Maio de 2006

quarta-feira, 31 de maio

Digitas, teclas, escreves.

Letras nas pontas dos dedos.

Palavras a te traduzir, revelam

impressões com tuas digitais.

 

O poema aguardado não veio.

Espero há anos por este poema.

Se oculta, foge de mim, inexiste?

Quero o poema que ainda não fiz.

Ao escrevê-lo sugarei sua força.

Por que razão o anseio assim?

Sua falta mais me incompleta.

É tão urgente e demora tanto.

Quero o poema. O poema quero.

O poema que há muito espero.

 

Não me dou por satisfeito.

Não me sinto realizado.

Nada me é suficiente.

Mas como sou me aceito.

Tenho em mim me aprofundado.

Sem pressa me faço urgente.

 

Fim pode ser reinício

de algo não mais a fim.

Partindo do princípio,

entre resquício e indício

entre afinal e enfim,

fica finalmente isso:

fim nem sempre é fim.

 

Em algo que eu diga

talvez até me contradiga

ou alguém me desdiga.

Mas, no que sinto,

nisso nunca minto.

 

Anti-Midas,

tudo que toco

nada vira.

 

Há uma rua em que não caminhas.

Ela em ti se vai, seguindo-te.

Desde antes dos desencontros,

agora intransitáveis. Rua sem rumo.

Rua de ritmo. Rua de idas lindas.

Rua de vindas vividas. Rua do íntimo.

Rua que se fosse minha, tua seria.

Rua onde se anda para sempre chegar.

Rua que Godiva nua deu de cavalgar.

Rua do tempo. Rua dali. Rua de lá.

Rua reta. Rua curva. Rua íngreme. Única.

Rua sem nome. Rua de qualquer lugar.

 

Não te amo nem mais,

nem menos.

Nem te amo

mais ou menos.

Nem morno,

nem quente,

só não amo, simples

mente.

 

Alma tem olhos

Ohos de ver dentro

Abismos do eu

Cumes do outro

Superfícies de ti

Planícies de mim

 

Imensidão azul

Conter-te céu

Verter-te mar

Ter-te ar

Azul ser

Luz de mim

Azul sem fim

 

Respire, respire, respire

que respirar bem é u’a arte.

Respire fundo e se admire,

no vazio arejado se atire.

O ar só quer purificar-te.

No pensar se adquire

o sentir fazendo parte.

 

Vai saber?

Aliás,ou seja, talvez.

Quem sabe.

Ou não, ou melhor, porque

não há mesmo porque

se tudo tem nada a ver.

 

Escreva um diário.

No futuro releia o passado.

Será teu confessionário,

registro e relicário.

Depositário não de culpas,

mas de um Eu exorcizado.

 

Não sabe do mar uma gota.

Não sabe da praia um grão.

Não sabe do céu uma estrela.

Não sabe do sol um raio.

Não sabe do livro uma página.

Não sabe do piano uma tecla.

Não sabe da flor um pólen.

Não sabe da missa a metade.

Como quer saber de mim,

se lhe falta sensibilidade?

Não para saber de minh’alma,

mas para se ver na poesia

como minha cara metade.

 

Tempo tic

Tempo tac

Passa o tempo

tic-tac

Passatempo

Olha a hora

Tic-tac

Tic-tac

Ponteirinho

e ponteirão

Tic hora

Tac minuto

Sem demora

chegue o tempo

de nossa felicidade

Tic-tac

Tic-tac

Um segundo

de eternidade

 

Ser toda em um todo: tente!

Enquanto, durante e sempre.

Única, simples, exatamente.

Tu, contigo, em ti, presente.

Agora, já, aqui, urgente.

Tato, coração, fígado, mente.

Tudo ser em si, simplesmente.

 

No teu jogo de espelhos

tu te deformas.

Tua imagem tem mil formas,

há reflexos reais

do que és, como estás.

Não te olho, não te vejo

e já nem te sinto mais.

Mas só agora percebo,

no teu jogo de espelhos

nuas nuanças por trás,

do que podes ser capaz.

 

segunda-feira, 29 de maio

Cega, desmedida, compulsiva,

em altos e baixos se bipolariza.

E oscilante, ora dócil, ora bílis,

agressiva, impulsiva, obsessiva,

me deixa, me esquece, me livra,

me morde, me assopra, ora viva.

E sóbria por dias segue a trilha

de sua contagem depressiva.

 

Quando ela

se conecta,

eu sou fio terra.

 

Se fui?

Já estou

lá.

 

Ouça.

Não viu?

Tenta,

moça desatenta.

Sentiu?

 

Podes escrever certo,

mas as linhas das mãos

são tortas.

 

Comendo maçã,

de uma só dentada

plagia o pecado original.

Convido-a ao paraíso.

Ela me proíbe.

 

Deu a mão à palmatória.

Deu a mão ao oratório.

Deu a mão à ejaculatória.

Deu a mão ao lavatório.

 

Novo endereço:

estou em mim,

vivendo comigo

e meus eus

antes teus.

 

Para o desjejum

desej

um

 

Recuse o erro.

Acuse-o.

Use-o contra.

E abuse

errando

errante

errôneo

errático

erradio.

Sem errata.

 

Nós e nossas

confeitarias imaginárias.

A dela, de sonhos.

A minha, suspiros.

Tão doce viver,

tão simples gostar,

guloseimas d’amor.

Iguarias iguais

não há.

 

Pegue a fita métrica.

Meça o poema.

O máximo no mínimo.

Quantos centímetros tem?

É para mais de metro?

Não o entender,

mas o emocionar-se.

 

domingo, 28 de maio

Eu só sei que o que sei

nada é,

não dá pé,

nunca é o que parece,

nada diz ou esclarece,

nem mesmo à luz da fé.

Sendo ético

(e cético),

mais que mera explicação

o saber exige aplicação,

pois a ciência pura e simples

é de impotente atuação,

é ignorante erudição

a ilustrar o sabichão.

 

- Para o aeroporto urgente.

Vou sair pela tangente.

 

Quase socrático

(e pragmático),

indago sem conclusão:

- Se só sei que nada sei,

que experiência viverei:

do não-saber sem ação?

E não-sabendo, terei

livre-arbítrio ou razão?

O eu baconiano

(ou shakespereano),

lança outra reflexão:

- Penso: logo existirei.

Se nada sei, por que serei

o ser-não-ser em questão?

 

- Toca para a rodoviária.

Vou vazar na braquiária.

 

Há uma árvore genea-

lógica de fruto único:

- o da imaginação.

 

Há senha para isto,

usuário:

penso, loguin,

existo,

sou vário.

 

sábado, 27 de maio

Amei-te à primeira vista.

Cantei-te ao pé do ouvido.

Linda flor que eu cheiro.

Gosto de ti que dá gosto.

Desde que te peguei

em todos os sentidos.

 

Nosso sexo:

eu todo em ti

e tudo anexo.

 

Nunca e sempre:

tu e eu

e a separação entre.

 

sexta-feira, 26 de maio

Tem

uma coisa boa

em

uma coisa à-toa

que não destoa nem.

Uma coisa que soa

bem.

Uma coisa meio loa

zen.

Uma coisa que ecoa vem.

Essa coisa é um trem.

 

Céu vazio.

Éden frio.

Adão adio.

Eva crio.

Eu vadio.

Ela cio.

Dio mio.

 

Em Luanda

a Lua

anda

(flutua)

nua

e branda.

Aí estua

e pálida

desanda

grávida

numa cafua

d’África.

 

Ah, o vaga-lume:

ora aceso ora apagado,

só assim se assume.

 

Por mais distante que estejas,

que tu sejas

parte de mim.

Porque ainda que te ausentes,

tu te sentes

assim.

 

Mais que puro flerte,

realizo-me no sonho

de ainda pertencer-te.

 

Sou de lua.

Um doido de pedra

que avua.

 

Com o branco brinco.

Escrevo, risco,

desenho, rabisco,

coloro, pinto.

O branco fica um brinco.

O branco que era branco

e limpo.

 

Se queres do amor

o amar melhor

com lealdade,

ama,

que do amor amarás

só o bem e a bondade.

Se queres o amar

do amor maior

com leveza,

ama,

que ao amares teu amor

transbordarás em grandeza.

 

Sangra luz.

Bateu com a cabeça

na ponta

de uma estrela.

 

Multifacetado estás?

Estilhaços és?

Fragmentos de ti?

Te sentes em pedaços?

Apenas em partes?

Ora, então vá te catar.

 

Quem tem ouvidos

que ouça,

como jamais desafina

o duo sentir-pensar

da silenciosa maestrina.

 

De ti escorre luz.

Vaza por todos os poros.

Frestas multicores teu corpo.

Banha-me de iluminações.

Raios espargindo claridades.

Tuas são todas as tonalidades.

 

Único

(e último)

decreto:

ou vegeto

ou te deleto.

 

Descansa

tua auto-estima

à sombra

de um bonsai.

