NOVEMBRO 2005
sexta-feira, 18 de novembro
Sonho-te.
Não como mulher ideal.
Mas como minha e única.
Imprescindivelmente feliz:
comigo, ao meu lado, juntos,
simples como duas torres
de um templo interiorano.
Eu, ostentando um velho sino.
Tu a abrigar o ninho
de um jovem casal de
andorinhas.
Ah, a imaginação ilimitada do amor
e suas necessidades
irrealizáveis.
Sou absolutamente silencioso
em meu sonhar-te, ó
imaginária certeza,
ó extraordinária dúvida.
Para ser par procuro-te, minha metade.
Se existes, onde estás? Vem habitar-me!
Eu que tanto te busquei,
agora te espero sem ansiedades.
Se te encontro o amor chegará
com badaladas em bronze,
despertando no ninho filhotes
esfomeados.
Sonho-te. Realiza-me.
Eis que ao acaso
te encontro,
solitária, pronta, a fim, tão bonita.
E
minha emoção é tanta que perco a voz
e
uma única frase quase ininteligível balbucio:
-
Estou deveras encantado, senhora senhorita.
terça-feira,
8 de novembro
Tão frágil
a borboleta dura
o tempo
de um vôo e meio
Menos que o trabalho
de tecer com
leveza
desenhar e colorir suas
asas
Anoiteceu
A noite teceu
brilhos e breus
até o dia
de manhã ser
ao amanhesol
Meu corpo nu
sob o teu
eleva-se
levando-te
ao céu
Por que apenas uma flor
ou um bouquet
ou uma corbeille
se conceber-se
podes
(substância do que em ti é meu):
cálice
e corola - pólens e pétalas
- perianto de gineceu?
E se te conceder posso
o Jardim do Éden
sem pecado:
essência do que em mim é teu?
segunda-feira,
7 de novembro
Não mais te amar
Não como antes
Não como sempre
Qual foi – Igual era
Não mais
Ou mais?
Nesse mar amar
remos seremos
Amaremos
serenos
E diante do mar
ilhados grandes
pequenos
É lindo lindo lindo
ela indo ela vindo
como eu
sempre só
rindo
Esquece – pesarosa
tudo aquilo que
jamais
te aconteceu
E lembra-te – saudosa
do que o futuro
(ainda) não te deu
Pois eu
assisti ao enterro lastimável
de minha
derradeira e ingrata ilusão.
Se ar me falta, ao nariz assôo
e o
catarro dou a quem me cobra ouro.
Antes de beijar, escarro. À sedosa pele
acaricio com a
pedra da indelicadeza.
Como me ensinaste, aprendi a interrogar
o existir
misterioso, pronto para os vermes.
Como tu, ao desintegrar-me, evaporarei.
Cavoucarei meus olhos e face a face
apalparei a cara
hanseniana de um Deus ateu.
Mas resta-me aprender, pútrido Augusto,
com quantos
anjos entoarei a ária
do que em
mim é parte de teu melancólico Eu.
domingo,
6 de novembro
Gosto mesmo dos começos,
porque no
fim dá tudo certo.
Se
caio eu tiro dos tropeços
lições
pra ficar mais esperto.
De
tudo, prefiro os avessos,
cansei de
pregar no deserto.
Moro
em dez mil endereços,
de ti
estou sempre por perto.
E
todas as estrelas brilham ao mesmo tempo
na
noite. Cintilam. Estrelas que entre si competem.
Não qual a mais
brilhante. E sim aquela cuja luz
mais
rápido viaja e chega ao olhar de quem as vê.
De pontos distantes e
distintos, seus raios piscantes
desencontrados
vêm uns após outros com segundos
de
diferença. Contemplo a ágil e vã estelar vaidade,
pois
é impossível saber entre trilhões de constelações.
Perdem ou ganham todas?
Empatam. E ganho eu,
banhando
de incessantes raios até meu íntimo breu.
Chore,
se tens alguém por quem chorar.
Chore, se lágrimas são para se
derramar.
Chore, se chorando podes te
amainar.
Chore, se sensível te comoves
até o luar.
Chore, mas não chores tanto
até secar.
Chore, lave a tristeza
estampada no olhar.
Chore, um sentido choro e
volte a respirar.
Não te conheço pelo que és
pelo que demonstras ser
pelo que te pareces
Mas por mim
que te vejo
por si
só
Ontem,
no futuro, estou:
atrasado -
como sempre.
Ainda não cheguei, oras,
nem fui,
melhor dizendo.
Quando vir o sol sem ar,
e a
respiração de raios?
Sua
luz quente – sufoco
sem água
dos sedentos.
O planeta está secando.
Desidratado ser erosivo.
Água, água, água, água.
A natureza bebe e toma.
sábado,
5 de novembro
Acaricia-me,
palavra. Sopra, venta, vem.
Palavrinha, palavrão, palavreada, palavreia.
Cada palavra dada algum significado tem.
E da letra à sílaba a palavra por si semeia.
A palavra falada requer o ouvido de alguém.
Toda palavra escrita já fica com o p na peia.
Ao se dar a um poeta, ó palavra veja bem,
não seja tão comportada em sua farta
ceia.
Se doe completamente, estabanada ou zen.
E sendo cortante não fira a sua poética veia,
que hemorragia de palavra não estanca
nem.
Amar
não
apenas o infinitivo
como forma
de citação
mas as
formas todas
de
conjugação
Amar
não
transitivo e direto
qual verbo
de definição
mas entre
o terno e físico
ser
devoção
Amar
não um
para o outro
em mútua
anulação
mas ambos
gozando o todo
da
expansão
Hei de construir a fortaleza.
