DEZEMBRO DE 2 0 0 5

 

sábado, 31 de dezembro

O amor que se espera

nem sempre é o amor que se encontra,

aquele que se quer único, eterno,

amor-primavera, a estação pronta.

Mas amor-inverno, que se exulta moderno

na fria estação do contra.

O amor que se quer dar ao coração

raramente é o amor que se tem,

que se regala qual sol sem sono,

amor-verão, de força zen.

Mas amor-outono, flor ao abandono

na morna estação do amém.

 

Procura sempre

por algo mais.

Isso que todos

ansiosos buscamos

e que, sem,

somos incompletos:

a paz!

 

- Tem alguém aí?

Perguntam-me.

Procuro-me em mim

e como não me encontro

respondo: saí.

 

Temos a mesma face

tu e eu

imagem semelhante

faz-se

entre deusa e ateu

 

Queres sofrer de amor

ou por amor sofrer?

Abre teu peito à dor

e deixa doer.

Mas faz a ti o favor

de não perder o prazer

de viver

 

Estou bem

Melhor sem

do que, tendo alguém

sentir-se com ninguém

e pensamento além

 

quarta-feira, 28 de dezembro

Explica – explícita

a excitação

e não te hesita

e não me evita

não me edita

em tua ilha de sedução

me fita em teu filme

com o êxito

de existir e ser feliz

no fim

 

terça-feira, 27 de dezembro

A mulher

essa doce criatura

quando alguma coisa quer

ninguém segura

os ímpetos dessa figura

para abrandar a fissura.

 

Ainda mais se estiver

bem resolvida e madura

faz o que lhe convier

sem a mínima frescura

com a maior desenvoltura

mantendo a pose e doçura. 

 

Dá de si o que puder

sem perder a compostura

e consegue o que quiser

numa boa ou na dura

com seu jogo de cintura

firme forte e segura.

 

Se ela se dispuser

ao que é sério ou aventura

não terá um receio sequer

de partir para a captura

pondo o cara na clausura

com direito a escritura.

 

Mas se acaso ela puser

de volta a armadura

é qual uma flor malmequer

a anjo e santo esconjura

aí se fecha e depura

cessando sua procura

até que venha a cura.

 

Se por um motivo qualquer

se sente frágil imatura

ao que seu alcance tiver

serve para a releitura

do que ela conjetura

e levará sua assinatura

para sua vida futura.

Assim é toda mulher

do berço à sepultura.

 

sexta-feira, 23 de dezembro

Um poeminha de 1978, publicado à página 71

de meu primeiro livro “Fardos Azuis”

 

Presépio celeste é adornado.

O menino pobre o vê

e conforma-se.

Há uma criatura singela

na manjedoura.

Sente o calor dos bois

acolhido na manta da mãe.

Estrebaria colorida

pela noite de luz

recebe os pastores.

O pirralho absorto em fé

ganha de um deles

um pulôver

de lã azulada.

 

quinta-feira, 22 de dezembro

Teus bilhetes

devidamente postados

via correio não chegaram

- Será que se extraviaram?

 

Não que eu quisesse lê-los

(não creio mais no que dizes

e menos no que escreves)

- Mas é que coleciono selos

 

quarta-feira, 21 de dezembro

Amamo-nos com reticências

Amor interminado

Sentir descontínuo

Tudo por dizer

Sempre para depois

nossos encontros sem finais

Deixamos algo no ar

como incertas dúvidas

de insegurança que nos segura

E nosso amor tem sempre um mas

de inconstância querendo mais

e mais

 

No espelho das águas

Narciso se admirava.

A lâmina líquida

por um instante estremeceu

deformando a auto-imagem

que ele encantado mirava.

(Então Narciso chora).

É que naquele lago,

àquela mesma hora,

o Patinho Feio nadava.

 

São mais bonitas

as palavras não ditas

ou as não escritas?

 

Como nunca amei ninguém,

desista, meu bem,

pois amor à primeira vista

não será mais por ti

e sim por alguém

que jamais vi

 

terça-feira, 20 de dezembro

Amor em conta-gotas

Uma emoção por vez

Saudade a todo o momento

Inesgotáveis suspiros

Intraduzíveis desejos

de ter-querer-viver

Amar aos poucos

até que o todo se inunde

e o tudo em nós comporte

o sentir uno e sem fim

do eu em ti e de tu por mim

 

Atravessa a ponte do dia

estendida sobre o abismo do dia

interligando um dia a outro dia

eterna passagem de todo dia

suspensa pela vida para o dia-a-dia

até o dia d que tanto se adia

 

Viver: mistério

O que está por vir?

O que irá acontecer

daqui a um segundo

a mim e ao universo?

Com indagações conviver

questionando respirar

e sem respostas, existir

e atrás de respostas, seguir

Com tantas perguntas, pensar

e em meio a perguntas, sentir

o mistério da vida no ar

 

Sorria na noite

com pensamentos felizes

com lembranças incríveis

com desejos possíveis

e completude de vida

Adormeça sorrindo

querendo melhor e único

como exclusivamente teu

o dia que vem vindo

 

sábado, 17 de dezembro

O PEQUI

Tem que ser devagarinho

Rói daqui, raspa dali

Py é casca, Qui espinho

Seu nome vem do Tupi

 

Ouro e carne do cerrado

Gosto forte e exótico

Com seu verde e dourado

é um fruto patriótico

 

‘Tá em todas as receitas

sejam doces ou salgadas

e muito bem aceitas

mundo afora apreciadas

 

O sabiá, o canarinho

e o atento bem-te-vi

têm o peito amarelinho

de tanto bicar pequi

 

Não há nada similar

trem assim eu nunca vi

quem quiser caryocar

vem aqui comer pequi

 

É o viagra do sertão

Seu cheiro atrai paixão

Quando é tempo de pequi
cada um cuida de si

 

quinta-feira, 15 de dezembro

Ilustre senhora

com toda confiança

de secreto amigo

namora comigo

e

por ora

essa aliança

põe na penhora

 

Mulher

carecida

teu corpo

é noite

indormida

é dia

sem vida

é história

perdida

memória

esquecida

libido

contida

 

A cada novo amor

eis o amor de novo

Matriz de si mesmo

será um único que se renova

se inovando em outro

como amor novidadeiro?

 

Por tão docemente te amar

por ti

até dessalinizo o mar

 

quarta-feira, 14 de dezembro

Bom de lábia

o poliglota

só dá beijo

de língua

 

Dê tudo de si

E para encontrar

sua cara metade

sê inteira

completamente

 

terça-feira, 13 de dezembro

Deixa voar a solidão

E que não pouse em mim

essa ave de rapina

senhora de todo vazio

 

Vivo pobre de sonhos

mendigando pela realidade

nacos de quase nada

 

Já que o mundo está virado

o Brasil planta bananeira

no chão das banalidades

de colheitas bananosas

e brasileiros bananas

 

Do nascer ao pôr-do-sol

tu e eu ensolarados

reinventamo-nos amados

amantes amáveis

amigos amorosos

Eu e tu inflamáveis

dia e noite fogosos

 

Nem franchising

nem franquia

Nosso amor

inigualável

é único

ninguém copia

 

Enfim sós

Enfim nós

Fim atroz

Assim pós

 

Dentro de mim

ela morreu

Mas túmulo melhor

não há

que o peito meu

 

segunda-feira, 12 de dezembro

Final de tarde

saudade de antigo beijo

arde

desejo

 

Ao azul

coube o céu

 

Porque são dias lindos

os dias todos

os nossos dias

até o sol amarelou

em esplêndida explosão

E como são belas as noites

a exigir intimidade

para nossa aproximação

estas afugentam o sol

para o longínquo Japão

 

sábado, 10 de dezembro

Tenho curiosidades a teu respeito

Muitas tantas (todas!)

Penso em ti na intimidade

- nem respiro

Imagino-te no banho

- perco o ar

O instante em que prendes os cabelos

Enquanto passas cremes no corpo

Na hora em que te deitas

Teus pensamentos inconfessáveis

A serenidade com que ouves falas e lês

Quando pões aquele vestidinho de ficar em casa

e o jeito perfeito com que ajeitas as alcinhas

Existes e eu te sonho – Sonho de minhas noites

Como és? Quem és? Alguém te tem? E eu

tenho chances? Vês que eu te olho?

