AGOSTO DE 2005

segunda-feira, 29 de agosto

Andei tanto tempo sozinho

que a vagar catei estrelas

no espaço da imaginação.

Então me via orvalhando

em constelações tão tristes,

tão pálidas e insistentes

e de um brilhar tão imenso,

que eu denso e intenso

esquecido de mim fiquei.

Mas agora que te encontrei

todas perderam a graça

- te vejo em todas elas,

já não coleciono estrelas,

pois em ti eu tenho o céu.

 

Amor à toda prova quando

mais que haver só química

se dá bem em todas as questões

e matérias

Geografia (mapear o corpo)

Português (ah, as utilidades da língua)

Matemática (contar as múltiplas vezes)

Etc

 

Talvez por te saber em vôo solo,

eu feche os olhos e te acompanhe,

confiante e cegamente.   

Não, não se acanhe

e cada vez mais me ganhe

(e sejas simples e urgente,

não à sombra, mas claramente).

E ainda que eu arranhe

meu coração nos embaraços

e nos empecilhos farpados,

contigo não sou ou estou sozinho

e me faço caminho para teus passos.

Nos damos afagos ofegantes em carinho,

afogando unos corpos em desalinho. 

Quatro asas nossos braços. 

Nós em nós somos nosso ninho.

 

quinta-feira, 25 de agosto

Nada te peço mais que isso:

- aprendizagens

Ler não só o que escrevo

mas também meus olhos

os ignorados gestos

minha paciência contigo

Compreender o silêncio

captando seu alcance

além de todo vazio criado

por tua impaciência comigo

Então te poderei dizer:

- aprendestes

Não apenas a construir a ponte

mas sobretudo a atravessá-la

chegando humilde ao horizonte

que fim azul dá à imensa vala

 

Nos amamos

pelos cantos da casa

ardendo em brasa

(Que ninguém nos flagre)

Nos tornamos: 

- eu santo de casa

- tu anjo sem asa

(O amor faz milagre)

Nos casamos

a rotina extravasa

a gente descasa

(Dois cabeças de bagre)

 

terça-feira, 23 de agosto

          republicando a pedidos

Por descuido

distração

tirei o escudo

expus o coração

enfraquecido

peito ferido

fui atingido

- ai paixão

 

Cantadinha

Que desculpa devo arranjar

para puxar assunto contigo?

Não me olha assim

que eu te vejo em mim.

Se eu tivesse o número de teu telefone

não tinha engano.

Não me deixes acordar,

menina dos sonhos.

Roubarei o brilho das estrelas

para teus olhos.

De tanto fugir de meus sonhos,

uma noite te pego exausta.

Posso te cantar em versos,

todo prosa?

Nunca vi mulher tão exata assim...

Ensina-me o caminho.

Quero chegar ao teu coração.

Quero ser inteiro.

Falta-te, ó metade de mim.

És tão perfeita

que nenhum dicionário tem a tua definição.

Não acreditas em amor à primeira vista?

E à primeira teclada?

Agora que conheci teu sorriso,

mostra-me toda a beleza que és e tens.

Já reparei que és inteligente

e que vais adorar conviver comigo...

E se te encontrar for minha perdição?

Sonhei contigo esta noite.

Impossível que sejas mais linda pessoalmente!

Tivesse eu direito a um único desejo,

nem sei qual seria...

Se disseres não ao amor que te oferecerei,

ouvirei como um talvez.

Não pensava em casar novamente... Juro!

Depois de me procurar toda minha vida,

eis que te encontro.

Minha couraça tem uma única brecha.

Foste certeiro, cupido, com tua flecha.

