MARÇO DE 2006

sexta-feira, 31 de março

Estou qual noivo de véspera

Só que indeciso quanto ao sim

 

Eu,

outro,

não me sou

 

Sublima

ou ama

aproxima

- ímã 

 

Pensando bem

não sou

de ninguém

Nem teu

nem meu

também

 

Te achei

além

Te pensei

tanto

Te quis

toda

Te amei

muito

Te vi

outra

Te senti

longe

Te deixei

 

Meus poderes de mim. Extraio-os.

Garimpo imagens com as palavras.

Mas é do silêncio que vem a força.

Força de saber-me meu, só comigo

em multifacetada inteireza. E livre.

Mas tão livre mas tão livre tão livre...

 

Faz silêncio, meu olhar.

Não conte coisas de mim.

Não a deixes pensar

que a olhando sou assim:

guloso, sempre a cobiçar;

dela tu te mostras a fim.

Vê se tenta disfarçar...

Pára de me entregar.

 

segunda-feira, 27 de março

Super

supersim

superassim

supersão

supersincero

supersimples

superação

 

A haste entra

na boca do jarro

dá vida à flor

Jorro d’água

vicejador

 

sábado, 25 de março

Meu coração se exulta

e eu te amo e amo-te

te expressando em mim

ou com simples sentir

ou em linguagem culta

 

Se ainda dói

já não dói tanto

e dói de amor

Porquanto

dói de encanto

pois em amor sói

sentir-se em dor

dar-se ao pranto

 

Distância ausência saudade:

trilogia da impossibilidade de tocar-te

tríade a me impor o vazio de ti

terno silencioso de minha incompletude

tríplice aliança adiando a felicidade

 

Molda, com argila

uma mulher (não Eva),

mas outra, menos afoita

e mais dada ao que lhe pedem,

Deus e Adão no Éden.

Que fêmea, não trate com desdém

à cobra também.

Amém!

 

Se me falta coração

ó amada hóspede

em meu peito anfitrião

não posso te abrigar

não tens onde ficar

 

Meus olhos revelam minh’alma

mas ninguém olha em meus olhos

por isso essa alma intacta

que nada tem a ver

e nunca se adapta

Alma que a tudo capta

que sem a visão de mundo

só para si se julga apta

 

Quem souber, me responde:

é aonde a que lugar?

E em que lugar é onde?

 

Dou a cara a tapa

Só não deixo

baterem nas duas faces

E se me acertam o queixo

(pode ser o papa)

ninguém escapa

 

quarta-feira, 22 de março

Partindo do fim recomece

Do fim recomece partindo

Recomece partindo do fim

Recomece

 

Para se guardar

se dê

Para se resguardar

vê se

(ao aguardar)

à sede água dá

 

Ela tem medo

do sol

mas só

à noite

 

Nada fale o falo

ante a prenhez

Pede-se atá-lo

à mudez

Com seu halo

sua nudez

 

Antropofágico sou

Como Tarsila do Amaral

Não como Oswald de Andrade

 

A rosa sem pétalas

O canteiro inútil

dá flor do mal pela raiz

É primavera no deserto

O jardineiro demente delira

- Metralha estraçalha

Cegai ante os lírios

do campo de batalha

Tio Sam qual avô satã

quer fim por Alá

Bang-bang em Bagdá

Vão-se vidas tantas

quantos grãos de areia

 

Te quero

por meus hormônios

por teus neurônios

 

Amar

qual infiltração na parede.

Sede.

 

Morreu

Augusto poeta do Eu

Até aos narizes dos Anjos

fedeu

 

Ela é azul

em tardes pálidas

de dias brancos

 

quinta-feira, 16 de março

Estou à frente do que fui.

Para onde nunca vou.

Não me acompanho.

E, quando sim, sombra sou.

Sobra de mim o ser submerso em si,

sem sol e sal.

Eu contra. Eu pronto.

Eu no ponto de encontro: o final.

Combato-me. Debato comigo.

Estabeleço me vencer.

Escrevo. Apago.

Reescrevo com caligrafia de não ler.

Sigo. Desdigo. A contradição

em dicção de coerências.

Tudo posso e permaneço

na primeira de mil existências.

 

Parto de mim

para nascer eu

e luz de outro

re-viver-me

 

Passarinhos nos olhos

Passarinhos na voz

Passarinhos no peito

Sons encantados

de inefáveis seres

Podia sentir o perfume

de sua alma

Resplandecia toda

Mãe de azul sem fim

 

Há tardes que são maiores

por trazerem lembranças

por condensarem saudade

por pararem relógios

em um tempo passado

exatamente na hora

em que chegaste atrasado

para ver o pôr-do-sol

o enterro do finado

 

Ensina-me

a desaprender

erros de múltiplas

escolhas

 

Vida não há

nas geleiras

do sol

 

sábado, 11 de março

Tua pele.

Que arrepie.

Que queime.

Que gele.

E que frágil

e carente

te revele.

 

Tu e eu

na dança do acasalamento.

Olhares. Gestos. Silêncios.

És uma bússola desorientada.

Sou todos os rumos sem um.

Encontramo-

nus.

 

domingo, 5 de março

Amar?

Nem me diga.

Amor,

não mendiga!

 

Se Fernando Pessoa

era heterossexual?

Sim!

Mas, de seus heterônimos,

qual?

 

A pressa

é amiga

da pressão

 

Eu, catártico,

sou em arte Sol desértico,

sou em parte Sul antártico.

 

Dá um zoom

no invisível.

Vê, no nada

o vazio.

Capta o im-

possível

de teu eu

sensível.

Afaga em ti

o intangível.

 

sábado, 4 de março

Para passar desapercebido

(especialmente por ti)

à tua volta estou escondido.

 

Para o vai

e vem,

walkman.

 

Apresenta-me o amor

e sai de perto.

Apresenta-me o amor

e tudo certo.

