SETEMBRO DE
2005
quarta-feira, 28 de setembro
nada pode
a
primavera
(ainda
que rebrote)
No cio
em teu ouvido
balbucio
silencioso pedido
Arrepio
à tua libido
- e a vicio
(Sou atendido)
Sensores:
pele
poros pêlos
...suores
segunda-feira, 26 de
setembro
Eu solo sou
Ser
par não sei
mas
posso compor
Quem
não amou
(e
eu nunca amei)
só
sabe do amor
o
seu livre improvisar
Que
qual o som
de
uma jam session
é amar
Pertencer-te
não te tendo
Dar-me sem que me queiras
Ser teu que minha não és
Assim vou inexistindo
Sendo um eu em mim sem ti
Amor
feito cristal
em coração estabanado
Sentimento fragmentado
Teus
olhos dois horizontes
Um que não atinjo
Outro que não alcanço
Vêem-me cego entre ambos
E tuas
mãos
continuam florindo?
Ainda espalham pólens?
Distribuem pétalas?
Esbanjam perfumes?
Sem ti nunca mais primaverei
Eras meu começo de verão
Sem ti nem se me sou sei
Fui-me a ti a teu convite
Visitei-te domingueiro
E como teu hóspede fiquei
Gentil anfitriã de vestes de seda
Cuidas de mim com singelezas
Matutina ternura iridescente
Noturna sinfonia de acalantos
Habitamo-nos em nós abrigados
da solidão maior que o céu
onde jamais chove e haja sol
Para companhia me convidaste
e tão responsável me cativaste
Atendendo
aos seus constantes pedidos, ei-los:
É
quando sorris
que bate sol
em tua cara
Tudo aclara
quando iluminas
Geras energia
que a nada
se compara
És como mil turbinas
de grandes usinas
como a de Itumbiara
Sorria
minha ensolarada
e não pára
Sou teu amigo
em dias de
chuva.
Teu amigo sou
em dias de
sol.
Sou
amigo-abrigo.
Contigo e teu.
Água e sombra.
sábado, 24 de setembro
Todo solene
estendo o
tapete
para sua
triunfal entrada
(Não que o
condene
ou não o
aceite
mas ela o
evita)
Pois em mim
extasiada
dele não
precisa
ela que é
tão avoada
nele não
pisa
- levita
Para amar sê extremo
No amor dê o máximo
Com amor é mais íntimo
Em amor é tão ilógico
Quem ama dilui-se
etéreo éter etc
O tempo parou em meu corpo
onde
- bem no meio - o relógio
retesado
do sexo aponta sua libido
incontentável
– e nada a sacia
o
enrijecido ponteiro do desejo
em meia-noite e em meio-dia
Nunca termina o olhar
a ver
infinitos
Tons de
azuis nas montanhas
ora
verdejantes na distância
O olhar
alcança o inatingível
olhar curioso ante o impossível
Nem ao morder a isca
o
olho do peixe
pisca
Deseje
mas não se
culpe
Ou só do
proibido
tua
fantasia se nutre?
Vê como é
permitida
a carniça
ao abutre
e o quanto
este
a essa
curte
Para quem
deseja
vale toda a soberba
Para chegar até mim
não
viestes – eu te pensei
Imaginação
és – aqui – comigo
Posso te
refazer – te desfazer
ou
simplesmente excluir-te
deletar
de meus insights
teus
milhares de gigabytes
extrair-te
da memória ram
(No coração da máquina serás spam)
Uma carta
escreveu
para ninguém ler.
Aquela carta que eu
tanto ansiei receber.
A carta que se perdeu
ou tratou de esconder.
A carta que esqueceu
de um dia remeter.
De próprio punho seu
ela ficou de dizer
o que foi que se deu
(eu merecia saber)
que a enlouqueceu
a ponto de cometer
o que me prometeu
nunca jamais fazer.
Mas se aconteceu
assim tinha que ser.
Desde que ela morreu
está mais difícil viver.
quinta-feira, 15 de setembro
Nem tudo é
poesia no vivido.
Mas aí também não tem graça
não há o menor sentido.
taquigrafia:
t am
taquicardia
diante do realejo
possível
sorte
nenhum desejo
Será puro fingimento esse teu azul,
ó céu?
Ilusão de
ótica entre nuvens?
Ou também
essas não passam
de
imaginação en passant?
São
perguntas loucas?
Mas, e
tuas óbvias respostas?
Por que
ir tão fundo nos devaneios?
Dai-me
delícias, insanidade.
Não me (te) vejo em teus (meus) olhos.
sábado, 10 de setembro
A vida me
convidou
então
a vivo
Por
meio dela sou
me
ativo
A
ela inteiro me dou
passo
pelo seu crivo
Se
nela não estou
de
existir me privo
A
seu tempo vou
só
assim sobrevivo
Lógo,
existo,
penso.
Loguin,
senha,
net.