 

sexta-feira, 19 de agosto

Desdigo

sem me contradizer

me refazendo

de minh’antilogia

me inovando 

de minh’agnosia

 

Se

tudo

foi

dito

com

todas

as

letras

Se

palavras

não

mais

as

temos

nos

resta

ouvir 

o

silêncio

e

deixar

que

nos

falem

nossos

olhos

 

Tudo

pode acontecer

inclusive coisa nenhuma

Nada

de modo algum

e nem de outra forma

 

E eu que nada pensei

acabei sentindo

E agora que sinto o que penso

(e que não penso o que sinto

embora sinta não pensar

e nem pense em que e no que sentir)

tanto penso em tudo

que sinto muito

sinto mesmo

 

quinta-feira, 18 de agosto

Por inteiro

e à margem

me intero

da margem

a interagir

na margem

de ti

 

Com as mãos percorro

o corpo inexplorado

o corpo inabitado

o corpo insaciado

o corpo inspirado

o corpo instigado

o corpo insatisfeito

o corpo instável

o corpo insciente

o corpo insculpido

o corpo inseguro

o corpo insidiado

o corpo insigne

o corpo insinuante

o corpo insólito

o corpo insondado

o corpo insone

o corpo insonoro

o corpo instintivo

o corpo insubmisso

o corpo insuperável

o teu corpo

 

Monótono não será

o branco da página

se 3 letras nela escrevem

a palavra cor  

E nem em branco

o coração silente  

se nele se inscreve

o sentido amor

 

terça-feira, 17 de agosto 

- Dou tempo ao tempo

mas é tal sua ingratidão 

que em seu passo lento

me apressa a mansidão

- Tempo dou ao tempo

prendo a respiração

ele sopra forte vento

me arde a insolação

- Ao tempo dou tempo

meu oásis é sequidão

eu exaustivo e sedento

sonolento guardião

- Ao tempo tempo dou

e sem tempo vou e sou 

 

Há coisas inomináveis

e muitas nomeadas

Há sim as inanimadas

outras em denominação

Umas sem denominador

tantas em dominação

São coisas coisificadas

coisas em coisificação

Coisíssimas coisadas

Coisas que coisas são

 

segunda-feira, 15 de agosto

Deus me fez

feito Ele

semelhante

assemelhado

à Sua imagem

endeusado

nEle espelhado

justo Eu

coitado

a cria

que não lambeu

sujo e mal lavado

Deus

é um descuidado   

nem deve estar

lembrado

 

Posso chover

em tardes azuis

sobre teu corpo

O céu como leito

deito em ti

águas dilúvias

Não estio

No cio cicio

lavas vesúvias

 

Para dimensionar

do abismo a fundura 

grita até ouvir ecoar

tua voz escura

no ar

na secura

 

de manhã

em manhã

dias vêm

dias vão 

e eu tão na sua 

tão seu 

tão tão 

e tanto 

sou  

que quase tantã 

estou

 

À margem do abismo

da inexistência 

ao acaso nascem flores

inoportunas

Esvoaçantes

pólens despencam 

Fina poeira paira no vazio

infecundo

 

Lágrima: galáxia

na face de teu universo

Silêncio de mil linguagens

Pura

depura

cura    

 

- A fala

propriamente dita

por mais que se repita

se cala

pra não ser mal dita

Se canta

encanta

embala

e é bendita

- A fala

propriamente dita

atrita

com a ala

de quem só grita

Se instala

e é aflita

Deserdá-la

quem se habilita?

- A fala

propriamente dita

é bala

da macaca chita

E se da goela

se desatrela

desentala

incita

exala

imita

- A fala

propriamente dita

escala

não se limita

Calá-la

há quem cogita

no koala

no eremita

Então a fala

é ir

restrita?

 

domingo, 14 de agosto

O que há

de mais silencioso

que as palavras

ainda por serem

e as jamais

ditas?

 

Relógio de areia

O tempo

segundo os grãos

 

Sei lá

Vai saber?

Talvez saiba

Se ficar sabendo

Ninguém nunca soube

Não sei se a vida foi sábia

Se bem que acho que já sabia

E que diferença faria se soubesse?

 

Imagine mouses

como espermatozóides

fluindo rumo à placa-mãe

Imagin

             ação

Fecund

 

 

Enlaçados

Nós cegos

(de amor)

 

segunda-feira, 8 de agosto

O que está por vir

talvez nem chegue

a tempo.

Ou quem sabe

não se lembre

e nem venha.

Ou se vier

quando chegar

já terá (s)ido.

Ou não vindo

ficará estático

no inexistido.

Algo intáctil

estéril

sem sentido.  

 

Decepção.

Coração decepado

sangra.

