JUNHO DE 2006

quarta-feira, 28 de junho

Abrir meu coração, não abro.

Ainda não estou preparado.

Tudo que nele trago,

para ser melhor preservado,

deve ser conservado

hermeticamente fechado,

sem senha, bem segredado.

 

Não, não se atreva

a correr atrás do tempo

que não possuis.

É o tempo que te leva

em compasso de pensamento,

na velocidade da luz.

 

Sozinha, ela se debruça, soluça,

sente maior o incompleto de seu ser.

Anda pela casa quilômetros de agonia

e incômoda se perde pelos cômodos,

tromba com móveis, não abre cortinas,

tranca portas, não rega plantas, tevê não vê,

música não ouve, convive com o desassossego,

em nada se concentra, a nada mais tem apego.

Ela já se não se comporta, não se suporta,

se corta com lembranças, reabre cicatrizes,

convive com pensar e sentir infelizes.

Ela só quer saber de dormir, ficar quieta.

Mas não dá conta, sente-se tonta, sem meta.

Sequer consegue riscar uma linha reta.

 

Meu medo de amar te assusta.

Teu susto mais me amedronta.

Sei bem o quanto me custa

assumir que se não estou

também tu não estás pronta.

Mas dividir isso de forma justa,

é difícil demais da conta.

 

Queres monopolizar minha atenção?

Queres todo o foco de meu olhar?

Minha exclusividade sem restrição?

E de mim para ti tudo polarizar?

Então nunca me digas: - Não!

E inteligente sempre: - Vou pensar.

 

sexta-feira, 23 de junho

                               republicando a pedidos

Ainda não te conheço,

mas a ti serei apresentado.

Então direi:

- muito prazer,

que bom ter te encontrado

(estou encantado!)

Não te busquei

e nem tava sendo procurado.

Coincidência? Providência?

Conspiração do acaso?

Sorte ou destino traçado?

Respostas não terei,

e então só saberei,

que nós dois sozinhos

será coisa do passado.

 

Tenho curiosidades a teu respeito
Muitas tantas (todas!)
Penso em ti na intimidade
- nem respiro
Imagino-te no banho
- perco o ar
O instante em que prendes os cabelos
Enquanto passas cremes no corpo
Na hora em que te deitas
Teus pensamentos inconfessáveis
A serenidade com que ouves falas e lês
Quando pões aquele vestidinho de ficar em casa
e o jeito perfeito com que ajeitas as alcinhas
Existes e eu te sonho – Sonho de minhas noites
Como és? Quem és? Alguém te tem?
E eu tenho chances? Vês que eu te olho?
Sobre ti quero saber tudo
Infindáveis perguntas
– Incontáveis e urgentes
E a verdade é uma só:
- Sou o amigo que te deseja
O macho que te cobiça mulher
E que assim seja
haja o que houver

 

Quero um amor. Alguém para amar.
Com simplicidade. Ternura no olhar.
Que seja sincera. E me queira seu par.
Aberta ao diálogo. A fim de sonhar.
Amiga serena. Me respire em seu ar.
Seja só emoção. Não me faça chorar.

 

Quero um amor. Alguém para amar.
Com alegria. Segurança ao se dar.
Que pense em mim. Vá me inspirar.
Que corra o risco. E me veja arriscar.
Senhora de si. Mas sem me anular.
Se dê por inteiro. A se completar.

 

Quero um amor. Alguém para amar.
Com desprendimento. Musa ao luar.
Um sol de mulher. Aqueça a brilhar.
Se queira feliz. Que se deixe levar.
Sorrindo me abrace. Até desmaiar.
E leve se sinta. E ande a levitar.

 

Quero um amor. Alguém para amar.
Fêmea na cama. Extrema ao gozar.
Plena de luz. Meu céu, terra e mar.
Silêncio que fale. E me deixe calar.
Que se sinta eterna. A me eternizar.
Amada, adorada. Fome e manjar.

 

sábado, 17 de junho

Nada posso pedir-te

senão a graça

de dar-me a ti

para que teu seja

este que não te tem

e que tanto te deseja

como único e grande bem

 

Eu jamais entenderei,

oh! pátria da mamata,

teu excêntrico cinismo

sem autocrítica.

Faz andar nu teu rei

(e não de terno e gravata)

no campo de nudismo

de tua política.

 

O amor? Amor o que é?

- Amor é questão de fé.

Piamente, qual a de José

na virgem de Nazaré

engravidada por Javé.

- Amor dá pé, pontapé.

Não larga se pega no pé,

feito bola no pé de Pelé

na hora do gol e do olé.

- Amor é cheque pré.

Pagando por cafuné

à picante dama de cabaré

que faz de pica picolé.

Nota de rodapé: o amor é

o que é como é.

 

Quero te amar a meu modo.

Eu todo – sem engodo.

Eu sempre – fogo sob a trempe.

Eu macho – de alto facho.

Eu sensível – melhor impossível.

Eu menino – ávido desatino.

Eu febril – noites a mil.

Eu glutão – insaciável tesão.

Eu – teu.

Quero te amar do meu jeito.

Eu perfeito – sol no leito.

Eu assim – muito a fim.

Eu fogoso – potro garboso.

Eu parceiro – grande, inteiro.

Eu escravo – cavo, gravo, cravo.

Eu senhor – tronco torturador.

Eu pavio – inflamável cio.

Eu – teu.

 

Dentro do vazio há,

por preencher,

a imaginação,

o todonada.

 

Esvaziar-se,

até se esvair.

Expurgar-se,

no pensar.

Evaporar-se,

desistir.

Sublimar-se,

inexistir.

Eis a catarse

do sentir.

 

Amei-a.

Palavra.

- Basta!

 

Palavras correm soltas

escritas a lápis

a tinta

a sangue

a carvão

a giz

E na língua solta

que tudo diz

 

Ouvi

dias atrás

um cego cantando

Bette Davis eyes

Depois não o vi

mais

 

sexta-feira, 16 de junho

Acaso conheces de meu coração

suas aurículas e ventrículos?

E de seus ritmados movimentos

de diástole e sístole,

o que sabes tu?

Se nem idéia fazes do que sejam

aurículas e ventrículos,

diástole e sístole,

como ousas querer habitar

meu órgão muscular?

Ao invadí-lo na cavidade torácica,

o ajudarias meu sangue bombear?

Se achas que amá-lo é só dificuldade,

saibas que essa é só uma parte.

Ainda não calculas a responsabilidade

(aliás, a verdadeira arte)

que é cuidar de sua sensibilidade.

Meu coração só é dado a romances

com quem conhece suas nuances.

 

quinta-feira, 15 de junho

Formiga na formiga

desejos de cantar.

Mas na fábula

seu desejo esbarra:

- Quem quando deseja canta

é cigarra.

 

- Aquela bola no céu

é a lua ou o sol?

 - Não sei,

não sou daqui.

 

Como velozmente vinha

a coisa descarrilou

qual trem no fim de linha.

Virei só um vagão

no eu dela sozinha.

Busca nova estação

o eu na minha.

 

segunda-feira, 12 de junho

A liberdade em ti ative.

Livre se vive.

De viver não se prive.

De sonhar inclusive.

Livre livre livre.

 

Juntos

silenciamos

assuntos

desconversados.

Vamos

relevando

ambos

irrevelados.

Sempre

discordamos.

Ficamos

contrariados.

Dois

desencantados

sonhamos

desacordados.

Estamos

entendidos

vivemos

entediados.

Mesmo

desgostando

somos

enamorados

ou ex-namorados?

 

domingo, 11 de junho

Encandesce. Dilui-te. Sobrepuja.

Alma líquida. Afoga-te nos íntimos.

Condensa noites no arrebol.

Circunda-me de aromas, oh! Sol.

 

Em ti meu habitat.

Sou teu hóspede

e alicerce.

Proteção ergue-se.

Re

des

cubro-

te.

 

De concreto

areia

cimento

vergalhão.

Ereto

nada arreia

o instrumento

do tesão.

 

Uma gotícula de sangue

na neve

sobre a calçada

do prédio em frente

o Central Park.

Que frio, John.

Eu me lembro

(a lembrança atormenta):

noite de 8 de dezembro

de 1980.

 

Se confiasse,

confidenciaria.

Mas se falasse

transgrediria

o incurável medo

de contar segredo.

Reservado,

mantém-se calado

o desconfiado

intimista

intimidado.

 

sexta-feira, 9 de junho

Atirei um pau no gato,

mas o gato não morreu.

O pau que catei no mato

a cupinzada roeu.

Era, sem tirar nem pôr

leve feito isopor.

O gato riu feito louco,

se achando anjo barroco

ou santinho do pau oco.

 

Água mole,

em pedra,

dura.

Água,

molhe,

e à pedra fura.

 

Que sua vida seja um culto

a tudo de belo e bom, viu?!

Mantenha-se esse adulto

infantil.

E jamais perca a esperança,

(a esperança a tudo exulta).

Seja sempre essa criança

adulta.

 

Pensei comigo.

Preciso pensar mais.

Meu pensamento está só.

Eu penso mais que sinto.

Estou pensando em mudar.

Ela ainda pensa em mim?

Pensou muito para responder.

Eu pensava que não.

Por que sou tão pensativo?

Sou mesmo pesamenteiro.

Em tudo pensamenteio.

Tenho pensado nisso.

 

Além do que já perdi

não preciso de nada.

Ou seja, de ti.

 

Não pronuncie,

sequer balbucie

meu nome.

Apenas pense,

silenciosamente

e em segredo

para sempre

incomunicável,

intraduzível,

irrevelável.

 

Para não perder, jamais aposto.

De tanto sofrer, por quase morrer,

de vida me aposso, à vida endosso.

Se não posso ser, sou quem posso.

Gosto de fazer o que gosto.

