OUTUBRO DE 2005

segunda-feira, 31 de outubro

Caminho para o silêncio

É minha outra evolução

Briguei com minha voz

Seu som ecoava no oco

de pensamentos ausentes

Não fazia sentido o sentir

Calado estou a observar

o que antes nada me dizia

Sou impronunciável ser

As metáforas são visíveis

menos nos olhos que tudo

Capto-me em mim: mudo

 

Em tua vida segredo sou

És na minha segredo meu 

Segredados nos damos:

tu me ocultando de ti

eu te escondendo de mim 

em atos quartos e fomes

às escuras irrevelados 

(ninguém sabe: tu e eu

sigilosos com o mistério) 

Confiável de confidências

e natureza responsável

enigmático é te amar

Ó meu amor indevassável

sou teu amor inconfessável

 

sexta-feira, 28 de outubro

Desprotejo-me de ti

não te comportando minha 

não me suportando teu

não te aportando em mim

À mercê

À deriva

Teu mar é raso

e sem sal

 

Sem

timbre

(de entonação

livre)

não tem

quem

vibre

 

Não dizer o que é

silenciar-se quanto a quem é

nem contar como é

Assim é 

não é?

É sim

se é

 

Convives:

com o medo

com o silêncio

com a solidão

até com a morte

Difícil é conviver

contigo mesmo

no que vives

Enquanto isso

sobrevives:

medroso

silencioso

solitário

semi-morto

 

Escapou

ou escapuliu?

Debandou

ou fugiu? 

Vazou

ou saiu?

Se ocultou

ou sumiu?

Ninguém notou

Ninguém viu

Ele sou?

Eu existiu?

 

quarta-feira, 26 de outubro

No que se fala

no que se lê

no que se cala

no que se vê

Pra quê palavra?

Palavra pra quê?

 

Tu e eu: um mundo. 

Mundo que se mune de versos

Universos de versos munidos

no mundo que somos

eu e Tu

 

Se não digo te amo,

não quero com isso dizer 

que menos amada és

(então assim não te sintas).

Com dúvidas ficas insegura,

e na insegurança de mim duvidas,

dando ao meu silêncio uma voz

que inexiste e só tu a ouves

como invenção de teu achar

que não és totalmente amada.  

A expressão do amor 

exige mais que palavras:

a pronúncia dos gestos,

a verbalização dos sentidos,

a linguagem da alma nos olhos.

E se te amo não digo,

escrever te amo prefiro,

que o te amo por escrito

fica como eterno registro

de meu silêncio para ti mui aflito

e de meu infinito sentir não dito.

 

terça-feira, 25 de outubro

Para a intensidade

mais aguda

a dor da ansiedade

é pontiaguda

e para a infelicidade

que deus-te-acuda

 

Ora bolas

para as parábolas

para os rábulas

fábulas

bulas

e ula-lá-lá

para lula

e todos os malas

 

Só teria

se houvesse

e se tivesse

haveria

o tinhavia

 

Quisera eu viver

o natural sentimento

não de um amor centrado

e inteligente

que só raciocina

e é puro pensamento

é mental cerebral

lógico e exatamente

E sim te devorar

louco e perdidamente

Mas não consigo

eu digo timidamente

Não quero te ver passar

por sofrimento 

unindo tua entrega

ao meu alheamento

Sentir a emoção

que tanta gente sente

pulsando no coração

a todo momento

Quisera eu te possuir

desmedidamente

demonstrar-te o tesão

aflito e urgente

Mas não te amo

e seria inconseqüente 

quebraria para nós

todo encantamento

Ah como eu gostaria

de agir diferente

Nem aí estar

- dane-se o que ela sente

Às vezes penso em tentar

e não tento

Eu te considero tanto

e sinceramente

Então fujo te evito

perdão eu lamento 

Vamos preservar

a amizade da gente

 

domingo, 23 de outubro

Não se aventure sem bússola

no mar de mim

Não se guie pelas estrelas

na noite da densa imensidão 

de consistência das águas

Nem se deixe levar pelo sol

em seu ângulo inexato

de cada raio apontando

rumo a lugar algum

Ou no mar de me amar se perca 

sem jamais desorientar-se

se amando no mar da catarse

 

Em teus cabelos 

toquei o vento

e nos teus olhos

vi paisagens

Indo por ir fui

desaprendi a pousar

fluindo de vôo em vôo

rumo ao nunca chegar

Se te sobra espaço

me falta ar

 

Se pelo amanhecer não esperavas

- amanheceu

Se com o inesperado não contavas

- o sol morreu

Se era fingida a atenção que davas

- real é o breu

 

sábado, 22 de outubro

Tua parte inverno

nem é tão fria quanto a minha

que faz doer nos ossos

dor

sal

espinha

 

Esquece que eu existo

Esquece

que eu desisto

Esquece isto

 

sexta-feira, 21 de outubro

Nervosa (a trucidação da haste)

Rancorosa (a trituração dos pólens)

Dolorosa (a extração das pétalas

da rosa)

 

Sem amor
vou sem cor
sem porquê

até o arco-íris

é p & b

 

quinta-feira, 20 de outubro

É um imenso oco

que eles camuflaram

sob camada de reboco

Com o tempo isso cai

A aparência a si se trai

 

A mão é rude, é rústica, é árdua. 

Trava com a lida as empreitadas

do exercício bruto de ações hostis.

Serve para carícias e afagos essa mão?

E para acenos e cumprimentos serve?

A mão que depois de lavrar o madeiro,

cravou os pregos, cavou e fincou-o

no topo íngreme do monte distante.

Que com a ponta de punhal talhou

a inscrição INRI na lasca ainda verde

de um velho carvalho dilacerado.

Mão que negou a moringa com água,

amolou com suor o aço cego da espada

com exaltada intenção de fazer uso

em corte que fosse doloroso e fundo.

Mão de Onã, pegajosa, manipuladora,

posta ao sol dos arrependimentos,

ungida de sêmen após toques loucos.

De unhas longas, aliança de ouro 18

no anelar, com brilhantes, cobiçada.

Mão podre e fétida achada em lixão,

agora jaz sem o corpo, mão esquerda

sem o valioso adorno, mão asquerosa.  

Não deveria ficar insepulta essa mão? 

 

quarta-feira, 19 de outubro

Felicidade tanta

Não vá explodir

Decanta seu fluir

 

Olhar

sem a necessidade de palavras

Que o silêncio diga

em pensamentos

para que o visto

- mais que imagem –

seja a percepção prazerosa

do sentir

 

O que é

é

para que sendo

se aposse do ser

e assim seja

 

Tens a chave

Ou tranca

ou abre

 

O hálito da noite

convida para o beijo do sono

Dormir: abandono

O sono beija a mão

O sono beija o rosto 

O sono beija a boca

O sono beija o peito

E por conta da noite deixa

a asa de seu abraço

que comporta e se encaixa

que conforta e relaxa

 

terça-feira, 18 de outubro

Nada tem de alma

Olhar opaco

Sangue ralo

Abismo em si mesmo

É algo essa coisa

que não é

que não

é

 

Discorda - és do contra.

