro

ainda crisálida

frágil e singela

diamantífera

ouro nas asas  

 

íntimo rumor

respira todo o azul

inspira céu

transpira nuvens

conspira entre estrelas

aspira a paz da imensidão

 

dentro

não é silêncio

há de ecoar

estribilhos

de vozes

aveludadas

pronúncias

inefáveis

de amor

aos brados

pelos prados

do interior

 

respira-te

és todo o ar

se teu peito

ama

 

Minha timidez te observa

Meu silêncio te segue

E eu te amo sem reserva

 

Daqui ao horizonte
dá-me teu olhar
como ponte

 

Teu papel origami:
quando me dobras
para que eu te ame

 

Te dou de mim
o que em mim
nunca terá fim

 

Se te acaricio
roço a luz
me silencio

 

Parasempreamar

Não-amar,

desamar,

malamar,

amargamar,

amartirizar,

amargar.

 

Ou amar,

amaravilhar,

amaramar,

deliciamar,

felicitamar,

viveramar.

 

Amarterra,

céuamar,

maramar.

Amarte,

amarante,

sempreamar.

 

Ensolarado ser

A paz interior equilibra: vibra.

Alma calma.

Coração, imensidão de si.

Toda luz emana do sol do ser.

Raios íntimos de brilhos inconfundíveis.

Ardem no peito, em fundamental sintonia

com a paciência de amanhãs.

Ó serenidade, habita-me, compactua,

dá-me semblante de tuas clarezas.

De onde vem toda essa energia

que a cabeça compartilha com o corpo?

Da paz, do sonho realizando-se

em mais um dia, na plenitude do existir.

Tudo é grande aqui, bem maior agora,

tão sublime e realizador, límpido.

A paz íntima revigora: explora.

Concatena tuas idéias. Sinta-te em tudo.

Em cada mínimo detalhe há tua presença

nesse dia. À tua volta, a força.

Realiza-te na esperança.

Nas manhãs de amanhãs.

Em teu ser ensolarado, ó amada

de meu sol maior de amor.

 

querências

nada

talvez

um pouco

ou quem sabe

resta

não pedir

tanto

ou ainda

querer

muito

ou mesmo

tentar

tudo

 

pintando-te

sinto necessidade de ser

de ser necessidade sinto

que ao escrever te pinto

que pinto ao te escrever

 

dormes em claro lençol

em lençol claro dormes

sol de desejos enormes

enormes desejos de sol

 

uso cores poucas na tela

na tela poucas cores uso

e tão bela arte introduzo

e introduzo tão arte bela

 

gozas o prazer das cores

das cores o prazer gozas

as dores se fazem airosas

se fazem airosas as dores

 

estremeces o corpo febril

febril o corpo estremeces

Deus ouviu as tuas preces

as tuas preces Deus ouviu

 

tu alcanças gemendo o céu

o céu tu gemendo alcanças

meu pincel atinge nuanças

nuanças atinge meu pincel

 

chorus

não diga q o silêncio diz mais
q disso eu sei
q o silêncio já me disse
tudo
diga apenas meu nome
e se cale em lágrimas
meu nome te cala
mas tuas lágrimas falam

 

erupção
foi só te encontrar
meu inativo coração
se tornou intenso
em louca ativação

 

agora segura o vulcão
e vê se não te esquivas
tu te tornas responsável
por aquilo que ativas

 

a

m

o

r

quatro letras

e nenhuma

se repete

 

amar
se ama
se há mar
na cama

 

ondas revoltas
barco vela
frases soltas
e lá, mela

 

sal suor
geme treme
mar de amor
sem rumo e leme

 

leito atlântico
pacífico depois
gozo cântico
quântico a dois

 

ártico não
antártico jamais
amor marzão
cama sem cais
corpos tropicais

 

corpos

por esquecimento
deixas comigo
teu corpo no meu

 

descuidada que és
levas contigo
meu corpo no teu

 

e então não sei
se o teu se entregou
ou se o meu se deu

 

muito prazer

conhecer-te é igual
ao que não sei
comparar

 

tua chegada
renova-me
o ar

 

a tua presença
quero em mim
respirar

 

carteiro certeiro

o e-mail é ligeiro
mas não chega
pelas mãos do carteiro
em envelope lacrado
- depois de longa viagem
endereçado selado
ansiado rasgado
dentro papel com mensagem

 

vem de ônibus no bagageiro
per avion em malote
e é tão romanticote
a chegada do mensageiro
quando à porta bate
ao fundo cachorro late
au au au au au au