De agora me ter não mais vosso.

De egoísta dizer: meu! Não nosso.

 

Foi-se o tempo

(e tanto tempo tem),

em que eu

tendo alguém

não tinha para mais ninguém.

Hoje o tempo é de ir-

e-vir.

Agora o tempo é de vai-

e-vem.

Tempo de cem,

de mil,

de harém.

Ou (também, se me convém)

de passar muito bem

sem.

 

Que mania

de se ver

em minha poesia.

Que pretensão

se achar

em minha inspiração.

Que ousadia

querer imaginar

que para ti escreveria.

Com as devidas escusas

não nego e confesso:

são tantas as musas.

Todas, como tu,

assim confusas.

Querendo ser as fontes

a jorrar meus versos

sempre, aos montes.

Vivo no ar, em enlevo,

toda beleza me inspira.

Então pára de pensar

que é para ti que escrevo.

Ao me ler,

vê se não mais suspira.

Já tiveste tal poder,

mas agora, não delira.

 

quarta-feira, 7 de junho

Lágrimas não derrame.

Derrame palavras. Se veja.

Se tenha. Se dê. Se chame.

Pronuncie o próprio nome.

Amicissimamente se ame,

se ame, se ame, se ame.

 

Melhor terapia não há que te abraçar.

Fechamos asas para voar.

E no espaço de nossos braços

nos aninhamos no ar.

 

Navegam desejos em tua sequidão.

Já são áridas tuas carícias. Sedenta és.

Teu corpo é Saara, fêmea desértica.

Vejo-te Sol. Campo de sal. Fogo azul.

O futuro há de ter corpo de chuva.

 

Dá saudade. Saudade há.

Saudade sim. Saudade já.

Saudade só. Saudade má.

Saudade vem. Saudade não.

Saudade vil. Saudade vã.

Saudade sei. Saudade sou.

Há saudade. Saudade dá.

 

Não me diga.

Não me silencie.

Olhe para mim.

Veja o que falo.

Ouça com os olhos.

Percebe agora?

 

Não te penso mais

como sentia.

Não mais te sinto

como pensava.

Antes eu ia, te esperava.

A poesia rebrotava.

Eu queria, sonhava,

permitia, me dava.

Insistia, implorava.

Sofria, doía, curava.

Persistia, me iludia.

Mas eu sabia que um dia

isso passaria. Ah, passaria.

Que quem te amava sobreviveria.

 

terça-feira, 6 de junho

Ponto de ônibus.

Madrugada fria.

Sonâmbulos embarcam.

 

Estou indo. Vou lá.

Mas não me espere.

Que muitas vezes fui

e até hoje não cheguei.

Adio sempre. Para sempre adios.

 

Ontem à noite eram (estavam) tão belas.

Mas, sem maquiagem a verdade amanhece,

a realidade acorda, a luz exata do dia

entra por todas as frestas e janelas.

Agora é que são elas.

 

Sábio é o tolo

que tolo é

e tolo se sabe ser

sem pesar ou dolo.

 

Quantas ruas tem a cidade?

Tantas, que todo caminhar é pouco.

Os passos por elas não seguem.

Assim não levam a lugar algum.

Ruas desnecessárias, desnorteadas.

Ruas da cidade que é só imaginação.

 

Não me procure em meus versos,

que de mim só têm o fato de serem tão dispersos

quanto eu. Não me encontrarás aqui.

Eu mesmo não me sei desde que de mim me perdi.

 

Dou nomes à chuva.

E nenhum com ela se parece.

Não lhes caem como luva.

A chuva passa. Esquece.

Anônima, a chuva agradece.

 

sexta-feira, 2 de junho

Em razão contrária

tenho minh’anti-

visão binária:

certo errado

preto branco

um dois

aqui lá

bom ruim

belo feio

sim não

tudo nada

dentro fora

Estou em mim

só comigo

Ser unitário

Solitário ser

Viver vário

Eu e meu

múltiplo modo

de ver

meu eu

 

O sol

é o sol de sempre

o mesmo brilho

com seu rebrilho

O sol

é o estribilho

de inaudíveis tons

luzes cores e sons

 

Esqueça tudo, mas sem odiar,

que nem há motivo para tanto.

O melhor a fazer é ignorar,

estancar os efeitos do desencanto.

Deixa a decepção extravasar

em forma de silêncio e pranto.

Outro dia sempre vem, e a brilhar

o sol inspira um novo canto.

Sustenta essa dor sem desabar;

sua agonia dura só por enquanto.

Tudo passa. A aflição há de cessar.

Faça da serenidade um acalanto.

 

Vai fundo

no oco do mundo.

Cada dia cava um pouco,

da cova para o viver

aspirante a defunto.

 

Pagou micos e sapos.

Deu a cara a tapa.

Ganhou muitos sopapos.

 

Well come

ao beleléu:

- My home.

 

Estou só na noite alta,

no meio de uma mata fechada,

com fama de floresta assombrada.

Do que sinto mais falta?

- De nada.

Nenhum medo me assalta.

Vou em minha caminhada

para o cogumelo, minha morada;

eu, o duende tocador de flauta.

 

Políticos magros

e políticos gordos,

entre charutos e tragos

só causam estragos

com seus acordos.

É o preço da Ordem?

O valor do Progresso?

Já é hora - acordem:

fechem o Congresso!

 

JUNHO DE 2005

domingo, 26 de junho

- Terra à vista

(alguém grita

num 22 de abril

de 1000

e outros quinhentos)

Para a conquista

o mar e bons ventos

trouxeram visita

Nome de pau o Brasil

recebe para que exista

E desd’então se excita

 

À femme fatale

só fale 

de felação

e falo

 

No rec

e no play

ao flashback

 

Domesticado

deixo a jaula

todo anima

(l)

do

 

Um indivíduo

se se divide

em duo

é dual

E se se duplica

é ambíguo

mais que duplo

e bilateral

 

Não consigo

contigo estar

contíguo

 

Não

Não é clínico

meu olhar

o teu olho

E sim

cínico

a desnudar

Íris

a menina

que nele há

 

A barca da noite

cruza o rio às escuras

sem margens para ancorar

É sempre nunca

o seu chegar a lugar nenhum

Navega cega no breu

sem remos e rumo

sem leme vazia e só 

sem porto ou amanhecer

em sua reta rota

contra a correnteza

do sombrio rio da procura

de densas e turvas águas

de inatingível fundura

 

sábado, 25 de junho

Sim havia

mais poesia

na harmonia

Amizade

sintonia

alegria

Todo dia

te ouvia

Com raridade

te via

Com liberdade

te pertencia

A saudade

era um’agonia

Mas convivendo

fiquei sabendo

(e essa verdade

me angustia):

a proximidade

nos distancia

 

sexta-feira, 24 de junho

E aí, futuro,

por que tanta

demora? 

 

Quando eu

te conhecer

será todo meu

o muito prazer

Ou até posso

ouvir-te dizer:

- todo nosso

 

Uai

um trem assim

num vai

sabe?!.

Que coisa ruim

não cabe

dendimim

 

Para doces

suspiros

as claras

 

terça-feira, 21 de junho

Sossega! Para que pressa

se o compasso dos segundos

tem um ritmo imutável?

Se é fixo o dia no calendário

e ao aceitar o sol em suas etapas

transborda na noite sua calma vastidão? 

Se ao trazer para a Terra a vagareza da luz

de estrelas e astros distantes,

vagamente nos inunda quase sem querer?

E, sem que percebamos, já noturno ser

de envolvimento lento, abrange-nos,

dá-nos cautela, acomoda-nos em nós,

e enfeitiçado de sono nos esquece? 

Até que dormindo profundamente,

acorda outro em seu ciclo tranqüilo,

gentil menino em sua nova manhã,

vindo, indo, seguindo lindo e nada urgente.

O dia todo dia se anuncia igual e diferente.

Não se impacienta com o brotar da semente.  

Não apressa nas flores o desabrochar. 

Não cobra do fruto seu amadurecimento.

Não induz na face o curso do pranto.

E nem em ti exige agilidade da vida.

Tudo é breve, exato, simples e sempre.

Então sossega. Não te apresses tanto.

Não perca da mansidão o encanto.

Teu dia é aqui, agora, por enquanto.

 

domingo, 19 de junho

Com o que ceifas

alimenta o pássaro

Se não em tua mão

à curta distância

em estático silêncio

de respiração contida 

e de nem um simples

piscar de olhos  

Para que o arisco ser

pouse - e tranqüilo

ainda que a ti perceba 

(pois de amedrontado

é tão afoito e perspicaz)

em ti e a ti confie

existência e liberdade

e se alimente em paz

sem asas de ansiedade

 

Sigo

Tudo o que sou

vai comigo

E -

talvez por castigo -

um pouco do que fui

tenha ficado contigo

sendo da saudade

abrigo

 

No

outono

out

No

inverno

in

Na

primavera

  rima e

  ri

No

verão

ver

 

domingo, 5 de junho

Atenta a tudo

tentas ver 

meu discurso mudo

 

No núcleo da mente

relampejam instantes

Brilham circuitos múltiplos

em neurônios eletrizantes

Cindem partículas em volts

excitados, exuberantes

No crânio, urânio de idéias 

em nevrálgica reação,

filtra a matéria etérea 

de pensamentos em fissão, 

liberando energia pura

de rara imaginação

 

Passeio pela calçada

Um vai-e-vem

Um ir-e-vir

De cá pra lá

De lá pra cá

Idas e vindas

Nunca chegar

Para cima

e para baixo

A vida passa

nesse passear

passo a passo

 

Que teus olhos falantes

chamem por mim

quando me veres

entre tantos seres

Declamem meus versos

quando me leres

e enquanto viveres

E gritem de prazeres  

quando me teres

em amanheceres

entardeceres

e anoiteceres

 

Borracha

Borrach

Borrac

Borra

Borr

Bor

Bo

B

........