Peita, exerce a afronta.

Chega de verdade pronta.

Uns te acharão tonta.

O que és desaponta.

Monta, desmonta, remonta.

É tudo um grande faz-de-conta.

 

Desaprendo.

Que não sei

nasci sabendo. 

 

Pendurou estrelas na aba do chapéu

Queria sentir na cabeça (não sobre ela

– mas cobrindo-a) o céu

 

Essa espuma que do mar vem

é o que a onda do mar traz

é o que a ira do mar deixa

é tudo que o mar tem

Branda e branca (sinal de paz?)

esmaece rala e sem queixa

essa espuma que do mar vem

 

Barcos trazendo flores

o mapa-múndi atravessaram

Com flores ao sol flores no mar

os barcos de flores aportaram 

e as flores de formas exatas

intactas não murcharam

 

segunda-feira, 17 de outubro

A realidade

é sempre assim,

de verdade?

 

Solidão

é sentir-se só

na imensidão

 

Na idade

admira-se

sua assiduidade

 

O relógio badala

Contar as horas

é sua fala

 

Não brinca

No nada

não dá de finca

 

Cumpriste o trato:

deixaste sem moldura

meu retrato

 

Assim sendo

só vi

vendo

 

Medo?

Só de morrer

cedo

 

Como é

dar ciência

à fé?

 

Nuvens o que são?

Tudo -

menos algodão

Coisas

em mutação

Crias

de má formação

Carregadas

de ilusão

Névoas

para avião

Etéreas

para a visão

 

sábado, 15 de outubro

Fogo. Eu pego. Alastro. Inflamo.

Incendeio-te em chamas e chamas

de milhares de sóis impiedosos.

Consome-te em mim, fogosa.

Tão ardente és. Juntos pelamos.

Energia pura. Sinergia louca.

Nus nós dois. Inclusive de pele.

Tudo queima. O sopro, a brisa.

Quente, eleva-se e nos suaviza.

 

sexta-feira, 14 de outubro

Hai-Kais

 

O antes

e o depois?

Distantes

 

Tudo é ausência

A partir da infância

da perdida inocência

 

Tirante a estrofe

tudo o mais

é off

 

Bem mais

que final feliz

acabou em paz

 

Sempre por um triz

a tênue linha entre vaia

e bis

 

Não não diga

que não

não dá liga

 

Palmital não preserva

quem palmito põe

em conserva

 

Não se avexe

Deita e rola

E mexe

 

Pronto

Acabou

Ponto

 

Acordo fechado:

o mudo não ouve

o surdo fica calado

 

Dieta completa:

boca fechada

pique de atleta

 

Esse vai-e-vem

como entra-e-sai

vai e cai bem

 

Lula lá:

os dá aqui

e os dê cá

 

Das duas uma:

lugar nenhum

parte alguma

 

Não e não e não

é sim

uma tri-negação

 

Brinque com fogo

podendo se queimar

no fim do jogo

 

Na hora do bem-bom

mantém o ritmo

dá o tom

 

Sinaleiro:

no vermelho

é um paradeiro

 

A ordem alfabética

dá às letras

melhor estética

 

Fincou o pé

na contramão

em marcha a ré

 

Na rua do sabão

balão cai cai 

com escorregão

 

A classe política

acha que ética

é tica

 

Não só com quem andas

diga também

por quais bandas

 

Frágil tanto quanto

que ao tocá-la

quebrou-se o encanto

 

Para um daltônico

fácil não é

ser camaleônico

 

Sou intenso

no que vivo sinto

e penso

 

Purista da língua

- este sim

que íngua

 

Até cão brabo

vez por outra

abana o rabo

 

Em cada esquina

há produtos

made in China

 

quinta-feira, 13 de outubro

Para se fazer o silêncio

tece as falas e alinhava

e à própria cova cava

acaso eterno o queira

E se aprofundar sofre

pois o silêncio só cala

oculto em vale e vala

assim sem eira e beira

Silêncio: falácia inteira

a primeira e derradeira

 

quarta-feira, 12 de outubro

Entre tantas, tu.

Tu, como ninguém.

Única exclusivamente.

Tu somente.

Eu só.

E tu sem.

 

Do que ela está sempre certa:

que é confusa

insegura

impaciente

instável

impetuosa

e não sabe o que quer

Ou seja:

minha poesia

é como toda e qualquer

mulher

 

Definir o amor como indefinido sentimento

(ou como sentimento infinito, inexplicável).

Senti-lo é melhor que traduzir: e é impossível.

Reduzir a palavras o inalcançável (até para a imaginação)

é limitá-lo. O que dizer do amor? Que é? Que está?

Mesmo o coração é mínimo para tanto. Mas o abriga.

E em silêncio vibra, em silêncio sofre. E se mantém. 

Amor não-dicionarizado. Bem maior. Afeição, ardência.

Ternura a possuir um desejo. Ou será isso paixão?

Amor evolução da amizade. Entre tesão, atração, junção.

Amor como um todo. Gozo e unção em tudo. Senão, não.   

 

E São Paulo

deixa seu Tietê às margens

paulatinamente

 

Não agora.

Outra hora.

Não aqui.

Nem aí.

Menos lá fora.

Como antes:

nunca.

Outra vez:

jamais. 

 

terça-feira, 11 de outubro

Não penso

logo

inexisto

Repenso

logo

reexisto

 

Sinto 

mas não como eu

não para mim

E sim

o sentir vário

de outros

de muitos

de quase todos

ou de ninguém

ou de alguém

que nada

sinta

 

Para cada beijo

ela faz uma boca

Mas traída pela língua

a todos se entrega

de olhos fechados

 

segunda-feira, 10 de outubro

(Extrais da loucura

apreciada doçura

favos de candura)

Só quando a abelha

se destrambelha

é que – pinel

se açucara

e um tonel

de mel

prepara

 

sábado, 8 de outubro

Nada vezes nada

Nada versus nada

Nada mais nada

Nada igual nada

Nda.

 

Não ouves mais

o ourives da palavra

Dilapidas

as jazidas

Lapidas

teu jazigo

Eterno sono

de tu contigo

 

Se até o vento

da pedra a fenda penetra

hei de

aventar-me

em ti

 

A ira do Katrina

deu descarga na

- outra América - 

(a do Norte)

latrina

 

Chega aqui.

Vem.

Assim.

Mais.

Isso.

(Suspiros

e ais).