 

Casamento

de poeta e musa:

- Até que a rima

vos separe.

 

Corta de vez

esse teu ciúme,

que ele é faca

só gume.

 

Sinto muito,

mas não penso.

Porque pensar

é sofrido sentir.

 

Não passo

de um verso livre.

Claro,

tenho meu ritmo.

 

- Quer coisa

mais antiga?

A semana

da arte moderna.

 

A carne é fraca.

A da gente.

Não a de vaca.

 

Veni,

vici

e vidi

verso.

 

Velho Bashô mergulhou

na memória ram.

A placa-mãe fez ploc!

 

Esse caminho é de não chegar.

De não ir são esses passos.

Nada a lugar nenhum vai.

Sempre adiado o encontro.

Seres que ainda nascerão

saúdam os que já morreram.

 

Costuma dizer o coveiro

da pá virada:

- A vida se encerra

exata e só,

afinal.

Na terra se enterra

em barro, pó

e cal.

 

Eleitor, se manque.

Sem essa de acreditar

em mentira de palanque.

 

No abismo

dentro do abismo

bis

 

Ainda que atires

para o ar,

atiras para matar.

Matas, no vazio,

a ausência

do que ansiavas

acertar.

 

Ao fim do dia,

quando chegas em casa

te sentindo um bagaço,

serve a todos o doce caldo

de teu suor.

 

quarta-feira, 17 de maio

      

Arrastando correntes pela casa

                 p/ aqueles que ainda insistem em uma relação sem amor.

Sobre o amor conjecturam,

propõem-se a conceituá-lo.

Por seu reino se aventuram,

amar para sempre juram,

desabam ao primeiro abalo.

(Solidão a dois inauguram,

cessam do amor o badalo).

Se ambos já não se aturam,

nem às ofensas censuram;

o amor passa a ser um calo.

 

Não se toleram. Murmuram:

- Só de olhar já te apunhalo.

- Se não me ouves nem falo.

Um ao outro se esconjuram,

um ao outro se caricaturam:

- A mim tratas como cavalo.

- Na cama és igual um galo.

E, indiferentes, se saturam:

- Quase mágoa é o que exalo.

- A dor é flor que despetalo.

 

Da insanidade não se curam:

- Meu sol por ti não regalo.

- À beira da loucura resvalo.

À auto-estima enclausuram,

deserto interior emolduram:

- A um nada de nada igualo.

- À gélida montanha escalo.

Acorrentados se torturam:

- No tronco, escrava instalo.

- Da masmorra sou vassalo.

 

É essa a onda que seguram

e o amor vai nesse embalo.

Insistindo só se amarguram.

Sofrem, o tempo que duram,

a infelicidade sem intervalo.

O original do amor rasuram,

bebendo o fel no gargalo.

Sem amor se desfiguram,

às suas amarguras supuram

e a vida assim vai pro ralo.

 

terça-feira, 16 de maio

...E finalmente

resolveste me soltar...

...em tua corrente

de ar...

 

Quando toca os alvéolos

dos favos e pétalas

de seu feminino céu,

ela líquida se deleita

e uma chuva de néctar

enche seu pote de mel.

 

Vou te esculpir.

Dom não tenho

para desenho.

 

Meu mote,

amor,

é amo-te.

 

A arte da arquiteta,

é dar nova estrutura ao poeta,

contornando seus traços,

criando e organizando espaços

em seus edificantes amassos.

 

Já a ciência da psicóloga,

é pôr o poeta em voga,

para que seu comportamento,

no estágio de sentimento

seja de psíquico agarramento.

 

Uma, ao poeta dá forma.

Outra, ao poeta transforma.

E nas mãos de ambas,

em arte-ciência louca,

o poeta de pernas bambas

traz o coração na boca.

 

segunda-feira, 15 de maio

Por que o receio da luz?

Sua luminosidade cega?

Ao teu eu não traduz?

Confessa! Não nega:

é só o breu que seduz

à tua secreta entrega?

 

Uma rosa

(flor da roseira)

é uma rosa

(de aromas e cores)

é uma rosa

(de espinhos e pétalas)

é uma rosa

(de tuas faces rosadas)

 

Simples ser

Deixa brotar asas

Minha imensidão te convida

Prepara-te para vôos sem fim em mim

 

Não te amo

Não sei amar

Não dou amor

Desalmado

ando armado

com minh’armadura

de amador

 

De nada

Por nada

Que nada

N d a

 

Ela veio pé no freio

Ela está lá e cá

Ela vai no entra-e-sai

Ela faz seu leva-e-traz

Ela é dela e não dá trela

Ela é bela estou na dela

Ela vem com tudo e tem

Ela é sim a fim de mim

 

domingo, 14 de maio

Mãe tempera a salada.

Folhas de alface, rodelas de tomate,

azeite, vinagre, sal...

- É assim que seu pai gosta,

ela diz.

O amor satisfaz o gosto...

Pai chega do trabalho, toma banho,

janta, anda de um lado pra outro,

vai dormir.

Mãe ainda fica na cozinha.

Ensaboando, enxaguando, enxugando.

Tão concentrada em afazeres.

Tão esquecida de prazeres.

 

sexta-feira, 12 de maio

Psiu!

Para olhar

e silenciar,

viu?!.

 

Amar:

encontro das águas

restinga

Desamar:

divisor de águas

caatinga

 

Foi ao acaso

que por acaso

nos encontramos.

Coincidência?

Destino?

Divina providência?

Não vem ao caso

(fizeste pouco caso)

só nos vimos,

não nos falamos.

 

Na vida é bom sonhar

O bom do sonho é viver

Eu sonho te encontrar

contigo ser e estar

em meu ser realizar

o sonho de um dia te ter

 

Eu não existo. Nunca existi.

Eu não sou. Eu não estou.

Este escrito não há para se ler.

Cabe à visão a missão de ver

os frutos permitidos à imaginação,

pois tudo não passa de nada e não.

Deus? Não será Deus pura ficção?

 

Ela me escreveu:

“Entre nós não ouve química”.

Respondi:

“Em parte por conta de teu português”.

 

Na gota de orvalho a pingar,

a minha irmãzinha Guiomar.

 

De estrela em estrela, ei-la:

minh'outra irmãzinha Leila.

 

Acolhem, sob asas de brisa

Ana Paula e Maria Luíza.

 

Nas duas filhas e nas filhas

de tuas filhas tu brilhas,

 

ó minha mãezinha infinita,

incansável Dona Lenita.

 

Só de saber-me em mim, teu,

maior que agora, ora em diante

melhor, sempre, de ti sendo eu,

dando-te, tendo-me, constante.

 

E por teu querer sou e serei

mais e mais e mais e mais,

não pelo que tive e a ti não dei,

e não tendo, dar-te fui incapaz.

 

E sim por tudo que me possuis,

um teu menino homem maduro.

Pequeno, mínimo, réstia de luz

almejando sol ser em teu futuro.

 

quinta-feira, 11 de maio

Sua alma tem ouvidos, criatura? Que então ouça estas duas canções...

http://www.ocaixote.com.br/lyrical/LyricalJazz_MyFunnyValentine.mp3

http://www.cantinhodaternura.net/musica/anacaram/amorempaz.mid

 

domingo, 7 de maio

Não te amo tanto quanto

te amaria mais que tudo

em todo e qualquer canto

até sobre o criado mudo

Te amar com ar de santo

com jeito mal e sisudo

Teu amor é por enquanto

ao teu amor não iludo

 

Em todos os  lugares

cães ladram

No planeta todo

abanam rabos

farejam rosnam

não mordem

Cães com caravanas passam

Cães a caravanas guiam

 

Lágrima

no olhar

molhar

 

Carente de cara metade

tenho cara de mim

(faço cara de fome)

dou de cara comigo

sou um cara sem face

(fome de ti minha cara)

 

Não subo

nem ao subsolo vou

mas sobre sob

sou-estou

 

sábado, 6 de maio

Não me sinto mais

como já me senti

(e tanto tempo faz

que o sentir perdi).

Sentimento passado

ficou despercebido.

Anda desligado

no olvido.

Pensando tenho sentido.

Sentindo tenho pensado.

Estou ártico, catártico.

No automático vou.

Menos apático sou.

Já não me sinto mais

sem ti.

 

Ela chorou.

- Sorry.

 

Bem feito.

Quem mandou escolher

a torto e a direito?

 

Ação

causa

reação

efeito

 

Pretensiosos, os ateus

querem uma acareação

com Deus.

 

Sê

ante

ontem

e

ama

nhã

 

Amar-te

com camisa

de Vênus

 

DE

DEUS

DEU

   EU

   E

   EUS

 

Morreu antes

o suicida

matando em si

a vida

 

Até aqui

nos ajudou

o Sr.

Agora nós

é que

se vire.

 

Para que não doa

(doer para quê?):

do-in.

 

sexta-feira, 5 de maio

Descomplica.

Não implica.