 

A casa do silêncio

é inabitável

Não porque dentro dela

não se possa falar

Ou porque nela

nada se pode ouvir

E nem uma porta ou janela

abrir 

Mas porque ela

proíbe o chorar e o sorrir 

os sons do sentir

 

Olhar

não como antes

não como agora

mas como sempre

e ver

como nunca

 

sábado, 4 de junho

Ah, o amor

Tiro no coração 

(com silenciador)

 

Se há cérebro

então sinta 

Se há estômago

não se encha 

Se há culhões

haja saco  

 

Sou enquanto estou

Vou portanto chego

Eu adianto indo

Sei tanto quanto sei  

Vejo encanto sonho

Toco canto calo 

Sinto entretanto tudo

Penso porquanto tenho

Falo espanto silencio

Ouço acalanto fluo

Choro decanto vazio 

Meu pranto rio

 

NADA INSIGNIFICA

NADA DESTRADUZ

NADA IMPRONUNCIA

NADA NESSA NOITE

NADA DESAMANHECE

NADA NOVO NUNCA

NADA NEGA NÃO

NADA NEVER NOW

NADA NADA NADA

 

sexta-feira, 3 de junho

Chega de amor. Basta!

Amor desgosta, desgasta.

Nele tudo é mais que nada.

Foda fadada a conto de fada.

Amor toma tempo demais.

Amor entra-e-sai, leva-e-traz.

Amor se acha, pensa que é.

Na contramão, em marcha ré.

Mete os pés pelas mãos.

Os salvos não são sãos. 

Troca as bolas o amor.

Desbota se não muda de cor.

Amor pira a respiração.

Amor é nem, é nunca, é não.

Amor come acaba a fome.

O amor some se a si consome. 

O amor nada sabe de si.

Não sabe se chora ou se ri.

Amor viceja sua flor artificial.

Amor murcha sua flor natural.

Fale de amor, com surdos.

Fale de amor, com xiitas e curdos.

Amor existe: o ilusório.

O amor é secreto: é notório.

Mesmo quem ama trai.

Amor cansado de mamãe-e-papai.

Limitado, finito, estreito.

Feito em casa já não causa efeito.

Que resmunguem os apaixonados.

Que confirmem os descasados.

Alforriado é seu próprio senhor.

Puro desejo, egoistamor.

Margem da loucura, cegueira.

De ceca em meca sem eira nem beira.

Na união amor é acomodação.

Não se incomoda com separação.

Pura paixão esse eterno fugaz.

Faz e acontece – e se desfaz.

O amor já acorda com sono.

Exila-se em completo abandono.

O amor se sente só depois do sim.

O amor já não está mais tão a fim.

 

quinta-feira, 2 de junho 

A retórica

se  tu queres de  mim que tudo posso

o que de mim podes se nada  queres

restará  um pouco ou nada  de nosso

não  quero depender do que puderes

e não poderei aceitar o  que quiseres

porque no  fim isso vai  virar um troço

e se amarga  estás eu não me adoço

se tu queres de mim

que tudo posso

o que de mim podes

se nada queres

restará um pouco

ou nada de nosso

não quero depender

do que puderes

e não poderei aceitar

o que quiseres

porque no fim

isso vai virar um troço

e se amarga estás

eu não me adoço

 

quarta-feira, 1 de junho

Protejo-te

de mim

para que enfim

possas te sentir

segura

e forte

E eu assim

o reequilíbrio

reencontre

bem como

quando e onde

perdi meu Norte

 

Estás ausente. Não do outro.

De ti. De tudo que és,

dentro ou fora, renegas.

Dos sentimentos que nutrias,

esvaziastes. Deixaste-os.

Ficaram para trás no espaço

de teu impermanente estar.

Não te és. Estranho olhar

que tens e não te vê.  

Refugiado ser no deserto

da inexistência.

Criatura em fuga, atrás de si

para o improvável reencontro.

Exististes. Agora te ausentas

no azul em que te diluis,

tu estilhaços, tu partículas,

fluis.

 

Perder

por dar

de si

poder

a outrem

Bem

mas se a ti

ninguém

te tem

quem

perderá

o quê

hein?

 

Não pense

que é fácil

Pensar

fácil não é

Pensamento

sem face

Pensando

facilitar

o pensado

dificulta

e não faz-se

idéia

se o que pensas 

não é reflexão

não é imaginação

não é meditação

e sim preocupação  

 

Então esquinas 

são quinas

que dobras

para outras sinas?

Para cumes

de colinas

paralelos 

à ruínas

(te inclinas?)

Paramount

ou Minas?

Cantos de duas

ou mais ruas

que se cruzam

em surdinas?

Sem setas

semáforos

businas?

O que são?

Vãos?

As esquinas?

 

A sós

encontras

prós

e contras

 

JUNHO DE 2004

 

quarta-feira, 23 de junho

1 se para ti

nada escrevo

leia a palavra desejo

(eu não posso e nem devo)

 

2 um pouco mais de amor

e eu nem raciocinava

e louco é que não estou

mas pensando bem sou

 

3 ela já me disse tudo

- faz silêncio absoluto

e eu resoluto

fico mudo

nada escuto

 

4 meu coração até quer

por ela se expandir 

mas não tem peito

para agir

 

5 vaso ruim quebra

flor bonita murcha

e só cacos cortantes

e só pétalas secas

 

6 o telefone não toca

meu sofrer não se toca

e eu nunca saio da toca

 

7 guio-me por uma estrela

eu – frágil centelha

só à distância posso vê-la

- ela a ti se assemelha

 

8 se não fosse muito vivo

o amor me teria matado

de amor já teria morrido

e quem tivesse chorado

me veria no passado

já teria me esquecido

 

9 te esqueço porque preciso

é preciso que me esqueças

dois corações sem juízo

manobram nossas cabeças

a ambos é dado o aviso:

te esqueço - me esqueças

 

10 velho caderno de geografia

em ti viajo na distância

visito um saudoso país

perdido no tempo

chamado infância

 

11 se a saia já não entra

saia

vá caminhar na praia

 

12 eu que pouco a via

agora já nem a escuto

e se algo entre nós havia

acabou-se num minuto

eu que tanto insistia

já sem forças não luto

pois é ela quem silencia

com sua mudez não discuto

 

13 asa de borboleta

pétala de papoula

coração de colibri

frágil frágil frágil

fui vivi sou sem ti

 

14 uma porta entreaberta

o teu silêncio trancou

meu amor tinha a chave

e ao abrir tal cadeado

meu coração libertou

só ficando aprisionado 

o que nunca te deixou

o que trazes guardado

isso que nos separou

 

S h a k e s p e a r e a n a s

   Eis as questões de ser o não ser

(Ou perguntas pós-morte de Romeu à Julieta)  

 

O primeiro amor,

se é único,

é também o último?

 

Quando disse: te amo,

ouviste minha voz...

- E o meu sentimento?

 

Queres que teu silêncio ecoe 

no vazio que deixas em mim

ou nesse nada que sentes?

 

Quando se tem um poeta,

é melhor sentir-se musa

ou a própria poesia?

 

Perder alguém que te ama

torna em ti mais leve

a couraça que nunca tiras?

 

Alguém te querer como és,

não te faz alguém a querer

o que és ao querer de alguém?

 

Aquela vontade que tinhas

de comigo falar por horas

acabou-se em um segundo?

 

Quando pensas em mim,

te lembras daquele menino

ou do sonho que envelheceu?

 

Tudo o que juntos vivemos,

não deu sentido à tua vida

ou a vida não te deixou sentir?

 

Se de mim não sentes saudade,

como serás capaz de lembrar

os momentos de felicidade?

 

Se tivestes tudo de mim,

por que nada consideras 

agora que tudo é fim?

 

  Quero um amor.

   Alguém para amar.

 

Quero um amor. Alguém para amar.

Com simplicidade. Ternura no olhar.

Que seja sincera. E me queira seu par.

Aberta ao diálogo. A fim de sonhar.

Amiga serena. Me respire em seu ar.

Seja só emoção. Não me faça chorar.

 

Quero um amor. Alguém para amar.

Com alegria. Segurança ao se dar.

Que pense em mim. Vá me inspirar.

Que corra o risco. E me veja arriscar.

Senhora de si. Mas sem me anular.

Se dê por inteiro. A se completar.

 

Quero um amor. Alguém para amar.

Com desprendimento. Musa ao luar.

Um sol de mulher. Aqueça a brilhar.

Se queira feliz. Que se deixe levar.

Sorrindo me abrace. Até desmaiar.

E leve se sinta. E ande a levitar.

 

Quero um amor. Alguém para amar.

Fêmea na cama. Extrema ao gozar.

Plena de luz. Meu céu, terra e mar.

Silêncio que fale. E me deixe calar.

Que se sinta eterna. A me eternizar.

Amada, adorada. Fome e manjar.

 

Há quem aprecie coisas frágeis.

Eu fico com as inacreditáveis.

Com as dores responsáveis,

dessas que ferem comedidamente

e cuidam do sofrer sensivelmente

e com bálsamo são curáveis. 

Gosto das coisas sensíveis.

Principalmente das impossíveis.

 

Nunca fomos dois.

Eras uma.

E única.

Eu tentava chegar,

mas não me alcançavas.

Sozinha,

teu mundo não oferece espaço,

nele não cabe um sentir tão raro.

Jamais existimos.

Mantive distância.

Quem a si se basta

aos outros afasta.

Agora sei que para ser par

é preciso haver outra parte.

É uma arte anti-egoísmo

encontrar-se em alguém,

conviver em romantismo,

cultivar no peito um bem.