 

sexta-feira, 7 de outubro

Ah, infância,

não deixe crescer as crianças.

Elas se adult

eram

 

Que sombra é essa?

É o sol, com intensa luz

- a fim de se refrescar -

brincando de desenhar.

 

Campos de arroz, cachos maduros.

Abranda-se a fome de meus olhos

por belezas acesas na paisagem.

A colheita alimenta com grãos

a cada um dos raios do sol. 

 

A menina de teus olhos

é a menina dos olhos meus.

De teus olhos capturei-a

dando meus olhos aos teus.

 

Não digas: ontem será,

que o presente aqui está.

Que o que era futuro

(como passado não é)

ainda não foi – virá.

Um pelo outro passará,

só aí o que vem ficará. 

 

Em teu corpo

derrapo nas curvas fechadas.

Troco as marchas.

Dou trombadas.

Vou fundo.

Topo todas as paradas.

Vou bem devagar

percorrendo tuas estradas.

 

quinta-feira, 6 de outubro

Mergulhe em desconhecidas águas.

Serão profundas ou rasas?

Cristalinas nas profundezas,

turvas na superfície?

Só o aprofundar-se nelas revelarão

a ti as suas misteriosas faces.

Águas convidativas, águas anfitriãs,

mas ariscas tanto quanto te arriscas

nessas insaciáveis fontes de poesia.

Estás intrigada, queres imergir,

atirar-se no líquido abismo, ir fundo, 

desafiar-se sem o temor do cansaço,

pois as águas te sugarão, agraciadas, 

em um corrente e aquoso abraço,

enciumadas com as margens de lá.

Tu a ti somente terás por companhia. 

E é nesse rio-mar que em mim há

que a nado deve ser a tua travessia.

 

terça-feira, 4 de outubro

Sendo assim

não é não

Outrossim

não há não

Ou enfim

não e não e não

Sim?

Não!

(Fim

então)

 

O melhor

do amor é

amar melhor

e até

 

Estou calmo

li o Salmo

Não me ultraje

reli Bocage

 

Não se dê ao luxo

Não brinque com fogo

Não entre numas

Não meta os pés pelas mãos

Não se deixe levar

Não compre gato por lebre

Não dê tempo ao tempo

Não fale com o motorista

Não troque seis por meia dúzia

Não entre sem bater

Não diga não ao não

Sim

 

Bem te fiz

não me fizeste 

Foste atriz

nada me deste

(nem um bis)

- Sua peste!

(Por um triz

passaste no teste) 

Como se diz:

- És the best  

 

Não ao pão

assar

Sim ao trigo

semear

Antes de fazer

plantar

cachos ao sol

deixar amadurecer

colher

E só então alimentar

Antes de ser

sonhar

crer

realizar

Do trigo ao pão

de ação a intenção

quer se fartar

 

segunda-feira, 3 de outubro

Não tem nome este sentir.

Não me ouve e te é mudo.

Não há. Não é nada. Nem

a vontade de vir a ser tem.

 

Guardou sorrisos para todas as horas. 

A dor, o infortúnio e a morte o advertiram:

- Se chorar não podes, também não te rias,

não te rias da sofreguidão – ou lamentarás.

Mas ele tinha feito pactos com a alegria,

com a esperança, com o sonho e com a vida.

E afinal, pensou (ou mais: será que sentiu?):

as lamúrias em felicidade não querem resultar?

E riu e riu e riu.  

 

- A dieta?

- Adie, tá?

 

sábado, 1º de outubro

Bruta

não a pedra

nem a luta

mas a força

contra

ultra 

 

És a catapulta:

ou te avilta

ou te avulta

 

Rebelde sem causa

é rebelde sem caso

rebelde sem calma

rebelde sem calça

rebelde sem casa

rebelde com caca

 

Vem aí uma tempestade.

Cuida de teu amor – ele é líquido.

Se se misturar às águas

fluirá imenso – mas disperso.

Ele que é em ti amor-cuspe,

amor-suor e amor sêmen,

mais líquido ainda será,

mas para ti mínimo ardente

qual mina de magma: lágrima.

 

sexta-feira, 30 de setembro

Sei, vendo pelos poros luzes a vazar,

que o êxtase máximo em ti se acentua.

Tu no dorso de teu garanhão ao luar,

com leveza montada em pêlo a galopar,

nua. 

Tudo é plenitude. Carece de respirar,

se todo ar do mundo à tu’alma cultua?

A noite arde, faz teu corpo ensolarar.  

E tu, gozando, no teu corcel a trotar,

flutua.

 

OUTUBRO DE 2004

domingo, 31 de outubro

ANTOLOGIA
de mínima poética ( I )

pergunto onde

- só o silêncio responde

teu olhar e o meu

brincam de esconde-

esconde

 

ó minha estrela do dia

não se sinta perdida

de minha noite esquecida

só alumia

e meu diurno breu adia

 

somos menos do que podemos

menos do que queremos

menos do que pensamos

menos do que vivemos

menos do que sabemos

menos do que sentimos

somos menos e nem somamos

pois só fazemos conta de menos 

 

tpm:

toda

pureza 

mina

 

sábado, 30 de outubro

o fim do mundo

terá continuidade

e já começou

em água e fogo

e queira o de(u)scriador

necessariamente

nessa ordem

que no molhado

fogo não pega

que com água

fogo se apaga

 

águas passadas

passam adiante

vão-se adiantadas

 

sexta-feira, 29 de outubro

vôo solo

no ar

no mais alto

     solar

 

no que miras

vês verdades

ou mentiras?

o que enxergas

é nítido

ou às cegas?

 

 

devolvo-te as palavras

à tua boca

para que nunca mais

as diga

ainda que em meus ouvidos

para sempre ecoem

ao som de tua voz

ambígua

 

forma sem conteúdo

escafandro inundado 

armadura sem corpo

redoma sem oxigênio

vida só

 

escala

o sol maior

eleva

um semitom

 

não me ter

não se dar

não te ver

não sonhar

não e não e

   

noite

és inquilina

de meu relento

habito

teu abandono

hospedamos estrelas

em gotas de orvalho

contas de solitária

luz ao sereno 

 

a liberdade

independe

não se submete à força

nem se constrange

física ou moralmente 

às três margens

de seu cativeiro 

 

acalma

teu sistema nervoso

inquosciente

tua alma

não faz idéia

mas inteligente

mente

é

 

quinta-feira, 28 de outubro

minivers0s-universos

todas as palavras

todas

sempre te pertencerão

como universo

para tua comunicação

ditas

escritas

como forma

de tua livre expressão

mas transmita-as

com o coração

 

se desespera

quando menos

se espera

quando o vazio

impera

quando a falta

prospera

quando o tido

já era

e reconquistar

quem dera

 

pra fim

de conversa

vá direto

ao ponto.

