JULHO DE 2005
domingo, 31 de julho
Na batida.
No dedilhado.
Te toco.
Qual mavioso instrumento.
No ritmo.
No tom.
Afinado contigo.
Em doce acompanhamento.
Melodiosos.
Harmoniosos.
Acordes e notas.
Nosso musical sentimento.
Então.
Em
tempo.
Em
coma profundo.
Em
carne viva.
Em
pele e osso.
Em
ponto de bala.
Em
verso e prosa.
Em
alho e óleo.
Em
nome do pai.
Em
sol maior.
Em
alto e bom som.
Em
cima da hora.
Em
alça e mira.
Enfim.
O não-escrito nunca lido.
O grito não ouvido.
O infinito contido.
O bonito escondido.
O dito repetido.
O mito irrefletido.
O esquisito subentendido.
O aflito cupido.
O escrito sempre relido.
sábado, 30 de julho
Não se sublima
nem me risca
- nos sublinha
Vê-la de cabelo preso
a imaginação se solta
O sol paralisa aceso
A lua reviravolta
Ao mirá-la surpreso
medroso e indefeso
meu olhar a escolta
por ruas sem volta
Ouça.
Guarde
essa dica:
dita
ou
escrita,
mesmo
bonita
a
palavra evita.
Silencia.
Não
explicita.
Não
explica,
que
explicando
complica,
alguma
dúvida
sempre
fica.
Falando,
conversa
estica.
Escrevendo,
implica.
Entendimento
pobre
para língua tão rica.
sexta-feira, 29 de julho
És e estás só.
Tens na garganta um nó.
E se assim não fosse,
talvez, ó,
não amargasses o doce
amor que acabou-se
do qual não tivestes dó.
(Engasgastes teu gogó).
Amarre
com fio invisível
uma
a uma e em outras
as
pontas de zil estrelas.
T(orne)-as
cordão de luz
e
com elas forme um portal
e
virgens o atravessarão.
À
mão de um inocente
confie
o fio para que empine
a
estelar entrada para o céu.
As
virgens agora celestiais
trombetas
de ouro entoarão
a
ti e ao inocente louvando.
Pois
toda virgem que morre
sob
vossa corrente de estrelas
passam lindas e sorridentes.
quinta-feira, 28 de
julho
É só uma nova paixão?
Não, não a rejeita
Será qual onda revolta
te parecerá fera solta
não fique à espreita
e nada de escolta
se ela vem e te peita
Com ela rola e deita
que de muito amor
toda paixão é feita
A minha profundidade
cabe em teu vazio
e ainda sobra espaço
para a incompletude
e a ausência
Tudo perdera a graça
Tudo ficara sem sentido
(Por mais que ela insistisse)
Eu já não sentia mais nada
(E como o silêncio fala
- calei e disse)
Afinal, é melhor chegar, ficar
ou estar sempre de passagem?
Ser tudo e todo na paisagem
em eterna viagem?
Concisão:
tu e eu
con-
textuais
em uma única
oração.
Exercício de pensamento.
Prática irrealizável.
Teoria do impossível.
Assim não te encontrarei.
Assim já nos perdemos.
Assim é melhor não.
Um
artifício literário.
Conta uma história de amor
em teu diário.
Escrever ou ler,
qual o ato mais solitário?
Pretérito
perfeito.
Pretérito mais que perfeito.
Impreterivelmente tu.
E se não me preterires,
preferencialmente te aceito.
Esquece
que mentiste.
E inventa outra verdade
menos triste.
O
machado de Assis
a honra de Capitu
decapitou pela raiz.
Trigonometria
para a massa é pão
para mais de metro?
Com
asas
recolhidas
desvôos.
Tuas
próprias mãos
apalpe.
Dá um toque
ao desapego.
Age.
Agite.
Se
dá
em si mesma
ensimesma
-da
O tempo
personagem
de si
siempre
quarta-feira, 27 de julho
Essa
fila de formigas
não
marcha
Faz trilha
Acaso
conheces
a história do pássaro
que nunca aprendeu
a arte do vôo?
Era um avoado
Destinado
ao desatino
Desatinado
destino
Tava comprando
uma ampulheta
Entrou areia
no negócio
O arco-íris
um grande braço
da chuva de mãos dadas
com o sol
Nunca
olhou
para
trás
Era
cabisbaixo
Ao
chão seguia
aonde o chão ia
Falas
e já não te ouço
Tua voz me chega
como leitura
de legendas de um filme
mudo
Decepcionado com tudo
e todos disse:
- Vou me matar
cansei de
ser vivo
segunda-feira, 25
de julho
Então ganham cores as lágrimas?
