JULHO DE 2005
domingo, 31 de julho
Na batida.
No dedilhado.
Te toco.
Qual mavioso instrumento.
No ritmo.
No tom.
Afinado contigo.
Em doce acompanhamento.
Melodiosos.
Harmoniosos.
Acordes e notas.
Nosso musical sentimento.
Então.
Em
tempo.
Em
coma profundo.
Em
carne viva.
Em
pele e osso.
Em
ponto de bala.
Em
verso e prosa.
Em
alho e óleo.
Em
nome do pai.
Em
sol maior.
Em
alto e bom som.
Em
cima da hora.
Em
alça e mira.
Enfim.
O não-escrito nunca lido.
O grito não ouvido.
O infinito contido.
O bonito escondido.
O dito repetido.
O mito irrefletido.
O esquisito subentendido.
O aflito cupido.
O escrito sempre relido.
sábado, 30 de julho
Não se sublima
nem me risca
- nos sublinha
Vê-la de cabelo preso
a imaginação se solta
O sol paralisa aceso
A lua reviravolta
Ao mirá-la surpreso
medroso e indefeso
meu olhar a escolta
por ruas sem volta
Ouça.
Guarde
essa dica:
dita
ou
escrita,
mesmo
bonita
a
palavra evita.
Silencia.
Não
explicita.
Não
explica,
que
explicando
complica,
alguma
dúvida
sempre
fica.
Falando,
conversa
estica.
Escrevendo,
implica.
Entendimento
pobre
para língua tão rica.
sexta-feira, 29 de julho
És e estás só.
Tens na garganta um nó.
E se assim não fosse,
talvez, ó,
não amargasses o doce
amor que acabou-se
do qual não tivestes dó.
(Engasgastes teu gogó).
Amarre
com fio invisível
uma
a uma e em outras
as
pontas de zil estrelas.
T(orne)-as
cordão de luz
e
com elas forme um portal
e
virgens o atravessarão.
À
mão de um inocente
confie
o fio para que empine
a
estelar entrada para o céu.
As
virgens agora celestiais
trombetas
de ouro entoarão
a
ti e ao inocente louvando.
Pois
toda virgem que morre
sob
vossa corrente de estrelas
passam lindas e sorridentes.
quinta-feira, 28 de
julho
É só uma nova paixão?
Não, não a rejeita
Será qual onda revolta
te parecerá fera solta
não fique à espreita
e nada de escolta
se ela vem e te peita
Com ela rola e deita
que de muito amor
toda paixão é feita
A minha profundidade
cabe em teu vazio
e ainda sobra espaço
para a incompletude
e a ausência
Tudo perdera a graça
Tudo ficara sem sentido
(Por mais que ela insistisse)
Eu já não sentia mais nada
(E como o silêncio fala
- calei e disse)
Afinal, é melhor chegar, ficar
ou estar sempre de passagem?
Ser tudo e todo na paisagem
em eterna viagem?
Concisão:
tu e eu
con-
textuais
em uma única
oração.
Exercício de pensamento.
Prática irrealizável.
Teoria do impossível.
Assim não te encontrarei.
Assim já nos perdemos.
Assim é melhor não.
Um
artifício literário.
Conta uma história de amor
em teu diário.
Escrever ou ler,
qual o ato mais solitário?
Pretérito
perfeito.
Pretérito mais que perfeito.
Impreterivelmente tu.
E se não me preterires,
preferencialmente te aceito.
Esquece
que mentiste.
E inventa outra verdade
menos triste.
O
machado de Assis
a honra de Capitu
decapitou pela raiz.
Trigonometria
para a massa é pão
para mais de metro?
Com
asas
recolhidas
desvôos.
Tuas
próprias mãos
apalpe.
Dá um toque
ao desapego.
Age.
Agite.
Se
dá
em si mesma
ensimesma
-da
O tempo
personagem
de si
siempre
quarta-feira, 27 de julho
Essa
fila de formigas
não
marcha
Faz trilha
Acaso
conheces
a história do pássaro
que nunca aprendeu
a arte do vôo?
