Fevereiro de 2006

sábado, 19 de fevereiro

Hei de

abocanhar-te

um beijo

 

Haja saúde

para nosso

fast-food

 

               “Lágrimas nos olhos de cortar cebola...”

O pranto

seque no pano

de prato

 

quarta-feira, 8 de fevereiro

Vês esta pedra?

Pranteia-a em ti

É lápide

do não-existir

do estar

sem ir

Fincada

fica

sólida

sem de si

se aluir

impossibilitada

até de desistir

 

De papel de seda

fez papai colorida pipa

Linha e vento à solta

com saltitante leveza

eu não olhava para o céu

- só identificava o meu objeto

ganhando altura

Contentamento e emoção

Linha à imaginação

Voávamos

Ê imensidão

 

sábado, 4 de fevereiro

A quem amar?

Como é o amor?

Externar

o interior?

Revelar

o sonhador?

Ou interpretar?

Ser ator?

Ocultar

ou se expor?

Cegar?

Ser observador?

Dar

merecedor?

Ganhar

doador?

Para amar

dê amor.

 

Enjoando Vinícius

“Filhos... Filhos?

Melhor não tê-los!”

Mas se os temos,

adeus cabelos.

 

sexta-feira, 3 de fevereiro

Perder-me em nós e em mim.

Perder-me comigo e em ti.

Perder-me só e em sonhos.

Perder-me triste e em noites.

Perder-me aqui e em lugar nenhum.

Perder-me eu e em meu ser ficar.

Perder-me para nunca contigo estar.

 

Perca-me e encontra-te.

Perdendo-me te encontrarás.

Achar-me-ei estando sem ti.

Que só me acho buscando

perder o que jamais possuí.

Não te tive e se me tiveste,

tiveste, não me tens mais.

Acha em ti o que em mim

foi sempre e hoje é jamais,

foi bom e ruim e no fim 

te deu e tirou-me a paz.
Para ti, bem sei, fica assim,
tanto fez como tanto faz.

 

O que se diz fragilidade

é em verdade e com certeza

a minha simplicidade

ocultando uma fortaleza

Eu que choro com facilidade

no íntimo sou dureza

Assim sou por necessidade

Sou assim por natureza

 

Fevereiro de 2005

quinta-feira, 24 de fevereiro

Quando ela monta

em meu dorso

me amansa

sou outro 

Ela gira toda tonta

em sôfrego esforço

Pula galopa dança

esporeia seu potro

 

Então tua alma

quer ir embora?

O corpo acalma

Vê se não chora

E nada de trauma

Deixe-a ir – ora!

Leve a palma

apesar do fora

Muita calma

nessa hora 

 

quarta-feira, 23 de fevereiro

Como toda gata moderna

físicos cuidados externa

Sarada dietética

light estética

faz a lânguida magrela

essa anêmica observação:

“O corpo é a casa da bela!”

(Aparência é sua obsessão)    

Um dos pretensos admiradores

e como crítico de interiores

levanto a seguinte questão:

“O cérebro e o coração

fazem parte da decoração

deste seu corpo-mansão?”

Ela se vai – na dela

sem dizer sim nem não

E exibida faz passarela 

da calçada do Areião

 

segunda-feira, 21 de fevereiro

Não quebres o gelo. 

Arregala teu sol.

Vais derretê-lo.

 

Mar     tem

margem

            também

 

domingo, 20 de fevereiro

nada

on line

tudo

in loco

 

sábado, 19 de fevereiro

mantenha limpa a cidade

não jogue conversa fora

 

o incrível

até que não foi

andar sobre as águas

- eu não molhei os pés

 

sol a pino

e eu

em parafuso

 

dia mais

para os pequenos

dia menos

para os maiorais

demais

somenos

 

se a centopéia

tem cento e tantos pés?

não estou a par

não faço a menor idéia

 

quem tem boca

não se olham os dentes

quem não tem

caça com gato

 

eu te busquei

e quando te encontrei

baqueei

estavas toda rebuscada

embasbaquei

 

sexta-feira, 18 de fevereiro

ando o dia todo

buscando-te no todo

eu – não um todo

quase-semi-meio-todo 

por inteiro mas não de todo

incompleto ao todo  

integrante do todo

tudo sendo pelo todo

todo dia indo e vindo o dia todo

eu vou – todo todo

se te encontro e em ti estará o todo   

e sendo eu teu ficarei todo 

pois és tu meu eu sou-te num todo

e juntos somos somamos um todo

 

acaso em si

a luz se esgota?

ou brota de ti

um Sol – a nota

na partitura

da face escura

do som sem rota?

teu corpo deseja?

ecoa a luz e viceja 

tu’alma é grande?

a luz se expande

em ti se despeja

e benfazeja

me abrange

 

extremamente

paradoxal

ou sou açúcar

ou sal

não sei

ser morno

ou estou

no congelador

ou no forno

 

a dúvida está

entre exclamação

ou interrogação

qual utilizar?

a que ponto

chegar?

