SETEMBRO DE 2005

 

quarta-feira, 28 de setembro

nada pode

a primavera

(ainda que rebrote)

 

No cio

em teu ouvido

balbucio

silencioso pedido

Arrepio

à tua libido

- e a vicio

(Sou atendido)

 

Sensores:

pele poros pêlos 

...suores

 

segunda-feira, 26 de setembro

Eu solo sou

Ser par não sei

mas posso compor 

Quem não amou

(e eu nunca amei)

só sabe do amor

o seu livre improvisar

Que qual o som

de uma jam session

é amar

 

Pertencer-te não te tendo

Dar-me sem que me queiras

Ser teu que minha não és

Assim vou inexistindo

Sendo um eu em mim sem ti

 

Amor feito cristal

em coração estabanado

Sentimento fragmentado

 

Teus olhos dois horizontes

Um que não atinjo

Outro que não alcanço

Vêem-me cego entre ambos

 

E tuas mãos

continuam florindo?

Ainda espalham pólens?

Distribuem pétalas?

Esbanjam perfumes?

Sem ti nunca mais primaverei 

Eras meu começo de verão

Sem ti nem se me sou sei

 

Fui-me a ti a teu convite

Visitei-te domingueiro

E como teu hóspede fiquei

Gentil anfitriã de vestes de seda

Cuidas de mim com singelezas

Matutina ternura iridescente

Noturna sinfonia de acalantos  

Habitamo-nos em nós abrigados

da solidão maior que o céu

onde jamais chove e haja sol

Para companhia me convidaste

e tão responsável me cativaste

 

                           Atendendo aos seus constantes pedidos, ei-los:

É quando sorris

que bate sol

em tua cara

Tudo aclara

quando iluminas

Geras energia

que a nada

se compara

És como mil turbinas

de grandes usinas

como a de Itumbiara

Sorria

minha ensolarada

e não pára

 

Sou teu amigo

em dias de chuva.

Teu amigo sou

em dias de sol.

Sou amigo-abrigo.

Contigo e teu.

Água e sombra.

 

sábado, 24 de setembro

Todo solene

estendo o tapete

para sua triunfal entrada

(Não que o condene

ou não o aceite

mas ela o evita)

Pois em mim extasiada

dele não precisa

ela que é tão avoada

nele não pisa

- levita

 

Para amar sê extremo

No amor dê o máximo

Com amor é mais íntimo

Em amor é tão ilógico

Quem ama dilui-se

etéreo éter etc

 

O tempo parou em meu corpo

onde - bem no meio - o relógio

retesado do sexo aponta sua libido

incontentável – e nada a sacia 

o enrijecido ponteiro do desejo 

em meia-noite e em meio-dia

 

Nunca termina o olhar

a ver infinitos

Tons de azuis nas montanhas

ora verdejantes na distância

O olhar alcança o inatingível

olhar curioso ante o impossível  

 

Nem ao morder a isca

o olho do peixe

pisca

 

Deseje

mas não se culpe

Ou só do proibido

tua fantasia se nutre?

Vê como é permitida

a carniça ao abutre

e o quanto este

a essa curte 

Para quem deseja

vale toda a soberba

 

Para chegar até mim

não viestes – eu te pensei

Imaginação és – aqui – comigo

Posso te refazer – te desfazer

ou simplesmente excluir-te

deletar de meus insights

teus milhares de gigabytes

extrair-te da memória ram        

(No coração da máquina serás spam)

 

Uma carta escreveu

para ninguém ler.

Aquela carta que eu

tanto ansiei receber.

A carta que se perdeu

ou tratou de esconder.

A carta que esqueceu

de um dia remeter.

De próprio punho seu

ela ficou de dizer

o que foi que se deu

(eu merecia saber)

que a enlouqueceu 

a ponto de cometer

o que me prometeu

nunca jamais fazer.

Mas se aconteceu

assim tinha que ser.

Desde que ela morreu

está mais difícil viver.

 

quinta-feira, 15 de setembro

Nem tudo é poesia no vivido.

Mas aí também não tem graça

não há o menor sentido.

 

taquigrafia:

t  am

taquicardia

 

diante do realejo

possível sorte

nenhum desejo

 

Será puro fingimento esse teu azul,

ó céu?

Ilusão de ótica entre nuvens?

Ou também essas não passam

de imaginação en passant?

São perguntas loucas?

Mas, e tuas óbvias respostas?

Por que ir tão fundo nos devaneios?

Dai-me delícias, insanidade. 

Não me (te) vejo em teus (meus) olhos.

 

sábado, 10 de setembro

A vida me convidou

então a vivo

Por meio dela sou

me ativo

A ela inteiro me dou

passo pelo seu crivo

Se nela não estou

de existir me privo

A seu tempo vou 

só assim sobrevivo

 

Lógo,

existo,

penso.

Loguin, 

senha,

net.