Simplifica.

Fica.

 

Errante entre estrelas,

tropecei em suas pontas.

Perdi a conta de quantas

fui buscar para enfeitar-te.

Voltei de mãos vazias.

As estrelas são frias.

 

Essa noite

te darei um colar

de vaga-lumes.

Ou preferes

um mosaico

feito de fases

da Lua?

 

Eva levada.

Erva daninha

no Jardim

(não de Adão)

do Éden.

 

Em si

nua

insinua

se

 

Estou

e vou bem,

obrigado.

Obrigado de reconhecido

ou forçado?

É de agradecido ou de compelido

meu obrigado?

 

quarta-feira, 3 de maio

Recompõe sem-fim as partes de teu eu.

E, como um todo, se dê por inteiro.

Não a outrem, primeiro a ti, a ti somente.

Que em ti está a necessidade maior de ti mesmo.

Depois, quando tiveres em ti a certeza

de toda a substância de tua essência;

quando te perceberes infinitamente maior

que tua soberba e usura, tua gula e raiva.

 

Quando ouvires a simplicidade te chamando

para o despojamento da miséria humana;

quando te deparares entre homens sem fome

dispensando banquetes, esnobando a fartura,

de olhos baixos e em silêncio caminhe sem rumo,

buscando o topo de uma montanha erma e silente,

até te encontrares contigo, tu de ti desconhecido,

longe, ausente, humilde, sensato e sensível.

 

Então flores do campo e pássaros do céu

farão em alvoroço um sermão inaudível.

Ao te sentires bem-aventurado e convicto,

doe-se, mas não pelas beiradas, não pelas metades,

não de qualquer jeito e nem para quem não mereça.

Dá de ti a naturalidade de tua luz e carisma,

o teu espontâneo brilho interior há muito oculto.

Oferece aos que não te conhecem (e aos demais)

aquilo que em ti ainda são incapazes de compreender.

 

Entrega teu eu para que dele façam migalhas.

Fica só contigo, sossegado, absorto, em paz.

Nada és agora a não ser pó ao vento constante

da montanha que tu, eremita, agora habita.  

Mas se te procurar nesse horizonte longínquo

a intrusa Musa, se dizendo senhora de teu destino,

não demonstres incômodo e nenhum desatino,

estende a tua mão abnegada de bens e afagos,

antes para um aperto fraterno de bem-vinda sejas,

depois para o adeus para sempre, que mais desejas.

 

terça-feira, 2 de maio

Afetuoso te beijo

no queixo, na testa,

nas faces também.

Com todo respeito

beijo tuas mãos,

o chão onde pisas

e até os teus pés.

Beijo tua cabeça,

cheiro teus cabelos,

neles me perco,

suspiros sem-fim.

De olhos fechados

beijo teus olhos

e me vejo sonhar.

E não, não é pouca

a vontade louca

de beijar-te a boca,

teus lábios morder.

Tua boca não beijo,

pois és só amiga,

é tanto o encanto,

em mim tu confias,

não posso não devo

esse risco correr,

pôr tudo a perder.

Não tens namorado,

sou-estou sozinho,

mas nossa amizade

em tudo e por tudo

é superior.

Tu enternecida,

linda e suave,

sorris inocente,

com leve frescor.

Eu quase sem-ar,

meio encabulado

tento disfarçar

qualquer intenção.

A mão espalmada

levas aos lábios

e qual uma fada

a enche de brisas,

mil raios de sol,

hálito de emoção.

E sorrindo me dizes,

roçando em meu peito

tua mágica mão:

"Com minh'amizade

e grata ternura

receba este beijo

que dou com doçura

em teu coração".

 

segunda-feira, 1º de maio

Vê se agasalha,

mas ao teu eu

abre e orvalha.

Em ti ameniza

o eu absoluto

ao ir pela brisa.

Sê só e pleno.

Teu eu-escudo

se faça sereno.

 

Da partitura

uma nota se solta

É um Lá

 

Quando o pai morreu,

seu inocente pranto

regou flores no túmulo.

Em seu peito criança

a ausência foi morar –

levou a saudade junto.

Desde então seu olhar

e o eco de sua infância

não tocam no assunto.

 

Maio de 2005

terça-feira, 31 de maio

Crisântemos, lírios

e raios de sol

regados a orvalho.

Acordei a manhã.

Estou sereno.

Di’azul.

 

Um Sol a pino

na partitura

sobre o piano.

 

Dias intermináveis.

Ao fim de um, outro,

mais outro e outro mais.

Dias incessantes.

Sem repetição. 

Nunca os mesmos. 

Iguais jamais.

Descortinam paisagens

descontínuas.

Dias que há dias adias.

Não voltam atrás. 

 

O dia

come a noite

e se sacia.

Se assim

não fosse

como seria?

O sol

não espargia.

Com seus raios

não gozaria.  

O óvulo da Terra

não fecundaria. 

No ventre azul

não geraria

a manhã.

E ele, o dia,

não nasceria

para o seu dia

a dia.

E a mínima fatia

do pão nosso, 

hoje nos faltaria.

 

sábado, 28 de maio

Se alguém se engraçar contigo

com gracejos despropositais,

desses que agradam moças

hoje em dia tão desatentas,

não suspira, toma cuidado,

não se deixe impressionar.

Mas se o sujeito for do tipo

poeta bem intencionado,

aí pode ser, ainda vá lá...

Não te perturbes, deixa estar.

O aceita de pronto e bom grado,

será menino em teus braços,

de riso terno e singelo olhar.

Se ele te pega descuidada,

certamente que vais suspirar.

É que poeta atrás de musa

só cuida de querer agradar,

pois o danado só sobrevive

se alguma o inspirar,

e uma vez apaixonado

te tira ou te enche de ar

em uma atmosfera etérea

entre o sentir e o pensar,

a romantizar, aturdida,  

o viver e o sonhar.

Portanto já estás avisada,

se contigo alguém se engraçar.

 

quarta-feira, 25 de maio

A nossa verdade íntima
é um segredo irrevelado. 
Cuidamos de aprofundar 
em nós mesmos a sós, 
com fúrias e fraquezas, 
achando que aos outros 
tudo é verdade em nós.  
A dúvida se estabelece. 
Não a que planejamos, 
e sim a que revelamos. 
É íntima nossa verdade. 
Oculta, simples, (in)fiel,

e paradoxal: fel ou mel.

É certeza que inferniza

ou dá plenitude de céu.

A nossa verdade íntima

em nós (di)vaga ao léu.

 

segunda-feira, 23 de maio

Oh! dragão

da inflação,

por onde passas

deixas marcas

de tuas garras:

códigos de barras.

 

Quedou livre.

Do céu ao poço.

Asas emperradas.

Anjo obsceno.

Silêncio.

Desmemória.

Dor hermética.

Sol estático.

Herói paraplégico.

 

Calo.

Afta

na língua.

 

Lindas

todas

tão

como

são

 

Sei menos

ainda

Quase nada

Ou talvez

nem isso

 

domingo, 22 de maio

Para a gata

no cio

mio

ou

vira-lata

vadio

pinto

sem dar 

um pio

eu

mineiro

maneiro

silencio

e quieto

a delicio

 

Homem nenhum

é uma ilha

de edição

por quem

dobram sinos 

(badal

          ação)

 

Subo

caio

qual balão-

de-ensaio

 

Quando o silêncio

fala a ti

a ti fala:

- cala-te

 

De todas

contigo

menos fodas

Só flore

            aste

podas

 

Luz (apagada)

Câmera (lenta)

Ação (goza)

 

Lapso de momento: 

risque fósforo

ao vento

 

Liso áspero

assim a espero

Lapido limo

Despimo-nos

Despedimos nus

er(o)-

 

Não te adulo

Não te anulo

Não te azulo

Não te engulo 

Não saio do casulo

 

Quando ela me diz

menos

ela se sente

deusa de Vênus

curando meus males

com seus venenos 

 

Ela

é mais tua

quando menstrua

Ela

é mais minha

quando galinha

Ela

é mais nossa

quando se apossa

Ela

é mais ela

quando nos gela

 

O invisível

se vê

no vazio    

 

Sem asas

me vês

em vôos

que não vou

 

Quero

porque quero

o impossível  

E espero

(sou sincero)

ser viável

tal impropério

impalpável 

inacessível

 

Na hora

de ir

não hesite 

É melhor

sair

de cena

- exit

 

p/ Anna Lívia

Quando escrevo,

escrevo por exigência

de algo maior em mim,

incomodando por dentro.

Já me pensei infinito,

quis ter voz atemporal.

Há muito perdi o domínio

dos limites de meu eu.

Por isso tanto me invadem

os sonhos de ter alguém

que saiba que ser feliz,

ainda que por um segundo

é a melhor coisa do mundo.

Que sabendo por que vive

me mostre a razão da vida,

me veja rebrotar pela escrita.

Se não lírico ou reflexivo,

senhor de meus sentidos. 

