NOVEMBRO 2005
sexta-feira, 18 de novembro
Sonho-te.
Não como mulher ideal.
Mas como minha e única.
Imprescindivelmente feliz:
comigo, ao meu lado, juntos,
simples como duas torres
de um templo interiorano.
Eu, ostentando um velho sino.
Tu a abrigar o ninho
de um jovem casal de
andorinhas.
Ah, a imaginação ilimitada do amor
e suas necessidades
irrealizáveis.
Sou absolutamente silencioso
em meu sonhar-te, ó
imaginária certeza,
ó extraordinária dúvida.
Para ser par procuro-te, minha metade.
Se existes, onde estás? Vem habitar-me!
Eu que tanto te busquei,
agora te espero sem ansiedades.
Se te encontro o amor chegará
com badaladas em bronze,
despertando no ninho filhotes
esfomeados.
Sonho-te. Realiza-me.
Eis que ao acaso
te encontro,
solitária, pronta, a fim, tão bonita.
E
minha emoção é tanta que perco a voz
e
uma única frase quase ininteligível balbucio:
-
Estou deveras encantado, senhora senhorita.
terça-feira,
8 de novembro
Tão frágil
a borboleta dura
o tempo
de um vôo e meio
Menos que o trabalho
de tecer com
leveza
desenhar e colorir suas
asas
Anoiteceu
A noite teceu
brilhos e breus
até o dia
de manhã ser
ao amanhesol
Meu corpo nu
sob o teu
eleva-se
levando-te
ao céu
Por que apenas uma flor
ou um bouquet
ou uma corbeille
se conceber-se
podes
(substância do que em ti é meu):
cálice
e corola - pólens e pétalas
- perianto de gineceu?
E se te conceder posso
o Jardim do Éden
sem pecado:
essência do que em mim é teu?
segunda-feira,
7 de novembro
Não mais te amar
Não como antes
Não como sempre
Qual foi – Igual era
Não mais
Ou mais?
Nesse mar amar
remos seremos
Amaremos
serenos
E diante do mar
ilhados grandes
pequenos
É lindo lindo lindo
ela indo ela vindo
como eu
sempre só
rindo
Esquece – pesarosa
tudo aquilo que
jamais
te aconteceu
E lembra-te – saudosa
do que o futuro
(ainda) não te deu
Pois eu
assisti ao enterro lastimável
de minha
derradeira e ingrata ilusão.
Se ar me falta, ao nariz assôo
e o
catarro dou a quem me cobra ouro.
Antes de beijar, escarro. À sedosa pele
acaricio com a
pedra da indelicadeza.
Como me ensinaste, aprendi a interrogar
o existir
misterioso, pronto para os vermes.
Como tu, ao desintegrar-me, evaporarei.
Cavoucarei meus olhos e face a face
apalparei a cara
hanseniana de um Deus ateu.
Mas resta-me aprender, pútrido Augusto,
com quantos
anjos entoarei a ária
do que em
mim é parte de teu melancólico Eu.
domingo,
6 de novembro
Gosto mesmo dos começos,
porque no
fim dá tudo certo.
Se
caio eu tiro dos tropeços
lições
pra ficar mais esperto.
De
tudo, prefiro os avessos,
cansei de
pregar no deserto.
Moro
em dez mil endereços,
de ti
estou sempre por perto.
E
todas as estrelas brilham ao mesmo tempo
na
noite. Cintilam. Estrelas que entre si competem.
Não qual a mais
brilhante. E sim aquela cuja luz
mais
rápido viaja e chega ao olhar de quem as vê.
De pontos distantes e
distintos, seus raios piscantes
desencontrados
vêm uns após outros com segundos
de
diferença. Contemplo a ágil e vã estelar vaidade,
pois
é impossível saber entre trilhões de constelações.
Perdem ou ganham todas?
Empatam. E ganho eu,
banhando
de incessantes raios até meu íntimo breu.
Chore,
se tens alguém por quem chorar.
Chore, se lágrimas são para se
derramar.
Chore, se chorando podes te
amainar.
Chore, se sensível te comoves
até o luar.
Chore, mas não chores tanto
até secar.
Chore, lave a tristeza
estampada no olhar.
Chore, um sentido choro e
volte a respirar.
Não te conheço pelo que és
pelo que demonstras ser
pelo que te pareces
Mas por mim
que te vejo
por si
só
Ontem,
no futuro, estou:
atrasado -
como sempre.
Ainda não cheguei, oras,
nem fui,
melhor dizendo.
Quando vir o sol sem ar,
e a
respiração de raios?
Sua
luz quente – sufoco
sem água
dos sedentos.