 

Como um cão a seu osso

a ti me apego

e por nada a ninguém te entrego

Posso até cair no poço

(que não nego:

de amor ando cego)

Se dizem que é sentimental

é fixação

ou passional obsessão

Sei que sendo mental

é que consigo 

ser todo coração

ser teu melhor amigo

teu cão 

 

Eu sei que vou te amar

até o fim do dia eu vou te amar

E depois que eu dormir e se acordar

será um outro dia e se eu te achar

deitada em minha cama eu vou pensar

que não tem nada a ver mas deixa estar

logo virá cobrança - sempre há

e a desconfiança vai cortar

todo e qualquer barato (vai contar

quando eu na balança for pesar

o pouco de esperança que restar)

Eu sei que vou dizer

adeus ponto final eu vou querer

eu já vi esse filme é sempre assim

então para mim chega e fim é fim

dura pra toda a vida.

 

sexta-feira, 2 de setembro

Fez voto de silêncio.

Deu baixa nas palavras.

Aboliu a escrivatura.

Água na pedra?

- Dura!

Endurecerse la ternura.

 

Indecisa, insegura,

ela ama e esconjura.

- Amor é loucura pura.

- Terá perigo de cura?

 

Que tal chá de hortelã?

Deita aqui, vou te acarinhar.

Esquece isso. Sofre não.

Cuida de saber-se plena.

Simples, o amanhã à sombra

aguarda-te, descansando.

Chorar não vale. Não assim,

por falta de palavras. Olhos

para dizer. Lágrimas contêm

silêncios. Constrói diques.

Ao encontrares o amanhã

será a ti que buscavas, verás.

Então vem cá. Calma. Confia.

Com meu carinho não te assustarás.

Alma cansada também se inebria.

E agora bebe o chá senão esfria.

 

SETEMBRO DE 2004

 

terça-feira, 30 de setembro

 

 

a m o r   p e l o   c o m p u t a d o r

(sente o toque carinhoso

do teu eu virtual a teclar teclar)

a m o r   n o   c o m p u t a d o r

(serás previsível tirando

de teu kitchat as obviedades)

a m o r   a o   c o m p u t a d o r

(quantos anos como chamas

de onde teclas como és?)

a m o r   e m   c o m p u t a d o r

(com teu nick entras nas salas

e reservadamente falas)

a m o r   d e   c o m p u t a d o r

(por idade por cidade

por assunto por carência solidão)

a m o r   e   c o m p u t a d o r

(por e-mail telefone sem mentiras

eis a foto scaneada da verdade )

olhos corações mentes monitor

 

 

 

para maria eugênia

maria eu

gen da voz

genial

 

 

segunda-feira, 29 de setembro

 

não que eu seja insistente

e nem que passe da conta

sou sim muito persistente

e ao ver-te assim tão tonta

(indo aonde o nariz aponta)

penso: - se não for urgente

logo logo ela apronta

já já encara uma afronta

e estraga tudo entre a gente

qual criança desobediente

a mimada não me desaponta

mas trato de pisar quente

ela não sai de minha mente

nem de meu coração adolescente

 

 

no momento

nada posso dizer

no entanto

sabes o quanto

penso

e sentir

até poderia

 

mas aqui agora

nem mesmo olhar

para esse vazio

e despertar

a serenidade

emocionada

ousaria

 

foge-me a certeza

da exatidão

então penso em ficar

e vejo que já estou

a ponto de ir

sem volta

e não pretendia

 

respeite meu silêncio

durma a meu lado

é noite e tarda o dia

ouça o canto ausente

não é rouxinol

não é cotovia

e o eu de mim

se distancia

um solfeja

em Verona

outro em Mântua

assovia

 

 

domingo, 28 de setembro

 

ficasse eu sem te ver

decerto me enxergarias

sem de mim nada saber

certamente tu verias

pudesse eu te escrever

em braille tu não lerias

o quão difícil é viver

às cegas à luz dos dias

tuas mãos e olhos querer

e não tê-las como guias

 

 

                              

                                   a mestre drummond

colecionei sentimentos

guardava-os não em álbuns

baús envelopes armários

catalogava-os por épocas

períodos de emoções

etapas de sensações

fases de aflições

depositava-os na mente

arquivava-os no coração

na dispensa de meu ser

expostos à lembrança

envoltos na penumbra

de tempos vividos idos

hoje não coleciono mais não

também não lembro mais não

e sentir não sinto mais não

 

 

fugir da manhã

é impossível

ela é inevitável

e vem iluminada

prometendo luz

de esperança

arromba frestas

invade tua casa

te pega dormindo

sua brasa de dor

de paz em meio-dia

que aí a tarde chega

toma seu lugar e flui

nem tentes fugir

de uma manhã serena

recolhe teu orvalho

para dias de sequidão

de inúteis lágrimas

mantém acesa a dor

dessa brasa de paixão

e sua fogueira interior

te tornará madrugador

 

 

sábado, 27 de setembro

 

os cacos

os resquícios

os restolhos

os fragmentos

os resíduos

um tanto de cada em nós

e muito de nós em tudo

sempre incompletos

jamais inteiros

remanescentes

sobras

restos

destroços

despojos

ruínas

 

