AGOSTO
DE 2005
segunda-feira, 29 de agosto
Andei tanto tempo sozinho
que
a vagar catei estrelas
no
espaço da imaginação.
Então
me via orvalhando
em
constelações tão tristes,
tão
pálidas e insistentes
e
de um brilhar tão imenso,
que
eu denso e intenso
esquecido
de mim fiquei.
Mas
agora que te encontrei
todas
perderam a graça
-
te vejo em todas elas,
já
não coleciono estrelas,
pois
em ti eu tenho o céu.
Amor à toda prova quando
mais que haver só química
se dá bem em todas as questões
e matérias
Geografia (mapear o corpo)
Português (ah, as utilidades da língua)
Matemática (contar as múltiplas vezes)
Etc
Talvez por te saber em
vôo solo,
eu feche os olhos e te acompanhe,
confiante e cegamente.
Não, não se acanhe
e cada vez mais me ganhe
(e sejas simples e urgente,
não à sombra, mas claramente).
E ainda que eu arranhe
meu coração nos embaraços
e nos empecilhos farpados,
contigo não sou ou estou sozinho
e me faço caminho para teus passos.
Nos damos afagos ofegantes em carinho,
afogando unos corpos em desalinho.
Quatro asas nossos braços.
Nós em nós somos nosso ninho.
quinta-feira, 25 de agosto
Nada te
peço mais que isso:
- aprendizagens
Ler não só o que escrevo
mas também meus olhos
os ignorados gestos
minha paciência contigo
Compreender o silêncio
captando seu alcance
além de todo vazio criado
por tua impaciência comigo
Então te poderei dizer:
- aprendestes
Não apenas a construir a ponte
mas sobretudo a atravessá-la
chegando humilde ao horizonte
que fim azul dá à imensa vala
Nos amamos
pelos cantos da casa
ardendo em brasa
(Que ninguém nos flagre)
Nos tornamos:
- eu santo de casa
- tu anjo sem asa
(O amor faz milagre)
Nos casamos
a rotina extravasa
a gente descasa
(Dois cabeças de bagre)
republicando a pedidos
distração
tirei o escudo
expus o coração
enfraquecido
peito ferido
fui atingido
- ai paixão
Cantadinha
Que desculpa devo
arranjar
para puxar assunto
contigo?
Não me olha assim
que eu te vejo em mim.
Se eu tivesse o número
de teu telefone
não tinha engano.
Não me deixes acordar,
menina dos sonhos.
Roubarei o brilho das
estrelas
para teus olhos.
De tanto fugir de meus
sonhos,
uma noite te pego
exausta.
Posso te cantar em
versos,
todo prosa?
Nunca vi mulher tão
exata assim...
Ensina-me o caminho.
Quero chegar ao teu
coração.
Quero ser inteiro.
Falta-te, ó metade de
mim.
És tão perfeita
que nenhum dicionário
tem a tua definição.
Não acreditas em amor à
primeira vista?
E à primeira teclada?
Agora que conheci teu
sorriso,
mostra-me toda a beleza
que és e tens.
Já reparei que és
inteligente
e que vais adorar
conviver comigo...
E se te encontrar for
minha perdição?
Sonhei contigo esta
noite.
Impossível que sejas
mais linda pessoalmente!
Tivesse eu direito a um
único desejo,
nem sei qual seria...
Se disseres não ao amor
que te oferecerei,
ouvirei como um talvez.
Não pensava em casar
novamente... Juro!
Depois de me procurar
toda minha vida,
eis que te encontro.
Minha couraça tem uma
única brecha.