 

não falo de silêncio

pois se o ouço

ele diz tudo

o silêncio bota a boca

no mundo

o silêncio mete a língua

no escuro

(puro eco do barulho)

o silêncio põe lábia

no mudo

o silêncio é mais grave

que agudo

o silêncio é rústico

acústico e surdo  

o silêncio é invisível 

e nele me escudo

em silêncio me iludo

em silêncio me ajudo

em silêncio vos escuto

em silêncio me acudo

sou silente não sisudo

em silêncio me estudo

 

endurecerse hay 

pero con la ternura

de uno hay-kay

 

o tempo pede

um tempo cede

um tempo mede

o tempo perde

tempo

 

dentro de ti

   entro

em forma de luz

um facho

um raio

uma réstia

um ponto

um feixe

e és um farol

ou mais

és o sol

 

amar-te

quanta solidão

tanta

extrema

extravasa

não cabe no poema

amando-te

habito o silêncio

todos os sons de mim

represados

gritos sentidos não-ditos

só pensados

 

e este jardim no asfalto

não vês?

quão impetuosas

são essas flores brancas

e vermelhas

brotando das fendas 

transgredindo a dureza

dando o ar da graça

com a simplicidade

sensível

de inefável beleza?

rompe também tu

a crosta de tua couraça

e com teu corpo só alma

me abraça

com aromas de calma

acariciarei tuas pétalas

espalharei teus pólens

sobre a massa asfáltica 

para que novas flores

com outras cores

insistam persistam

resistam neste jardim

sem-fim sem ti

em mim

 

quinta-feira, 17 de fevereiro

coisinha

deixa de ser

complicada

please

veste a sainha

plissada

com a blusa

de alcinha

decotada

que gracinha

doce amada

minh’aluninha

aplicada

 

metalurgiamorosa

1)

lançarei míssil 

fálus phállus

ogiva na ponta 

explodirei

tua vulcânica

cratera

rachadura

vergalhão

magma 

lava

ovulação

abalos

estalos

regalos

fecundação

 

2)

qual fênix

pousarás

à sombra 

de meu vulcão

te aconchegarás

ou para tua extinção

ou para tua erupção 

mas fogosa como és

ardente como estás

a segunda opção

febril escolherás

cinza sobre brasas

afoita soprarás

comigo te deitarás

céu e chão

 

tua pele:

tecido fino

os poros:

florzinhas

salpicadas

na extensão

sensível

desse pano

de suavidade

que te cobre

de cores

aromas

e beleza

colho-as

em afagos

para teu banho

de noiva

antes da festa

de nós dois

 

para quê sair à noite

para contar estrelas?

já perdi as contas

de quantas em teus olhos

dei de vê-las

e ao capturá-las

em tuas retinas retive-as

para tocá-las surpreendê-las

retocadas ao sol 

em tuas iris pintadas

aprendi a prendê-las

são amarelas azuis

brancas invisíveis

cintilam infinitas

faíscas vermelhas

hei de soltá-las

soletrá-las

e no céu de teu olhar

colhê-las

e a ti me revelando

conhecê-las

melhor que contá-las

é sabê-las em ti

e tê-las

 

em teu cio

me vicio

teu repasto

me basto

nossa fome

nos come

 

endurece

umedece

dure

um

mede

desce

end

 

coisa da cabeça

de um sonhador

pura imaginação

nada de coração

mais que pareça

isso não é amor

é sexo e piração

 

ele

lambe

ela

lambuza

ela

sussurra

ele

urra

ele

delira 

ela

dele

ela

elo

ele

leal

ambos

bambos

molambos

 

qual pássaro

de afiado bico

sugar-te

com arte

embebedar-me

dar-me

(varão

ao sol de verão)

ao estonteante

néctar

de tua flor

de luar

primaveril

 

quarta-feira, 16 de fevereiro

pode pisar em mim

sua exibida

lépida passeia

em meu corpo

faz um bundchen

em minha vida

 

pesquise

entenda a lágrima 

aquosa secreção

saudade líquida

dor em gotícula

paixão intrínseca

emoção íntima

conjunção úmida

de meu olhar

sem o teu

consulte cristalina

fonte:

olho d’água

 

jogo

os dados

sempre

dá um

                          

                    p/ Ana Lúcia

não fica

me olhando

de frente

ou de longe

vem me ver

dentro de mim

e se veja

comigo

me vendo

contigo

 

terça-feira, 15 de fevereiro

agite

não se debilite

se habilite

aguce o apetite

sonhe com brad pitt

perca o limite

protele essa gastrite

grite

use o nick brigite

dê rolês pela city

o quê? labirintite?

sexo? tenha seu kit

seja on ou seja it

penetre na elite

zoe na fenit

não recuse convite

durma numa suíte

do motel afrodite 

não se omita palpite

se dê muito se excite

e por favor me evite

 

olhar marejado

em teus desvarios

aprisionado

encalhado

naufragado

a ver navios

em pleno cerrado

 

não me abandona

que sem ti

fico sem dona

a solidão

vem à tona

me nocauteio

vou à lona

minha vida

vira uma zona

e insistente cult

viro cafona

ó rainha

não me destrona

sinto frio

até de japona

sem te ver  

saudade detona

quem te ama

desapaixona

não amada 

não me abandona

continua assim

musa mandona

 

teus mamilos

mamá-los

persuadi-los

induzi-los

aos abalos

sísmicos

e cósmicos

da cópula

 

o time de campo

ela tirou

e me deixou

ainda mais só

a razão entre nós

imperou

a razão ganhou

por W.O.