E essas
vêm de prismas? Arco-íris?
Ou do
multicolorido íntimo e líquido:
a fonte
inesgotável do ser? Brotam
das
luminosidades ocultas da mente?
De ondas
elétricas que se espargem
em choques
de milhões de reações?
Ou será
puro sentimento a matizar
com suas
tonalidades de emoções?
A alma se
tinge de vivíssima luz?
O coração
colore de rubor o sangue?
E essas
lágrimas tuas não são tristes?
Misturadas
ao teu carisma realçam,
avivam,
enfeitam teu rosto róseo
em
incomparável expressividade.
E quando
choras, jorram multicores
em um
torrencial preito à saudade.
Por que as
lágrimas lembram dores
se
ardentes podem regar a felicidade?
domingo, 24 de julho
Fragmundos
Fragmentes
Fragminas
Fragmilhares
Fragmeus
Fragile
Pode partir ao meio o gelo
Minha
metade deixa derreter
Tornar-se
líquida a indiferença
E a deixe
esvair-se até algum ralo
para que escorra e por fim desapareça
sábado, 23 de julho
Devia bater asas
mas não
ouso
isso não é
coisa
pro meu
bico
então pouso
a teu lado
fico
Do amor
fubá
sou tico-tico
Levitação
da pedra
do chumbo
do ar
Tudo pesa
só não
paira
o
irrespirável
Eu em ti
e Tu em mim
Como não prescindes de me
ver teu
e
- como não sou (nunca fui)
sofres
só e desnecessariamente,
havendo
se idealizado dona de mim,
eu
como propriedade tua – posse vitalícia,
mesmo
sabendo impostora a vontade,
o
desejo indevido, o impossível
querer
como teu alguém
que
de ninguém será jamais,
um
ser a quem somente a liberdade
-
a liberdade - a liberdade e nada mais
unicamente
o completa no todo
e
em tudo o sereniza em paz.
Essas mãos e sua linguagem.
Tocam e
transbordam dizeres.
Acenam e
expressam sentires.
Pegam.
Soltam. Fecham. Abrem-se.
Em
louvação ou agressão, as mãos
são
reveladoras. Mais que os olhos?
Em tudo há
manifestação da alma.
As mãos se
dão, oferecidas, apegadas.
Dominam
instrumentos. Carícias têm,
arranhadas
ou sedosas. Grosseiras,
macias,
calos e pétalas, duras suavidades.
Mãos em
outras mãos, unas, entrelaçadas.
Espontâneas,
as mãos falam e não sabem.
Agem por
ti, de ti obedientes, a ti servindo.
Os gestos?
Não procures ouvi-los.
Antes
deixe que te digam sem apego
o que em
parte silenciam pela desatenção
que
impronuncias ante os afagos livres
e simples
que elas fazem, não em teu ego,
mas
deliberadamente em teu sentir e pensar
- e que
não levas a palma:
a
comunicação de ti para com tua alma.
Acumularam-se silêncios
ao longo
dos dias vividos,
dias
passados mais à sombra
que à luz
de nós dois – tu e eu.
Tu com
tua expressão gélida.
Eu em teu
continente ártico.
O sol, às
escondidas seus raios
refreou,
paralisando o espargir
abrangente
de calor e luminosidade.
Tu e eu
já existimos. E desistentes
habitamos
lados opostos e ausentes.
Será que
buscávamos desencontros?
sexta-feira, 22 de
julho
Arde o sol no azul
ou o azul
arde
ao sol?
Céu...
Então
me dizes:
- A alma é infinita.
Quão infelizes
aqueles de alma aflita
(de juízes a meretrizes).
A dor lhes dói de bonita?
Na penumbra
exclui de
ti
a
não-clareza
a desluminosidade
a anti-luz
Dos
pertences teus
separa o
caos
dos breus
O mais
esquece
- isso é
com Deus
Mente exausta.
Pensamentos
sem fôlego.
Lembranças
desmemoriadas.
De tudo
o nada
esquece
(ou
disperse).
E
recomece.
Alguma
antiga lágrima
manchou a dedicatória
escrita a caneta tinteiro
eternizando-se
foto
grafia
quarta-feira, 20 de
julho
NO
COTIDIANO
DIA
ANO
TE AMO
Feitos de não-amor
Conceitos
de desamar
Confeitos
de dissabor
Aceitos sem
par e ar
Leitos
insones: desluar
EU
Sozinhês
Sozinhar
Sozinhude
Sozinhei
Sozinheu
Sozinhando
Sozinhôco
Sozinhomem
ELA
Sozinhá
Sozinhávida
Sozinhia
Sozinhaca
Sozinhártica
Sozinhela
Sozinhúnica
Sozinhora
DOIS SOLZINHOS
segunda-feira, 18
de julho
Ela e todas as outras
moram
no bairro do amor
(Mas
ela – quão bela!)
