Janeiro de 2006
sexta-feira, 27 de janeiro
Não danço tango
Não
danço mambo
Fox-trot não danço
Não
danço samba
Não
danço valsa
Não
danço salsa
Carimbó não danço
Não
danço rock
Não
danço funck
Hip hop não danço
Flamenco não danço
Lambada
não danço
Lundu não danço
Maxixe não danço
Ballet não danço
Nem
quadrilha
Nem
sapateado
Não
danço
Não
danço
Não
O
sol
acende o fogo
em seu rol
Ardente
é o círculo
envolvente
Ela
se foi
alheia
ao rumo
de ir
Seguir
é seu modo
de partir
Seu estar
é chegar
para existir
Para
bem amar
sê mais
que todo ar
Se dê
sem ar
Pra quê
respirar?
Hoje estou para ser
eu
- mais meu
Sempre tive o querer
do que a ti se deu
e em mim era teu
pois se perdeu
o que de mim em ti
te preencheu
e não te pertenceu
quinta-feira, 26 de janeiro
Não estou para ninguém.
Digam que
saí, viajei, sumi
ou então
que estou bem.
Só não
digam que morri
que assim
não ouvirão alguém
suspirando
baixinho: amém.
Mina
não de
minério
Nem de
onde se garimpa
precioso
mineral
ou algum
nobre metal
Mas mina (olho
d'água)
- de fonte/matriz sensível –
donde
mina potável
uma
lágrima insaciável
Na rua da insônia
na praça dos notívagos
junto ao coreto dos boêmios
reunia-se a turma do sereno
Eram dias felizes
(ou melhor: noites)
que décadas de manhãs
deixaram para trás
No teclado
letras
escolhidas
a
dedos
Do
casulo
ao vôo
a larva
se metamorfoseia
livre e leve
e vive - no breve
tudo que anseia
Indizível
(meia palavra)
Indivisível
(basta)
Enquanto estréias
ensaio
E se jogas
treino
Assim ficamos:
unidos
empatamos
segunda-feira, 2 de janeiro
O AMOR (Para quem sonha amar e ser amada)
O amor: inventar, criar ou descobrir?
Como se revela o amor? Por si só
ou por tanto nele se insistir?
O amor vem ou atrás dele se corre?
O amor tromba? Atrai? Atropela?
Ou fica quieto à espreita, à espera?
Como agir com o amor? Para tê-lo,
dá-lo, recebê-lo, achá-lo, merecê-lo?
Será o amor uma entidade superior?
M'explica, m'ensina,
me diz
como fazer para gozar do amor
o direito e o prazer de ser feliz?
domingo, 1º de
janeiro de 2006
Múltipla escolha-me
para ti
que sou tantos em mim
sendo somente teu
muitos para
não te dizer
só em todos
eu
Meu Deus, quem diria
que um dia
eu perderia
a fé na
felicidade.
Justo eu
que tanto a sentia,
hoje, no
ritual da saudade,
ouvindo sua
homilia
não sei da
missa a metade.
(Felicidade
é poesia?)
Deu tilt?
Dá Ctrl
Alt
Janeiro de 2005
segunda-feira, 31 de janeiro
não com
carícias
que o platônico amor
não permite
a distância
impõe limite
mas sentindo
pensando
curtindo
imaginando
quão lindo
será quando
eu indo
tu esperando
sorrindo
cantando
se abrindo
me dando
gozando
então o platônico
será homérico
faz falta em mim
um eu outro
e não outro eu
que seja
como sou e não assim
como vivo
sem ser
ser vivo
que é
pelo sim
não
dou-te essas rosas
imaginárias
ou
preferes em realidade
as que
murcham?
dessas o
perfume
sentes o
desejado
e não o
que por elas
é em
verdade exalado
essas uma vez colhidas
enfeitam
breves
e em vasos
jazem
ressequidas
aceita
pois as minhas
(com elas
não te espinhas)
farei de
teu corpo jardim
livre de
ervas daninhas
- sim?