O planeta está secando.
Desidratado ser erosivo.
Água, água, água, água.
A natureza bebe e toma.
sábado,
5 de novembro
Acaricia-me,
palavra. Sopra, venta, vem.
Palavrinha, palavrão, palavreada, palavreia.
Cada palavra dada algum significado tem.
E da letra à sílaba a palavra por si semeia.
A palavra falada requer o ouvido de alguém.
Toda palavra escrita já fica com o p na peia.
Ao se dar a um poeta, ó palavra veja bem,
não seja tão comportada em sua farta
ceia.
Se doe completamente, estabanada ou zen.
E sendo cortante não fira a sua poética veia,
que hemorragia de palavra não estanca
nem.
Amar
não
apenas o infinitivo
como forma
de citação
mas as
formas todas
de
conjugação
Amar
não
transitivo e direto
qual verbo
de definição
mas entre
o terno e físico
ser
devoção
Amar
não um
para o outro
em mútua
anulação
mas ambos
gozando o todo
da
expansão
Hei de construir a fortaleza.
Inabalável. Impenetrável.
Há de proteger-me do som, da luz,
do cheiro, da exposição às coisas inomináveis
como lembranças, sentimentos, idéias, desejos, dor etc.
A fortaleza inacessível de mim, edificada sobre o medo.
Inviolável barreira entre o mundo e eu.
Protegido, serei, ao mesmo tempo prisioneiro,
guardião, refugiado, exilado, eremita, sonhador silencioso.
Alguém, julgando-me contraditório, talvez me indague,
com razão, se sonhos atravessarão as paredes. Não.
Perdoe-me se me enganar, tomando uma sensação por outra.
O silêncio, com certeza por companhia terei (comigo o levarei,
que esse é inseparável de toda e qualquer alma quando se fecha).
Tudo o que sinto é mental. Também a ilusão não achará brecha.
Nada fará sentido ou será pensado na fortaleza que construirei.
E para dar início ao projeto,
desde já me silenciarei.
sexta-feira,
4 de novembro
- Eu plantei
feijão no algodão.
- Molhou?
- Não.
- Brotou?
- Então.
Carece de uma
edição
Merece uma revisão
Quem sabe uma paginação
Ou remasterização
Ou nova estampa
Ou outro layout
Ou configuração
Ou reinstalação
Mas que precisa
precisa
de uma solução
Estilo é pra quem
destila bem
desfila também
É pra quem tem
A limitação requer
não o livre-acesso
nem o ir-e-vir
mas o aqui-ali
daqui-pra-lá
e não passa daí
Quero o
telefone de Giselle
De qualquer parte do mundo
Se Giselle estiver viajando
desfilando ou
fotografando
eu espero
Giselle voltar
Ela há de me atender
Ela nunca sai de moda
E se a Gisa me esnobar?
Isso ela não vai fazer
porque se isso
acontecer
eu só sei
que vai ser
foda
Não evoluo de fato
Sou no ato
Eu me trato
Eu me combato
Eu me retrato
Eu me contrato
Tudo eu
Eu não cuspo no prato
que um outro eu
como o meu
comeu
Deu deu
não deu não deu
Sempre estudei com afinco
(com estudo eu não brinco)
Minha nota média
é cinco
No seco jacaré
nada?
Jacaré no seco anda?
Anda e não é em manada
e anda sempre de
banda
Boa hora pra caçada
- Ô jacaré se manda
Tem que entender
Ao menos tentar
Procura me atender
sem se
entediar
É pra valer
Vai dar?
quinta-feira,
3 de novembro
Tateio no escuro tua superfície
inexata,
de salientes contornos.
Nem
respirar respiro. É suave
tua
simetria, terna, tenra, tesa,
pele de
fruto, lisa e fina fibra
que
toco seduzido em leveza.
Ficas
arrepiada. Pêlos, poros
e seda.
Eu Vesúvio e tu brisa.
Delicio-me,
tal a maciez, céu
de
pleno desejo. Santo e deus
sou a
palmilhar tua estrutura,
nuanças dos caminhos teus.
Pergunte ONDE
me sonde
para que eu responde
desde QUANDO
eu ando
te procurando
enigmática COMO
um gnomo
- Por irreal te tomo
Johnnyoko
Yoko amo Yoko ano Yoko ONU
Yoko ONG Yoko onde Yoko on
Yoko one Yoko home Yoko only
Yoko once Yoko money Yoko honey
Yoko onio Yoko ônix Yoko onixe
Yoko online Yoko ônus Yoko Roma
Yoko homo Yoko honor Yoko hormo-
Yoko hors Yoko host Yoko hot
Yoko robe Yoko rom Yoko ror
Yoko John
quarta-feira,
2 de novembro
Conjugue, minha cúmplice,
todos os nossos verbos transitivos
diretos e indiretos.