- Te apresentarei o amor,

mas fica esperto,

que o amor não planta flor

no deserto.

 

Bebo da chuva alguns pingos.

Sacio minha seca interior.

A vida tem quantos domingos?

Resiste às terças o amor?

Quando estia o sol apela...

Deito âncora ou iço vela?

O futuro é rio ou mar?

Deixo o futuro passar...

 

sexta-feira, 3 de março

O azul:

o arco do horizonte.

O sol

(nascente ou poente):

o alvo.

Teu olhar emocionado:

a flecha.

E, etéreo,

atinge tu a luz

das espirais do caos

da alucinação.

Acalma em ti o ar

e se lança no vácuo

da respiração.

Dói.

Com razão.

 

Miras

o espelho das águas

e vês

não o teu rosto

mas a feição do outro

que tens imaginado

no que anseias ser

 

Sonha o sol

estática luz

de frio raio

 

Indefinidamente

tu

 

quinta-feira, 2 de março

Não diga não

se o teu não soar

nunca

Nem diga sim

se não for para ecoar

sempre

 

Ouça

não o som

mas o teu eu

te pedindo

silêncio

do esvaziar

de ti

 

Te quero simples

para que eu

não complique

tanto

e possas me decifrar

todo

ou quase

 

MARÇO DE 2005

 

domingo, 27 de março

Não há eternidade

nas palavras.

No silêncio,

talvez.

 

terça-feira, 22 de março

asas quebradas

úteis para vôos

dolorosos

 

dentro da pedra

há de durar

algo íntimo

 

sol nascente

em si recente

reacende-se

 

poema 

   em

 

não é vento

não é brisa

é leve carícia

do ar

 

quando canta

sobre o pássaro

uma luz pousa  

 

quantas asas

tem para vôos 

tua imaginação?

 

planta um verso

rega-o e ele

floriversejará

 

ave não há

não havendo na ave 

cantantes vôos

cantos esvoaçantes

 

terça-feira, 22 de março

Carta em versos para a doce amiga

Amiga, estou cativado por tua amizade,
que sem ela eu já não me imagino mais.
Usa sempre comigo de toda sinceridade,
e sem querer ou exigir a exclusividade
(eu respeito tanto a tua individualidade),
só te peço, amiga, a mais total liberdade
para cuidar de tuas feridas sentimentais.

 

Fazer-te feliz é parte da minha felicidade.
Quero ver-te nas nuvens, repleta de paz.
Conte sempre com toda minha lealdade,
juro a observância rigorosa da verdade,
serei íntegro, presente, com intensidade,
perseverante no fortalecer dessa amizade,
sem a qual, repito, não me imagino mais.

 

E no dia em que te sentires bem e curada
das dores que tanto mal te fizeram lá atrás;
quando te ver alegre, rindo, toda animada...
Ê, doce amiga, me sentirei de alma lavada,
meu coração vai bater em total disparada
(ainda não será o momento de dizer nada),
vou transparecer que estarei feliz demais...

 

Tu sabes quanto prezo ser teu bom amigo,
que te sou fiel e o tanto que és admirada...
Quando enfim a dor em ti não tiver abrigo,
e já não mais sofreres por teu amor antigo,
quero ver se então crio coragem e te digo:
é tão perfeito, amiga, te ter sempre comigo,
que sem ti, reafirmo, viver já não consigo...
És mais que  amiga, és musa e namorada...

 

segunda-feira, 21 de março

Mansa Musa

I

Meu olhar se aprofunda no teu.

Superamos a fase das palavras.

Estas agora são desnecessárias.

Nossas almas já se pronunciam

em pleno silêncio que tudo diz.

Transcendemo-nos em uma paz

absoluta de almas em harmonia, 

almas tocadas em dom de amor.        

 

II

Eu te amo com esse amor que sei amar.

Amor difícil, amor tão simples, amor-amor.  

Amor que vê além do visto e a si percebe,

amor-saudade, amor-desejo, amor-amigo,

amor sem data, amor sem planos, amortecido

no coração que nada pede e só se dá. 

Eu te amo, amando assim a tudo e todos,

com esse amor que a ti declaro pelo olhar.     

 

III

Tão bela assim irradiando beleza em mim.

Vejo-te céu, te sinto sol, te quero ar...

Fico tranqüilo se ao meu lado estás calma,

tranqüila ficas se de alma estou ao lado teu.

Misturamos-nos em energia de luz na pele,

em cinco sentidos aguçados pela emoção.

Única és e a ti pertenço em livre escolha.

A ti pertenço, mínimo ser em tua imensidão.

 

IV

Sei do que muito que te calas, preservas-me do ciúme

que tenho de ti, qual perceptivo bicho macho enfezado,

livre em cios pelos campos insondáveis da natureza,

farejando sua fêmea entre todas das outras espécies.

Já não só te desejo, que somente desejar-te não contenta.

Devoro-te feroz, indomável, faminto, quase desesperado,

com a singeleza e mansidão de meus olhares extasiados,

atentos olhares que te vigiam a espreguiçar pela relva .       

 

V

Ainda que eu te ame em íntimos e febris desatinos,

em sigilo no peito contenho a grandeza desse amor,

onde, mesmo impossível, tento esconder um sol...

Mas seus raios espargem, seus raios fulguram, inundam

meus olhos quando fitam os teus. E ensolarada te calas,

irradias ternura, solar criatura, vida em paz, Mansa Musa.

Eu te amo em mim, te amo comigo, em nascente e poente.

Meu sol és tu, fêmea só alma, amada-amiga, sereno-amor.

 

domingo, 20 de março

No geriatra

- Diga 33, rapaz!

- Isso eu já disse

11 anos atrás...

 

Gugú dadá

Tenho 4 anos.

A vida começa

aos 40.

 

Revisão

Se herrei,

agora está tudo

assertado.