 

não pense assim

assim não

pense sin-

ta

 

a ti moça

que me lês

e nunca ganhastes

um verso

toma este para ti

guarda-o na alma 

com a emoção

do primeiro poema

que recebes

sem que a ti o poeta conheça

platônica e anônima musa

de minha mais vã inspiração

tu o mereces

ainda que a ti chegue e seja 

de um poeta que desconheces

 

asas

ao sol

secam

penas

úmidas

pesam

 

rataplã rataplã

arrozais do Vietnã

the bomb in Japan

papoula afegã

rataplã rataplã

química com Sadam   

boeings da Pan Am

mártires do islã

rataplã rataplã

guerra louca Tio Sam

mundo sem amanhã

será essa vida vã?  

 

falta céu

falta ar

não voar

é não respirar

 

ao despir-me

ela diz:

- fica firme

 

nada

vezes

nada

multiplic

ação

zerada

 

nem sinônimo

nem antônimo

mas homônimo

do anônimo

omni homo

 

na terra

buraco

tatuado

pelo tatu

teba

 

pensante

       sente

 

terça-feira, 26 de outubro

mar

uma margem

de cá

a outra sabe-se

 

nem tudo

são

todas as coisas

e tudo tem

essa coisa

toda

 

não estou

preparado

para o amanhã

ontem

estava

despreparado

ou paro

e me encaro

ou reparo

e me preparo

ou caso contrário

me declaro

eu

de mim

meu

adversário

 

fazer ninho

em teu corpo

- passarinho

beber vinho

em teu copo

- tontinho

devagarinho

de tua boca

à tua toca

- peixinho

 

dia pela metade

sol no céu

a r d e

de louca

saudade

três da tarde

 

dormes nua

suave te roço

te possuo

- posso?

de cada noite

suado

pão nosso

 

nome

sobre

nome

sobrenome

assina alm...

a

 

eternamente já

para sempre agora

imediatamente

incessante

presente

constante

mas já

o eternamente

nesse instante

 

com letra

cursiva

escrevi

em um grão

de arroz

amor

alimenta-me

e se sustenta

 

respeito deliciado

contemplativo e delicado

com minha haste em riste

teus dias de sangramento

tua erupção  

teu ciclo uterino  

tua purgação do mês

não há incômodo líquida fêmea 

púrpura criatura

sem lua de mel

escorre sangue de tua flor

rubra

rosa

 

meu descompromisso

                          é isso

e ela não entende

quando diz querer

um de meus cinco dedos

da mão esquerda

ninguém mais me prende

                         aprende

 

domingo, 24 de outubro

 

A FERNANDO PESSOA

 

a palavra

ó pá

lavra

é lava

é larva 

 

SEXUS NEXUS

 

em ti

macho

me acho

ó fêmea

efême(r)a

 

A NOITE

 

afoita

a noite

cai

em si

a noite

dentro

no breu

de ti

 

SAL DADE

 

mar

ó mar

muito

de teu sal

são lágrimas

ignotas

sem rotas

de marujos

saudosos

das naus

de Gama

Colombo

Cabral

 

VIU?

 

agora olha

 

ACOMETIDO

 

não é conto

nem novela

ou poesia

é doença

crônica

 

MENOS MAIS

 

que tudo

que é demais

é em demasia

 

QUOTIDIANO

 

escreveu no diário:

é muito diferente

do teu

meu cotidiano

 

AGRIDOCE

 

plantei

um pé

de laranja

da ilha

 

AOS TEUS CUIDADOS

 

favor preencher

este coração

em branco

ao portador

 

INCERTIDÃO

 

nasci assim

do jeito

que vim

meio

que começo

e fim

 

A COR DO MAR

 

o mar não é

azul

o mar verde

não é

cada um vê

o mar

com a cor

que quer

que ao olhar

melhor convier

 

DE PENETRA

 

fui

à festa

da tristeza

 

DE CARA

 

amor

à primeira vista

só por alguém

que ainda não vi

 

UMA FERA

 

então

não faço parte

de tua fauna?

vou virar bicho

 

EXISTENCIAL

 

há sons

que só ecoam

no vazio

da alma

no mais fundo

silêncio

da existência

no olhar opaco

perdido

na distância

se buscando

na ausência

 

ENFIM O FIM

 

desprazer

em reconhecer-te

 

A PALAVRA

 

a palavra

muda

se desnuda

se contradiz

 

DOR DE AMOR

 

amar:

ternura

na ranhura

o acariciado

todo arranhado

- dói respirar

 

MADE IN GOIÂNIA

 

de hippie

na feira da lua

de yuppie

na feira do sol

noite

e dia

bem ao gosto

da freguesia 

 

LUZ CEGA

 

é luminosidade

(não vês?)

de meu olhar

que brilha

capta

essa luz

que ela a ti

se adapta

e seu fulgor

rega

com a lágrima

cega

do amor

 

quinta-feira, 14 de outubro

<A>

pra mim

chega: 

ou me dá

ou se entrega

ou me agarra

ou me pega

ou me guia

ou me cega

 

<B>

sem o beijo

falamos línguas

diferentes

mas se nos beijamos

aí nosso bate boca

é sem igual

 

<C>

nada por terminar

recomeço a cada segundo

já sinto a falta de ar

conspirando contra o mundo

e sem ter o que revelar

muitas vezes te confundo

e é pra te ver boiar

que sempre me aprofundo

 

I -

tua cabeça:

céu

de uma única

estrela

pulsando

solitária

infinita

            mente

 

II -

mergulhas

mar sem fundo

vasculhas

o sem-fim do mundo

não há plenitude

não há

se não te encontras

em ti

a imensidão de ser

e estar

 

III -

vives a saudade

do ontem

com ar de saudade

futura

o passado

o porvir

a dolorosa lembrança 

do pres(sentir)

- e o teu agora

deixas ir

 

IV -

          as

galáxias

   

 

V -

ensaio reensaio

e qual titubeante raio

não sei onde caio

 

VI -

não ouço

teu concerto de piano 

sem mãos

só vejo teus anéis

de pedras

nas teclas p&b

 

quarta-feira, 13 de outubro

meu coração

é latifúndio improdutivo

que por mais que me queiras

em seus milhões de alqueires

em solidão

sempre vivo 

 

a alma

de Dalva

Viegas

Braga

vaga

e às cegas

mas sã

e salva

 

eu que amava ela

que a amava

que se amava

que só amava a si

que a si amava só

 

dá adeus

mas de longe

(há cenas

dos que se vão

que ficam)

 

fui convidado

para a última quimera

cheguei atrasado

- já era!

 

carrega no bolso

teu coração

melhor moeda

para o bar

               ganhar

 

acaso reticências

não serão pontos finais

para a santíssima

trindade

em descontinuidade?