Sobre ti quero saber tudo 

Infindáveis perguntas – Incontáveis e urgentes

E a verdade é uma só:

- Sou o amigo que te deseja

O macho que te cobiça mulher

E que assim seja

haja o que houver

 

Sei desfazer

e não recomeçar

Ponho tudo a perder

jogo tudo pro ar

Se tiver que ser

e não acontecer

deixa estar

pra saber

como vai ficar

Quem me perder

vai me levar

no esquecer

no relembrar

Quer me ler?

Comigo falar?

Muito prazer

Vem me ver

em meu olhar

Se desentender

me inexplicar

 

Ausência de coisas

Luas vagas em céu constrangedor

sem luminosidades

Faces cegas de mulheres imunes

à exorbitância do amor

Naves loucas de deuses aprendizes

de rotas inexploradas

Negra noite sem o veludo azul

descortinando estranhezas   

Ponte pênsil sobre a fria cama

onde jazem desejos   

Fome fácil na dor física do corpo

silenciado e insone

 

Sem o mapa da palma de tua mão

não sei navegar

não faço leitura da sorte

nada prevejo

fico sem ter onde me apoiar

Ao longe acenastes

Teu adeus não mais

Estou sem chão e sem ar

 

Um só pensamento

um apenas

somente um

Ou na hora de deitar-se

ou no desjejum

Quero passar por tua cabeça

como lapso

átomo

istmo

num vruuummm

 

Eternamente enquanto estou

Eterno sou quanto sei

E ter no ser o saber estar

Ficando indo até chegar

E lá estando serei

 

Assumo

Somo

Sumo

 

Sai da penumbra

e ao sol

assombra

 

Pelos olhos escorre

líquidas luzes:

lágrimas

 

Vou só ao cinema

Minha vida passa na tela

Já vi este filme

(ou será que o vivi?)

 

Com saudade suspira

a morte do filho

fazendo ponto cruz

em bordados sem fim

 

Praia: borda

O mar na areia

transborda

       

Fala-me de amor

para que eu aprenda

lições sentimentais

E à tua e à minha dor

não se renda:

ensina-me mais

 

Também quem mandou

ter cabelos roxos

alvíssima pele

e olhos cor de mel?

Esse par de asas

em vôos diários

para o céu?

 

É pela luz

que ela me capta

me abduz

Intenso facho

a raptar para Vênus

sua espécie macho

 

quinta-feira, 8 de dezembro

O sonho (realmente) acabou.

John Lennon morreu.

$

8.12.1980

 

Saudade de John
Velha Yoko

Em New York

rasga os olhos
vendo em prantos
o Central Park
da janela do edifício Dakota

 

Tão desatenta és

que ostentas ensolarados

sorrisos em nossas noites

de tontas estrelas acesas

 

Mas para quê um chapéu parisiense

se teus cabelos com rabinho de cavalo

é a última moda em meu coração

mon amour?

 

Eu estou apaixonado

pela idéia (até que enfim)

de que serei apresentado

àquela que nasceu pra mim

 

terça-feira, 6 de dezembro

Eu ainda vou te pegar.

- Me achas insistente?

Mas dia há de chegar

em que verás cegamente

o quanto fui persistente

Não adianta se esquivar

que eu vou sim te ganhar

e serás minha somente

 

segunda-feira, 5 de dezembro

Dou-me ao futuro

até o tempo em que durar

e cair de maduro

 

A quem à-toa

me magoa:

- Calma

(numa boa)

que minh’alma

perdoa

 

                           

pelas galáxias

           ias

 

Toca pedra

vira flor

ou ave leve

Ou estátua

fincada em solo

solidão

 

É som de um violoncelo

que com teu arco feriste

o que enternecida ouviste

Tão triste quanto belo

como é belo e triste

o instrumento que não tocaste

o olhar com que me olhaste

e não me viste

 

Somente mentalmente leio

a palavra silêncio

para não quebrá-lo

Jamais se ouviu

o psiu

que nunca falo

(ou sempre calo)

 

sábado, 3 de dezembro

Em noites sem ti

andei às tontas

apagando estrelas

(Suprimi-as sem vê-las)

Nem sei quantas

Foram tantas

que as contas

perdi

 

Dá outro nome à rosa (a tua)

Pétalas se abrem (vermelhas)

Aguça-me para que eu a adoce

Possuo-a e ela de mim tem posse

A tua flor em tudo soberana

Flor putana

Flor puritana

Do lodo para vaso de porcelana

 

Ó Deus, dá-me um amor

por merecimento e precisão

(Deus, por favor

prest’atenção)

Um amor que comigo

se pareça:

amor amigo

amor cabeça

amor coração

 

Quem não quer

um poema de amor?

Qual mulher

a um recusaria

se todas são loucas

por flor

e poesia?

 

E do que tens saudade?

Da menina que fostes

e vive em ti oculta

sem felicidade?

Ou da menina que és

resistindo ser adulta

com ansiedade?

Ah! mulher-criança

teu distanciamento me alcança

Teu sol me sombreia

em mim tua leveza dança

Ser feliz anseia

Não perde a esperança

 

Esquecida de si

ela junta retalhos

põe remendos novos

em grandes rasgos

de velhos vestidos

realçando-os

Silenciosa

costura sonhos

Sua vida lhe serve de molde

Sua tristeza não sai de moda

 

E trocas o lençol da cama

e com outro limpo e cheiroso

cobres o imenso vazio

mais que de noites mau dormidas

mas de duas vidas

 

Toda a delicadeza do mundo

em ti descobri

E este segredo (bem fundo)

em meu coração cerzi

E de pensar em ti

eu o proibi

Que bruta insensatez

que remate infeliz

para meus dias de piquês

e minhas noites de organdis

 

DEZEMBRO DE 2004

 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

se viagem

de avião

é rápida?

é tiro

e queda

 

com sentir

amotinado

consinto

- amo-te

 

feliz

ano

t2odo5

 

não fujo

pela tangente

vazo na braquiária

 

nada

tem

sentido

sentir

sem

ti

contudo

contigo

em

tudo

sinto-te

 

sim e não

ou talvez

pode ser

quem sabe

que o céu

desabe

em minha

cabeça

que seu chapéu

azul

nela cabe

 

Goiás não tem mar

e se mar Goiás tivesse

seria um mar salgado

não seria de amargar

 

segunda-feira, 27 de dezembro

sois rhythm in blues

compassado coração

que em som te diluis

 

como ser imenso

se inteiro não me dou?

se para outros represento

e jamais me incorporo

como personagem de mim? 

não sei fingir sou anti-ator

a realidade é imprevisível

interpreto seus improvisos  

não decoro falas de amor

e nem de mentira sei amar

é fácil suportar a dor – não ame

é simples conviver com a falta

mas o não-amor me artificializa 

não amar o suficiente para sonhar

não amar o bastante e me seguir

amo a realidade e nela me espelho

a face absoluta da verdade do não

o não dá ao coração uma inútil idéia 

o não em cênica forma de ultimato

não olhar nos olhos da platéia

não crer no amor como panacéia

não fechar a cortina no último ato

e o espetáculo do não nunca estréia

 

quem vier de coração

assim trará o semblante

quem mostrar tal semblante 

assim estará com o olhar

quem sorrir com este olhar

assim brilhará todo o corpo

quem falar com o corpo

assim será com a alma

quem desejar plena a alma

assim chegará de coração  

 

o mais tímido sorriso 

de meus lábios escapou

indo brilhar em teus olhos

mais iluminado ficou

 

com a certeza de que não vens

mantenho fechadas as janelas

deixo as cortinas empoeiradas

debaixo do tapete a saudade

os móveis estão por lustrar

lençóis azuis e não brancos

os cômodos não vêem o sol

a esperança não habita a casa

se me fizeres surpresa e chegar

posso trombar contigo no escuro

e talvez te confunda com o mofo

ou te expulse qual a um fantasma

 

vou

mais ou menos

feliz

cada vez menos

estou

cada vez mais

sou

estou menos teu

sou mais eu

e meu

 

indo e vindo

é lindo

quando breve

leve pousas

para repousar

e mais ainda

serás bem-vinda

se finda a noite

tu linda 

desejares ficar

 

domingo, 26 de dezembro

uma palavra vale

por mil imagens

ou mais

- a imaginação faz

percebê-las sentí-las -  

então mais que visuais

são palavras senti-

mentais

palavras como amor

saudade liberdade

contêm imagens simples

únicas originais

ilustradas em cada ser

em cores de dor ou paz

à luz da sensibilidade

imagens que o coração

revela na intimidade

 

não me amas

não te amo

não nos amamos

nessa retórica insistimos

e sempre a reafirmamos

- essa inverdade mentimos

e repetindo-a resistimos

e a nós nos enganamos -

não consentindo o que sentimos

para ver se acreditamos 

não me amas

não te amo

não nos amamos

 

sábado, 25 de dezembro

 