Como um cão a seu osso
a ti me
apego
e por nada
a ninguém te entrego
Posso até
cair no poço
(que não
nego:
de amor
ando cego)
Se dizem
que é sentimental
é fixação
ou
passional obsessão
Sei que
sendo mental
é que
consigo
ser todo
coração
ser teu
melhor amigo
teu cão
Eu sei que vou te amar
até o fim
do dia eu vou te amar
E depois
que eu dormir e se acordar
será um outro dia e se eu te achar
deitada em minha cama eu vou pensar
que não tem nada a ver mas deixa estar
logo virá cobrança - sempre há
e a
desconfiança vai cortar
todo e
qualquer barato (vai contar
quando eu
na balança for pesar
o pouco
de esperança que restar)
Eu sei
que vou dizer
adeus
ponto final eu vou querer
eu já vi
esse filme é sempre assim
então
para mim chega e fim é fim
dura pra toda a vida.
sexta-feira, 2 de setembro
Fez voto de
silêncio.
Deu baixa nas palavras.
Aboliu a escrivatura.
Água na pedra?
- Dura!
Endurecerse la ternura.
Indecisa, insegura,
ela ama e
esconjura.
- Amor é
loucura pura.
- Terá perigo de cura?
Que tal chá de hortelã?
Deita aqui,
vou te acarinhar.
Esquece
isso. Sofre não.
Cuida de
saber-se plena.
Simples, o
amanhã à sombra
aguarda-te,
descansando.
Chorar não
vale. Não assim,
por falta
de palavras. Olhos
para dizer.
Lágrimas contêm
silêncios.
Constrói diques.
Ao
encontrares o amanhã
será a ti
que buscavas, verás.
Então vem
cá. Calma. Confia.
Com meu
carinho não te assustarás.
Alma
cansada também se inebria.
E agora
bebe o chá senão esfria.
SETEMBRO DE
2004
terça-feira, 30 de
setembro
a m o r p e l o c o m p u t a d o r
(sente o toque carinhoso
do teu eu virtual a teclar teclar)
a m o r n o c o m p u t a d o r
(serás previsível tirando
de teu kitchat as obviedades)
a m o r a o c o m p u t a d o r
(quantos anos como chamas
de onde teclas como és?)
a m o r e m c o m p u t a d o r
(com teu nick entras nas salas
e reservadamente falas)
a m o r d e c o m p u t a d o r
(por idade por cidade
por assunto por carência solidão)
a m o r e c o m
p u t a d o r
(por e-mail telefone sem mentiras
eis a foto scaneada da verdade )
olhos corações mentes monitor
para maria eugênia
maria eu
gen da voz
genial
segunda-feira, 29 de
setembro
não que eu seja insistente
e nem que passe da conta
sou sim muito persistente
e ao ver-te assim tão tonta
(indo aonde o nariz aponta)
penso: - se não for urgente
logo logo ela apronta
já já encara uma afronta
e estraga tudo entre a gente
qual criança desobediente
a mimada não me desaponta
mas trato de pisar quente
ela não sai de minha mente
nem de meu coração adolescente
no
momento
nada
posso dizer
no
entanto
sabes
o quanto
penso
e
sentir
até
poderia
mas
aqui agora
nem
mesmo olhar
para
esse vazio
e
despertar
a
serenidade
emocionada
ousaria
foge-me
a certeza
da
exatidão
então
penso em ficar
e
vejo que já estou
a
ponto de ir
sem
volta
e
não pretendia
respeite
meu silêncio
durma
a meu lado
é
noite e tarda o dia
ouça
o canto ausente
não
é rouxinol
não
é cotovia
e
o eu de mim
se
distancia
um
solfeja
em
Verona
outro
em Mântua
assovia
domingo, 28 de
setembro
ficasse eu sem te ver
decerto me enxergarias
sem de mim nada saber
certamente tu verias
pudesse eu te escrever
em braille tu não lerias
o quão difícil é viver
às cegas à luz dos dias
tuas mãos e olhos querer
e não tê-las como guias
a mestre drummond
colecionei sentimentos
guardava-os não em álbuns
baús envelopes armários
catalogava-os por épocas
períodos de emoções
etapas de sensações
fases de aflições
depositava-os na mente
arquivava-os no coração
na dispensa de meu ser
expostos à lembrança
envoltos na penumbra
de tempos vividos idos
hoje não coleciono mais não
também não lembro mais não
e sentir não sinto mais não
fugir da manhã
é
impossível
ela
é inevitável
e
vem iluminada
prometendo
luz
de
esperança
arromba
frestas
invade
tua casa
te
pega dormindo
sua
brasa de dor
de
paz em meio-dia
que
aí a tarde chega
toma
seu lugar e flui
nem
tentes fugir
de
uma manhã serena
recolhe
teu orvalho
para
dias de sequidão
de
inúteis lágrimas
mantém
acesa a dor
dessa
brasa de paixão
e
sua fogueira interior
te
tornará madrugador
sábado, 27 de
setembro
os cacos
os resquícios
os restolhos