 

atenção minha audiência

atenção minha assistência

em vossa leitura toda a essência

dessa poexistência

razão de sua insistência

em sobrevivência

sem dormência

poeticência

 

revoltada

não estás?

então ré

 

volta

e ficarás

 

pouso

pausa

asa

sem uso

por causa

da coisa

pausada

pousada

 

fotografa

e já

num segundo

que o momento

esse instante

é só um flash

 

dou exclamações

ao teu olhar

questionador

- de incertezas

enfim

 

eu

que vivo ligado

sempre tão elétrico

(220 volts)

estou

unplugged

 

o silêncio

que sondo

anuncia

o estrondo

do fruto maduro

e seu tombo

- o silêncio

que sondo

vadia

(não escondo)

em pêlo

no lombo

- o silêncio

que sondo

à revelia

se expondo

me bate

eu trombo

 

en la posteridad

verás

non tieres existido

jamás 

 

há no silêncio

outro silêncio

em uma redoma

silenciosa

dentro da qual

me silencio

e tudo ouço

silenciosamente

 

canto

em decantação

para encantoar-te

em encantamento

 

tenho tantos pedaços

que para juntá-los

levarei a vida

inteira

 

terça-feira, 12 de outubro

não é sentimento esse sentimento

talvez um estado de espírito

uma sensação de momento

mas esse frio na barriga

esse ar na espinha

esse alheamento

é coisa do pensamento

essa inquietude

esse desatino

esse formigamento

isso não é sentimento

 

segunda-feira, 11 de outubro

ânsia

na essência

substância

e aparência

(insignificância)

 

por descuido

distração

tirei o escudo

expus o coração

enfraquecido

peito ferido

fui atingido

- ai paixão

 

Jobim

no céu

Um tom

acima do Sol

 

o infinito é aberto

janela para tudo

porta para o todo

amplitude do olhar

revisto

 

pseudo

      eu

    se

 pseudo

   seu

 

És um grande rio

Sou apenas um teu afluente 

sem sede para saciar

sem terras para regar

sem mar para desaguar

Sou uma tua lágrima

- Podes não me chorar

 

Do cerrado resta pouco:

retorcidos mirrados

alguns paus ocos

ribeirões secos

fauna tosca

galhos e tocos

 

A cada dia

amplio

poesia

não teu mar

mas meu navio

e avanço

pois se recuo

a lonjura

não diminuo

 

O que de maior

temos?

Os extremos

- Quando ganhamos

- Quando perdemos

 

Caminhou sobre águas

- não sobre abismos

Pior é a queda no nada

 

eu brinco de escrever

 

I -

silêncio

ecoa dentro:

voz do pensamento

 

II -

sobre o branco

tudo

tem cor

 

III -

felicidade é dor

de primavera

sem flor

 

IV -

céu cielo sky

nele deus hay

dele deus não cai

 

V -

na tv espelho

vê a imagem

de si mesmo

 

VI -

um ramo de flores

depositai

sobre árida memória 

 

VII -

sou eu caminhante

vou - e essa tarde

é a única companhia

 

VIII -

o sol é cego

intensidade

de toda luz 

 

IX -

ainda que tua voz

seja pálida

canta o azul

 

X -

a infância

é interminável

até o fim

 

 “A plástica desnecessária” vence o VI Festival de Poesia Encenada

da Federação de Teatro de Goiás.

 

A poesia “A plástica desnecessária”, do poeta, escritor e criador publicitário Flávio Almeida foi a vencedora, como texto inédito, do VI Festival de Poesia Encenada – Me Encanta Que Eu Te In Canto, versão 2004, promovido pela Federação de Teatro do Estado de Goiás (FETEG), nas noites de 22 a 25 de julho.

Este Festival, criado em 1999, tem como proposta estender o encanto da poesia para além da pura e simples declamação, dando oportunidade aos novos talentos da arte de representar, agitando o cenário teatral de Goiás e promovendo a cultura, o lazer e a confraternização entre os profissionais do teatro e os amantes da poesia.

“A plástica desnecessária” entrou em cena no palco do Teatro Pyguá do Centro Cultural Martim Cererê, apresentada pela Companhia Teatral Abaporu, com os atores Kleber Santos, Rodrigo Mármore, Lidiane Leles e direção de Eduardo Souza.

Os espetáculos, com no máximo 12 minutos de duração, foram avaliados por comissão julgadora formada por atores, teatrólogos, escritores, poetas e fazedores de teatro, que premiou 14 categorias. Além dos textos inéditos, concorreram obras de Chico Buarque, Cazuza, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Castro Alves, dentre outros.

 

A plástica desnecessária

 

Não quero parecer drástico

(e muito menos sarcástico),

mas tua rara beleza

não se põe à mesa

de um cirurgião plástico...

- Amor, teu corpo é fantástico!

Se essa gente for honesta,

verá que é irretocável tua testa...

Não me causes nenhum desgosto

- não mudes nada nadinha em teu rosto.

Ele é a própria essência da perfeição

de tua inigualável e original criação...

Quero ver qual infeliz

vai re/tocar este teu nariz...

É a marca de tua beleza rara...

Será que não vêem? – Está na cara! 

E eu ainda não sei como é que deixas

alguém falar, ousar ou sequer pensar

em amainar tuas suculentas bochechas...

Vão refazer o quê em teu queixo?

Se pudesse dizer, diria: - Não deixo!

Querem tirar carne de teu pescoço?

Mas, moço, vou aprontar um alvoroço...

(Quem é que gosta só de pele e osso?)

O pescoço dela é arte final, não é esboço...

O quê? Querem empinar teus seios?

Sou contra! Peito a todos, tenho meus meios.

E pra quê? - Se teus peitos

são lindos, são perfeitos,

e olha que de seus deleites sei-os...

Jesus amado! Querem mudar os teus traços...

Onde já se viu querer afinar e refinar, 

tirar carne dos teus braços?!

Querem enfraquecer teus amassos?

Estão te propondo uma lipo?

De que tipo?

De localizadas gordurinhas?

Onde? Na barriguinha?

Ah, eu adoro estas dobrinhas...

Sanfonadinhas e literalmente fofinhas...

Meu Deus, não concebo, não consigo

imaginar que possam mexer no teu umbigo...

Eu xingo, dou birra, faço greve, brigo,

e não pensem que eu não ligo, que eu ligo...

Não, não posso visualizar nenhuma cicatriz

na altura de teus vistosos quadris... 

O que estão pensando fazer em tuas ancas?

Me diz?

Será que estão confundindo opulência com pelancas?

Não e não e não, criatura... Isto não é gordura...

É uma delícia essa magnificência, essa fartura...

Estão projetando arrebitar teu bumbum?