Era um avoado
Destinado
ao desatino
Desatinado
destino
Tava comprando
uma ampulheta
Entrou areia
no negócio
O arco-íris
um grande braço
da chuva de mãos dadas
com o sol
Nunca
olhou
para
trás
Era
cabisbaixo
Ao
chão seguia
aonde o chão ia
Falas
e já não te ouço
Tua voz me chega
como leitura
de legendas de um filme
mudo
Decepcionado com tudo
e todos disse:
- Vou me matar
cansei de
ser vivo
segunda-feira, 25
de julho
Então ganham cores as lágrimas?
E essas
vêm de prismas? Arco-íris?
Ou do
multicolorido íntimo e líquido:
a fonte
inesgotável do ser? Brotam
das
luminosidades ocultas da mente?
De ondas
elétricas que se espargem
em choques
de milhões de reações?
Ou será
puro sentimento a matizar
com suas
tonalidades de emoções?
A alma se
tinge de vivíssima luz?
O coração
colore de rubor o sangue?
E essas
lágrimas tuas não são tristes?
Misturadas
ao teu carisma realçam,
avivam,
enfeitam teu rosto róseo
em
incomparável expressividade.
E quando
choras, jorram multicores
em um
torrencial preito à saudade.
Por que as
lágrimas lembram dores
se
ardentes podem regar a felicidade?
domingo, 24 de julho
Fragmundos
Fragmentes
Fragminas
Fragmilhares
Fragmeus
Fragile
Pode partir ao meio o gelo
Minha
metade deixa derreter
Tornar-se
líquida a indiferença
E a deixe
esvair-se até algum ralo
para que escorra e por fim desapareça
sábado, 23 de julho
Devia bater asas
mas não
ouso
isso não é
coisa
pro meu
bico
então pouso
a teu lado
fico
Do amor
fubá
sou tico-tico
Levitação
da pedra
do chumbo
do ar
Tudo pesa
só não
paira
o
irrespirável
Eu em ti
e Tu em mim
Como não prescindes de me
ver teu
e
- como não sou (nunca fui)
sofres
só e desnecessariamente,
havendo
se idealizado dona de mim,
eu
como propriedade tua – posse vitalícia,
mesmo
sabendo impostora a vontade,
o
desejo indevido, o impossível
querer
como teu alguém
que
de ninguém será jamais,
um
ser a quem somente a liberdade
-
a liberdade - a liberdade e nada mais
unicamente
o completa no todo
e
em tudo o sereniza em paz.
Essas mãos e sua linguagem.
Tocam e
transbordam dizeres.
Acenam e
expressam sentires.
Pegam.
Soltam. Fecham. Abrem-se.
Em
louvação ou agressão, as mãos
são
reveladoras. Mais que os olhos?
Em tudo há
manifestação da alma.
As mãos se
dão, oferecidas, apegadas.
Dominam
instrumentos. Carícias têm,
arranhadas
ou sedosas. Grosseiras,
macias,
calos e pétalas, duras suavidades.
Mãos em
outras mãos, unas, entrelaçadas.
Espontâneas,
as mãos falam e não sabem.
Agem por
ti, de ti obedientes, a ti servindo.
Os gestos?
Não procures ouvi-los.
Antes
deixe que te digam sem apego
o que em
parte silenciam pela desatenção
que
impronuncias ante os afagos livres
e simples
que elas fazem, não em teu ego,
mas
deliberadamente em teu sentir e pensar
- e que
não levas a palma:
a
comunicação de ti para com tua alma.
Acumularam-se silêncios
ao longo
dos dias vividos,
dias
passados mais à sombra
que à luz
de nós dois – tu e eu.
Tu com
tua expressão gélida.
Eu em teu
continente ártico.
O sol, às
escondidas seus raios
refreou,
paralisando o espargir
abrangente
de calor e luminosidade.
Tu e eu
já existimos. E desistentes
habitamos
lados opostos e ausentes.
Será que
buscávamos desencontros?
sexta-feira, 22 de
julho
Arde o sol no azul
ou o azul
arde
ao sol?
Céu...
Então
me dizes:
- A alma é infinita.
Quão infelizes
aqueles de alma aflita
(de juízes a meretrizes).