 

não há diferença

entre o agora

e o tempo

em que a gente

não existia

pois se hoje

tudo acabou

naquela época

nada havia

 

não traia a poesia

que ela se afasta

se contraia

até que ela nasça

não distraia

que ela a si basta

se quer vaia 

verseje na praça

não caia

na prosa já gasta

da raia

miúda da massa

por aí saia

ou ela o arrasta

a faça não ensaia

ou ela se vai passa  

e a solidão nefasta

é traça

 

floresceu

aflorou

a flor

do eu

sou

 

o sol

se põe

sem tirar

nem por

- que calor

 

com este bilhete

nem carecia

do ramalhete

 

não vês?

não tenho respostas

para teus olhos

indagadores

 

já te amei

mais...

...ou menos

 

debaixo das cobertas

calor me despertas

(calor das descobertas)

 

segunda-feira, 14 de fevereiro

estou por aqui contigo

pondo minha cabeça a prêmio 

me deitando o cabelo

dando de testa comigo 

com a pulga atrás da orelha 

respirando onde nariz aponta

zanzando no olho da rua 

botando a boca no mundo

desandando a falar sozinha

(não digo essa boca é minha)

ficando de queixo caído

dando de ombros a tudo

me levando no peito e na raça

queixando a dor de cotovelo 

perdendo de vez o pulso

chupando (literalmente) o dedo

olhando o próprio umbigo

chorando de barriga cheia

sem nenhum jogo de cintura

fazendo tudo nas coxas

metendo os pés pelas mãos

coçando as canelas por mim

és meu calcanhar de Aquiles

entras de sola me chutas

me fazes pisar em brasas

com fogo no rabo estás  

meu corpo não mais terás

 

amo

não amas

confusa entre o meu 

e o teu não amor

me amordaças

te amorteces

amar é difícil

amar é quase impossível

amar é milagre

mas se ama

amando-se

se ame

e serás amada

se amando

amarás

 

desistir de quem te estima

abandonar seu coração

pode até dar boa rima

(abrandar a raiva e o clima)

- mas será a solução?

eis a resposta em cima:

não e não e não  

 

ainda não sei 

se na cabeça

ou se no coração

mas construirei um reator

produzirei plutônio

de potencial amoroso

essencial elemento

(calma calma

não é nada perigoso)

para a arma atômica

de meu pensar

e sentimento

enriquecerei urânio

(na caixa torácica 

ou no crânio)

careço de energia

explodirei essa apatia  

acenderei a chama

preciso me ativar

serei meu próprio inimigo

terei um programa

nuclear

estarei em guerra comigo

até que consiga amar

 

à noite no escuro

ela e seus pensamentos

ela e seus arrependimentos

ela e seus lamentos

ela e seus sentimentos

ela e seus tormentos

sem sono ansiosa 

ela e seus intentos

ela e seus medicamentos

ela e seus desalentos

ela e seus elementos

ela e seus ungüentos

amanhece a luz dói

 

para soltura

ó réu

pague a fiança

vide código

de barras

 

em voga

soam

vogais

antes

com

e só

 

para  usá-las 

ó letras 

de A a Z

posso ser

estar e ficar

a la vonté?

 

de ser teu

sequei

desertifiquei

 

te contemplo

no que ficou

tua lembrança entra

porta retrato

 

sábado, 12 de fevereiro

ainda te pego

de jeito

afoito

na raça

no peito

te deito

me deleito

te satisfaço

satisfeito

te viro ao avesso

te esmoreço

te abasteço

faço

e aconteço

tu mereces

dar

e ter

eu mereço

querer 

e comer

de quatro

te ato

te cato

te abato

te mato

de prazer

 

terça-feira, 1 de fevereiro

a vida

não quer

ser revista

em si se guarda

fechada

absorta

egoísta

- se abre

ó vida

sê ávida

exista!

 

perdoe-me

por tentar ser mais forte

que meu amor

por ti

- sou vencedor

pois perdi

 

para ouvir-te

diz

canta

balbucia

   cicia

sussurra

assovia

silencia

ou apenas olha

qual rouxinol

à cotovia

 

Fevereiro de 2004

 

sábado, 28 de fevereiro de 2004

múltiplos

sobre todas as coisas

mas sobretudo a nosso respeito 

falemos enquanto houver

sentimento e o que dizer

e se algum não tiver

aceito

ainda que doa demais no peito

que venha o que há de ser

deixa vir pode doer

 

ando te procurando

em estações atemporais

mas aquele foi nosso último verão

e eu te quis cheio de sol

fui tanto sol que irradiei-me teu

belo como jamais serei

com uma clareza sorridente

anestesiado de luz

esbanjando raios

deixando rastros

mas aquele foi nosso último verão

nosso último verão

o último desde então

 

sexta-feira, 27 de fevereiro

mínimos

 

I  de silêncio

em silêncio

ergui um muro

com pedras mudas

atravesso-o nas noites

sob estrelas tímidas

e lua morna

imenso paredão

separa o nada de mim

então vago insone

de um lado para outro

exausto e lúcido

tanto que minha calma

te incomoda

ó sereno

 