 

quinta-feira, 17 de março

E com teu ar de musa

tu dizes tirar o chapéu

para minha inspiração

Mas sendo tu minha fonte

eu quero é te tirar o fôlego

eu quero é te deixar sem chão

 

Dentro

vazio não há.

É fora

que o vazio está.

Vazio a preencher.

Vazio a completar.

Vazio a exceder.

Vazio a rechear.

Não há vazio.

Há o dentro

por esvaziar.

 

O que tenho?

A falta de não ter,

e, não tendo, querer

sem poder.

Ah, como eu queria

um bem-querer

que me tivesse

e a ela eu até pudesse

- acaso quisesse -

perder.

 

Habitas-me toda com tua ausência,

com teu silêncio na distância. 

Talvez, por isso, esteja eu ao relento

te abrigando na falta sem espaço-tempo.

 

O fogo dentro. Ardor. Dormência.

O fogo doente da chama sem luz.

O fogo com saudade da fagulha.

A mínima centelha oculta e acesa.

O fogo do delírio. Fogo da febre.  

Devorador de desejos incendiários

consome-se inflamável em mim.

Exalo-me. Eu incenso. Cinzas sou.

 

terça-feira, 15 de março

De nada me lembro. De nada. Apaguei

as intangíveis acontecências de outrora

e também as de ontem. Trago comigo

apenas e tão-somente essas de agora,

presentes, que já serão desmemórias.

Resumi a nada lembranças imprecisas.

Desnecessárias lembranças passadas. 

Eu, por mim, em esquecimento indolor.

Se te esqueci? Mas acaso exististes?

Confronto-me e quão descuidado sou.    

E fostes distraída – tanto que proíbo

a luz de vazar sobre a nossa história.  

Tua distração apagou o núcleo do sol.

Sem brilho e calor, na insignificância

nos perdemos para além da memória.

 

Não-amar,

objeto de não-amor.

Desiludir-se por não sentir.

O aprofundar-se cauteloso

nas turvas águas do desconhecido.

O que é amor? – Vos pergunto,

ó afoitas amantíssimas - 

e vós mudais de assunto.

Acaso sentis, confusas,

no intraduzível, desejos,

como é próprio das musas?

Ou, como eu, apenas pensam

deixando que o não-sentir

e o não-saber vos convençam?  

Não-amar,

predicado de não-sofrer.

 

sexta-feira, 11 de março

Tudo é este momento. Absolutamente!

O já é instantâneo. A vida é presente.

O antes vivido, passado – se não lembrado

foi esquecido, deixado, ficado, está perdido...

O agora, sem demora, imediatamente,

sem anterior, antecipação ou subseqüente.

É logo - como algo fugaz, impermanente. 

O agora é marcante, determinantemente

categórico, decisivo, aqui, exato, urgente.

Tudo neste momento. Indiscutivelmente!

 

Para a resposta vir a tona

questiona

Se a resposta confirma

afirma

Se a confirmação repercute

discute

Sendo a repercussão controversa

desconversa

Se a controvérsia for sensata

acata

E ao acatar seja decidida

querida

 

                                 p/ Telma Slywitch

Construirei teu castelo

com tijolos e telhas

de tua Monte Carmelo

 

quinta-feira, 10 de março

Eu te amo sabendo não saber amar,

sem a exata noção do que é o amor.

E não tendo certeza, penso em sentir

o que apenas sentindo posso pensar, 

que mesmo amor não sendo, e não é,

talvez amor seja se eu assim desejar.

Porque só desejado o amor tem sido

um pensamento sem o menor sentido,

um sentimento maior pra se imaginar. 

E pensando amar sei que não te amo, 

e te amando te sinto sem amor te dar.

 

Se eu digo o contrário

- insignifico, indefino -

Sou meu anti-dicionário

 

quarta-feira, 9 de março

Mergulha em mim

com profundidade 

até te faltar o ar

Vou te ensinar

sob minhas águas

respirar 

 

À flor de minha pele

colhes em meus poros

pólens 

 

Assim tão lento

e tão levinho

Não sou moinho

Sou cata-vento 

Giro sozinho

Me movimento

Teu redemoinho  

é meu alento

 

Aliás

Serei breve

Por falar nisso

Conforme ia dizendo

De modo que pode ser

Não necessariamente assim

Já nem sei mais o que te dizer

Fiz um minuto de silêncio a vida toda

E é sempre com os olhos que tenho te dito

 

O amor

é feito de feitos

e dos efeitos

que o amor traz

E ainda que tenha

defeitos

com efeito

o amor se faz

E uma vez aceito

no peito

o amor tem direito

à paz

 

Mesmo a toque de caixa

que este toque de tecla

te toque

 

Saudade é o que, na vida

vira fotografia,

com o tempo amarelecida

 

Deu um salto mortal

E não é que acordou

para a vida, afinal

 

Mais que virtual, platônico,

o amor abastece a caixa

de teu correio eletrônico

 

Delete-me

e não

deleite-se

 

A luz do insight poético

azul e zen

lança no vácuo negro

do espaço cibernético

pelo rompe nuvem

 

Viciado em palavras

trago-as para que teu peito

se polua de emoção

Cheiro-as para que te falte ar

em inspirada respiração

Injeto-as e pegam na veia

que liga a mente ao coração

 

terça-feira, 8 de março (Dia Internacional da Mulher)

Às mulheres, com todo amor

(e muito humor)

 

I

Mulher bonita,

bem vestida,

é desejada nua.

 

II

Repara como as diferenças

entre as mulheres

não são muito desiguais.

 

III

As mulheres

querem se igualar aos homens.

Estes, por seu lado,

podem ir tratando de superá-las.

 

IV

Só as mulheres podem

ser boas pela metade.

 

V

Quer coisa mais fora de moda

para a mulher

do que roupa?!

 

VI

Uma mulher

sem pés nem cabeça,

ainda assim tem

a melhor parte.

 

VII

Mulher:

desde a infância

sua beleza infantil

já esboça uma arte-final adulta.