Mas quem a si se contenta,

um sonho assim não sustenta.

 

Mate o amor.

Queime as evidências.

A felicidade não pode deixar pistas.

É um crime perfeito amar.

Não morra de amor.

 

Agora é tarde. Tinha que ser – foi.

O que houve de belo, ficou, tão simples.

O encantamento inacreditável, até no olhar.

“Ainda existe alguém assim?” Existiu...

Esteve em tuas mãos, sob teus cuidados.

Não estavas preparada. Assustastes-te.

Tudo tão breve, mas para sempre aí,

tu sabes onde, quando menos queres

o futuro mostrará sua cara de saudade.

“Por que fugistes da felicidade?”    

 

É de coração que vou.

Sem emoção não chego.

Se a respiração não doer

o ar nada faz pulsar.

Estou inteiro de novo.

A poesia me resgata.

Esta, sim, é fiel, inteira.

A única que é minha.

Dá no coração e quer.

Poesia: minha parceira.

Poesia: minha mulher.

 

Não mais falar comigo.

“Não me ouvirás jamais”.

Tua voz tem som amigo...

Ouço-a! Saudade em paz.

Guarda o silêncio contigo,

que muita falta me farás.

Só não passes pelo castigo,

juras-me que não me lerás.

Ao escrever não consigo

não fazer barulho demais.

 

Adeus!

Apague a luz antes de ir,

que só no escuro

sei sentir.

E talvez agora

consiga dormir. 

 

São, mas não deviam,

integrantes das relações

hoje tão superficiais,

essas mentiras casuais,

sempre e mais usuais

nos universos irrevelados

de imaturos casais.

Mentiras, fingimentos,

sustentando res

sustentando ressentimentos,

namoros e casamentos

e frágeis envolvimentos.

 

terça-feira, 22 de junho

“Clareia manhã, o sol vai esconder a clara estrela ardente,

pérola do céu refletindo teus olhos...”

Nossas noites são feitas de erupções.

Deitamo-nos, nus, à sombra de vulcões.

Lavas escorrem, inundam-nos, ardem,

magmas pelando, cristalizando nossas peles,

ardência, fogo, calor, suores jorrando, faiscando

a junção de tua impetuosidade e minha imaginação.

Da cratera de teu corpo uma fome de luz aflora à superfície.

Deliras, e uma chuva luminosa de vermelhidão-amarelada

é lançada sobre nós, ali realizados, exaustos, felizes.

Teu sorriso expele tranqüilidade após momentos inflamáveis.   

Pelas manhãs somos essências naturais de fumaças e cinzas,

criaturas aromáticas ainda queimando à luz do ambiente.

Dormimos em profundidade. Um grande sol arde de inveja.

 

Com palavras dar forma aos desejos.

No escuro, o êxtase, a plenitude de teu corpo

sucumbindo ao meu, arfando delírios, endoidecido.

És louca? Sim, és! Perdes o sentido quando te tenho,

quando te levo ao paraíso e lá te deixo, Eva com maçãs,

mil serpentes te tentando, te instigando a vires a mim,  

dama no cio, mulher babando a fúria de uma luxúria pura.

Queres mais? Tudo tens, o mundo te dou, jogo aos teus pés

múltiplas escolhas para teu prazer, alternativas de realizações

para tua fome de fêmea sem tino, a dor deliciosa de se dar,

se ter, se achar, sentir o infinito nos momentos únicos de nós dois.

 

segunda-feira, 21 de junho

Linda, quase imaginária, mas ali,

ao alcance do olhar guloso, apascentando

a fome de outros olhos, chamando a atenção

para seu corpo acendedor de chamas, ardente,

se sentindo desnudada, e assim se vendo,

se querendo desejada, impossivelmente ansiada,

ela desfila sua lépida natureza de quase céu,

ela esbanja sua fagueira beleza de fada cantada,

que sozinha em seu quarto, depois de toda exibição,

se contorce com a estrela na seda de sua mão

de uma mágica e solitária varinha de condão.

 

Aceita a delícia de minha carícia.

Aproveita de minha carícia a delícia aceita.

Deita na cama estreita, deleita, e à espreita

geme a dor de um prazer indescritível.

Um gozar sensível, um amar violável

como o lacre de tua timidez vulnerável.

Dá do melhor que tens para fincar raízes

em meu peito adubado de desejos.

Chegaste à minha cabeça com inteligência.

Para ganhar meu coração peço-te paciência.

Com tua inteireza hás de ver meu avesso.

Tão feminina és que a ti me dou e de ti careço.

E quero que me digas, aflita e amada:

“Eu quero. Eu mereço!”

 

domingo, 20 de junho

outdoors

não ter

nada a dizer

a não ser que

 

quando nasci

um anjo torto pintou

a guache na vida

 

nua na toilette

a francesinha

exibiu-se ao voyeur

 

para fazer silêncio

nem o substantivo

escrever

 

sonhou que dormiu

à noite em claro

e assim a passou

 

quando cuida que não

cai em si com tudo

de pára-quedas fechado 

 

não há intervalos

entre terremotos

e sísmicos abalos

 

independe a primavera

de flores

ó artificiais mulheres?

 

hei de colher frutos

do amor – vai demorar

pois agora que semeei

 

em todos os espelhos

eu a vi na imensa galeria 

e não era vernissage

 

só penso

não falo

incenso

exalo

denso

ralo

 

branca nuvem:

é de tal palidez

que a cor ressalta

é nessa escassez

que dás pela falta

- de meu céu azul

 

ainda não despi

com calma, minh’alma

para ti

 

Teu fiel seguidor

 Vejo-te pálida e frágil

se fazendo de fortaleza

desguarnecida de sonhos

e sem tempo para os ter.

O mundo sobre teus ombros

em dias que mal suportas

ou comportas teu próprio corpo,

fatigado à luz do abandono

de tua sensibilidade em desalento.

Vejo-te sempre dando colo

e tanto carecendo receber

- pois tão meiga és tu

e tudo fazes por merecer.

A todos contemplas com a alegria

de servir – e quando precisas te calas,

e ninguém adivinha a necessidade

de a ti retribuir o que ofertas

com tua espontânea bondade.

És por demais simples no claustro

de tua humana escolha: doar-se,

anônima e serenamente confortada.

Com minha sozinhês te sigo,

à distância de teu silêncio,

de um modo sutil e íntimo,

admirado com teu proceder. 

Pudesse eu te amar, minha santa...

- Mas pecado de tal natureza

jamais ousarei cometer.

Em ti, ó ser de pureza,

Senhora de devotado viver,

vejo um céu de candura e beleza...

- Só teu fiel seguidor posso ser.

 

 óbvio

óbvio que tenha medo

óbvio que tenho medo 

óbvio que tenho medo do óbvio

ainda que esteja diante de teus olhos

mesmo que te salte à vista

até se manifestando com patente clareza

e sendo axiomático

e evidentemente incontestável

por óbvios motivos

a conclusão é óbvia

- o tal do flávio

não é nunca foi nem será

um flóbvio

 

eu até que não esquento

o que tiver de ser agüento

mas é tanto sentimento

e ela nesse enjoamento

já não estou mais 100%

sou de lua e de momento

enquanto der eu tento

o coração já bate lento

não tem mais cabimento

 

sexta-feira, 18 de junho

Grandeza de mim

 

Tudo se cria. Transforma-se. Aperfeiçoa-se.

Passa por uma evolução. Progride. Aprimora-se.

Amplia. Acrescenta-se. Reaprende. Reeduca-se.

Pode se lapidar um diamante. Moldar a argila.

Modelar o inanimado. Reestruturar uma base.

Reinventar. Recriar. Renovar-se. Entalhar a madeira.

Dar forma ao bronze. Esculpir na pedra.

Corporificar a matéria. Redimensionar.

Eu, antes de ti, era Eu só. E, só, Eu era represado.

Não desaguava. Não me via ilimitado.

Estava finito. Sem expansão. Tudo no Nada.

Condensado em meu Ser. Restrito a uma margem.

Eu, depois de ti, sou Outro. Estou além.

Olho horizontes. Aproximo distâncias.

Vou através. Construo pontes. Edifico moradas.

Externo. Entorno. Extravaso. Extrapolo.

Não mais do mesmo. Estou melhor.

Aprendiz de Nós. Aluno do Amor.

Sou Teu. Mulher maior. Vida minha.

Grandeza de Mim. Mundo e Sol.

Todo meu Sim. Universo sem fim.

 

Goza comigo, goza!

Que sou louco por ti,

minha fêmea gostosa...

Que amo tanto te ver

aflita, louca e gulosa.

Que adoro te sentir

leve e maravilhosa.

Que tudo se encaixa

e a gente se entrosa.

Que somos sol e lua,

poesia livre e prosa...

Que sexo com amor

faz a vida proveitosa.

Que te quero no cio:

linda, meiga e viçosa.

Que a fome nos come

com fartura deliciosa.

Que te acho manjar

e te devoro apetitosa.

Que em cama e banho

te assanho, dona fogosa.

Que de ti escorre mel,

ó rainha saborosa...

Que sou o teu zangão...

Te dou néctar: goza!

 

Estampado em minha cara

este sol arregalado.

Sol sorridente. Raios plenos

esbanjando luminosidade

e calor de delírios e febre.

O sol do amor explode em mim

sua grandiosidade esplendorosa.

Astro inconfundível, cega para fazer ver

a perfeição de sua presença.

Reluz na face da Mansa Musa

sua enfurecida voracidade,

ardências que ela faz transbordar,

guardando consigo este sol para as noites.

Ela ensolara nosso noturno universo

cercado de loucuras íntimas.

Nas madrugadas ela se abre

para que este sol nos realize únicos,

insaciáveis, acometidos de falta de margens

para tanto querer.