II  a lágrima pinga

no poço dos desejos

mata tua sede de candura

abranda na boca a secura

e estanca esse veio incontido

de teu olhar firme porém comovido

 

sexta-feira, 20 de fevereiro

 

m i n i m a l i s t s

 

peki or not peki

it´s the indecision

 

no frango no arroz

no licor no empadão

o fruto aromático

é condimento gástrico

é bom demais é ótimo

é Goiás no estômago

 

peki or not peki

it´s the indecision

 

no trem bala no metrô

no teleporto no brasão

faça dele um símbolo

de um jeito bem poético

como se ele fosse único

uma linda flor de amêndoa

 

peki or not peki

it´s the indecision

 

em Piri em Goiás Velho

numa outra dimensão

saboreie o energético

como bom afrodisíaco

pois o bruto é místico

de Anhanguera a Saint Hilaire

 

peki or not peki

it´s the indecision

 

no banquete ou delicatessen

em qualquer ocasião

jamais falte no cardápio

esse manjar dos índios

iguaria da society

no pf ou a la carte

 

peki or not peki

it´s the indecision

 

em Siron ou no Quasar

é fonte de inspiração

a tudo adiciona química

e não só nas artes plásticas

mas na dança e na música

e seu amarelo é cênico

 

peki or not peki

it´s the indecision

 

em Cora Élis Yeda

Jota Jota no fardão

em prosa ou poética

em acrósticos e crônicas

não cantá-lo é não ser óbvio

e o mais é redundância

 

peki or not peki

it´s the indecision

 

eu ando

na contramão

e dou de cara

com ela

vindo na direção

certa

para o desencontro

comigo

eu sou do contra

mas bons ventos

sopram

a meu favor

quem senso de humor

não tem

nem vem

jamais terá

meu amor

 

diamante não garimpei

então aceita esse verso

faz dele teu colar

teu anel

ou pulseira

é tudo de valor

para fazer brilhar

em teu coração

meu precioso

e solitário amor

 

reconstruí os alicerces

mas não consegui

erguer as paredes

estou firme

porém no tempo

 

para ignorar é preciso saber:

todo sol é impossível no núcleo do olhar

coração de beija-flor acontece de se arrebentar

árvores mais velhas são enciumadas de sementes

o som de instrumento inexistente só se ouve com o olhar 

a luz dá de aquecer se te acostumas ao breu de tua insignificância

ignora-te e tudo te aflorará no frescor de teu silêncio que ninguém vê

 

etc

para dizer tudo

ao mesmo tempo

ou nada

 

estarei preparado

para o banquete

em que tua carne

se oferece

com tempero

de cio?

tenho fome

e tu

torna insaciável

esse vazio

 

quarta-feira, 18 de fevereiro

no mais

não te amo mais

te amo mais

amo mais

mais

amo

 

de peixes

com todos os espinhos

as escamas todas

todas as barbatanas

rabo olhos guelras

e essa vontade de morrer

afogado

pois jamais aprendeu

a nadar

 

encarcerados poemas

peito-cela

coração-cadeado

grades-pulmões

prisão de sonhos

expressões limítrofes

ar sem liberdade

 

fraterno abraço

eterno apreço

e com afeto

se bem mereço

 

estou sem ar

respiro só

de imaginar

a falta

 

e não só não vês

com teus olhos

como nem teus olhos

vês

 

sou de ausências

não vim

não estou

não irei

mas ainda chegarei

espera

posso até inexistir

mas não sou de desistir

sou de ausências

mas tenho essências

 

nem bem

te vi

meu mal

revivi

 

deu

pra

gozar

 

 

terça-feira, 17 de fevereiro

 

não paro de ser

sou até quando não vejo

luz de mim

em lugar algum

até onde sei

não passo de um sim

eu sem nenhum

senão

 

a galope

vai

meu cavalo

em marcha

 

entro numa

no meio do redemoinho

sou pluma

 

fundo branco

as demais cores

são secundárias

 

ceciliando

eu desencanto

porque obstante inexiste

e minha lida

é incorreta

não ser de Alegre

e nem Trieste

sou po(rr)eta

 

se um mar

de lágrimas

se infiltra

não rio

mais

e tudo são ais

 

o pensamento às vezes se basta em silêncio

e por si se dá no devaneio perdido

então vaga no vazio da aurora

em vão segue pelo oco da noite

quando sem ação põe-se a dor

mir

 

estava encravada

na última noite

qual lua velha

gravada no céu

tatuada no breu

ecoando sons

de poeira celeste

pousando mansa

mente

na cabeça do pássaro

azul

 

as garras do tigre

marcas vivas

em um peito

zen

o coração a uma flor

animal com alergia

a pólen

 

sexta-feira, 6 de fevereiro

 

}a}{e}{r}{o}{g}{r}{a}{m}{a}{s{

 

penso

logo

sinto

 

noves fora

somos uns

dez

zeros

à esquerda

 

não te amarei

para não correr

o risco de te deixar

sozinha

 

as estrelas todas

estão perdidas

e o céu as dispersou

mas se te encontrei

brilha

 

toma de mim o silêncio

calados os meus desejos

estranha minha fadiga

e meus suspiros não ouças

que já nem sei se respiro

te tendo só como amiga

 

domingo, 1 de fevereiro

 

se nada pedes

e nada me podes

dar

nada tenho

a acrescentar

 

ser

de poucas

palavras

sou

 

e tantas

quantas

tenho

dou

 

uma mão se estende

a outra mão

e o abismo se rende

a essa ligação

e o mais se entende

como união

 

por

excesso

talvez

seja eu

mínimo

e não vês

 

opero o poema

corto aqui

extraio ali

arranco lá

inciso

depuro

mas não exagero

mantenho a emoção

pois o poema

não é um esquema

não é teorema

e para estar vivo

deve ser instintivo

conter a verdade

de um poeta calado

contar humilde

seu próprio silêncio

individual

universal

lutar com anjos

e perder

na mesa

de operação

deixo o poema 

morrer

 

a Terra de tantos

grunhidos

gemidos

raivas uivantes

se encerra

na falta de empecilhos

e delimitantes

a Terra se ferra

nas mãos

de seus filhos

e habitantes

a Terra

o mais belo planeta

se enfeita

para seus últimos

(e duradouros?)