 

VIII

Por trás da montanha

em formato de mulher deitada

o sol se levanta.

 

IX

No meio do homem

tem um eMe

de mulher.

 

X

Os homens são o sal da terra.

As mulheres,

o açúcar.

 

XI

Na mulher,

a idade vai,

a vaidade fica.

 

XII

A beleza feminina

independe do cosmético.

 

XIII

Mulher:

evolução da espécie

ou ovulação da espécie?

 

XIV

Todas as mulheres nascem iguais.

Só que algumas podem

fazer cirurgia plástica.

 

XV

Deus fez a mulher da costela...

Mas saiu cada filé mignon...

 

XVI

Contra todas as grifes,

uma bela mulher nua fecha

todas as butiques.

 

XVII

Mulher de cama e fogão...

Mas sobretudo

fogosa na cama.

 

XVIII

A diferença sexual entre homem e mulher

é que o homem aparentemente é mais duro

e a mulher é intimamente profunda.

 

XIX

Mulher de cego

não é vaidosa.

 

XX

Mulher,

quando cai na vida,

deita e rola.

 

XXI

Há dois tipos de mulheres:

umas

e

outras, 

as vivas

e

as mais vivas.

 

XXII

Mulher

nunca sai de moda.

 

XXIII

Mulher não é presa fácil.

Mas, uma vez presa

é difícil...

 

XXIV

Mulher que libera

homem nenhum lidera.

 

sábado, 5 de março

Toma, é teu este cetro.

Nele encaixa teu centro.

Junção perfeita, única.

Voracidade no reino.

Senta no trono, rainha.

Ordena: “Vem, prazer!”

Delicia-te com teu súdito,

ó predileta, íntima, louca.

O céu em mim, para ti.

Soberana, usufrui, goza

a plenitude de teu poder.
Fabrico mel, sou artesão,

ourives e teu usufruto.

O que me pedires, alteza,

com gosto farei, humilde.

Fico aqui, deitado, rente

ao infinito, enlevado, doce,

leve a cavoucar os cantos

de tua caverna de realeza,

meu palácio de prazeres.

 

sexta-feira, 4 de março

não toco flauta

não leio pauta

mas assovio

eu-pássaro

nota solta

no fio

 

não te excluo

não te concluo

que sem ti não fluo

que sem ti recuo

contigo me hidrato suo

me uno e sou duo

 

com a cara

e a coragem

sou todo coração

 

desfolhá-la

pétala

a

pétala

sem pé

nem cabeça 

até

 

te ver por dentro

te ter adentro

te ser o centro

te concentro

entro

 

sonha

na cama

      ama

vá de cabeça

mas preserva-te

não ponha

travesseiro

sem fronha

 

aprenda a dizer sim

compreenda a extensão do sim

estenda o sim a outro sim

desvenda cada não em si ao sim 

venda os olhos do talvez sim

renda ao impossível final sem sim

surpreenda sempre com um sim

entenda que todo sim significa sim

 

de segredos entende a noite

em seu noturno de ocultações

portanto um amor revelado

amor às claras só faz brilhar

luz-amor incandescente 

os astros se constrangem

o sol se esparge todo inibido 

lua estrelas perdidas no véu

mas tudo ganha intensidade

explosão de resplandecências

esplendor cintilação suntuosidade

vivacidade limpidez claridade  

meu amor por ti mulher-celeste

meu amor por ti Terra-mulher

me irradia dá expressividade

luz que me dás ou que em ti reste

luz que refletes e meu abismo quer

 

MARÇO DE 2004

 

quarta-feira, 31 de março de 2004

o pensamento
com endereço certo
nem longe
nem perto
com ela
dentro de mim

mais que te encontrar
me reencontrei
em ti sou
contigo me sei
mais eu e meu
me dou
sou teu

 

na noite dos generais

bati continência

à liberdade

às escondidas

em um porão

t(r)emendo

e se eles tramam

outra involução?

e se sob nossos pés

desaparece o chão?

40 anos depois

o dia amanheceu

com raios fúlgidos

os fardados acordaram

de ressaca

do vinho safra 64

 

domingo, 28 de março

imagino-te toda de branco

tocando piano no ar

a música inebria

a faz levitar

ave!clave

 

o silêncio

é mudo

ou inaudível?

responde

oh (in)sensível

 

ao ver

o arco-íris

se emocionou

chorou

uma lágrima

de cada cor

 

lancei

uma caravela

no mar bravio

e não desbravado

de minha vida

ao longe

pus-me à vista

e então descobri:

o mar não é meu

eu é que sou

sua frágil ilha

 

aqui dentro

olhos de escuridão

nem piscam

emoções tardias

faíscam

versos livres e brancos

se rabiscam

e tudo se esclarece

 

sou aquele

espantalho

da plantação

de alface

que ficou amigo

dos passarinhos

- é isso afinal que valho

não os atrapalho

não me dou ao trabalho

 

poesia

poesia

poesia

 

posso te dar

o meu mundo

mas pra quê?

se és capaz

de excluir-me

dele

 

chatice?

já te disse!

