AGOSTO DE 2005

segunda-feira, 29 de agosto

Andei tanto tempo sozinho

que a vagar catei estrelas

no espaço da imaginação.

Então me via orvalhando

em constelações tão tristes,

tão pálidas e insistentes

e de um brilhar tão imenso,

que eu denso e intenso

esquecido de mim fiquei.

Mas agora que te encontrei

todas perderam a graça

- te vejo em todas elas,

já não coleciono estrelas,

pois em ti eu tenho o céu.

 

Amor à toda prova quando

mais que haver só química

se dá bem em todas as questões

e matérias

Geografia (mapear o corpo)

Português (ah, as utilidades da língua)

Matemática (contar as múltiplas vezes)

Etc

 

Talvez por te saber em vôo solo,

eu feche os olhos e te acompanhe,

confiante e cegamente.   

Não, não se acanhe

e cada vez mais me ganhe

(e sejas simples e urgente,

não à sombra, mas claramente).

E ainda que eu arranhe

meu coração nos embaraços

e nos empecilhos farpados,

contigo não sou ou estou sozinho

e me faço caminho para teus passos.

Nos damos afagos ofegantes em carinho,

afogando unos corpos em desalinho. 

Quatro asas nossos braços. 

Nós em nós somos nosso ninho.

 

quinta-feira, 25 de agosto

Nada te peço mais que isso:

- aprendizagens

Ler não só o que escrevo

mas também meus olhos

os ignorados gestos

minha paciência contigo

Compreender o silêncio

captando seu alcance

além de todo vazio criado

por tua impaciência comigo

Então te poderei dizer:

- aprendestes

Não apenas a construir a ponte

mas sobretudo a atravessá-la

chegando humilde ao horizonte

que fim azul dá à imensa vala

 

Nos amamos

pelos cantos da casa

ardendo em brasa

(Que ninguém nos flagre)

Nos tornamos: 

- eu santo de casa

- tu anjo sem asa

(O amor faz milagre)

Nos casamos

a rotina extravasa

a gente descasa

(Dois cabeças de bagre)

 

terça-feira, 23 de agosto

          republicando a pedidos

Por descuido

distração

tirei o escudo

expus o coração

enfraquecido

peito ferido

fui atingido

- ai paixão

 

Cantadinha

Que desculpa devo arranjar

para puxar assunto contigo?

Não me olha assim

que eu te vejo em mim.

Se eu tivesse o número de teu telefone

não tinha engano.

Não me deixes acordar,

menina dos sonhos.

Roubarei o brilho das estrelas

para teus olhos.

De tanto fugir de meus sonhos,

uma noite te pego exausta.

Posso te cantar em versos,

todo prosa?

Nunca vi mulher tão exata assim...

Ensina-me o caminho.

Quero chegar ao teu coração.

Quero ser inteiro.

Falta-te, ó metade de mim.

És tão perfeita

que nenhum dicionário tem a tua definição.

Não acreditas em amor à primeira vista?

E à primeira teclada?

Agora que conheci teu sorriso,

mostra-me toda a beleza que és e tens.

Já reparei que és inteligente

e que vais adorar conviver comigo...

E se te encontrar for minha perdição?

Sonhei contigo esta noite.

Impossível que sejas mais linda pessoalmente!

Tivesse eu direito a um único desejo,

nem sei qual seria...

Se disseres não ao amor que te oferecerei,

ouvirei como um talvez.

Não pensava em casar novamente... Juro!

Depois de me procurar toda minha vida,

eis que te encontro.

Minha couraça tem uma única brecha.

Foste certeiro, cupido, com tua flecha.

 

sexta-feira, 19 de agosto

Desdigo

sem me contradizer

me refazendo

de minh’antilogia

me inovando 

de minh’agnosia

 

Se

tudo

foi

dito

com

todas

as

letras

Se

palavras

não

mais

as

temos

nos

resta

ouvir 

o

silêncio

e

deixar

que

nos

falem

nossos

olhos

 

Tudo

pode acontecer

inclusive coisa nenhuma

Nada

de modo algum

e nem de outra forma

 

E eu que nada pensei

acabei sentindo

E agora que sinto o que penso

(e que não penso o que sinto

embora sinta não pensar

e nem pense em que e no que sentir)

tanto penso em tudo

que sinto muito

sinto mesmo

 

quinta-feira, 18 de agosto

Por inteiro

e à margem

me intero

da margem

a interagir

na margem

de ti

 

Com as mãos percorro

o corpo inexplorado

o corpo inabitado

o corpo insaciado

o corpo inspirado

o corpo instigado

o corpo insatisfeito

o corpo instável

o corpo insciente

o corpo insculpido

o corpo inseguro

o corpo insidiado

o corpo insigne

o corpo insinuante

o corpo insólito

o corpo insondado

o corpo insone

o corpo insonoro

o corpo instintivo

o corpo insubmisso

o corpo insuperável

o teu corpo

 

Monótono não será

o branco da página

se 3 letras nela escrevem

a palavra cor  

E nem em branco

o coração silente  

se nele se inscreve

o sentido amor

 

terça-feira, 17 de agosto 

- Dou tempo ao tempo

mas é tal sua ingratidão 

que em seu passo lento

me apressa a mansidão

- Tempo dou ao tempo

prendo a respiração

ele sopra forte vento

me arde a insolação

- Ao tempo dou tempo

meu oásis é sequidão

eu exaustivo e sedento

sonolento guardião

- Ao tempo tempo dou

e sem tempo vou e sou 

 