                        pausa

                   ponto e vír

            gula para respirar

       tempo pra medir a água

     com o fubá e ver o que dá

    estar no ponto final vírgula

  deve haver um ponto incomum

     algo em comum num ponto

      essa relação está no ponto

        a ponto de revelar o fim

            o ponto sem nó(s)

               é ponto final

                  e pronto

 

     entre os meus e os teus olhos

        a proximidade e a distância

               a presença e a ausência

                   o sonho e a realidade

                       o silêncio e o grito

                           a alegria e a dor

                                o céu no chão

                                 a luz o breu

                                     nós a sós

                                     às cegas

                                     tu e eu

                                     ao sol

                                     e dói

                                   amar

                                    sem

                                    ver

                                  não

                                 ter

                                ar

                                 .

                       

diga numa palavra

todo teu íntimo

revela-te na síntese do que és

traduza-te em substantivos:

no feminino saudade

no masculino amor

defina-te entre a lembrança nostálgica

de querer rever ou possuir

e o sentimento de dedicação absoluta

a um ser ou a uma coisa

então te perceberás em teu resumo

a própria substância de ti

real ou metafísica   

e em uma só palavra serás

tudo

 

sem querer pensar

penso e dói

não querendo sentir

porque o sentir corrói

(os tidos e os havidos)

eu não os quero

pensamentos feridos

e sentimentos carcomidos

pois eu jamais os supero

eu apenas os tolero

são todos desmedidos

rechaçados e perdidos

(farei dessa dor um bolero)

por pesar de meus sentidos

um fim haverá assim espero

finca no coração a estaca zero

 

para quem é de direito

dedico-me e sou aceito

rasgo seda abro o peito

pr’essa coisa levo jeito

papo até hóstia no leito

caço briga rolo e deito

falo e faço  dito e feito

se não der eu me ajeito

dela justo meu perfeito

rompe fundo o estreito

seu momento respeito

ela se dá sou satisfeito

ela é a causa e o efeito

eu e ela amor-conceito

ambos de fato e direito

 

em meio às tuas muitas lembranças  

acrescenta também as desavenças

os momentos de desentendimento

o teu nervosismo com meu silêncio

a incompreensão de meu tanto querer-te

a saudade deste lembrar-pensar-sentir

te dará a exata dimensão do perdido

eu inteiro te pertenci único para ti só teu

entregue em olhares cândidos de amor

e ao contemplares o vazio à tua volta

não tentes preencher só com recordações

de instantes de sublimidade e ternura

nem releias meus escritos dizeres

são cantadas declarações juras versos 

mas antes depara com feridas abertas

essas cicatrizarão com vagar e dores

sendo a maior delas eu longe de ti

tu ausente em mim sem vozes e olhos     

apenas a memória de meu cheiro no ar

respiras-me no lembrar pensar sentir

e já sem mágoas põe-te a recordar

as tuas discórdias nos fizeram desistir   

 

quinta-feira, 23 de dezembro

Mansa Musa (Incessante delírio)

                                             p/ a Sra. Srta., sempre

Como meus olhos te vêem ninguém te vê

Não o corpo não só a alma ou apenas tua aura mas o todo

Por meus olhos te vejo única a passear por paisagens      

onde a primavera distribui suas alegrias em cores

e dá aos dias mais sol e a ti mais brilho no sorriso e no olhar

Te vejo caminhando pela tarde com passos tranqüilos

com calma e em paz como se chegar pudesse demorar 

porque um ao encontro do outro é inevitável o abraço

e quanto mais nos descobrimos tanto mais nos revelamos

em comunhão absoluta de vontades simples e sem ânsia 

Te descubro em meu silêncio e te ouço a sussurrar um ai

suspirando como poesia que se quer explodindo no peito

por nos falar tão intimamente como se nos desnudasse

como se um laser fino e cortante atravessasse a agonia   

A tarde traz um tom azul-esverdeado em sua moldura

Nesse quadro te enquadras como a mulher distraída

perdida em pensamentos na imensidão de si e da natureza

És tão linda criatura que tudo à sua volta respira com leveza

Encantas com teu mistério de dimensões incontidas

Por que temer que algum mal possas me fazer algum dia?

Não há como te evitar te deixar te esquecer me é impossível

Estás dentro de mim como uma coisa está em outra e cresce

Como o pólen na flor para outras gerar e assim florescerem 

em inevitáveis primaveras espontâneas estações de aromas

e de frutos verdes ao sabor do amadurecimento para outros

e outros e outros pois a vida se confirma em renascimentos

e florações proliferações fecundações e gestações de luzes

Sim a vida ilumina e em ti a vida é um clarão de raridades

clarão de belezas infindáveis uma imensa chama de mil sóis    

Tua simplicidade deixa cair pelos caminhos sementes de ipê

ipê amarelo vivo da cor da vaidade da primavera esplendorosa

que a primavera se sabe bela que rouba o sol da cena do verão

Então a primavera és tu assim esbanjando raios de encantos

Linda mulher o tempo pára o céu te endeusa o sol se constrange

ipês radiantes brotam a cada passo teu florindo tua caminhada

e marcando teus caminhos com amarelecências amarelâncias

com claridades clarezas clarões que à distância posso te seguir

meu pensamento te acompanha nessa surrealista viagem

Tudo é loucura de amor na tua presença tudo se aperfeiçoa

tudo é paz ao mirar-se em teu olhar a iluminar-se quando sorris

Meus olhos te captam única fêmea da espécie maravilhatis 

corpo para repasto de delícias mas não é só corpo que vêem  

também tua alma evolui-se na atmosfera de todos os sentidos

e tua aura foi tecida com estrelas que caem e desejos realizam

És mesmo a primavera Mansa Musa a doce e livre primavera

Se antecedes o verão então é teu o sol que ele exibe tu o cedes

Lindeza serena profusão de multi cores limpidez dos regatos

alegria das árvores seiva dos caules troncos e a plenitude do azul

do azul refletindo nas águas azul nas coisas azul da tarde límpida

azul contrastando com teu sol rei das luzes pai das cores céu azul

Em toda essa paisagem sem-fim és única frágil mulher sem-igual

Caminhas pela tarde por um caminho desenhado na imensidão

Quando te encontrar quero abraçar-te até não mais ter fôlego

Amparar-te revelando-te meu sonho impossível irrealizável

Sei que sou apenas um de teus ipês amarelos o mais orgulhoso

Ostento em mim o brilho de teu sorriso e de teu olhar infinito

Ó Mansa Musa colhe em meus braços alguns cachos de flores

Enfeita com eles teu cabelo faz uma coroa singela (das flores de mim)

É só o que tenho Imaginária Amada para ofertar-te meu sol primaveril

Semeado por ti brotei de tuas mãos cresço em teu amor e por ti floresço

Vertical te vejo (meus olhos apaixonados te vêem como ninguém te vê)

Eu humildemente teu com a lealdade simples de quem para ti se dá ipê

Louco de amor deliro e amando-te febril só a imaginação em mim crê

 

para quê telhas 

em nosso teto

se temos estrelas

a nos cobrir

e podemos vê-las?

se ao contemplá-las

antes de dormir

podemos contá-las?