 

o gladiador

na arena do silêncio

diante de ansiosa platéia

a fim de sua patética poética

não desafia touros

não enfrenta leões

nem digladia com homens

sua luta é contra as palavras

e ele perde sempre

como agora

ei-lo no chão

com seus murmúrios

dá-se por vencido

só não é vaiado

por pura compaixão

de seu público

mudo

 

 

antes de mais nada

digo que cheguei cansado das estrelas

e nessa viagem entre as estrelas

singrei com leveza a dor de ser

e singrando a leveza da dor de ser

bateu uma saudade de um tempo perdido

e a saudade desse tempo perdido

me revelou que esse tempo está presente

está presente nas estrelas que visitei

e as estrelas visitadas estão distantes de nós

tão distantes de nós que cheguei cansado

e exausto não corro atrás do tempo perdido

que o tempo perdido não me leva a lugar algum

e estou sempre partindo com endereço certo

rumo às estrelas da saudade ó lúcidas estrelas

de um tempo que acabei por encontrar ausente de ti

interstelar pessoa em meu universo sem-fim 

porque quando chego assim cansado de viagem

é na saudade de teu colo macio e simples

que repouso a leveza dolorida de mim

 

 

poetas não amam

poetas se apaixonam

e paixão não é amor

mas um poeta apaixonado

faz da musa única e bela

sua escala de valor

mas um poeta desapaixonado

anula para sempre e nunca

retira do sol luz e calor

poetas não amam

poetas se apaixonam

e se deles musas reclamam

é porque se impressionam

confundem paixão com amor

 

 

o que não me dou

anseio

o que não me faço

atormenta

o que não me deixo

sublimo

o que não me aceito

reflito

e assim distante

de tudo e de todos

sinto-me mais ou menos

eu

o que não sou

 

 

nossas coisas do dia a dia

se confundem conosco

estão em nosso nome

em nosso modo de vestir

nosso jeito de andar

enfim viram manias

tiques da individualidade

altos e baixos da personalidade

revelar essas coisas jamais

são íntimas demais são segredos

de nossas intimidades banais

 

 

o que dá na telha

além de gatos escaldados

pombos (ora pombas)

passarinhos em escala

entre uma cumeeira e outra

maribondos abelhas moscas

gotas de chuva poeira sol

anjos afoitos de asas exaustas?

o que der na telha (espelha)

deves encobrir

ou cobrir

ou rir?

sobre tudo e todas as coisas

sobretudo angelicalmente

exaurir-se profunda

e infinitamente?

e se o que pintar

na telha for uma centelha

deixa fogo pegar

até consumir-se plena

em todo teu habitat e mente?

 

 

as camisas no varal

tremulam

bandeiras de um peito

de ilusões nuas

de razões cruas

armaduras tecidas

na proteção frágil

para alma lavada

aberta à brisa

 

 

dou tudo

que nunca terei

e nem mereço

por uma única

grande certeza:

verdade

 

(então amanhecerá

a confiança

na manhã

do amanhã

de depois de amanhã)

 

 

castigo

não é estar

só comigo

é ficar

contigo

quando (contido)

nada consigo

me fustigo

sem abrigo

quase inimigo

e mais não digo

 

 

sonhada é a paz

em que calmamente

nos amemos

pois desse sofrer sem fim

loucura

a vontade maior é esquecer

e seguir sem a luz de ti

com a luminosidade de mim

 

 

teus bilhetes

devidamente postados

via correio não chegaram

será que se extraviaram?

 

não que quisesse lê-los

(não creio mais no que dizes

e menos no que escreves)

mas é que coleciono selos

 

 

penso belezas

riquezas de pensamento

tenho em ti contentamento

ó lindeza de todas as grandezas

em tudo o mínimo o oculto o sonho

só te desejar me salva de saber-me só

talvez um pouco mais do que fui e tenho sido

o simples desejo dá à solidão a plenitude de sombra

 

 

não teve

a menor importância

não deu

a mínima

e de modo

ínfimo

se apequenou

diante do nada

no vazio de si

 

 

não é ouro

não é diamante

não é tesouro

não é brilhante

é apenas a vida

de tudo por tudo

matriz e jazida

 

não me precisas ler

se não quiseres

a opção de escrever

no entanto

é minha

pra melhor me perceber

pra não sofrer

 

e se queres saber

não me leia se puderes

jamais irás saber

o encanto

a gracinha

que é me conhecer

que escrevo pra viver

 

 

eu te amo

 

é clichê

mas me ganha me assanha

sem quê nem porquê

 

é frase feita

mas é dito e feito com efeito

e tudo em mim a aceita

 

é lugar comum

mas a paixão cega não a renega

e não vê problema algum

 

é banal

mas tudo se assume e se resume

enfim no etc e tal

 

é chavão

mas tem a exata medida na vida

para abrir meu coração

 

 

a primeira missa em santa cruz

foi em latim ora pro no

bis

diante de tanto índio pelado

um missionário viadinho

lambeu os beiços ângnus

- dei

duas vezes

 

 

é sempre o outro

nele mesmo não na gente

na pessoa na aura toda

outrossim nosotros

enfim noutros

nunca nós

 

