ABRIL DE 2006

domingo, 30 de abril

Nas horas vagas

meu trabalho

é separar diamantes

do cascalho

 

Não me procures

em minha poesia

É mais fácil

te encontrares

 

Irrespirável ar

Água intragável

Até quando viver?

Tudo deu de aquecer

Mundo pôs-se a secar

O homem é deplorável

Nem Deus quer crer

Já começa a cismar

no ato impensável

de a criação matar

e com ela morrer

“Sou responsável

como todo ser

 

Por tentar te entender,

desculpa, releva, perdão.

Humilde, devo reconhecer

a audácia da pretensão.

Foges à compreensão,

ó dona sem explicação.

 

Quis te dar algum sentido,

alcançar tua significação.

Fui imperito, desentendido,

nada passou de suposição.

Falhou a minha percepção.

Para ti não há conclusão.

 

Chamar-te mulher-enigma

é simplificar a indefinição,

pois quebras o paradigma

do que é real ou ilusão.

Interpretas com perfeição

a rainha da dissimulação.

 

sábado, 29 de abril

Enriqueço urânio.

Meus reatores são

o crânio

e o coração.

Se posso explodir

de tanto pensar,

de tanto sentir?

Não! E sim reagir

em meu nuclear 

efeito de cindir

atômica harmonia.

Ser radioativo,

sou todo energia

em tudo que vivo.

Só gero alegria,

amor e poesia.

 

sexta-feira, 28 de abril

Presta atenção: o que vês

(mirrados) são ipês

sem floração, desfolhados.

Não crês? Então espera

pela nobre estação da criação,

a primavera.

 

Para tua asseveração,

tenras desabrocharão

flores brancas e rosas

(belamente maravilhosas),

flores roxas e amarelas

(maravilhosamente belas).

 

Cores: escolhe, acolhe, colhe.

E todo ipê que doravante olhe

na paisagem, sem retoque

e sem maquiagem, se toque:

à sua momentânea feiúra aceita,

com sua beleza vindoura deleita.

 

Pois logo, majestoso se enfeita,

na exata hora flore, se colore

sem que nada o arvore e o acelere.

Não se apavore, não se desespere,

se considere e crê: és um ipê.

Se decore, se primavere, sê.

 

quinta-feira, 27 de abril

Vivo nu se de palavras não me visto.

São brancas? Transparentes? Curtas?

Fora de moda? Vanguardistas? Livres?

Palavras nuas revestem o meu viver.

Palavras cruas na carne do escrever.

 

Das idéias inacabadas

elejo esta: a do país do futuro,

um túnel de final escuro,

com pistas esburacadas,

trajeto inseguro.

Não é o país do presente,

a tempo e a hora,

urgente.

Aqui, agora,

pra gente.

É o país do povobjeto,

do decreto secreto,

do rei analfabeto,

do politicamente

incorreto.

 

A sexta letra é inicial de

fé futuro felicidade fim f

lávio

 

Hoje de manhã, quando ia para o trabalho pela Alameda das Rosas, em Goiânia,

como estava com o braço apoiado na porta do carro,cheia de cor e esbanjando lindeza

veio uma borboleta e pousou tranqüilamente em meu ombro, ali ficando o quanto quis.

Sentindo-me homenageado, admirado prendi a respiração. Para ela este poeminha...

 A borboleta é só um instante.

Vive o lapso. Um quase-nada,

mas intensamente seus vôos.

Mínima. Íntima da brevidade,

resumidas horas seu resistir.

Síntese alada da eternidade,

lacônica leveza de asas e ar,

livre concisão de ser e estar,

quanto pode querer ou sentir?

(Pergunta para não descobrir).

Qual borboleta assim é amar.

Qual borboleta é assim existir.

 

segunda-feira, 24 de abril

Faz-me rir

esse teu ir-e-vir

(bem-me-quer-mal-me-quer).

Se despetalas a flor,

se tiras do pólen a dor,

não consegues me ferir.

És boa mulher.

Não o amor

bom de sentir.