é quando até viver

a esmo

longe

ou consigo

mesmo

passa a ser

uma mesmice

 

parto do princípio

de que não me nasci

me pari

então me existo

a partir daí

e eis-me eu aqui

 

não está aqui

nem exatamente ali

lá não está

e não estará aí

se esteve não vi

se tivesse perdi

se é este ou esta – e daí?

só sei o que sei

e escrevi

indo ou estando

não li

nem toda minha poesia

vivi

 

sexta-feira, 26 de março

é como se de repente

numa tarde ensolarada

de céu azul até demais

uma ave branca sobrevoasse

a vasta superfície branca

de flores de algodoais

flores de cafezais

flores de laranjais

e branquíssimos rosais

e essa ave branca e já cega

misturada à claridade toda

revelasse no peito uma ferida

deixando cair sobre a alvura

uma gota de sangue e outras mais

se debatendo com asas frágeis

quedando-se livre e sem forças

sangrando em silêncio e em paz

estendida entre flores manchadas

flores de algodoais

flores de cafezais

flores de laranjais

e branquíssimos rosais

regadas com o sangue da ave

que branca entre o branco jaz

 

que mar

que nada

uma gota

de lágrima

não chorada

fonte ressacada

para não regar nada

 

o ato

de conhecer

o outro

no desconhecido

de ti

é reconhecer-se

 

perdido

dentro de mim

hospedo-me na alma do eu 

então deparo com o mundo

orbitando o íntimo e vasto

universo irreconhecível

de desejos e emoções

sensações desencontradas

de meu ser habilitado

a se procurar em si

viajando sem lugar e abrigo

enquanto à sua espera estou

noite e dia ao sol e à chuva

fechadas todas as portas e janelas

da imensa casa desabitada

de meu corpo evasivo e vazio

sem ti

 

saudade:

palavra só brasileira

mas o mundo todo

a sente

- já a felicidade

é universal

da qual todo mundo

é carente

 

rebento

é vento

dentro

do ventre

 

quando a pedra

sonha ser nuvem

é louca de

 

um peixe

que nunca se molhou

e nem respirou

fora d’água

 

tirei do bolso

o caquinho da estrela

que sem querer quebrei

quando nela me esbarrei

no devaneio da noite

 

com teu ouvido

colado ao chão

ouvirás meu caminhar

solo

 

ir

longe demais

até onde

jamais se chegará

 

quarta-feira, 24 de março

o que há

para se contemplar

numa flor?

beleza

pólen

cheiro

néctar

cor

mais a abelha

e o beija-flor

 

há quem come

sem gosto

e sem sobrenome

sem pasto

e sem pronome

sem rosto

e sem nome

há quem come

o que lhe resta

da própria fome

 

lancei âncora

sem navio

e sem mar

icei velas

sem vento

e sem porto

para ancorar

 

destes um tempo

agora é o tempo

que não te permite

porque há o momento

do tempo ser o limite

em que claro ou cinzento

e não se julgando isento 

te ordena: não me evite

 

domingo, 21 de março

nuvenzinhas

põe a mão aqui

sentiu?

percebe agora?

acredita em mim?

viu o tamanho da cicatriz?

nada mais há de me ferir assim

nunca

então desiste

não insiste

que para continuar existindo

resisto

apago todas as estrelas à noite 

 

o poeta maior

brigou com o poeta menor

de inspirada pontaria

este pegou uma funda

e tacou uma pedra bem na testa

do golias da poesia

 

teus olhos

emolduram paisagens

ao vê-los me enxergo

no todo

 

a menina em flor

nem sonha

mas em si

a mulher por vir 

frutificará

 

o ventre

tem luz

de sóis

vivos

 

pode sonhar

só não ouse

a anti-realidade

 

não demoro

mas não me espere

pois não sei voltar

 

não quero ir

já fui

estou por aí

 

amor

t(e)umor

t(u)emor

 

a galope desenfreado

em cavalo sem rédeas

sem crinas

e em pêlo

o menino vai

ao vento-futuro

 

sábado, 20 de março

escritos do breviário

 da perda de tempo

simplifica

com incertas

dúvidas

tua esclarecida

cegueira

e resolve

pela indecisão

se te achas

perdida

 

o infinito

mal cabe

em si

 

a distância

é grande

e o chegar

não existe

 

ela chorou

- sorry

 

de ti

só tua ausência

comparece

 

no relógio

as horas

no calendário

os dias

no tempo

a ausência

no mapa

o silêncio

 

o centro

de todo alvo

não é branco

 

é do ovo

é da galinha

pena

e casquinha

 

um pé

de página

no chão

um cabeçalho

nas nuvens

 

mais cedo

ou mais tarde

a manhã

desce

a noite

tece

e amanhece

e anoitece

 

sobre

o nada

já se disse

tudo

porém

de modo

mudo

qual vazio

dentro

de escudo

 

o meio

é o centro

o recheio

o dentro

no meio

me nucleio

 

cocacola

cocacola

cocacola

cocacola

cocacola

cocacola

 

o que é

um ponto

de interrogação?

boa pergunta

 

til

rabinho

de cão

 

nunca diga 

nunca diga nunca

nunca diga nunca diga

 

uma coisa

de cada vez

cada coisa

uma vez

cada uma

 

3 x 4

p & b

assim

te retrato

 

o

verso

se

vira

 

a flauta

é feita

de sopro

 

a última

morada

fica no térreo

mas é soterrada

 

pôs

sim

pois

não

 

parou

ímpar

 

língua

solta

não sai

da boca

 

i n t e r m i n á v

 

em parte

ando

meio

completamente

inteirado

do todo

de tudo

pelas metades

 

a maioria

silenciosa

não faz

o menor

barulho

antes

torna

o silêncio

maior

 

penso tanto

que penso em tudo

e tanto penso

que não-pensar

nem tento

 

sou

um idealista

com uma lista

de idéias

à venda

 

faça o contrário

ainda que seja

desnecessário

 

todo narcisista

se ama

à primeira vista

se vê

em revista

não há narcisista

que à própria beleza

resista

 

teus atrasos

já não me deixam

a esperar

 

uns vão

de vinho

seco

eu sou mais

instinto

 

não mais

me tens

a tiracolo

agora vou

em vôo solo

 

gêmeos

filhos

em duas

vias

 

queria descobrir

o brasil

mas por acaso

o cabral

chegou antes

 

a noite

mais noite

funde

o abismo

de seus breus

na profundeza

dos teus

e meus

 

sexta-feira, 19 de março

na aba

o chapéu

se acaba

 

andorinha no fio

escutou

um assovio

tremendo

de frio

 

lennon de kymono?

coisa da senhora

ono

 

de manhã guarde

um raio de sol

pra de tarde

 

o escuro

é seco

é duro

é denso

é muro

 

fonte

de suor:

a fronte

 

memória:

mental

história

 