A dor lhes dói de bonita?
Na penumbra
exclui de
ti
a
não-clareza
a desluminosidade
a anti-luz
Dos
pertences teus
separa o
caos
dos breus
O mais
esquece
- isso é
com Deus
Mente exausta.
Pensamentos
sem fôlego.
Lembranças
desmemoriadas.
De tudo
o nada
esquece
(ou
disperse).
E
recomece.
Alguma
antiga lágrima
manchou a dedicatória
escrita a caneta tinteiro
eternizando-se
foto
grafia
quarta-feira, 20 de
julho
NO
COTIDIANO
DIA
ANO
TE AMO
Feitos de não-amor
Conceitos
de desamar
Confeitos
de dissabor
Aceitos sem
par e ar
Leitos
insones: desluar
EU
Sozinhês
Sozinhar
Sozinhude
Sozinhei
Sozinheu
Sozinhando
Sozinhôco
Sozinhomem
ELA
Sozinhá
Sozinhávida
Sozinhia
Sozinhaca
Sozinhártica
Sozinhela
Sozinhúnica
Sozinhora
DOIS SOLZINHOS
segunda-feira, 18
de julho
Ela e todas as outras
moram
no bairro do amor
(Mas
ela – quão bela!)
As
meninas afloram
luzes
arrebatadoras
flores
azuis no inverno
corcéis
de fogo na noite
olhos
e bocas: bússolas
e
um estranho poder
o
mais fecundo do mundo
Quer
conhecê-las?
Segue
por essa rua e vai
enfrente
toda a vida
(como
quem vai a pé
a
Nazaré)
até
não poder mais
que
quando é fé
verás
como ela é
virgem
e linda até
É
agora, José!
domingo, 17 de julho
I
O
que pedes para ti?
O
que já não tens
porque
jamais te darás?
II
Vais
ao encontro do nada?
Ou
o nada te chama
para lugar algum?
III
O
que sabes tu da solidão?
Julgas-te
maior que ela?
Ou
apenas um dos seus?
Aquele
que está por aí
a
buscar uma margem
de
si em torno do medo
ou
o centro de um sonho
para sempre irrealizado?
IV
O
equilíbrio incerto
sobre
a fragilidade
do
ser a se descobrir?
Que
proporção de abismo
queres
para tua queda
sem rede de proteção?
V
Estás
a sós contigo.
Olhas
o vazio e ele te preenche
de
profundidades. E te absorves.
E
te nutres de introspecções.
Perguntas
para a imensidão.
Ouves,
mínima, a resposta:
vida...
VI
Queres
ir de vez para dentro de ti?
E
se acaso te perdes sem volta?
Tens
labirintos insondáveis.
Descaminhos
inexplorados.
És
um universo. Somente tua cabeça
tem
mil galáxias de milhões de sóis.
E
tudo em ti é maior que tudo.
Desconhece-te.
Não te aventures.
Fica!
Ou vá. Estás além. Sobre
vivendo
vendo.
Sigo
comigo
e só
contigo
consigo
Eterno empurrar a pedra
por essa montanha acima
com fatigadas retinas
(ó pedra a que destinas?)
Eu Sísifo drummondiano
tirei-a do meio do caminho
onde a tinha e a havia
(a pedra da poesia)
Desse acontecimento
nunca me esquecerei
a pedra itabirana
sempre empurrarei
Quer entender o abismo
vai fundo
Cai no vazio do silêncio
Labirintos cerebrais
Espirais na água
Eternidade de ancestrais
Ausência esquecimento
noite túnel dúvida sombra
Não há fim nunca
Parta do princípio
que jamais chegará
a lugar nenhum
Abismo maior não há
ó interminável viageira
A queda é infinita
quando é para dentro
de si
sábado, 16 de julho
Saber-me só
Ter-me meu
Dar-me a mim
Sentir-me eu
Haver-me comigo
Sendo-me sou
Perder-me de nós
AMORDAÇA
AMOR
CAÇA
TEÇA
AMOR
CAÇADOR
AMORTECEDOR
TECE
DOR
AMOR
ando
trabalh
Chovo
Estio
Choro
Chio
Charco
Rio
Largo
Esguio
Farto
Fio
Parco
Crio
Marco
Cio
DEUS
EXISTE
DEUS
EXIT
DEUS
EX
DEUS
XIS
DEUS
IT
DEUS
X
DEUS
IS
DEUS
TE
DEUS
E
Da redoma
não o tira
Se em coma
já não respira
com nada soma
Asfixiado
intubado
já não completa
amor vegeta
Uma frase
inteira
nunca termina
se jamais
se conclui
Quer amar mais
amar demais
amando em paz?