 

tudo bem o e-mail
mas carta pelo correio
tem um tom sentimental
já fui paciente e mais tradicional
mais chegado ao romantismo
rendi-me ao imediatismo
sou um apressado virtual

 

meu nickname meu login
minha secreta senha de acesso
não tenho cep tenho arroba
meu endereço é ponto com
a Internet nos destina e remete
e a carta chega veloz lá em casa
não pelo portão mas pelo portal

 

caçando luzes

tentei guardar uma réstia de luz

um singelo feixe iluminado

na palma de minha mão esquerda

 

abafá-la a ponto de retê-la para sempre

e ela não sucumbiu escapou radiante

para meu desaponto já quase triunfante

 

o pequeno raio que ainda desejo prender

será para tocar teu coração cego de mim

iluminá-lo com pequenos fachos serenos

 

um a um a cristalizar teu coração soberbo

compô-lo com pequenos pontos clareantes

refazendo a esperança de nele aninhar-me

 

entre o impossível e o milagre devaneio

a impossibilidade de conter um mínimo de luz

o milagre inimaginável de ganhar teu coração

 

persigo pontos luminosos velozes demais

e quando acontece de pegar algum no ar

ele foge-me à velocidade natural própria da luz

 

enquanto isso teu coração bate escuro sem foco

nele não toco sem a clareza do eu sem cintilância

e mais ele é ausência e mera serenidade à distância

 

sou caçador de fulgores para entrar em teu peito

corro atrás do brilho para iluminar-te mas é ilusão

jamais chegarei à luminosidade de teu coração

 

que uma réstia de luz é passagem para tua existência

tua essência tem fome de clarezas e estridências

juntos acenderíamos um vistoso louco e eterno clarão

 

sexta-feira, 23 de abril

nós

toda vez que me ver

veja-me vendo-te

em mim

com olhos

de rever-nos

a sós

em nós

como antes

como sempre

mais que nunca

 

suavíssima

estou com sorte

te encontrei em meu silêncio

não devia te falar

mas aconteceu sem querer

está amanhecendo diferente

e todo dia sigo em paz

sou prendado

te querer minha

serena toda plena

alvíssima morena

 

pequenino

nasce um poema do nada

brota um poema do ser

cresce um poema de nós

arvorece um poema em mim

meu poema é um eu não sozinho

teu nome faz ninho no poema

o poema se aninha em teu ninho

deu vontade de virar passarinho

voar voar ter o ar como caminho

mas nosso amor inda é filhotinho

 

ardente

não quero te acordar

ainda

que dormindo és tão linda

teu sonho de amada

é terna brisa

mulher mãe amiga irmã

sou paixão em brasa

na sonolenta manhã

 

dependência

para dizer te amo

consultarei meu coração

pois contra ele não tramo

e é pra ele que reclamo

a falta duma paixão

para te amar o conclamo

convencerei o sabichão

 

nosso amanhecer (29/3/2004)

     p/ o primeiro raio de sol da primeira manhã de nossa amizade

Não te vejo,

não te conheço,

apenas te imagino.

 

Não sei se é desejo

e nem sei se mereço,

mas será o destino?

 

A nos apresentar

um ao outro, assim,

nessa noite, do nada?

 

Ponho-me a te escutar,

e até falo de mim,

em tenra madrugada.

 

Tua história cativa,

tua voz me acalma

e o dia mostra a face.

 

Meu coração reaviva.

Tua luz acende a alma

e meu temor desfaz-se.

 

A solidão fica insegura

com tua doce presença

a perturbá-la em meu ser.

 

Tudo em nós é ternura,

nos dá uma paz intensa

e um novo amanhecer.

 

desejo apenas

queria te ver outra vez

para outras e outras vezes te querer

e mais que te ver te ter

não apenas um momento mais

mas o resto de toda vida

a falta que teu olhar me faz

e todo dia seria um dia de céu

dois em vôos longos sem pausas

em liberdade de sonhos e bens

onde estás e quando vens?

te ver outra vez e te ter muitas outras

e outras vezes te olhar e me saber feliz

meu silêncio nem sabe mais o que diz

 

