JULHO DE 2005

domingo, 31 de julho

Na batida.

No dedilhado.

Te toco.

Qual mavioso instrumento.

No ritmo.

No tom.

Afinado contigo.

Em doce acompanhamento.

Melodiosos.

Harmoniosos.

Acordes e notas.

Nosso musical sentimento.

 

Então.

Em tempo.

Em coma profundo.

Em carne viva.

Em pele e osso.

Em ponto de bala.

Em verso e prosa.

Em alho e óleo.

Em nome do pai.

Em sol maior.

Em alto e bom som.

Em cima da hora.

Em alça e mira.    

Enfim.

 

O não-escrito nunca lido.

O grito não ouvido.

O infinito contido.

O bonito escondido.

O dito repetido.

O mito irrefletido.

O esquisito subentendido.

O aflito cupido.

O escrito sempre relido.

 

sábado, 30 de julho

Não se sublima

nem me risca

- nos sublinha

 

Vê-la de cabelo preso

a imaginação se solta

O sol paralisa aceso

A lua reviravolta

Ao mirá-la surpreso

medroso e indefeso

meu olhar a escolta

por ruas sem volta

 

Ouça.

Guarde essa dica:

dita

ou escrita,

mesmo bonita

a palavra evita.

Silencia.

Não explicita.

Não explica,

que explicando

complica, 

alguma dúvida

sempre fica.

Falando,

conversa estica.

Escrevendo,

implica.  

Entendimento pobre

para língua tão rica.

 

sexta-feira, 29 de julho

És e estás só.

Tens na garganta um nó. 

E se assim não fosse,

talvez, ó,

não amargasses o doce

amor que acabou-se

do qual não tivestes dó.

(Engasgastes teu gogó).   

 

Amarre com fio invisível

uma a uma e em outras

as pontas de zil estrelas.

T(orne)-as cordão de luz

e com elas forme um portal

e virgens o atravessarão.

À mão de um inocente 

confie o fio para que empine

a estelar entrada para o céu. 

As virgens agora celestiais

trombetas de ouro entoarão 

a ti e ao inocente louvando. 

Pois toda virgem que morre

sob vossa corrente de estrelas

passam lindas e sorridentes.

 

quinta-feira, 28 de julho

É só uma nova paixão?

Não, não a rejeita

Será qual onda revolta 

te parecerá fera solta

não fique à espreita

e nada de escolta

se ela vem e te peita

Com ela rola e deita

que de muito amor

toda paixão é feita

 

A minha profundidade

cabe em teu vazio

e ainda sobra espaço

para a incompletude

e a ausência 

 

Tudo perdera a graça

Tudo ficara sem sentido

(Por mais que ela insistisse) 

Eu já não sentia mais nada

(E como o silêncio fala

- calei e disse)

 

Afinal, é melhor chegar, ficar
ou estar sempre de passagem?
Ser tudo e todo na paisagem
em eterna viagem?


Concisão:
tu e eu

con-

textuais
em uma única
oração.


Exercício de pensamento.
Prática irrealizável.
Teoria do impossível.
Assim não te encontrarei.
Assim já nos perdemos.
Assim é melhor não.


Um artifício literário.
Conta uma história de amor
em teu diário.
Escrever ou ler,
qual o ato mais solitário?


Pretérito perfeito.
Pretérito mais que perfeito.
Impreterivelmente tu.
E se não me preterires,
preferencialmente te aceito.


Esquece que mentiste.
E inventa outra verdade
menos triste.


O machado de Assis
a honra de Capitu
decapitou pela raiz.


Trigonometria
para a massa é pão
para mais de metro?


Com asas
recolhidas
desvôos.


Tuas próprias mãos
apalpe.
Dá um toque
ao desapego.


Age.
Agite.


Se dá
em si mesma
ensimesma
-da


O tempo
personagem
de si
siempre

 

quarta-feira, 27 de julho

Essa fila de formigas

não marcha

Faz trilha  

 

Acaso conheces

a história do pássaro

que nunca aprendeu

a arte do vôo?

Era um avoado

 

Destinado

ao desatino

Desatinado

destino

 

Tava comprando

uma ampulheta

Entrou areia

no negócio

 

O arco-íris

um grande braço

da chuva de mãos dadas

com o sol

 

Nunca olhou

para trás

Era cabisbaixo

Ao chão seguia

aonde o chão ia

 

Falas

e já não te ouço

Tua voz me chega

como leitura

de legendas de um filme

mudo

 

Decepcionado com tudo

e todos disse:

- Vou me matar

cansei de ser vivo

 

segunda-feira, 25 de julho

Então ganham cores as lágrimas?

E essas vêm de prismas? Arco-íris?