domingo, 30 de janeiro
miniaturasminiaturas
nós
pós-tudo
póstumos
túmulos
chorumes
pós
se não ama
põe o pijama
deita na cama
da enfermaria
depois levanta
e toma banho
de sol e ducha
de água fria
volta pro quarto
olha no espelho
e veja o quanto
pior seria
amar alguém
que nunca nunca
ao amor dado
valor daria
saia um pouco
se apresente
- muito prazer
- ah eu amaria
planto no ar
colho no infinito
frutos imaginários
para fome inexistente
½ d ú
z i a
2/d
3/ú
4/z
5/i
6/a
não uma palavra
nem um milhar de
mas uma imagem
expressando-se em imagem
traduzindo seu visual dizer
em mil valências
sobre o escrever
coração
do tamanho
de um diamante
não
diamante
com as medidas
de um coração
não
coração
qual diamante
em proporção
sem
nau
naufragas
sem fragata
naufragas
ou nadas
ou tragas águas
não sou teu príncipe
sonhado sarado
paramentado
em cavalo alado
montado
não passo de um homo
s a p i e n s
desencantado
a pé (pé rapado)
um cavalo dado
mas ela tem cavalgado
e qual rainha tem reinado
te dei
palavras
para tudo dizeres
não quiseste diálogo
peguei meu silêncio
e então escrevo
e nesse monólogo
me
atrevo
a contigo falar
se me leres
é muito fundo
(ou não tem fundura?)
o abismo em espiral
da loucura
do mundo
em contagem final
a gravidez
é claridez
é lucidez
pois nus
vêm à luz
bebês
eu
literalmente babo
ante a bela flor
de quiabo
para que gozes
primaveras
olho-te
escolho-te
acolho-te
molho-te
colho-te
desfolho-te
recolho-te
então refloresce
a estação de teu cio
é de unhas e dentes
a tua luta do dia a dia
contra a onicofagia
se dói por que rói?
quinta-feira, 27 de janeiro
e, no entanto, Goiânia
inspira
Goiânia encanta tanto
- menina que insinua paixões
em seu desfilar de lindezas
se mirando vaidosa em espelhos
de olhos faces e risos
de suas formosas filhas
maravilhadas miragens
deusas femininíssimas
santificadas meninas
Goiânia de timidez se veste
faceira brejeira e fashion
cabrochinha universal
da grife simplicidade
Goiânia sol ao luar
- encantado senhorita
por ti que és tão singela
deverasmente
estou
quarta-feira, 26 de janeiro
- Pixinguinha bebeu muito, sabia?
- Xipinguinha, é?
arrulhos
como
não alcanço
tuas
galáxias
infinitas
eu
ínfimo
tento
atingir
os
léxicos
do
íntimo
cintilam
palavras
ao desabrocharem
teus poros
quais pétalas
em tua pele de
seda
tudo aromatizará
tudo aromatizará
tudo o que falas
é poesia
é poesia a inspiração
do que dizes
só não esbanjas
risos de alegria
por serem – como são -
assim tão infelizes
te
amei
muito
te amei mais
mas o amor sublimou
diluiu-se o sentir
e o muito não é mais
não é mais sinto muito
quando cuida que não penso
penso quando menos
espero
eis finalmente
minha musa
de sentimento
elevado e belo
com sua divindade
feminina
ela se julga deusa
da mitologia
e se sente superior
à poesia
à qual apenas devia
inspirar
então – e isso é
tão comum –
ainda que tenha
encanto e luz
se revela uma simples mortal
aquém de meu sonho
de amor
assim meu
entusiasmo criador
acha a tal musa sem
graça
– a poesia fica ela
passa
terça-feira,
25 de janeiro
ruas
passadas
ruas
do passado
não
as ruas em que passei
ruas que não passam aonde vou
ruas
que de mim jamais sairão
ruas que chegaram e eu não estava
ruas
que ainda pisarei
ruas
em que nunca caminharei
ruas
como abbey road baby
ruas
de nossos desencontros
ruas
do mundo ruas sem fim
ruas
em que só nos encontramos sós
ruas
que não passaram por mim
ruas
nos descaminhos de nós
mede
mele
mete
mexe
segunda-feira,
24 de janeiro
c
o c k t a i l s
o desnudar da alma
Eros
sensível
a natureza
de
teu ser
preserva
tudo em torno de ti
torna o
mundo todo
mais
belo
teu ser
quer
ter
vai
ver
sabe
viver
sem
querer
saber
pedistes bis:
te amo-te
se lance
no oco
eco da emoção
e
fique tranqüila
(eu tirei a rede
de proteção)
ouse
use
ou
e se
de
repente
estás
ditando algo
a
alguém
sem
motivo algum
é
isso a composição
de
teu
eu
és distraída
então
podes me guardar
por
um segundo
como
se para sempre
me vigiasses
igual
a
ti
inexis
te
s
arte-
finalize
-se
se
és
diferente?