Presente e no futuro do presente,
perfeito e mais-que-perfeito,
no indicativo contigo conjugarei
o verbo amar.
Pretérito (não como tempo verbal
a exprimir ação anterior),
mas presente do pretérito: amarei,
amarás, amaremos, minh’amada, meu amor.
Subjuntivos, tu e eu, a verbalizar presente-futuro
ou mesmo em pretérito imperfeito. Por
que não?
Juntos conjugar amar no imperativo,
afirmativo: ama, ame, amai, amemos,
pois para isso existimos, nos
conhecemos
e um para o outro vivemos.
Amar, amarmos, amardes, infinitivo, pessoal,
casal, conjugal, cônjuges, conjugando,
até em assumido gerúndio vou estar te
amando.
Como verbo que somente para ti se fez carne
e te ama perfeito,
mais-que-perfeito, conjugado,
te peço que me trates sempre no
particípio: amado!
terça-feira,
1º de novembro
Põe a carapuça, bota a carapaça,
vem de cara limpa, sai de Caratinga,
sem caraminhola.
Traz a carabina, faz de caradura,
deixa a caravana, bóia a caravela,
passa em Carangola.
Caça caramujo, come caranguejo,
chupa caramelo, corte a carapinha,
colhe carambola.
Eca de caraca - ora caracoles!
Doeu pra caramba quebrar o caralho
comendo a carola.
NOVEMBRO DE 2004
terça-feira, 30 de novembro
às
vezes o silêncio chega
no vesúvio
do peito
apenas para um refrigério
abranda a erupção
e tochas de luz se apagam
fontes de calor na tarde
lavas já não fecundam amor
o silêncio é absurdo e absoluto
sua fumaça asfixia
suas cinzas se espalham
o coração se estilhaça
pedaços triturados de dor
gases em plena irradiação
contido nos pulmões o vapor
do amor em abstrata extinção
dar de mim o melhor não dou mais
o melhor de mim fica ruim
assim
sem valia sem serventia
anestesia
o fim é o fim do fim já no
fim
como o sim pelo sim é
simplesmente
nada demais nada maior que nada
chega de olhar basta de ver pára
aí
vou nessa amiga apressa a
perfeição
quem quer requer quem não quer
sequer terá de mim o que é não e
não e
não
te amar
te marcar
te arcar
te atar
te catar
te travar
te arfar
te arar
te calar
te tramar
te fartar
te faltar
te dar
te pegar
te cheirar
te olhar
te falar
te armar
te amar
domingo, 28 de novembro
ainda de ti
cativo
peço arrego:
quero o
desapego
o só
do
sossego
ver se
só
sobrevivo
e se
vivo me livro
de
querer (sem ter)
teu
aconchego
de
ansiar (sem ganhar)
teu
chamego
sexta-feira, 26 de novembro
era amizade
apaixonada
um não ver
um não tocar
um não ter
um não
de
amiga-paixão
- era amizade iludida
um sim
talvez um sim sei lá
um sim quem
sabe um sim
de amiga-ilusão
são mais bonitas
palavras não
ditas
ou as não escritas?
em
pensa
George W.
W.C
"Prefiro, ante a agressão, responder que há contemporâneos que não sabem
ler.
A não ser o jornal. Para mim, o caso de um poeta, nesta sociedade que não
lhe permite viver,
é o caso de um homem que se isola para cavar seu próprio túmulo".
Mallarmé,
aos que lhe perguntavam sobre o suposto hermetismo de sua poesia.
a fala oca de Stéphane:
- sou à revelia de mim
poeta de mal comigo
um eu nada de meu
ser sem sentidos
lançando ao acaso
dados abolidos
poemas bem bolados
lidos e relidos
analisados
interpretados
jamais entendidos
quinta-feira, 25 de
novembro
criação da poesia:
no
princípio
era o ver
so
colhe estrelas
para
vendê-las
na
feira da lua
quarta-feira, 24 de
novembro
ó musa virtual
enter
em minha cabeça
de muitos kbytes
e no disco rígido
de meu coração
delete
amor ponto com
puta
dor
por ser analfabeto
o
abaixo-assinado
deixa como
rubrica
a impressão
digital
todo
dia
sim
não há
noite
que
não
ela a
fim
com
tesão
eu
assim
garanhão
dois
enfim
céu no
chão
quis ler
meu
pensamento
mas não
teve cabeça
não sou versado em ti
não
sou letrado em nós
não
sou formado em nada
não
sou graduado enfim
marginal
alternativo
a escrever
compulsivo
ser poeta
estar vivo
tudo
às vezes
ou quase sempre
ainda requer
um pouco mais
ou muito
cava
que acha
um baú de ossos
de Pedro Nava
pra quê
direitos reservad©s
se
meus textos aqui publicados
podem
ser copiados
transmitidos
gravados
reproduzidos
por
quaisquer meios
sem
prévia autorização
e sem
sanções legais
por
quem sem citar a fonte
plagia originais?