Ou do multicolorido íntimo e líquido:

a fonte inesgotável do ser? Brotam

das luminosidades ocultas da mente?

De ondas elétricas que se espargem

em choques de milhões de reações?

Ou será puro sentimento a matizar 

com suas tonalidades de emoções?

A alma se tinge de vivíssima luz?

O coração colore de rubor o sangue?  

E essas lágrimas tuas não são tristes?

Misturadas ao teu carisma realçam,

avivam, enfeitam teu rosto róseo

em incomparável expressividade.

E quando choras, jorram multicores

em um torrencial preito à saudade.

Por que as lágrimas lembram dores

se ardentes podem regar a felicidade?

 

domingo, 24 de julho

Fragmundos

Fragmentes

Fragminas

Fragmilhares

Fragmeus

Fragile

 

Pode partir ao meio o gelo

Minha metade deixa derreter

Tornar-se líquida a indiferença

E a deixe esvair-se até algum ralo

para que escorra e por fim desapareça 

 

sábado, 23 de julho

Devia bater asas

mas não ouso

isso não é coisa

pro meu bico

então pouso

a teu lado fico

Do amor fubá

sou tico-tico

 

Levitação

da pedra

do chumbo

do ar 

Tudo pesa

só não paira

o irrespirável

Eu em ti

e Tu em mim

 

Como não prescindes de me ver teu

e - como não sou (nunca fui)

sofres só e desnecessariamente, 

havendo se idealizado dona de mim,

eu como propriedade tua – posse vitalícia, 

mesmo sabendo impostora a vontade, 

o desejo indevido, o impossível

querer como teu alguém

que de ninguém será jamais,

um ser a quem somente a liberdade

- a liberdade - a liberdade e nada mais

unicamente o completa no todo

e em tudo o sereniza em paz. 

 

Essas mãos e sua linguagem.

Tocam e transbordam dizeres.

Acenam e expressam sentires.

Pegam. Soltam. Fecham. Abrem-se.

Em louvação ou agressão, as mãos

são reveladoras. Mais que os olhos?

Em tudo há manifestação da alma.

As mãos se dão, oferecidas, apegadas.

Dominam instrumentos. Carícias têm, 

arranhadas ou sedosas. Grosseiras,

macias, calos e pétalas, duras suavidades.

Mãos em outras mãos, unas, entrelaçadas.

Espontâneas, as mãos falam e não sabem.

Agem por ti, de ti obedientes, a ti servindo.

Os gestos? Não procures ouvi-los.

Antes deixe que te digam sem apego

o que em parte silenciam pela desatenção

que impronuncias ante os afagos livres

e simples que elas fazem, não em teu ego,

mas deliberadamente em teu sentir e pensar

- e que não levas a palma: 

a comunicação de ti para com tua alma.

 

Acumularam-se silêncios

ao longo dos dias vividos,

dias passados mais à sombra

que à luz de nós dois – tu e eu.

Tu com tua expressão gélida.

Eu em teu continente ártico.

O sol, às escondidas seus raios

refreou, paralisando o espargir

abrangente de calor e luminosidade.

Tu e eu já existimos. E desistentes

habitamos lados opostos e ausentes.

Será que buscávamos desencontros?

 

sexta-feira, 22 de julho

Arde o sol no azul  

ou o azul arde

ao sol?

Céu...

 

Então me dizes:

- A alma é infinita.

Quão infelizes

aqueles de alma aflita

(de juízes a meretrizes).

A dor lhes dói de bonita?

 

Na penumbra

exclui de ti

a não-clareza

a desluminosidade

a anti-luz

Dos pertences teus

separa o caos

dos breus

O mais esquece

- isso é com Deus

 

Mente exausta.

Pensamentos sem fôlego.

Lembranças desmemoriadas.

De tudo

o nada esquece 

(ou disperse).

E recomece.

 

Alguma antiga lágrima

manchou a dedicatória

escrita a caneta tinteiro

eternizando-se 

foto

grafia

 

quarta-feira, 20 de julho

              NO

COTIDIANO

        DIA

            ANO

TE AMO

 

Feitos de não-amor

Conceitos de desamar

Confeitos de dissabor

Aceitos sem par e ar

Leitos insones: desluar

 

EU

Sozinhês

Sozinhar

Sozinhude

Sozinhei

Sozinheu

Sozinhando

Sozinhôco

Sozinhomem

ELA

Sozinhá

Sozinhávida

Sozinhia

Sozinhaca

Sozinhártica

Sozinhela

Sozinhúnica

Sozinhora

DOIS SOLZINHOS

 

segunda-feira, 18 de julho

Ela e todas as outras

moram no bairro do amor

(Mas ela – quão bela!)