 

quarta-feira, 24 de setembro

 

versos brancos

no branco da página

só são vistos & lidos

porque são versos livres

e a página que os contém

margens tem

e assim meus versos

brancos e livres

se sentem livres no branco

mas na página que os retém

soltos e leves podem se exibir

porque não tendo como fugir

acabam por se auto-imprimir

 

 

romper nuvens

não apenas para deduzir

do azul a imensidão

ou inesperadamente

deparar-se com um avião

ou então casualmente

cruzar com uma constelação

ou inevitavelmente

vislumbrar outra dimensão

romper nuvens que virão

 

romper nuvens

não somente para levitar

no aconchego da sensação

ou serenamente

se sentir acima do chão

ou quem sabe dormente

em anestesiada emoção

mas pura e simplesmente

para dar asas à imaginação

romper nuvens sem direção

 

 

tudo se parece

contudo nada é total

mente igual

nem o ir

real

 

terça-feira, 23 de setembro

 

 

Patrô

 

Vejo através do dia

uma luz que se anuncia

clareando a cidade

Nada tem a certeza

pois se vive em vão

e aí é que estão:

meus amigos

companheiros de destino

tão soberbos de razão

 

Oh primavera sem flores

amei os meus amores

fulgores da paixão

Quis preencher o vazio

com vozes delírios

angústia e solidão

Quando chegaste sozinha

eu fiquei na minha

eu todo emoção

 

Portas se abriram pela frente

entrei por todas elas

olhei muitas janelas

Segui um corredor um labirinto

entrei no ambiente

de tua aflição

 

Minha amada

cidade constrangida

tendência de uma vida

que ainda está pra ser

Falo de ti com ternura

candura de um menino

que mal te conhece

És o pedaço de um todo

o que vem à tona

a lava de um vulcão

extinto coração

 

 

primavera

vera vera veremos

o inverno o outono

o sol de verão

horizonte belo

belo horizonte

concreto armado

em meu coração

 

 

segunda-feira, 22 de setembro

 

desde que me entendo por gente

estou tentando entender a gente

a gente não compreende se sente

o que na gente é diferente urgente

e sai pela tangente a dor pungente

pingente na corrente um pendente

tentei tudo e por mais que eu tente

é inerente incoerente e deprimente

lavo minhas mãos com detergente

acho que pensas ficar pra semente

me percebes cada vez mais ausente

cansei de tentar entender a gente

me perdeste não me tendo por gente

 

 

meu barco ancorou

meu barco encalhou

meu barco furou

meu barco encharcou

meu barco naufragou

meu barco não aportou

meu barco te abarcou

meu barco afundou

meu barco não boiou

 

 

um peixe

com um aquário

dentro

depois um rio

e fez brotar um mar

em seu interior

 

um peixe

guardando em si

as águas que ele contém

nele contidas

possuindo-as em sua necessidade

de líquidoxigênico ser

 

 

yo creo en dio

pero que lo dio mio

siempre em mi adio

que lo hay hay

soy yo

 

 

rainha na torre

tabuleiro de xadrez

   bule    de chá mate

                      (xeque)

sou peão do teu jogo

uma peça

 

 

é metafórica

é metafísica

é empírica

é onírica

é ótima

é tu

é

 

 

se algum deserto há

habito-o imenso e só

e sozinho é decerto lá

que sou da areia o pó

se algum deserto há

habito-o sedento e só

 

 

a eternidade

passou -

ficou o instante

sempre lembrado

um pouco presente

de tudo passado

restou

a saudade -

um sentir eternizado

 

 

vês o sol?

cega-te

para iluminar

tua escuridão

olho de cílios

em profusão

seu núcleo

e seus raios

são

 

 

domingo, 21 de setembro

 

 

Abro o mapa-múndi de mim

Sou homem de terras sem-fim

antártico e tropical

com um mar imenso

separando meus continentes

mental e sentimental

(preciso navegá-lo com exatidão

ir em busca da razão

e da perdida emoção)

Na mente

e sua turbulência

está tudo o que penso

com centrada e medida ciência

Mas nem tudo consente

que sente o meu coração

com sua calmaria aparente

prenunciando ondas de tufão

Fecho enfim o mapa-múndi

e tudo em mim

no todo de mim se confunde

 

 

desesperar

     esperar

     respirar

         pirar

           irar

             ar

 

 

diz o lápis

desapontado:

- me trocastes

pelo teclado

 

fala o papel

com amargor:

- agora preferes

o monitor

 

e o poeta

metido a muderno

não mais recorre

ao grafite e caderno

 

 

o computador

é uma máquina de escrever

e tanto

uma remington

capaz de cômputo

uma olivetti

com internet

 

 

estou a galope

uma das ferraduras incomoda

sem rédeas

vou por conta e risco

não sou de montaria

indomável e/ou arisco

não se assenta em mim sela

aprecio minha crina ao vento

mas dói uma de minhas patas

por isso minha cavalgada é manca

ainda que longa

não há para onde ir

não tem com chegar

e lugar nenhum

não é lugar (in)comum

 

 

canseira:

pega

na mão não

no pé

até

 

 

acho

que perdi

o medo

de ficar achando

 

 

não me encontrastes

foi tudo tão perdidamente

estou a salvo e são

e fui incurável loucamente

se nada meu já te pertence

se me ausento em tua presença

se não creio em teus olhos

é que falseias teus sorrisos

é possível que eu esteja poente

é impossível que sejas nascente

 

 

nem tudo

é poesia

mas o que não é

não conta

 

 

não faz sentido

sentir o tido

sentir o ido

sentir?