instantes

FEVEREIRO 2003

Só Deus

Deus escreve
certo
por linhas tortas

Deus fala certo
por línguas
mortas

mas Deus modernizado
escreve certo
somente em papel pautado

e ainda mais atualizado
conectado em computador
muito bem equipado

Deus hoje só tem vez
se falar ao mundo
em fluente inglês

 


no escuro
não se vê
sombra

 

assim como o sol nasce

o só
nasce
para todos

eu nasci só
só cresci
estou só aqui

renasço
na solidão
de mim

me revivo
solitário
sem nós

nós
que sós nascemos
vivemos sós

tão sós
só nos falta gritar
S O S

até o sol
que é de todos
brilha só

ninguém suporta
a radiação
de seu calor

como pode
minha solidão
te aquecer tanto?

o só
nasce
para todos

 

folias de carnaval

no carnaval de certas mocinhas
a quarta-feira de cinzas
vem nove meses depois

Rei Momo e terça gorda de carnaval
nasceram
um para o outro

no carnaval o Brasil pára
os três poderes seguem
o trio elétrico

para o carnaval
de tua vaidade
haja confetes e serpentinas

com tantos blocos
Brasília
é o maior carnaval

Rei Momo?
nunca vi
mais gordo


nas escavações fundas cá dentro
entro nas eternas cavernas do coração
e entrão exploro no escuro seu centro
o epicentro de sua desértica sequidão

meu coração não consegue não adianta
não se encanta por nenhum sentimento
bate lento não se apressa nem quebranta
e é tanta a sofreguidão de seu tormento

deixe-o na quietude de sua serena apatia
a agonia de sua insatisfação não se acalma
no trauma sem calma de se ver sem poesia
todavia meu coração ainda se sente com alma

 

assim foi
se vim não vi nem venci
sim vim devolvi convenci
por vir resolvi desvenci lhe ei
só sei que vim
absolvi-te
de mim
desvencilhei-me
de ti
foi assim

 

tanto
quanto
sempre
muito
foi


mais ou menos igual a médio
tanto faz resulta em nem aí
pode ser soma talvez
quem sabe é tal qual vamos ver
certamente é o mesmo que será

mais ou menos tanto faz
pode ser quem sabe
certamente

ou nem aí
talvez vamos ver
será?


iraque vos ameaça
ira que vos invade
vais da guerra v i r t u a l
à guerra real & fatal
louco mr george www bush

assusta-nos a extrema loucura
que acaso cegamente cometas
no big game de desastrosa aventura
e a Terra não são dois planetas
não há outra Terra entre os planetas

 

nem o maior dos maiores espelhos
com seu enorme reflexo o mais ampliado
poderá conter em si teu ego
teu ego no centro do mundo
teu egocentrismo no oco do umbigo
teu egonarcisismo tua vaidade tua pose
de se achar a mais mais a tal em close
mas tão só cada vez e sempre perdida
sem se encontrar no vazio de si por si
ó egosolitária criatura dentro do nada
perder-me tornou-te menos decaindo
subtraída na abstração de procuras
sem chances sem volta toda tua sem mim

 

há restos mortais na vida
sombras fetais sobras fecais
um reviver por cada dia vivido
um lento morrer pelo tempo afora
mas a hora pode ser agora
ou ainda demora
e ninguém sabe o que ir embora
pode signi
ficar


todo cuidado é pouco
é todo
pouco é
cuida do pouco
cuida do todo
cuidado

 

é noite
e a noite se percebe mais noite
à medida em que é noite na noite
como resumo de outras noites
as muitas noites naquela que se revela
mais noite ao passo em que é noite na noite
como exemplo de outras noites
as muitas noites naquela que se afirma
mais noite ao termo em que é noite na noite
como expressão de outras noites
as muitas noites naquela que se condensa mais
noite extremamente escura exatamente negra
eternamente breu na noite da noite mais
noite

viciado em escrever
vivo absorto em mundo alheio
a ins-piração me chega sem dizer a que veio
a acolho e sugo o leite de seu maternal seio
e ela à minha sede e fome sacia

sou ser etéreo nessa empreitada
poeta inevitável em total dependência
beiro através dela uma quase demência
contudo ela dá lucidez à minha existência
pela poesia minh'alma está alienada

careço mesmo de me desintoxicar algum dia
dos versos arrebatadores de meu vício
pegam na veia em vôos sobre um precipício
alteram a mente as asas arejadas deste ofício
sou um devaneio perdidamente viciado em poesia


tenho viajado muito
por paisagens jamais vistas
ou por tantas para rever
longos caminhos a percorrer
a bagagem é silenciosa mas pesa