As meninas afloram

luzes arrebatadoras 

flores azuis no inverno

corcéis de fogo na noite

olhos e bocas: bússolas

e um estranho poder

o mais fecundo do mundo

Quer conhecê-las?

Segue por essa rua e vai

enfrente toda a vida

(como quem vai a pé

a Nazaré) 

até não poder mais

que quando é fé

verás como ela é

virgem e linda até

É agora, José!

 

domingo, 17 de julho

I

O que pedes para ti?

O que já não tens

porque jamais te darás?

II

Vais ao encontro do nada?

Ou o nada te chama

para lugar algum?

III

O que sabes tu da solidão?

Julgas-te maior que ela?

Ou apenas um dos seus?

Aquele que está por aí

a buscar uma margem

de si em torno do medo

ou o centro de um sonho

para sempre irrealizado?

IV

O equilíbrio incerto

sobre a fragilidade

do ser a se descobrir?

Que proporção de abismo

queres para tua queda

sem rede de proteção?

V

Estás a sós contigo.

Olhas o vazio e ele te preenche

de profundidades. E te absorves.

E te nutres de introspecções.

Perguntas para a imensidão.

Ouves, mínima, a resposta:

vida...

VI

Queres ir de vez para dentro de ti?

E se acaso te perdes sem volta?

Tens labirintos insondáveis.

Descaminhos inexplorados.

És um universo. Somente tua cabeça

tem mil galáxias de milhões de sóis.

E tudo em ti é maior que tudo.

Desconhece-te. Não te aventures.

Fica! Ou vá. Estás além. Sobre

vivendo

vendo.

 

Sigo

comigo

e só

contigo

consigo

 

Eterno empurrar a pedra

por essa montanha acima

com fatigadas retinas

(ó pedra a que destinas?)

Eu Sísifo drummondiano

tirei-a do meio do caminho

onde a tinha e a havia

(a pedra da poesia)

Desse acontecimento 

nunca me esquecerei

a pedra itabirana 

sempre empurrarei

 

Quer entender o abismo

vai fundo

Cai no vazio do silêncio

Labirintos cerebrais

Espirais na água

Eternidade de ancestrais

Ausência esquecimento

noite túnel dúvida sombra

Não há fim nunca

Parta do princípio

que jamais chegará

a lugar nenhum

Abismo maior não há

ó interminável viageira  

A queda é infinita

quando é para dentro

de si

 

sábado, 16 de julho

Saber-me só

Ter-me meu

Dar-me a mim

Sentir-me eu

Haver-me comigo

Sendo-me sou

Perder-me de nós

 

AMORDAÇA

AMOR

        CAÇA

TEÇA

       AMOR

CAÇADOR

AMORTECEDOR

TECE

       DOR

             AMOR

 

 

                   ando

trabalh

 

Chovo

Estio

Choro

Chio

Charco

Rio

Largo

Esguio

Farto

Fio

Parco

Crio

Marco

Cio

 

DEUS EXISTE

DEUS EXIT

DEUS EX

DEUS XIS

DEUS IT

DEUS X

DEUS IS

DEUS TE

DEUS E

 

Da redoma

não o tira

Se em coma

já não respira

com nada soma

Asfixiado

intubado

já não completa

amor vegeta 

 

Uma frase

inteira

nunca termina

se jamais

se conclui

 

Quer amar mais

amar demais

amando em paz?

Não ame jamais

 

sexta-feira, 15 de julho

Enquanto dormes

te amo

Ainda que teu sono

me seja a ausência

de ti – te amo imóvel

silencioso no abandono

(Acorda! – íntimo clamo)

E admirado te miro

velando a tua entrega

tranqüila ao descanso

toda esparramada

na cama desarrumada

após o embate

mútuo abate

ternura desatinada

fúria louca

risos de canto de boca

e te confessas fatigada

Nua delícia:

cabelos braços pernas 

lívida ávida única

Então adormeces

és meu sonho

te amo

 

Sendo o amor

cego

por tal não

me deixo guiar

Essa verdade

prego:

se a ele

cegamente

me entrego

dois seremos

a titubear

Nem à primeira

vista – não nego 

amei

ou hei de amar

 

quarta-feira, 13 de julho

Ela

    em

       tudo

            é

              cheia

                    de

                       si

Ela

    é

      plena

            de

               céu

                   e

                     cio

Ela

    tem

        olhos

              de

                 bem-

                     te-

                        vi

Ela

    é

      fogo

           de

              fio

                  a

                    pavio

Ela

    acende

           as

              estrelas

Ela

    lhes

        

            brilho

                   e

                     brio

Ela

    brilha

           mais

                que

                    elas

Ela

    é

      luz

          de

             sol

                 no

                    frio

 

sábado, 9 de julho

Grava-a em ouro.