Não ame jamais
sexta-feira, 15 de julho
Enquanto dormes
te amo
Ainda que teu sono
me seja a ausência
de ti – te amo imóvel
silencioso no abandono
(Acorda! – íntimo clamo)
E admirado te miro
velando a tua entrega
tranqüila ao descanso
toda esparramada
na cama desarrumada
após o embate
mútuo abate
ternura desatinada
fúria louca
risos de canto de boca
e te confessas fatigada
Nua delícia:
cabelos braços pernas
lívida ávida única
Então adormeces
és meu sonho
te amo
Sendo o amor
cego
por tal não
me deixo guiar
Essa verdade
prego:
se a ele
cegamente
me entrego
dois seremos
a titubear
Nem à primeira
vista – não nego
amei
ou hei de amar
quarta-feira, 13 de
julho
Ela
em
tudo
é
cheia
de
si
Ela
é
plena
de
céu
e
cio
Ela
tem
olhos
de
bem-
te-
vi
Ela
é
fogo
de
fio
a
pavio
Ela
acende
as
estrelas
Ela
lhes
dá
brilho
e
brio
Ela
brilha
mais
que
elas
Ela
é
luz
de
sol
no
frio
sábado, 9 de julho
Grava-a em ouro.
Risca-a na
areia.
Escreve-a
no ar.
Mas a
expressa.
É um
respiradouro.
É vida
vinda na veia.
Realização
por sonhar.
A palavra
a tudo apressa.
Dita
pensada impressa.
O amor chegou. E agora?
Com ele
saberei lidar?
Terei
tempo a toda hora
que o
amor me reclamar?
Poderei
dizer o que sinto
olhando
nos olhos do amor?
A
verdade, omito ou minto?
Como
evitar a rima dor?
Devo me
expressar rindo
ou
demonstrar lamúria?
Usar de
romantismo lindo
ou
alternar ternura e fúria?
E se este
amor me consumir
a ponto
até de me alienar?
O que
preciso fazer? Fugir?
Ou a ele
enfim me entregar?
E agora
que o amor chegou
serei
mestre ou aprendiz?
Responde
quem já amou:
o amor é triste ou feliz?
sexta-feira, 8 de
julho
Adubou canteiro no jardim
Plantou
beijos amarelos
brancos e
roxos
Colhe-os
com longas hastes
na cálida
boca da noite
(isso
quando não madruga
seu vazio
vaso orvalhado
que em
frio silêncio amoita)
E
mendigando prazeres
e seus
dadivosos favores
febril a
fim e afoita
com os
beijos tricolores
a desejosa louca se açoita
Ilusão é
desesperança
Fé desassistida
Feia e triste
não resiste desiste
jaz sem vida
em solo infecundo
Cai no vazio de si
feito sombra no breu
do buraco mais fundo
do mundo
Currículo em mão
anda em
círculo
entra no
cubículo
de
contratação
Se sente
ridículo
ao receber
outro não
“Putz, que caralho!
É não e não
onde chego
Como dá
trabalho
caçar
emprego”
Também
quem mandou
brincar com fogo
tão próxima assim
do Sol?
Hospede-se em mim
Cabe-te em
meu peito
Banhe-se em
meus olhos
Durma em
meu coração
Viaja em
minha cabeça
Inteira e
feliz me habita
Seja o sol
da órbita eFe
A luz
própria – luamusa
Brinca em
meu sexo
Respira-me
em ti sem ar
Deita e
rola nesse corpo
até que
ambos sejam unos
o teu no
meu adicionado
o meu no
teu confundido
o teu em
mim habitado
o meu no teu residido
Uma abelha
picou
Qual
centelha
ardeu
queimou
Não
doeu
- nectarizou
quarta-feira, 6 de julho
Fecha
os olhos.