Lágrimas íntimas

jorram oceânicas. 

O céu desaba.

Um céu vazio 

desabitado de fé.

Olhos da alma

nada espelham.

Alma insegura.

Decepcionado ser

há sombra no Sol?

Tudo vaga só.

Lugar não há.

A mentira venceu

o silêncio.

Conforma-se

na desilusão.

Compaixão

é falta de luz? 

Dor aguda.

Muda.

Soda no estupor. 

Um Não ecoa.

Jamais se iluda.

Decepção:

essa flor se aveluda.

Ela é toda de isopor

petalhada desnuda.  

A boa camaleoa

muda de forma e cor.

 

domingo, 7 de agosto

O que és dentro do tempo

senão um mero ser de passagem

presença a mais na paisagem?

E quando vais tudo fica

o tempo por si continua

sem a existência tua   

O tempo te desconsidera

O que és no tempo já era

 

sábado, 6 de agosto

As Coisas

Pára de olhar pra mim

sem me ver

Estou além do além do além

E tira essa venda

invisível

A nada e a ninguém

desvenda

quem olhos zen

não tem

(A entrega

é cega)

- Confiar faz bem

 

Abra parênteses

Solte as citações

e fale por si

Ineditize-se

 

Inútil exposição:

as telas

jamais pintadas

passaram em branco

com suas naturezas

mortas

 

A imensidão

é o vazio

que incontida

se preenche

na grandeza

de si mesma?

Ou o incomensurável

é mínimo

meu amor?

 

Então segue

tua própria sombra

que essa depende do sol

para guiar-te

(e existir)

 

Anônimo

me apresento

Homônimo

de ninguém

Antônimo

de tudo

Hormônio

de mim 

 

Alguém aí viu a Musa

ou será imaginária

a fêmea jamais vista?

A deusa-mulher obtusa

que sendo uma é vária

mesmo que não exista

 

sexta-feira, 5 de agosto

Contraste

é o que contrais

entre o concretizar

e o abstrair-se

essa parede imaginária

entre tu e o sonho

ambos por realizar

e para sempre irrealizados

enfim

por fim

 

À palavra silêncio

- escrita -

lê-se em voz alta

ou somente com os olhos?

 

segunda-feira, 1º de agosto

Se me amas

respiro debaixo d’água...

...ao menos por três segundos.

Eu juro que perco o fôlego

e não arejo a idéia. 

Eu juro que me falta ar

e bloqueia a traquéia.

Não absorvo oxigênio

eu juro pela dispnéia.

 

Essa coisa, essa falta,

esse vazio,

essa agonia, esse trem,

esse caco.

Essa culpa, esse trato,

esse frio,

esse trapo, essa cota,

esse saco.

Essa doida, essa diva,

essa musa,

essa manha, esse lixo,

essa luta.

Esse ego, esse elo,

essa intrusa,

essa fresta, essa lóca,

essa gruta.  

Essa moda, esse hit,

essa ponta,

essa marca, esse beco,

essa boca.

Essa mula, esse mel,

essa conta,

esse taco, esse troço,

essa ôca.

Esse texto, esse modo,

esse pega,

essa bosta, esse besta,

essa vaca.

Essa mula, esse bode,

essa brega,

essa pata, esse dedo,

essa inhaca.  

 

Ela faz de conta

nada conta só reconta  

e desconta. 

Ela se satisfaz e apronta

se defronta me afronta

está pronta se confronta

me amedronta.

Ela refaz uma ponta

desponta me aponta

e desaponta.

Ela me desfaz me monta

desmonta me remonta.

Ela se faz de tonta.

A tonta.

 

AGOSTO DE 2004

sábado, 30 de agosto

 

da série "pequeninos como quê"

 

1
espelho meu

espelho meu

me refletes

ou te vejo eu?