Foste certeiro, cupido, com tua flecha.
sexta-feira,
19 de agosto
Desdigo
sem me contradizer
me refazendo
de minh’antilogia
me inovando
de minh’agnosia
Se
tudo
já
foi
dito
com
todas
as
letras
Se
palavras
não
mais
as
temos
Só
nos
resta
ouvir
o
silêncio
e
deixar
que
nos
falem
nossos
olhos
Tudo
pode acontecer
inclusive coisa nenhuma
Nada
de modo algum
e nem de outra forma
E eu que nada pensei
acabei
sentindo
E
agora que sinto o que penso
(e
que não penso o que sinto
embora
sinta não pensar
e
nem pense em que e no que sentir)
tanto
penso em tudo
que
sinto muito
sinto
mesmo
quinta-feira,
18 de agosto
Por inteiro
e à margem
me intero
da margem
a interagir
na margem
de ti
Com as mãos percorro
o corpo inexplorado
o corpo inabitado
o corpo insaciado
o corpo inspirado
o corpo instigado
o corpo insatisfeito
o corpo instável
o corpo insciente
o corpo insculpido
o corpo inseguro
o corpo insidiado
o corpo insigne
o corpo insinuante
o corpo insólito
o corpo insondado
o corpo insone
o corpo insonoro
o corpo instintivo
o corpo insubmisso
o corpo insuperável
o teu corpo
Monótono não será
o branco da página
se 3 letras nela escrevem
a palavra cor
E nem em branco
o coração silente
se nele se inscreve
o
sentido amor
terça-feira, 17
de agosto
- Dou tempo ao
tempo
mas é tal sua ingratidão
que em seu passo lento
me apressa a mansidão
- Tempo dou ao tempo
prendo a respiração
ele sopra forte vento
me arde a insolação
- Ao tempo dou tempo
meu oásis é sequidão
eu exaustivo e sedento
sonolento guardião
- Ao tempo tempo dou
e sem tempo vou e sou
Há coisas inomináveis
e muitas
nomeadas
Há sim as
inanimadas
outras em
denominação
Umas sem
denominador
tantas em
dominação
São coisas
coisificadas
coisas em
coisificação
Coisíssimas
coisadas
Coisas que coisas são
segunda-feira,
15 de agosto
Deus me fez
feito Ele
semelhante
assemelhado
à Sua imagem
endeusado
nEle espelhado
justo Eu
coitado
a cria
que não lambeu
sujo e mal lavado
Deus
é um descuidado
nem deve estar
lembrado
Posso chover
em tardes azuis
sobre teu corpo
O céu como leito
deito em ti
águas dilúvias
Não estio
No cio cicio
lavas vesúvias
Para dimensionar
do
abismo a fundura
grita
até ouvir ecoar
tua
voz escura
no
ar
na secura
de manhã
em manhã
dias vêm
dias vão
e eu tão na sua
tão seu
tão tão
e tanto
sou
que quase tantã
estou
À
margem do abismo
da
inexistência
ao
acaso nascem flores
inoportunas
Esvoaçantes
pólens
despencam
Fina
poeira paira no vazio
infecundo
Lágrima: galáxia
na face de teu universo
Silêncio de mil linguagens
Pura
depura
cura
- A fala
propriamente dita
por mais que se repita
se cala
pra não ser mal dita
Se canta
encanta
embala
e é bendita
- A fala
propriamente dita
atrita
com a ala
de quem só grita
Se instala
e é aflita
Deserdá-la
quem se habilita?
- A fala
propriamente dita
é bala
da macaca chita
E se da goela
se desatrela
desentala
incita
exala
imita
- A fala
propriamente dita
escala
não se limita
Calá-la
há quem cogita
no koala
no eremita
Então a fala
é ir
restrita?
domingo,
14 de agosto
O que há
de mais silencioso
que as palavras
ainda por serem
e as jamais
ditas?
Relógio de areia
O tempo
segundo os grãos
Sei lá
Vai saber?
Talvez saiba
Se ficar sabendo
Ninguém nunca soube
Não sei se a vida foi sábia
Se bem que acho que já sabia
E que diferença faria se soubesse?
Imagine
mouses
como
espermatozóides
fluindo
rumo à placa-mãe
Imagin
ação
Fecund
Enlaçados
Nós
cegos
(de
amor)
segunda-feira,
8 de agosto
O que
está por vir
talvez nem chegue
a tempo.