à moça de cabelos compridos

talvez

ousasse ser simples

quisesse ser fútil

tentasse ser nobre

pudesse ter tudo

a moça sensível

que tem os cabelos compridos

assim na cintura

que ela prende e solta

numa pintura de gestos

de quem se sabe linda

e é

 

sei lá

mandasse um poema

levasse um ano

trouxesse um ramalhete

saísse de cena

farei um pente para seus cabelos

com meus dez dedos

hei de acariciá-los

seda em minhas mãos

que essa moça é meiga

de uma suavidade de louça

mulher

 

prende esses cabelos, menina

solta-os ao vento de minha respiração

não vês que estou ofegante

viajo na paz de tua doçura

nem fales em amor que ainda acredito

 

deixa

tatuar nos olhos tua silhueta

singrar o mar de tua pureza

dançar ao som de teu sorriso

viver deitado em teu regaço

que és tão assim serenada

que a lua e o sol reatam namoro

te vendo ávida sob claros lençóis

os cabelos qual rede presa às estrelas

ou relva ou samambaia ou raios

todo o curso de tua vida em mim

meu amor

 

tese

a sede era tanta
que bebi um riacho

 

acho que o amor é água


variações

eu te amoro
eu te amorfo
eu te amortizo
eu te amoralizo
eu te amorango
eu te amordaço
eu te amorteço
eu te amoreno
eu te amorfanho
eu te amoreco
eu te amorico
eu te amorosidade
eu te amorífico
eu te amorio
eu te amorisco
eu te amorno
eu te amorreado
eu te amortalho
eu te amorrinho
eu te amorsego
eu te amortiço
eu te amorudo
eu te amorzinho
eu te amo

 

ávida libido

tão longe e sou capaz de tocar-te
no silêncio na imaginação no desejo

 

acaricio teu rosto com sublime mão
experiência mistério encantamento

 

a volúpia de teu corpo ao meu alcance
suspiros delírios anseios e muito prazer

 

na distância colho tua rosa ainda orvalhada
púbis ventre língua falo musa divindade minha



sensações

ver

ouvir

cheirar

provar

apalpar

(em 5 segundos ela me aguça

os cinco sentidos)

até o sentido figurado faz sentido

e também o sexto sentido

tem sentido

 

duas pessoas

- fico sem ti
mas não vivo
sem você

 

Te amo sempre mais

Te amo mais que ontem

Te amarei amanhã mais que hoje

E depois de amanhã te amarei ainda mais

E o meu amor de anteontem que parecia imenso

será simples perto do que será o de depois de amanhã

que esse nem chegará a ser incomensurável

pois um amor infinitamente crescente

além de não caber inteiramente no peito

extravasa a vida em cristalina enchente

pois esse turbilhão é seu sedento leito

Amor sem fim que só tem nascente

 

quinta-feira, 22 de abril

o que meu coração quer te dizer hoje

pensa em mim como a luz clareia a imensidão de tudo

me veja como o verde chega aos vegetais flores e frutos

sinta minha mão na tua como o rio às margens

fale comigo como o beija-flor ao néctar

deite-se aqui repousando na eternidade

sonhe nossa realidade a partir da esperança

chore a liberdade de saber-se feliz agora

grite o contentamento do prazer revelado

pense a vida em singelos raios de amanhã

capte o sol no peito com toda intensidade

brilhe no azul de tua natureza se desenhando

silencie a paisagem de tuas inquietações

beba da água de minha nascente cristalina

se fortaleça na fragilidade do aprofundar-se

seja a lua no céu só de sombras deste poeta

sorria sempre este sorriso tímido de serenidade

sinta a brisa que tua janela aberta permite entrar

deixa doer a dor da respiração ansiosa por mim

amanheça em brancos lençóis com suores desejosos

corra ao encontro do inevitável e não se atormente

faça de mim tua referência neste mundo só nosso

busque a carícia necessária em minha ternura

romantize a rotina usando aventais de poesia

me tenha para ti como quiseres para ti um homem

cuide de minha vida como fino cristal frágil frágil

és tão linda que minha timidez ficou mais grave

teu olhar me surpreende com suas histórias sentidas

me ame que amando-me um anjo ganha outra asa

minha solitária criança que a vida tornou mulher

há muito queria te encontrar mas não sabia como

és a espontânea alegria de que minh’alma carecia

saber que existes torna meu mundo mais amplo

diz que sim que sim que sim que sim pra mim

imagine o que não se pode medir... queres para ti?

o incontável o impossível o extraordinário tudo

serei múltiplo para te fazer sentir única e pronta

vem fica comigo seja minha pense sinta viva sonhe

o que tenho de melhor te dou e buscarei ser mais

tudo que mereces e não tens posso tentar conseguir?

