Maio de 2006
quarta-feira, 31 de maio
Digitas, teclas, escreves.
Letras nas pontas dos dedos.
Palavras a te traduzir, revelam
impressões com tuas digitais.
O poema aguardado não veio.
Espero há anos por este poema.
Se oculta, foge de mim, inexiste?
Quero o poema que ainda não fiz.
Ao escrevê-lo sugarei sua força.
Por que razão o anseio assim?
Sua falta mais me incompleta.
É tão urgente e demora tanto.
Quero o poema. O poema quero.
O poema que há muito espero.
Não me dou por satisfeito.
Não me sinto realizado.
Nada me é suficiente.
Mas como sou me aceito.
Tenho em mim me aprofundado.
Sem pressa me faço urgente.
Fim pode ser reinício
de algo não mais a fim.
Partindo do princípio,
entre resquício e indício
entre afinal e enfim,
fica finalmente isso:
fim nem sempre é fim.
Em algo que eu diga
talvez até me contradiga
ou alguém me desdiga.
Mas, no que sinto,
nisso nunca minto.
Anti-Midas,
tudo que toco
nada vira.
Há uma rua em que não caminhas.
Ela em ti se vai, seguindo-te.
Desde antes dos desencontros,
agora intransitáveis. Rua sem rumo.
Rua de ritmo. Rua de idas lindas.
Rua de vindas vividas. Rua do íntimo.
Rua que se fosse minha, tua seria.
Rua onde se anda para sempre chegar.
Rua que Godiva nua deu de cavalgar.
Rua do tempo. Rua dali. Rua de lá.
Rua reta. Rua curva. Rua íngreme. Única.
Rua sem nome. Rua de qualquer lugar.
Não te amo nem mais,
nem menos.
Nem te amo
mais ou menos.
Nem morno,
só não amo, simples
mente.
Alma tem olhos
Ohos de ver dentro
Abismos do eu
Cumes do outro
Superfícies de ti
Planícies de mim
Imensidão azul
Conter-te céu
Verter-te mar
Ter-te ar
Azul ser
Luz de mim
Azul sem fim
Respire, respire, respire
que respirar bem é u’a arte.
Respire fundo e se admire,
no vazio arejado se atire.
O ar só quer purificar-te.
No pensar se adquire
o sentir fazendo parte.
Vai saber?
Aliás,ou seja, talvez.
Quem sabe.
Ou não, ou melhor, porque
não há mesmo porque
se tudo tem nada a ver.
Escreva um diário.
No futuro releia o passado.
Será teu confessionário,
registro e relicário.
Depositário não de culpas,
mas de um Eu exorcizado.
Não sabe do mar uma gota.
Não sabe da praia um grão.
Não sabe do céu uma estrela.
Não sabe do sol um raio.
Não sabe do livro uma página.
Não sabe do piano uma tecla.
Não sabe da flor um pólen.
Não sabe da missa a metade.
Como quer saber de mim,
se lhe falta sensibilidade?
Não para saber de minh’alma,
mas para se ver na poesia
como minha cara metade.
Tempo tic
Tempo tac
Passa o tempo
tic-tac
Passatempo
Olha a hora
Tic-tac
Tic-tac
Ponteirinho
e ponteirão
Tic hora
Tac minuto
Sem demora
chegue o tempo
de nossa felicidade
Tic-tac
Tic-tac
Um segundo
de eternidade
Ser toda em um todo: tente!
Enquanto, durante e sempre.
Única, simples, exatamente.
Tu, contigo, em ti, presente.
Agora, já, aqui, urgente.
Tato, coração, fígado, mente.
Tudo ser em si, simplesmente.
No teu jogo de espelhos
tu te deformas.
Tua imagem tem mil formas,
há reflexos reais
do que és, como estás.
Não te olho, não te vejo
e já nem te sinto mais.
Mas só agora percebo,
no teu jogo de espelhos
nuas nuanças por trás,
do que podes ser capaz.
segunda-feira, 29
de maio
Cega,
desmedida, compulsiva,
em altos e baixos se bipolariza.
E oscilante, ora dócil, ora bílis,
agressiva, impulsiva, obsessiva,
me deixa, me esquece, me livra,
me morde, me assopra, ora viva.
E sóbria por dias segue a trilha
de sua contagem depressiva.