Risca-a na areia.

Escreve-a no ar.

Mas a expressa.

É um respiradouro.

É vida vinda na veia.

Realização por sonhar.

A palavra a tudo apressa.

Dita pensada impressa.

 

O amor chegou. E agora?

Com ele saberei lidar?

Terei tempo a toda hora

que o amor me reclamar?

Poderei dizer o que sinto

olhando nos olhos do amor?

A verdade, omito ou minto?

Como evitar a rima dor?

Devo me expressar rindo

ou demonstrar lamúria?

Usar de romantismo lindo

ou alternar ternura e fúria?

E se este amor me consumir

a ponto até de me alienar? 

O que preciso fazer? Fugir?

Ou a ele enfim me entregar?

E agora que o amor chegou

serei mestre ou aprendiz?

Responde quem já amou:

o amor é triste ou feliz?

 

sexta-feira, 8 de julho

Adubou canteiro no jardim

Plantou beijos amarelos

brancos e roxos 

Colhe-os com longas hastes

na cálida boca da noite

(isso quando não madruga

seu vazio vaso orvalhado

que em frio silêncio amoita)

E mendigando prazeres

e seus dadivosos favores  

febril a fim e afoita

com os beijos tricolores

a desejosa louca se açoita

 

Ilusão é desesperança

Fé desassistida

Feia e triste

não resiste desiste

jaz sem vida

em solo infecundo

Cai no vazio de si

feito sombra no breu

do buraco mais fundo

do mundo

 

Currículo em mão

anda em círculo

entra no cubículo

de contratação

Se sente ridículo

ao receber outro não 

Putz, que caralho!

É não e não onde chego

Como dá trabalho

caçar emprego”

 

Também

quem mandou

brincar com fogo

tão próxima assim

do Sol?

 

Hospede-se em mim

Cabe-te em meu peito

Banhe-se em meus olhos

Durma em meu coração

Viaja em minha cabeça

Inteira e feliz me habita

Seja o sol da órbita eFe

A luz própria – luamusa

Brinca em meu sexo

Respira-me em ti sem ar  

Deita e rola nesse corpo

até que ambos sejam unos

o teu no meu adicionado

o meu no teu confundido

o teu em mim habitado

o meu no teu residido

 

Uma abelha

picou

Qual centelha

ardeu

queimou

Não doeu

- nectarizou

 

quarta-feira, 6 de julho

Fecha os olhos.

Para ouvir.

Vê como o escuro

se mostra calado.

Essa é a verdade.

Pense.

Em íntimo silêncio.

 

De vez em quando um verso

Vez por outra um poema

Mas agora nenhuma palavra

Nem som de -

lab(i)a  

 

Com palavras

ler

pensares

ver

pesares

e nada

escrever

e em nada

crer

 

A contraluz

não temer as cores

não raciocinar

sobre tons & matizes

de um suspiro último  

Sombras sutis

Sutilezas sombrias

Tudo ver em ocos olhos

desacostumados de claridade

Um milésimo de segundo

condensa formas abstratas

A cegueira é azul

de potente raio refletido

na tela surreal

emoldurada pela morte 

 

Vê-la sem maquiagem

após uma noite juntos

murchou a verde haste

no cálice da vaidade

Em espelho revoltado

de mirada infelicidade

ela viu a desilusão

da flor seca de vontade 

Ele já frouxo espinho

Ela pétala de ansiedade

 

Na fronteira entre Aquário e Peixes

água pouca

recipiente mínimo

ar faltoso 

e eu que não creio em horóscopo 

me sinto um astro alinhado

conspirando na leitura

de signos imprevisíveis

com futuros improvisados    

 

Sonhou que escrevia um poema

Percebeu-o adormecido

Acordou do sonho em transe

e também o poema despertou

Este trouxe à luz aquele que sonhara

consigo escrito

E ambos sonhadores

havendo-se entre ser e estar

existiram autor e texto

no sono do sonhar

 

terça-feira, 5 de julho

O

ou

você

eis

a

questã

 

Sê

criativo

ReInvente

se

 

Ninguém vê.

É ver pra quê?

Ver pra crer?

Em Deus crê.

Ou descrê.

 

E se de repente o mar

a si engolisse

e liquedefeito

se afogasse em sal?

 

Não me ames

amicís-

sim-

a

 

sábado, 2 de julho

Coisa tola:

descas

           cada

camada

por camada

a cebola

cortar

E na desmiola

                       da

nada

achar

E ela desola

                    da

inconsola

               da

põe-se a chorar

 

Ela me disse:

- Sempre estou bem.

Esse é o meu mal.

E eu:

- Nem tanto assim,

enquanto seu mal

for com L.