Ela se dá afoita, aflita, entregue,

doidivana, mais que urgente e a fim. 

Juntos gozamos. Zilhões de raios espargem

de nossos corpos-luz.

 

terça-feira, 15 de junho

A plástica desnecessária

Não quero parecer drástico

(e muito menos sarcástico),

mas tua rara beleza

não se põe à mesa

de um cirurgião plástico...

- Amor, teu corpo é fantástico!

Se essa gente for honesta,

verá que é irretocável tua testa...

Não me causes nenhum desgosto

- não mudes nada nadinha em teu rosto.

Ele é a própria essência da perfeição

de tua inigualável e original criação...

Quero ver qual infeliz

vai re/tocar este teu nariz...

É a marca de tua beleza rara...

Será que não vêem? – Tá na cara! 

E eu ainda não sei como é que deixas

alguém falar, ousar ou sequer pensar

em amainar tuas suculentas bochechas...

Vão refazer o quê em teu queixo?

Se pudesse dizer, diria: - Não deixo!

Querem tirar carne de teu pescoço?

Mas, moço, vou aprontar um alvoroço...

(Quem é que gosta só de pele e osso?)

O pescoço dela é arte final, não é esboço...

O quê? Querem empinar teus seios?

Sou contra! Peito a todos, tenho meus meios.

E pra quê? - Se teus peitos

são lindos, são perfeitos,

e olha que de seus deleites sei-os...

Jesus amado! Querem mudar os teus traços...

Onde já se viu querer afinar e refinar, 

tirar carne dos teus braços?!

Querem enfraquecer teus amassos?

Estão te propondo uma lipo?

De que tipo?

De localizadas gordurinhas?

Onde? Na barriguinha?

Ah, eu adoro estas dobrinhas...

Sanfonadinhas e literalmente fofinhas...

Meu Deus, não concebo, não consigo

imaginar que possam mexer no teu umbigo...

Eu xingo, dou birra, faço greve, brigo,

e não pensem que eu não ligo, que eu ligo...

Não, não posso visualizar nenhuma cicatriz

na altura de teus vistosos quadris... 

O que estão pensando fazer em tuas ancas?

Me diz?

Será que estão confundindo opulência com pelancas?

Não e não e não, criatura... Isto não é gordura...

É uma delícia essa magnificência, essa fartura...

Estão projetando arrebitar teu bumbum?

Huummm!!! Negativo, hum, hum...

Menina, ficaste louca? De jeito nenhum!

(Essa gente não entende nada de nádegas...)

Em hipótese alguma, em nenhuma circunstância

enrijecerão a protuberância dessa abundância...

Quanto à tua mais íntima flor, nem pensar!

Que esta é puro amor perfeito

– melhor não tem jeito

de ficar...

Meu amor, acho a maior loucura

imaginar que possas modificar a estrutura

desta tua belezura de cintura...

E se deres ouvido ao teu homem,

manterás como está teu abdômen...  

E, querida, não deixes que tornem postiças

as tuas deliciosas e torneadas coxas roliças...

O quê? Insinuaram que vão remodelar teus joelhos?  

Eles que aí nem ousem meter o bedelho...

Por favor, não dês ouvidos a estes conselhos...

E se ainda der tempo te faço mais um, dentre tantos apelos:

- Não permitas que toquem nos teus tornozelos...

Ai, querem é aumentar meu stress...

Ah, se encostarem as mãos nestes pés...

Sei que te fotografaram dos quatro costados,

de frente, verso e por todos os lados...

E que no computador vão te mostrar outro visual,

algo assim irreal, nada original, bem virtual...

Te farão parecer outra, como ficarás depois

- façam-me o favor, ora, ora, pois, pois –

recauchutada, enxutinha, fenomenal!

Pra quê, se já és sensacional

como és, como estás, tal e qual...

- Deus tava inspirado ao te criar única e sem-igual...

(Ó Senhor, a protegei na hora da anestesia geral...)

Mas, brincadeiras à parte, ó minha obra de arte,

de qualquer modo jamais deixarei de desejar-te.

Antes de qualquer cirurgia, de qualquer modificação,

saibas o quão delicada é esta operação...

Qualquer mudança na gente requer reflexão,

para que não haja constrangimento

e nem posterior arrependimento,

sofrimento ou rejeição...

Em tudo terás meu apoio, pelo sim e pelo não...     

Que sabes que em tudo e por tudo sou e serei teu...

Mas essa história me faz lembrar aquela velha canção:

- Não mudes este corpo que eu gosto e que é só meu,

tu já és tão bonita com o que Deus te deu...

Perdoa-me as gracinhas, a espirituosidade, o bom humor,

mas tu já me conheces muito bem, não é, meu amor?!

Sabes que sou capaz de perder a mulher, a amiga, a amada,

mas em circunstância alguma perco a piada...

(E nem meu amor por ti, que sem ele não sou nada).

Queres fazer em ti alguma plástica remodeladora?

Faças! Mas sabendo que és linda, perfeita, sedutora,

uma delícia, uma coisinha e minha musa inspiradora...

 

segunda-feira, 14 de junho

textos de segunda

vai pro infinito

um dia no futuro

eu te visito

e contigo amor

coabito

 

aprendeu a voar

mas ganhou medo

de altura

e perdeu a noção

de tempo

e espaço

 

- onde estou

que me escondes?

- dentro de mim!

(me respondes)

 

não caço!

- o que já não é extinto

está escasso

 

o sonho acabou

e john lennon

não acorda mais

 

olhei nos olhos de deus

não vi semelhança

com os meus

o que me veio à lembrança

foi uma visão dos teus

 

sou teu orfeu

sou teu romeu

sou teu breu

sou teu ateu

sou teu cananeu

sou teu filisteu

sou teu hebreu

sou teu perseu

só eu não sou teu     

 

lapida o diamante

que sou

que mínimas lascas

te dou

 

a gente não combina

não sou pierrô

e és colombina

 

sem amor nesse mundo

um sentimental coração

vegeta em coma profundo

 

o que para todos

é eterno

em mim já passou

 

tudo que escrevo

é mero rascunho

é simples pretexto

 

se algum olhar me prende

se algum gesto me segura

me entrego a todo bem

e me oferto bom e zen

e só me dou a quem me tem

e sou ninguém sem ter alguém

 

enquanto me tens ao teu alcance

lance mão de mim

descanse teu olhar no meu

avance em minha luz

vive o romance

ou dance

 

te acho muito insegura

e cheia de dúvidas

- sou? sei lá acho que não

talvez seja mas será? é pode ser

 

há uma certa confusão

entre amor e paixão

que o digam o coração

a respiração

a emoção

o tesão

 

palavras

impressas são tatuagens

criam imagens

possibilitam viagens

inventam mensagens

e ditas se espargem

 

domingo, 13 de junho

nunca na alma

                (republicando a pedidos)

machucou muito
uma exposta ferida
tão funda e sentida
mas não dói mais
- e o que doeu
não doía na alma
não doía na alma
não doía na alma

foi dolorosa
uma crúcis dolorida
de doença amorosa
e ainda que doesse na vida
consegui levar a palma
não deixei doer na alma
não deixei doer na alma
não deixei doer na alma

aplaca a tua dor
serena o sentir
mantém a calma
deixa o todo de tudo fluir
torna indolor o trauma
e cura tua doída alma
cura tua doída alma
tua doída alma

 

sábado, 12 de junho

Leitoras e leitores, a Rompe Nuvem, quem diria, hein?!

         Cliquem nos endereços abaixo e vejam só que boas novidades. 

 

Sou grato a você, Eliane Stoducto, grande webdesigner e escritora do Rio de Janeiro,

que espontaneamente incluiu poemas deste autor no conceituado site “Cristal Poesia”,

selecionado pela UNESCO (isso mesmo!), no Diretório Mundial de Poesia, United Nations

Educational, Scientific and Cultural Organization-World Poetry. Oh, quanta honra, garota!

Assim você me deixa feliz da vida e contradiz o Drummond... Lutar com palavras não é luta vã...

http://cristalpoesia.lua-negra.net/flavio_jose_almeida.htm

Lá no Cristal Poesia” estou no meio de muitas feras... Eis a relação dos poetas...

http://www.cristalpoesia.hp10.com.br/poetas.htm

Vejam, também, que barato ficou meu poema “Uma indecisão e tanto”,

neste outro endereço aqui (que tem um dedo da webdesigner Claudia Letti):

http://letradecorpo.lua-negra.net/letraU12.html

Outro site famoso, “Katarse”, publicou alguns de meus versos. Leiam:

http://www.ifrance.com/Katarse/ver-flavio.htm

E o mesmo “Katarse” enveredou em alguns textos em prosa...

http://www.ifrance.com/Katarse/txtflavio.html#sem

Já que estamos nessa de a coruja gabar o toco, a poeta carioca Ivy Wyler

deu-me uma demonstração de carinho, publicando meu poema “Mansa musa

em sua página super visitada, com textos de muitos craques da palavra...

http://www.geocities.com/ivywyler/dosamigos.html

http://ivy.pessoal.bridge.com.br/flavio.html

 

 

Depois do amor ela quase morre de sede.
Fica ansiosa por água. Bebe.
Lava-se por dentro, toda frescor, mulher líquida.
E molhadinha continua.
Ela, um manancial tão sedento. Fresquinha.
Quase se evapora durante o prazer.
Vai às nuvens. Seu gozo é chuva

que ela só sente. Que só ela sente.
Mas que me inunda, me encharca,
tromba d’água, temporal que nunca estia.
Ela goza e uma aura circunda seu corpo.
Vem a sede. Ela, de boca seca, pede água, água,
água pelo amor de Deus e de mim...
Saciada, muito ainda tem por saciar.
Para alcançar o gozo atravessa um deserto.
Nessa travessia ofereço-lhe um cactos.
Nesse cactos sem espinhos há uma flor.
Depois que goza, a água que ela bebe
rega esta flor que no auge ela colhe.