Quando ela
se conecta,
eu sou fio terra.
Se
fui?
Já estou
lá.
Ouça.
Não viu?
Tenta,
moça desatenta.
Sentiu?
Podes
escrever certo,
mas as linhas das mãos
são tortas.
Comendo maçã,
de
uma só dentada
plagia
o pecado original.
Convido-a
ao paraíso.
Ela
me proíbe.
Deu a mão à palmatória.
Deu a mão ao oratório.
Deu a mão à ejaculatória.
Deu a mão ao lavatório.
Novo
endereço:
estou em mim,
vivendo comigo
e meus eus
antes teus.
Para o desjejum
desej
um
Recuse o erro.
Acuse-o.
Use-o contra.
E abuse
errando
errante
errôneo
errático
erradio.
Sem errata.
Nós e nossas
confeitarias
imaginárias.
A
dela, de sonhos.
A
minha, suspiros.
Tão
doce viver,
tão
simples gostar,
guloseimas
d’amor.
Iguarias
iguais
não
há.
Pegue a fita métrica.
Meça
o poema.
O
máximo no mínimo.
Quantos
centímetros tem?
É
para mais de metro?
Não
o entender,
mas o emocionar-se.
domingo, 28 de maio
Eu só sei que o que sei
nada
é,
não
dá pé,
nunca
é o que parece,
nada
diz ou esclarece,
nem
mesmo à luz da fé.
Sendo
ético
(e
cético),
mais
que mera explicação
o
saber exige aplicação,
pois
a ciência pura e simples
é
de impotente atuação,
é
ignorante erudição
a
ilustrar o sabichão.
-
Para o aeroporto urgente.
Vou
sair pela tangente.
Quase
socrático
(e
pragmático),
indago
sem conclusão:
-
Se só sei que nada sei,
que
experiência viverei:
do
não-saber sem ação?
E
não-sabendo, terei
livre-arbítrio
ou razão?
O
eu baconiano
(ou
shakespereano),
lança
outra reflexão:
-
Penso: logo existirei.
Se
nada sei, por que serei
o
ser-não-ser em questão?
-
Toca para a rodoviária.
Vou
vazar na braquiária.
Há
uma árvore genea-
lógica de fruto único:
- o da imaginação.
Há senha para isto,
usuário:
penso, loguin,
existo,
sou vário.
sábado, 27 de maio
Amei-te à primeira vista.
Cantei-te
ao pé do ouvido.
Linda
flor que eu cheiro.
Gosto
de ti que dá gosto.
Desde
que te peguei
em todos os sentidos.
Nosso
sexo:
eu todo em ti
e tudo anexo.
Nunca
e sempre:
tu e eu
e a
separação entre.
sexta-feira,
26 de maio
Tem
uma coisa boa
em
uma coisa à-toa
que não destoa nem.
Uma coisa que soa
bem.
Uma coisa meio loa
zen.
Uma coisa que ecoa vem.
Essa coisa é um trem.
Céu vazio.
Éden
frio.
Adão
adio.
Eva
crio.
Eu
vadio.
Ela
cio.
Dio
mio.
Em
Luanda
a Lua
anda
(flutua)
nua
e branda.
Aí estua
e pálida
desanda
grávida
numa cafua
d’África.
Ah, o vaga-lume:
ora aceso ora apagado,
só assim se assume.
Por mais distante que
estejas,
que tu sejas
parte de mim.
Porque ainda que te ausentes,
tu te sentes
assim.
Mais que puro flerte,
realizo-me no sonho
de ainda pertencer-te.
Sou de lua.
Um doido de pedra
que avua.
Com o branco brinco.
Escrevo, risco,
desenho, rabisco,
coloro, pinto.
O branco fica um brinco.
O branco que era branco
e limpo.
Se queres do amor
o amar melhor
com lealdade,
ama,
que do amor amarás
só o bem e a bondade.
Se queres o amar
do amor maior
com leveza,
ama,
que ao amares teu amor
transbordarás em grandeza.
Sangra luz.
Bateu com a cabeça
na ponta
de uma estrela.
Multifacetado
estás?
Estilhaços és?
Fragmentos de ti?
Te sentes em pedaços?
Apenas em partes?
Ora, então vá te catar.
Quem
tem ouvidos