Há coisas inomináveis

e muitas nomeadas

Há sim as inanimadas

outras em denominação

Umas sem denominador

tantas em dominação

São coisas coisificadas

coisas em coisificação

Coisíssimas coisadas

Coisas que coisas são

 

segunda-feira, 15 de agosto

Deus me fez

feito Ele

semelhante

assemelhado

à Sua imagem

endeusado

nEle espelhado

justo Eu

coitado

a cria

que não lambeu

sujo e mal lavado

Deus

é um descuidado   

nem deve estar

lembrado

 

Posso chover

em tardes azuis

sobre teu corpo

O céu como leito

deito em ti

águas dilúvias

Não estio

No cio cicio

lavas vesúvias

 

Para dimensionar

do abismo a fundura 

grita até ouvir ecoar

tua voz escura

no ar

na secura

 

de manhã

em manhã

dias vêm

dias vão 

e eu tão na sua 

tão seu 

tão tão 

e tanto 

sou  

que quase tantã 

estou

 

À margem do abismo

da inexistência 

ao acaso nascem flores

inoportunas

Esvoaçantes

pólens despencam 

Fina poeira paira no vazio

infecundo

 

Lágrima: galáxia

na face de teu universo

Silêncio de mil linguagens

Pura

depura

cura    

 

- A fala

propriamente dita

por mais que se repita

se cala

pra não ser mal dita

Se canta

encanta

embala

e é bendita

- A fala

propriamente dita

atrita

com a ala

de quem só grita

Se instala

e é aflita

Deserdá-la

quem se habilita?

- A fala

propriamente dita

é bala

da macaca chita

E se da goela

se desatrela

desentala

incita

exala

imita

- A fala

propriamente dita

escala

não se limita

Calá-la

há quem cogita

no koala

no eremita

Então a fala

é ir

restrita?

 

domingo, 14 de agosto

O que há

de mais silencioso

que as palavras

ainda por serem

e as jamais

ditas?

 

Relógio de areia

O tempo

segundo os grãos

 

Sei lá

Vai saber?

Talvez saiba

Se ficar sabendo

Ninguém nunca soube

Não sei se a vida foi sábia

Se bem que acho que já sabia

E que diferença faria se soubesse?

 

Imagine mouses

como espermatozóides

fluindo rumo à placa-mãe

Imagin

             ação

Fecund

 

 

Enlaçados

Nós cegos

(de amor)

 

segunda-feira, 8 de agosto

O que está por vir

talvez nem chegue

a tempo.

Ou quem sabe

não se lembre

e nem venha.

Ou se vier

quando chegar

já terá (s)ido.

Ou não vindo

ficará estático

no inexistido.

Algo intáctil

estéril

sem sentido.  

 

Decepção.

Coração decepado

sangra.

Lágrimas íntimas

jorram oceânicas. 

O céu desaba.

Um céu vazio 

desabitado de fé.

Olhos da alma

nada espelham.

Alma insegura.

Decepcionado ser

há sombra no Sol?

Tudo vaga só.

Lugar não há.

A mentira venceu

o silêncio.

Conforma-se

na desilusão.

Compaixão

é falta de luz? 

Dor aguda.

Muda.

Soda no estupor. 

Um Não ecoa.

Jamais se iluda.

Decepção:

essa flor se aveluda.

Ela é toda de isopor

petalhada desnuda.  

A boa camaleoa

muda de forma e cor.

 

domingo, 7 de agosto

O que és dentro do tempo

senão um mero ser de passagem

presença a mais na paisagem?

E quando vais tudo fica

o tempo por si continua

sem a existência tua   

O tempo te desconsidera

O que és no tempo já era

 

sábado, 6 de agosto

As Coisas

Pára de olhar pra mim

sem me ver

Estou além do além do além

E tira essa venda

invisível

A nada e a ninguém

desvenda

quem olhos zen

não tem

(A entrega

é cega)

- Confiar faz bem

 

Abra parênteses

Solte as citações

e fale por si

Ineditize-se

 

Inútil exposição:

as telas

jamais pintadas

passaram em branco

com suas naturezas

mortas

 

A imensidão

é o vazio

que incontida

se preenche

na grandeza

de si mesma?

Ou o incomensurável

é mínimo

meu amor?

 

Então segue

tua própria sombra

que essa depende do sol

para guiar-te

(e existir)

 

Anônimo

me apresento

Homônimo

de ninguém

Antônimo

de tudo

Hormônio

de mim 

 

Alguém aí viu a Musa

ou será imaginária

a fêmea jamais vista?

A deusa-mulher obtusa

que sendo uma é vária

mesmo que não exista

 

sexta-feira, 5 de agosto

Contraste

é o que contrais

entre o concretizar

e o abstrair-se

essa parede imaginária

entre tu e o sonho

ambos por realizar

e para sempre irrealizados

enfim

por fim

 

À palavra silêncio

- escrita -

lê-se em voz alta

ou somente com os olhos?

 

segunda-feira, 1º de agosto

Se me amas

respiro debaixo d’água...

...ao menos por três segundos.

Eu juro que perco o fôlego

e não arejo a idéia. 

Eu juro que me falta ar

e bloqueia a traquéia.

Não absorvo oxigênio

eu juro pela dispnéia.

 

Essa coisa, essa falta,

esse vazio,

essa agonia, esse trem,

esse caco.

Essa culpa, esse trato,

esse frio,

esse trapo, essa cota,

esse saco.

Essa doida, essa diva,

essa musa,

essa manha, esse lixo,

essa luta.

Esse ego, esse elo,

essa intrusa,

essa fresta, essa lóca,

essa gruta.  

Essa moda, esse hit,

essa ponta,

essa marca, esse beco,

essa boca.

Essa mula, esse mel,

essa conta,

esse taco, esse troço,