no buraco
imundo
da
cisterna
sem fundo
do oco
do mundo
me cavo
me inundo
caio
confundo
ecôo
redundo
terça-feira,
23 de novembro
e
tanto se entendem
que quando se encontram
se surpreendem
o
futuro – escuro
o presente – reluzente
o passado – apagado
faço
hai-kais
e quadras
três por quatro
o
coração que me obedeça
senão volto a sentir
com a cabeça
inverno
– hiberno
outono – abandono
primavera – espera
verão – insolação
a
vida
é vivida
e revivida
a vida toda
toda a vida
amor
finda
a dor cura
a morfina
ela
me chama
vamos pra cama
já sem pijama
translação
rotação
nós e nossa
moviment
ação
vem
passear comigo
por campos de girassóis
e
plantações de trigo
sexta-feira,
19 de novembro
se uma flor
se angustia
não enfeia
não enfei(t)a
nem aroma
irradia
esse brasil não se parece
com o do samba lelê
com o do saci pererê
não é o brasil com S
esse é o brazil com Z
em branco
campo
planto
crisântemo
não confundir van gogh
com o tal gogol
que a melhor peça deste
nunca foi um girassol
estou cego
para canções
e não ouço
paisagens
vinha de navio
deu banzo
à noite
atirou-se ao mar
- ê negra
sal dade
mato sem cachorro
beco sem saída
casa sem dono
eira sem beira
saco sem fundo
pôr sem tirar
pé sem cabeça
fim ponto com
lindo
lindo é teu olhar
sorrindo
mini universo
mini
verso
uni
a arquiteta
com olhos simétricos
de espaço-tempo
me recria em sua lógica
a um metro de agora
medindo cada hora
longe-perto dentro-fora
a maçã
a maçã na boca de eva
a maçã na mão da bela adormecida
a maçã na cabeça de Newton
a maçã nos discos dos beatles
a maçã
desculpe-me
por não saber
te perdoar
de uma funda grota
da cavidade ocular
é que a lágrima brota
ilustre senhora
com toda confiança
de secreto amigo
namora comigo
e essa aliança
põe na penhora
quarta-feira, 17 de
novembro
- e acaso conheces
tua língua
pátria?
- yes yes
no teatro dos dias
interprete
a ti
na
realidade
ontem te traí duplamente:
fixei
poeticamente a lua
com
o olhar absorto
em
uma estrela
reluzente
-
mas calma
foi
sem envolvimento
tudo
muito platonicamente
mantive
distanciamento
a realidade?
então
a realidade não está
nos
livros?
terça-feira, 16 de novembro
Por querer-te tanto, me
imagino-te.
Eu sou tu, e és em mim o que em ti
é maior, é melhor, é demais, portanto.
Sendo única, sinto-me unicamente
em teu todo, em tudo que sou no que és.
És, porque sendo, sou. Quem te olha, me vê
em tua forma de incorporar-me teu,
indo além do universo em que existo,
que existir sem ti me inexistiria.
Se me queres invisível, sou transparência.
Se me desejas etéreo, habito o vácuo.
Se me imaginas outro, transformo-me,
reciclo-me, renasço para me materializar
no que tu idealizas e em mim realizas.
Meus olhos enxergam pelos teus,
visões de universos paralelos: tu e eu,
eternidade do breve, o dentro, o centro,
as margens que me contêm e me transportam,
e me transbordam quando queres extravasar.
Tenho um pouco de todas as tuas cores,
mas sou o branco para que possas gerá-las.
Ó meu sol, um raio apenas de tua luminosidade,
de tua grandeza indevassável, teu ardor de amor,
um ínfimo raio a despertar-te na manhã
em que acordas e me sabes apenas teu sonho.
Sonha-me para que eu te seja e sendo-te
venha a ser o que de mim queres somente para ti,
raiz e chão, abismo e imensidão, ar e
respiração.