Ou quem sabe
não se lembre
e nem venha.
Ou se vier
quando chegar
já terá (s)ido.
Ou não vindo
ficará estático
no inexistido.
Algo intáctil
estéril
sem sentido.
Decepção.
Coração decepado
sangra.
Lágrimas íntimas
jorram oceânicas.
O céu desaba.
Um céu vazio
desabitado de fé.
Olhos da alma
nada espelham.
Alma insegura.
Decepcionado ser
há sombra no Sol?
Tudo vaga só.
Lugar não há.
A mentira venceu
o silêncio.
Conforma-se
na desilusão.
Compaixão
é falta de luz?
Dor aguda.
Muda.
Soda no estupor.
Um Não ecoa.
Jamais se iluda.
Decepção:
essa flor se aveluda.
Ela é toda de isopor
petalhada desnuda.
A boa camaleoa
muda de forma e cor.
domingo, 7 de agosto
O que és dentro do tempo
senão um
mero ser de passagem
presença a
mais na paisagem?
E quando
vais tudo fica
o tempo
por si continua
sem a
existência tua
O tempo te
desconsidera
O que és no tempo já era
sábado, 6 de agosto
As Coisas
Pára de
olhar pra mim
sem
me ver
Estou
além do além do além
E
tira essa venda
invisível
A
nada e a ninguém
desvenda
quem
olhos zen
não
tem
(A
entrega
é
cega)
-
Confiar faz bem
Abra
parênteses
Solte as citações
e fale por si
Ineditize-se
Inútil
exposição:
as telas
jamais pintadas
passaram em branco
com suas naturezas
mortas
A
imensidão
é o vazio
que incontida
se preenche
na grandeza
de si mesma?
Ou o incomensurável
é mínimo
meu amor?
Então
segue
tua própria sombra
que essa depende do sol
para guiar-te
(e existir)
Anônimo
me apresento
Homônimo
de ninguém
Antônimo
de tudo
Hormônio
de mim
Alguém
aí viu a Musa
ou será imaginária
a fêmea jamais vista?
A deusa-mulher obtusa
que sendo uma é vária
mesmo que não exista
sexta-feira, 5 de
agosto
Contraste
é o que contrais
entre o concretizar
e o abstrair-se
essa parede imaginária
entre tu e o sonho
ambos por realizar
e para sempre irrealizados
enfim
por fim
À palavra
silêncio
-
escrita -
lê-se
em voz alta
ou somente com os olhos?
segunda-feira, 1º de agosto
Se me amas
respiro debaixo d’água...
...ao menos por três segundos.
Eu juro que perco o fôlego
e não arejo a idéia.
Eu juro que me falta ar
e bloqueia a traquéia.
Não absorvo oxigênio
eu juro pela dispnéia.
Essa coisa, essa falta,
esse vazio,
essa agonia, esse trem,
esse caco.
Essa culpa, esse trato,
esse frio,
esse trapo, essa cota,
esse saco.
Essa doida, essa diva,
essa musa,
essa manha, esse lixo,
essa luta.
Esse ego, esse elo,
essa intrusa,
essa fresta, essa lóca,
essa gruta.
Essa moda, esse hit,
essa ponta,
essa marca, esse beco,
essa boca.
Essa mula, esse mel,
essa conta,
esse taco, esse troço,
essa ôca.
Esse texto, esse modo,
esse pega,
essa bosta, esse besta,
essa vaca.
Essa mula, esse bode,
essa brega,
essa pata, esse dedo,
essa inhaca.
Ela faz de conta
nada conta só reconta
e desconta.
Ela se satisfaz e
apronta
se defronta me afronta
está pronta se
confronta
me amedronta.
Ela refaz uma ponta
desponta me aponta
e desaponta.
Ela me desfaz me monta
desmonta me remonta.
Ela se faz de tonta.
A tonta.