 

quarta-feira, 22 de dezembro

o olho olha

pisca

o olho gosta 

isca

o olho prende

visgo

o olho chora

cisco

o olho solta

vesgo  

 

drummond

drum     n bass

drum

        mundo

        mundo vasto

dru mmond

 

                      este simpleszinho aqui foi escrito especialmente para ti menina

ela?

por ela caio em queda livre

em emoções que nunca tive 

preciosa ela é demais

rara mina de Goiás

ah! ela é a coisa mais linda

que há

(ela é assim 

pelo tanto que me inspira)

como o Salto de Corumbá

e o Salto do Tiquira

 

um quase-blues

de harmoniosos improvisos

solos lamuriosos

melancolia melodiosa  

não chega a ter o sol de um jazz

e nem é tão sombrio

é um som enternecido

que esmaecido meu coração

perde o sentido

em minha cabeça bate emoção

 

cesso

a calma e mergulho

fuço

em todo entulho

faço

atordoar o barulho

peço

licença em julho 

meço

palavras mas pulho

caço

os reis do esbulho

traço

sem muito arrulho

moça

deixa de orgulho

 

carece que nossos corpos peguem fogo

e que esse fogo se expanda a outros seres

em chamas rebeldes ávidas por se espalharem

queimando trajes estorricando armaduras

fazendo arder nossas epidermes e pêlos 

purificando-nos a todos em inflamante renascer

dilatando poros até o frescor da carne viva

com suas brasas cauterizando feridas 

e que nossa luz seja de intensa claridade

luminescências iluminâncias fosforescências

lumes no chão quais estrelas andantes  

em combustão atormentada de luz e calor

corações energizados em paixão ardor fervor

 

segunda-feira, 20 de dezembro

bebo em teu açude

água açucarada

mel viscoso

melado desejo

meloso querer

doce rainha das abelhas

mulher a vigiar seus favos

vou ao centro de tua flor

colher o pólen frágil

para o fabrico de néctar

de tua colméia sou

 

água...

da cachoeira de teus longos cabelos sobre meu peito

terra...

de teu corpo onde me planto para nossas florações 

ar...

de tua existência a me dar vida para novas delícias

fogo...

de teus desejos a desorientar minhas bússolas

és tu amada a junção perfeita dos quatro elementos

que juntos lapidam e dão forma aos sentimentos

 

me dá tua lua

me dá tua órbita

quero habitar-te

em ti quero fazer arte

por toda parte de ti

bebo da via láctea

enfrento o calor de marte 

vou  a pé ao oiapoque

dou um pulo ao chuí 

me dá tua nascente

me dá tuas correntezas

quero inundar-me

fazer soar teu alarme

todo o teu charme sentir

comer da fruta o azul

deixar que me desarme

e em alvo lençol tua paz  

meu coração explodir

 

ou

ou

tece

ou

viu

ou

ou

in

ou

out

ousar

ou

sou

outro

ou

trem

 

criatividade

criatividade

criatividade

criatividade

criatividade

criatividade

criatividade

criatividade

criatividade

criatividade

criatividade

 

minha terra tem palanques

minha terra tem palavra

minha terra tem palavrório

minha terra tem palavrão

minha terra tem palhaços

minha terra tem palácios

minha terra tem palafitas

minha terra tem palhoça

minha terra tem paupérrimos

minha terra tem paladar

minha terra tem paladinos

minha terra tem paládios

minha terra tem palatite

minha terra tem palmadas

minha terra tem pau-terra

minha terra tem pau-a-pique

minha terra tem pau-d’água 

minha terra tem pau-de-arara

minha terra tem pau-de-sebo

minha terra tem paulada

minha terra tem paulicéia

minha terra tem paulista

minha terra tem pau-mandado 

minha terra tem palmito

minha terra tem pauteiros

minha terra tem palpiteiros

minha terra tem parteiros

minha terra tem palomas

minha terra tem palonço

minha terra tem palpação 

minha terra tem palermas

minha terra tem palestra

minha terra tem palmeiras

só não tem mais payayá

e sobra pa-ta-ti-pa-ta-tá

 

frases soltas para a amada imaginária

       (quando o sonho manda recado)

sonhei contigo e em sonho te escrevi:

posso te fazer uma confidência?

quero gostar de ti

sei que estás à altura de meu sentimento

como sei que se não corresponderes ao que sinto

e eu ficar persistindo insistindo resistindo ao teu não  

é sinal de que não estou me amando o bastante

como realmente sou

quero tentar me relacionar contigo

estou atraído

mas se me evitares 

se recusares meus desejos de aproximação

se não demonstrares reciprocidade

o melhor que terei a fazer

é partir pra outra aceitando a negação

dou a mim o direito de novas escolhas 

busco o melhor para minha vida

sou e serei responsável pelo que há de vir

de minhas iniciativas tentativas e decisões

se não perceber em ti interesse algum

também não ficarei estacionado

à espera do impossível

daquilo que me negares

aquilo que não me entregares

se teu amor jamais me pertencer

estarei de olho em minhas emoções

saberei a exata percepção do que sinto

de como estarei diante de mim

o que na verdade estou buscando

para minha felicidade

alguém me disse que por me sentir inseguro

e amedrontado com possíveis envolvimentos

tenho tendência a buscar amores impossíveis

em garotas que também são inseguras e medrosas

se não me amares e como conheço tuas dificuldades

talvez seja mais fácil conviver com as tuas que as minhas

se não me desejares não corresponderes ao meu sentir

secarei em mim o sonho de te dedicar meu louco amor

quero saber se teu terreno afetivo é fértil ou não

quero sim gostar de ti mas não ficarei preso a este querer

fecho comigo em tudo e manterei minha energia livre

se não corresponderes à esperança de te ter plena e feliz

se insistires na atitude de te manteres ausente na distância

sem me olhar nos olhos e sequer me permitir cortejar-te

saibas que se não me quiseres me perderás de vez 

que não me manterei aprisionado a ti e nem a ninguém

que se não me deres a certeza de que o amor que me darás

é no mínimo igual ao que sonho e mereço e posso receber

e se não me realizares se não fores capaz de me amar

também não me impossibilitarás de atrair outras moças

que meu pensamento não é de se perder nas impossibilidades

não vou me estagnar não penso em ficar sem ação

abrirei mão de ti e da situação que acaso eu criar

poderás ir encontrar-te a ti em tuas buscas sem trégua

(quem sabe eu sofra) ambos nada estaremos perdendo

serei seta serei alvo reagirei com a imediata ação de saber-me

capaz de encontrar o que melhor convier à minha natureza

hei de desejar um sol com energia positiva em meu dia-a-dia 

sei que dentro de mim sou um universo emocional sob controle

alinhando-me a outros universos externos sem que nenhum eclipse

me ofusque diante da falta que possas me fazer se nos perdermos

pensarei muito em ti com certeza e esse tanto pensar estancarei 

darei direções alternativas ao pensamento com ares de obsessão

nenhuma idéia fixa é mais forte que minha vontade

farei amizades trabalharei mais buscarei prazeres risos diversão  

abrirei meu círculo e podem falar que é fuga que é refúgio

que sou um ator que interpreta mal e finge pior ainda

não me importarei deixarei que defendam teses absurdas

um dia não sei precisar quando estarei pronto e então quem sabe

uma menina de cabelos longos e vestido solto surgirá qual ave

qual árvore depois da chuva toda contente e me reconhecendo

tão linda quanto tu assim perfeita como te vejo e te anseio minha

quero gostar de ti repito quero sim e como quero

mas se não me quiseres me digas imediatamente preciso saber já

se disseres não darei por encerrado um ciclo uma fase 

então nada fará sentido não serás meu eclipse a me tirar a luz 

meu destino quem faz sou eu minha história terá final feliz

quero amar alguém como jamais amei ninguém e te aceno

há muito te capto em meio à multidão e na tua e em minha solidão

estou decidido e saberei escolher se me disseres um sonoro não

que não me queres que te é impossível que és despreparada

e ainda que chores ou não que te arrependas ou não algum dia    

te olharei pela última vez como homem que te ama e te quer

e a partir de então não haverá limites para minha expansão

tudo que planejo fazer a teu lado continuarei fazendo por mim

e há tantos caminhos e todos eles se oferecem abertamente

que mesmo querendo muito gostar de ti amar-te como nunca

te deixarei para trás e jamais ouvirás dessa boca que beijastes

palavras inspiradas em um amor que só eu tenho e que é só teu 

esse amor que estou te oferecendo pois eu quero e como quero

eu quero muito gostar de ti agora e sempre tu e eu sermos um

ou caso contrário deixa que no espaço imenso eu me dilua no ar

livre sereno tranqüilo e simples como meu sonho de amor     

mas se tua última palavra me contemplar com um alegre sim

põe aquele solto vestido de alcinhas e abre um sorriso de sol

inaugura em meu sentir toda a certeza que haverá novas manhãs

 