Que a fala de seus olhos

tenha linguagem do sentir.

Que como sou ela me veja

e me vendo eu a possa ouvir.

Quero amar de um estalo,

amar quem me mereça,

que por amor me regalo,

coração sobe à cabeça.

Eu me dou por escrito

no que sinto, no que penso.

Sou difícil de tão intenso

- eu sou intenso, repito.

Quando escrevo, me venço,

e vencido, tenho dito.

 

sábado, 21 de maio

Por não mais nos vermos

com os olhos de antes

nos vemos opacos

difusos

distantes

Já não nos olhamos

com olhos ardentes

Somos dois pólos

gelados

ausentes

 

Ela chegou

com charme

e delicadeza

Me ganhou

ao dar-me

leveza

Em mim ficou

sem alarme

com certeza

 

sexta-feira, 20 de maio

De um não

(não como negação)

mas sim

como a contradição

de mim

Eu

- um em vão

sem-fim

 

Torno a compor-me com armadura.

Visto-a para a batalha contra nós.

Embate difícil – e já estou ferido.

Amor: senhor de todas as armas.

Aço algum protege a sensibilidade.

Eu oco dentro de sua oca estrutura.

Ai, que dor.

 

Dei a ti

não só o que tinha

mas também o melhor

que eu guardava

Estou vazio

de estoque

 

sábado, 14 de maio

Sozinha em tua cama comigo, eu contigo na minha...

Sentimos a liberdade do desejo em nossa respiração.

Serenados, frágeis, loucos, entregues...

Posso te tocar? Minhas palavras te acariciam.

Entram por teu ouvido abalando tuas estruturas desguarnecidas.

Toco-te levemente com tua própria mão.

Tua flor se oferece melada de orvalho e néctar.

A sintonia que nos une nos permite a telepatia.

Há algo físico nesse imaginário.

Contorcendo, mordes os lábios, mamilos arrepiados e rijos.

Sinto teu cheiro no ar. Aroma de sexos se oferece ao vento manso.

Teus dedos massageiam uma a uma as pétalas de tua rosa.

Colho-a para meu vaso de delícias. Cheirosa. Textura de mel.

Então me pedes frases desconexas. Falo desnorteado. Ouves ofegante.

Quanta perfeição é teu murmúrio no escuro, na distância, mas em mim.

Faço de teu corpo templo para teu prazer. Teu fundo azul profundo.

Momento exato. Momento único. Momento teu e meu.

Apetece-me sentir-te. Apetece-te sentir-me. Deleitamo-nos.

Saboreamo-nos em pleno querer o gozo, essa luz.

Estou onde estás. A ti pertenço. Tu tornas os momentos perfeitos.

Tu te soltas fêmea liberta de medos, timidez e princípios.  

Tu te tens na medida certa quando atinges o êxtase e me alcanças. 

Adoro-te em um altar de palavras ardentes, fogo de teu prazer que te dou.

Minha voz te penetra com a envergadura do triunfo de meu sexo.

Gozas louca, desvairada, vadia, eternizada em ais de sublimidades.

És leve. Estás viva. Toques que dão céus e arco-íris. Asas abertas.

És silenciosa e uivas. Gemes, murmuras... Inefável volúpia. Estilhaços.

Doce mulher alheia ao lençol. Imaginas meu tesão
e me tens e te possuis.

Eu te possuo ao me dar a ti. Tu te dás a mim com fúria e sons na noite. 

És a superfície de mim, o mergulho em ti e a profundidade de nós...

És ardente, luminosa, sol incandescente. Perdidamente a fim.

Suavidade pura. Gentileza mandona. Meiguice desarvorada.

Intensamente no cio, com fome de dar, me pedes palavras e frases.

Gozas comigo. Flui de tua gruta o líquido revelador da alegria suprema.

Gozas o verdadeiro e incomparável prazer de mulher. Mulher fogosa.

Vivo contigo este momento só teu. Teu unicamente. Mulher ao extremo.

Ambos a sós, mas juntos, gozamos paisagens infinitas.
Dois desatinados. Eu sozinho e contigo em minha cama...
Tu solitária em tua cama, comigo.

 

domingo, 8 de maio

Mãe tempera a salada.

Folhas de alface, rodelas de tomate,

azeite, vinagre, sal...

- É assim que seu pai gosta,

ela diz.

O amor satisfaz o gosto...

Pai chega do trabalho, toma banho,

janta, anda de um lado pra outro,

vai dormir.

Mãe ainda fica na cozinha.

Ensaboando, enxaguando, enxugando.

Tão concentrada em afazeres.

Tão esquecida de prazeres.

 

Quanto dissabor

deu-se a si, a tonta

sem destreza.

Ela teve um amor

e não se deu conta

da delicadeza.

 

É teu meu amor

e não sei te dar.

Amor inútil,

sem sentido,

sem ar.

Amor difícil,

te sufoca,

não me deixa

respirar.

 

sexta-feira, 6 de maio

O que não sou teu

não sou em mim

e nem é meu

Ou seja

sou

não o que sou

não sendo meu

o que em mim

não é teu

 

Entre amar e não amar

armar-se para o não

que o não é mais seguro.

Amor negado refugia

em área fora de alcance,

entre claro e escuro,

névoa disforme, inexata

que farol nenhum ilumina.

Amor não se consente,

para si recusa certezas,

não se manifesta e sofre

a dor de amor-desamor.

 

Tanto amar

quanto amar-te

eu não deveria.

No entanto

mesmo sem poder

amo

e te amo.     

Amo

por ser o amor

mais forte

do que eu posso ser.

Amo-te

porque se te amo

o que não devo

passo a querer

o amor,

te amar,

te ter

e teu

ser.

 

Mesmo sem chão

ela caminha.

Vai pelo vão,

tão sozinha. 

- Cai, não! 

- Tadinha...

 

quarta-feira, 4 de maio

TU

era a metade

de TUdo

 

Além muito além

muito além do além

do além do além do além

e aqui bem aqui

aqui onde jamais chegou alguém

ninguém ninguém ninguém

nem eu também

pensando bem

 

Lado a lado

o ser e a sombra

não a sua

a do outro

que nele se excetua

e dependendo do escuro

mais se acentua

 

Chega-se à conclusão

de que finalmente

incompletamo-nos

 

Olhar opaco

Coração um caco

Humor um saco

Sonho no buraco

Confiança sem taco

Amor pé de macaco

 

terça-feira, 3 de maio

Um dia

dizer:

a eternidade

passou

 

Tu não te vês

em mim

Eu não me olho

em ti

Então ficamos

assim

A gente não se vê

por aí

 

Sem minha luz

não te brilho

Não acendes

a c(h)ama

 

Quem tanto

tanto te amou

desistiu

descrençou

O encanto

que existiu

não resistiu

diminuiu

te desamou

 

Mata a cobra

e mostra

o pau de toda

obra

 

A cavalo

dado

olha

se é desdentado

 

Coruja

gaba o toco

do pica-pau

no oco

 

Quem tem boca

(coma)

vai a Roma

 

Choveu

no molhado

secou

no estiado

 

Cito

recito

o dito fica

pelo não

dito

 

Fino frasco

de cristal

quebra

a toa

Com qual mínimo

de penas

um par de asas

voa?

 

Tu

sob estrelas

Eu

sobre

 

Vê se vê

o que

parecendo oculto

se mostra

e sendo vulto

demonstra

em alto relevo

outra forma

de ser

para quem

crê

ou o perceber

 

Então silêncio

se renova?

Ou a si se põe

à prova

em sua hermética

concha

de angústia

sem acústica?

 

Um poeta

nenhum verso

Que coisa

mais solta

Que coisa

mais neutra

Que coisa

mais tosca 

 

Não guardo

p o e m a s

Meus versos

são livres

 

O mundo

dá voltas?

Deu!

Está dando!

Mundo redondo

Mundo rodando

Terra azul

Terra girando

Fui já voltei

Estou vou ficando

Até quando não sei

não sei até quando 

Mundo mundano

Mundo mudando

O mundo

dá voltas?

Deu!

Está dando!

 

Se

sou eu

teu sol? 

Sou!

Solteiro

Solto

Solo

 

Te conheci

ontem

Só não sei

de que ano

 

Então existes?

És real?

Já que insistes

- Sim

vem!

Por mim

tudo bem

nada mal

 

Pelo visto

belo em ti

é teu olhar

sobre mim

 

Capturaste

-

me

em

ti  

 

Faças tu

um tour

na terra

no ar

e no mar

de meu corpo

Podes fi(n)car

voar

atracar

em meu duro

e seguro

porto

 

domingo, 1º de maio

Em caso de dúvida, ame.

Se permita à experiência

da imprevisibilidade,

do indomável no peito,

da dolorida felicidade.

Amor, ah! o amor

do nada se faz chama,

arde, consome, brilha

e na exaustão de nós

evidencia seu mistério,

toma conta do pensar,

domina nosso querer,

é paisagem no olhar,

rio à margem do ser.