não!
sem-igual
tal
e
qual
revela-te
no que me
mostras
de ti
ou te
ocultas
em
esclarecedor
fingir?
São
percepção
de ti
concepção
de nós
depois
a opção
eternizar o breve
e ir longe
longe
longe
até mais
belo?
belo
é um bibelô
d’algum
relicário
um
escaravelho
à
venda em antiquário
a
fórmula do mistério
do
frei boticário
é
um velho violoncelo
a
soar solitário
é o
canto amarelo
de
um canário
no
cenário
de
um cemitério
narciso
se acha
só porque
se viu
refletido
no espelho
das águas
do poço
das
vaidades
e não vês
como
todos estão de olho
não
em ti bel’atriz
mas
nas telas
das
tevês?
toda nudez
será
revestida
de
imaginação
ainda mais
desnuda
acaso tua beleza
compete
contigo
ou
com ela mesma?
tu pensas
eu
sinto
e teu
pensar
tem me
sentido
(se estás pensativa
é porque
estou sentindo
teu
pensamento
a
sentir-me em ti
pensando em mim)
sons
e
cores
se
vêem
no
que os olhos
ouvem
toca
que eu
danço
a dança da
chuva
na fartura
dos campos
e canto
a colheita
na estiagem
grãos e
frutos
alimentam
a paisagem
todos os acordes
adormecidos
nos
instrumentos
emudecidos
componho
sei teoria
mas toco
de ouvido
dou por
esquecido
meus
improvisos
tudo se cria
e
se recria
se
descrê
anda
é o som do
silêncio
não vês?
a sonoridade
de
tudo que capto
me maravilha
sou uma ilha
sem sol
raios de
árvores
é certo
que
o que digo
não
tem erro
já
está dito
(acho até
que falo bonito)
mas
me limito
e
não te consigo
no
que te dou escrito:
“quero viver com tigo
vem
morar com migo”
dó
ré mi
fá sol lá
si dó são
as cores
do arco-íris?
das notas musicais
a
que mais brilha
é o
sol
penso
logo ouço
então
sinto
sinto o perfume
é
que por onde passas
produzes
sons
deixas
rastros musicais
vou cantar
dá um sol
aí
Suíte clássica
no
motel delirium
harmonia
das esferas
estrelas
ensaiam
canções
cintilantes
-
Noturno de Chopin
para
Fuga de Bach
sábado, 22
de janeiro
ri... minha
ela na dela
sozinha
eu
sem ela
na minha
quinta-feira,
20 de janeiro
então
letras têm cores
o alfabeto em um estojo
as letras não sabem ler
e nem escrever sabem
analfabetas de pai e mãe
se deixam levar
na formação de palavras
juntas fazem algum sentido
mas separadas nenhum
e quem garante
que estão em ordem alfabética
essas vinte e seis solitariazinhas?
ana é
de lua
em fases insanas
una e múltipla
ana
em anas e anas:
beltranas cicranas
fulanas
ciganas
a lua de ana
é de loba grávida
ana
uiva ana ávida
por gomo de cana
caldoce e
mel
parindo estrelas
em sombras de dúvidas
e ana é dádiva
e ana é vida
ana doidivana
puritana ana
luz se dá
lúcida ana
ana
serena
ana
ao luar
ana é
de lua
em cio e ciclo
ana
lunar
domingo, 16 de
janeiro
saudade não
sinto
não é como antes
mudou a paisagem
e dela estou fora
te olho e não vejo
o que via em mim
não sei o que houve
estou frio e seco
não penso não lembro
só sei que não sinto
saudade de nós
te perdi
ou me
perdeste?