 

sexta-feira, 21 de abril

Meu amor me basta

Quando eu o distancio

ou ele de mim se afasta

 

No teu futuro incerto

vejo uma cigana cega

lendo tua mão direita

 

Turistas em Curitiba

Enquanto passeávamos de mãos dadas

pela poética pedreira Paulo Leminski

numa fenda colhi uma florzica de nada

para minha amada Nastassia Kinsky

Anos após me vejo de calças abaixadas

na concreta pedreira Paulo Leminski

com uma doida de pedra ali ajoelhada

a chupada Monica Samille Lewinsky

Então cheguei à conclusiva autopiedade

do quanto caiu meu padrão de qualidade

 

Vejo-me em ti

Vejo-te em mim

Duas paisagens sem sol

Um no outro em desencontros

Distantes e ausentes dia e noite

Em ti eu me vejo sem brilho

Eu te vejo em mim sem calor

Dois desprovidos de luz e cor

Falta às paisagens o sol do amor

 

segunda-feira, 17 de abril

Mesmo

que a esmo

e trôpego

um bêbado

vesgo

se intrometa

no trânsito

o tráfego

fluirá

do engarrafamento

o féretro

sairá

 

Na verdadeira acepção da palavra

Novidadeira concepção da palavra

Na derradeira decepção da palavra

A costumeira percepção da palavra

Na primeira recepção da palavra

Na interesseira opção da palavra

A palavra é ação dicção ficção 

 

Sempre me vi

nunca me olhei

Cego que sou

nem reparei

Cara caolho

era eu rei

No Circo Ciclope

meu olho furei

À vista de todos

sangue chorei

Se riram? Não vi

não sei

 

A linha escrita no buraco da agulha

costura um texto no tecido do papel

perpassa o vazio e sua ponta aponta

alinhavando letras palavras e versos

E eu visto a camisa feita de poemas

 

Carvões queimam

Chamas puríssimas

Alvíssimas cinzas

Carvoeiros pretossem

Seus pulmões ardem

Escarro: coisa verde

Livrai-os dos fornos

do inferno

 

sábado, 15 de abril

Dá-me o mapa de teu corpo.

Não há? É território inexplorado?

Então serei o desbravador.

Nem que eu leve a vida inteira.

Abrirei picadas. Traçarei a geografia.

Vou arar cultivar colher e comer.

Teu corpo será minha casa.

O melhor lugar do mundo.

Pátria de amor e prazer.

 

I -

O coração não raciocina

Não é inteligente

Não maquina

Nada tem em mente

O coração só sente

apreende e nada ensina

O coração é turbina

Torna o sangue fluente

O bombeia e o disciplina

a circular pela corrente

O coração só sente

Não produz adrenalina

 

II -

O sentir não vem da mente

nem o pensar do coração

Mas de modo consciente

intelectualizam a emoção

Pensam sentimentalmente

Sentem sem imaginação

 

quinta-feira, 13 de abril

Se não amar

porto não há

e o corpo é

ilha

 

Ainda que seu dia-a-dia

não seja só de poesia

não reclama

declama

celebra o ar que respira

Torna febril a vida

Delira

e da lida

sua chama

inflama

na pira

 

Eu te garimpo

E te lapidando

te e/levo ao Olimpo

 

O que te olha não são meus olhos.

Não sou eu em mim quem te vê.

És tu te vendo com a visão do eu

sem me ver-te no olhar que olhas.

Acaso és invisível ou te avistas

só em ti como inexistente ser?

Não me veja te olhando às cegas

que sol sem céu não tem nada a ver.

 

- O outro é o outro nele

e dele é ele em si

aquele que nele é seu

somente e semelhante

o outro é só mais um

- O outro é doutro se

em outro não é o mesmo

e diverso difere de outrem

não sendo o ser que é

sua vida não dá outra

 

domingo, 9 de abril

Não será uma inundação

de lágrimas no coração?

Ou a força do temporal

de teu eu sentimental?

Quem sabe a enxurrada

magoada da namorada?

Do constante chuvaréu

pinga fel ou goteja mel?

A chuvarada sem cessar

fará teu amor desbotar?

Só porque tem chovido

teu amor fica encolhido?

Ao desabar tempestade

na mina brota saudade.

Ela aflora toda molhada

sequinha pra ser amada.

Aproveita a chuva lá fora

se reacenda e a namora.

Ou sê apenas o amigo

que se chove dá abrigo.

E depois quando estiar

faça do amor luz solar.

 

sábado, 8 de abril

Não te peço caminhos

por onde sigo

e nem te impeço caminhes

comigo

 

Cristo vê o Mundo

o acha estranho

E de braços abertos

mede Seu arrependimento:

- É desse tamanho

 

Ela é muito fofa

Eu a vejo falsa magra

Mas ela se acha balofa

 

sexta-feira, 7 de abril

Algo há em mim - em nós

Silêncio de alto e bom tom

Céu menor que nossa voz

Ouvidos para nenhum som

Dois juntos porém tão sós

Noite insone e chuva atroz

Faz frio e é teu o edredom

Seca o rio por falta de foz

 

Não sei mais de onde vim

Não tenho endereço certo

Meu corpo lar não habita

Moro bem dentro de mim

na imensidão dum deserto

Sou nômade e sou eremita