 

2
ficou na infância

um gosto de fruta de vez

na jabuticabeira

na mangueira

na laranjeira

num quintal de 1973

 

3
de fraque e cartola

lá vai o pingüim

equilibrando pingos

e tremas

qual um Chaplin

 

4
tem tudo a ver

como nada

no escuro

olhos de quem

não sabe ler

leitura

de olhar

e não saber

 

 

 

sexta-feira, 29 de agosto

 

a clara

 

neonatal

neon

luz

 

e pensar que pensar independe

tem tantos tentáculos o pensamento

povoa a cabeça desvenda e acende

dá-lhe nitidez e luz e movimento

tudo que penso me surpreende

e pensar que pensar é isento

e acesa a cabeça não a desvende

não pensar nem tento

 

 

pode chorar tudo que minar

nunca será tanto quanto eu

sequei esgotei e fragilizado

estou firme mais forte fiquei

arrependido de ter chorado

pode chorar até implorar

não adianta a choradeira

despencar dessa cachoeira

é melhor fechar essa torneira

 

 

 

quinta-feira, 28 de agosto

 

 

com um raminho de oliveira

no bico

a pombinha cruzou

um campo minado

em Telaviv

está grávida a avezinha

e ainda por cima

engoliu uma azeitona

 

 

tem sentido sentir

mas se só é ficar sentindo

deixa sem ar quem sente

 

é tudo sentimento

mas se é só ressentimento

ninguém nem nada consente

 

 

sou breve

vou leve

meu vôo

sem brevê

 

 

temos pressa

somos apressados

ganhamos tarefa

vivemos atarefados

vamos passando

estamos passados

 

 

direito

autoral

in

site:

tua

bit

letra

virtual

by

te

 

 

maçã

do paraíso:

malsã

 

 

aquele moço

no fundo

do poço

moeu

milho grosso

roeu o osso

comeu

angu-de-caroço

 

this boy

ainda mói

até hoje rói

mas não influi

nem contribói

 

 

 

alegria com formato

de pétala

alegria em forma

de asa

alegria no contorno

da aura

alegria no entorno

de ti

alegria sem transtorno

em mim

 

o homem

enquanto ser

nem sempre

é humano

 

o homem

como criatura

às vezes

é insensível

 

o homem

quando vivente

é diariamente

seu fim

 

o poema

em código de barras

passa pela leitura óptica

de um leitor-robô

 

o poeta

máquina de fazer versos

com inspiração em conserva

os produz enlatados

 
 
 
quarta-feira, 27 de agosto
 

outra coisa qualquer

qualquer coisa

desde que seja

outra

 

 

o simples imaginar a água

é um pensar com frescor

sacia a inquietude

de bebê-la fartamente

na fonte da plenitude

em potável silêncio

de minha incontida

e eterna sede

 

 

brotou do olho verdeazulado

primeiro uma lágrima

formou um pranto

uma poça d’água

uma nascente

um lago

um ribeirão

um rio pequeno

um grande rio

e o sal da lágrima

a primeira a pingar

deu sabor

deu cor azul

a um verde mar

do olhar

a chorar

 
 
 

não sou

feito de oco

apesar de sentir

pouco

o soco

no âmago

no estômago

 

nem sou apenas

a retórica

e histérica

dor

que não se anistia

imune à anestesia

da poesia

 

sou pedra

na mão de criança

palestina

sou o ruído

o ruir

o ir só

para seguir

 

sou mais

ou menos isso

o ínfimo

o íntimo

atmo

istmo

um eu (in)finito

 

(I)

quem dera

ela e eu e a primavera

espera florescer amor deveras

quisera renascer na breve quimera

eu e ela

amor retém o ser

não considera

nada gera

o amor que eu dei

nunca tivera

meu amor eu sei

teu amor pondera

o que fui e sou

o que sou e era 

 

(II)

tão rara

ela é quem me ampara

repara

vem e quer e se declara

compara o sim o não

coração dispara

tudo pára

amor contém em si

o que tomara

não me dara

meu amor me cura

teu amor me sara

o amor que eu dei tem a  minha cara

minha cara

 
 
segunda-feira, 25 de agosto

 

 

distante

diz tudo

dispara

dissipa

a silenciosa

voz ausente

e calada

intercala

olhar e não ver

falar com os olhos

palavras cegas

do exato sofrer

na distância

na ausência

no silêncio

no próprio ser

 