 

Pedra

pedra não quis ser

(pedra não pode

querer).

Pensou ser outra

(pedra não pensa)

coisa.

Desde então

é pedra

(não a que quer)

essa coisa que é.

 

Segunda-feira talvez. 

Hoje não, por favor.  

Nem tive tempo de sorrir

para a vida, sem assombros.

Adie. Prorrogue. Deixa.

Semana que vem quem sabe. 

Preciso de alguns dias.

Quero apenas o mínimo.

Esquecer. Dar de ombros.

Até me perder de mim.

E assim, sem tempo,

implorar novo prazo

distante do que somos.

Um dia qualquer do ano,

talvez uma segunda-feira

ou uma data assim, sem falta.

Não deste ano, deste não:

do calendário de escombros.

De um outro ano por vir. 

Nem tive tempo de sorrir

Quero ficar. Impeço-me de ir

ao encontro do que fomos.

 

O desejo do silêncio é nada.

Nada, nada, nada. Assim é.

Nada porque é veloz.

Nada por se eternizar. 

Nada para sempre nunca. 

Silenciosa

mente.

Nada diz do que pensa.

Desejoso e silenciado.

Atravessa o rio do nada

a nado.

JULHO DE 2004

Nietzschiana

se me queres apolíneo
serei para ti a medida o equilíbrio a serenidade
se me desejares dionisíaco
para ti virei exaltado violento apaixonado
insisto que mescles ambos em um
em uníssono os dois em mim
ah que assim terás tanta felicidade
tu um sol de mulher plena
te sentirás tão abençoada
com uma paz doida e iluminada
que podes até desejar morrer
de amor

 

meia-pontinteira

 

de Cora a poesia decora
decora de Cora
a poesia Coralina de Cora
Cora a poesia e decora Coralina
decora a poesia de Cora Coralina
nina com versos dessa velha menina
aprende com eles
e deles ensina
que a ti Goyáz ela os destina
que tantos vinténs de cobre da mina
da preciosa Cora Coralina

li
Cora
lina
na
Cora
li

 

deduzir o azul imenso (em parte 1)

 

olhos de aves
vêem nos pássaros
(não aviões
nem outras naves)
mas asas suaves
(não deltas
nem planadores
ou ultraleves)

nos pássaros vêem
aves de olhos
em vôos que vêm

 

sem abrir o peito de pássaros (e partem 2)

 

quanto mais altos os vôos
mais se aprofundam
em ares distantes

asas raras arrasam
no espaço – e rasas
se jogam no azulvão
em vôos rasantes
rentes ao chão
sobem descem
e vêm e ou não

 

::. será a cor de bóia fria? .::

 

qual a cor mais fria
que no azul nevaria
no amarelo estremeceria
no vermelho degelaria
no branco congelaria
cor magra sem caloria?

qual a mais fria cor
das tintas do pintor
que passam a compor
assim sem tirar nem pôr
o daltônico gosto decorador
de cego paisagista floricultor?

não sei qual a cor mais fria
nem sei qual a mais fria cor
mas talvez ser poderia
a cor de meu cobertor
que com ela eu cobriria
inclusive a frieza incolor

 

.:: meus deuses da guitarra ::.

 

eric clapton pressiona as cordas
escorre pelas bordas
meu coração em calda...
santana inferniza com outro acorde
permito que transborde
e meu coração se esbalda...

john lee hooker arrasa num solo
e onde está teu colo
rainha da lucidez?
ouço o improvisar de b.b. king
me vingue me xingue não me distingue
só que agora pela antepenúltima vez

jimmy page age no braço com trastos
e meus dedos em semitons nefastos
reclamam a saudade de acariciar-te
e um tal robert cray arrebenta
ranhetando essa minha dor lenta
inteira sem ti de quem sou parte

muddy waters estraçalha nas escalas
enquanto distante me calas
com tuas transfigurações
jimi hendrix ao palco me convoca
porém minh’alma viva se toca
morrer por ti tem seus senões

lenny kravitz de leve dedilha
nina ana até nanar a filha
e ritchie blackmore insiste em sol e lá
posso ver-te e só do lado de cá
sei que sou um homem ilha
tão mar que tudo de mais só que há

buddy guy me destrói numa cromática
reduz a azul minha luz errática
perdida em tua tresloucada distorção
ao som de mark knopfler sou o sultão desiludido
paxá da pobreza de haver-te perdido
por não te querer companhia de minha solidão

bob marley faz ecoar em mim o reggae
minhas murchas florzinhas não mais regai
que não rebrota amor já sem seiva e vida
slash inventa de zoar numa dominante
em um hammer ríspido e constante
que chego a soar microfonia desimpedida

o solo de steve val me ilude
rasgando for the love of god
e toda dor sem tirar nem pôr se amplifica
me sintetizo em pentatônica harmonia
fosse eu uma guitarra me solaria
ouvindo-me em todos tu em mim insignifica