Imagina-me, pois te quero, imaginada, imaginária,
pois que és em mim o que sou em louca imaginação.
se voar
não é fácil
(asinhas
na imensidão)
ser leve
então
um rio
abre passagens
delineia suas margens
banha novas paisagens
um rio
líquido em viagens
aquosas suas mensagens
profundas quilometragens
sou rio
represado em barragens
segunda-feira,
15 de novembro
estás sem respostas
esperneando impotente
como um besouro
de
costas
sábado, 13
de novembro
sou seu
fã
toche?
lágrimas
e
rimas
tontos
de
interrogação
auto-suficiente
eu carro corro
sem gasolina
no ato
num átimo
o átomo
um nome
é um no
é um me
de todas as cores
prefere a branca
que a todas contém
vou-me embora
pra pasárgada
adeus hemengarda
quinta-feira, 11 de novembro
fecha o livro
mas sem esmagar
suas letras
a
ave
vae
o amor
é cego
nha
solta o tigre
como ousas prender
um rio indomável?
estrelas?
não contá-las
para não contê-las
o cego sorri
para o sol
brilha dentro
difícil o amor
do pica-pau
pela beija-flor
de sapatos roxos
caminho pelo campo
de flores amarelas
não há movimento
na rua em que moro
stop: recapeamento
ia fazer um elogio
queria um adjetivo
dito pelos olhos
para esquecer
esquece primeiro
o próprio pensamento
branco dos olhos
só para ver os vazios
entre as coisas todas
segunda-feira, 8 de novembro
em ti me plantei
sou
tua árvore
tu
me floresceste
nos
frutificamos
e
eu te sombreei
queria
ser
ponte
unindo
poentes
conjuga
o verbo
amar:
eu
amo
tu
amas
ele
em meus olhos
é
a ti que vês
e
não me vendo
na
visão não crês
meu
olhar espelho
tem
a tua imagem
só
a ti reflete
surreal
miragem
eu
dormi
não
cresci
acordei
envelheci
és meu mar
és
minha ilha
que
maravilha
é
te avistar
que se eleve
o
mais pesado
que
o ar
e
leve
a
tal lugar
quem
se atreve
a
embarcar
alguns pedaços de ti
montam
meu quebra-cabeça
já
outras partes deixam lacunas
em
vazios impreenchíveis
e
nada nunca se inteira
é tudo
sempre incompleto
a laje fria da cripta
do
extinto Super Man
é
talhada da kryptonita
queres da árvore
sua
copa
suas
folhas
seus
galhos
seu
tronco
sua
sombra
suas
raízes
em
teu solo
fincado
ou
teu pássaro
noturno
nela
pousado?
ela me pegou de jeito
ganhou
meu coração
-
pode bater no peito
dentre outras mil
és
tu amada
minha
pátria
tua lua
e
meu sol
e
nada de eclipse
a
noite jamais chega
a
ser dia
mas
me anoiteça
me
anoiteça
teça
em mim
teu
império lunar
de
minguantes
e
crescentes fases
nós
por
inteiro
em
metades ao avesso
se
me tens careces
o
que me dás mereço
pássaro cansado
abro
as asas
alcanço
altitudes
e
plaino ao vento
a
suavidade
de
entrega à imensidão
toda
leveza a sublimar
a
solidão
até
a exaustão
domingo, 7
de novembro
dor pura:
depenaram as asas
de meu anjo
da guarda
o infinito
está dentro
em desencontro
com teus limites
razão inexata
de tua incompletude
o que em ti
buscas em vão
quando te falta ar
e o que te parece
impossível
agoniza tua
respiração
autobiografia:
este carro
tem história
inutilmente
bela
a inútil saudade
tão sutil é sua luz
que me trespassa
em mim extravasa
todo o excesso
do eu
qual
orvalho ao sol
foi breve meu olhar
sobre a luz de teu corpo
e essa leveza de asas
colibri sedento
de enluarado néctar
colhi-te flor da noite
ávida de sereno
em meu vaso enfeite
a quem me
lê
muitas graças
- não há de quê
bem-te-vi
foi bom te ver
bem
asas e canto
céu e som
ao léu
além
submerso
não me meço
nem me confesso
profundo
vou à tona
venho à superfície
mas não respiro
apenas saio de ti
líquido útero
placent’agonia
à deriva
viva
é tudo onda
não se revolte
no mar de ti
espraia em mim
não fujo
não sou caramujo
não me refugio
não sou arredio
não me ache ermitão
não conheço solidão
não sou nada fechado
não vivo acomodado
não estou em retiro
não me acho me viro
não me sei pacato
não sou bicho do mato
não meu não eu
não
teu não deu não deu
quarta-feira, 3 de novembro
ontem à noite
restou
em hoje
de
manhã
resultou
neste sono
lento
