DEZEMBRO DE 2 0 0 5

 

sábado, 31 de dezembro

O amor que se espera

nem sempre é o amor que se encontra,

aquele que se quer único, eterno,

amor-primavera, a estação pronta.

Mas amor-inverno, que se exulta moderno

na fria estação do contra.

O amor que se quer dar ao coração

raramente é o amor que se tem,

que se regala qual sol sem sono,

amor-verão, de força zen.

Mas amor-outono, flor ao abandono

na morna estação do amém.

 

Procura sempre

por algo mais.

Isso que todos

ansiosos buscamos

e que, sem,

somos incompletos:

a paz!

 

- Tem alguém aí?

Perguntam-me.

Procuro-me em mim

e como não me encontro

respondo: saí.

 

Temos a mesma face

tu e eu

imagem semelhante

faz-se

entre deusa e ateu

 

Queres sofrer de amor

ou por amor sofrer?

Abre teu peito à dor

e deixa doer.

Mas faz a ti o favor

de não perder o prazer

de viver

 

Estou bem

Melhor sem

do que, tendo alguém

sentir-se com ninguém

e pensamento além

 

quarta-feira, 28 de dezembro

Explica – explícita

a excitação

e não te hesita

e não me evita

não me edita

em tua ilha de sedução

me fita em teu filme

com o êxito

de existir e ser feliz

no fim

 

terça-feira, 27 de dezembro

A mulher

essa doce criatura

quando alguma coisa quer

ninguém segura

os ímpetos dessa figura

para abrandar a fissura.

 

Ainda mais se estiver

bem resolvida e madura

faz o que lhe convier

sem a mínima frescura

com a maior desenvoltura

mantendo a pose e doçura. 

 

Dá de si o que puder

sem perder a compostura

e consegue o que quiser

numa boa ou na dura

com seu jogo de cintura

firme forte e segura.

 

Se ela se dispuser

ao que é sério ou aventura

não terá um receio sequer

de partir para a captura

pondo o cara na clausura

com direito a escritura.

 

Mas se acaso ela puser

de volta a armadura

é qual uma flor malmequer

a anjo e santo esconjura

aí se fecha e depura

cessando sua procura

até que venha a cura.

 

Se por um motivo qualquer

se sente frágil imatura

ao que seu alcance tiver

serve para a releitura

do que ela conjetura

e levará sua assinatura

para sua vida futura.

Assim é toda mulher

do berço à sepultura.

 

sexta-feira, 23 de dezembro

Um poeminha de 1978, publicado à página 71

de meu primeiro livro “Fardos Azuis”

 

Presépio celeste é adornado.

O menino pobre o vê

e conforma-se.

Há uma criatura singela

na manjedoura.

Sente o calor dos bois

acolhido na manta da mãe.

Estrebaria colorida

pela noite de luz

recebe os pastores.

O pirralho absorto em fé

ganha de um deles

um pulôver

de lã azulada.

 

quinta-feira, 22 de dezembro

Teus bilhetes

devidamente postados

via correio não chegaram

- Será que se extraviaram?

 

Não que eu quisesse lê-los

(não creio mais no que dizes

e menos no que escreves)

- Mas é que coleciono selos

 

quarta-feira, 21 de dezembro

Amamo-nos com reticências

Amor interminado

Sentir descontínuo

Tudo por dizer

Sempre para depois

nossos encontros sem finais

Deixamos algo no ar

como incertas dúvidas

de insegurança que nos segura

E nosso amor tem sempre um mas

de inconstância querendo mais

e mais

 

No espelho das águas

Narciso se admirava.

A lâmina líquida

por um instante estremeceu

deformando a auto-imagem

que ele encantado mirava.

(Então Narciso chora).

É que naquele lago,

àquela mesma hora,

o Patinho Feio nadava.

 

São mais bonitas

as palavras não ditas

ou as não escritas?

 

Como nunca amei ninguém,

desista, meu bem,

pois amor à primeira vista

não será mais por ti

e sim por alguém

que jamais vi

 

terça-feira, 20 de dezembro

Amor em conta-gotas

Uma emoção por vez

Saudade a todo o momento

Inesgotáveis suspiros

Intraduzíveis desejos

de ter-querer-viver

Amar aos poucos

até que o todo se inunde

e o tudo em nós comporte

o sentir uno e sem fim

do eu em ti e de tu por mim

 

Atravessa a ponte do dia

estendida sobre o abismo do dia

interligando um dia a outro dia

eterna passagem de todo dia

suspensa pela vida para o dia-a-dia

até o dia d que tanto se adia

 

Viver: mistério

O que está por vir?