Em caso de dúvida, amar

é melhor que nem tentar

(e aí tudo pode acontecer).

 

Maio de 2004

 

segunda-feira, 31 de maio

O poeta Bob Dylan enriqueceu

Deve ser fácil escrever com money no bolso

Notas que o vento favorável respondeu

Cantar sei que é

as rimas ricas do protesto

de antes

 

Durante a chuva

se viu de braços abertos

rodopiando de olhos fechados

no centro da praça

de uma cidade qualquer

Sentiu-se sozinho no mundo

Estava exausto da vida

Pensando e sentindo tudo

Molhado até os ossos

Chorando copiosamente

e a chuva jamais cessou

 

Há um momento

em que o rosto do girassol

murcha a luminosidade

e pende para o chão

Verdadeiro semblante

da desolação

 

Enquanto temos mãe

mergulhamos na infância

porque somos suas crianças

Muito pelo olhar

com que ela nos vê

zelosa e meigamente

E um pouco

porque nos aconchegamos

em seus maternais cuidados

para os quais somos frágeis

eternamente dependentes

de suas mãos e apoio

para equilíbrio e segurança

para os passos do dia a dia

 

Habito-me,

eu, uma ilha.

O mar está por chegar

à praia, ora revolto,

ora em calmaria.

Nenhum homem é.

Eu sou.

 

Não quero repetir erros.

Um raio já caiu sobre mim

- outro não tornará.

Não há como recuar para o futuro.

Estou em busca de nós.

Não me deixes deixar-te.

Não te deixarei deixar-me.

Procura-me em ti e te acharás

em mim. Então me encontro teu.

És plena e lúcida em minha vida,

senhora da lucidez e plenitude,

a própria dona da poesia.

 

Todo amor que te dou

é um amor que fico devendo.

Porque o amor que tenho

não é suficientemente

o tanto que desejaria tivesses.

Está muito aquém

do que posso oferecer-te.

Por mereceres infinito

o amor mais desregrado,

o amor mais irrestrito,

o amor mais desmedido  

o amor mais dado

e o amor mais querido.

Porém todo o amor que te dou

é o meu melhor e mais lindo,

nunca o mesmo, sempre novo,

inesgotável e fidedigno.

 

Não percas tempo,

pequeno pássaro,

com teu canto pela tarde. 

A tristeza da amada

repousa na dúvida

entre o sonho e o medo

de realizar-se completa.

Ela não presta atenção

ao teu gorjeio melodioso.

Tudo é melancólico

ao seu ouvir e olhar.

Seu pensamento é longe.

Nela dói ter-me para si

e não saber o que fazer

de mim tão seu e todo.

A amada não me quer

mas teme perder-me

na solidão de seu eu,

ou encontrar-se musa 

no sem-fim de mim.

Ela é mais só que tu,

pequenino ser cantante. 

Nesta tarde, o sol brilha

e a amada espera a noite

com seus acordes de sono.

Ela adormece seu cansaço

e sua incompletude sonha

com a noite do dia seguinte.  

 

Amar é o instante

imediato

Amor é ato

de agora

O tempo exato

de ser amado

E de fato

sentir-se presente

e extasiado

 

O que são palavras,

amor,

se o vento as leva,

espalhando-as no ar,

pulverizando com elas

o silêncio do mundo?

Sigo calado

com meu sentimento.

Meu olhar te diz

com mansidão 

o quanto te amo

em atos, pensamentos

e em incontida emoção.

Minha entrega é sincera.

Meus gestos me confessam

o teu menino aprendiz

da difícil arte de amar.

Deixa ecoar em ti

a certeza de que sou teu.

Pode ser pouco, eu sei,

mas é tudo. Sempre.

 

Sou primitivo

ao amar.

Sou emotivo,

sei chorar.

E vivo

a sonhar.

Por qualquer motivo

deixo-me sangrar.

Sou persuasivo

no falar

e no pensar.

Sou exclusivo

ao me dar.

Não me privo

de gozar

o meu impulsivo

e primitivo

jeito de amar.

Um aditivo:

quer provar?

 

Coração,

vê se não seca.

Não quero para mim

a aridez no peito

murchando as flores de amar.

E também não congela.

Não quero a embarcação

do amor

te evitando como a um iceberg.

 

domingo, 30 de maio

miudezas em geral

eu te amo

e as tuas verdades

de mulher romântica

me fazem sentir amado

já os teus fundamentos

de senhora prática

te deixam confusa

e eu mais apaixonado

(mesmo posto de lado)

em ti debatem-se a musa

e a dona do riscado

que teme a paixão intrusa

e o amor não agendado

(pro futuro despreparado)

e eu modéstia inclusa

me sinto um amador

cada vez mais inspirado

a adotar a tática

de amar a romântica

e ir ganhando a prática

 

as perguntas

mais difíceis

nos são feitas

pelo silêncio

na calada

da noite

e as respostas

nos atordoam

dias afora

 

estorinha d’amor:

era uma vez

e não foram felizes

para sempre

- the end

 

o ponto mais alto

de tudo que vês

supera-te 

se não o alcanças

em ti

 

para sentir-me vivo

tenho que me ver

em teus olhos

mas não sobrevivo

se não sou visto

por eles

                       

um acontecimento único

soma-se a um momento raro

para se tornar eternidade

 

termina-se assim uma história

que mal começou

- pode ter sido tudo:

um sonho interrompido

o todo pelas metades

a cômoda desistência

a falta de persistência

o horizonte impossível

- menos uma história de amor

(mas deixa o registro do medo)

 

pode não te interessar

o Universo medir 156 bilhões

de anos-luz

mas te dou essa medida

como referência de meu amor

por ti

e para exemplificar tua distância

e ausência de mim

 

e se ao descobrir que ama

já for tarde para a reconquista?

- saudade à vista

e se ainda der tempo de recuperar?

- felicidade no ar

e se o melhor mesmo for o fim?

- que seja assim

e depois do adeus o que fazer?

- morrer

 

conversa vai

conversa vem

silêncio resta

 

encho tua bola

dia e noite

- quando farei o gol?

 

as lágrimas ralas

rolam

sem efeito

não escoam do peito

não desafogam o coração

 

do trampolim no ato do salto

não tive a exata noção

do que de fato via

sem rede de proteção

eu velozmente caía

(acordei num sobressalto)

 

é

ainda sou um menino

onde já se viu brincar com fogo

querer alcançar o arco-íris

dar socos no ar

linha à imaginação

amar infantilmente

ter febre e delirar?

- sossega o facho

garoto

 

o alívio

de não mais ouvir a voz

implorando: calma

nem saber das lágrimas

todas as vezes inúteis

regando uma esperança

 

sábado, 29 de maio

A finitude do amor

O amor é finito, mansa musa, finito como todas as coisas.

Mas em sua finitude pode ser ilimitado, como um facho de luz

que atravessa o universo e resplandece por um segundo apenas.

O amor não se resguarda de seus limites e se julga forte e para sempre.

Não o amor, e sim aqueles que pensam que o possuem – que pensar é um erro.

Sentir é mais adequado para quem julga amar – nada é eterno, amantes,

e no amor tudo é fugaz, breve, ágil e o mais é acomodação do sentir,

que aí, sim, já não se ama mais, só o pensamento sobrevive, como saudade,

memória, lembrança, história do amor que chegou, instalou-se no peito e dormiu.

O pensamento do amor no frescor de sua aparição na vida de quem dele carece.

O pensamento do amor na inexatidão de sua sobrevida resultando em não-sentimento.

Ai, de quem ama sem arrebatamento. Quem vive alicerçando o amor sem paredes,

o amor sem portas e janelas, o amor destelhado aberto às estrelas ausentes...

Para amar tem que se aprofundar em cada segundo da existência do amor,

que no segundo seguinte pode ser que somente um vazio escureça a alma,

como aquele facho de luz que cruza a imensidão para deparar-se com o nada de si.

Não posso te amar com a ternura que imaginei fosses capaz de merecer, mansa musa.

Seria demais para ti – e não saberias retribuir tamanha doçura de meu coração-colméia.

Dei-te muitos dos favos do mais puro em mim. Mostrei-te os pólens com que fabrico

o mel de minha carência, mas não houve tempo de conheceres as florescências,

as primaveras constantes de meu amor em abundância, de meu amor essência e éter.

Não devo te amar com a grandiosidade que deixei expandir-se em tua direção.   

Ficarias perdida em minhas planícies, em minhas montanhas, em meus abismos.

O latifúndio de meu amor requer a disposição de quem sonha plantar e colher.
Não basta invadir-me, ocupar-me, acenar com promessas de sementes e grãos.

Mereço mãos que me acariciem confiantes – que meu coração é terreno fértil.

Sou de culturas longas e o amor é brevíssimo. Não vive o tempo de uma árvore,

de um ipê amarelo, mesmo que seja até sua primeira florada. Amor é solo seco.