 

 

meu universo de palavras

é pequeno

nem são tantas

mas suficientes

já as palavras de meu universo

jorram quantidades

são essas

expressas em meu olhar

não vês?

ouça-as

não são minerais

nem vegetais

ou louças

e ainda que pessoais

são universais

 

 

peço a palavra

- serei breve -

para me declarar:

quem escreve

fala de própria lavra

deixa a palavra falar

 

 

se é para o bem de todos

e felicidade geral da nação

fica o povo

rico

 

se é para o bem de todos

e felicidade geral da nação

rico o povo

eu fico

 

 

ela não respira

está sem fôlego

falta-lhe ar

e se na respiração

boca a boca

eu me apaixonar?

juntos

conseguiremos

respirar?

promete

jamais

me sufocar?

 

poema

chupa

poema

 

poema

luxa

poema

 

poema

desembucha

poema

 

poema

puxa

poema

 

 

sexta-feira, 19 de setembro

 

vai se solta

ou não fica

ou não volta

 

 

nunca abraçados

pois ela sempre

de braços cruzados

 

 

avessos

aves

sos

 

 

o que é a imaginação

senão a loucura toda

querendo ser criação

 

 

(era questão de vida)

foi preciso

tomar essa medida

ainda que drástica:

narciso

fez plástica

 

 

quinta-feira, 18 de setembro

 

se não sou não és

por desconhecer-te a mim

por não mais saber de ti

e ainda sermos do outro

apenas um pouco de cada

um resto de quase nada

ou nem isso

 

 

dá-me que eu habite

a morada de tua ausência

que estou no tempo

de desabrigo

na inexistência de céu

sobre

e de chão

sob

 

 

estica as cordas do violino

afina o instrumento

e solitária

toca-me

uma ária

leve

mente

num lamento

 

 

com tinta azul manchei

minha camisa branca

agora tem céu

nas nuvens

tiro do bolso

uma estrela

e se a brancura

é campo de neve

em meu peito

um coração frio

o azul não é seu

 

 

o futuro

sem tu

tem

  fu  ro

 

 

quarta-feira, 17 de setembro

 

aconteceu de um dia

eu ter sido teu

com minha inteira riqueza

exatamente a doação sensível de mim

mas não completamente

(ainda bem - felizmente)

porque assim algo ainda me pertence

um pouco de meu

um quase nada e raro

com o quê hei de recomeçar

e humilíssimo entregar

a quem pacientemente se interessar

(apesar de silencioso e pobre)

- nem digo ser feliz -

me fazer sonhar e sorrir

 

 

projeto o filme que trago nos olhos

película de lembranças do vivido (gravei tudo)

dava mesmo um roteiro com the end infeliz

eras a personagem fugidia furtivamente nas esquinas

clamavas por meus lábios úmidos

meu cheiro erva doce inesquecível camomila

meu olhar de escuro castanho triste

agora que meus olhos não te deixo ver

perdes as sessões em estréia diária 

mas é só um filme um drama delírio

que se pretende ficção

 

 

para ti

todas as horas estão atrasadas

relógios já não importam

nos calendários os dias perdem a exata noção

agendas não afirmam e nem confirmam

o tempo é um labirinto de confusões

se não estou contigo estás perdida

tudo em volta inexiste

as náuseas tonturas dores descrença

és insana e queimas por fora e por dentro

nas manhãs todas as tardes inteiras noites afins

se algum desejo te assalta não exalta

meu não te sobressalta

sim! esquece de mim sem falta

 

 

terça-feira, 16 de setembro

 

 

foi tanta luz

que incendiou

chama exalou 

lava expeliu

mas fogo apagou

se consumiu

o quente esfriou

vulcão extinguiu

não se consumou

 

 

trocamos

os pés pelas mãos

e seis por meia dúzia

chutamos

o pau da barraca

e cachorro morto

comemos

o pão que o diabo amassou

e do bom e do melhor

demos

murro em ponta de faca

e tiros pela culatra

brigamos

com foices no escuro

fizemos

das tripas coração

soltamos

os cachorros

remamos

contra a maré

rolamos

água abaixo

água que levamos no bico

dois marinheiros de água doce

doce que era doce

e acabou-se

 

 

segunda-feira, 15 de setembro

  

eu calmo

ela urgente

ela árvore

eu semente

eu aqui

ela ausente

ela só

eu somente

 

 

curto o verso

escrevê-lo curto

em econômica

composição

sem prolixidade

com depuração

é minha premissa

não pela síntese

não oh não

mais por preguiça

 

 

ela sedenta

veio dar um trago

no lago

de meus lábios

e ela faminta

saboreou um naco

no prato

de meu sexo

 