segunda-feira,  20 de dezembro

se o que sentes somente tu sentes

e o teu sentir não tem reciprocidade

assim querer ser feliz nem tentes

não entres para o rol dos viventes

que amam sem nunca ter felicidade

 

sentir sozinho é por demais doloroso 

nunca terás a quem sonhas para ti

o amor que dás é muito e precioso

abre teu coração és um ser amoroso

e em breve um meigo olhar te sorri

 

sabes que mereces viver a alegria

de sentir no peito um doce palpitar

um amor só teu darás à tua poesia

uma musa que te ame em sintonia

e que por ti amada há de te inspirar

 

ambos apaixonados a grande graça

de vidas unidas em corpos ardentes

a esperança em sonho vem te abraça

se agora sofres acalma-te logo passa

esquece o que sentes e só tu sentes

 

domingo, 19 de dezembro

ela e eu:

amigos

nada mais que amigos

grandes amigos

verdadeiros amigos

simplesmente amigos

realmente amigos

leais amigos

em tudo e por tudo amigos

acima de tudo amigos

inconfundíveis amigos

eternamente amigos

ternamente amigos

apenas e tão-somente amigos

somos amigos

para ela amigos

amigos

eu?

 

senhoras & senhores

nesse exato momento

um passarinho do deserto

(tão raro isso por lá)

pousou sobre a tampa

de um tanque de guerra

(são tantos e tantos que há)

o passarinho assustado

nem sabe (ou não tem)

direção pra onde voar

sua fêmea e filhotinho

devem estar em Bagdá

têm um ninho na romãzeira

da casa de um Muamar

mas antes se hospedaram

no galho de uma oliveira

em Teerã no centro velho

no palácio de um Aiatolá

o passarinho aturdido

já nem sabe o que é cantar

mas conforma-se o pequeno

no tanque de guerra pousado

ouvindo um soldado chorar

consternado o pobrezinho

ergue os olhos na miragem

e no oco de fundo azul 

pede paz a seu alado Alá

 

amor anônimo

amor desassistido

amor jogado às traças

amor desnutrido

amor abandonado

amor anêmico

amor posto de lado

amor esquelético

amor indigente

amor internado

amor nas últimas

amor em coma

amor consumado

amor morre à míngua

amor adeus

 

um litro

de lágrimas

a dois metros

de distância

três litros

de suor

na corrida

de 100 metros

quatro litros

de urina

é xixi

pra mais de metro 

cinco litros

da pura

para os atores

da metro

 

micro-f

efe mínimo

pequenininho

pequeno no ninho

firme forte & frágil

fri

    end

 

em tempos como ora vivemos

para que serve o amor

senão para criar desilusões

de uma força que nunca temos?

se quer que nos escravizemos?

se entrava o que não fazemos? 

respeitemos o amor – nos dizem

nos dizem? -o  amor respeitemos

por respeito nós o tememos

pois se não o adulamos sofremos

e tudo o que damos perdemos

nada somos e nele nos vemos 

à razão de ego-amor nos amemos

 

trago sons

cheiros gestos 

visões de ontem

lembranças soltas

saudade de tudo sentir

estou livre no vazio do eu

encontrando-te fora de mim

são oferendas que te deixo:

cheiros impregnados na memória e silêncio

gestos de uma sutileza inesquecível

visões de um tempo passado sem volta

e versos – que se assim não fosse nada seria

fica contigo no abandono de ti por conta e risco

estou bem e nem é tanta assim a falta que sinto

ainda que eu ande sem lugar e sem sono por aí

porque nunca tive não posso achar que perdi 

 

memórias se multiplicam

uma puxa outra e a meada tem fio

tem começo mas é infinita lembrança

das idéias: achadas perdidas inexeqüíveis  

as impressões ficam remanescentes

conhecimentos intransferíveis

recorda – mas acorda

projeta – mas desperta

a vida é já – a vida já é

 

pode o amor hibernar?

sobreviver em eterna gestação?

se manter em estado de dormência? 

resistir a si mesmo para ainda saber amar?

ou desfaz-se entorpecido letárgico

inibido para novas experiências?

estará meu coração em sono de inverno

ou dormindo relaxado e sem ação?

terá o amor suficientes reservas para reagir  

e muitas e outras vezes amar e desamar?

tem vida própria o amor ou depende de mim

ao amor dar vida e todo amor vivenciar?     

sigo-me em toda minha profundidade

ou para um dia do repouso amoroso emergir

ou então não-amando jamais querer voltar

 

sábado, 18 de dezembro

notas caligráficas

“Temos a arte para que a verdade não nos destrua...” Nietzsche.

quer coisa

mais distante

que um ou outro

ou mesmo o próximo

instante?

quer coisa

mais constante

que essa ou aquela

ou ainda a lunática

minguante?

quer coisa

mais importante 

que tudo ou nada

ou seja o paradoxo

irrelevante?

 

a flor

as mãos da flor

as pétalas são os dedos

 

um nome um nome apenas

denominando sob seu domínio

a identidade de sua natureza

um nome um nome nada diz

não traduz a alma de quem o tem

não dá face a alguém não o revela

um nome um nome inanimado

personificado no anônimo de si

dando personalidade a ninguém

um nome um nome perfumado

irradiando insignificâncias do eu

eu me chamo do que me chamam

e me chamando eu sei quem sou

um nome um nome a menos

 

se uma estrela sangra

sangra luz

e sangue em forma de luz

não só mancha como ilumina

e iluminando dói

a dor de uma estrela sangrando

dói de esclarecer a loucura

da hemorragia estelar

 

é uma biblioteca sem-fim

essa cabeça

todos os livros relidos

arquivados na memória

que já nem sabe se a vida

é literatura pura

apenas mais uma história

objeto fechado na estante

aguardando ser folheada lida

e em leitura vivida

 

entro na escrita

estou do lado de dentro

ela em mim se habita

eu nela me concentro

um no outro se excita

ela grávida de mim

escrever não tem fim

 

john oh! john

cara

quanta imaginación

 

não se precipite

o dia é um convite

a seguir seu script 

ir à-toa pela city

pede-me: me evite

ok baby estou it  

fique bem acredite

vá saia curta agite

não esqueça o kit

 

o son(h)o

não me deixa

dorm(ir)

 

sexta-feira, 17 de dezembro

então amor

tem prazo

de validade? 

uma vez vencido

perde o valor

não vem ao caso

não faz sentido

é nulidade?

cai em desuso

vira intruso

futilidade

pura cascata?

amor então

tem sua exata

duração?

também tem data

de fabricação?

tome ciência

e todo cuidado:

amor prescreve

cessa o efeito

e adulterado

e sem vigência

por precaução

e contra-indicação

não o conserve

derrancado

dentro do peito

no coração

 

como se de repente as pedras

- sim as pedras

se movessem sentimentais

em movimentos contidos 

e já nem tão minerais

sentissem um peso no peito

de uma dureza abstrata

de uma solidez concreta 

em espasmos de saudade

saudade é bruta e lapida

saudade de nunca mais

as pedras arrependidas

pedras loucas comovidas

eternas e umbilicais

negando a natureza

de rijos ancestrais

as pedras alicerçadas

em razão apedrejadas

compenetradas demais 

pedras pedras e pedras

lascadas fragmentadas

lunáticas e integrais

matérias diamantíferas 

racionais e irracionais

nos reinos encravadas

em cometas estilhaçadas 

em espadas e castiçais

as pedras seres moventes

sensíveis berços cavernas

travesseiros para cabeças

as tais pedras filosofais

pedras loucas de pedra

pedras fundamentais

dão sopa para o adeus

e fincadas se silenciam

nas lápides sepulcrais

 