Para
ouvir.
Vê
como o escuro
se
mostra calado.
Essa
é a verdade.
Pense.
Em íntimo silêncio.
De vez em quando um verso
Vez por outra um poema
Mas agora nenhuma palavra
Nem som de sí-
lab(i)a
Com palavras
ler
pensares
ver
pesares
e nada
escrever
e em nada
crer
A contraluz
não temer as cores
não raciocinar
sobre tons & matizes
de um suspiro último
Sombras sutis
Sutilezas
sombrias
Tudo ver em ocos olhos
desacostumados de claridade
Um milésimo de segundo
condensa formas abstratas
A cegueira é azul
de potente raio refletido
na tela surreal
emoldurada pela morte
Vê-la
sem maquiagem
após
uma noite juntos
murchou
a verde haste
no
cálice da vaidade
Em
espelho revoltado
de
mirada infelicidade
ela
viu a desilusão
da
flor seca de vontade
Ele
já frouxo espinho
Ela pétala de ansiedade
Na fronteira entre Aquário e Peixes
água pouca
recipiente mínimo
ar faltoso
e eu que não creio em horóscopo
me sinto um astro alinhado
conspirando na leitura
de signos imprevisíveis
com futuros improvisados
Sonhou que escrevia um poema
Percebeu-o adormecido
Acordou do sonho em transe
e também o poema despertou
Este trouxe à luz aquele que sonhara
consigo escrito
E ambos sonhadores
havendo-se entre ser e estar
existiram autor e texto
no sono do sonhar
terça-feira, 5 de julho
Ocê
ou
você
eis
a
questã
Sê
criativo
ReInvente
se
Ninguém vê.
É
ver pra quê?
Ver
pra crer?
Em
Deus crê.
Ou descrê.
E se de repente o mar
a si
engolisse
e liquedefeito
se afogasse em sal?
Não me ames
amicís-
sim-
a
sábado, 2 de julho
Coisa tola:
descas
cada
camada
por camada
a cebola
cortar
E na desmiola
da
nada
achar
E ela desola
da
inconsola
da
põe-se a chorar
Ela me disse:
- Sempre estou bem.
Esse é o meu mal.
E eu:
- Nem tanto assim,
enquanto seu mal
for com L.
Pedra
pedra não quis ser
(pedra não pode
querer).
Pensou ser outra
(pedra não pensa)
coisa.
Desde então
é pedra
(não a que quer)
essa coisa que é.
Segunda-feira talvez.
Hoje não, por favor.
Nem tive tempo de sorrir
para a vida, sem assombros.
Adie. Prorrogue. Deixa.
Semana que vem quem sabe.
Preciso de alguns dias.
Quero apenas o mínimo.
Esquecer. Dar de ombros.
Até me perder de mim.
E assim, sem tempo,
implorar novo prazo
distante do que somos.
Um dia qualquer do ano,
talvez uma segunda-feira
ou uma data assim, sem falta.
Não deste ano, deste não:
do calendário de escombros.
De um outro ano por vir.
Nem tive tempo de sorrir
Quero ficar. Impeço-me de ir
ao encontro do que fomos.
O desejo do silêncio é nada.
Nada, nada, nada. Assim é.
Nada porque é veloz.
Nada por se eternizar.
Nada para sempre nunca.
Silenciosa
mente.
Nada diz do que pensa.
Desejoso e silenciado.
Atravessa o rio do nada
a nado.