 

 

::as batalhas::

 

as batalhas
estão ganhas
meu amor
as artimanhas
as façanhas
mais estranhas
pois subi
desci montanhas
e nadei
tantas piranhas
e teci
muitas aranhas
pra te ver

minha heroína
treme
mas seu herói
não teme
geme tanto
tonto
de prazer

minha heroína
teme
mas seu herói
não treme
geme tonto
tanto
de prazer

 

::Ninho mental::



Dois pássaros:
para meus ventrículos
para meus testículos
para meus olhos
para meus ouvidos
para meus pés
para minhas mãos
para minhas narinas
para meus braços
para minhas pernas
para meus mamilos

pousam em meu cérebro
se aninham à direita
e à esquerda
e voam
porque pensam
são vão e estão
dão – em mim -
asas à imaginação

 

 

::Chuva silenciosa::

 

O silêncio se impõe
em briga com a noite
Dá sossego aos ruídos
Adormece os ouvidos
A alma das coisas se apazigua
Tudo é longe agora
- o aqui está lá fora
A luz se esquece sem som
A calma ainda mais anestesiada
A ausência de quem sou
Desejos absortos no eu só
Quanto mais silêncio mais silencio
A noite entrevada de frio
Chove
Nada comove

 

 

 

minim

 
extravasas em mim teu todo
devassas meu ser em tudo
te sou sendo-me teu tão minha és
te amo me amando me amo amando-te
unos únicos ambos dois por inteiro
somos o complemento do outro
integrados na complexidade de nós
tu por mim que me sinto em ti te vivendo
existindo por tua placidez de amar-me
amando-te por amor a mim que te sou
como ser que é porque és eu
como sol que sou por ser teu
luminosidade de mim sem visão
tão clara te anuncias em minha cegueira
que te pertenço para não me ser
me és te sou nos somos
te vejo na imaginação do ser em ti
sou em ti o que sem ti não seria
e nada sou a não ser o que és em mim
e o que és em mim me torna o nada que sou
 

o homem sem coração
não tem fígado nem rim
nem bexiga nem vesícula
não tem baço nem próstata
seu estômago não se acha
o pulmão jamais se viu
seu pâncreas é invisível
os olhos não estão na cara
cérebro impensável haver
a boca cadê? onde está?
o intestino inexiste nele
as mãos as pernas o nariz
a pele o pensamento o andar
a audição o trabalho o coito
o sono a raiva a deglutição
o riso os pés as mãos
está parecendo alguém
que em mim reconheço
sem corpo e emoções
com instintos e febres
sentimentos e reações

 

miudezas em geral

 
salve salve
 
brasilouca
minha patriazinha
adormecidinha
agora está nas mãos
de gente mouca
 
hermosa
 
usted muchacha
é mutcho macha
alma fêmea de las gringas
no lhe acha
no lhe encaxa
 
água e óleo
 
bush & sadam
por conta do petróleo e da indústria bélica
marketing: tio sam versus satã
deus salve o depois de amanhã
 
ninguém por todos todos por nenhum
 
que eu estou
fora de foco
um boco moco
fora de zoom
 
solidão
 
lady diana spencer
morta sob um viaduto
em paris
- ouça a solidão
(abafada pela solidez)
de seus últimos gemidos
 
mal-vinda sejas
 
espero que ficar
não seja
o que agora
mais desejas
porque agora é tarde
muito tarde
 
o faminto antropófago sem fome
 
não dorme
não come
não morde
mas some
é lorde
no nome
rei zumbi
ri nem aí
 
Internet na idade da pedra
 
essa
é
de
lascar
(ou nem
mais se pode
poesia concretar?)




 

trés bien
 
se posso falar de amor?
só falar que amar não sei
sei que o amor de que tanto se fala
está falado demais para ser sentido
está sem sentido demais para tanta felação
ou melhor tanta falação

 


 

roupasuja
 
o meu poetar é doméstico
escrevo como quem canta no chuveiro
como cozinheira refogando o arroz
a menina fazendo o dever de casa
o pai batendo o prestobarba na pia
o mais singelo e rotineiro dia a dia
assim pra mim é o labor da poesia
tu meu amor se banhando na bacia

 


 

valsinha falsa
 
fui brincar de ser feliz
tudo acabou em briga
depois do que lhe fiz
ela nem é mais amiga
está como sempre quis
serenada e sem fadiga
namorando amigo xis
gostando de fazer figa
diz por aí sempre diz
recorda da fase antiga
de onde enfiou o nariz
se negar Deus castiga
a gorda corpo de miss
e dobrinhas na barriga
a história escrita a gis
entre nós não deu liga
acabou-se por um triz
o teu caminho vá siga
e jamais me peças bis
que meu sangue irriga
meu coração chafariz
que ela amor consiga
sem ela vou bem feliz