ou em ti
sou este
que morri
quando
renasceste?
fugi?
correste?
desisti
percebeste?
o lago
é
algo
líquido
e
feito
alvo
narcíseo
para
o nado
de
peito
ou
o salto
mortal
na
íntima
face
das
águas
espelho
do
nada
miragem
com
cara
de
ira
afogada
lâmina
de
alma
lavada
fino
lençol
esfria
o
rosto
do
sol
que
se mira
lindo
e só
imenso
imerso
em
si
o amor é invisível
é invisível o amor
ele está aí agora
dentro e fora de ti
escrutinando-te toda
o amor se julga deus
de erótica onipresença
quarta-feira, 12 de janeiro
meu amor é
estabanado
sem modos desajeitado
precipitado imprudente
(enciumado sai da frente)
amor sem tato desastrado
amor desmedido estouvado
- me faz te amar adoidado
te amar assim
loucamente
mas enfim é só ternura
paixão desejo doçura
tesão fome e candura
o saldo de toda loucura
de meu amor tão urgente
segunda-feira, 10 de janeiro
E chegas à conclusão
de que não te faço bem.
O ciúme que demonstro
– o ciúme este monstro
com rosto de mil olhos
vendo o que não existe –
te tem deixado triste.
O
meu amor te sufoca?
É loucura meu amor?
Este amor que sem ar
já não tem a lucidez
de se saber te amando
sem ser amado por ti.
Perco eu que me perdi.
Não
devo mais te amar
meu amor bem não te faz
- a tanto amor porei fim.
Voltes a viver tranqüila
qual eras antes de mim
- não te preocupes mais.
Teu adeus
aceito em paz.
sexta-feira, 7 de janeiro
I
entre uma tecla e outra
o insondável abismo
do não-escrito
o apenas pensado
o sem sentido
entre uma e outra letra
catar as palavras
necessárias ou não
até que tudo ganhe forma
e possamos nos comunicar
ler
é escre
ver
com a imaginação
II
fora
de nós os objetos
nós
os sujeitos
nos
evadimos da realidade
fugimos
do presente
não
vivemos esse momento
os
objetos permanecem
nos
jarros flores murcham
carros
aglomerados
no
engarrafamento-tempo
eles
estáticos e as horas
as
horas vãs vão se esvaindo
nos
desvãos que buzinam
na
pressa impossibilitada
e
nós os sujeitos ausentes
enganando-nos
no aleatório
em
um plano de nada haver
a
ver navios no marasmo
ancorados
nessa loucura toda
III
de amor não se fala
evita-se contrariedade
e nada de contradição
passa ao largo a incoerência
o sentir não perde a razão
deixa o amor falar por si
falar de amor é a negação
do amor pedindo silêncio
sua paz dispensa aflição
faz-se de surdo o amor
sem cabeça e coração
falar de amor é sojigar
limitando a imensidão
amor tem sua linguagem
dialoga em sua expressão
amor cala fundo a alma
- e isso tem explicação?
fala de amor é olhar
ama-se com a respiração
amar é a voz do amor
quem de amor quer falar
sufoca o amor na relação
IV
não diviso
não há fim
tua presença na distância
ausência
amor assim é saudade
é sim
V
não
me leia
só imagine
veja as imagens
nas letras
dos textos
me leia
em mil viagens
em
entrelinhas e avessos
quinta-feira, 6 de
janeiro
para ter um amor
amar
viver
amando
sentir-se
amada
ser amante
dizer que
ama
ouvir eu
te amo
ame
ame-se
ame-me
amemo-nos
e amém
ainda não te
conheço
mas a ti serei apresentado
então direi:
- muito prazer
que bom ter te encontrado
(estou encantado!)
não te busquei
e nem tava sendo procurado
coincidência? providência?
conspiração do acaso?
sorte ou destino traçado?