tenho chegado longe demais
e cada vez mais distante
estou de mim como ser incompleto
viajo para dentro e não me alcanço
em meu interior não me atinjo

sigo caminhos do coração à mente
respiro a ansiedade de ir adiante
chegar além de meu corpo aprisionado
cada descoberta é uma história
faço minha viagem na memória




o girassol
tem cara
de margarida
grande

tem sementes
na face
pétalas qual raios
amarelecidos

olha para o dia
aberto à energia
de saber-se pleno
a flor lumiar

o girassol
é diferente
é mais
e somente


faz sentido
sentir
e eu sinto
- ou pressinto
que mesmo sentindo
ela não sente
e pior: ressente
com sentimento
que sentido faz
porque não sentiu
e só eu senti demais
só eu senti
muito


em mim
nem tudo
me pertence
sou sim
o estudo
non sense
tão ruim
ser escudo
do suspense
qual serafim
de ego mudo
que pense
e no fim
me iludo
ela vence
é carmim
e sobretudo
me convence
é marfim
pontiagudo
repense
coração ludo
incense
que assim
te desgrudo
e fim

nem sempre sou
mas quando sinto
penso estar chegando
a um ponto qualquer
entre a próxima estrela
e a mais distante
e assim vou
sem que percebas
a nitidez exata
de minha negra luz


tudo em excesso
até o mínimo
pode ser divisor
comum

em demasia
a lógica se esvai
na confusão
de íntimos conflitos

tem sido muito
seria mais se fosse
no entanto estamos propensos
a ceder

a solidão é tanta
que de nossos poros
exala distanciamento
no suor de dúvida

foi demais mesmo
mas chegou a hora do fim
me perguntas se não quero
respondo sim

 

quando eu disser que te amo não acredite

quando
eu
disser
que te amo
não
acredite
a cada minuto bate uma diferente paixão
num verdadeiro entra e sai em meu coração
um vai e vem
de não ter quem
de querer amar alguém
- querer e não saber -
e estar sempre sem ninguém

ouvir
hesite
querer
evite
nunca
se excite

quando eu disser que te amo
não acredite
pode até ser que esteja sentindo
mas com certeza estarei mentindo
não sei amar
não sei
não


vou te proteger do meu desejo

(poema publicado em meu livro "Os Limites da Forma",
de 1980)

vou te proteger do meu desejo
na certeza de sentir em teus olhos
a solidão de um ponto
de partida

eu peço perdão
pela hora em que estou longe
quando minha voz não te alcança
mas a distância nos aproxima
para que tudo seja
imortal
e para sempre
infinito


o apanhador

nem que eu tivesse que fazer uma matéria sobre
tendo que correr atrás
usar de toda perícia
astúcia ou sei-lá-o-quê
e conseguisse entrevistar aquele que talvez seja o mais recluso
e estranho homem na face da Terra
o senhor J. D. Sallinger
não acho que não
quero mais é que o velho morra antes que isso aconteça
portanto não me dêem essa tarefa que a recusarei prontamente
um cara que até hoje se alimenta mais de sementes de abóbora
que de qualquer outra coisa
não vão querer que eu perca tempo com um sujeito desses
chegado a pevides descascadas
e o que é pior
o único raciocínio que consegue elaborar
quando se encontra com algum interlocutor
é tentar impor essa alimentação como tenífugo
ou seja substância medicamentosa que expulsa do organismo vermes do gênero Taenia
a grande lombriga solitária
logo ele prescrevendo isso
aquele camarada não passa disso
só não sei precisar se é da espécie do gênero solium ou saginata


quanto mais mexe mais fede

depois do que ouvimos ele dizendo
falar o quê?
eis sua fala:
“um beócio como eu
que está cagando e andando para a opinião pública
não está nem aí quando fica sabendo
que todos tapam o nariz quando passo todo lambrecado
em meio às aglomerações
que assim sim os sujos podem notar a decadência
de um mal lavado
talvez a dondoca não saiba o significado exato
mas lambrecado madame é o mesmo que sujo
emporcalhado
breado”
pois é
foi então que fedeu

 

guisa

um conselho que me dou diariamente
quase que de minuto em minuto:
corte as palavras
enxugue o texto
seja sucinto
aliás conciso é mais adequado
ou será sintético?
ou ainda condensado?
ou quem sabe resumido?
só minha indecisão
indefinição
hesitação
irresolução
perplexidade são prolixas
não tem jeito mesmo

 


apside

se me perguntassem por qual palavra
eu começaria um dicionário
acho que responderia: óbvio
que um questionamento desse
não teria o menor sentido
e há tanta veleidade nesse mundo
que às vezes é comum uma vontade estranha
abater-se sobre o espírito
tudo que se pensa nada mais é que lapso
por isso ando tão relapso
com uma indiferença despovoada de seres em volta
pois no entorno de mim a miséria angustia todos os meus medos
solidão solidão só lhe dão
e eu sei que é muita frescura (pretensiosa além e acima de tudo)
escrever algo que alguém jamais lerá
estou perdendo tempo aqui
perdi o rumo
e a luz do Sol gasta exatamente oito minutos e meio para chegar até mim

 