 

Pobres Rimas

quê isso agora?

simplesmente não há como

evitar ou impedir a aurora

acostume-se à claridade

há muito ar e luz lá fora

 

amores não invento

em vão vivo-os em mim

e sou só sentimento

 

sou o único que te escuta

porque é em teu silêncio

que reinas absoluta

 

e as palavras que não vêm

que quanto mais se quer

menos se tem?

 

ó coração que em mim bates:

não jorres poesia e tira-me da lista

dos reles e anônimos vates

 

me desvende

me acende 

ou the end

 

por que complicam

se mentiras por si só 

já se explicam?

 

as cores mais maduras

são as mais claras

ou as mais escuras?  

 

te quero de mãos dadas

nossos pés entrelaçados

em camas desarrumadas

 

a sorte foi lançada

e por azar talvez 

ainda não foi laçada

 

como ser romântica

assim impronunciável

sem nada de semântica?

 

no final

tudo pára

em um ponto.

 

Uma coisa no ar

no olhar

nessa canção

O prazer de ficar

e sorrir

emoção ao chorar

e pedir

que você seja sempre assim

Minha menina dos olhos

serena

a vida espera por nós

Vamos viver o momento

soltando ao vento

o amor

e a voz

Se você quiser saber

o que eu sinto ao cantar

olhe bem para você

ouça o som de seu olhar

 

as muitas partes que todos somos

somos muitos e com tantas partes

que algumas que temos até se dão

que outras partes se perdem de nós

mas eu te dou as melhores de mim

 

se conseguir trazer de volta seu olhar

perdido ao léu em um tempo qualquer

aquele olhar de ternura de menina-luz 

com ele virá o sorriso-sol de plenitude

e uma sonhadora mulher amanhecerá

então ela verá o quanto meu olhar é seu

 

posso te dar o silêncio

- queres?

ou o som de meu olhar

- o que preferes?

 

sexta-feira, 11 de junho

POEMINHAS DE AMOR SEM EIRA NEM BEIRA,

      REPUBLICADOS EM COMEMORAÇÃO

               AO DIA DOS NAMORADOS

      (Quem ama e é amado está de parabéns. Está nas nuvens).

 

O

Eu te amo

 

Eu te amo

é muito mais

que uma frase

com três

palavras

 

Nesse caso

não me sujeito

a ser eu

um simples

sujeito

 

E nem suporto

saber e tratar-

te (a ti amor)

como mero

objeto

 

E nem sei

se é conjugal

o amo

tal e qual

verbo

 

Eu te amo

sujeitando-me

sem objetar

e verbalizando

sentimental

 

1

Que tua luz não me falte
- minha vida sem ti

é blecaute

 

2

Em peito ressecado
floresceu meu amor
qual flor do cerrado

 

3

Em nós dois
o mínimo
é tudo

 

4

Ancoro em teu corpo-porto
minha nau imaginária
de teus mares espaciais

porque contigo estou
nas nuvens
mulher-cais

 

5

Só se de repente
por essa mínima brecha
em meu coração dormente
um cupido eficiente
acertar uma amorosa flecha

 

6

É você
essa casinha
sobre meu ê

 

7

Deixa nossa cama em desordem
para que desejos adormecidos
em meio a lembranças acordem

 

8

Se te acaricio
roço a luz
me silencio

 

9

Tudo que sinto
Todo o sentir
Sinto por tudo
Sinto por ti
Tudo é o todo
Tu verde
e eu lodo

 

10

Se eu
algum dia
voar
releva

Ou melhor
se eleva

 

11

Sou disperso
ora tu
ora um verso

 

12

Daqui ao horizonte
dá-me teu olhar
como ponte

 

13

Teu papel origami:
quando me dobras
para que eu te ame

 

14

Amores fazem bem
e mesmo em vão
sempre vêm

 

15

Vens com teu mar
A ele acrescento meus rios
e cem por cento de amar são águas

 

16

que eu possa dizer do amor
(sacaneando Vinícius)

 

Que não seja imortal
posto que é
cama

Mas que seja
infinito enquanto
duro

 

17

Para te conhecer
e em ti me reconhecer

só não desconhecermos-nus

 

18

Para dizer te amo
consultarei meu coração
pois contra ele não tramo
e é pra ele que reclamo
a falta duma paixão
Para te amar o conclamo
convencerei o sabichão

 

19

Não quero te acordar
ainda
que dormindo és tão linda
Teu sonho de amada
é terna brisa
Mulher mãe amiga irmã
Sou paixão em brasa
na sonolenta manhã

 

20

espelho

espelho meu

se eu te der uma musa

faz ela casar com eu?

 

21

dá-me um par

de aspas

e eu te cito

na fonte

 

22 

amante moderno:

Rapunzel

meu amor

penteia tranqüila

suas tranças

no toucador

que eu subo

de elevador

 

23 

3x4

rasguei teu retrato
em mil pedaços
qualquer hora
monto o quebra-cabeça

 

24

ela me faz

sentir poeta
cupido a fim

de lançar a flecha
 

25

não afaste
tua flor
de minha haste

 

26

ao teu lado
sou um sol
esquentado

27

face a face
se não te vejo
olhar desfaz-se

 

28

cuidado my love
pois meu coração
é um coquetel molotov
 

29

cifra-te
ou me
dedilho

30

lunar
nós
e nossas
fases
lunares
estás
agora
cheia
de mim
e eu
por ora
minguante
em ti

31
clareza

que farol
que nada
te quero sol
em noite
enluarada

 

32

Em grego
pensas
em mim
Te olho
e te vejo
em latim

 

33

Não que sejas
meu norte
e sim
porque estou
sem bússola

 

34
Minha timidez te observa
Meu silêncio te segue
E te amo sem reserva

 

35

Agora é que são elas
como unir duas vidas
nitidamente paralelas?

 

36

Te dou de mim
o que em mim
nunca terá fim

 

37

não é no atacado
que te olho e vejo
é no amiudado
de sentimental varejo

tu especificamente
observo-te detidamente
e é detalhadamente
que te desejo

38
longe de ti
distante de mim
ausentes em nós

o amor é a asa
no céu de nossa alma
veloz veloz

 

39

o amor
sem pé
nem cabeça
o sentir
não anda
nem pensa

 

40

vírus virtual:
amor
amor.com
amor.com@mor
amor.com@morsepega

 

41

em par
o indiví
duo

 

42 

minha vida
contínua
continua
se contígua
a ti
vida minha

 

43

dia dos namorados

conquiste
ainda mais seu amor
meu amor

 

44

Assim se deu a criação

de meu mundo:

- Haja luz!

E luz houve

em forma de mulher:

- tu!

Então o vazio de mim

passou a ser habitado

por ti,

meu amor.

 

45

Quando a respiração

já não é tua

a quem pertence o ar?  

 

46

Findo amor resta amizade

 

Amiga – permita-me tratar-te assim

agora que nosso amor chega ao fim

É que a Amizade é um sentimento

mais forte e mais seguro

que o Amor

- e de mais futuro

A Amizade não contém a cláusula

de exclusividade   

A Amizade não tem clausura

- só a da tua liberdade

(a tua individualidade)

Na Amizade não há

a ditadura da libido

(tu sabes o quanto

te tenho requerido

nesse sentido

– e até sofrido

me sentindo preterido)

A Amizade é simples

e mais capaz de alegrias

A Amizade não tem

contra-indicações

(ainda que requeira

cuidados especiais)

nem aqueles inevitáveis

efeitos colaterais

(mesmo que mereça 

mais e mais e mais)

O amor nos atormenta

com ciúmes sonhos

delírios loucuras

paixões e fantasias

Já a Amizade não

Pela Amizade chega-se mais fácil

ao perdão

Ela se permite e se entrega

com sincera abnegação

em gestos de quase devoção

Se nossa Amizade sobreviveu

ao Amor que tanto sonhamos

e infelizmente não atingimos

sinto-me muito à vontade

para chamar-te Amiga

- e que essa seja

a palavra mais doce

que eu sempre te diga

E que a nossa Amizade

seja uma forma de nos amarmos

e de bem nos querermos

em liberdade

e sem a menor fadiga

e com total sinceridade

- Tudo bem Amiga?

De verdade?

 

47

Não peço muito

só amor

o que não deixa

de ser tudo

ou quase

 

48

vida de luz

e de sombra

como o amor

que assombra

e é clarividente

viver

confunde-se

com amar

 

49

Para ser

para sempre

requer perdão

sempre

Assim as ofensas

as brigas tensas

as desavenças

as diferenças

às vezes imensas

ficam suspensas

Para ser para sempre

requer amizade amor

e perdão sempre

 

50

Desconhece-te

para que ela

te revele

Te descubra

sob tua última

pele

 

51

Mistura homogênea

Um em únicos

O tu em mim

Sou mais teu que meu

Minha vida para ti

És a melhor parte do que sou 

O todo

Eu teu

E meu eu és tu

Juntos

Intimamente universais

A mais integrada fusão

Universalmente íntimos

 

52

Quando viste

pela última vez

o teu próprio

olhar?

Há quanto tempo

não te olhas?

O que és

tu vês?

Te amo

porque te vi

Te amo

porque te vejo

 

53

amor:

dicionário

de silêncios

no linguajar

dos olhos

no dizer tudo

do sentir mudo

 

54

o amor

é a porta

sem chave

do infinito

labirinto

sem saída

 

55

Tu e eu:

multidão

de sentimentos

desejos

pensamentos

verdades

sonhos

e questionamentos

Somos muitos

em nós

- eu e tu

 

56

Oro

teu nome

meu mantra

de amor

e paz

A serenidade

te dou

Rejubila-te

em mim

Faz a festa

e mais que feliz

sejas tu

que mereces

meu céu

em louvor

e oblação

ao paraíso

que gozamos

Amém!