AGOSTO
DE 2004
sábado,
30 de agosto
da série "pequeninos como
quê"
1
espelho meu
espelho meu
me refletes
ou te vejo eu?
2
ficou na infância
um gosto de fruta
de vez
na jabuticabeira
na mangueira
na laranjeira
num quintal de
1973
3
de fraque e cartola
lá vai o pingüim
equilibrando pingos
e tremas
qual um Chaplin
4
tem tudo a ver
como nada
no escuro
olhos de quem
não sabe ler
leitura
de olhar
e não saber
sexta-feira, 29 de
agosto
a clara
neonatal
neon
luz
e pensar que pensar independe
tem tantos tentáculos o pensamento
povoa a cabeça desvenda e acende
dá-lhe nitidez e luz e movimento
tudo que penso me surpreende
e pensar que pensar é isento
e acesa a cabeça não a desvende
não pensar nem tento
pode chorar tudo que minar
nunca
será tanto quanto eu
sequei
esgotei e fragilizado
estou
firme mais forte fiquei
arrependido
de ter chorado
pode
chorar até implorar
não
adianta a choradeira
despencar
dessa cachoeira
é
melhor fechar essa torneira
quinta-feira, 28 de
agosto
com um raminho de oliveira
no bico
a pombinha cruzou
um campo minado
em Telaviv
está grávida a
avezinha
e ainda por cima
engoliu uma azeitona
tem sentido sentir
mas
se só é ficar sentindo
deixa
sem ar quem sente
é
tudo sentimento
mas
se é só ressentimento
ninguém
nem nada consente
sou breve
vou leve
meu vôo
sem brevê
temos pressa
somos apressados
ganhamos tarefa
vivemos atarefados
vamos passando
estamos passados
direito
autoral
in
site:
tua
bit
letra
virtual
by
te
maçã
do paraíso:
malsã
aquele moço
no fundo
do poço
moeu
milho grosso
roeu o osso
comeu
angu-de-caroço
this boy
ainda mói
até hoje rói
mas não influi
nem contribói
alegria com formato
de pétala
alegria em forma
de asa
alegria no contorno
da aura
alegria no entorno
de ti
alegria sem transtorno
em mim
o homem
enquanto ser
nem sempre
é humano
o homem
como criatura
às vezes
é insensível
o homem
quando vivente
é diariamente
seu fim
o poema
em
código de barras
passa
pela leitura óptica
de
um leitor-robô
o
poeta
máquina
de fazer versos
com
inspiração em conserva
os
produz enlatados
quarta-feira, 27 de agosto
outra coisa qualquer
qualquer
coisa
desde
que seja
outra
o simples imaginar a água
é um pensar com frescor
sacia a inquietude
de bebê-la fartamente
na fonte da plenitude
em potável silêncio
de minha incontida
e eterna sede
brotou do olho
verdeazulado
primeiro uma lágrima
formou um pranto
uma poça d’água
uma nascente
um lago
um ribeirão
um rio pequeno
um grande rio
e o sal da lágrima
a primeira a pingar
deu sabor
deu cor azul
a um verde mar
do olhar
a chorar
não sou
feito
de oco
apesar
de sentir
pouco
o
soco
no
âmago
no
estômago
nem
sou apenas
a
retórica
e
histérica
dor
que
não se anistia
imune
à anestesia
da
poesia
sou
pedra
na
mão de criança
palestina
sou
o ruído
o
ruir
o
ir só
para
seguir
sou
mais
ou
menos isso
o
ínfimo
o
íntimo
atmo
istmo
um
eu (in)finito
(I)
quem dera
ela e eu e a primavera
espera florescer amor deveras
quisera renascer na breve
quimera
eu e ela
amor retém o ser
não considera
nada gera
o amor que eu dei
nunca tivera
meu amor eu sei
teu amor pondera
o que fui e sou
o que sou e era
(II)
tão rara
ela é quem me ampara
repara
vem e quer e se declara
compara o sim o não
coração dispara
tudo pára
amor contém em si
o que tomara
não me dara
meu amor me cura
teu amor me sara
o amor que eu dei tem a minha cara
minha cara
segunda-feira, 25 de agosto
distante
diz tudo
dispara
dissipa
a silenciosa
voz ausente
e calada
intercala
olhar e não ver
falar com os olhos
palavras cegas
do exato sofrer
na distância
na ausência
no silêncio
no próprio ser
os internautas
navegar é preciso
a internet é precisa
ler é precioso
viver não é prece
só
o acendedor de estrelas
atrasou
