MARÇO DE 2006

sexta-feira, 31 de março

Estou qual noivo de véspera

Só que indeciso quanto ao sim

 

Eu,

outro,

não me sou

 

Sublima

ou ama

aproxima

- ímã 

 

Pensando bem

não sou

de ninguém

Nem teu

nem meu

também

 

Te achei

além

Te pensei

tanto

Te quis

toda

Te amei

muito

Te vi

outra

Te senti

longe

Te deixei

 

Meus poderes de mim. Extraio-os.

Garimpo imagens com as palavras.

Mas é do silêncio que vem a força.

Força de saber-me meu, só comigo

em multifacetada inteireza. E livre.

Mas tão livre mas tão livre tão livre...

 

Faz silêncio, meu olhar.

Não conte coisas de mim.

Não a deixes pensar

que a olhando sou assim:

guloso, sempre a cobiçar;

dela tu te mostras a fim.

Vê se tenta disfarçar...

Pára de me entregar.

 

segunda-feira, 27 de março

Super

supersim

superassim

supersão

supersincero

supersimples

superação

 

A haste entra

na boca do jarro

dá vida à flor

Jorro d’água

vicejador

 

sábado, 25 de março

Meu coração se exulta

e eu te amo e amo-te

te expressando em mim

ou com simples sentir

ou em linguagem culta

 

Se ainda dói

já não dói tanto

e dói de amor

Porquanto

dói de encanto

pois em amor sói

sentir-se em dor

dar-se ao pranto

 

Distância ausência saudade:

trilogia da impossibilidade de tocar-te

tríade a me impor o vazio de ti

terno silencioso de minha incompletude

tríplice aliança adiando a felicidade

 

Molda, com argila

uma mulher (não Eva),

mas outra, menos afoita

e mais dada ao que lhe pedem,

Deus e Adão no Éden.

Que fêmea, não trate com desdém

à cobra também.

Amém!

 

Se me falta coração

ó amada hóspede

em meu peito anfitrião

não posso te abrigar

não tens onde ficar

 

Meus olhos revelam minh’alma

mas ninguém olha em meus olhos

por isso essa alma intacta

que nada tem a ver

e nunca se adapta

Alma que a tudo capta

que sem a visão de mundo

só para si se julga apta

 

Quem souber, me responde:

é aonde a que lugar?

E em que lugar é onde?

 

Dou a cara a tapa

Só não deixo

baterem nas duas faces

E se me acertam o queixo

(pode ser o papa)

ninguém escapa

 

quarta-feira, 22 de março

Partindo do fim recomece

Do fim recomece partindo

Recomece partindo do fim

Recomece

 

Para se guardar

se dê

Para se resguardar

vê se

(ao aguardar)

à sede água dá

 

Ela tem medo

do sol

mas só

à noite

 

Nada fale o falo

ante a prenhez

Pede-se atá-lo

à mudez

Com seu halo

sua nudez

 

Antropofágico sou

Como Tarsila do Amaral

Não como Oswald de Andrade

 

A rosa sem pétalas

O canteiro inútil

dá flor do mal pela raiz

É primavera no deserto

O jardineiro demente delira

- Metralha estraçalha

Cegai ante os lírios

do campo de batalha

Tio Sam qual avô satã

quer fim por Alá

Bang-bang em Bagdá

Vão-se vidas tantas

quantos grãos de areia

 

Te quero

por meus hormônios

por teus neurônios

 

Amar

qual infiltração na parede.

Sede.

 

Morreu

Augusto poeta do Eu

Até aos narizes dos Anjos

fedeu

 

Ela é azul

em tardes pálidas

de dias brancos

 

quinta-feira, 16 de março

Estou à frente do que fui.

Para onde nunca vou.

Não me acompanho.

E, quando sim, sombra sou.

Sobra de mim o ser submerso em si,

sem sol e sal.

Eu contra. Eu pronto.

Eu no ponto de encontro: o final.

Combato-me. Debato comigo.

Estabeleço me vencer.

Escrevo. Apago.

Reescrevo com caligrafia de não ler.

Sigo. Desdigo. A contradição

em dicção de coerências.

Tudo posso e permaneço

na primeira de mil existências.

 

Parto de mim

para nascer eu

e luz de outro

re-viver-me

 

Passarinhos nos olhos

Passarinhos na voz

Passarinhos no peito

Sons encantados

de inefáveis seres

Podia sentir o perfume

de sua alma

Resplandecia toda

Mãe de azul sem fim

 

Há tardes que são maiores

por trazerem lembranças

por condensarem saudade

por pararem relógios

em um tempo passado

exatamente na hora

em que chegaste atrasado

para ver o pôr-do-sol

o enterro do finado

 

Ensina-me

a desaprender

erros de múltiplas

escolhas

 

Vida não há

nas geleiras

do sol

 

sábado, 11 de março

Tua pele.

Que arrepie.

Que queime.

Que gele.

E que frágil

e carente

te revele.

 

Tu e eu

na dança do acasalamento.

Olhares. Gestos. Silêncios.

És uma bússola desorientada.

Sou todos os rumos sem um.

Encontramo-

nus.

 

domingo, 5 de março

Amar?

Nem me diga.

Amor,

não mendiga!

 

Se Fernando Pessoa

era heterossexual?

Sim!

Mas, de seus heterônimos,

qual?

 

A pressa

é amiga

da pressão

 

Eu, catártico,

sou em arte Sol desértico,

sou em parte Sul antártico.

 

Dá um zoom

no invisível.

Vê, no nada

o vazio.

Capta o im-

possível

de teu eu

sensível.

Afaga em ti

o intangível.

 

sábado, 4 de março

Para passar desapercebido

(especialmente por ti)

à tua volta estou escondido.

 

Para o vai

e vem,

walkman.

 

Apresenta-me o amor

e sai de perto.

Apresenta-me o amor

e tudo certo.

- Te apresentarei o amor,

mas fica esperto,

que o amor não planta flor

no deserto.

 

Bebo da chuva alguns pingos.

Sacio minha seca interior.

A vida tem quantos domingos?

Resiste às terças o amor?

Quando estia o sol apela...

Deito âncora ou iço vela?

O futuro é rio ou mar?

Deixo o futuro passar...

 

sexta-feira, 3 de março

O azul:

o arco do horizonte.

O sol

(nascente ou poente):

o alvo.

Teu olhar emocionado:

a flecha.

E, etéreo,

atinge tu a luz

das espirais do caos

da alucinação.

Acalma em ti o ar

e se lança no vácuo

da respiração.

Dói.

Com razão.

 

Miras

o espelho das águas

e vês

não o teu rosto

mas a feição do outro

que tens imaginado

no que anseias ser

 

Sonha o sol

estática luz

de frio raio

 

Indefinidamente

tu

 

quinta-feira, 2 de março

Não diga não

se o teu não soar

nunca

Nem diga sim

se não for para ecoar

sempre

 

Ouça

não o som

mas o teu eu

te pedindo

silêncio

do esvaziar

de ti

 

Te quero simples

para que eu

não complique

tanto

e possas me decifrar

todo

ou quase

 

MARÇO DE 2005

 

domingo, 27 de março

Não há eternidade

nas palavras.

No silêncio,

talvez.

 

terça-feira, 22 de março

asas quebradas

úteis para vôos

dolorosos

 

dentro da pedra

há de durar

algo íntimo

 

sol nascente

em si recente

reacende-se

 

poema 

   em