Não creio que te amar com palavras seja suficiente para comportares em ti

as alusões que faço, com ecos profundos, mas que em ti passam ao largo.

Tu sabes que sou de profundidades. Não quero aprender a mirar o raso, não e não.

O espelho das águas não é confiável. E depois venta muito em tuas fronteiras

e ao sabor do vento tudo vai sem rumo, indo para a distância a bel prazer.

Esse vento, mansa musa, é útil à fina poeira que esvoaça das plantas floríferas,

fecundando os óvulos ornamentados, que tu bem sabes te fartaram de mel. 

Tu provaste de minha carência. Tanto que me revelaste o quanto o amor é pouco.

Sim, pouco, por mais que tenha sido e eu te dado. Finito que é, limita-se no receber.

Não possibilita a doação extremada de quem é ilimitado. Seu finito não me comportou.

Alicerçamos um amor que sonhávamos diferente, aberto à amplidão de nossas vidas.

Tu me mostraste a impossibilidade de querer o amor maior que o sentir, que o pensar,

que a imaginação do desejo de ser para sempre feliz. Que entre nós o eterno não haverá.

Contento-me com os alicerces, mansa musa, com as paredes imaginárias da alegria,

as portas escancaradas ao entra-e-sai do futuro, as janelas de frente para a infância.

O amor é finito e os filhos que ele não gerou ficam sublimados, nas constelações.     

Não edificamos a casa. O tempo de amar passou. Ó implacável finitude de nosso amor. 

Mas vem a estação da polinização das flores. Armazenarei néctar, sem amarguras.

E a saudade que doer no peito será sentida na respiração que capta os aromas do vivido,

meu facho de luz que a finitude de teu amor fez saber-se um facho de luz apenas.

 

 

quarta-feira, 26 de maio

Evidentemente

tenho meus segredos

e os guardo sem mistério

nas confidências dos sonhos

que nas noites são reveladores

- até que amanhece

 

Porque é na ausência

que estão os memoráveis encontros:

o encontro consigo mesmo

o encontro com o abandono

o encontro com a verdade

o encontro com a solidão

o encontro com as lágrimas

o encontro com quem não está presente

(em pensamentos em desejos em sintonia

com o devido valor que essa pessoa tem

e que só se dá pela falta quando nos escapa)

Mas o maior encontro é com a realidade:

- a de que estamos ausentes de nós

 

Felicidade

já tive medo de ti

Não te acreditava possível

Pensava que eras passageira

Dizia: é um momento apenas

Achava que seria muito luxo experimentar-te

Muitas vezes te confundi com entusiasmo

Já te esnobei em uma época áurea

que hoje sei passou como nuvens por mim

- talvez o melhor tempo da vida

do uniforme azul e branco escolar

Tinha medo – e me perguntava: e depois?

Sim – porque a euforia pressupõe ressaca

e eu temia o dia seguinte ao carnaval interior

Quando apareces realmente ficamos confusos: 

- É bom demais para ser verdade

E dizemos mais: será que isso está acontecendo?

A incredulidade diante do que não julgamos merecer

Ora ora então ser feliz não é um direito?

Ou um dever de cada ser vivente: ser feliz!

Agora te anseio felicidade com todas as forças

Persigo-te como um bem precioso

Não te temo confio em ti acredito em tua existência

E nesse tempo de procura alucinada quase cega

percebo que não és presa fácil

ou que tanto fugi de ti que tu nem me consideras mais

Felicidade por favor já não tenho mais medo

Acredito-te viável e ao meu alcance

Sei que és duradoura e podes ser perene 

És uma coleção de momentos em seqüência 

Preciso experimentar a simplicidade que dispões

E o que é o entusiasmo perto de teu turbilhão?

Jamais te esnobarei novamente juro

Vem felicidade se apossa de mim

Estou me preparando para merecer-te

Ando desarmado de ismos e de expectativas

Sou o mais distraído de todos e sigo sem rumo

porque sei que posso te encontrar numa esquina

ou quem sabe – e tomara – no olhar de uma menina

que também – como eu – te busque como razão e sina

porque com a felicidade o amor se entende e combina

 

Um mundo impenetrável

Ninguém disse que seria fácil

e enfim se torna impossível

Ela criou seu mundo e nele se fecha

Ela dita seu próprio estilo

Ela estabelece suas regras

Ela vive conforme sua filosofia

É confortável ser imutável

Fugir de si mesma não aceitando no outro

aquilo que pode invadir seu espaço exclusivo

Qualquer acesso parecer um incômodo

diante de seu total isolamento

da mulher dentro da couraça invisível

Quem dela se aproxima sai desesperançado 

e volta a trajar a velha armadura de aço

porque a entrega de si é impensável

“Para quê outro mundo se tenho o meu?”

- ela se pergunta e se responde sem resposta:

“Se sou dona não quero ser inquilina”

 E de seu mundo ela contempla o todo

e acha tudo menor e sem sentido

Ela desaprendeu o simples gesto

de estender a mão e aceitar o amor

que a ela se doa simples e verdadeiro

Ela teme olhar para os lados

Ela sofreu muito no passado

e ainda olha a vida pelo retrovisor

O futuro o horizonte o amanhã

são conceitos que ela não quer

incorporar ao seu solitário universo

Ela ainda ficará só por muito tempo

Ela resiste ela não desiste ela insiste ela existe

Ela pode muito bem ser alguém que me lê

alguém assim como tu - por exemplo

Mas por favor não tenhas esse perfil solitário

Não percas de vista quem te ama tanto

Não desencantes sentimentos com teu alheamento

Não o percas por temeres a felicidade à tua porta 

Não deixes que ninguém sofra por ti

como ela que sofre tanto e que tanto faz sofrer

Entender suas razões seria mesmo muito difícil 

e agora percebe-se que aceitá-las é impossível

Um amor é muito precioso para se saber desdenhado

Vai indo desiste e quando cuida que não já é passado

 

BreviáriO

1 Minha poesia não perde vigor

Tenho um crescente

interesse pela vida

 

2 Um pássaro

pela tarde

perdido

mas seu canto

suaviza

não ter

para onde

ir

canta só

para a si

se ouvir

 

3 sem se te cegares

abras os olhos para o sol

quando ele nascer

ou ao acordares

 

4 Às vezes as paisagens

ficam incompletas

Não pela falta do verde

dos sons naturais

ou das belezas

Elas não se completam

pela nossa má vontade

de percebê-las ali

ao alcance do olhar

Dentro está a essência

para se captar o belo

 

5 Uma definição:

um menino

com mais de 40 anos

cheio de perdas

com poucos danos

 

6 Dou um close

na vaidade de quem se acha

e de cara percebo

que falta um brilho convincente

no olhar

Então me recolho

à minha ingenuidade

de nunca achar

que nada é mútuo

que tudo é fátuo

 

7 Não sobram palavras

- e o que é pior:

às vezes faltam

 

Tanto querer

Não quero amar

apenas para provar algo

- nem a mim

e muito menos aos outros

Não quero a frustração

de um amor pelas metades

Não quero egoisticamente

me sentir amado

sem poder retribuir

(e o contrário muito menos)

Se a solidão não me deixa

- paciência

convivo com essa bruta

e lhe dou flores todos os dias

Quero um amor de singelezas

Ficar exausto de tanto querer

Sentir-me outro sendo eu mesmo

Quero discordâncias entre nós

encerradas com um carinhoso olhar

com sorrisos de aceitação das diferenças

calma e naturalmente – em paz e feliz

Quero dar as mãos e ser abraçado

Pensar em voz alta ao lado de quem me ouve

Sonhar o impossível para nosso reino de sonhos

Silenciar a dor do ciúme ou esbravejar a carência

Fazer valer o sol do sexo em nossas vidas

sempre e cada vez mais nos dando plenitude

e a energia do amor sintetizado no prazer

Quero diálogo - que sem conversar não amo

Filosofo muito viajo nas palavras sou de pronúncias

Quero uma relação tranqüila – sem mentiras e omissões

Alguém que me veja como sou e que me imagine melhor

Alguém que não se impaciente com minha poesia

pinçando versos que dão margens a várias interpretações

A poesia é um estado de espírito – e a minha: meu vício

Se não a deixo transbordar fico inquieto me perco me esvaio

Quero alguém que se divirta com minha inspiração

que capte em meus devaneios a tradução de tantas neuroses

de tantos e tantos deste conturbado mundo de meu Deus

E que se divirta ainda mais com minhas tiradas do nada

com minhas gracinhas de quem jamais perde a piada        

Quero acalentar o corpo por mim desejado e apagar suas dores

Perdoar de coração e de coração ser perdoado – sem remoer mágoas

O mundo se amplia para quem ama – então juntos torná-lo melhor

Quero me sentir amparado – pois sou frágil confesso 

um sensível eterno romântico um menino a vida toda

Quero fortalecer as fraquezas de quem eu amar 

Quero amar uma mulher que me torne forte

Enfim quero fazer minha amada feliz e serena

e por fim quero conhecer e viver a felicidade plena

 

terça-feira, 25 de maio

A quem tem um amigo poeta

pede-se que não se estresse

procurando em seus versos

algo que a ninguém pertence,

pois sua poesia é de todos

que nela se sintam refletidos,

que a poesia é um espelho

de imagens vistas de dentro,

sem eixo, sem rumo e centro.