 

57

Quando nos amamos

te calo

te abalo

e em prazeres te exalo

olor de maçãs

flor

e falo

E pelas manhãs

canto de galo

 

58

Troco eu

- primeira

pessoa

do singular -
por nós

- duas pessoas

plurais

 

59

amor:

transformar

ar

e dor

em ardor

 

60

se te der um mar

te dou um barco

ou uma âncora

ou um porto

mas jamais te darei

ondas revoltas

tempestades e ventos

ou lenços brancos

para acenos de adeus

 

se te der o espaço

te dou asas

te propicio vôos

ou o azul 

ou a imensidão

mas nunca o limite

rotas prontas

bússolas para a volta

 

o que eu te der

será sempre o melhor

de mim para tua vida

meu sorriso tímido

minhas mãos trêmulas

meu jeito sem jeito

o mundo em meus olhos

que somente a ti vêem

 

não te abandonarei

porque és meu farol

e por ti me guio

se me perco de ti

estarei desnorteado

sem rumo no mar

sem leveza no ar

sem o melhor de mim

 

61

melhores

foram as vezes

que juntos respiramos

ou os momentos

em que ambos

perdemos o fôlego?

 

62

Teu coração e o meu se anelam

A união de nossos ares

Um só respirar

A força de sabermo-nos únicos em nós

Eternos todos os momentos:

os vividos e os por viver

Saber-me teu e te ter em mim

É tudo tão simples

Basta dar vôo às asas

 

63 

teu amor

me torna

domingo

 

64 

me povoa de ti

que és muitas

múltiplas

multidão em mim

quero ser

amorosamente

recenseado

 

65 

quero ancorar em ti

meu corpo-nau

estou exausto

amor

retirei do mar

todo o sal

és em Goiás

doce amor

o meu litoral

 

66

quer mesmo viver

um amor sem limite?

então não se evite

não hesite

e se permite

 

67

para viver uma história de amor

permita ao amor escrevê-la

nas páginas rápidas dos dias:

a cada segundo uma surpresa 

a cada minuto uma delícia

a cada hora um deslumbramento

semanas de sonhos se realizando

meses afora mãos se dando

anos a fio o amor maior

enfim a vida toda o amor mais forte

 

68

o amor era uma imaginação apenas

imaginar o amor é querer vivê-lo

o amor transborda sutilezas

vaso de sensíveis violetas o amor

e só imaginar flores não nos permite

sentir seus aromas mais profundos

viver o amor nos faz exalar vida

viver o amor torna nossa casa florida 

 

69   

no passado cético

sonhei encontrar

alguém como tu

 

no presente poético

te encontro

e te realizo em mim

 

no futuro profético

sonhar e realizar

toda perfeição em ti

 

70

em tese

 

- introdução:

quando vi teus olhos pela primeira vez

já havia me apaixonado por tua voz

aí é que fiquei mesmo perdido

 

- objetivo geral:

agora sei que sem ti

não há a menor possibilidade

de evitar o descontrole do tempo

 

- objetivo específico:

toda felicidade do mundo

é tua e para ti somente 

com respingos em mim

 

71

Chega um tempo em que as lágrimas secam.

As lágrimas de dor, não as de emoção,

que essas têm fonte inesgotável,

brotam da sensibilidade e jorram

pelas artérias subterrâneas do ser,

permitem ao novo amor bater na porta

e o coração aceitá-lo: “- Bem-vindo, amor”.  

 

O amor apeia de seu cavalo preto,

indomável como ele só, longa crina,

que só aceita ser montado em pêlo

por cavaleiro a galope sentimental

por planícies e montanhas, livre e leve

como água evaporando-se no mormaço

e o corpo a recebê-lo: “- A casa é sua, amor”.

 

O amor entra, senta-se, bebe água, suspira...

Não diz palavra, mas seu olhar fala tudo.

O amor desconfia do mundo, severo demais

consigo, temendo as conspirações do sofrer.

Afinal já chorou tanto, mal dormiu,

atravessou rios e desertos em dias e noites

e agora ouve a voz suave: “- Fica comigo, amor”.

 

O amor confessa sua necessidade de estar,

mas carece de tempo para situar-se em solo,

saber-se capaz de proporcionar outro sentir

a quem tanto sofreu e almeja sorrir.

A seu encontro vêm solidão e felicidade.

A primeira tentará convencer de que não,

e a felicidade sorridente lhe dirá: “- Sim, amor”.

 

72

escreve em maiúscula escreve
escreve A M O R essa palavra forte
essa palavra atormentada pelo mundo
resignada plangente serenada
perdurando em corações entrelaçados
metáforamor poéticamor
escreve a m o r escreve
essa palavra MAIÚSCULAMOR

 

73

doçura:
somos
dois
gomos

 

74

peito meu
essa leveza toda só tem uma explicação
talvez ela tirado a blindagem de meu coração

 

75

contigo

meu amor

passeia de mãos dadas
com o futuro

 

76

O amor me ilumina, entre o sol e a noite.
Sentimento que em mim repousa e me faz recolher
ao aconchego de sua essencial natureza.
Amor exigindo cuidados. E calma.
Com suas asas, o amor acolhe meu sono.
Durmo no colo do amor. Um segundo. Muitas horas.
Ele é pleno de surpresas e me encanta.
O amor. Meu amor por ela.
O amor maior que a vida me dá como único.

 

77

no nosso amor
toda lucidez

é louca
toda loucura

é pouca

78

somos dois raios
talvez
conseguíssemos
habitar
o sol

 

79
Teus olhos têm palavras.

Frases de ver/olhar.

Leio amor na visão de mim.

Ouço amor visivelmente.

Amor me vê de retinas claras.

Amor me observa de íris livre.

Se fechas os olhos, anoiteço.

Manso, descanso, alcanço esse par

de infinitos olhos em silêncio.

Abres, e o sol, turbilhão de dizeres

fala por teus olhos, em cores falantes.

Amor me ouve no que falares.

Amor existe se me olhares.

Teus olhos traduzem sentimentos vários.

Olhar de amor, resumo de dicionários.

 

80

Queres sentir com a inteligência

- Mas que falta de sensibilidade...

O amor beira, sim, a demência

Sim, de loucura, de insanidade...

 

O amor é o apogeu da doidice

O absurdo habitando o coração

Se a temeridade não existisse

amar não seria uma irreflexão

 

Sê imprudente, ama, extravasa,

comete a paixão de sofrer da luz

Essa doença obscurece e vaza

entre corpos que se vestem nus.

 

Foge às normas, extravagante,

busque em ti a falta de senso

Tudo é leve para o titubeante

Tudo é pesado para o denso

 

Ama, ama com o pensamento

Ama, sente só com a cabeça

E não será amor sentimento

mas razão que te enlouqueça

 

Ama com toda tua inteligência,

com perspicácia e com agudeza

Teu intelecto ama em essência

e teu coração em profundeza

 

Só que entre o pensar e o sentir,

o raciocínio ágil e a percepção,

se o cérebro ama a lógica de existir,

o coração só quer outro coração

 

81

meu nome

nada significa

ante a ausência

do teu

 

não tenho graça

não sou batizado

não há certidão

nem nasci

 

sou anônimo

inexisto

incógnito

até sem óbito

 

sem apelido

sem referência

me identifico

como um não-ser

 

só teu nome

dá significado

à existência

do meu eu

 

pois nomeias

à minha essência

me denominas e sou

se me chamas meu amor

 

e sendo teu me sinto vivo

me reavivo em ti

minha vida em teu querer

pensando sendo existindo

 

82

respira-te

és todo o ar

se teu peito

ama

 

83

Parasempreamar

Não-amar,

desamar,

malamar,

amargamar,

amartirizar,

amargar.

 

Ou amar,

amaravilhar,

amaramar,

deliciamar,

felicitamar,

viveramar.

 

Amarterra,

céuamar,

maramar.

Amarte,

amarante,

sempreamar.

 

84

erupção

foi só te encontrar
meu inativo coração
se tornou intenso
em louca ativação

 

agora segura o vulcão
e vê se não te esquivas
tu te tornas responsável
por aquilo que ativas

 

85

a

m

o

r

quatro letras

e nenhuma

se repete

 

86

muito prazer

 

conhecer-te é igual
ao que não sei
comparar

 

tua chegada
renova-me
o ar

 

a tua presença
quero em mim
respirar

 

87

variações amorosas

 

eu te amoro
eu te amorfo
eu te amortizo
eu te amoralizo
eu te amorango
eu te amordaço
eu te amorteço
eu te amoreno
eu te amorfanho
eu te amoreco
eu te amorico
eu te amorosidade
eu te amorífico
eu te amorio
eu te amorisco
eu te amorno
eu te amorreado
eu te amortalho
eu te amorrinho
eu te amorsego
eu te amortiço
eu te amorudo
eu te amorzinho
eu te amo

 

88

duas pessoas

 

- fico sem ti
mas não vivo
sem você

 

89

Te amo sempre mais

Te amo mais que ontem

Te amarei amanhã mais que hoje

E depois de amanhã te amarei ainda mais

E o meu amor de anteontem que parecia imenso

será simples perto do que será o de depois de amanhã

que esse nem chegará a ser incomensurável

pois um amor infinitamente crescente

além de não caber inteiramente no peito

extravasa a vida em cristalina enchente

pois esse turbilhão é seu sedento leito

Amor sem fim que só tem nascente

 

90

Se eu deixar de te amar

 

Se eu deixar de te amar, nada de felicidade

a me guiar por caminhos que hei de andar.