 

os internautas

 

navegar é preciso

a internet é precisa

ler é precioso

viver não é prece

 

o acendedor de estrelas

atrasou

o dia ficou mais longo

e a noite

custou a acenar

seu lenço preto

do infinito buraco

acima de nós

 

o acendedor de estrelas atrasou

o dia ficou mais longo e a noite

custou a acenar seu lenço preto

do infinito buraco acima de nós

 

o acendedor

de estrelas

atrasou

o dia ficou

mais longo

e a noite

custou a acenar

seu lenço

preto

do infinito

buraco

acima

de nós

 

 

com a esferográfica
risco uma esfera

e no círculo arrisco

um arredondado rabisco

tudo em volta do disco

em torno um óvulo isco

dentro do meio circular

no centro de fecundar

um nada um cisco

(sou eu na Terra

- o planeta a guerra -

meu azul aprisco

de futuro arisco)

 

Carrossel

              Letra de uma canção para Laurinha, 1986.

 

A cidade é um carrossel

Gira e roda e roda e gira tanto

Você pode até ficar tonta

nesse vai-e-vem de lá pra cá

 

Cada um de nós

é um palhacinho no picadeiro

a representar o seu papel

Gira a rodar e roda a girar

a cidade-circo é um carrossel

 

A cidade é um carrossel

Gira e roda e roda e gira tanto

Você pode até ficar tonta

nesse vai-e-vem de lá pra cá

 

Muita coisa boa

ainda existe pra se ver

debaixo da lona azul do céu

Roda a girar e gira a rodar

o circo-cidade é um carrossel

 

A cidade é um carrossel

Gira e roda e roda e gira tanto

Você pode até ficar tonta

nesse vai-e-vem de lá pra cá

 

 

palavra imaginada
imagem para a palavra
escrever
e dizer imagens
veja o que dizes
 
 
o corpo
é tu dentro dele
a pele é a capa
o mais é osso
e carne
teu ser
teu sentir:
o cerne 
 
 
meu amor
ainda não sabe nada
mas quando souber
meu amor ficará sabendo
meu amor saberá
quase tudo
 
 
estou atrasado
para o encontro contigo
não se preocupe
espere
não se desespere
que até ontem
marquei comigo
ando passado
desencontrado
portanto
não ponha tudo a perder
se não aparecer
não fui achado
 
 
tua malquerença
magoada
toda desavença
por nada
não quero benevolência
agradeço a preferência

 

 

 

sexta-feira, 22 de agosto

 

quando acaba

desaba o delírio

da falta de lugar

um não ter

pra onde ir

a febre do ser

sem sede e frio

sem fome e ardor

mas nada sacia

um andar sedentário

correndo perigo

de desistir

de não resistir

de voltar a sorrir

e quem sabe

sonhar

é quando recomeça

há pressa no olhar

de rever o já visto

eu insisto

sou filho de deus

o amor chegou

o amor me pegou

pra cristo

 

 

uma noite
como a outra
como a outra
como a outra
e toda noite gozo
o prazer de outra noite
como outra



em 2 momentos

one 

a véspera
- em solidão -
é a espera
o momento
áspero
do desespero
se não vens

two

a morte
é um estado
de ser
anterior
ao útero
faz da vida 
em si
um projeto
inútil
sono pesado
para sempre
e último



à mão livre
tudo é possível
a meia voz
a luz é audível
a flor da pele
o só é sensível



geografia
é não saber
onde estamos
aonde vamos
até que indo
ou estando
chegamos



 

 

quarta-feira, 20 de agosto

 

 

atravessa o jardim de espinhos

através de desertos flaviúnicos

atreva-se a contar as estrelas todas

ou em mim todos os raios do sol

e sobreviva às minhas noites e dias

exausta de tanto tão louca ser

que é muita loucura ser mulher

e feliz

é muito doido descobrir-se em luz

plena e mansa e fogosa e faceira

última agora e sempre a primeira

dom primoroso saber-te existir

rara e grande beleza te ver

sorrir

 

 

 

te

perco

no

arco

da

luz

cla

ri

da

de

luminescência

 

 

 

tem um pouco de silêncio no breve

na leveza de ver que tudo tem

ainda que nada ouças

mas foi tão simples

que iluminou

nós sabemos

sempre

 

 

 

conheci Betânia

depois Vânia

e aí veio Tânia

 

é a sina morar

é assim namorar

em Goiânia

 

 

 

pega ela,

verdade,

e lhe diz que até a mentira

requer certa sinceridade

 

 

 

 

terça-feira, 19 de agosto

 

 

presente

 

estou a mil

ou melhor

estou em dois mil

e três

 

 

 

o branco

 

o branco da página

me chama a atenção

para a página em branco

 

 

 

 

tua companhia

 

sozinho

na distância

   com ânsia

 

e em tua ausência

                 sem cia.