Quem tem um amigo poeta

acostume-se às ausências

conviva com as lembranças,

que o poeta é assim mesmo:

procura na Musa um amor

e uma vez não encontrando

busca outro onde até quando

e às vezes se perde buscando,

sofrendo, sorrindo, tentando.

E cisma em viajar entre estrelas

atrás de um impossível sonho,

que impossível não se realiza. 

Mas ele quer fazer suas boinas

com o traço minguante da lua

e enfeitá-las de constelações.

Ele teima em pegar as brisas

e delas fazer suas camisas.

De nuvens moldar suas calças

e explorar as imaginações,

os sentimentos e emoções

das mais solitárias viagens.

São sempre viagens sem volta,

com destinos e rotas incertas

as viagens de um amigo poeta.

 

Assim se deu a criação

de meu mundo:

- Haja luz!

E luz houve

em forma de mulher:

- tu!

Então o vazio de mim

passou a ser habitado

por ti,

meu amor.

 

Não ouvir a tua voz,

ainda que por algumas horas,

torna tudo o mais sem som.

Sem ouví-la também emudeço

- o maior silêncio do mundo

me habita se não te ouço.

Tua voz em meus tímpanos

inaugura palavras simples,

por mais antigas que sejam.

Tuas cordas vocais dão o tom,

qual instrumento afinando meu ser

- só fé mim flá sol ká sim dom.

Voz tranqüila de quem perdoa

por antecipação, de quem acalma

ainda que impaciente esteja.

Voz que traz frases iluminadas.

Escuto-te reverenciando a luz

que de ti brota quando falas.

Quando pronuncias meu nome

estremeço e me sinto batizado.

Agora que tenho certidão e teu sou,

conversa comigo, canta, sussurra,

balbucia, que tua voz me posiciona,

me aciona, tua voz me emociona.

Diga-me algo a todo momento,

coisas assim como: “Eu te amo,

gosto de ficar calada a teu lado,

meu teimoso e apaixonado Flávio”.

 

Acalento o desejo

de te fazer um carinho

sem te assustar

ou até

- devo dizer -

sem que isso te incomode

Não quero te surpreender

com um leve toque

uma singela manifestação de

carinho (sim carinho!)

E nem digo te abraçar te beijar

te cheirar explorar as latitudes

longitudinais de teu corpo intocado

Se bem que sonho caminhar a teu lado

de mãos dadas – só isso: de mãos dadas

Mas não – Acariciar-te é um ato de domador

um gesto ousado que pode te distanciar

e eu – sinceramente – não quero te assustar

 

segunda-feira, 24 de maio

{}  t  o  r  p  e  d  o  s  {}

Considera em teu coração

a presença de algo incomparável

Algo como o amor

por exemplo 

capaz de tornar instáveis

todas as tuas certezas

anteriores a ele

e tornar neuróticas

as evidências seguras

de teu lapidado equilíbrio

Então – é bem possível

muito provável aliás -

que pela vez primeira 

te vejam ensolarada

e te sintas realmente feliz

e

3 on-line:

esta poesia

uma outra que está por vir

e eu

d

Não te movas

mas acalme-se

O futuro vem aí

e ele quer te encontrar

à espera

e não à espreita

e

 Não me incentive

a descrever o que sinto agora

O momento é de conter

o sentido

E não de contar

o sentimento

vivido

d

Quando a respiração

já não é tua

a quem pertence o ar?  

d

Minha despedida

veio acompanhada

de tua anunciada

ausência de essência  

e

 Atravesso miragens

para imaginá-las inexistentes

quando na verdade são

mas posso tocá-las com o olhar

jamais com a mão

d

Dar crédito

à minha verdade

para ti tem a ver

ou haver?

e

Os relógios

são atemporais

e os calendários

não comemoram

aniversários

d

As lembranças

alongam os acontecimentos

findos com sentimentos

e

Cartas curtaS

Amiga – permita-me tratar-te assim

agora que nosso amor chega ao fim

É que a Amizade é um sentimento

mais forte e mais seguro

que o Amor

- e de mais futuro

A Amizade não contém a cláusula

de exclusividade   

A Amizade não tem clausura

- só a da tua liberdade

(a tua individualidade)

Na Amizade não há

a ditadura da libido

(tu sabes o quanto

te tenho requerido

nesse sentido

– e até sofrido

me sentindo preterido)

A Amizade é simples

e mais capaz de alegrias

A Amizade não tem

contra-indicações

(ainda que requeira

cuidados especiais)

nem aqueles inevitáveis

efeitos colaterais

(mesmo que mereça 

mais e mais e mais)

O amor nos atormenta

com ciúmes sonhos

delírios loucuras

paixões e fantasias

Já a Amizade não

Pela Amizade chega-se mais fácil

ao perdão

Ela se permite e se entrega

com sincera abnegação

em gestos de quase devoção

Se nossa Amizade sobreviveu

ao Amor que tanto sonhamos

e infelizmente não atingimos

sinto-me muito à vontade

para chamar-te Amiga

- e que essa seja

a palavra mais doce

que eu sempre te diga

E que a nossa Amizade

seja uma forma de nos amarmos

e de bem nos querermos

em liberdade

e sem a menor fadiga

e com total sinceridade

- Tudo bem Amiga?

De verdade?

 

Un tango

Ay! corazón

la luna es una locura

en la noche sin siluetas

de las nubles de ilusión

y sueños de tu corpo   

desnudo y lo mio

Acá estoy

a pasar la noche

com la luna

en tu lugar

a besar-me

en la distancia

 

- Em oração amorosa

eu implorei ao anjo-mulher:

Venha!

Chegue logo

Não que eu esteja ansioso

Estou apenas aflito

Simplesmente afoito

Suando por todos os poros

os desejos há muito guardados 

E depois

quero fazer bonito

não quero parecer esquisito

Então corra – ganhe asas – voe

Meus braços amparam tua velocidade

assim que aqui pousares

O incenso está aceso

a hortelã fresca pronta para o chá

banhei-me e cheiro a erva doce

o violão afinado para dedilhados

o lençol azul estendido

e um beijo com hálito tutti frutti

te aguardam

Olhe fundo em meus olhos

Verás em minh’alma o que é saudade

e o quanto este é o momento mais aguardado

de toda minha vida

- E mais uma vez ela não veio

Ainda aprendo e tantas preces

não farei em vão

Juro que não

 

Marketing direto e planejado:

“Use produtos manufaturados

da linha de montagem poética

dessa fábrica flavioalmeidiana

Este nem mestre nem inventor

apenas um aspirante a poeta

sonhando ter musa e um amor”

 

Tens pouquíssima água

suficiente apenas para uma

dessas opções:

saciar tua sede

regar a planta

ou dar de beber ao gato

 

Para te deixar só

a solidão

tem milhões

de faces

 

Em si

o dia

à noite

se esvazia

 

Sempre de um lado para outro

De lá para cá

daqui para lá

sem jamais ter lugar

- Deixa estar

É assim a vida:

inquieta

inconformada 

desatinada

indo sem querer chegar

correndo sem ansiar ficar

- ela não quer se encontrar

A vida acha que todo dia

é dia de improvisar

- e a vida tem todo direito

de achar

 

Realmente não sei

o que falar

Mas quando a vejo

nervosa e sem ar 

dizendo que sem mim

não consegue ficar

sem sair e sem tirar

seu carro do lugar

Acho que debaixo

de um quepe

sempre que dá

algum pitaco 

ou ela me acha

um estepe

ou não passo

de um macaco

- Arranca vai

Vruummm!!!

Sai!