me veja como o sol olha para a Terra toda manhã

cultive a sensibilidade de tua voz e me fale me diga

diga que sim que sim que sim que sim pra mim

tua felicidade está ao alcance de uma estrela ou não?

posso buscá-la para ti aprendo a cultivar constelações

te quero com humildade meu amor é simples demais

tão simples e humilde que pode sublimar-se e ser só

só como sempre foi mais que fui que sou que somos

estamos sós e podemos em nós ser a foz e o curso

nosso rio-mar brota clarinho de um silêncio tão fundo

nossa vida toda é a saudade do que poderíamos ter sido

sejas para mim o que tanto sonhaste sozinha e calada

deixe-me ser para ti tudo que posso ser teu infinito

teu universo de sonhos de paz de prazer e felicidade

o amor bate à tua porta abre as janelas de teu peito

teu coração está em casa olhando vivendo pelas frestas

uma luz quer te inundar te trespassar de emoções claras

pensa em mim como a luz clareia a imensidão de tudo

me veja como o verde chega aos vegetais flores e frutos

 

Se eu deixar de te amar

Se eu deixar de te amar, nada de felicidade

a me guiar por caminhos que hei de andar.

Jamais me volte a luz amena da serenidade

se eu deixar de te amar.

 

Fuja-me a clareza azul das manhãs de abril

e todas as nuances livres de meu pensar.

E nada me seja suave ou o delírio febril

se eu deixar de te amar.

 

Em minha cabeça o sangue coagule a dor

de saber-me esquecido e absorto no penar.

Que jamais eu experimente um novo amor

se eu deixar de te amar.

 

Minhas mãos desconhecerão outras carícias

e meu corpo se prostrará já sem lugar

para degustar o êxtase de ausentes delícias

se eu deixar de te amar.

 

Não saberei pronunciar palavras ternas

e nem conjugarei mais o verbo sonhar.

Meu coração viverá em escuras cavernas

se eu deixar de te amar.

 

Meus olhos não contemplarão essa beleza

que é te ver idolatrada sobre meu altar.

E deixarei de ser parte viva da natureza

se eu deixar de te amar.

 

Se eu deixar de te amar, tudo será nada,

a vida perderá sentido e me faltará o ar.

A solidão será companheira enciumada

se eu deixar de te amar.

 

me escrever-te

tenho que escrever preciso não fico sem
escrever algo qualquer coisa me faz bem
escrever teu nome em letras de relevo
sobrenome amor te nomeio se escrevo
escrever azul na estrela em tua testa
celebrar o escrito no teu corpo em festa
soletrar palavras redundantes sem sentido
frases soltas vão queimar teu ouvido
frases loucas num falar tão desconexo
tornar fácil e simples o complexo
catar letras nos poros de teus desejos
abecêjar pronúncias com teus beijos
aprender gramática na urgência da gula
escrever tese antítese relato e bula
curar-me analfabeto de teu alfabeto
e quem sabe neologizar novo dialeto
escrever te amo em braille visionário
reescrever em ti todo meu dicionário
rabiscar no negro quadro da solidão
que vou bem entre meu sim e teu não
rascunhar núpcias de mel em mim
nossa cama nosso altar tesão e sim
descrever teu gozo escrito em grito
fica o dito e o falo em teu fruto bendito

 

ciclos de amor

um dia
chamei-te meiga menina
no frescor das descobertas
do poeta caçando musa
na floresta do encantamento

mais tarde
namorada te tornastes
mãos dadas lábios de orvalho
beijos de fechar os olhos
sonhando céus sob os pés

tempos depois
a mulher de corpo na alma
entregue aos ais do prazer
madura no amor de infinitos
sereno apogeu de nós dois

e agora
temerosa de mim tão imenso
te perdes em aflita estranheza
e a menina enamorada
não convence a musa mulher

 

a mais bela

de todas
as mais belas
és a mais bela
de todas
a bela
das mais belas
de todas
todas
todas belas
em ti
a bela
em todas
toda bela
és a mais
a correr
saltitante
pelo imenso
gramado azul
bordado de flores
solitária criatura
de luz perdida
na claridade de ti
fuja de mim
se te pego
faço estrago
viro lago
teu espelho
ou sol vermelho
te esboço
amor virtual
em arte afinal

 

antídoto

cuidado linda

no olhar

e coração

sou frágil

(tema contágio!)

