JUNHO DE 2006

quarta-feira, 28 de junho

Abrir meu coração, não abro.

Ainda não estou preparado.

Tudo que nele trago,

para ser melhor preservado,

deve ser conservado

hermeticamente fechado,

sem senha, bem segredado.

 

Não, não se atreva

a correr atrás do tempo

que não possuis.

É o tempo que te leva

em compasso de pensamento,

na velocidade da luz.

 

Sozinha, ela se debruça, soluça,

sente maior o incompleto de seu ser.

Anda pela casa quilômetros de agonia

e incômoda se perde pelos cômodos,

tromba com móveis, não abre cortinas,

tranca portas, não rega plantas, tevê não vê,

música não ouve, convive com o desassossego,

em nada se concentra, a nada mais tem apego.

Ela já se não se comporta, não se suporta,

se corta com lembranças, reabre cicatrizes,

convive com pensar e sentir infelizes.

Ela só quer saber de dormir, ficar quieta.

Mas não dá conta, sente-se tonta, sem meta.

Sequer consegue riscar uma linha reta.

 

Meu medo de amar te assusta.

Teu susto mais me amedronta.

Sei bem o quanto me custa

assumir que se não estou

também tu não estás pronta.

Mas dividir isso de forma justa,

é difícil demais da conta.

 

Queres monopolizar minha atenção?

Queres todo o foco de meu olhar?

Minha exclusividade sem restrição?

E de mim para ti tudo polarizar?

Então nunca me digas: - Não!

E inteligente sempre: - Vou pensar.

 

sexta-feira, 23 de junho

                               republicando a pedidos

Ainda não te conheço,

mas a ti serei apresentado.

Então direi:

- muito prazer,

que bom ter te encontrado

(estou encantado!)

Não te busquei

e nem tava sendo procurado.

Coincidência? Providência?

Conspiração do acaso?

Sorte ou destino traçado?

Respostas não terei,

e então só saberei,

que nós dois sozinhos

será coisa do passado.

 

Tenho curiosidades a teu respeito
Muitas tantas (todas!)
Penso em ti na intimidade
- nem respiro
Imagino-te no banho
- perco o ar
O instante em que prendes os cabelos
Enquanto passas cremes no corpo
Na hora em que te deitas
Teus pensamentos inconfessáveis
A serenidade com que ouves falas e lês
Quando pões aquele vestidinho de ficar em casa
e o jeito perfeito com que ajeitas as alcinhas
Existes e eu te sonho – Sonho de minhas noites
Como és? Quem és? Alguém te tem?
E eu tenho chances? Vês que eu te olho?
Sobre ti quero saber tudo
Infindáveis perguntas
– Incontáveis e urgentes
E a verdade é uma só:
- Sou o amigo que te deseja
O macho que te cobiça mulher
E que assim seja
haja o que houver

 

Quero um amor. Alguém para amar.
Com simplicidade. Ternura no olhar.
Que seja sincera. E me queira seu par.
Aberta ao diálogo. A fim de sonhar.
Amiga serena. Me respire em seu ar.
Seja só emoção. Não me faça chorar.

 

Quero um amor. Alguém para amar.
Com alegria. Segurança ao se dar.
Que pense em mim. Vá me inspirar.
Que corra o risco. E me veja arriscar.
Senhora de si. Mas sem me anular.
Se dê por inteiro. A se completar.

 

Quero um amor. Alguém para amar.
Com desprendimento. Musa ao luar.
Um sol de mulher. Aqueça a brilhar.
Se queira feliz. Que se deixe levar.
Sorrindo me abrace. Até desmaiar.
E leve se sinta. E ande a levitar.

 

Quero um amor. Alguém para amar.
Fêmea na cama. Extrema ao gozar.
Plena de luz. Meu céu, terra e mar.
Silêncio que fale. E me deixe calar.
Que se sinta eterna. A me eternizar.
Amada, adorada. Fome e manjar.

 

sábado, 17 de junho

Nada posso pedir-te

senão a graça

de dar-me a ti

para que teu seja

este que não te tem

e que tanto te deseja

como único e grande bem

 

Eu jamais entenderei,

oh! pátria da mamata,

teu excêntrico cinismo

sem autocrítica.

Faz andar nu teu rei

(e não de terno e gravata)

no campo de nudismo

de tua política.

 

O amor? Amor o que é?

- Amor é questão de fé.

Piamente, qual a de José

na virgem de Nazaré

engravidada por Javé.

- Amor dá pé, pontapé.

Não larga se pega no pé,

feito bola no pé de Pelé

na hora do gol e do olé.

- Amor é cheque pré.

Pagando por cafuné

à picante dama de cabaré

que faz de pica picolé.

Nota de rodapé: o amor é

o que é como é.

 

Quero te amar a meu modo.

Eu todo – sem engodo.

Eu sempre – fogo sob a trempe.

Eu macho – de alto facho.

Eu sensível – melhor impossível.

