OUTUBRO DE 2005

segunda-feira, 31 de outubro

Caminho para o silêncio

É minha outra evolução

Briguei com minha voz

Seu som ecoava no oco

de pensamentos ausentes

Não fazia sentido o sentir

Calado estou a observar

o que antes nada me dizia

Sou impronunciável ser

As metáforas são visíveis

menos nos olhos que tudo

Capto-me em mim: mudo

 

Em tua vida segredo sou

És na minha segredo meu 

Segredados nos damos:

tu me ocultando de ti

eu te escondendo de mim 

em atos quartos e fomes

às escuras irrevelados 

(ninguém sabe: tu e eu

sigilosos com o mistério) 

Confiável de confidências

e natureza responsável

enigmático é te amar

Ó meu amor indevassável

sou teu amor inconfessável

 

sexta-feira, 28 de outubro

Desprotejo-me de ti

não te comportando minha 

não me suportando teu

não te aportando em mim

À mercê

À deriva

Teu mar é raso

e sem sal

 

Sem

timbre

(de entonação

livre)

não tem

quem

vibre

 

Não dizer o que é

silenciar-se quanto a quem é

nem contar como é

Assim é 

não é?

É sim

se é

 

Convives:

com o medo

com o silêncio

com a solidão

até com a morte

Difícil é conviver

contigo mesmo

no que vives

Enquanto isso

sobrevives:

medroso

silencioso

solitário

semi-morto

 

Escapou

ou escapuliu?

Debandou

ou fugiu? 

Vazou

ou saiu?

Se ocultou

ou sumiu?

Ninguém notou

Ninguém viu

Ele sou?

Eu existiu?

 

quarta-feira, 26 de outubro

No que se fala

no que se lê

no que se cala

no que se vê

Pra quê palavra?

Palavra pra quê?

 

Tu e eu: um mundo. 

Mundo que se mune de versos

Universos de versos munidos

no mundo que somos

eu e Tu

 

Se não digo te amo,

não quero com isso dizer 

que menos amada és

(então assim não te sintas).

Com dúvidas ficas insegura,

e na insegurança de mim duvidas,

dando ao meu silêncio uma voz

que inexiste e só tu a ouves

como invenção de teu achar

que não és totalmente amada.  

A expressão do amor 

exige mais que palavras:

a pronúncia dos gestos,

a verbalização dos sentidos,

a linguagem da alma nos olhos.

E se te amo não digo,

escrever te amo prefiro,

que o te amo por escrito

fica como eterno registro

de meu silêncio para ti mui aflito

e de meu infinito sentir não dito.

 

terça-feira, 25 de outubro

Para a intensidade

mais aguda

a dor da ansiedade

é pontiaguda

e para a infelicidade

que deus-te-acuda

 

Ora bolas

para as parábolas

para os rábulas

fábulas

bulas

e ula-lá-lá

para lula

e todos os malas

 

Só teria

se houvesse

e se tivesse

haveria

o tinhavia

 

Quisera eu viver

o natural sentimento

não de um amor centrado

e inteligente

que só raciocina

e é puro pensamento

é mental cerebral

lógico e exatamente

E sim te devorar

louco e perdidamente

Mas não consigo

eu digo timidamente

Não quero te ver passar

por sofrimento 

unindo tua entrega

ao meu alheamento

Sentir a emoção

que tanta gente sente

pulsando no coração

a todo momento

Quisera eu te possuir

desmedidamente

demonstrar-te o tesão

aflito e urgente

Mas não te amo

e seria inconseqüente 

quebraria para nós

todo encantamento

Ah como eu gostaria

de agir diferente

Nem aí estar

- dane-se o que ela sente

Às vezes penso em tentar

e não tento

Eu te considero tanto

e sinceramente

Então fujo te evito

perdão eu lamento 

Vamos preservar

a amizade da gente

 

domingo, 23 de outubro

Não se aventure sem bússola

no mar de mim

Não se guie pelas estrelas

na noite da densa imensidão 

de consistência das águas

Nem se deixe levar pelo sol

em seu ângulo inexato

de cada raio apontando

rumo a lugar algum

Ou no mar de me amar se perca 

sem jamais desorientar-se

se amando no mar da catarse

 