As
meninas afloram
luzes
arrebatadoras
flores
azuis no inverno
corcéis
de fogo na noite
olhos
e bocas: bússolas
e
um estranho poder
o
mais fecundo do mundo
Quer
conhecê-las?
Segue
por essa rua e vai
enfrente
toda a vida
(como
quem vai a pé
a
Nazaré)
até
não poder mais
que
quando é fé
verás
como ela é
virgem
e linda até
É
agora, José!
domingo, 17 de julho
I
O
que pedes para ti?
O
que já não tens
porque
jamais te darás?
II
Vais
ao encontro do nada?
Ou
o nada te chama
para lugar algum?
III
O
que sabes tu da solidão?
Julgas-te
maior que ela?
Ou
apenas um dos seus?
Aquele
que está por aí
a
buscar uma margem
de
si em torno do medo
ou
o centro de um sonho
para sempre irrealizado?
IV
O
equilíbrio incerto
sobre
a fragilidade
do
ser a se descobrir?
Que
proporção de abismo
queres
para tua queda
sem rede de proteção?
V
Estás
a sós contigo.
Olhas
o vazio e ele te preenche
de
profundidades. E te absorves.
E
te nutres de introspecções.
Perguntas
para a imensidão.
Ouves,
mínima, a resposta:
vida...
VI
Queres
ir de vez para dentro de ti?
E
se acaso te perdes sem volta?
Tens
labirintos insondáveis.
Descaminhos
inexplorados.
És
um universo. Somente tua cabeça
tem
mil galáxias de milhões de sóis.
E
tudo em ti é maior que tudo.
Desconhece-te.
Não te aventures.
Fica!
Ou vá. Estás além. Sobre
vivendo
vendo.
Sigo
comigo
e só
contigo
consigo
Eterno empurrar a pedra
por essa montanha acima
com fatigadas retinas
(ó pedra a que destinas?)
Eu Sísifo drummondiano
tirei-a do meio do caminho
onde a tinha e a havia
(a pedra da poesia)
Desse acontecimento
nunca me esquecerei
a pedra itabirana
sempre empurrarei
Quer entender o abismo
vai fundo
Cai no vazio do silêncio
Labirintos cerebrais
Espirais na água
Eternidade de ancestrais
Ausência esquecimento
noite túnel dúvida sombra
Não há fim nunca
Parta do princípio
que jamais chegará
a lugar nenhum
Abismo maior não há
ó interminável viageira
A queda é infinita
quando é para dentro
de si
sábado, 16 de julho
Saber-me só
Ter-me meu
Dar-me a mim
Sentir-me eu
Haver-me comigo
Sendo-me sou
Perder-me de nós
AMORDAÇA
AMOR
CAÇA
TEÇA
AMOR
CAÇADOR
AMORTECEDOR
TECE
DOR
AMOR
ando
trabalh
Chovo
Estio
Choro
Chio
Charco
Rio
Largo
Esguio
Farto
Fio
Parco
Crio
Marco
Cio
DEUS
EXISTE
DEUS
EXIT
DEUS
EX
DEUS
XIS
DEUS
IT
DEUS
X
DEUS
IS
DEUS
TE
DEUS
E
Da redoma
não o tira
Se em coma
já não respira
com nada soma
Asfixiado
intubado
já não completa
amor vegeta
Uma frase
inteira
nunca termina
se jamais
se conclui
Quer amar mais
amar demais
amando em paz?
Não ame jamais
sexta-feira, 15 de julho
Enquanto dormes
te amo
Ainda que teu sono
me seja a ausência
de ti – te amo imóvel
silencioso no abandono
(Acorda! – íntimo clamo)
E admirado te miro
velando a tua entrega
tranqüila ao descanso
toda esparramada
na cama desarrumada
após o embate
mútuo abate
ternura desatinada
fúria louca
risos de canto de boca
e te confessas fatigada
Nua delícia:
cabelos braços pernas
lívida ávida única
Então adormeces
és meu sonho
te amo
Sendo o amor
cego
por tal não
me deixo guiar
Essa verdade
prego:
se a ele
cegamente
me entrego
dois seremos
a titubear
Nem à primeira
vista – não nego
amei
ou hei de amar
quarta-feira, 13 de
julho
Ela
em
tudo
é
cheia
de
si
Ela
é
plena
de
céu
e
cio
Ela
tem
olhos
de
bem-
te-