 

sinto falta de algo

que falta me faz

algo que faz falta

na falta que sinto

algo de alguém

algo algoz de não

algo doce algodão

auguras de alguma

agourenta sensação

sinto falta de algo

algo que falta fazer

sentir algo faltando  

algo sentindo não-ser

 

 

o lenço

que acenas

branco

demais

não diz

adeus

nem é sinal

de paz

para a cabeça

ou pescoço

é ornamento

para assoar

a mucosa

(que nojento)

é um lenço

apenas

o lenço branco

que acenas

ao vento

 

 

flor

de uma só

pétala

eu sem nós

 

sol

de um raio

somente

nós sem tu

 

centopéia

de um único

nós sem nós

 

 

domingo, 14 de setembro

 

 

/p/o/e/m/i/n/i/m/u/s/

 

 

10)

repara

como a solidão

aclara

como a carência

exaspera

como a dor

te humilha

como a luz

te cega

repara

como em luva

de boxe ou pelica

tudo te bate na cara

 

 

9)

o universo

que habito

além de mínimo

é brevíssimo

por isso gravito

levito

levíssimo

 

 

8)

acordo

com o poema

já alto

me tomando

de assalto

com seus raios

pontiagudos

me espetando

a falta

de ternura

pois ser poeta

não é só loucura

é essa quentura

e eu parto

do recomeço

pra ruptura

então levanto

escrevo versos

outros tantos

por enquanto

preciso me benzer

contra quebranto

 

 

7)

tua anestesia

não me perturba

insensível alívio

nessa turba

ou cirurgicamente

me conturba

meu desejo

te masturba

e teu prazer

dói

ai

 

 

6)

ou console-se

ou se afogue

ou nada de lágrimas

ou nada

nas lágrimas

 

 

5)

pálpebras

uma superior

e outra inferior

duas pregas

móveis

protegem a super

fície

da indústria de olhos

da pátria pobre

brasil à vista

muito cisco

por baixo de cílios

pálpebras

paupérrimas

apalpe

bras

veja o mundo

por teu globo

ocular

 

 

4)

eu queria muito

mas o pouco que eu não queria

talvez me satisfizesse

e até me agradaria

eu queria tudo

mas o nada se eu quisesse

quem sabe me confortasse

a meu querer aplacaria

eu queria sempre

só que o nunca que não quis

certamente me preencheria

e em mim não transbordaria

de tanto querer

e ambicionando ser mais

não me esvaziei para comportar

a ambição de excessiva demasia

 

 

3)

não me queira

que sou sem eira

nem beira

e não serás a primeira

e nem a derradeira

 

 

2)

não tenha medo

do vento

ele te pega de jeito  

 

 

1)

não sofra

não faça como eu

quando como alcachofra

 

 

sábado, 13 de setembro

 

..b.r.e.v.i.d.a.d.e.s.

 

 

dentro

não é silêncio

há de ecoar

estribilhos

de vozes azuis

pronúncias

inefáveis

de amor

aos brados

pelos prados

do interior

 

 

tudo o que penso

mais o que sinto

até eu me convenço

se minto

sou bonito?

acredito

meu verso é perfeito?

aceito

tenho muito poder?

pode crer

a verdade a mentira

uma na outra respira

 

 

antigamente

foi novidade

teu olhar

expressando

pensamentos

teu sorriso

revelando

sentimentos

agora não

por trás

de todos eles

mil e um

fingimentos

o futuro

(ora presente)

os desatualizou

 

 

não me revelo

em mim

nem no outro

me perdi

no desconhecido

desprezando

lembranças

cheguei até aqui

no auge

da invisibilidade

 

 

quinta-feira, 11 de setembro

 

noturno

 

ao deus dos breus

rogo

às estrelas todas

interrogo

em mar lunar

me afogo

palavras ao léu

jogo

e assim com a noite

dialogo

aí chega o dia

logo

 

 

de minas

 

poeta

de minas

vivo o buum

da explosão

do ego

 

poeta

de minas

dinamito

o boom

do mito

 

 

gregoiano

 

 

homero

escrevendo

ilíada

se julgando

mísero

na lida

 

e eu então

sô homero?

sou um mero

poeta a esquerda

um zero

(puxa vida!)

 

alto lá

oh baixíssimaestima

- a gente combina

sem a mínima nóia:

eu desarreio o cavalo

de batalha

e vosmecê apeia do de tróia

 

 

quarta-feira, 10 de setembro

 

só sei

que a faço

e se poesia

nesse espaço/

pedaço

perdoa

boa

ou má

se doa

dá pé

aqui

ali

há poesia?

pois é

 

não estou

em mim

saí

ou melhor

(ou pior)

me perdi

bem aí

no teu aqui

 

tudo tem nome

as coisas todas têm

até o ninguém

é alguém

se algum nome contém

(o nome é um bem)

 

 

telhado

cada telha

uma tecla

do teclado

um som

se ensaia

a chuva

a musa

sua saia

essa blusa

tomara-que-caia

me olha

molha

toca

 

 

quanta palavra

de toda uma obra

sobra

na dobra da língua

que te cobra

novas palavras

de plena comunicação

e em si

se desdobra

na manobra

da livre expressão

 