respostas
não terei
e então só saberei
que nós dois sozinhos
será coisa do passado
sábado, 1 de
janeiro
nem ouso
tocar
estrelas
dirão que
estou à beira
de exaltada
loucura
então
deixá-las ao lume
do abandono
distante
dou-lhes
lustre às vezes
(vês? estão
sempre polidas)
mas se
alguém imaginar
me privará
do brilho
e isso sim
me deixará louco
por isso
elas lá e eu cá
só a
imaginação nos une
luz sã de
um deus sem norte
Janeiro de 2004
sábado,
31 de janeiro de 2004
==q=u=a=s=e==m=i=c=r=o=s=c=ó=p=i=c=a=s==
para
ser
só
teu
estou
mais
eu
sou
menos
meu
árvore sem frutas
(árvore sem flores)
árvore sem sombra
(árvore sem folhas)
árvore sem raiz
(árvore sem seiva)
árvore não plantada
árvore por existir
árvore do alvorecer
árvore do amor
em mim
ela
teve todo cuidado
foi
mansamente hábil
ao
me ferir
me machucou
com
tanta calma
me retalhou
com
muita precisão
que
em outra não torno
talvez
não
por tudo
que temos
tão pouco
agradecemos
ao que até nós
vem
para nosso bem
não dizemos
amém
somos somenos
e de mais a mais
amemos
sexta-feira,
30 de janeiro
sou
aroeira
sou
do cerrado
mas
nas erosões
choro
pitangas
sou
todo coração
(mental e couraçado)
eu
topo
fazer
teu mar
caber
em um copo
da cabeça
aos pés
os segundos
banho
com lágrimas
e os seco
com os cabelos
da primeira
me testa
na
chuva
à
margem
na
festa
me testa
abre
em meu peito
mínima
fresta
de
acalanto
e
de teu noturno sol
um
só raio
me empresta
com
ele brilharei
e
sereno e solar
de
encanto
dedilharei
estrelas
te farei seresta
me testa
me prova
e
aprova
o que
em mim
de
bom e melhor
resta
calendário
passa
tempo
diário
cupido
não flecha
coração ferido?
ou a flechada
vem
em outro sentido?
sê eterna
em
mim
ainda
que por um
segundo
mas
hiberna
em
meu
eu
vai
fundo
quinta-feira,
29 de janeiro
pensamento
l i v r e
perde-se
perdi-o
a vagar
vago pensar
liberto
em ser
incerto
ora longe
ora perto
ora poético
ora deserto
alma trôpega
cuidado com a pedra
do acaso
no caminho
de casa
edifica-a
é de alicerce
que precisas
para evitar
paredes
e solidificar
tua ternura
humildade
e timidez
a chave
do céu
- ave
abrir
de asas
entrar
no infinito
e simples
mente
ser
pode não ser
tudo
mas é muito
ou
o bastante:
ter o mínimo
do grandioso
e nada ter
do nada
o inteiro
se incompleta
não no que faz falta
mas no que se basta
não no que transborda
mas no que recusa
ou por ter demais
ou porque não quer
mais
o inteiro
por si
se divide
o não-escrito
jamais
será
deslido
a poesia
é minha essência
que à tua ausência
presencia
e silencia
na distância
tua dissonância
em harmonia
não sou mais
seu
virtual poeta
não
me acessa
e
depressa
me
deleta
te amei
qual kamikaze
não morri
não me matei
- mas quase
agora que te esqueci
me pergunto
- tem base?
antes
por
qualquer coisa
morria
agora
quero
mais é viver
por
uma coisa qualquer
afinal
a vida está aí
para
o que der
e
vier
todo o tempo do mundo
e todo mundo sem
tempo
o mundo sem o tempo
todo
liberdade tanta
impossível vivê-la
toda
mas o que é
a impossibilidade
ante o livre?
não
recua
-
pode ser tempo
de
aproximação -
ou
antes tatua
tua
presença
em
solidão
à
minha
ausência
em
abstração
vem!
atenua!