é permitido

ir

sem ter sido

ser

tendo ido

 

quarta-feira, 17 de março

ela se vai

se esvai

bay bay 

sai

ai

 

moro em mim

sou meu hóspede

não tenho cômodos

sou destelhado

estou sem chão

ninguém me visita

não sei meu endereço

mas até que sou caseiro

 

não pense

que eu não penso

que assim pensando

terei outros pensamentos  

e conseqüentemente lembranças

e sabes o quanto doem as recordações

penso sim no que foi bom no que é ruim

 

atirei 1 pau no gato

mas o gato achou barato

mercenário e ingrato

1 pau era nosso trato

mais que isso é destrato

seu rato

 

água

molha

pedra

dura

 

não gorjeiam

como aqui

sanhaço

e bem-te-vi

não gorjeiam

como aí

seriema e juriti 

não gorjeiam

como lá

urubu e carcará

 

terça-feira, 16 de março

Os longe das geraes

 

i g u a i s

em

i g u a i s

e

i g u a i s

 

ah

os ensinamentos

do nada a aprender

apenas vivendo

 

no mais

tudo está por vir

espera

tenha calma

- a paz

o existir

a primavera

se abrem em tua alma

 

imenso deserto pela frente

atravessá-lo com a missão  

de não deixar derreter

essa pedra de gelo

nem murchar essa flor

e que eu não sobreviva

ao sol causticante

 

pode fechar

a porta do palácio

o povo não quer entrar

a desilusão é tanta

que todo teu deslumbramento

nem chega a nossos pés

coleciona tuas moscas azuis

dê-lhes o alimento da vaidade

é um sentimento sonolento

esse que reflete nosso desalento

e expõe teu despreparo e limitações

e resume pelos anos vindouros

todas as tuas contradições

e quanto ao nosso desespero

esquece – sempre se renovará

em esperanças

 

ê passarinho

voou hein?!

te vi bem

 

pinça

de tudo

que pensa

o que compensa

 

na véspera

vésper

a estrela

negou luz

à minha espera

 

deus

não estava

mais a fim

desse mundo

não vês

que mandou tudo

pro espaço?

 

segunda-feira, 15 de março

sete vidas:

uma

para cada dia

da semana

 

já não fazes falta

sofri muito

mas recebi alta

 

a ausência

não veio

manteve-se

o vazio

 

vive todo o ano

mas vive-o

no cotidiano

 

ela

por qualquer coisa vira bicho

diz cobras e lagartos

solta os cachorros

é uma caixa de marimbondos

um verdadeiro jacá de gatos

chora lágrimas de crocodilo

dá abraços de tamanduá

insiste no pulo do gato

e gosta de mim pacas

eu

amo de um jeito animal

tenho memória de elefante

dou boiada e não saio da briga

não gosto de papo de aranha

sou livre qual passarinho

manso que nem pardal

todo dia mato um leão

tenho estado com a macaca

em matéria de amor sou besta

ela

não quer soltar a franga

e eu

e eu doido pra afogar o ganso 

ambos

damos com os burros n’água

 

ônibus:

peguei o circular sul

da linha 650

branco de listra azul

 

só resta um caminho

não vou - volto

sozinho

 
domingo, 14 de março

d r o p s

minha inocência

não é de deixar

pistas

 

insone

não conto carneiros

conto dollys

 

não sou de recuar

avanço

para te alcançar

não descanso

se me cansar

não te alcanço

 

desde anteontem

do ontem

descuido do hoje

deixo o amanhã

pra depois do depois

de amanhã

e assim há dias

venho adiando tudo

 

o que resta

do homem

vermes

consomem

 

meu doce

amor

te deixa

melada

sou teu

zangão

rainha

amada

 

ela

fera

faminta

ele

bicho

papão

ela

salva

ele

são

 

te perder

dói

me tortura

me desampara

me fode

me lembra

um pau-de-arara

do doi-codi 

 

anda

à solta

dando

sopa

tirando

a roupa

ficando

louca

 

agora que me perdeste

não desespere

fica fria

fria como sempre

se meu calor

te sufocava

com tua frieza

eu suava

 

fim da relação

basta de ralação

nada de felação

chega de apelação

o sim do fim é não

 

escreveu

ofitaumologia 

(foi erro de revisão)

 

o homem

evoluiu

das cavernas

às tabernas

às casernas

 

na vertical

veste

a moda

na horizontal

nua

e foda

 

todo tantã

é louco

por divã

e maluco

por diazepan

 

aquela aeromoça

- que avião

me levou às alturas

viajei em seu jeito

avoado

 

os dias contados

nos anos por vir

nos meses passados

dias e dias vários

chuvosos ensolarados

a preencher calendários

 

timão

deus é fiel

a gaviões

também

 

diuturno pastor

campeio nuvens

apascento estrelas

halley é meu cajado

 

conforme for

me conforma a dor

e nela confirmo o amor

e me conforto

e o comporto

 

cairá numa quinta

o 21 de abril

enforcarei a sexta

descobrirei o brasil

 

vi a fotografia

em preto em branco

de pelé e garrincha

 

das duas

uma:

te amar

nem pensar

só sentir

ou

te amar

vou pensar

em não sentir

 

de

deus

deu

deus

deus

deus

 

sábado, 13 de março

ao universo

       uni

    pelo verso

 

meu coração sem cerca

latifúndio improdutivo

espera a invasão

sonha ver implantada

em seu chão-paixão

a agrária reforma

amorosa

 

sou improviso

meu dia vem

sem aviso

penso muito

sou conciso

um comum

anti-narciso

um sísifo

de granizo

subindo indo

impreciso 

pés de pássaro  

no guiso

pedindo a cristo 

um sorriso

ele nunca riu

nem na terra

nem no paraíso

amém senhor

juízo

 