 

 

 

 

 

(t)arde

 

da revolução

em marcha

experimenta:

 

as armas o pão

a poesia

a pimenta

 

 

 

 

abismal

 

saem

em vão

e se num vão

caem

lá se vão

se esvaem

 

 

 

 

conjug

 

sujeito a ser

eu

sou impessoal

na conjugação

do verbo

e fico entre vós

e nós

 

 

 

 


o DIA

o arco
é o D


a lança
o I


o alvo
não tem centro


e nem está
sobre o cavalete
A







a última flor

a última flor
do lácio
não é de acácia
nem foi adubada
com cálcio
ou potássio
ávida
ela se assume
ter crescido
ter vingado
não no cume
a esmo
ela se assume
ter florido
e aflorado
em úmido
chorume
em um cerco
à base de estrume
(isso mesmo
a poder de esterco)


 




a câmera em zoom
captou o ar zumbi
e a marca do zorro
em minha face zen
ouvindo zaratrustra
e um pernilongo zumbir
de mim zombando
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
até que adormeci zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

z


 


as variações

éramos
assim
nos ferramos
no fim
erramos
sim
nos ama(rra)mos
enfim


 

 

alguns poemas publicados em maio de 1991,

no livro “Terminálias

 

deus

disse-lhe:

olhe-me

 

e ele

de baixo

voltou-se

para o alto

 

e não distinguiu

o deus que ele olhou

do deus que ele ouviu

 

o deus

que lhe falou

do deus que ele

não viu

 

 

Instruções:

 

Traduza a palavra

dê-lhe forma

vista-a com a túnica

única da poética

 

Dela tenha a melhor impressão

grafismos inéditos de sons

letras se formando juntas

traçando o ritmo silábico

 

Ei-la comunicando no ar

algo maior, sem travas,

entrando por aquela porta,

uma entre tantas palavras

 

 

 

sólido

 

em formato

                    e modo

o todo é o conjunto

 

dentro e fora -

integral e muito

 

tudo inteiramente

único

num corpo

 

 

 

O morto

 

Morto, revive a sombra

do homem sem marcas

sobre os escombros

de outras cargas

 

Definitivo, a se definir

em torno de silêncio

Completo em si

por sua essência

 

Ri de sua doutrina

fecunda em prazer

Estende-se, suscinto,

e é, só por ser

 

O morto é lírico

Todo em tudo, e até

diz-se um bíblico

personagem sem fé

 

Que muito apregoa

o dito, e comporta

o ter, no ser, amontoa

o morto, de alma morta

 

 

 

t

a

n                 faztempo                   

t                                  t

o                                 a

t                                  n

e                                 t

m                                o

p                                 f

o                                 a

f                                  z

a

z

faztantotempo

 

 

 

não direi

se queres

que eu

d

i

g

a

 

só então

ouvirás

meu pensa-

mento

 

(mentalmente)

 

som de nuvens

e

vento

 

 

 

o relógio

 

a engrenagem é precisa

o momento marcado agora

o tempo passa e avisa:

- não vá perder sua hora

aponta-nos, claro, o instante

com ponteiros em compasso

repetitivo incessante

tic-taqueia sem embaraço

demonstra, sem ser intruso

influir no corre-corre

sendo mormente confuso

dia-nasce-noite-morre

 

 

 

avião: invento

        ao  vento

 

a                      v

  v                    e

i n v e n t o

 ã                     t

o                      o

 

 

 

meu amor

se dilui agora

em cinzas do outono calmo

que apascenta antigos

sonhos

 

meu amor

se retrai e chora

em dúvidas de atroz desejo

que por si se dá

inteiro

 

meu amor

se contém sereno

e refaz a todo momento

o passado vivo por dentro

e fora

 