JULHO DE 2004
Nietzschiana
se me queres
apolíneo
serei para ti a medida o equilíbrio a serenidade
se me desejares dionisíaco
para ti virei exaltado violento apaixonado
insisto que mescles ambos em um
em uníssono os dois em mim
ah que assim terás tanta felicidade
tu um sol de mulher plena
te sentirás tão abençoada
com uma paz doida e iluminada
que podes até desejar morrer
de amor
meia-pontinteira
de Cora
a poesia decora
decora de Cora
a poesia Coralina de Cora
Cora a poesia e decora Coralina
decora a poesia de Cora Coralina
nina com versos dessa velha menina
aprende com eles
e deles ensina
que a ti Goyáz ela os destina
que tantos vinténs de cobre da mina
da preciosa Cora Coralina
li
Cora
lina
na
Cora
li
deduzir
o azul imenso (em parte 1)
olhos de
aves
vêem nos pássaros
(não aviões
nem outras naves)
mas asas suaves
(não deltas
nem planadores
ou ultraleves)
nos
pássaros vêem
aves de olhos
em vôos que vêm
sem
abrir o peito de pássaros (e partem 2)
quanto
mais altos os vôos
mais se aprofundam
em ares distantes
asas
raras arrasam
no espaço – e rasas
se jogam no azulvão
em vôos rasantes
rentes ao chão
sobem descem
e vêm e ou não
::. será
a cor de bóia fria? .::
qual a
cor mais fria
que no azul nevaria
no amarelo estremeceria
no vermelho degelaria
no branco congelaria
cor magra sem caloria?
qual a
mais fria cor
das tintas do pintor
que passam a compor
assim sem tirar nem pôr
o daltônico gosto decorador
de cego paisagista floricultor?
não sei
qual a cor mais fria
nem sei qual a mais fria cor
mas talvez ser poderia
a cor de meu cobertor
que com ela eu cobriria
inclusive a frieza incolor
.:: meus
deuses da guitarra ::.
eric clapton pressiona as cordas
escorre pelas bordas
meu coração em calda...
santana inferniza com outro acorde
permito que transborde
e meu coração se esbalda...
john lee hooker arrasa
num solo
e onde está teu colo
rainha da lucidez?
ouço o improvisar de b.b. king
me vingue me xingue não me distingue
só que agora pela antepenúltima vez
jimmy page age no braço com trastos
e meus dedos em semitons nefastos
reclamam a saudade de acariciar-te
e um tal robert cray
arrebenta
ranhetando essa minha dor lenta
inteira sem ti de quem sou parte
muddy waters estraçalha nas escalas
enquanto distante me calas
com tuas transfigurações
jimi hendrix ao palco me
convoca
porém minh’alma viva se toca
morrer por ti tem seus senões
lenny kravitz de leve dedilha
nina ana até nanar a filha
e ritchie blackmore insiste
em sol e lá
posso ver-te e só do lado de cá
sei que sou um homem ilha
tão mar que tudo de mais só que há
buddy guy me destrói numa cromática
reduz a azul minha luz errática
perdida em tua tresloucada distorção
ao som de mark knopfler sou
o sultão desiludido
paxá da pobreza de haver-te perdido
por não te querer companhia de minha solidão
bob marley faz ecoar em mim o reggae
minhas murchas florzinhas não mais regai
que não rebrota amor já sem seiva e vida
slash inventa de zoar numa dominante
em um hammer ríspido e constante
que chego a soar microfonia desimpedida
o solo de steve val
me ilude
rasgando for the love of god
e toda dor sem tirar nem pôr se amplifica
me sintetizo em pentatônica harmonia
fosse eu uma guitarra me solaria
ouvindo-me em todos tu em mim insignifica
::as
batalhas::
as batalhas
estão ganhas
meu amor
as artimanhas
as façanhas
mais estranhas
pois subi
desci montanhas
e nadei
tantas piranhas
e teci
muitas aranhas
pra te ver
minha heroína
treme
mas seu herói
não teme
geme tanto
tonto
de prazer
minha heroína
teme
mas seu herói
não treme
geme tonto
tanto
de prazer
::Ninho
mental::
Dois
pássaros:
para meus ventrículos
para meus testículos
para meus olhos
para meus ouvidos
para meus pés
para minhas mãos
para minhas narinas
para meus braços
para minhas pernas
para meus mamilos
pousam
em meu cérebro
se aninham à direita