Huummm!!! Negativo, hum, hum...

Menina, ficaste louca? De jeito nenhum!

(Essa gente não entende nada de nádegas...)

Em hipótese alguma, em nenhuma circunstância

enrijecerão a protuberância dessa abundância...

Quanto à tua mais íntima flor, nem pensar!

Que esta é puro amor perfeito

– melhor não tem jeito

de ficar...

Meu amor, acho a maior loucura

imaginar que possas modificar a estrutura

desta tua belezura de cintura...

E se deres ouvido ao teu homem,

manterás como está teu abdômen...  

E, querida, não deixes que tornem postiças

as tuas deliciosas e torneadas coxas roliças...

O quê? Insinuaram que vão remodelar teus joelhos?  

Eles que aí nem ousem meter o bedelho...

Por favor, não dês ouvidos a estes conselhos...

E se ainda der tempo te faço mais um, dentre tantos apelos:

- Não permitas que toquem nos teus tornozelos...

Ai, querem é aumentar meu stress...

Ah, se encostarem as mãos nestes pés...

Sei que te fotografaram dos quatro costados,

de frente, verso e por todos os lados...

E que no computador vão te mostrar outro visual,

algo assim irreal, nada original, bem virtual...

Te farão parecer outra, como ficarás depois

- façam-me o favor, ora, ora, pois, pois –

recauchutada, enxutinha, fenomenal!

Pra quê, se já és sensacional

como és, como estás, tal e qual...

- Deus tava inspirado ao te criar única e sem-igual...

(Ó Senhor, a protegei na hora da anestesia geral...)

Mas, brincadeiras à parte, ó minha obra de arte,

de qualquer modo jamais deixarei de desejar-te.

Antes de qualquer cirurgia, de qualquer modificação,

saibas o quão delicada é esta operação...

Qualquer mudança na gente requer reflexão,

para que não haja constrangimento

e nem posterior arrependimento,

sofrimento ou rejeição...

Em tudo terás meu apoio, pelo sim e pelo não...     

Que sabes que em tudo e por tudo sou e serei teu...

Queres fazer em ti alguma plástica remodeladora?

Faças! Mas sabendo que és linda, perfeita, sedutora,

uma delícia, uma coisinha e minha musa inspiradora...

 

Cantadinha

 

Que desculpa devo arranjar

para puxar assunto contigo?

Não me olha assim

que eu te vejo em mim.

Se eu tivesse o número de teu telefone

não tinha engano.

Não me deixes acordar,

menina dos sonhos.

Roubarei o brilho das estrelas

para teus olhos.

De tanto fugir de meus sonhos,

uma noite te pego exausta.

Posso te cantar em versos,

todo prosa?

Nunca vi mulher tão exata assim...

Ensina-me o caminho.

Quero chegar ao teu coração.

Quero ser inteiro.

Falta-te, ó metade de mim.

És tão perfeita

que nenhum dicionário tem a tua definição.

Não acreditas em amor à primeira vista?

E à primeira teclada?

Agora que conheci teu sorriso,

mostra-me toda a beleza que és e tens.

Já reparei que és inteligente

e que vais adorar conviver comigo...

E se te encontrar for minha perdição?

Sonhei contigo esta noite.

Impossível que sejas mais linda pessoalmente!

Tivesse eu direito a um único desejo,

nem sei qual seria...

Se disseres não ao amor que te oferecerei,

ouvirei como um talvez.

Não pensava em casar novamente... Juro!

Depois de me procurar toda minha vida,

eis que te encontro.

Minha couraça tem uma única brecha.

Foste certeiro, cupido, com tua flecha.

 

Coisas de Phlávio

Poeto-me

e me poemo.

E o mais

não temo.

Eu me abarco.

Eu me remo.

Sem limites.

Ao extremo.

 

Pisa no céu...

(Ar caminhante).

- Ao léu...

Voa ao chão...

(Solo esvoaçante).

- No vão...

 

A poesia,

em si,

caiu em mim.

A poesia,

por si,

partiu do fim.

A poesia,

de ti,

acabou-se assim.

 

Ame – esqueça.

Esqueça - ame.

Ame - amnésia.

 

Vivemos nós o tempo

de todos apressados

e relações fugazes.

O tempo de breves olás

e simples adeus.

 

Alheamento:

sou e estou distraído.

Não ligo para isso.

 

Efeitos.

Tatuagens em mim?

Só meus poros.

 

Filme.

A fotografia.

O momento revelado.

 

Travessia.

Atravessa a ponte.

O abismo fica no ar.

 

Ontem:

o passado foi.

Já era.

 

Sem sabor.

Os vegetarianos

são de osso e carne.

 

Revestimento.

Tem fim

a tua pele?

 

Lago.

Narciso não se enxergou

no que viu.

 

E nada mais te peço

além do que já implorei.

Não há como ressarcir

as lágrimas que chorei.

E aquele amor no peito

aquietei,

sublimei,

abafei...

 

Traduz.

Tormentas inefáveis do silêncio interior.

A luz percorre todos os caminhos.

Não há empecilhos.

Decifra, então.

A busca constante do simples para sentir-me.

Revela o outro em mim, que íntegro sou maior.

A singeleza que é viver.

Não complica.

Em tudo renova os sonhos.

Viaja no infinito para jamais chegar.

Mas alcance, a luz.

Percorra com ela também os meus descaminhos.

 

 
 
Somar
Eu
em Mim
Um Par

Resultar
em Um Par
somar Eu
em Mim

Eu em Par
somar
em Mim
Um




 

 

LuZ dE iNcÊnDio
é TeU cALoR
:
A
cENdE-o

 

mE dEvAsSa
Me aCHa
mE cA



Se ApAGa
t
Eu Lume
NãO VagA



acEnDe
IL
uMiNa
d
ESVenDe
E
nsINA

EntenDE

 

MaNhã AcEsA:
D
o soL
é
sUTlLEzA

 

AprENdO
O
qUe é iNcÊNdio
qUeiMANdo-Me

NãO nUm coMpÊNdio

 



Meu bem, foi mal, não te fiz

bem.

Um bem-bom que não se deu

bem.

Magoada, nem quiseste ficar de bem.

(Não mais ficar de bem, belém-bem).

Jamais, nunca voltar a ser teu bem.

Nem eu também, que vou ficar bem.

Ainda bem que eu te quis todo bem.

Se o meu coração continua?

Bem...

 

 
 

 

4

 

Como não pensar

se penso?

Se não penso,

dispenso a mente

do exercício diário da vida.

Quantas vezes

 me pego pensando

em algo que ainda

não havia pensado

- o pensamento é insight.

E se o que penso

 é intenso,

adenso,

suspenso,

imenso,

e menos tenso,

sou light.