 

 
Bem mal
Toda vez que te vejo
parece até que estou cego
pois eis que em visão me nego
e totalizante não me entrego
ao que antes era só desejo

Desejo do irremediável
do que agora quer ser conflito
delírio de um coração aflito
que me faz um bem maldito
que me faz um mal bendito


 

Não e não e não
 
Passei perto de tua casa,
tu estavas na janela,
arrumadinha e bela;
te chamei pra passear.
Casa-prisão, janela-cela,
porta da sala com tramela,
e tu me disse um não.
Tu me disse um não,
querendo dizer sim,
sorrindo meiga pra mim
sofrendo por me negar.
Doidinha pra vadiar,
louquinha pra variar
de febre e emoção,
em perigosa sensação;
mas tu me disse um não.
Tu me disse um não,
achando um grande castigo
não sair por aí comigo,
sem lenço, por passatempo,
soltinha nas asas do vento,
levinha por fora e por dentro,
tremulando de emoção,
molhadinha de paixão...
Mas tu me disse um não,
que covardia, judiação
essa tua negação...
Tu tão fofa, tão bela,
a mais deliciosa donzela,
debruçada nesta janela
na mais tenra solidão...
Passei perto de tua casa,
vi a janela fechada,
vi toda a rapaziada,
bem em frente, de plantão.
Foi então que entendi,
foi aí que eu percebi
o xis de tua questão,
a insistência do teu não;
fugias da complicação;
todos ouviram teu não.
Sorrindo pra todo mundo,
cativastes a moçada,
que no fundo, no fundo,
já estava bem cansada,
de tua estranha enrolação.
Teu sorriso convidativo,
teu jeitinho afirmativo,
mas tu só dizia não,
não e não e não...
Não tivestes alternativa
(até que fostes ativa),
procurando outra freguesia
para a tua voz tão fria,
para o teu não tão cruel.
Mudaste pra Coromandel,
sim, Coromandel...
Talvez seja pós-moderno,
algo assim tipo eterno,
alguém prometer o céu
e fazer da vida um inferno.
Turma boa do Coró,
vocês verão só
o que ela vai aprontar,
o circo que ela vai armar,
vai se ofertar em sorriso,
vai curtir bem o seu guizo,
vai armar seu alçapão...
Na hora agá dirá não,
não e não e não,
e o não dela é não,
um não sem explicação,
sem réplica ou discussão...
Na janela sempre estará,
para todos sorrirá,
mas essa menina não dá,
essa menina não dá,
essa menina não dá,
nem de casa ela sai,
mas um dia a casa cai,
o negócio dela é dizer não,
não e não e não,
não e não e não,
não e não e não...


 

 
A metade
 
A metade
é a
meta
de
algo inteiramente
partido
uma coisa resumida
ao meio
a cinquenta por cento
daquilo sem totalidade
de modo não integral
de forma dividida
de vida

 

A metade
é a meta
de
um ser estilhaçado
multipartido em mil pedaços
em migalhas jogadas
ao nada
e nada é invísivel
aos olhos de quem tudo vê
através daquele que ainda crê
no inatingível
no possível
ou até mesmo no impossível


 

Fim de século
 
São paisagens ameaçadas
pela beleza e miséria.
Ninguém manipula as imagens
mas alguém pode recriá-las.
Há uma atmosfera luminosa
nessas montanhas espessas.
Todos podem ver luz
e traduzi-la em cor.
Esquecer, lembrar, rasgar e colar
e multiplicar em seus olhos
os efeitos da natureza viva ou morta.
Homens em mundos minúsculos
contemplando o universo.
Paisagens sem moldura,
quadros melancólicos
com seus elementos épicos
e suas traduções góticas.
Voltar atrás agora
é o desejo pleno de avançar.
Ouça: são metáforas,
parábolas de fim de século,
algo improvável há de vir a ser.
Você quer saber a verdade
e se oculta na curiosidade
de sua alma incrédula.
Sim, o mundo é simbólico.
A vida se reduz a histórias,
paisagens fotográficas
impregnadas na memória.
Nada é contínuo
mas tudo continua sendo,
e como sangue e terra
tudo e nada, nada e tudo,
sombra e caos se misturam.
Alguém nos observa
e não são nossos vizinhos.
Pássaros, talvez, que ainda
não aprenderam a arte do vôo.
Índios cuja nudez envergonhada
é de uma urbana selvageria.
Incas e Maias, latinos e americanos,
povo de um Brasil-escândalo,
Brasil atormentado há 503 anos.
Impossível fugir das paisagens.
Dizem que na Europa tudo é monótono,
mas isso pode ser apenas um rótulo.
(Aquelas caras claras, lívidas e pálidas.)
Na África a fome anestesia
a percepção da barriga vazia
de mães que geram e proliferam suas crias.
Na África os robustos são esqueléticos,
os atletas são arquétipos da velocidade.
(Todo dia almoçam e jantam vento.)
Irã, Iraque, Oriente Médio de pólvora.
Petróleo, sangue, morto mar vermelho,
sentimento islâmico, ódio messiânico.
Outra vez a paisagem desértica
onde flores de areia velam o sol.
Chineses se multiplicam milhões de vezes,
irmãos siameses dos japoneses
que se quadruplicam entre ingleses,
franceses, escoceses, holandeses,
bilhões e trilhões de vezes.
De seu pequeno mundo
você vê tudo isso.
Você faz parte dessa paisagem.
Faz de sua filosofia viagem.
Faz de seu discurso verdade.
Mas cuidado para não ser preso por vadiagem.
Coragem, muita coragem.
Mas cuidado, muito cuidado,
cuidado para não ser preso por vadiagem.
 