o dia ficou mais longo
e a noite
custou a acenar
seu lenço preto
do infinito buraco
acima de nós
o acendedor de estrelas atrasou
o dia ficou mais longo e a noite
custou a acenar seu lenço preto
do infinito buraco acima de nós
o acendedor
de estrelas
atrasou
o dia ficou
mais longo
e a noite
custou a acenar
seu lenço
preto
do infinito
buraco
acima
de nós
com a esferográfica
risco uma esfera
e no círculo arrisco
um arredondado rabisco
tudo em volta do disco
em torno um óvulo isco
dentro do meio circular
no centro de fecundar
um nada um cisco
(sou eu na Terra
- o planeta a guerra -
meu azul aprisco
de futuro arisco)
Letra
de uma canção para Laurinha, 1986.
A cidade é um carrossel
Gira e roda e roda e
gira tanto
Você pode até ficar
tonta
nesse vai-e-vem de lá
pra cá
Cada um de nós
é um palhacinho no
picadeiro
a representar o seu
papel
Gira a rodar e roda
a girar
a cidade-circo é um carrossel
A cidade é um carrossel
Gira e roda e roda e
gira tanto
Você pode até ficar
tonta
nesse vai-e-vem de lá pra cá
Muita coisa boa
ainda existe pra se
ver
debaixo da lona azul
do céu
Roda a girar e gira
a rodar
o circo-cidade é um
carrossel
A cidade é um carrossel
Gira e roda e roda e
gira tanto
Você pode até ficar
tonta
nesse vai-e-vem de lá pra cá
palavra imaginada
imagem para a palavraescrevere dizer imagensveja o que dizes o corpo
é tu dentro delea pele é a capao mais é ossoe carneteu serteu sentir:o cerne meu amor
ainda não sabe nadamas quando soubermeu amor ficará sabendomeu amor saberáquase tudo
estou atrasado
para o encontro contigonão se preocupeesperenão se desespereque até ontemmarquei comigoando passadodesencontradoportantonão ponha tudo a perderse não aparecernão fui achado
tua malquerença
magoadatoda desavençapor nadanão quero benevolênciaagradeço a preferência
sexta-feira, 22 de
agosto
quando
acaba
desaba o delírio
da falta de lugar
um não ter
pra onde ir
a febre do ser
sem sede e frio
sem fome e ardor
mas nada sacia
um andar sedentário
correndo perigo
de desistir
de não resistir
de voltar a sorrir
e quem sabe
sonhar
é quando recomeça
há pressa no olhar
de rever o já visto
eu insisto
sou filho de deus
o amor chegou
o amor me pegou
pra cristo
uma noite
como a outra
como a outra
como a outra
e toda noite gozo
o prazer de outra noite
como outra
em 2 momentos
one
a véspera
- em solidão -
é a espera
o momento
áspero
do desespero
se não vens
two
a morte
é um estado
de ser
anterior
ao útero
faz da vida
em si
um projeto
inútil
sono pesado
para sempre
e último
à mão livre
tudo é possível
a meia voz
a luz é audível
a flor da pele
o só é sensível
geografia
é não saber
onde estamos
aonde vamos
até que indo
ou estando
chegamos
quarta-feira, 20 de
agosto
atravessa o jardim de espinhos
através de desertos flaviúnicos
atreva-se a contar as estrelas todas
ou em mim todos os raios do sol
e sobreviva às minhas noites e dias
exausta de tanto tão louca ser
que é muita loucura ser mulher
e feliz
é muito doido descobrir-se em luz
plena e mansa e fogosa e faceira
última agora e sempre a primeira
dom primoroso saber-te existir
rara e grande beleza te ver
sorrir
te
perco
no
arco
da
luz
cla
ri
da
de
luminescência
tem um
pouco de silêncio no breve
na leveza de ver que tudo tem
ainda que nada ouças
mas foi tão simples
que iluminou
nós sabemos
sempre
conheci Betânia
depois Vânia
e aí veio Tânia
é a sina morar
é assim namorar
em Goiânia
pega ela,
verdade,
e lhe diz que até a
mentira
requer certa
sinceridade
terça-feira, 19 de
agosto
presente
estou a mil
ou melhor
estou em dois mil
e três
o branco
o branco da
página
me chama a
atenção
para a página em
branco
tua
companhia
sozinho
na distância
com ânsia
e em tua ausência
sem cia.