 

 

2

 

Carente

quer carinho.

Só não quer

ficar sozinho.

Errado

é ser certinho.

Vem que tem

bom vinho.

No duro

- está durinho.

Ri

que tem chorinho.

Beija

e faz biquinho.

Aninha-te

em meu ninho.

Grita,

mas bem baixinho.

Senão avisa

o vizinho.

Esbraveja,

de mansinho.

- Viu que delícia,

que gostosinho?

- Lua de mel,

meu docinho.

- Um sonho, amor...

- Dorme um soninho.

 

5

 

Ex-amado

quer autópsia

do amor.

      O coração

               será exumado.

1

 

Antes só que mal

comparado,

amparado,

apanhado.

3

 

Prefiro não ferir

e ainda assim firo.

Prefiro não irar

e às vezes iro.

Prefiro te respirar

e sou só suspiro.

Prefiro suar a camisa

e não transpiro.

Prefiro não te chatear,

ou do sério te tiro.

Prefiro não sentir

e mais me inspiro.

Prefiro parar,

senão piro.

 

 

8

 

Ela descontrol.

Ela com a macaca.

Ela na TPM.

Ela solta os cachorros.

Ela com enxaqueca.

Ela fica uma arara.

Ela com renite.

Ela é cobra caninana.

Ela de mau humor.

Ela vira uma onça.

Ela fazendo dieta.

Ela não solta a franga.

Ela com insônia.

Ela se sente perua.

Ela subindo as paredes.

Ela é minha lagartixa.

Ela quando carente.

Ela é manhosa gata.

Ela deitando e rolando.

Ela é mulher-animal.

Ela sempre na dela.

Eu lógico zôo ela.

 

7

 

Cessaram

teus telefonemas.

Só me dizem alô

meus poemas.

6

 

Um fim,

enfim,

independe,

se é gran finale,

finis,

finitus

the end

- se no final

o par,

o casal

não se entende.

xxx

xxx

xx

x

 

 





 

Quando estou

a contar estrelas

no céu

de teu corpo,

todas as noites

são poucas.

As noites todas

são loucas.

 

 






 

 

 

Não há entrechoque

entre mim e ti.

Nenhum toque.

Nunca te vi.

Não dá rock.

Nem aqui,

nem aí.

Eu no Oiapoque.

Tu no Chuí.

 

 

 
 

 

 


Ouve:

o eco do silêncio

em mim por ti.

Porque já não tens

o amor que senti.

Porque se te perguntam:

- E o teu poeta?

Respondes:

- Perdi!

 

 

 





 

 

 

Perdeste um amor.

Faz de teu coração

hermética concha.

Que a dor constrói

rara pérola.

 

 





 

 

Morrer

é viagem.

Meu pai,

vi de passagem.

Paisagem.

 

 

 

 

 

 

 

Eu te vi.

E ao te ver,

te revelei

envergonhada

de tuas penas.

Pavão de única

cor.



 

 

 

 

Pensamento é pensamento.

Invasivo, entrão.

Independe do querer.

Despistá-lo é em vão.

Vem do nada.

Chega com tudo.

Em profusão.

Toma conta.

Da mente,

do corpo,

do coração.

E quando menos se espera,

ei-lo, de sopetão.

Ora gerando agonia.

Ora prazer ou sensação

de bem-estar, de tesão,

saudade ou rejeição.

Pensamento se materializa

na obsessão.

Credencia-se voz do sentir

e vez da razão.

E pensa que pode.

E pode pensar sim e não.

Dá sentido ao todo,

em plena concentração.

Pensamento é pensamento.

Não é emoção.

 

 

 

 

Pedra na pedra:

fogo.

Atrito bonito

de fazer acender.

Deixa eclodir.

E aquecer.

 

 

 

OUTUBRO DE 2003

 

sexta-feira, 31 de outubro

 

vire a página

leia

o verso

 

 

quinta-feira, 30 de outubro

 

recomece

do ponto em que nem me conhecias

para então evitares o encontro comigo

e nada viver a meu lado

tudo aquilo que até ontem

tanto te fez sofrer 

amargando dores inevitáveis

de infindas mágoas e desamor

 

volte atrás

quem sabe assim no tempo

encontrarás o dom do perdão

sem o vivido e sem sentido

algo para ti jamais anunciado

recomece do momento único e anterior

em que eu ainda te era desconhecido

exatamente antes de haver me encontrado

 

 

todos os meus receios se confirmaram

e é triste constatar que estava certo

que no fim de tudo seria como está sendo

pela falta de plenitude na travessia

de duas aflitivas almas irreconhecíveis

e suas indefensáveis atitudes estranhas

uma história à deriva sem ancoradouro

e meus pressentimentos reveladores

que anteciparam o abandono de agora

 

 

que deus receba esse adeus

com sua doce benevolência

pois cansei de ter um senhor

e não admito sua onipotência

sobre minha cabeça a prêmio

que deus entenda a despedida

que dele faço para todo sempre

pois quero estar só sem guarda

sem olhos vigias sem certezas

apenas comigo no fundo poço

de um amor que ando cavando

para quando a felicidade se for

 

 

a poesia vai acabar

os poetas vão desistir

vão deixar de pensar

e passarão a sentir

deixarão de escrever

nunca mais imprimir

aprenderão a ser

ao invés de insistir

e acabando-se a poesia

resta-nos não existir

pois mais dia menos dia

o pior estará por vir

a poesia vai acabar

os poetas vão desistir

 

 

é tudo um instante apenas

a vida fugaz os sonhos breves

a luz de fagulha no piscar de olhos

dura o tempo de um relâmpago

ou de um flash a revelação do nada

é tudo muito rápido num lapso

a vida voa para o fim de si mesma

consome-se finita em sua pressa

e volta a ser pó na ampulheta

que determina a urgência de viver

e delimita seu espaço de sonhar ser

 

 

se não faz sentido

tanto melhor

que aí ninguém

fica com a razão

que não tem

 

 

de baixo

para cima

estrelas

de cima

para baixo

sementes

 

 

a vida

é ato

intacto

diante da fé

e da ciência

ante o obvio

vive a incoerência

nada explica

ou explicita

a existência

talvez a arte

ou a demência

ou desiste

ou se dá

à resistência

 

 

repetidamente

diária

         mente

o que somos

o que fazemos

o que sabemos

tudo nos ensina

a rotina

aprende

apreende

se rende

end

 

 

não fique

introspectiva

em vez de pensar

reviva

chore

torne a saudade

ativa

 

 

vê o invisível

a teu lado

declamando versos

do poeta inexistente

e emudecido

que sou

que me tornei

na transparência

da solidão de dias

vazios 

e antilíricos?

sou eu

em tua casa aberta

que ninguém habita

 