e à esquerda
e voam
porque pensam
são vão e estão
dão – em mim -
asas à imaginação
::Chuva
silenciosa::
O
silêncio se impõe
em briga com a noite
Dá sossego aos ruídos
Adormece os ouvidos
A alma das coisas se apazigua
Tudo é longe agora
- o aqui está lá fora
A luz se esquece sem som
A calma ainda mais anestesiada
A ausência de quem sou
Desejos absortos no eu só
Quanto mais silêncio mais silencio
A noite entrevada de frio
Chove
Nada comove
minim
Desejo do irremediável
do que agora quer ser conflito
delírio de um coração aflito
que me faz um bem maldito
que me faz um mal bendito
A metade
é a meta
de
um ser estilhaçado
multipartido em mil pedaços
em migalhas jogadas
ao nada
e nada é invísivel
aos olhos de quem tudo vê
através daquele que ainda crê
no inatingível
no possível
ou até mesmo no impossível
palavrausente
a palavra se
encontrou comigo
no silêncio de eu pensante
minha razão
de ser não se retrata
na grafia do expressadamente
eu comigo não
necessitaria de algo
como a palavra de mim diante
mas a palavra
fez questão de chegar
porque aquela era a palavra ausente
pedaço
sair de ti
foi fácil
foi facílimo deixar-te
porém sei contudo
em ti deixei parte
poeta tem na musa
a razão de sua arte
era tua minha poesia
de ti ela era encarte
négané
não é e é
é e não é
e não é é
é não é e
é é e não
é e é não
não é é e
é não e é
calendário
viver
um dia depois do outro
um dia após o outro
um dia de cada vez
domingo
segunda
terça
quarta
quinta
sexta
sábado
de segunda a
sexta a vida é uma feira
mas a semana começa e termina sem
pequena pausa
ponto e ,
. e
vírgula
the end
se tudo que
há no espaço
tudo que o céu contém
constelações via láctea planetas satélites astros
meteoros cometas aeronaves e até óvnis
(não há porque colocar os pássaros nessa lista)
se essa imensidão um dia cai toda
desabando no vácuo criado no caos
será o momento da descriação?
e Deus, onde se apoiará em que vetor
para se manter suspenso
acima de tudo e de todos
com sua onipresença onipotente?
o sol explodirá e a luz não haverá
apagando-se em sua velocidade
em queda iluminada e abismal
então o nada habitará o vazio
o oco da inexistência absoluta
silêncio profundo do ex-mundo
e Deus, só consigo mesmo
vagará, pairando no breu extremo,
espírito solitário a esmo
tremendo de frio e de medo
no eterno fim de Si
vento
vento
canto do ar
em movimento
vento
criação a respirar
a todo momento
vento
sopro a bailar
no pensamento
vento
brisa a ninar
o sol rebento
vento
em todo lugar
é acalento
vento
algo a criar
inovado invento
vento
vindo apressar
o ritmo lento
vento
ousou levantar
a saia do monumento
vento
Marilyn quis refrescar
seu temperamento
vento
miss Monroe a gozar
frescor e alento
vento
só sabes inspirar
com teu talento
vento
vem redomoinhar
meu catavento
vento
se descuidar
perde o assento
vento
velas ao mar
do esquecimento
vento
por onde passar
vira advento
vento
faz arejar
até sepultamento
vento
gosta de felicitar
qualquer nascimento
vento
te aprisionar
nem tento
vento
se me esfriar
te esquento
vento
dei de aventar
teu intento
vento
fazer ecoar
teu instrumento
vento
queres voar
qual anjo bento
vento
vai passarinhar
no firmamento
vento
preferes pousar
no sentimento
vento
então deves pensar
em casamento
vento
honra em convidar
para o entrelaçamento
vento
se se realizar
que acontecimento
vento
irá desposar
uma pipa sem rumo e sem rima
retorno
no círculo
o quadrado circula
e o círculo circundando
enquadra
e nada contém
e tudo está contido
O
contador de pedras
Sem ter o que
fazer, deu para contar uma a uma as pedrinhas
do imenso calçadão da praça Monsenhor Joaquim Thiago.
Contava, contava até perder as contas.
E foi recontando dias semanas meses a fio sob sol e chuva e estrelas
que percebeu quão impossível era sua tarefa.
Não a de contar. Mas a de conviver com as pedras.