e mais cuidado

ainda

meu vírus ágil

em teu coração

e olhar

quer estágio

 

- não venhas

sem a luz

da união

que te vejo

clara suavidade

e sem ti

não há

leveza

ou unidade

- não chegues

trôpega

das estrelas

que te sinto

andeja viajante

e contigo

me equilibro

permaneço

sou constante

 

não se perturbe

ainda nem escrevi

teu poema

ando te namorando

em suave loucura

através da lonjura

extrema

platônico

virtual

supersônico

sentimental

à procura

de um tema

só se perturbe

criatura

quando ler

teu poema

 

ela se banha

em rios arteriais

e fica rubra

o sangue sobe

a cabeça gravita

em ovulação

a face cora

e ela refloresce

purificada

em uterina ação

o sangue desce

e ela se depura

sangrando lavas

de desejo e paixão

nesse fluxo-mulher

em seu ciclo de luz

ora fêmea ora vulcão

 

vem bordar

fazer tricô

crochê

prepara os paninhos

os de prato

com dias da semana

as rendas de bilro

babadores

aventais

toalhinhas

que isso

e tudo o mais

o amor quer

então vem!  

 

tuas abelhas

são centelhas

lambuzadas

de néctar

ou luas aladas

já enfaradas

de mel?

 

depende de ti a escolha

para que eu te acolha:

ou como mármore

ou como árvore

 

.: Amor sem eira nem beira :.

Te amo silenciosamente às vezes

– para ser exato o ano todo os doze meses

Te amo calmamente de vez em quando

– precisamente se estou em fogo brando

Te amo com benevolência volta e meia

– na medida em que pega na veia

Te amo com dificuldade ocasionalmente

– confuso entre coração e mente

Te amo fragilizado em certas fases

– com curtas e grossas frases

Te amo sofrendo normalmente

– sem saber o que acontece com a gente

Te amo perdidamente quando posso

– pois nosso sonho já não é tão nosso

Te amo com aprofundamento quando dá

– quando queres saber o que é e o que há

Te amo com raiva acidentalmente

– se me feres a alma impiedosamente

Te amo saudável e tranqüilo casualmente

– querendo curar nosso amor dormente

Te amo feito bobo e de jeito fortuito

– e quando é assim não é outro meu intuito

Te amo com lealdade de modo freqüente

– que meu amor se doa a ti fielmente

Te amo sinceramente faça chuva ou faça sol

– e em peito se pode ouvir o canto de um rouxinol

Te amo com fome e sede se dá na telha

– qual pólen virando mel para uma trabalhadeira abelha

Te amo com sacanagens se estou a fim

– sem me importar se o colchão é de espuma ou de capim

Te amo como briguento se a vontade bate

– depende da maneira de como conduzes o embate

Te amo apaixonado e teu eternamente

– numa loucura que deixa Deus pirado inexplicavelmente

 

ave pássaro!

eu um pássaro extático ela uma ave nave

eu um pássaro estático ela uma ave grave

eu um pássaro elástico ela uma ave leve

eu um pássaro bombástico ela uma ave chave

eu um pássaro apático ela uma ave love

eu um pássaro eclético ela uma ave trave

eu um pássaro convicto ela uma ave clave

eu um pássaro metálico ela uma ave chove

eu um pássaro raquítico ela uma ave breve

eu um pássaro atípico ela uma ave maria

eu um pássaro artístico ela uma ave zinha

eu um pássaro atônito ela uma ave grávida

eu um pássaro afônico ela uma ave cântico

eu um pássaro silábico ela uma ave melódica

eu um pássaro etéreo ela uma ave viva

eu um passarinho ela uma ave ninho

 

estou diferente

exatamente como sempre fui

nunca igualmente

jamais o mesmo

a novidade em pessoa

hoje assim talvez

amanhã quem sabe

e depois é depois e após

tudo se renova

para que eu seja novo

de novo inovadamente

só o nome se mantém único

a poesia é múltipla

para me tornar tantos

muitos de quase todos

menos um exclusivamente:

eu igual a mim

repetidamente

 

amar até o ponto final

sem deixar se tornar ruim

o sentir - se não de amor

mas de amizade -

quando nada transcende

o fim

 

nem a dor

nem a infelicidade

que amor é irrealidade

o amor é inferior

à amizade

 

perder faz parte

do encontrar-se

buscar só cessa

na perda do ser

que se apressa

em nos ter e ter

ninguém ganha

se perdido está

achar é façanha

nada se nos dá