Jamais me volte a luz amena da serenidade

se eu deixar de te amar.

 

Fuja-me a clareza azul das manhãs de abril

e todas as nuances livres de meu pensar.

E nada me seja suave ou o delírio febril

se eu deixar de te amar.

 

Em minha cabeça o sangue coagule a dor

de saber-me esquecido e absorto no penar.

Que jamais eu experimente um novo amor

se eu deixar de te amar.

 

Minhas mãos desconhecerão outras carícias

e meu corpo se prostrará já sem lugar

para degustar o êxtase de ausentes delícias

se eu deixar de te amar.

 

Não saberei pronunciar palavras ternas

e nem conjugarei mais o verbo sonhar.

Meu coração viverá em escuras cavernas

se eu deixar de te amar.

 

Meus olhos não contemplarão essa beleza

que é te ver idolatrada sobre meu altar.

E deixarei de ser parte viva da natureza

se eu deixar de te amar.

 

Se eu deixar de te amar, tudo será nada,

a vida perderá sentido e me faltará o ar.

A solidão será companheira enciumada

se eu deixar de te amar.

 

91

Amor sem eira nem beira

 

Te amo silenciosamente às vezes

– para ser exato o ano todo os doze meses

Te amo calmamente de vez em quando

– precisamente se estou em fogo brando

Te amo com benevolência volta e meia

– na medida em que pega na veia

Te amo com dificuldade ocasionalmente

– confuso entre coração e mente

Te amo fragilizado em certas fases

– com curtas e grossas frases

Te amo sofrendo normalmente

– sem saber o que acontece com a gente

Te amo perdidamente quando posso

– pois nosso sonho já não é tão nosso

Te amo com aprofundamento quando dá

– quando queres saber o que é e o que há

Te amo com raiva acidentalmente

– se me feres a alma impiedosamente

Te amo saudável e tranqüilo casualmente

– querendo curar nosso amor dormente

Te amo feito bobo e de jeito fortuito

– e quando é assim não é outro meu intuito

Te amo com lealdade de modo freqüente

– que meu amor se doa a ti fielmente

Te amo sinceramente faça chuva ou faça sol

– e em peito se pode ouvir o canto de um rouxinol

Te amo com fome e sede se dá na telha

– qual pólen virando mel para uma trabalhadeira abelha

Te amo com sacanagens se estou a fim

– sem me importar se o colchão é de espuma ou de capim

Te amo como briguento se a vontade bate

– depende da maneira de como conduzes o embate

Te amo apaixonado e teu eternamente

– numa loucura que deixa Deus pirado inexplicavelmente

 

92

ladainha amorosa

 

amo-te tanto que já é mais que amor

este sentimento de verdade e encanto

o qual acalanto com extremado louvor

e me torna mais leve, sereno e senhor

já é mais que amor este amar-te tanto

 

mais leve por viver um vôo sem temor

tão sereno que nem sei dizer-te quanto

e senhor de um sentir maior que o amor  

mas que é simples e teu e de raro valor

humilíssimo sol de frescor sacrossanto

 

93

um do outro

 

eu estou na minha

ela está na dela

ela aprisionadinha

e eu em sua cela

 

94

amo-te

tanto

que de titã

fiquei tantã

 

95

Poema engraçadinho

 

A graça de amar enche de graça o amor.

Amor que vem de graça e engraçados nos torna.

Amor só tem graça se a ele dermos graças,

porque é graças ao amor que piamente oramos:

“Ave! Cheia de graça!” Como fruto bendito

de um sonho alimentado em estado de graça,

assim é o amor: a própria graça alcançada.

Amar é graciosidade. Amar nos graceja.

Amor nos engraça, enlaça e nos ultrapassa.

Vem de mãos dadas para passeios na praça...

E quem amo só ri. Em tudo acha graça. 

E se a quem amo perguntares: qual tua graça?

obterás como resposta que seu nome é Amor,

pois é em nome do amor que seu ser se revela,

e é por ele que a vida voltou a dar o ar da graça.

E até este poema que era para ser engraçadinho,

quem amo o lerá e suspirante dirá: que gracinha...

 

96

abri a guarda

o amor não falha

só tarda

 

97

o amor

me pegou de jeito

ora na cabeça

ora no peito

ora digo não

ora aceito

acho errado

mas é um direito

ora conserto

não vejo defeito

ora me suga

tiro proveito

ora me deleta

e eu deleito

 

98

- sê paciente

implante bem sucedido

de amor no coração

pesado e medido

em razão e emoção

não é só decisão

é incisão

(como vai sangrar

antes de chorar

muita atenção

e precaução)

 

o êxito

da cirurgia

depende de ti

de tua precisão

com o bisturi

a maestria

da operação

sem dor

pois só o amor

é do amor

anestesia

 

o pós-operatório

satisfatório

é importante

e é processo lento

porque implante

de sentimento

para surtir efeito

requer tudo perfeito

corte cicatrizado no ponto

retire os pontos e pronto

- tu tens amor no peito

 

99 

o amor

empunha

o arco

íris

e lança

flechas

de sete

cores

no ar

 

100

não és uma capuletto

nem moras em verona

mas sou teu amuleto

e te sinto minha dona

somos mais que dueto

em nosso amor cafona

 

és mais linda que julieta

em tua forma de entrega

bem sei que és de veneta

e que nervosa ficas cega

ao teu lado sou careta

vivendo um amor brega

 

vamos manter esse pique

que pro caetano é chic

 

101 

amor tático

amor extático

amor enfático

amor temático

amor automático

amor matemático

amor sintomático

amor apático

amor ártico

amor?

 

102 

deixa-me ser apenas e tão-somente

uma de tuas 60 trilhões de células

és meu nutriente

chegado a energia

és minha pele

meu órgão maior

minha vasta rede vascular

por ti me nutro

respiro

suo

regulo minha temperatura

elimino toxinas

absorvo substâncias da superfície

recebo todos os químicos

levo-os ao sistema nervoso

penso

sinto

gozo

sofro

levo jeito

és meu ar

rarefeito

quero ser uma

de tuas 60 trilhões

de células

 

103

te reporto

te aporto

te exporto

te deporto

te exorto

te importo

te transporto

te conforto

pois só em ti

me suporto

me comporto

 

104 

não pense que eu

estou pensando

que não sou

de pensar

no sentimento

 

sou de sentir

que só sentindo

faz sentido

o amor amar

em pensamento

 

105 

a minha cara metade

mais que 50% de mim

já ocupa a integridade

recomeço entremeio enfim

inteiramente completa

em si fixa-me grande

plena inexata e repleta

resume-me e se expande

 

106 

em meu nome está o teu

nomes se misturam a nomes

e anônimos denominam seres

nomes extraviados de nós

a partir de nossas identidades

resumidas a existir sem fim

nomes de amar que o nome

é amor nomeando o amor

 

107 

ela me cantou

fui no embalo

de sua melodia

agora um dueto

dói a gostosura

de nosso tom

dupla múltipla

acordes e fissura

afinados no som

de nosso ai ai ai

ai que bom

 

108 

deito e rolo

em teu colo

corro e trombo

em teu ombro

embaraço

em teu abraço

sacolejo

com teu beijo

ponho a sonhar

com teu olhar

aninho

em teu carinho

entro em choque

com teu toque

me abalas

quando falas

sou perdigueiro

por teu cheiro

luz e crença

em tua presença

não sou meu

se me queres teu

meu bem aproveite

como um bem aceite

 

109

amar
e se armar
ou
amar
e reclamar
ou
amar
e declarar
ou
amar
e sublimar

110
a m o r   p e l o   c o m p u t a d o r

(sente o toque carinhoso

do teu eu virtual a teclar teclar)

a m o r   n o   c o m p u t a d o r

(serás previsível tirando

de teu kitchat as obviedades)

a m o r   a o   c o m p u t a d o r

(quantos anos como chamas

de onde teclas como és?)

a m o r   e m   c o m p u t a d o r

(com teu nick entras nas salas

e reservadamente falas)

a m o r   d e   c o m p u t a d o r

(por idade por cidade

por assunto por carência solidão)

a m o r   e   c o m p u t a d o r

(por e-mail telefone sem mentiras

eis a foto scaneada da verdade )

olhos corações mentes monitor

 

111

eu te amo

 

é clichê

mas me ganha me assanha

sem quê nem porquê

 

é frase feita

mas é dito e feito com efeito

e tudo em mim a aceita

 

é lugar comum

mas a paixão cega não a renega

e não vê problema algum

 

é banal

mas tudo se assume e se resume

enfim no etc e tal

 

é chavão

mas tem a exata medida na vida

para abrir meu coração

 

112 

eu calmo

ela urgente

ela árvore

eu semente

eu aqui

ela ausente

ela só

eu somente

 

113

flor

de uma só

pétala

eu sem nós

 

sol

de um raio

somente

nós sem tu

 

centopéia

de um único

nós sem nós

 

114

em ti

sou

singular

contigo

estou

plural

uno

dual

 

115

se és
uma romântica
cheia de ilusão
e sentimental

o teu coração
com toda razão
quer uma atenção
muito especial

com força moral
te pede o favor
não confundir amor
com distúrbio mental

 

116

vou compor
outra de amor

procura-se parceira

sou new age
e quero rock pauleira

 

117  

teu coração há
meu coração é

e é teu
o que há
no meu

meu coração
mais teu coração
coração são

 

118

tendo amor

ame

sendo amada

 

tendo amada

ame

sendo amor

 

tendo

ame

ame

sendo

 

119

AH!MOR

 

Fui rimar amor com flor

a flor era uma rosa

e rosa é flor perigosa

murcha à-toa a melindrosa

- me espinhei

 

Fui rimar amor com dor

a dor era dourada

da cor de uma jazida

preciosa mais que a vida