 

muito prazer

na ponta
da língua
afio
fio e pavio
p a l a v r a c e s a
fala tesa
os dois pontos
da lin
GuaGem
em orgasmo duplo
d u o
poeta & poesia
copulam
verbo ligando
atributo
ao sujeito


barco da ilusão

nada não
tudo afoga
no sim
ou bóia
e assim
remar contra
o mar é
desandar
na onda
onda bate forte
há quem suporte
n a v e g a r

mardilúvio
marrefúgio
único lugar
e não teme
pega o leme
segue o rumo certo
certo de chegar

 

guardados e pertences

guardar pode ser não ter
porque guardando pode-se não usar
e em não se usando não se usufrui
do guardado sempre a se esconder

o que se guarda põe-se a aguardar
o momento exato de usado ser
a hora certa de se utilizar
o que em segredo julga-se manter

oculta-se o bem que devia estar
justo ao alcance de ter em poder
ali bem à mão do próprio querer

só é guardião quem nada tem
e só preserva o que se pode dar
porque guardar é mais que perder

 

cisterninha
no fundo no fundo
mas bem no fundo
mas no fundo mesmo
mas lá fundo mais fundo
no fundo da maior fundura
no fundo mais fundo do mundo
no fundo em que até eu me confundo
no fundo onde todo mundo diz que se funde
no fundo infundado pra lá do mais fundo cafundó
no fundo findo dos confins fundamentais de fendas e fundas
água brota água mina clarinha água pura em meio ao barro água com sede
água de mim água minha água rasa água de olho d’água água líquida e certa
água da fonte do poço deste moço manancial lençol d'água vertente poesiagádois ó modéstia às flávias


vocabulário

deixa eu te falar
eu enquanto nós
fui tipo assim só
então tá
vou estar te desejando
miga minha
pode crer
pois tudo tem
nada a ver
querendo ficar fico
mas não pago mico


era doce e acabou-se

do fim para o início
confundo a mim e ao mundo
o ir de trás para frente
de zê até a
do maior número ao zero
de beta a alfa
do bem ao mal
de cima para baixo
daqui até aí
de lá para cá

assim nosso amor está
- última e primeira namorada
tão brevemente eternizada -
não se realizou sem acontecer
não nos viu em nosso olhar
apagou-se o incêndio na fagulha
anoiteceu em pleno amanhecer
o que não foi não era pra ser
degraus sem fim de uma escada
nosso tudo deu em nada

 

perdôo
a vós que chamais de poesia
isso que escrevo
essa coisa que de mim lês

é tudo devaneio
fluxo inconsciente da terapia
do que foi e que vai
como nem sei como veio

aqui não há inspiração
- só piração
a descriação recriada
de minha imaginação malcriada

estais perdoada
por não saberes de nada
por confundires com poesia
a negação vadia de minh'alma vazia


o sangue
de um poeta
tem verve
ferve
não serve
para doar
deve doer
não correr
coagular
é ralo
e injetá-lo
pode curar
ou rimar

 

pegou fogo
na ponte
sobre o abismo

no espelho
d'água do rio
lá embaixo
chamas refletem
um aceso
narcisismo


os contrários
só se encontram
nos desencontros
tão necessários

quando nunca
estão prontos
por motivos vários
em diversos pontos

nos berçários
sanitários
armários
confessionários

os contrários
se desencontram
nos encontros
tão desnecessários

nos santuários
fraldários
aniversários
adversários

 

a pergunta
pode parecer
e ser
estranha
mas a água
que banha
o oco
do coco
será que vem
da castanha?


insanas

maria maria
no inferno não tem
sorveteria

é mais difícil
fugir
ou esconder-se?

viver
é ter
ar de sobra

olho
por olho
lente por lente

Deus está vivo
mas faz
de morto

mulher
nunca
sai de moda

 
encontrei ontem
entre meus alfarrábios
estas anotações de 1983:
bem-aventurados
os que só escolhem boas aventuras
na hora do vamos ver
isso aqui se revela
uma terra de cegos
olha baby
se estás arrependida
culpa tua
chego à conclusão que se o homem
é o único animal que ri
deve ser por isso que os demais animais
não o levam a sério
o naná vasconcellos que me desculpe
mas naná arranjo de percussão hoje em dia
é feito muito a toque de caixa
vi a mulher de meus sonhos pelada
há nudez
e há nu dez
comigo é assim:
ou dá
ou despe
porque o passado
não volta atrás
 
ela ligou falando em dar tempo
ao tempo
que ela tenha
todo o tempo do mundo
que todo tempo dado
resulta em tempo perdido
 
participei de um congresso
foi onde acabei de crer que chatos
são uns pés no saco
alguém lá me perguntou:
e se Maomé não for à montanha?
Ora respondi:
a fé remove-a
fiz certo não fiz?


por que?
por que acreditar em si
quando se engana a si mesmo?
acredite e se engane
se engane e acredite
mas se dane
e me evite
não me irrite
não estou na city
nem no site
não me cite
conhece-te a ti mesmo
e terás conhecimento próprio
ainda que de mentira seja
ou por ti auto-enganares


minha poesia galinha
cisca
minha poesia peixe
isca
minha poesia telefonista
disca
minha poesia certinha
trisca
minha poesia cega
pisca
minha poesia virgem
é bisca
minha poesia é torta
à risca
quem não arrisca
não rabisca


enquanto
insistem em afirmar
que o céu é o limite
eu que lá já estive
em remotos tempos
seguramente posso contestar

o céu é ilimitado
o céu é ilimitado
o céu é ilimitado
é sim
que eu sei
eu vi

ontem
ainda que sem querer
de soslaio te vi

agora sei
que posso dizer
sem medo de errar
as aparências
realmente enganam

tu
por exemplo


não deixes para amanhã
o que podes adiar
hoje mesmo




EntãoFicamosAssim
EuComigoEnfim
TuContigoSemMim


 