[algo de pele

coisa que sele

e nos revele

e a ti impele]

{de mim zele

e nos atrele

e nos anele 

o sol não gele}

(e nos nivele

perto ou tele

que eu te mele

ó mademoiselle)

<não me cancele

musa nouvelle

exausto me vele

leve e suave Giselle>

 

quarta-feira, 15 de dezembro

ela é de lua

ela é de noite

ela é de mel

 

cabeça

tronco

des-

membro

 

ando calado

ando pensando

tenho andado

silenci-

ando

pens-

ando

indo estando

chegando ficado

 

nada vale a pena

quando a alma é pequena

- o que é uma pena

apenas

 

com

companhia

companhia

sozinha

sozinha

 

terça-feira, 14 de dezembro

dois poeminhas pra Isabela

  (mas são dela, só dela, da Bela e da Bebela)

I)

Já nem sei se Isabela é a Bela

ou se as duas são únicas na Bebela  

Só sei que ela é uma e a outra é ela

e que seus dois apelidos e o nome dela

cabem direitinho e bonitinhos nela

 

É que o nome Isabela tem um belo som

e Bela é belle belíssimo e fashion

já Bebela é um bibelôzinho um ronrom

de gatinha na net toda line toda on 

seu e-mail é bebela@hotmail ponto com

 

II)

Eu vou escrever pra ela

mas não vou postar no correio

ela me mandou o endereço dela

e eu não posso fazer feio

pois o endereço é eletrônico

e ela quer receber um e-mail

de um jeito zuuumm supersônico

pra ela voltando do jeito que veio

rápido rapidinho rapidíssimo rapidão

quase na velocidade da luz e do som

Digito o e-mail teclo enter ‘tá na mão

da bebela@hotmail ponto com

 

queria um adeus sem lágrimas

mas por um grande amor como não chorar?

e depois tem as lembranças

aquela aflição quando a esperava

em raros dias e furtivas noites

mãos suadas respiração ofegante 

o descompasso coração e mente

mas quero o fim pois nada será nunca

não há centelha em seus olhos

ela é opaca para a poesia da vida

e um amor não é quando não quer ser tudo

então a liberto para que dela me livre eu

estou resolvido a deixá-la ir

amores se acabam seres desabam

sensações de perda deságuam 

em sorrisos que não mais se encontrarão

em sonhos que jamais se realizarão

na saudade que dói com falta de ar 

no frio no vazio na ausência no ser só

nossa despedida é um não ao futuro

ambos choramos apagados no escuro

queria um adeus sem lágrimas – eu juro!

 

sobrevive a ti Carlos

e de ti viverás de novo

o que em ti é novo viver

em ti não revivendo o desespero 

não morras de angústia não te mates

(contra tua própria vida não atentes

vivifica-te e que só resistir tentes)

vencendo em ti e por ti teus embates

só assim Carlos suportarás o que sentes

pois sofrer por amor é arrastar correntes

 

teu não é o amor

tu sim és do amor refém

ele te doma domina toma

de ti se apossa e a ti se impõe

capaz de ser a um só tempo

êxtase e dor sorriso e lágrima

amor que te possui ou para te ver fluir

ou te fazer ruir e te deixar sem ar

sem chão e lugar pra onde ir

amor que te exige perplexidade

podendo em troca te dar felicidade

sendo a primeira para a eternidade

e a outra um flash de fugacidade

 

segunda-feira, 13 de dezembro

chuva

de incontáveis pingos

não cessa

e sem estio

inunda

chove

a vida toda

toda a vida

e tudo úmido

mofa

apodrece

dá fungo

lodo

barro

lamaçal

é esse dilúvio

metáfora de amor

de amor sem sol

que dói de nunca vingar

raízes

 

se te amei? amei

e só não te amei mais

porque já te amava demais

e de mais amar seria incapaz  

era a ti que eu mais amava

como jamais poderia amar

como ninguém te amará jamais

amar amei e tal amor ficou pra trás

deixei de amar pra recuperar a paz

 

eu

um deserto imenso

pelo que não sinto

e penso

em ti

um deserto imenso

no que sinto

e não penso

sou eu

teu deserto

imenso

 

por todos os poros

por meu par de olhos

luzes cheiros cores sons

tudo entra em mim 

percepção de ti

faro de fera com fome

tudo em mim te reclama

a cada segundo

e em ti me firo e finco

em mesa-banho-e-cama

te marco te fundo

acende-se a chama

da pira do mundo

 

prisioneiro de si

ouve

espírito liberto

a fuga de Bach

 

namoro

namoro

namoro

namoro

casamento

casa

  asa

      ame

 

deve ser bem bonita

a história de tua vida

pois só é escrita

não para ser lida

mas por ser vivida

 

em água mole

pedra dura

quando bate

faz círculos

 

sexta-feira, 10 de dezembro

faz

um

bom

tempo

que

não

faz

bom

tempo

 

deus é simples

ainda que dividido

em três santidades

deus é simples

ainda que sua lei

tenha dez pedras

deus é simples

e que seu filho

tivesse doze apóstolos

deus é simples

e tenha ouvido cantar

três vezes o galo

deus é simples

e de boa fé traído

por trinta moedas

deus é simples

e crucificado e morto

aos trinta e três anos

deus é simples

e que em volta de si

dêem mil voltas

deus é simples

 

a fêmea e o macho 

e toda a obra

o paraíso veio abaixo

no rastro da cobra

a mulher tem facho

a tudo manobra

até o diabo (diacho)

a danada dobra

seu homem: capacho

deste restou só sobra

 

           amar-me

desarmar-me

   amar-te

 com arte

 sem ar

 

sem ti 

            não vôo 

                          pássaro de uma só asa

                         ) no centro das costas (  

                                        sou

 

- se calado me castigo

ela fala baixinho comigo

me chama de bom amigo

escuta o que em silêncio digo

- se me mostro triste

ela não desiste

brinca com dedo em riste

e sorrindo ainda faz chiste

- se demonstro timidez

ela se desinibe de vez

conta piada de português

vira boba da corte cortês

- se me sinto sozinho

ela me é toda carinho

em seu colo me aninho

sou tratado qual passarinho

- se acaso tenho medo

ela se chama padre Quevedo

mostra poderes pede segredo

me convence e eu cedo

- se valente me julgo forte

ela me dá todo suporte

em minha força dá um corte

e exige que eu me comporte

- se imponho habilidade

ela com serenidade

me aponta mais humildade

para a minha capacidade

- se me acuso incapaz

ela de um a tudo faz  

diz que me acha demais

“és bem talentoso ô rapaz”

- se amanheço com pressa

ela diz “não se estressa 

pois a vida é o que interessa

e viver é bom à beça” 

- se me transpareço impulsivo

ela me dá mais de um motivo

pra eu ser mais compreensivo

menos cego e mais reflexivo 

- se de tudo me sinto de fora

ela faz blague: “ora ora

quem te viu e te vê agora

te vendo assim até chora”

- se eu não tivesse essa garota

(ela em mim é mesmo douta

igual a ela não há outra)

eu viveria na bancarrota

 

quinta-feira, 9 de dezembro

VeRsOs MeUs TãO sEuS

quero um bem

alguém que me faça

me sentir poeta

cupido a fim

de lançar a flecha

 

ter

não querer

perder

deixar escapar

ficar sem alguém

que coisa - que troço

que treco - que trem

ela teve e não tem 

ela não quis um bem

perdeu sem nenhum porém

deixou fugir do harém

ela ficou sem ninguém

e eu também e eu também

 

ser só

ficar só

estar só

seguir só

antes só

só agora

só depois

só eu

mais só

que Deus

entre nós

dois

sou só

só sois

 

como a despetalar

uma flor qualquer

ele espreme cravos

no rosto da mulher

“sim-me-quer

não-e-não-me-quer”

essa negativa dói 

no ego do voyeur

unhas cravam a face

de seu meigo affair

que esperneia e grita

“não toque nas espinhas

e fecha esse fechecler”