dia
difícil
de passar
(bocejos
desejos
de dormir
descansar)
não me sei poeta
pois
ando tão assim
indo
em linha reta
desde
onde vim
da
forma um esteta
com
a fórmula secreta
da
realidade em mim
não
me sei poeta
até
porque não o sou
se
alguém me interpreta
erra
porque tentou
algo
em meu eu deleta
a
quem por si se inquieta
com
o que de mim captou
não
me sei poeta
muito
antes pelo contrário
não
defendo mais a meta
a
rede do imaginário
que
só suga e nada injeta
e
em meu coração espeta
o
adjetivo solitário
terça-feira, 2 de
novembro
palavra
som
figura
letra
acorde
pintura
no mar
o rio
desaguado
perde a
doçura
das margens
o silêncio me dita
introspecção
em mim
exercita
a bendita
meditação
o que vivi
e o
revivido
o que vi
e o
entreouvido
o que senti
e o sem
sentido
tudo por ti
em mim
contido
muitos sons
emitem o
silêncio
que ocultas
teus
pensares
teus
pesares
a profusão
de gritos
gemidos
sussurros
a inefável
dor
de saber-se
só
NOVEMBRO
DE 2003
quarta-feira, 26 de
novembro
como
é bom e agradável
ser
poeta independente
independente
de alguém
independente
dessa coisa
que
agora independe de ti
sublimar:
sub
limar
mar
subliminar:
liminar
minar
ar
vem inquietar
vai subverter
mantém vivo
traz insatisfação
mas não sufoca
e só faz respirar
pois tudo de mim
me faz incompleto
às vezes pleno
nunca repleto
e de tão sensível
sei ser como sou:
impreenchível
sexta-feira,
21 de novembro
uma dúzia
escritos de Cuiabá-MT, em 10/11
1)
naturalmente
o simples não se confunde
e se brilha
é do olhar toda luz
2)
guarde o melhor
ou se dê inteiro ao nada
espalhe teu silêncio
na trilha sem volta
e se baste
que assim adormecem
noturnos seres
de almas inconstantes
3)
algumas palavras
chegam até nós
como intrusas
invasoras
absurdas
e nada dizem
e nem nos calam
apenas ficam como marcas
de um silêncio amargurado
4)
por um momento ter
e perder
dói
e toda reação é mágoa
5)
se me fazes sofrer?
não!
entendo tua incapacidade
de conquistar para ti
algo maior que tua incompreensão
de meu mundo
há muito aboli as margens
e para o infinito não há limite
de benevolência
6)
retorna
ao começo
e torna
a recomeçar
e de novo
tudo será
novidade
em teu mundo
renovado
pelas inovações
da volta
7)
um átomo
a vida
e assim
o universo
em si
existencial
mente
8)
teu lado
sombra
tua metade
luz
e teu centro
concentrando
cores cegas
de semi
e neutros
tons
9)
do não ao não
talvez
do sim ao sim
quem sabe
do não ao sim
certamente
do sim ao não
finalmente
10)
escrita a sangue
sem ar
a frase pega na veia
com areia
11)
não te amo
por temor
te temo
sem desamor
12)
no dizer do outro
vale sua verdade
e tudo resvala
na aflição de ser
sem ter
porque
sábado, 8 de
novembro
este
poema
inventa
o poeta
que
pensa
que o escreve
que
ele não há
é
apenas um
ser
imaginado
o
pensamento
de
ar inspirado
inflado
no ar
o
poeta inexiste
o
poema desiste
de
por si só
se
criar
as velhas sombras
(ah! as
velhas sombras)
o frescor
dos sonhos
a umidade
do solo
as flores e
os frutos
das árvores
no quintal
a infância
um sopro leve
os livres
ventos da juventude
todo tanto
e tudo por respirar
hoje
repousa a velha sombra
(uma velha
sombra descansa)
no mormaço
da idade
corre o
tempo sem parar
e esse
abafamento
fundos
suspiros
lembranças
saudades
falta de ar
se dói
não
chore muito
não
transpire demais
escuta
-
se sofre
não
se resseque
se
endureça como gelo
de
forma enxuta
escrevo feliz
assim:
a lápis
a giz
ou nanquim
carimbo
imprimo
tatuo
felicidade
em mim
enfim
sou feliz
sim
meus versos
são
curtos
mas
nem tanto
quanto
tuas
blusas
saias
e
vestidos
ó
musas
dos
curtos
versos
desses
poemínimos
pago
o preço
para jamais
ter
se não mereço
na marmita
do
operário
a
barriga ronca
a
fome grita
dando
bronca
no
parco salário
meio-dia na caverna
para
achar o sol
da
Era moderna
subiu
ao farol
desceu
à cisterna
acendeu
a lanterna
quer por escrito
ou que seja
dito
ao pé do
ouvido
ou até no
grito?