és
irreal
sou
ficção
que eu saiba
não
há nada que sai
(e
ainda que saia)
que
não caiba
quando
cai
(mesmo
que caia)
quarta-feira,
28 de janeiro
perder-me em minhas metades
e em cada uma delas te encontrar
juntando-me a ti para nos unirmos
multifacetados ambos em buscas
tu contando minhas partes todas
e perdendo as contas de quantas
e eu sou muitos porque és tantas
não procures em mim índice
nem capítulos ou páginas
ainda sou por escrever
ainda estou por ser lido
ainda vou te contar uma história
que não começará com era uma vez
que não terminará em para sempre
mas
podemos ser felizes no fim
(queres
um conto novela ou romance?)
ela é carinhosa na fala
ela é cuidadosa nos gestos
ela é perigosa ao olhar
ela é supersticiosa no crer
ela é raivosa se sofrer
ela é caprichosa ao querer
ela é temerosa ao se dar
ela é receosa em me ter
ela é silenciosa ao dizer
ela é amorosa sem saber
ela é fogosa e tem poder
ela é manhosa no jeito
ela é poderosa e me tem
ela é luminosa e faz bem
ela é gostosa também
é feito de silêncios
teu olhar
ou quis dizer tudo
ao mesmo tempo
já?
conhecer-te
tem sido
como aprofundar
na luz de
mim mesmo
buscando
claridades outras
diferentes
daquelas já percebidas
- não as
claridades desconhecidas
mas as ocultas
não refletidas
és toda luminosidade
clareira
de sonhos
clareia o realizar
naquele inexato momento
-
talvez para ti fugaz
e
imperceptível -
tenha
eu me dado conta
do
quanto tua aparição
única
e simples
eternizou
tudo
e
o tanto que lembrar-te
mais
sensível me torna
para
não dizer humilde
segunda-feira,
26 de janeiro
>><m><i><c><r><o><c><o><s><m><o><s><<
não
faças da ausência
data
perdida
o
tempo de ser só
dispensa
calendário
e
mais dia menos dia
cada
um se encontra
em sua
própria solidão
e
por aí vai
no
tempo e no espaço
ou
no vácuo entre um e outro
à mão livre
deixo escapar
ou foge-me
a palavra
aprisionada
ou o sentimento
liberto
água entre os dedos
ou amor?
então me solto
ando às soltas
leve de tão livre
não
me vês
mas
a teu lado estou
em
forma de ar
respire-me
até
cansar
(e
sem me sufocar)
no outro sou
outro eu
no eu sou outro
neutro ser
manhã-pássaro
voa
tarde
da
noite
até
pousar
na
aurora
entre
carvão
e giz
em silêncio
meu grito
não escrito
se contradiz
cego
surdo
mudo
nego
o
absurdo
de
tudo
uma palavra puxa outra
uma palavra puxa out
uma palavra puxa ou
uma
se for para formar
contigo um par
que seja de asas
cansei-me de rastejar
em
ardentes brasas
não imploro nada
não ajoelho
não ergo as mãos
nem benevolente sou
a impiedade tomou conta
dei de chorar escondido
por isso essa alma tonta
e esse coração desnutrido
a
mulher madura
me invade
com
sua serenidade
seu
olhar repousa
manso
e denso
me vejo transparente
em
sua lucidez
sua
calma é sua alma
ao
morder a fruta
e
deixar escorrer a polpa
da
carne de seus lábios
a
mulher madura
me olhou e não me viu
ou
nem me olhou
e
apenas fingiu e fugiu
(fiquei aqui com sua maçã
quase inteira – e faminto)
sábado, 24 de janeiro
::p:o:r:q:u:e::h:o:j:e::é::s:á:b:a:d:o::
não vôo mais
não com asas
cegas
incapaz de pegas
lento para negas
para contrariar regras
desisti de voar
sem asas com azar
uma lança
de dardo
de mallarmé
não ferirá
o ocaso
nem atingirá
o alvo no vaso
com les fleurs
du mal
de baudelaire
existir
relaxar
se achar
agir
reagir
exigir
elixir
chá
ou chantili
em viver
insisto
a morrer
ainda
r
existo
escrever
é rito
edito
dito
acredito
o leitor usa
antes agito
rimei baudelaire
com apolinaire
verlaine não gostou
pois não rimou
com rimbaud
queria porque
queria
uma palavra nova
queria e não
sabia
porque queria
uma nova palavra
e se nova não
houvesse
haver não poderia
qual palavra
então
ele inovaria
ou
pós-modernizaria
o poema aconteceu
porque
foi buscado
pois
corri atrás dele
fisguei-o
com letras
lacei-o
com palavras
prendi-o
dessa forma
pegue
o poema a tapa
que
senão ele escapa
não há tradução
para a saudade
sem cura
o sentir
é indizível
o coração
à margem
da loucura
essa luz
só escura
tigres
onças
leões
somos
todos
abertos
ao diálogo
predador
então
seja forte
minha bela
gazela
verbo amar
pretérito imperfeito
p a s s a d o
no conjugal
não conjugado
eu
no entanto
sempre
às vezes
complico
tanto
eu
última
pessoa
do singular
criptografado
em esperanto
desde quando
o
mundo é mundo
tudo
muda
de
um modo
ou
de outro
-
é moda
sem par
sem ar
sem a
retrato fiel
eu ir
revelado
sonho
chapado
filme
queimado
eu não
emoldurado
tecê-la
em palavras
para aquecê-la
até esquecê-la
e não mais vê-la
poeta
marginal:
mime
o
grafe-o
sexta-feira, 23 de janeiro
.:g.r.a.f.i.t.e.s:.