 

por não tê-la

és estrela

por não te permitires

és arco-íris

brilhas distante

e fazes uma ponte de cor

inatingível

                 intransponível

me és impossível 

amor

 

o que de melhor podemos

saber de e sobre nós

ainda não aprendemos

com o tempo

vamos nos ensinando

até que toda sabedoria

confirme nosso amor

como eterno aprendiz

 

quarta-feira, 8 de dezembro

aqui em casa sorrimos 

pequenas flores vicejam

em vasos espalhados

por todos os cômodos

ela tem mão boa

faz o verde mais verde

e dá beleza aos dias

com sua serenidade

é tudo muito simples

a partir de seu olhar

o que ela sonha sou eu

e eu me realizo nela

habitados pelo amor

nossa casa é doce ninho

a ternura me faz abrigo

eu moro nos braços dela

 

terça-feira, 7 de dezembro

de noite

assim que deito

é teu meu último

pensar

aí amanhece

e é em ti

que primeiro penso

ao acordar 

 

não

Nero não era

a fênix

 

penis

et

circence 

 

vejo coisas

que ninguém vê

que se não visse

não estaria de olho

no invisível

 

o tempo

não sara

paúra

a cara

o tempo não

cura

então chora

o tempo não mel-

hora

 

gosto de te tocar com o pensamento

a imaginação viaja em teu corpo

a seda de tua pele

teus lábios: carne de maçã

a textura de meu tato te arrepia 

abrem-se teus poros exalando cio

capta-te meu faro sensível 

de longe te toco – inebriada

minha voz cicia o som do desejo

e te alcança para silenciar-se

silenciar-te na exaustão do prazer

tu que és sonho irrealizável

imaginária mulher que acaricio 

na distância   

 

deita-te comigo nesse tapete

fecha os olhos sinta-me e dê-se

à leveza de falas intraduzíveis

prepara-te para o vôo

mil noites em uma

será mágico

nós dois

 

eu

virtual

sou

do signo

de pixels

 

a ordem

das letras

não altera

o alfabeto

 

go

home

mulher 

 

me

i

os fins

 

{escreve

de zerum a dez}:

u

do

tre

quat

cinco

[só o número do meio

tem o número de letras

correspondente ao número

que é]

 

ou

ou

ouve

ou ouvê

 

não quero

- mallarmélado

un coup de dés –

prefiro

um copydesk

 

look

my e-

book  

 

ela se insi

nua

a in

vestida

 

segunda-feira, 6 de dezembro

se já não podes

conciliar teus sonhos

com noites difíceis 

mantém-te acordada

na incapacidade do sono

que noturno te aflige

 

lá vem ele

com mais um poema

(poema numa hora dessas?)

mas acaso te importuna o poeta?

é inoportuno seu poema?

não é momento para versejar?

a realidade é tão dura

que às vezes custas a crer

que um humilde poeta

essa anônima criatura

possa desconcertá-la

com uma simples

uma simples palavra

de sua sensibilidade

estás perdendo a ternura?

pois cuida que ela é necessária

um supérfluo de azul sentir

ou de mera imaginação 

ó a inutilidade de um verso

não é pão não alimenta

se lido é incompreendido

por teu espírito desnutrido

ó a impossibilidade de um poema

resgatar em teu coração a luz

do sentimento etéreo – o amor

ah o poeta enfrenta de frente

seu sentimento sem sentido

lá vem ele poeticamente perdido

com mais um poema aturdido

 

domingo, 5 de dezembro

diante de mim

não sou eu comigo

sou outro que não eu

aquele que me supunha ser

e que agora me vendo vejo

não ter nada a ver

estou à minha procura

escondido disfarçado

catando meus pedaços

fugindo de minhas caras

fingindo estar de máscaras

eu sei que sou como todos

pois ninguém se vê em si

sou um pouco de cada um

em tudo que de mim perdi

em mim eu me desencontro 

comigo sou meu confronto

 

respirar

respirar pra não perder o ar

respirar sem se contaminar

respirar e se purificar

respirar e quase voar

respirar e se inspirar

sem parar respirar

ao se irar respirar      

respirar por respirar

respirar pra não pirar

ou até expirar

 

estamos entendidos

não vivemos entediados

 

uma vez

dentro da vida

vivê-la com acertos

e erros

certezas e dúvidas

tristezas e alegrias

amores e desilusões

até que a morte

chegue

e nos conte

nos mostre

tudo

 

desabitua-te de ti

desabita de teu ser

desorbita teu espaço

desabotoa tua couraça

desabrocha tua flor

desacata tua timidez

desafia teus limites

desafina teu sim

desfaça-te de mim

 

não tenhas receio

do que possa haver

no meio

se a alma é o esteio

o corpo só pode ser

o recheio

 

a língua passeia

pelas pétalas

da flor sensível

ela se aflora

febre primaveril

ela explode

primavera febril

vulcão de gozo

abala o corpo

a terra treme

exala sêmen

espalha pólen

e geme

 

nada de

consoantes

vogais

 nada de

vogais

somente

consoantes

vogais ponto con

soantes

 

quinta-feira, 2 de dezembro

Veja que presente legal a Rompe Nuvem ganhou da Adriana Almeida

(a assinatura é só uma feliz coincidência), do Rio de Janeiro. Valeu!

 

 

o sono está longe de tua cama

também teu corpo não o aceita

contigo o sono não se deita

qual um deus a evitar o culto

tua cabeça não quer descanso

idéias fixas povoam tua noite

sentimentos confusos pesam

o ar irrespirável dessa redoma 

atravessas a noite da insônia

em encontros irreais de fuga

em tua ilha de desassossego

ó inquieto zumbi das sombras  

 

anônima te nomeio

árvore libélula água pedra

te denomino tudo

toda espécie que há

desde as já extintas

és em ti uma quase-coisa

mínima máxima indivisível

mulher-ambiente natural

signos códigos senhas

impenetrável criatura

em meu inexistente eu

 

transgrida-te e ame mais que a ti

o outro que te busca sem norte e bússola

e que possa o amor oferecer-te não o egoísmo   

mas um horizonte de doação ainda que imperfeita

que amar é arrebentar-se na pedra do ego liberto

amar é perder-se dentro para só depois recomeçar

  

onde estão tuas asas?

na leveza do pensamento

em ares espaços ventos

de imaginários confins

além do que possas sentir

ou sofrer com teus vôos?

 

quarta-feira, 1 de dezembro

nossa convivência

passa em câmera lenta

a última folha cai da árvore que sou

árvore ressequida à beira da realidade

sem raízes que me prendam a solo algum

agora que sei o que pensas como me sentes e me vês

estou transtornado (sou todo imperfeições)

sem lembranças de alma em meu corpo

sem lágrimas sem visões belas sem olhos enfim

pois concluo não ter sido frutífero

sombra não dei nem sou madeira de lei

uma árvore apenas ao acaso cuja lenha ao fogo

enfumaçará tua casa onde tive portas abertas

à qual hoje me vejo indigno e perdão (mil vezes)

se meu espectro ardil a profanou

todas as folhas juntas tombadas ao pé de mim

ao vento no tempo sob sol e chuva serão adubo um dia

ou apodrecidas me seguirão até o abismo do nada  

agora que sei o que pensas como me sentes e me vês

perdoa-me outras mil vezes e por favor mais uma vez

que perdoado me sentirei menos imperfeito talvez

nessa hora em que cai esta última folha – a do adeus

 

falo a verdade

minto: calo

sinto inverso

em verso penso

verdadeiramente

pensando e sentindo

falando ou calado

o poético pensar

não dói mas cansa

e o não sentir-te

é inversamente

desistir de mim

 

tive uma idéia

mas a deixei

passar

achei melhor

não a ideal

izar

 

se volta

e

meia

estás

em vai

e

vem

ainda

vais

na ida

ou vens

na vinda?

 

para me amar

te amar

que amando-te

me amo

e amando-me

amar-te

 

amando-nos

te amo-me

me amo-te 

te amo no amor

em mim

me amo

no amor em ti

 

separe

o que é

do que não é

o que não é

do que é

e que sendo

é e é

é não é

não é não

é e não é 

o que é não

não é

sim

 

claro que eu resisto

lógico que eu desisto

há muito não insisto

já fui mais benquisto

desenvolvi um quisto

se deixarem despisto

só perco se conquisto 

é a nudez o que visto

me pegam para cristo

e este tal de mefisto?

é misto e não é mixto

não quero saber disto

será que eu existo?