quem quer
falar
que diga
bonito
diz com o
olhar
que vou
confiar
se essa
poesia
é mal digerida
- azia
pelo retrovisor
vê um futuro
promissor
se tudo é possível
então o que fazer
ante o inviável?
torná-lo plausível
factível
palpável
realizável
ou irreversível?
lê-me agora já
lê-me em
voz alta
lê-me com
os olhos
lê-me pelo
tato
lê-me no
papel
lê-me pela
Internet
lê-me por
favor
lê-me pelo
amor de deus
lê-me oh!
analfabeto
sexta-feira, 7 de
novembro
sopa de letras
hoje trabalhei exaustivamente no texto
fiquei a manhã inteira para colocar uma
vírgula
e a tarde inteira para tirá-la
oscar wilde
0)
tudo é menos
o que sobra do resto
e muito é
quando em si
entorna-se
por demais
ser
1)
ninguém perde
apenas deixa
pra lá
como está
o que não será
2)
teus olhos
vêem
o inaudível
só não ouvem
o invisível
3)
os dias
não são iguais
as noites
não se repetem
eu é que sou o mesmo
diuturnamente
no cotidiano
dia
ano
4)
tudo
o que imaginais
mil palavras
e mais uma
ou outra
e nenhuma
a mais
5)
asas invisíveis
abertas em ombros
sensíveis
ávidas asas
por vôos
intangíveis
tão livres
tão leves
plausíveis
asas impossíveis
amplas plenas
e críveis
6)
e nada havia
ela não se dava
não me olhava
e se eu a via
não resistia
assoviava
ela sorria
e só
ia
7)
em minhas buscas
nem sempre encontro
tuas coisas bruscas
(não as que escondes
mas as que ofuscas)
8)
doença sem
remédio
ninguém
avia a receita
com a
caligrafia
de deus
9)
comer-te
quero
ajude a
campanha
fome zero
10)
jogou
verde
colheu
paisagem
11)
o pulo
do gato
põe o cão
fulo
no ato
miaus
e aus
retrato
do caos
12)
que tua
mini
com meu
máximo
combine
e desse modo
ambos
sejam um todo
quinta-feira, 6 de
novembro
o amor
empunha
o arco
íris
e lança
flechas
de sete
cores
no ar
de
thomas
more
a utopia
abrigue
-
me
e o verbo
me
fez homem
verborrágico
penso
logo
rréico
não
namore
a
morena
no more
o vira-lata
late
(ou ladra)
no sentido lato
e em sua luta no lixo acha
lata de massa de tomate
lata de sardinha
lata de leite ninho
lata de lentilhas
& outros enlatados
tanto que sai latanhado
é comum que vira-lata
com lata se fira
ou apanhe no sentido látego
uma gota
em si
esgota
o líquido
incerto
porção
mínima de ti
ornamento
em mim
substância
que cai
um pingo
de orvalho
de suor
de sangue
de luz
de água
ou lágrima
tudo goteja
presta
atenção
tensão
não presta
não
e não e não
é
tudo que lhe resta
nada
à palma da mão
clima
de fim de festa
ficamos
assim então
comigo
não dê de testa
e acaso poeta tem sina?
a
sina do poeta é o acaso
a
poesia sempre buzina
em
seu mouco ouvido raso
“canta
em versos à menina
sua
paixão em curto prazo
só
não ame” o amor ensina
“que
amor é sinal de atraso”
não escreve
amor
escreve árvore
e ao menos terás
sombra
ou ora raios preferes
o sol dolor
causticante
desse ardor no peito?