Eu menino – ávido desatino.

Eu febril – noites a mil.

Eu glutão – insaciável tesão.

Eu – teu.

Quero te amar do meu jeito.

Eu perfeito – sol no leito.

Eu assim – muito a fim.

Eu fogoso – potro garboso.

Eu parceiro – grande, inteiro.

Eu escravo – cavo, gravo, cravo.

Eu senhor – tronco torturador.

Eu pavio – inflamável cio.

Eu – teu.

 

Dentro do vazio há,

por preencher,

a imaginação,

o todonada.

 

Esvaziar-se,

até se esvair.

Expurgar-se,

no pensar.

Evaporar-se,

desistir.

Sublimar-se,

inexistir.

Eis a catarse

do sentir.

 

Amei-a.

Palavra.

- Basta!

 

Palavras correm soltas

escritas a lápis

a tinta

a sangue

a carvão

a giz

E na língua solta

que tudo diz

 

Ouvi

dias atrás

um cego cantando

Bette Davis eyes

Depois não o vi

mais

 

sexta-feira, 16 de junho

Acaso conheces de meu coração

suas aurículas e ventrículos?

E de seus ritmados movimentos

de diástole e sístole,

o que sabes tu?

Se nem idéia fazes do que sejam

aurículas e ventrículos,

diástole e sístole,

como ousas querer habitar

meu órgão muscular?

Ao invadí-lo na cavidade torácica,

o ajudarias meu sangue bombear?

Se achas que amá-lo é só dificuldade,

saibas que essa é só uma parte.

Ainda não calculas a responsabilidade

(aliás, a verdadeira arte)

que é cuidar de sua sensibilidade.

Meu coração só é dado a romances

com quem conhece suas nuances.

 

quinta-feira, 15 de junho

Formiga na formiga

desejos de cantar.

Mas na fábula

seu desejo esbarra:

- Quem quando deseja canta

é cigarra.

 

- Aquela bola no céu

é a lua ou o sol?

 - Não sei,

não sou daqui.

 

Como velozmente vinha

a coisa descarrilou

qual trem no fim de linha.

Virei só um vagão

no eu dela sozinha.

Busca nova estação

o eu na minha.

 

segunda-feira, 12 de junho

A liberdade em ti ative.

Livre se vive.

De viver não se prive.

De sonhar inclusive.

Livre livre livre.

 

Juntos

silenciamos

assuntos

desconversados.

Vamos

relevando

ambos

irrevelados.

Sempre

discordamos.

Ficamos

contrariados.

Dois

desencantados

sonhamos

desacordados.

Estamos

entendidos

vivemos

entediados.

Mesmo

desgostando

somos

enamorados

ou ex-namorados?

 

domingo, 11 de junho

Encandesce. Dilui-te. Sobrepuja.

Alma líquida. Afoga-te nos íntimos.

Condensa noites no arrebol.

Circunda-me de aromas, oh! Sol.

 

Em ti meu habitat.

Sou teu hóspede

e alicerce.

Proteção ergue-se.

Re

des

cubro-

te.

 

De concreto

areia

cimento

vergalhão.

Ereto

nada arreia

o instrumento

do tesão.

 

Uma gotícula de sangue

na neve

sobre a calçada

do prédio em frente

o Central Park.

Que frio, John.

Eu me lembro

(a lembrança atormenta):

noite de 8 de dezembro

de 1980.

 

Se confiasse,

confidenciaria.

Mas se falasse

transgrediria

o incurável medo

de contar segredo.

Reservado,

mantém-se calado

o desconfiado

intimista

intimidado.

 

sexta-feira, 9 de junho

Atirei um pau no gato,

mas o gato não morreu.

O pau que catei no mato

a cupinzada roeu.

Era, sem tirar nem pôr

leve feito isopor.

O gato riu feito louco,

se achando anjo barroco

ou santinho do pau oco.

 

Água mole,

em pedra,

dura.

Água,

molhe,

e à pedra fura.

 

Que sua vida seja um culto

a tudo de belo e bom, viu?!

Mantenha-se esse adulto

infantil.

E jamais perca a esperança,

(a esperança a tudo exulta).

Seja sempre essa criança

adulta.

 

Pensei comigo.

Preciso pensar mais.

Meu pensamento está só.

Eu penso mais que sinto.

Estou pensando em mudar.

Ela ainda pensa em mim?

Pensou muito para responder.

Eu pensava que não.

Por que sou tão pensativo?

Sou mesmo pesamenteiro.

Em tudo pensamenteio.

Tenho pensado nisso.

 

Além do que já perdi

não preciso de nada.

Ou seja, de ti.

 

Não pronuncie,

sequer balbucie

meu nome.

Apenas pense,

silenciosamente

e em segredo

para sempre

incomunicável,

intraduzível,

irrevelável.

 

Para não perder, jamais aposto.

De tanto sofrer, por quase morrer,

de vida me aposso, à vida endosso.