ó meu arredio verso
para que não me escapes
primeiro te escrevo à lápis


conversa de comadres

a vida perguntou para a morte
qual doença é mais forte
que à falta de sorte
não há quem suporte
e morre mesmo com todo aporte

a morte respondeu para a vida
que mais forte que câncer aids ébola
e que doença do coração
nada mata mais que a solidão
ai de quem morre nessa condição


fala aí guaporé

índio é chegado num jazz
índio manja de blues
índio é fã de rock
índio curte m p b
só não sacro nada de gospel


o amanhã não virá
para o amor findo

ainda mais se o ontem
foi lindo

ainda que bem-vindo
o sol não amanhecerá
rindo

verás lágrimas de raios
caindo



no amor meu amor
a palavra adeus
se comporta em si
e contém também
o até breve
o até logo
o bye-bye
o tchau
até outro dia qualquer

só que para sempre
definitivamente
e a tudo transc
end



nem tudo tem
quem tanto dá
é bom meu bem
o quanto há
aqui além
ali e lá
com ou sem
como está
muito aquém
do não e nem
do blablablá
bela e zen
vem cá
vem!

Estou na idade
de aprender a falar
p a r a l e l e p í p e d o
sem engasgar
 

O dia já estava longe
quando o alcancei para desejar
boa noite
 

A flor-da-noite
começa a cheirar
às três e dezoito
da tarde


Só subo em árvores
que não dão frutos
Ai preguiça de colher


Quando chove
até as águas dos rios
ficam molhadas


Uma traça devorou
sozinha
um livro de Balzac
Tinha mais de trinta

 

Andorinha no fio
escutou uma conversa telefônica
Fez verão

 

Pensa pra falar
pois quem não pensa pra falar
não fala o que não pensa

 

Um pássaro fez um ninho
na minha cabeça
Nessa ocasião virei estátua

 

Falo com árvores
sim
e elas me respondem
com folhas-palavras

 
Quer me dar um motivo
para deixar-te?
Penteie esses cabelos
pra ver




Um dia mamãe me bateu
tão forte
que a surra
até hoje
dói na memória

 

e eu soubesse
de onde vem a brisa
mandava alargar
a passagem

 

A pressão sanguínea da flor
está baixa
por isso essa taquicardia

 
Leio o jornal
de cabeça pra baixo
o mundo está virado
mesmo

 

Quando ficar grande
quero crescer bastante
e ser bem mais maior

 

Deus é tão perfeito
mas tão perfeito
que vê-lo seria afear
sua existência

 

Será que nunca
verei o coração
de um mosquito?

 

bin laden sumiu no mapa

ou seja
até o extremista
tem seus meios

 

Auto do Envelhecimento para o Jardim de Infância
da Terceira Idade

(Esta é uma composição dramática para ser declamada ou cantada por senhoras e senhores do Jardim de Infância da Terceira Idade. Deve ser interpretada por um número considerável de pessoas, em uníssono ou a várias vozes, com acompanhamento ou sem ele. Caracteriza-se pela simplicidade da construção e ingenuidade da linguagem).

se já não mais te reconheço
e muito menos te conheço
é porque envelheço

se a toa me aborreço
e estressado cresço
é porque envelheço

se não me viro ao avesso
como era no começo
é porque envelheço

se na hora do arremesso
evito algum tropeço
é porque envelheço

se as seis horas anoiteço
e penso em ir pro berço
é porque envelheço

se rezo muito o terço
não faço nem aconteço
é porque envelheço

se quase não apareço
e acho que nada mereço
é porque envelheço

se comentários teço
nervoso que endoideço
é porque envelheço

se mil vezes agradeço
choro e me amoleço
é porque envelheço

se sou radical e pareço
e pra mim tudo tem preço
é porque envelheço

se não subo e não desço
temendo entrar no gesso
é porque envelheço

se a tudo desobedeço
e com isso me enfraqueço
é porque envelheço

se no frio não me aqueço
e de dores nos ossos padeço
é porque envelheço

se sem sexo me embruteço
mas deixo pra lá e adormeço
é porque envelheço

se sensível me exerço
só perco não me favoreço
é porque envelheço

e é porque envelheço
que quase me esqueço
se não escrevo adoeço

e escrevendo me envaideço
envelheço mas ainda amanheço
estou na vida e só resplandeço


S O S

não faz sentido
não faz
ou faz?

se não faz sentido sentir
faz sentido sonhar?
faz sentido subir
se não faz sentido saltar?

se faz sentido sorrir
não faz sentido sangrar?
faz sentido subtrair
não faz sentido somar?

faz sentido seguir
não faz sentido sentar?
não faz sentido sair
faz sentido sarar?

não faz sentido sacar
faz sentido servir?
não faz sentido sambar
faz sentido surgir?

não faz sentido sumir
faz sentido sedar?
não faz sentido sacudir
não faz sentido salvar?

não faz sentido
faz sentido
ou não?