poema duplaface
quando
renasci
um arcanjo
escroto
desses que
se julgam o próprio sol
falou pelos
cotovelos:
vai pintar
a guache a lida
não sou
artista
mas o
branco aceita cores
que moldura
nenhuma comporta
então não
me rabisque
me deixa
solto na tela
que vim à
terra a mão livre
e se ando a
pé pelo mundo
nem o céu
me limita
carlos
drummond
de
andrajos
com
destroços e pedaços
de
versos livres fiapos
belos
trapos
carlos
drummond
de andradita
poeta
mineral monométrico
de
verso silicato de ferro
e
incauto cálcio
carlos
drummond
de andrômeda
como
dói cravar o prego
na
memória sem parede
do
vasto nada
terça-feira, 4 de
novembro
pastilhas terçãs
as palavras
quero empregá-las
no ofício
de ocupar alguém
a lê-las
a utilizá-las
pois dão trabalho
mas estão a serviço
do pleno exercício
de quem – como eu –
tem mais o que fazer
(poesia
por exemplo)
a idéia
de vazio
por si só
o é
vaga
mente
se não
se pre
enche
uma flor
nasceu no oceano
em sua região
mais funda
fincada entre corais
sua imensa haste
a fez romper
águas bravias
no meio do nada
verde-azulado
uma flor frágil
inaugura-se no mar
enfrenta ondas
e solitária resiste
transgride a ordem
natural dos jardins
surgir exatamente ali
em inóspita região
inadequada às flores
marítimo enfeite
sua haste comprida
a trouxe à tona tão simples
tão bela tão flor
única e rara na superfície
emergiu desavisada
e lá está intacta
salinizada ao sol cáustico
a linda flor oceânica
não sou
quem não
sou
ainda que cada um
é o que é
mesmo não sendo
quem quer
ser
ou seja
todos são
mais ou menos
iguais
menos eu
que estou indiferente
aos
outros
e a
mim
se eu disser que sim
estarei
mentindo
com
uma única palavra
e
se insistir que não
poderei
cair no erro
de
renegar nossa história
então
digo talvez
que
assim quem sabe
um
dia pode acontecer de ser
perder-me?
só se for dentro
de mim
em que outro lugar
encontrar tamanha vastidão?
e tantos descaminhos
e múltiplos labirintos
para meus desencontros?
aqui me desoriento
e me percebo todos em um
um lugar de todos os outros
e nenhum e nada e ninguém
que não sei estar comigo
mas consigo ficar sozinho
e bem
o que és
é
distante do que amei
era
muito mais o que imaginava
fui
longe demais no querer
a
partir da intuição falha
não
passou de um desejo
nada
há de incomum em ti
e
não suporto ter que admitir
que
errei ao te pensar única
quando
na verdade és assim
como
qualquer outra
aos
olhos de quem soam
todos
os meus versos inúteis
todos
os meus verbos fúteis
então
devo confessar
não
és nem sombra do que julguei
tanto
amar
e nem
carecia ir tão fundo
vasculhar tudo meticulosamente
(ato impróprio para impensada
loucura)
desgrenhar-se na busca do
improvável
querer deparar-se com minha
tímida ternura
bastava olhar em meus olhos
em meus singelos olhos
criatura
dia de não
dia de negação
dia de contradizer
dia de renegar
dia de contrariar
dia de nem amanhecer
sine die
dia de inexistir
e desdizer
icei
âncora
que venta
que há mar em goiás
e não vou correr risco
de chegar lá
além de onde posso
e não quero
estar
bem que ela tentou
hipnotizar-me
mas eu já estava
pleno e absorto
com seu charme
e sua armadilha
de pêndulo
ativou meu alarme
eis-me desperto
eis-me esperto
eis-me perto
sentes
saudade
das perguntas
que me fazias
e tu mesma
as respondias?
sentes falta
das respostas
que me davas
quando nada
me perguntavas?
fonte de
palavras
letras em conta-gotas
sílabas pingam
mar de textos
ou simples veia
poética?
todavia
é sempre mão
única
um pingo
é...
(dois pontos
reticências
ponto
final)
...letra
password:
estou sem senha
sem paz
no mundo
enter
entre
ter
atiro a
paisagem
de dentro
pela janela
e vejo meu eu
lá fora
no vazio
de tudo
o mais
coisa
feia
a inveja
que na veia
lateja
todos
os meus mistérios
são gozosos
dolorosos
gloriosos
luminosos
e nunca me veio a
revelação
do puríssimo
e dulcíssimo amor
de certeza poderosa
com seu gozo
sua dor
sua glória
e sua luz
misteriosa
o abaixo-assinado
revela-se anônimo
e de si é seu interpelado
homônimo
em seu mais segredado
sinônimo
em seu menos desejado
antônimo
não te
perdi
me abandonei
nada te pedi
nem me dei
e se senti
não sei
se te vi
não me olhei
e se cri
descrencei
te conheci
descorçoei
busquei tu em ti
não me achei
comfusão
luzsombra
clarescuridão
te dou a
dor
fulgente
em luz
extravasa
esse brilho
ao sentir
que ainda sôfrego
meu amor
ilumina
das
semelhanças
tiramos desavenças
nas bonanças
inventamos diferenças
nossas nuanças
as quisemos imensas
duas crianças
insistindo em malquerenças
antes tão mansas
e agora tão tensas
tudo que em mim lanças
tudo que de mim pensas
todas as nossas danças
ao luar estão suspensas
minh’alma avança não a alcanças
mas é importante que a venças