 

 

desejo-te impossível

mulher distinta

distante de mim

 

ser sensível

respiração ofegante

a fim

 

 

 

Margem

 

Atende ao chamado

vem para esse lado

fica no barranco dessa margem e vê

passarem as águas turvas do rio tranqüilo

Nada se repete na vida em correnteza

desse ser líquido que mina e emana

uma fluidez saciável a peixes e todos os seres

Queres dizer tudo e ficas olhando calada

o rio suas vidas volúveis o ir por ir por aí

lapidando velhas pedras roladas

Então ainda tens dúvida ficas sem saber

O rio ou as pedras o que pretendes ser

sendo muitas em uma e única em todas

para mim que sou o escorregadio lodo

 

 

 

POESIA:

 

EU

VERSOS

ELA

 

 

 

segunda-feira, 18 de agosto

 

sou de minúsculas

sem vírgulas nem pontos

e para quê letras

sílabas

e por quê prosseguir

em frases

nada de parágrafos

se escrever não faz sentido

ainda que faça diferença

ler?

 

 

 

vento no bambu

dele tira som

e o deixa bambo

 

 

 

umberto eco

eco

eco

eco

ec

e

um

 

 

 

amiga

cala!

não diga

fala!

 

 

 

mais que poeta

 

“o poeta para ser poeta

tem que ser mais que poeta”

mais poeta que poeta poeta

não um poeta apenas poeta

ser poeta com poesia no ser

poesia para ser poeta

tem que ser mais

mais que ser

ser mais

poeta

ser

 

 

 

fome um

 

é para a ralé

o mingau

ralo?

 

é para a plebe

o quibebe

de talo?

 

é para a tropa

a sopa

de galo?

 

é para o povão

o caldo de feijão

jalo?

 

 

 

quarta-feira, 13 de agosto

 

 

ímpar

 

ama

meu coração

ama sozinho

põe sim no não

por si só

sem emoção

egoisticamente

- fora ilusão!

ama unitário

sem armação

ama exclusivo

em completa

solidão

unicamente

em harmunião

 

 

concret

 

un

bis

triz

quartz

sim

 

 

me perdeu

 

me perdeu

por tão pouco

por quase nada

pelo mínimo que deixou

de ser e de fazer

(não por mim

sim por nós)

pelo muito

que se mostrou

não me ganhou

me perdeu

 

 

em cerrado

 

lobo guará

não há

nem no guará

nem em guara

tin

gue

 

 

desceciliando

 

eu encanto

porque o restante desiste

e a minha vida revivida

é incompleta

se a vida passa

para quem a assiste

torna-se alvo direto

sem ponta de seta

sou alegre

tesão em riste

sou apoeta

 

 

obviê

 

quem não pode

despode

quem não se salvou

não se salvou

morreu

acabou

 

 

para doxo

 

se viver

é um ato

de coragem

 

por que

então morrer

de medo?

 

 

moda psique

 

na ida

sou

      id 

na vinda

sou in

 

 

coisa de criança

 

xuxa

a xaxa

fex xixi

no xaxim

 

 

bandeiroso

 

olha o cara

pegou o táxi

muito doido

muito doido

foi bandeira

dois

 

 

ex finge

 

decifra-me
ou te apavoro

ou te ignoro

 

 

na lona

 

e o palhaço

não é

mais ladrão

de mulher

o coitado

só quer

ser um zé

qualquer

 

 

um filme

 

a vida

é curta

mas dá

um longa

 

 

é de letra em letra

de sílaba em sílaba

que te tornas homem

homem de palavra

homem com página na história

homem letrado

homem lido

homem por ler

e escrever

 

 

idéias

saem da cabeça

sem aspas

e caem

feito caspas

 

 

 

terça-feira, 12 de agosto

 

a estrada

interrompida

daria em nada

parou na vida

era empoeirada

e agora asfaltada

é tão comprida

a estrada

interrompida

parada

e seguida

 

foi tanta luz

que incendiou

pegou fogo

e se consumiu

 

dá-me um par

de aspas

e eu te cito