Em teus cabelos 

toquei o vento

e nos teus olhos

vi paisagens

Indo por ir fui

desaprendi a pousar

fluindo de vôo em vôo

rumo ao nunca chegar

Se te sobra espaço

me falta ar

 

Se pelo amanhecer não esperavas

- amanheceu

Se com o inesperado não contavas

- o sol morreu

Se era fingida a atenção que davas

- real é o breu

 

sábado, 22 de outubro

Tua parte inverno

nem é tão fria quanto a minha

que faz doer nos ossos

dor

sal

espinha

 

Esquece que eu existo

Esquece

que eu desisto

Esquece isto

 

sexta-feira, 21 de outubro

Nervosa (a trucidação da haste)

Rancorosa (a trituração dos pólens)

Dolorosa (a extração das pétalas

da rosa)

 

Sem amor
vou sem cor
sem porquê

até o arco-íris

é p & b

 

quinta-feira, 20 de outubro

É um imenso oco

que eles camuflaram

sob camada de reboco

Com o tempo isso cai

A aparência a si se trai

 

A mão é rude, é rústica, é árdua. 

Trava com a lida as empreitadas

do exercício bruto de ações hostis.

Serve para carícias e afagos essa mão?

E para acenos e cumprimentos serve?

A mão que depois de lavrar o madeiro,

cravou os pregos, cavou e fincou-o

no topo íngreme do monte distante.

Que com a ponta de punhal talhou

a inscrição INRI na lasca ainda verde

de um velho carvalho dilacerado.

Mão que negou a moringa com água,

amolou com suor o aço cego da espada

com exaltada intenção de fazer uso

em corte que fosse doloroso e fundo.

Mão de Onã, pegajosa, manipuladora,

posta ao sol dos arrependimentos,

ungida de sêmen após toques loucos.

De unhas longas, aliança de ouro 18

no anelar, com brilhantes, cobiçada.

Mão podre e fétida achada em lixão,

agora jaz sem o corpo, mão esquerda

sem o valioso adorno, mão asquerosa.  

Não deveria ficar insepulta essa mão? 

 

quarta-feira, 19 de outubro

Felicidade tanta

Não vá explodir

Decanta seu fluir

 

Olhar

sem a necessidade de palavras

Que o silêncio diga

em pensamentos

para que o visto

- mais que imagem –

seja a percepção prazerosa

do sentir

 

O que é

é

para que sendo

se aposse do ser

e assim seja

 

Tens a chave

Ou tranca

ou abre

 

O hálito da noite

convida para o beijo do sono

Dormir: abandono

O sono beija a mão

O sono beija o rosto 

O sono beija a boca

O sono beija o peito

E por conta da noite deixa

a asa de seu abraço

que comporta e se encaixa

que conforta e relaxa

 

terça-feira, 18 de outubro

Nada tem de alma

Olhar opaco

Sangue ralo

Abismo em si mesmo

É algo essa coisa

que não é

que não

é

 

Discorda - és do contra.

Peita, exerce a afronta.

Chega de verdade pronta.

Uns te acharão tonta.

O que és desaponta.

Monta, desmonta, remonta.

É tudo um grande faz-de-conta.

 

Desaprendo.

Que não sei

nasci sabendo. 

 

Pendurou estrelas na aba do chapéu

Queria sentir na cabeça (não sobre ela

– mas cobrindo-a) o céu

 

Essa espuma que do mar vem

é o que a onda do mar traz

é o que a ira do mar deixa

é tudo que o mar tem

Branda e branca (sinal de paz?)

esmaece rala e sem queixa

essa espuma que do mar vem

 

Barcos trazendo flores

o mapa-múndi atravessaram

Com flores ao sol flores no mar

os barcos de flores aportaram 

e as flores de formas exatas

intactas não murcharam

 

segunda-feira, 17 de outubro

A realidade

é sempre assim,

de verdade?

 

Solidão

é sentir-se só

na imensidão

 

Na idade

admira-se

sua assiduidade

 

O relógio badala

Contar as horas

é sua fala

 

Não brinca

No nada

não dá de finca

 

Cumpriste o trato:

deixaste sem moldura

meu retrato

 

Assim sendo

só vi

vendo

 

Medo?

Só de morrer

cedo