 

enquanto não vem

a primavera

cuida todas as manhãs

das flores temporãs

que elas enfeitam

e perfumam

os dias e as noites

de tua espera

 

 

quarta-feira, 29 de outubro


dizes sim

dizes não

tantos enfim

em vão

sins poucos

nãos demais

senões loucos

e banais

sins falsos

nãos verdadeiros

nunca descalços

sobre braseiros

tão sem fé

jogam um jogo

teu sim não é

fogos ao fogo

teimam

e se queimam

aceitam

negam

rejeitam

pegam

teus sins

teus nãos

pros devidos fins

e em mãos

nãos ruins

e sins não sãos

 


presas na memória
lembranças de anteontem
ruas casas aulas acontecimentos
os amigos de nunca mais
e um menino alheio
leitor de bibliotecas
colecionando letras e imagens
com seu mental sentir
perdido em si
num universo de personagens
se encontrando só
no eu de sua história
por viver e ler
tudo vivo
revive
repensando o antes de ontem
mas nada com o coração
apenas na cabeça


 
tudo nos é devolvido
a palavra quando sai
chega com frases
o sol em seu retorno
esbanja raios
a luz da paixão
ilumina o rosto
o medo de ser
volta não sendo
a fome de ontem
atrás de pão
a sede de sempre
líquida e certa
a dor de não se dar
perdida e só
a semente sem forma
em forma de flor
tudo rebrota
então colha
abra tua mão
acolha tua cota
de devolução




troca-se
sem demora
negócio
da hora:

a noite
de outrora
por outra
aurora

o ontem
lá fora
pelo aqui
e agora



há palavras
que não dizemos
algumas já dissemos
outras nos falam
muitas nem ouvimos
tantas que calamos
quantas nos calam
há palavras
que ressoam
estribilham
desafinam
são lidas
interpretadas
compreendidas
mas há palavras
analfabetas
desnecessárias
que só desenham
o silêncio
emudecidas
em nós
nos olhos
e na voz



não tem título
o livro que leu
livro de um só leitor
não tem narrativa
enredo não há
palavras inexistem
nele não há impressão
suas brancas páginas
foram arrancadas
de sua imaginação
sugere a estória
da solidão


 
toda minha mágoa
cabe
numa gota d’água


 
são todos cegos
e uns não sabem
ver



silêncio prolongado:
um segundo a teu lado
calado
sem estar a ti colado


 
nosso filme
chegou ao the end

o amor em tela
acabou-se a ob
sessão


 
por que prender-te
se não consegues
recriar-me?
liberta
às escuras
atrás de auroras
perdes
futuras manhãs
ardes
ao sol de solitários
desejos



 

terça-feira, 28 de outubro

 

bati na porta errada

estava aberta

porém fechada

 

 

não me preocupa

o porvir

sou todo presente

sou de sentir

ai de quem pressente

o já existir

não no futuramente

 

 

o olhar feminino

ou revela uma fêmea só

ansiando dizer

sim

ou o reflexo de um homem

em seus olhos de mulher

a fim

 

 

quem tem medo

de poesia?

quem teme o sol?

quem treme de gozo?

quem geme de prazer?

alguém que ninguém

carece de saber

verá quem viver

quem reviver

quem conviver

quem ver

quem sobreviver

quem resolver

ser

mas quem?

 

 

somos carne

e unha

de uma única

mão

entre teu polegar

e meu mínimo

há o espaço

de três dedos

de não

e não

e não

 

 

e o amor foi um circo

enquanto amou

equilibrou-se todo esticado

numa corda bamba

domou feras com afiados dentes

e garras cortantes

sobreviveu ao globo da morte

em moto desenfreada

chorou fazendo sorrir

como palhaço bobo-alegre

mas foi como trapezista

que em meio ao frenesi

vertigens sofreu 

agarrando-se ao nada no vazio

em confiante sobressalto

num vínculo de ilusão

num círculo de tensão

no alto arriscando

sem saber 

que sua rede de proteção

seria o chão


 

não é uma boa hora

para me questionar nada

 

ouve está chovendo lá fora

e é plena a madrugada

 

não invente de ir embora

não quero te ver molhada

 

e também vê se não chora

ou a fronha fica ensopada

 

pode repetir que me adora

se isso te deixa apaziguada

 

mas meu coração te implora

não te sintas enamorada

 

pois em mim um não vigora

e não quero te ver magoada

 

uma desilusão me devora

minh’alma é desapaixonada

 

não considere isso um fora

sei que comigo estás danada

 

mas por favor não vá embora

ou queres ficar resfriada?

 

e aumentaram mais agora

a chuva o breu e a trovoada

 

procura dormir calma senhora

e acordar com a alma lavada

 

 

cego

não o olho

não o caminho

mas o caminhar

o não ter aonde ir

não ter porque seguir

não se permitir olhar e ver

que cego é não saber chegar

ou pior não querer ficar nem partir

 

 

moro há 10 meses no 4º andar

no apartamento 408 do prédio 963 da rua t-9 

são 23:38 dessa noite durmo 1 da madrugada

acordo às 7

tomo banho de 15 minutos

pego o ônibus 530 (cujo passe é 1,50) no ponto da av. t-63

desço na praça 7 de setembro mas trabalho na c-147

numa empresa chamada abcd.1234

que fica na esquina da 89-b

ouço baixinho a 9ª sinfonia do Ludwig van

meu telefone toca a essa hora

espero chamar 3 vezes

alô

é engano

então alguém liga para o 062 9625-2376

e discou errado

o prefixo 02131 registrado no bina

identifica interurbano de Minas

ainda bem que amanhecerei em 24/10

e é feriado

Goiânia tem 7 letras

e completa 70 anos

te amo cidade brejeira

minha florzinha do cerradão

plantada em 1933

te amo agora em gênero grau

e números

 

 

segunda-feira, 27 de outubro

 

Leitor(a),

acesse www.despenseiros.weblogger.terra.com.br (com textos, design e concepção de Cathy & Ulisses Produções e Delírios) e veja o que a Cathy Earnshaws, de São Paulo, escreveu sobre o rompenuvem, recomendando-o a quem interessar possa. A página da Cathy é visitada por gente importante dos cursos de Letras das universidades paulistas, USP e adjacências. (Aproveite e leia os comentários lá deixados). O que nos resta dizer, então? Obrigado! Do fundo do coração.

 

 

declaro-me teu enquanto não o sou

pois quando for ah o amor será tão tão

impossível resistir a teus encantos

teu olhar altivo teu nariz empinado

o ar superior de quem se sabe dona

essa inteireza de querer para si tudo

tudo que poesia seja no todo para ti

és única e nem sabes que eu existo

é que sou face comum na multidão 

sou muito simples para te alcançar

sim sou mas vi a lua em teu corpo