(t)arde
da revolução
em marcha
experimenta:
as armas o pão
a poesia
a pimenta
abismal
saem
em vão
e se num vão
caem
lá se vão
se esvaem
conjug
sujeito a ser
eu
sou impessoal
na conjugação
do verbo
e fico entre
vós
e nós
o DIA
o arco
é o D
a lança
o I
o alvo
não tem centro
e nem está
sobre o cavalete
A
a última flor
a última flor
do lácio
não é de acácia
nem foi adubada
com cálcio
ou potássio
ávida
ela se assume
ter crescido
ter vingado
não no cume
a esmo
ela se assume
ter florido
e aflorado
em úmido
chorume
em um cerco
à base de estrume
(isso mesmo
a poder de esterco)
zê
a câmera em zoom
captou o ar zumbi
e a marca do zorro
em minha face zen
ouvindo zaratrustra
e um pernilongo zumbir
de mim zombando
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
até que adormeci zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
z
as
variações
éramos
assim
nos ferramos
no fim
erramos
sim
nos ama(rra)mos
enfim
alguns poemas publicados
em maio de 1991,
no livro “Terminálias”
deus
disse-lhe:
olhe-me
e
ele
de
baixo
voltou-se
para
o alto
e
não distinguiu
o
deus que ele olhou
do
deus que ele ouviu
o
deus
que
lhe falou
do
deus que ele
não
viu
Instruções:
Traduza a palavra
dê-lhe forma
vista-a com a túnica
única da poética
Dela tenha a melhor impressão
grafismos inéditos de sons
letras se formando juntas
traçando o ritmo silábico
Ei-la comunicando no ar
algo maior, sem travas,
entrando por aquela porta,
uma entre tantas palavras
sólido
em formato
e modo
o todo é o conjunto
dentro e fora -
integral e muito
tudo inteiramente
único
num corpo
só
O morto
Morto, revive a sombra
do homem sem marcas
sobre os escombros
de outras cargas
Definitivo, a se definir
em torno de silêncio
Completo em si
por sua essência
Ri de sua doutrina
fecunda em prazer
Estende-se, suscinto,
e é, só por ser
O morto é lírico
Todo em tudo, e até
diz-se um bíblico
personagem sem fé
Que muito apregoa
o dito, e comporta
o ter, no ser, amontoa
o morto, de alma morta
t
a
n faztempo
t t
o a
t n
e t
m o
p f
o a
f z
a
z
faztantotempo
não direi
se queres
que eu
d
i
g
a
só então
ouvirás
meu pensa-
mento
(mentalmente)
som de nuvens
e
vento
o relógio
a engrenagem é precisa
o momento marcado agora
o tempo passa e avisa:
- não vá perder sua hora
aponta-nos, claro, o instante
com ponteiros em compasso
repetitivo incessante
tic-taqueia sem embaraço
demonstra, sem ser intruso
influir no corre-corre
sendo mormente confuso
dia-nasce-noite-morre
avião:
invento
ao vento
a v
v e
i n v e n t o
ã t
o o
meu amor
se dilui agora
em cinzas do
outono calmo
que apascenta
antigos
sonhos
meu amor
se retrai e chora
em dúvidas de
atroz desejo
que por si se dá
inteiro
meu amor
se contém sereno
e refaz a todo
momento
o passado vivo
por dentro
e fora
desejo-te impossível
mulher distinta
distante de mim
ser sensível
respiração ofegante
a fim
Margem