à noite

na distância

acabo de ver a luz

e ela está apagada

 

já me senti lá

hoje não vou

do lado de cá

é que sou

aí não me há

aqui estou

de ti não será

o nada que dou

 

o contrário de

nem sempre é

porque talvez sim

mas vai que

e não pode ser

quer que eu repita?

quem sabe um dia

 

uma coisa é incompleta se não completa outra coisa

cabeça feita nesse universo que é o inverso das pessoas

todo cuidado muito obrigado pouco importa essa revolta

a vida é um anjo natimorto jogado no esgoto da fadiga

pode parecer pura bobagem mas tua imagem é uma miragem

ser ovelha negra no rebanho ser ovelha branca é comum e estranho

parece difícil na verdade nem toda mentira ser falsidade

de que vale o nome liberdade sem o conceito de ser livre

vou repetir tudo que disse e não entendi mas esclareci

que o entendimento depende de todos depende de nós

 

então há um fim?

que venha como for

e quando quiser

e vier

- tem sido assim

desde que vim -

mas sem dor

se der

 

como maestro

do Si

eu me orquestro

 

meu mar

cabe todo

em teu barco

 

em fuga da lembrança

refugia-te em pensar

esconde-te do sentir

perdida

mente

 

pouco é menos

podendo ser

quase nada

ou o mínimo

ou um tanto

mais que necessário

para tudo que temos

e não nos damos

 

quinta-feira, 11 de março

existo em ti

insisto por ti

resisto a ti

assisto-te

persisto por ti

consisto-me em ti

desisto de ti

invisto em mim

 

 

s e r
    

hiperbreves

se a profundidade

de meu silêncio

não podes ouvir

como queres que eu

te fale?

 

estou encostado

na montanha

ou será ela apoiada

em mim?

 

quarta-feira, 10 de março

tudo na maior calma

sem trama e trauma

- um corpo só alma

só a cama nos salva

 

eu não moraria

eu fugiria

à luz do dia

pois vivesse eu

em teus olhos

tu jamais os abriria

e isso nos cegaria

e só o não viver

nos veria

 

talvez: o amor se prolonga

na ausência de seu aprofundar-se

mas sem esperança se retrai em desânimo

perde força o amor resigna-se ao silêncio

e sobrevive na falta do que reclama

respira nostalgia o amor a felicidade in

até que alguma música traga a letra

com sua história que não era para ter fim

afaste-se do amor deixe-o só em sua luta

pelo prolongamento da impossibilidade

e talvez (talvez) o amor não mais nos ameace

 

é uma janela amarela

é o sol batendo no portal

irradiando sentimental

plenitude e saudade

ou será ela

debruçada sobre a cidade?

 

no interior da sombra

faz-se o inimaginável

o núcleo é escuro puro

eterniza-se o invisível

o nada é impalpável

no oco no vazio no vão

tudo sendo e inexistindo

 

faz muito calor

mas acende o fogo

deixa arder no ar parado

o mormaço dessa noite febril

traz os agasalhos e dá cá teus abraços

me sufoca me faz queimar me consome em ti

depois espalha minhas cinzas num deserto qualquer 

meu suor será teu magma me lava em estanho derretido

 

pátria amada

de acentos e cedilhas

regionalizada

em ilhas

contextualizada

em pilhas

versificada

em redondilhas

pronunciada

às maravilhas

recriada

mãe de mil filhas

interditada

pela trilhas

aportuguesada

milhas e milhas

língua minguada

de acentos e cedilhas

 

o outro eu

não sou eu no outro

nem o outro em mim

são duas pessoas

em uma única

fugindo de si

e se desencontrando

sempre por aí

 

há muito repito em breve

há muito exclamo pra já

há muito afirmo aguarde

há muito grito eu vou

há muito sussurro estou indo

há muito cochicho sem eira

há muito falo sem nexo

eu chego me espere calma

há muito digo e não faço

e só o que faço é dizer

que há muito

sinto tanto

 

domingo, 7 de março

assim

o espelho

te espelha:

a jovial face

de outrora 

já se vislumbra

velha

 

desatinado

fotografei uma ex

na minha rolleyflex

ela revelou-se prafrentex

e muito sex

 

amiga:

tenho evitado te ver

anda baixa minha guarda

acho que estou sendo invadido 

por incontido desejo

o inimigo maior do platônico

amor

 

não sou

de pensar

tanto

(não em quê

e sim em quem)

pensar faz bem

desde que seja

em alguém

que não nos lembre

ninguém

 

quase vivemos

a fração inteira

de um segundo

eterno

mas fostes antes

 

tivesse eu

todas as palavras

ainda assim

me faltaria alguma

ou não vês

que meus olhos

que tanto falaram

já nada mais dizem?

 

logo que nasci

um anjo torto

(por não querer

andar sozinho

me levou

pro mau caminho)

desde então o doidinho

me ensinou direitinho

a ser anjinho

 

viver

em Goiânia

requer

ima

gyn

ação

 

entre pronunciar

ou escrever

teu nome

grafo-o

com desvelo

gravo-o

qual selo

mas teu desmazelo

me diz para esquecê-lo

 

quer

ser

imensa

em

mim?

me

faz

pensar

em

ti

 

oferecendo-me fosso

tenra idade empunho

já sem alvoroço

vem aí mais um junho

corroendo dorsal osso

o frio pedindo endosso

lhe darei meu testemunho:

- quero viver inda sou moço

ainda é tudo rascunho

a vida apenas esboço

escalo cá dentro seu poço

com gana suas paredes unho

 

não sei saber

e se soubesse

me saberia

não um sabichão

não um sabe-tudo

não um sabedor

ou um poço de sabedoria

quem sabe um sábio

que só sabia

(qualidade rara)

tirar proveito do que ouvia

e sempre ignorara

 

saudade

é o que está

fora

de alcance

 

se morrer

louco

acho é pouco

 

tem muito de boca

na pronúncia

tem palavra na voz

tem mensagem

para ser entendida

“haja luz” e luz houve

um mundo se cria ao dizer

falar transforma o silêncio

transmitir os códigos do ser

deixar o olhar falar

o corpo com seu discurso

os gestos têm tradução

letras sílabas palavras e frases

perfuram o aço de qualquer escudo

do nada do vazio do cheio do tudo

do cego do surdo do mudo

 

se é pra ser realista

sonhe

se é pra acreditar

reinvente

tente

se sustente

no ar

se alimente

no respirar 

 

ficas toda inibida

é que quando te olho

é com desejo

que te vejo

meu olhar voraz

te deixa despida 

 

tão intenso

que vai do leve-suspenso

ao peso-tenso

quando penso

 

teu olhar

me possui

e num piscar

me dilui

ao me chamar

fui

 

quinta-feira, 4 de março

já que nada

e nada e nada 

te atinge

ao menos finge

ao menos finge

 

em outra não caio

do casulo não saio

não entro em balaio

nem galopo meu baio

meu medo não traio

meu silêncio não vaio

então nada subtraio

não cairá outro raio

e se insistir espraio

 

como minhas carícias

são destras

ela adormeceu

suspirante

sonhadora e carente

em meu ombro esquerdo

corto a tarde ao meio

sangra no mormaço

seu veio desolado

sua lentidão ofegante

respira a dor do céu

revira-se ao sol e cai

a tarde não era azul

desejos não tive

a não ser dividi-la

para a morte tranqüila

 

na hora

certa

chegarei

atrasado

 

morro

de medo

vivo com medo

da morte

 

fotografe

a chuva

com flashes

relâmpagos

 

dependendo

da posição

do ponteirinho

e do ponteirão

saberás

que horas são

 

anjos escolhem

namoradas na Terra

Angélica morreu

 

diminuiu

a paixão

minúsculo

tesão

 

- Cabral

o descobridor

do Brasil?

- não!

aquele é o Pedro

falo do João

o reinventor

da poesia-pátria

da pedra no feijão

 

morte

sono profundo

hiberna

ó eterna

em tua casa

essa cova

rasa

 

quebrado

o encantamento

cortei-me

em teus olhos

de vidro

(vê – e estanca

o sangramento

na noite branca)

 

arrisca-te

dá o salto

para o vazio

de mim

com a certeza

de que jamais

espatifarás

no que sou

pois meu nada 

é sem fim

 

recebi

as amostras grátis

Deus lhe pague

 

instantânea

apressada

fotográfica

desinteressada

minha poesia

mais que fácil

é dada

 

quero uma poesia

boa de prosa

menos pastosa

que leitosa

que assim o leitor

entrosa

e as espermoletras

de sua masturleitura

goza

 

se são

trocadilhos

e não epigramas

são

e aos quilos

 

fugindo da verdade

mantendo a fantasia

e sendo essa tonta

serás assim coroada

no reino do faz-de-conta

a rainha da translucidez

na estória de era uma vez

 

tudo é leveza

se estás de vestido azul

se soltas teus cabelos

e teu sorriso se abre na planície

de meu corpo serenado te sabendo minha

te pertencer é não conhecer inverno

é levitar de humildade e vida

partindo sem ida

indo sem despedida

te tendo como um amor

de amiga

 

como bardo 

tardo

pego o atalho

como dilema

de ato falho

e como tema

me valho

do sistema

e nele espalho

feito poema

o meu cascalho

 

o olho

a me ver

não escolho

mas ao me olhar

posso fazê-lo

não me notar

em imperceptível

desvelo

do eu invisível

 

quarta-feira, 3 de março

o poeta é um mentiroso

mente tão convincentemente

que pode se fingir de choroso

e gargalhar intimamente

um conhecido portuga custoso

assim o era pessoalmente

 

tece a manhã

faz de raios de sol

fios de lã

 

sendo tu do bem

             tudo bem

             tudo bem

       

quer uma frase

de auto-ajuda?

- se acuda!

 

quando venta

vôo

ou melhor

vou

 

daqui a pouco

já será

agora mesmo

e logo ali

está chegando

 

na linha

do horizonte

prendo

minha pipa

solta

 

hai kai balão

numa rua

do Japão

 

em movimento

apressa-te

lento

 

terça-feira, 2 de março

cheguei tão perto

para vê-las

que esse cisco

em meu olho

é pura poeira

de estrelas

 

a lua

na poça d’água

longe de suas crateras

reflete-se em uma das ruas

da Terra chuvosa

 

quem sou

senão eu

no espelho

me vendo?

eu sou um ser

me espelhando

e não sendo

 

asas

ao chão

raízes

ao céu

aqui e lá

aonde vá 

vou em vão

e ao léu

 

de teus seios

sei os

caminhos

e quero

a teus mamilos

mamá-los

 

segunda-feira, 1º de março

mudança (frete)

 

mudei

depois que caí

do caminhão

 

ando distante

 

tentou bater de frente

comigo

e nesse exato momento

deu de testa

com meu alheamento

 

avisando

 

antes de bater

saiba:

dos dois lados

de minha face

um é címbalo 

e se abafa

o outro borracha

e ecoa

 

nossos corações

 

meu coração

de moço

tem osso

teu coração

de moça

tem louça

ambos

quebrados

 

análise

 

quanto mais curto

o poema

tanto mais fácil

explicar a vida

afinal tão breve

e por demais fugaz

 

news today

 

a imprensa

quarto poder?

sim

de 5ª categoria

 

cristantã

 

existe salvação

mas morre

primeiro

e só depois

descobrirás

 

cardápio

 

engole a fome

e estarás de barriga

cheia

saciado de necessidades

 

absoluta

 

a vida

livro por escrever

ficção pura

legítima realidade

à espera da morte

a dona da verdade

 

revisited

 

sempre que atravesso

uma rua

qualquer uma

não sei por quê

mas me sinto