ah! é mais que bela
é
vôo de passarinho
essa
magricela
na
passarela
fazendo
biquinho
(beicinho?)
mais
que star
ela
é néctar
giselle ma belle
perdoe
a metáfora
mas o silêncio
em si
se conclui
e o nunca
e o sempre
repercutem
extremamente
paradoxais
ela vai me odiar
vai
querer me bater
quem
sabe até me matar
mas
ela se sabe incapaz de sofrer
por
algo que jamais a atingiria tão fundo
como
a dor solitária de lembrar que um dia fui seu
e agora
a atormenta a certeza de que não mais não mesmo
nem
todos os girassóis têm ímpetos de raios
que alguns também se familiarizam com a chuva
e se misturam à água antes de chegarem a óleo
vegetal
outra
vez
não
ou talvez
sim
tantos
flash backs
arquivos
de minha mente
em backup
verde-amarelo
meu cérebro
br
pense
penso no brasil
no código
de
barras
o
preso
ou
melhor
o
preço
aprisionado
quer
se soltar
no
livre
consumir
água
mole
dialoga
com dura pedra
e amor eterno
jura
além da natural
ruptura
até que fura
asas compridas
pendem de lado
ando vergado
nelas piso
desajeitado
quase enjeitadas
asas largadas
estabanadas
jamais aparadas
e pior
nunca voadas
são asas
- como se diz -
desasadas
desaladas
não vejo mais
música nenhuma
nem mais ouço
paisagem alguma
onde estão as músicas?
as paisagens onde estão?
se não posso vê-las
nem ouví-las
som não há
na visão
nem se avista
a trilha sonorização
de ouvir ou ver
quinta-feira, 22 de janeiro
lapidares
depurações
sou inabitável
não
há vida
água
não há
em
meu ser solo
vem
inexistir
com
tua sede
e
teu abandono
sem
ombro e colo
em
cima
da hora
sem tempo
a perder
estou
sem ter
para onde
ir
vou
segredo nenhum
a não
ser estes
e
aqueles
todos
inconfessados
quase
beirando
a
pecados
és
passado
e o que passou
ficou
(ausente
e
lembrado)
uma folha de papel
sempre
branca
com
escritos em branco
(tu os lestes
ou
os escrevestes?)
ou
é tudo nuvem
em
mutação
de
ausências?