 

palavrausente

 

a palavra se encontrou comigo
no silêncio de eu pensante

minha razão de ser não se retrata
na grafia do expressadamente

eu comigo não necessitaria de algo
como a palavra de mim diante

mas a palavra fez questão de chegar
porque aquela era a palavra ausente

 

 

pedaço

 

sair de ti foi fácil
foi facílimo deixar-te
porém sei contudo
em ti deixei parte
poeta tem na musa
a razão de sua arte
era tua minha poesia
de ti ela era encarte

 

 

négané

 

não é e é
é e não é
e não é é
é não é e
é é e não
é e é não
não é é e
é não e é

 

 

calendário

 

viver
um dia depois do outro
um dia após o outro
um dia de cada vez
domingo
segunda
terça
quarta
quinta
sexta
sábado

de segunda a sexta a vida é uma feira
mas a semana começa e termina sem

 

 

pequena pausa

 

ponto e ,

. e vírgula

 

 

the end

 

se tudo que há no espaço
tudo que o céu contém
constelações via láctea planetas satélites astros
meteoros cometas aeronaves e até óvnis
(não há porque colocar os pássaros nessa lista)
se essa imensidão um dia cai toda
desabando no vácuo criado no caos
será o momento da descriação?
e Deus, onde se apoiará em que vetor
para se manter suspenso
acima de tudo e de todos
com sua onipresença onipotente?
o sol explodirá e a luz não haverá
apagando-se em sua velocidade
em queda iluminada e abismal
então o nada habitará o vazio
o oco da inexistência absoluta
silêncio profundo do ex-mundo
e Deus, só consigo mesmo
vagará, pairando no breu extremo,
espírito solitário a esmo
tremendo de frio e de medo
no eterno fim de Si

 

 

vento

 

vento
canto do ar
em movimento
vento
criação a respirar
a todo momento
vento
sopro a bailar
no pensamento
vento
brisa a ninar
o sol rebento
vento
em todo lugar
é acalento
vento
algo a criar
inovado invento
vento
vindo apressar
o ritmo lento
vento
ousou levantar
a saia do monumento
vento
Marilyn quis refrescar
seu temperamento
vento
miss Monroe a gozar
frescor e alento
vento
só sabes inspirar
com teu talento
vento
vem redomoinhar
meu catavento
vento
se descuidar
perde o assento
vento
velas ao mar
do esquecimento
vento
por onde passar
vira advento
vento
faz arejar
até sepultamento
vento
gosta de felicitar
qualquer nascimento
vento
te aprisionar
nem tento
vento
se me esfriar
te esquento
vento
dei de aventar
teu intento
vento
fazer ecoar
teu instrumento
vento
queres voar
qual anjo bento
vento
vai passarinhar
no firmamento
vento
preferes pousar
no sentimento
vento
então deves pensar
em casamento
vento
honra em convidar
para o entrelaçamento
vento
se se realizar
que acontecimento
vento
irá desposar
uma pipa sem rumo e sem rima

 

 

retorno

 

no círculo
o quadrado circula
e o círculo circundando
enquadra

e nada contém
e tudo está contido

 

 

O contador de pedras

Sem ter o que fazer, deu para contar uma a uma as pedrinhas
do imenso calçadão da praça Monsenhor Joaquim Thiago.
Contava, contava até perder as contas.
E foi recontando dias semanas meses a fio sob sol e chuva e estrelas
que percebeu quão impossível era sua tarefa.
Não a de contar. Mas a de conviver com as pedras.