Atende ao chamado
vem para esse lado
fica no barranco dessa margem e vê
passarem as águas turvas do rio
tranqüilo
Nada se repete na vida em correnteza
desse ser líquido que mina e emana
uma fluidez saciável a peixes e todos
os seres
Queres dizer tudo e ficas olhando
calada
o rio suas vidas volúveis o ir por ir
por aí
lapidando velhas pedras roladas
Então ainda tens dúvida ficas sem saber
O rio ou as pedras o que pretendes ser
sendo muitas em uma e única em todas
para mim que sou o escorregadio lodo
POESIA:
EU
VERSOS
ELA
segunda-feira, 18 de
agosto
sou de minúsculas
sem vírgulas nem pontos
e para quê letras
sílabas
e por quê prosseguir
em frases
nada de parágrafos
se escrever não faz sentido
ainda que faça diferença
ler?
vento no bambu
dele tira som
e o deixa bambo
umberto eco
eco
eco
eco
ec
e
um
amiga
cala!
não diga
fala!
mais que poeta
“o poeta para ser poeta
tem que ser mais que poeta”
mais poeta que poeta poeta
não um poeta apenas poeta
ser poeta com poesia no ser
poesia para ser poeta
tem que ser mais
mais que ser
ser mais
poeta
ser
fome um
é para a ralé
o mingau
ralo?
é para a plebe
o quibebe
de talo?
é para a tropa
a sopa
de galo?
é para o povão
o caldo de feijão
jalo?
quarta-feira, 13 de
agosto
ímpar
ama
meu coração
ama sozinho
põe sim no não
por si só
sem emoção
egoisticamente
- fora ilusão!
ama unitário
sem armação
ama exclusivo
em completa
solidão
unicamente
em harmunião
concret
un
bis
triz
quartz
sim
me
perdeu
me perdeu
por tão pouco
por quase nada
pelo mínimo que deixou
de ser e de fazer
(não por mim
sim por nós)
pelo muito
que se mostrou
não me ganhou
me perdeu
em
cerrado
lobo guará
não há
nem no guará
nem em guara
tin
gue
tá
desceciliando
eu encanto
porque o restante desiste
e a minha vida revivida
é incompleta
se a vida passa
para quem a assiste
torna-se alvo direto
sem ponta de seta
sou alegre
tesão em riste
sou apoeta
obviê
quem não pode
despode
quem não se salvou
não se salvou
morreu
acabou
para
doxo
se viver
é um ato
de coragem
por que
então morrer
de medo?
moda
psique
na ida
sou
id
na vinda
sou in
coisa
de criança
xuxa
a xaxa
fex xixi
no xaxim
bandeiroso
olha o cara
pegou o táxi
muito doido
muito doido
foi bandeira
dois
ex
finge
decifra-me
ou te apavoro
ou te ignoro
na
lona
e o palhaço
não é
mais ladrão
de mulher
o coitado
só quer
ser um zé
qualquer
um
filme
a vida
é curta
mas dá
um longa
é de letra em letra
de sílaba em sílaba
que te tornas homem
homem de palavra
homem com página na história
homem letrado
homem lido
homem por ler
e escrever
idéias
saem da cabeça
sem aspas
e caem
feito caspas
terça-feira, 12 de
agosto
a estrada
interrompida
daria em
nada
parou na
vida
era
empoeirada
e agora
asfaltada
é tão
comprida
a estrada
interrompida
parada
e seguida
foi tanta luz
que incendiou
pegou fogo
e se consumiu
dá-me um par
de aspas
e eu te cito