O que irá acontecer

daqui a um segundo

a mim e ao universo?

Com indagações conviver

questionando respirar

e sem respostas, existir

e atrás de respostas, seguir

Com tantas perguntas, pensar

e em meio a perguntas, sentir

o mistério da vida no ar

 

Sorria na noite

com pensamentos felizes

com lembranças incríveis

com desejos possíveis

e completude de vida

Adormeça sorrindo

querendo melhor e único

como exclusivamente teu

o dia que vem vindo

 

sábado, 17 de dezembro

O PEQUI

Tem que ser devagarinho

Rói daqui, raspa dali

Py é casca, Qui espinho

Seu nome vem do Tupi

 

Ouro e carne do cerrado

Gosto forte e exótico

Com seu verde e dourado

é um fruto patriótico

 

‘Tá em todas as receitas

sejam doces ou salgadas

e muito bem aceitas

mundo afora apreciadas

 

O sabiá, o canarinho

e o atento bem-te-vi

têm o peito amarelinho

de tanto bicar pequi

 

Não há nada similar

trem assim eu nunca vi

quem quiser caryocar

vem aqui comer pequi

 

É o viagra do sertão

Seu cheiro atrai paixão

Quando é tempo de pequi
cada um cuida de si

 

quinta-feira, 15 de dezembro

Ilustre senhora

com toda confiança

de secreto amigo

namora comigo

e

por ora

essa aliança

põe na penhora

 

Mulher

carecida

teu corpo

é noite

indormida

é dia

sem vida

é história

perdida

memória

esquecida

libido

contida

 

A cada novo amor

eis o amor de novo

Matriz de si mesmo

será um único que se renova

se inovando em outro

como amor novidadeiro?

 

Por tão docemente te amar

por ti

até dessalinizo o mar

 

quarta-feira, 14 de dezembro

Bom de lábia

o poliglota

só dá beijo

de língua

 

Dê tudo de si

E para encontrar

sua cara metade

sê inteira

completamente

 

terça-feira, 13 de dezembro

Deixa voar a solidão

E que não pouse em mim

essa ave de rapina

senhora de todo vazio

 

Vivo pobre de sonhos

mendigando pela realidade

nacos de quase nada

 

Já que o mundo está virado

o Brasil planta bananeira

no chão das banalidades

de colheitas bananosas

e brasileiros bananas

 

Do nascer ao pôr-do-sol

tu e eu ensolarados

reinventamo-nos amados

amantes amáveis

amigos amorosos

Eu e tu inflamáveis

dia e noite fogosos

 

Nem franchising

nem franquia

Nosso amor

inigualável

é único

ninguém copia

 

Enfim sós

Enfim nós

Fim atroz

Assim pós

 

Dentro de mim

ela morreu

Mas túmulo melhor

não há

que o peito meu

 

segunda-feira, 12 de dezembro

Final de tarde

saudade de antigo beijo

arde

desejo

 

Ao azul

coube o céu

 

Porque são dias lindos

os dias todos

os nossos dias

até o sol amarelou

em esplêndida explosão

E como são belas as noites

a exigir intimidade

para nossa aproximação

estas afugentam o sol

para o longínquo Japão

 

sábado, 10 de dezembro

Tenho curiosidades a teu respeito

Muitas tantas (todas!)

Penso em ti na intimidade

- nem respiro

Imagino-te no banho

- perco o ar

O instante em que prendes os cabelos

Enquanto passas cremes no corpo

Na hora em que te deitas

Teus pensamentos inconfessáveis

A serenidade com que ouves falas e lês

Quando pões aquele vestidinho de ficar em casa

e o jeito perfeito com que ajeitas as alcinhas

Existes e eu te sonho – Sonho de minhas noites

Como és? Quem és? Alguém te tem? E eu

tenho chances? Vês que eu te olho?

Sobre ti quero saber tudo 

Infindáveis perguntas – Incontáveis e urgentes

E a verdade é uma só:

- Sou o amigo que te deseja

O macho que te cobiça mulher

E que assim seja

haja o que houver

 

Sei desfazer

e não recomeçar

Ponho tudo a perder

jogo tudo pro ar

Se tiver que ser

e não acontecer

deixa estar

pra saber

como vai ficar

Quem me perder

vai me levar

no esquecer

no relembrar

Quer me ler?