Inabalável. Impenetrável.
Há de proteger-me do som, da luz,
do cheiro, da exposição às coisas inomináveis
como lembranças, sentimentos, idéias, desejos, dor etc.
A fortaleza inacessível de mim, edificada sobre o medo.
Inviolável barreira entre o mundo e eu.
Protegido, serei, ao mesmo tempo prisioneiro,
guardião, refugiado, exilado, eremita, sonhador silencioso.
Alguém, julgando-me contraditório, talvez me indague,
com razão, se sonhos atravessarão as paredes. Não.
Perdoe-me se me enganar, tomando uma sensação por outra.
O silêncio, com certeza por companhia terei (comigo o levarei,
que esse é inseparável de toda e qualquer alma quando se fecha).
Tudo o que sinto é mental. Também a ilusão não achará brecha.
Nada fará sentido ou será pensado na fortaleza que construirei.
E para dar início ao projeto,
desde já me silenciarei.
sexta-feira,
4 de novembro
- Eu plantei
feijão no algodão.
- Molhou?
- Não.
- Brotou?
- Então.
Carece de uma
edição
Merece uma revisão
Quem sabe uma paginação
Ou remasterização
Ou nova estampa
Ou outro layout
Ou configuração
Ou reinstalação
Mas que precisa
precisa
de uma solução
Estilo é pra quem
destila bem
desfila também
É pra quem tem
A limitação requer
não o livre-acesso
nem o ir-e-vir
mas o aqui-ali
daqui-pra-lá
e não passa daí
Quero o
telefone de Giselle
De qualquer parte do mundo
Se Giselle estiver viajando
desfilando ou
fotografando
eu espero
Giselle voltar
Ela há de me atender
Ela nunca sai de moda
E se a Gisa me esnobar?
Isso ela não vai fazer
porque se isso
acontecer
eu só sei
que vai ser
foda
Não evoluo de fato
Sou no ato
Eu me trato
Eu me combato
Eu me retrato
Eu me contrato
Tudo eu
Eu não cuspo no prato
que um outro eu
como o meu
comeu
Deu deu
não deu não deu
Sempre estudei com afinco
(com estudo eu não brinco)
Minha nota média
é cinco
No seco jacaré
nada?
Jacaré no seco anda?
Anda e não é em manada
e anda sempre de
banda
Boa hora pra caçada
- Ô jacaré se manda
Tem que entender
Ao menos tentar
Procura me atender
sem se
entediar
É pra valer
Vai dar?
quinta-feira,
3 de novembro
Tateio no escuro tua superfície
inexata,
de salientes contornos.
Nem
respirar respiro. É suave
tua
simetria, terna, tenra, tesa,
pele de
fruto, lisa e fina fibra
que
toco seduzido em leveza.
Ficas
arrepiada. Pêlos, poros
e seda.
Eu Vesúvio e tu brisa.
Delicio-me,
tal a maciez, céu
de
pleno desejo. Santo e deus
sou a
palmilhar tua estrutura,
nuanças dos caminhos teus.
Pergunte ONDE
me sonde
para que eu responde
desde QUANDO
eu ando
te procurando
enigmática COMO
um gnomo
- Por irreal te tomo
Johnnyoko
Yoko amo Yoko ano Yoko ONU
Yoko ONG Yoko onde Yoko on
Yoko one Yoko home Yoko only
Yoko once Yoko money Yoko honey
Yoko onio Yoko ônix Yoko onixe
Yoko online Yoko ônus Yoko Roma
Yoko homo Yoko honor Yoko hormo-
Yoko hors Yoko host Yoko hot
Yoko robe Yoko rom Yoko ror
Yoko John
quarta-feira,
2 de novembro
Conjugue, minha cúmplice,
todos os nossos verbos transitivos
diretos e indiretos.
Presente e no futuro do presente,
perfeito e mais-que-perfeito,
no indicativo contigo conjugarei
o verbo amar.
Pretérito (não como tempo verbal
a exprimir ação anterior),
mas presente do pretérito: amarei,
amarás, amaremos, minh’amada, meu amor.
Subjuntivos, tu e eu, a verbalizar presente-futuro
ou mesmo em pretérito imperfeito. Por
que não?
Juntos conjugar amar no imperativo,
afirmativo: ama, ame, amai, amemos,
pois para isso existimos, nos
conhecemos
e um para o outro vivemos.
Amar, amarmos, amardes, infinitivo, pessoal,
casal, conjugal, cônjuges, conjugando,
até em assumido gerúndio vou estar te
amando.
Como verbo que somente para ti se fez carne
e te ama perfeito,
mais-que-perfeito, conjugado,
te peço que me trates sempre no
particípio: amado!
terça-feira,
1º de novembro
Põe a carapuça, bota a carapaça,
vem de cara limpa, sai de Caratinga,
sem caraminhola.
Traz a carabina, faz de caradura,
deixa a caravana, bóia a caravela,
passa em Carangola.
Caça caramujo, come caranguejo,
chupa caramelo, corte a carapinha,
colhe carambola.
Eca de caraca - ora caracoles!
Doeu pra caramba quebrar o caralho
comendo a carola.
NOVEMBRO DE 2004
terça-feira, 30 de novembro
às
vezes o silêncio chega
no vesúvio
do peito
apenas para um refrigério
abranda a erupção
e tochas de luz se apagam
fontes de calor na tarde
lavas já não fecundam amor
o silêncio é absurdo e absoluto
sua fumaça asfixia
suas cinzas se espalham
o coração se estilhaça
pedaços triturados de dor
gases em plena irradiação
contido nos pulmões o vapor
do amor em abstrata extinção