Se não posso ser, sou quem posso.

Gosto de fazer o que gosto.

De agora me ter não mais vosso.

De egoísta dizer: meu! Não nosso.

 

Foi-se o tempo

(e tanto tempo tem),

em que eu

tendo alguém

não tinha para mais ninguém.

Hoje o tempo é de ir-

e-vir.

Agora o tempo é de vai-

e-vem.

Tempo de cem,

de mil,

de harém.

Ou (também, se me convém)

de passar muito bem

sem.

 

Que mania

de se ver

em minha poesia.

Que pretensão

se achar

em minha inspiração.

Que ousadia

querer imaginar

que para ti escreveria.

Com as devidas escusas

não nego e confesso:

são tantas as musas.

Todas, como tu,

assim confusas.

Querendo ser as fontes

a jorrar meus versos

sempre, aos montes.

Vivo no ar, em enlevo,

toda beleza me inspira.

Então pára de pensar

que é para ti que escrevo.

Ao me ler,

vê se não mais suspira.

Já tiveste tal poder,

mas agora, não delira.

 

quarta-feira, 7 de junho

Lágrimas não derrame.

Derrame palavras. Se veja.

Se tenha. Se dê. Se chame.

Pronuncie o próprio nome.

Amicissimamente se ame,

se ame, se ame, se ame.

 

Melhor terapia não há que te abraçar.

Fechamos asas para voar.

E no espaço de nossos braços

nos aninhamos no ar.

 

Navegam desejos em tua sequidão.

Já são áridas tuas carícias. Sedenta és.

Teu corpo é Saara, fêmea desértica.

Vejo-te Sol. Campo de sal. Fogo azul.

O futuro há de ter corpo de chuva.

 

Dá saudade. Saudade há.

Saudade sim. Saudade já.

Saudade só. Saudade má.

Saudade vem. Saudade não.

Saudade vil. Saudade vã.

Saudade sei. Saudade sou.

Há saudade. Saudade dá.

 

Não me diga.

Não me silencie.

Olhe para mim.

Veja o que falo.

Ouça com os olhos.

Percebe agora?

 

Não te penso mais

como sentia.

Não mais te sinto

como pensava.

Antes eu ia, te esperava.

A poesia rebrotava.

Eu queria, sonhava,

permitia, me dava.

Insistia, implorava.

Sofria, doía, curava.

Persistia, me iludia.

Mas eu sabia que um dia

isso passaria. Ah, passaria.

Que quem te amava sobreviveria.

 

terça-feira, 6 de junho

Ponto de ônibus.

Madrugada fria.

Sonâmbulos embarcam.

 

Estou indo. Vou lá.

Mas não me espere.

Que muitas vezes fui

e até hoje não cheguei.

Adio sempre. Para sempre adios.

 

Ontem à noite eram (estavam) tão belas.

Mas, sem maquiagem a verdade amanhece,

a realidade acorda, a luz exata do dia

entra por todas as frestas e janelas.

Agora é que são elas.

 

Sábio é o tolo

que tolo é

e tolo se sabe ser

sem pesar ou dolo.

 

Quantas ruas tem a cidade?

Tantas, que todo caminhar é pouco.

Os passos por elas não seguem.

Assim não levam a lugar algum.

Ruas desnecessárias, desnorteadas.

Ruas da cidade que é só imaginação.

 

Não me procure em meus versos,

que de mim só têm o fato de serem tão dispersos

quanto eu. Não me encontrarás aqui.

Eu mesmo não me sei desde que de mim me perdi.

 

Dou nomes à chuva.

E nenhum com ela se parece.

Não lhes caem como luva.

A chuva passa. Esquece.

Anônima, a chuva agradece.

 

sexta-feira, 2 de junho

Em razão contrária

tenho minh’anti-

visão binária:

certo errado

preto branco

um dois

aqui lá

bom ruim

belo feio

sim não

tudo nada

dentro fora

Estou em mim

só comigo

Ser unitário

Solitário ser

Viver vário

Eu e meu

múltiplo modo

de ver

meu eu

 

O sol

é o sol de sempre

o mesmo brilho

com seu rebrilho

O sol

é o estribilho

de inaudíveis tons

luzes cores e sons

 

Esqueça tudo, mas sem odiar,

que nem há motivo para tanto.

O melhor a fazer é ignorar,

estancar os efeitos do desencanto.

Deixa a decepção extravasar

em forma de silêncio e pranto.

Outro dia sempre vem, e a brilhar

o sol inspira um novo canto.

Sustenta essa dor sem desabar;

sua agonia dura só por enquanto.

Tudo passa. A aflição há de cessar.

Faça da serenidade um acalanto.

 

Vai fundo

no oco do mundo.

Cada dia cava um pouco,

da cova para o viver

aspirante a defunto.

 

Pagou micos e sapos.

Deu a cara a tapa.

Ganhou muitos sopapos.

 

Well come

ao beleléu:

- My home.<