os fragmentos
os resíduos
um tanto de cada em nós
e muito de nós em tudo
sempre incompletos
jamais inteiros
remanescentes
sobras
restos
destroços
despojos
ruínas
o gladiador
na arena do silêncio
diante de ansiosa platéia
a fim de sua patética poética
não desafia touros
não enfrenta leões
nem digladia com homens
sua luta é contra as palavras
e ele perde sempre
como agora
ei-lo no chão
com seus murmúrios
dá-se por vencido
só não é vaiado
por pura compaixão
de seu público
mudo
antes de mais nada
digo que cheguei cansado das estrelas
e nessa viagem entre as estrelas
singrei com leveza a dor de ser
e singrando a leveza da dor de ser
bateu uma saudade de um tempo perdido
e a saudade desse tempo perdido
me revelou que esse tempo está presente
está presente nas estrelas que visitei
e as estrelas visitadas estão distantes de nós
tão distantes de nós que cheguei cansado
e exausto não corro atrás do tempo perdido
que o tempo perdido não me leva a lugar algum
e estou sempre partindo com endereço certo
rumo às estrelas da saudade ó lúcidas estrelas
de um tempo que acabei por encontrar ausente de ti
interstelar pessoa em meu universo sem-fim
porque quando chego assim cansado de viagem
é na saudade de teu colo macio e simples
que repouso a leveza dolorida de mim
poetas não amam
poetas se apaixonam
e paixão não é amor
mas um poeta apaixonado
faz da musa única e bela
sua escala de valor
mas um poeta desapaixonado
anula para sempre e nunca
retira do sol luz e calor
poetas não amam
poetas se apaixonam
e se deles musas reclamam
é porque se impressionam
confundem paixão com amor
o que não me dou
anseio
o que não me faço
atormenta
o que não me deixo
sublimo
o que não me aceito
reflito
e assim distante
de tudo e de todos
sinto-me mais ou menos
eu
o
que não sou
nossas coisas do dia a dia
se confundem conosco
estão em nosso nome
em nosso modo de vestir
nosso jeito de andar
enfim viram manias
tiques da individualidade
altos e baixos da personalidade
revelar essas coisas jamais
são íntimas demais são segredos
de nossas intimidades banais
o que dá na telha
além de gatos escaldados
pombos (ora pombas)
passarinhos em escala
entre uma cumeeira e outra
maribondos abelhas moscas
gotas de chuva poeira sol
anjos afoitos de asas exaustas?
o que der na telha (espelha)
deves encobrir
ou cobrir
ou rir?
sobre tudo e todas as coisas
sobretudo angelicalmente
exaurir-se profunda
e infinitamente?
e se o que pintar
na telha for uma centelha
deixa fogo pegar
até consumir-se plena
em todo teu habitat e mente?
as
camisas no varal
tremulam
bandeiras
de um peito
de
ilusões nuas
de
razões cruas
armaduras
tecidas
na
proteção frágil
para
alma lavada
aberta
à brisa
dou tudo
que
nunca terei
e
nem mereço
por
uma única
grande
certeza:
verdade
(então
amanhecerá
a
confiança
na
manhã
do
amanhã
de depois de amanhã)
castigo
não é estar
só comigo
é ficar
contigo
quando (contido)
nada consigo
me fustigo
sem abrigo
quase inimigo
e mais não digo
sonhada é a paz
em que calmamente
nos amemos
pois desse sofrer sem fim
loucura
a vontade maior é esquecer
e seguir sem a luz de ti
com a luminosidade de mim
teus bilhetes
devidamente postados
via correio não chegaram
será que se extraviaram?
não que quisesse lê-los
(não creio mais no que dizes
e menos no que escreves)
mas é que coleciono selos
penso belezas
riquezas de pensamento
tenho em ti contentamento
ó lindeza de todas as
grandezas
em tudo o mínimo o oculto o
sonho
só
te desejar me salva de saber-me só
talvez
um pouco mais do que fui e tenho sido
o
simples desejo dá à solidão a plenitude de sombra
não teve
a
menor importância
não
deu
a
mínima
e
de modo
ínfimo
se
apequenou
diante
do nada
no
vazio de si
não é ouro
não é
diamante
não é
tesouro
não é
brilhante
é apenas a
vida
de tudo por
tudo
matriz e
jazida
não me precisas ler
se não quiseres
a opção de escrever
no entanto
é minha
pra melhor me perceber
pra não sofrer
e se queres saber
não me leia se puderes
jamais irás saber
o encanto
a gracinha
que é me conhecer
que escrevo pra viver
eu te amo
é
clichê
mas
me ganha me assanha
sem
quê nem porquê
é
frase feita
mas é dito e feito com efeito