nessa
alvura
não
ias querer
tinta
negra
com
todas tuas tantas
tormentas
terça-feira, 20 de janeiro
enquanto ouço
chet baker
tocando na penumbra
nascimento
&
morte:
umbilical
um
bile
cal
há tempo
para
saber
o que
há tempos
sabíamos
como
me diz
o outro
que sou
em mim:
- não podemos
continuar
nos encontrando
assim
em
alta voltagem
ou te energizo
ou te choco
leminskiano não
entro numas
com o acaso
se vier e der
eu arraso
sou de
lugar nenhum
pertenço ao chão
que me cobrir
no fim
o i n e x p r e s s i v o l u a r
c é
u
o c u l t o e
m u m
o l h o
v é u
q u e n ã o q u e r
v ê - l o
l é u
flutua
em
ares por aí
ousa
e
não recua
mas
ao cair
só em si
pousa
então perpetua
elegante
demais
um frágil elefante
manter porcelana
preservar cristais
tu perdida em ti
(lembrando caçador de mim)
em
quanto ardor
em
quanta ilusão
teu
ser se fez por si
louca
e leve
intensa
e breve
tu
perdida em ti
imersa
em loucura
vivendo
insegura
indo
daqui por aí
sem
se achar
sem
nunca chegar
tu
perdida de ti
tudo
a ver
em
vão a querer
um
sonho
muito
prazer
em
desconhecer
o
mundo
sentir
o medo
da
flor
sem
primavera
seguir
adiante
ausente
d’alguma
espera
sempre
a fim
entre
o belo e o ruim
o
lá o sol e o se
vais
repensar
até
ressentir
tu
perdida em ti
no que não
digo
não no que
silencio
é que
consigo
é que me
pronuncio
meu eu
contigo
ouvi-o
o amor
perdeu-se
deu-se
a
dor
em
estágio
de presságio
em momento
de pressentimento
em sessão
de intuição
em convivência
com a presciência
em conivência
com a evidência
vou
ora sou
ora estou
o coração palpitou
aquele
caso?
expirou-se
o prazo
em
carne
viva
arde
em
brasa
essa
ferida
na
asa
não me
completo
nem quando
repleto
não me
esvazio
não me
sacio
não me
basto
então
afasto
se nada
a
atinge
finge
amada
finge
terça-feira, 13 de janeiro
a casa já foi mais
tua
hoje a casa está vazia
a casa que era nossa
é uma casa triste e fria
não há fresta na casa
essa casa não é minha
a casa só fica fechada
quanta vida ali eu tinha
se
entornamos
derramo
no
que erramos
o
que amo
vazio não há
há a ausência de
não haver algo lá
ou aqui
ou aí
(o em mim em ti)
quando
nasci
um anjo
torto
me levou
pro mal caminho
por não
querer
andar
sozinho
então a
seu modo
aprendi
direitinho
a ser
anjinho
- foi mal
(a bandeira
de meu tesão
hasteei
a meio-pau)
- perdão
síntese
sim
tese
se
para as estrelas
mais próximas
todos os caminhos
passam pela distância
e nunca chegam
no acaso
talvez
a possibilidade
quem sabe
haverá
pode ser
abelhas
nectarizam
pólens de baudelaire
em flores
do mel
sábado, 10 de janeiro
me olhas
alço vôos
sem asas
se dormes
sem ver
e me deixas
acorda
estou aqui
a teu lado
perdido
em teu sono
sem entrar
nem sair
é tudo meu
a partir
do olhar
se retenho
tenho
conquisto
no banco
de imagens
deposito
o visto
em estado
de graça
te acolho
e agora?
e lá fora?
g o
i â n i a
ins pira ção
ima
gyn
ação
texto de
autor desconhecido,
encontrado
no ônibus “circular sul”
“ela que comigo
muito
convivia
não me
conhecia
pois me tratava
como não
devia
não
prestava atenção
nem sequer
me ouvia
tudo pra
ela era ela
e somente
ela existia
só ela
falava
somente
ela queria
até que um
dia
ela pôde
ver
o valor de
meu ser
o que sei
o que sou
que gosto
e posso querer
que tomo decisões
e decidido
e resolvido
nada pode
me demover
então ela
que comigo
muito
convivia
e não me
conhecia
teve o
desprazer
de perder
meu amor
e a minha
companhia
agora ela
diz sofrer
quinta-feira, 8 de janeiro de 2004
não disse a
que veio
mas
pareceu um homem
cheio de
si
- não com
orgulho de ser
mas por
estar
de saco
cheio
palavra ter
para
ler
para
dizer
para
escrever
palavrear
até
no linguajar
da
alma
pela
grafia do olhar
minitudo:
minuto de cada hora
a vida toda
por todo o mundo
em lapsos de segundo
mas se a síntese
do não e sim em tese
der a causa do ser
por modificada
maxinada
quarta-feira, 7 de janeiro de 2004
vôo solo
o mais
alto
possível
vôo so
long