 

Querido diário:

escondemos o tempo

ocultamos a vida

atrás de números

de um calendário

Deciframos o sentir 

verbalizamos o pensar

através de palavras

de um dicionário

 

Ler trechos tristes com os olhos

comove a menina que mora dentro deles

- e ela emocionada chora copiosamente

Só que as lágrimas caem dos meus

e não dos dela

Essa menina é sabida

- uma manteiga derretida

(que assim vai inundar minha vida)

 

Nada a dizer

Sem saber o que pensar

Sem palavras

O silêncio é longo

Talvez dure o tempo de uma vida

A partir de agora e para sempre:

adeus

(Enfim algo fica de eterno)

 

Dá água na boca

depois de tanto tempo

lembrar teus bolinhos de chuva

 

De minha parte

sempre achei que sofrer

é uma arte

Amar é difícil

mas vai se aprendendo

a duras penas com o tempo

Já o sofrimento

é um compadecer consigo mesmo 

é quando a alma se expõe em carne viva

Não amo

Já passei da época de aprendizados suados

E também não sofro

Não saberia ser artista a tal ponto

 

domingo, 23 de maio

solilóquios coloquiais

Quero crer

na montanha

se movendo

Ou antes na fé

em ação

em tal inviável 

e pesado ato 

 

çççç

Ao invés

de te dar

uma bala

na agulha

te dei linha

de várias

cores

 

çççç

Não peço muito

só amor

o que não deixa

de ser tudo

ou quase

 

çççç

Um poeta em Goiânia Goiás

Anônimo sem louros calado

Um mero transeunte obscuro

que faz da monotonia poesia

e que ninguém reverencia

Toda manhã no ônibus circular

o vate cruza a avenida T-63

com um ar diferente no peito

que só ele só ele sabe respirar

O poeta cede lugar à senhora

que fez cirurgia no coração 

e lhe diz obrigado e soa adeus

Semblantes tristes lotam o bus

objetos de devaneios poéticos

- cada um com suas histórias

e todos com suas dificuldades

Um poeta como tantos por aí

porta vozes de sentimentos

antenados com ondas mentais

vendo através de olhos irreais

captando tendências universais

como o poeta em Goiânia Goiás

 

çççç

Desencabulo-me para te dizer

passado o tempo de nós dois

agora com olhar ausente distante:

se já te pareci ridículo

é que entrei no circo no circuito

no círculo do amor me permitindo

ir fundo em sua mais pura expressão  

Fui meloso – um zangão um operário teu

adocicando teu trono de rainha

Fui piegas declamei às cegas poemas

de um amor sem futuro com sonhos idem

Foram versos bregas expondo entregas

de um coração mergulhado em calda   

Se também me revelei pueril ó inocência

que me serviu de promessa de santificação

do céu em que estive sem pés no chão

Só não fui banal – apesar de tantos clichês

Aprofundei-me às vezes em vãs filosofias

com palavras furtivas que só te fizeram dormir

Se te pareci um completo idiota – o sou - 

Agora mais do que nunca sei o quanto

Um idiota que ainda sonha ser romântico

 

çççç

Pensamentos que nos povoam

de todo jeito com imaginação

Para quem pensa forte

Para quem pensa sempre

com idéia fixa com obsessão

Para quem não tira da cabeça

Para quem não sai do coração

Pensamentos de auroras

Pensamentos de fim de tarde

Para quem muito trabalha

- para esquecer: de fuga e refúgio

Para quem despista a divagação

Pensamentos doentios e delirantes

que dão febre suores inquietude 

tiram o apetite o sono a razão

Pensamentos empíricos de sonhos

resultando em pesadelos difíceis

em amargores boca seca desilusão

Em pensamentos dou graças enlevo

em posição de profunda reflexão

elevo-me o mais alto e transcendo

então penso em ti em forma de oração

 

çççç

Propus-te um dia 

dar fim ao marasmo

em que vivias

Foi incrível

(pra não dizer horrível)

quando percebi

que ele é insubstituível

Então desisti

 

çççç

- Também sei ser fútil

Acho até

que é

a única coisa

que sei fingir

de verdade 

           

çççç

Tentar

até que tentamos

mas como já era esperado

não deu

(um fim afinal anunciado)

Ainda bem

- tinha tudo para dar errado

Melhor sofrer agora

a dor do depois

Caiu de vez

e não de maduro

o meu sentir sofrido

com ar desesperado

dando adeus ao futuro

 

çççç

Minha alma

reconheceu a tua

assim de cara

do nada

Então pensei que

talvez

sei lá

quem sabe

E então

o que achas?

 

çççç

vida de luz

e de sombra

como o amor

que assombra

e é clarividente

viver

confunde-se

com amar

 

çççç

se somes

mil vezes

te chamo

sem nomes

não ouves

não vens

me consomes

 

çççç

só se comparam contigo

aves borboletas e flores

já há muito extintas

 

çççç

 

Não me perguntes por quê

Ficarei sem resposta

e tu com tua pergunta no ar

 

çççç

Para ser

para sempre

requer perdão

sempre

Assim as ofensas

as brigas tensas

as desavenças

as diferenças

às vezes imensas

ficam suspensas

Para ser para sempre

requer amizade amor

e perdão sempre

 

çççç

Ainda tens

aquela luz

em teu bolso?

 

çççç

Soldados

sem armas 

só com tambores

marchando em paz

em um campo de flores

voltando felizes

para seus amores

Polens nos coturnos

e fardas multicores

- Rufem rufem

rufem tambores

 

çççç

Volto a ser

a caravana do eu

sozinho

atravessando comigo

o deserto de mim

 

çççç

As palavras

só querem saber 

de silêncio

 

çççç

Vão-se os dedos

ficam os anéis

 

çççç

E s c r e v e

L U C R O

em caixa

alta

 

çççç

Faz do nada

algo palpável

para preencher

o vazio

Deixa a ausência

no cio

 

çççç

Esquece

para novamente

lembrar

com saudade

repetidamente

a se renovar

 

çççç

O que nos restou

não pertence

a ninguém

Nem a mim

que tudo dei

Nem a ti

que tudo tem

Os dois sós

e ambos sem

 

çççç

Eu tava sol e choveu

Eu tava chuva e chorei

Eu tava aí

e tu nem

Assim tipo

belém-belém

Foi mal

Fique bem

E não vem

que não tem

 

çççç

Que poesia que nada

São apenas ruídos

de sonhos a ruir

 

çççç

Te pego

com apego

Te ganho

sem barganha

Te amo

com amor

Te faço

sem desfeita

Te iludo

com realismo

Te perco

quando te deixo

Te quis

mas não

 

çççç

Acendeste a cidade

quando em ti chegou

a minha eletricidade

A energia que gerou

deu luz à felicidade

Estavas iluminada

clara e energizada

corrente elétrica

de amor

Aí o que era doce

apagou-se

 

çççç

-Olha o formato daquela nuvem

- Qual?

- Esquece...

 

çççç

Tava com vontade

de ser nuvem

Mas já passou

 

çççç

No amor

a fricção

cria

a aflição

ou a ficção

 

çççç

Desconhece-te

para que ela

te revele

Te descubra

sob tua última

pele

 

çççç

Meus poemas:

pic-nic das palavras

estendidas sobre a relva

em toalha do pensar

no campo do sentir

(vêm para a festa sem-fim)

 

çççç

Ai de quem

respira vento

 

çççç

Asas

para espaços

assaz 

 

çççç

Mais um dia comum

Não te vi

 

çççç

E não me subestime

- Para uns

é sub

de subterfúgio

de subterrâneo

Para mim

o sub

é de sublime

 

çççç

Este exato

instante

não é o de antes

nem o seguinte

 

çççç

No divã

todo freudiário

é en passant

 

çççç

Por teu olhar me vi outro

Teus olhos deram luz à minha aura

Ilumino-me em tua visão

A partir do que vês em mim

é que me traduzo eu

- o menino que te viu mulher

a mulher que o menino quer

 

çççç

É melhor a véspera

Que depois é estréia

é inauguração

é lançamento de pedra fundamental

é descerramento de placa

corte de fita

e a rotina é o discurso de sempre

Tenho dito

 

sábado, 22 de maio

Não sou entre parêntesis

Não me fecho em aspas

Vou sem ponto e vírgula

Todo meu resumo é etc.

Dou gerânio a gerúndio

Desinvento neologismo

Cato caco de cacófato

Acabo em reticências...

  h

A alma

ganha corpo

na poesia

e em silêncio

extravasa

vida

  h

Só

Mondrian

me enquadra

e me dá linha

  h

A palavra

l â m i n a

é afiada

ou apenas soa

como um corte?

  h

Há dias

em que dias

não há

O tempo

anoitece

no amanhecer

só lua

  h

À procura de um sentido

Tua flecha procura um alvo em mim

O alvo sou eu por inteiro

– não um pedaço uma parte

Eu todo teu

a fim de ser flechado

por ti

  v

Ó exploradora criatura

por que me deixas na confluência

de teu mundo externo

se desejo entrar em tua vida

e incorporar teu plano existencial?

Capte-me que a ti me adapto

Uma vez teu - teu para sempre

Esquece as verdades relativas

Encontre realizações definitivas

Posso te oferecer paisagens – queres?

Revelar-me em nossas diferenças – preferes?

Se fores incomum – sou verdadeiro

Consente em ti as mudanças que vives

Sou parte de tuas transformações – percebes?

És tão versátil – ó musa da compreensão

És mutável e sensível – realiza-te em mim

que te quero nova te encontro outra e a ti me dou

  v

É ampla

tua visão sobre tudo

e todas as coisas

Confio em tua percepção

Teus sentimentos são universais

És simples – eu sei

mas tua vida está na imensidão

do que só tu consegues dimensionar

e vivenciar

Inclui-me no teu imenso