 

olho a parede branca

por muito tempo

o tempo todo

e vejo a tua aura

o teu contorno

a tua simetria

o teu reflexo

um vulto teu

na alvenaria

na alva parede

clara metáfora

para o que nos separa

eterno é o dia

e a noite não é clara

 

coisas de pele

pêlos poros

lampejos de desejos

cheiro perdigueiro

babo vadio meu cio

perambulo viro caço

não controlo extrapolo 

e se acaso se apaixonam

não não me aprisionam

dou colo não amolo

tratou relou eu traço

apronto o maior regaço

e se é amor o que faço

um abraço

um abraço

 

que o nada           

 

nos separe

 

as improbabilidades

de dar certo

de acontecer

de acreditar

e sonhar

mas é improvável

sempre será

certo não dará

jamais acontecerá

não acreditarei nunca

e já não sonho mais

 

um brado redundante 

às margens lúcidas

de rios de pleonasmos

sobem e descem

pra cima e pra baixo

espermas líquid’orgasmos

 

se não tem explicação

descomplica

aplica a simplificação

se é sim sim

se é não não

dê poderes à razão

não alforrie o coração

 

maçã bichada

na manhã do paraíso

eva muito levada

desconsidera o aviso

morde a fruta estragada

- ê mulher sem juízo

 

DEZEMBRO DE 2003

 

sábado, 27 de dezembro

 

da série “pequeninos como quê”

 

1)

e eu quase

mas passou

foi uma fase

 

2)

vaias vogais

- aí ó

- é

- uhhh!!!

 

3)

deus dorme

um sono

enorme

e sonha

seu mundo

uniforme

que deus

dorminhoco

se conforme

 

4)

agora sabe

porque a cabeça

anda pesada

há um coração

mental

pulsando no eletro

encefalo

quilo

 

5)

se passa

não passa por mim

não fica comigo

mas passa

e sua passagem

deixa sóis

ao derredor

 

6)

tudo novo

ainda que seja

tudo de novo

é o que deseja

quem te deseja

novamente

sempre renovado

com amor inovador

e novidadeiro

 

7)

ainda bem

que não disseste

por mal

pois que te dou

açúcar

e em mim

procuras sal

eis que te ofereço

afago

enquanto buscas

o outro lado

de minha face

para tua palmada

és louca

contraditória

e tão paradoxal

mas és amada

como tal

teus gestos

teus atos

nunca têm intenção

estás perdoada

desde já e sempre

por antecipação

 

8)

as letras do alfabeto

em desordem formam palavras

que ordenadas dão liberdade às idéias

que expressam não necessariamente nessa ordem

literal e literariamente pensamentos & sentimentos &

 

9)

à flor da pele

espinhas

 

pões para fora

tuas asinhas

 

me fazes sentir uma

de tuas ervas daninhas

 

temos almas gêmeas

ou são apenas vizinhas?

 

 

¨

 

mais um poema

e nada resolvido

de bílis a lirismo

a lótus o estanho

e o poeta exausto

transpirando sais

 

outro poema lido

e nem sabes dizer

onde quando como

tantos porquês em ti

e tudo é inexatidão

nesses versos em vão

 

¨

 

brincando

com poucas tintas

esbocei a cara de van gogh

seu retrato com fundo amarelo

e tonalidades verde-vermelhadas

no lugar da orelha que faltava ao holandês

pensei em pintar um moinho mas brotou um girassol

um girassol na fenda de um dique iluminando com seu regalo

 

 

sexta-feira, 26 de dezembro

 

fechei os olhos

apaguei as luzes

entrei na caverna

de meu interior

tateei no escuro

pontos luminosos

de interrogação

toda pergunta

me esclarece

tudo fica claro

se me questiono

sem respostas

é que me acendo

nas dúvidas brilham

insanas questões

de um eu simples

sem nada saber

cego de tanto ver

para querer crer

 

b

 

clave:

 

toda manhã

o co-co-ri-có

de meu galo

é em sol

maior

 

b

 

se erro

no que sinto

e ganho dor

o conceito

do amor

em labirinto

não encerro

- minto

o enterro

é extinto

 

b

 

por te perderes

de mim

ao me deixares

(ou ficares)

para trás

não me recuperas

mais

jamais

 

b

 

risquei do mapa

teu estado de espírito

e agora vivo em estado

de sítio

 

b

 

sutiã

peça nada sutil

para teus sublimes

horizontes

oh amada

doce alma minha

 

b

 

aos quatro ventos

nas quatro estações

nas quatro semanas

trevo de quatro folhas

dos quatro lados

em três por quatro

nos quatro pontos

te quero de quatro

em meu quarto

num quatro cômodos

 

b

 

desfolho o trevo

de quatro folhas:

bem-me-quer

mal-me-quer

bem-me-quer

malmequer

que sorte

 

b

 

ouça

no último volume

meu olhar

e se acostume

a ver silêncios

 

b

 

em mim

acordes

um eu

sem ti

sem dó

em si

com sol lá

em mi

 

b

 

não sou

o homem

do pau brasil

mas me meto

em tua floresta

virgem

onde me finco

e fico

qual aroeira

 

b

 

o óbvio

       vi-o

   e tive

medo

 

quinta-feira, 25 de dezembro

 

uma garrafa de vidro escuro

(com rótulo de gana)

após longa viagem

por salgado mar veio parar

na praia de copacabana

contendo clara mensagem

doce e subliminar: mel puro

de abelha africana

 

ó

 

até escrevê-la

com a página

lida

 

ó

 

a aguada

da chuva

guarda

chuva

aguarda

e cai bem

qual luva

 

ó

 

não sou

poeta

prolixo

nem dou

versos

deluxe

 

ó

 

que pedra querias

para ti

a pedra na testa de golias

a pedra na mão de davi?

a de pedro católica romana

a pedra drummondiana

ou a da lição cabralina?

ou a pedra atirada

na ira da intifada

por criança palestina?  

 

ó

 

desculpe!

hoje não

nem nunca

esculpe!

a imagem

do inexistir

culpe!

todo perdão

herda perda

 

ó

 

vencemos o sol

e agora dominamos

o mundo de sombras

sem janelas e portas

somos seres a vagar

vultos na penumbra

dos pântanos jorram

pés de raízes tortas

olhos de visões ocas

vencemos o sol

ei-lo abatido a espirar

vazando luzes de dor

as últimas do tempo

 

 

quarta-feira, 24 de dezembro

 

1)

não se perca

nem tente me encontrar

estou só e fechado

em algum lugar

e essa cerca

não convém pular

 

2)

poetica

mente

fico calado

e estamos con

versados

 

3)

estou ficando velho

estou passando da hora

estou do meio dia pra tarde

estou me graduando aprendiz

estou com jeito de quem nada sabe

estou escrevendo tese de livre decência

 

4)

sempre

sem

       pressa

 

5)

ela pega

no duro

e dá certo

ela não é destas

ela é destra

e detesta

deixar como está

para ver

como é que pica

 

6)

tomou

dramim

e drumiu

 

7)

a TPM dela

a TP dela

a M dela

elas que se entendam

 

8)

no meio

do cami

não tinha

o nho

 

9)

quero conhecer

minhas almas gêmeas

não para bodas

mas todas

duplamente fêmeas

 

10)

no centro

de toda mulher

seu ego

(gosto quando gozas e gemes)

exatamente

o ponto

g

 

k

 

- sê paciente

implante bem sucedido

de amor no coração

pesado e medido

em razão e emoção

não é só decisão

é incisão

(como vai sangrar

antes de chorar

muita atenção

e precaução)

 

o êxito

da cirurgia

depende de ti

de tua precisão

com o bisturi

a maestria

da operação

sem dor

pois só o amor

é do amor

anestesia

 

o pós-operatório

satisfatório

é importante

e é processo lento

porque implante

de sentimento

para surtir efeito

requer tudo perfeito

corte cicatrizado no ponto

retire os pontos e pronto

- tu tens amor no peito

 

k

 

para não perder-te novamente

dou-te este meu não finalmente

como última palavra sobre nós

pois para ambos o amor falou

e agora requer eterno silêncio

para se confirmar em negação

 

guarda este não em tua cabeça