 

desmedidas

 

um

centímetro

sente

 

um

milímetro

metro

 

 

plantai um hai-kai

o poema árvore

mínimo bonsai

 

 

caolho

camões

escrevia

lusíadas

e pedia

a luzia

em oração:

- minh’ obra

livrai

santinha

de minha

revisão

 

são ímpetos

a impetrar

a penetração

 

íntimos

a felicitar

a felação

 

exímios

a cultivar

a curtição

 

 

segunda-feira, 8 de setembro

 

o sabor moreno e claro

a cor amarga e doce

a saudade um sangue exilado

 

o olhar distante e raro

sou como nunca se fosse

a saudade um punhal cravado

 

o sabor moreno e claro

o olhar distante e raro

a cor amarga e doce

sou como nunca se fosse

a saudade um sangue exilado

a saudade um punhal cravado

 

 

campo de ovelhas

de abismo

de infinito

resta o inferno

tens o céu                                            

aleluia

 

deste mesmo modo

se deu graças

rendeu glórias

ao poder

triunfante

soberano

aleluia

                                                                  

tempo de refúgio

de espera

de revolta

de ciência                                            

de justiça                                             

assim seja                                              

aleluia

aleluia

o sempre

amém

 

 

um entra e sai

no coração

amor que vai

desilusão

amor que vem

conspiração                                   

véspera

de solidão

 

 

um sorriso é um sol em si

toca e acorda-me

paira nas cabeças

brilha nas pessoas

um sorriso é um sol em si

um sorriso em si é um sol

toca e acorda-me

cuida direitinho

trata com carinho

um sorriso em si é um sol

um sorriso é um sol em si

perto de mim

afastar-me de ti

que sorri

e me ama e me quer

longe de ti

aproxima de mim

novas verdades

que sei conhecer

és a dona de meus dons

oh! meu bem eles são bons

cuida direitinho

olha com carinho

um sorriso em si é um sol

um sorriso é um sol em ti

 

 

12 brevidades

 

one

 

até breve

sou

para despedidas

depois de vindas

vidas

e idas

adeus

 

 

duno

 

minha carta

testamento

será escrita

com cinzas

minhas

ao vento

meu último

e leve

momento

 

 

tri

 

até o fim do ano

me dezembreio

por enquanto

estou no meio

setembrando

a galope

e sem arreio

 

 

quat4o

 

carência é açúcar

que às vezes formiga

desejos

 

 

sim co.

 

ou reatava

logo

ou ateava

fogo

ou nevava

que eu

em vida solo

sou fracoforte

sou pólo

sulnorte

 

 

cês

 

santo tanto quanto

senhor eu

de meu verso

o céu na terra

reclama

vossa hora

 

 

se 7e

 

24 horas

per dia

depois de ti

não me havia

te deixei

ganhei

guia

 

 

oit8

 

[ejaculatória]

hora ora

(embora fora)

pois pôs

{precoce}

 

 

n6ve

 

este poema

é para te fazer

lê-lo

e ver-me

escrevendo-te

sem te ter

 

 

zed

 

pleonasticamente

redundo

vivo a ti

ativo

ser alguém

sem ninguém

no mundo

 

 

onz11

 

duas

da manhã

ambas

em mim

insone

sereno

jantando

sonhos

à luz

de elas

 

 

dúzia

 

camisa branca

sou pálido

estou ávido

vou lépido

calça de nuvens

sou lírico

estou onírico

vou sólido

pés de luz

onde passo

rastros no espaço

eu e meus breus

 

 

domingo, 7 de setembro

 

 

1)

ajunta bens

quer ser o tal

desde neanderthal

o homo sapiens

essa figura distinta

espécie b(s)acana

restante extinta

da raça humana

um ser dócil

ex-actual

mais que fóssil

neanderthal

 

 

2)

batuca

mas nada toca

não repercute

nenhuma percussão

no coração-bumbo

batido coração-tambor

instrumento de desamor

ecoando silenciosamente

seu sonoro som de não

 

 

3)

antes da lápide

lapide-se

 

 

4)

diga-me

qual o paradigma

de teu estigma

de teu dogma

oh mahatma

oh krishna

oh vítima

mística

cética

do meu

eu-céu

 

 

5)

sai de ti

entra no outro

sejas de ninguém

e estarás perdida por aí

que o mundo é um entra-e-sai

se não te encontras em teu íntimo

e tentas fugir de teu refúgio no universo

 

sai de ti  e tentas fugir de teu refúgio no universo

entra no outro se não te encontras em teu íntimo

sejas de ninguém que o mundo é um entra-e-sai

e estarás perdida por aí

 

 

sábado, 6 de setembro

 

.b.a.z.a.r...de...m.i.u.d.e.z.a.s.

 

 

1)

sobre

o sub

o sob

ser

 

sou

o sob

sobre

o sub

 

e só

         

    

2)

a teu coração-pássaro

educa

para a imensidão

com livre educação

 

que ele não se distraia

e jamais caia

em arapuca

e alçapão

 

do sofrer

aprisionado

do amar-cantar

em solidão

 

 

3)

das uniões todas

de todas as separações

como prova

(ou castigo)

carrego comigo

meu umbigo

 

 

sexta-feira, 5 de setembro

 

viu passarinho verde?

vi

 

bebeu água que passarinho

não bebe?

não bebi

 

então risco não corre

de não morrer

como passarinho

não morre

 

 

olho a olho

olho o olho

e o olho

que olho

com o olhar

diz: olá

 

pisco

ele observa:

olha lá

que tem cisco

 

lacrimejo

ele vislumbra:

assim não me vês

e nem te vejo

 

olho o olho

olho a olho

e o olho

que olho

me olha

que eu vi

 

 

quinta-feira, 4 de setembro

 

 

miniaturas miniaturas

 

 

I)

o texto

em chama

à flor da pele

à flor expele

e fica escama

 

II)

farta

minha fome

é uma tela

de natureza

morta

 

 

III)

alguém a ama

alguém a quer

ela se chama

Maria Esther

ninguém me ama

ninguém me quer

nem essa dama

a Maria Esther

 

 

IV)

(licença para um atropelo, mestre Drummond)

 

no stop

o automóvel

parou a vida

 

 

V)

em ti

sou

singular

contigo

estou

plural

uno

dual

 

 

VI)

nada é novo

na linguagem

o de sempre

no linguajar

saliva gosto

beijo língua

 

 

VII)

duas meninas:

 

o vovô de nana

a chamou

- eu vouvô

 

o avô de lala

foi pro céu

- meu vôvoou

 

 

miniaturas miniaturas

 

 

quarta-feira, 3 de setembro

 

 

m i n i m a l i s t s

 

 

1)

filhos sorridentes

quanta claridade

- raios de sol

seus dentes -

(eta! felicidade)

 

 

2)

novidade:

acordei

mais velho

 

 

3)

Marília

queria porque queria

um poeta

pra chamar

de seu

 

ainda que o poeta

dela fosse

viveu e morreu

a Dona Marília

como Marília de Dirceu

 

 

4)

o lento cair da chuva

me atrai em pensamento

para um lugar imaginário

um ser simples e solitário

me transporto absorto vou

quando retorno já estiou

então desperto mais deserto

que sou - e tanto fico e estou

 

 

 

segunda-feira, 1 de setembro

 

observa tudo

com teu olhar

mudo

a tudo observa

e teu silêncio

conserva

tudo que olhas

vê com reserva

no olhar guarda

o olhar preserva

 

era impossível

ele não sabia

foi invisível

e ele via

não era exeqüível

ele fazia

era inaudível

e ele ouvia

indizível

e ele dizia

indivisível

e ele repartia

se fosse factível

ele não existiria

e sendo incrível

jamais desacreditaria

como era intangível

quem não o alcançaria?

 

 

dois a mais

 

I

de tanto imaginar

conheceu

o quanto sabia

sonhar

 

e sonhando

soube que sua imaginação

lhe dava conhecimento

 

II

não pensou

na inutilidade

do aprendido

sem pensar

mas pensou

na utilidade

do aprender

pensando

 

um cão

pode ser inútil

já um cachorro

deve ser útil

 

einstein

relativamente

tinha razão

 

eu não sei ser

e talvez até saiba

ainda que meu saber

não caiba

no que sou

no que vou

viver 

 

fecha o livro

não leia a história

já vivida por nós

foi tudo impresso

não tem revisão

para escrevê-la

(vivê-la)

ou faltou inspiração

ou tudo não passou

de mera ficção

arte pura

da imaginação

 

uma moça simples

cismou de me seguir

julgando-se capaz

de me entender

(e mais) me amar

coitada

é perigoso até enlouquecer

mas louca ela diz que é

e deve estar

pois para comigo ficar

e nisso sentir prazer

louca ela só pode ser

 

 

arrepiá

(quem quiser, pode musicar)

 

vai que não vai não vem que tem

que ninguém vai mais dizer amém

poucos com tanto e tantos sem

casa comida emprego um bem

tá tudo esquisito num tá nada bem

é justo ele ter, mas cadê, hein?

 

aqui, nós tá por aqui,

nós tá por aqui, ó

a ponto de não engolir

de não engolir esse nó

zanza daqui prali

zangado banido e só

um pobre coitado que eu vi

dum jeito de dá dó

 

ele num arruma emprego

comida lhe falta na mesa

sem casa lhe falta sossego

sem graça abraça a tristeza

sem ter porquê nem arrego

não tem paz nem prum chamego

será que eu tô falando grego?

 

aqui, nós tá por aqui,

nós tá por aqui, ó

a ponto de não engolir

de não engolir esse nó

zanza daqui prali

zangado banido e só

um pobre coitado que eu vi

dum jeito de dá dó

 

vai indo o cara revolta

sem caminho num tem volta

sofrer morrer bem suporta

danada de vida torta

a esperança é quase morta

não lhe abrem uma porta

será que ninguém se importa?

 

aqui, nós tá por aqui,

nós tá por aqui, ó

a ponto de não engolir

de não engolir esse nó

zanza daqui prali

zangado banido e só

um pobre coitado que eu vi

dum jeito de dá dó