nunca na alma

 

machucou muito
uma exposta ferida
tão funda e sentida
mas não dói mais
- e o que doeu
não doía na alma
não doía na alma
não doía na alma

foi dolorosa
uma crúcis dolorida
de doença amorosa
e ainda que doesse na vida
consegui levar a palma
não deixei doer na alma
não deixei doer na alma
não deixei doer na alma

aplaca a tua dor
serena o sentir
mantém a calma
deixa o todo de tudo fluir
torna indolor o trauma
e cura tua doída alma
cura tua doída alma
tua doída alma

 
 
impressão

 

ela passa a impressão
- ao dar vida à solidão
de que o foco de sua luz
põe sombras na escuridão
que todas as suas tintas
caíram num mata-borrão
e só o preto chapou
as cores de sua paixão
- uma logomágoa gravou
às margens do coração
e o ciúme estampou
inapagável fixação



de momento
fique sabendo
estás vindo
estou vendo
estás indo
estou lendo
és senha
vou sendo
és zen
sou sem

e aprenda
és linda
sou lenda
estás vendo
sou venda
és sonda
sou senda
estás in
e eu end



para que curtas ( I )
 
( 1 )

tudo azul
e eu no escuro
em tons
de mim
desluz

 
 
( 2 )

perdi a chave
- não importa
não há casa
nessa porta

 
 
( 3 )

ver-me
em vida
ou
verme
na morte

 
 
( 4 )

meu silêncio
fala pelo pensamento
propaga sua linguagem
na interpretação do vento

 

 

( 5 )

o pão nosso
de pada
ria
nos comprai hoje

 
 
( 6 )

diante do fruto
p r o i b i d o
disse à Eva a cobra
- mãos à obra

 
 
( 7 )

no fim
o não
é o apocalipsim
do sim

 
 
( 8 )

um dia
é da caça
o outro
da escassez

 

 

( 9 )

após
há pó
és pós
e só

 
 
( 10 )

a morte
bate à tua porta
- atende!
ela não é bem-vinda
mas pode não ser
o the end
ainda

 

 

bem bom
 
ela me dá
sem dó
dá de doer
(bom que dói)
ao se dar
doa-se doida
dá-se toda
e como dá
e eu como
de acomodar
dá tudo
tudo dado
sua dádiva
me convida
sou comensal
seu banquete
de fartura
concordo
engordo
ela é dada
novidadeira
verdadeira
dadeira
tanto que dá
no que dá
ela dá
ordens:
- vem cá
vou
dela sou
a ela me dou


três tempos
olhei para trás
te vi
amada por mim
mas indiferente
comigo

ao chegar ao futuro
eras inexistente
uma sombra somente
sem meu amor
como abrigo

estou sem olhos
hoje não sinto
quisera eu ser
mas não és
te olhar não consigo



indústria de lirismo

 

eu artesão da palavra
estou apertado de serviço
e minha oficina mal me comporta

muitos versos por fazer
obras por acabar
no alicerce e em arremates

idéias em jogos cerebrais
sentimentos no coração
parafernália de textos e expressões

escrevo dia e noite
plagio meu próprio original
metaforizo com simples dizer

eu poeta interiorano
planto imagens para leitura
no quintal de olhos e mentes

pego a laço meus poemas
campeando-os na imensidão
que é estar dentro de mim

são produtos manufaturados
da linha de montagem p o é t i c a
da fábrica flavioalmeidiana

agora por exemplo trabalho
numa série de poemínimos de amor
que nem tenho tempo pra ti meu bem



 

carteiro certeiro

 

o e-mail é ligeiro
mas não chega
pelas mãos do carteiro
em envelope lacrado
- depois de longa viagem
endereçado selado
ansiado rasgado
dentro papel com mensagem

vem de ônibus no bagageiro
per avion em malote
e é tão romanticote
a chegada do mensageiro
quando à porta bate
ao fundo cachorro late
au au au au au au

tudo bem o e-mail
mas carta pelo correio
tem um tom sentimental
já fui paciente e mais tradicional
mais chegado ao romantismo
rendi-me ao imediatismo
sou um apressado virtual

meu nickname meu login
minha secreta senha de acesso
não tenho cep tenho arroba
meu endereço é ponto com
a Internet nos destina e remete
e a carta chega veloz lá em casa
não pelo portão mas pelo portal



 

um ser reciclável
 
durou pouco quase nada
nosso entrevero
só me resta pensar
- e não me desespero:
para ela fui efêmero
ou coisa do gênero
descartável dispensável
momentaneamente mal
meio que baixo astral
(assim me deixou a tal)
um nada considerável
um reles pouco notável
mas partirei para a outra
sei ser um ser reciclável
se outra ver em mim
o que ela nunca viu
certamente descobrirá
um poeta cheio de si
com sua poesia inefável
seu verso duro palpável
a fim de gozar prazer
quero ser garimpado
passar pela lapidação
sou um veio inesgotável
dou versos diamantíferos
enriquecerei sua alma
e me amar é tão amável
por ora sou imprestável

 


letras mortas

quero ser da academia
brasileira
de caligrafia

 

tentando entender


ela me entende
ou talvez finge
ou se rende
aos dez encantos
de meus mistérios
e me surpreende
seu olhar de esfinge
tentando decifrar
meus enigmas
quebrar paradigmas
de minha alma em solidão
com seus vários estigmas
de meu eu só
só meu
ou seu
ou não



Rua (is in my ears and in my eyes)
 
do lado de cá da rua
o
R rapidamente recua
e passa por menlove avenue em grua
no meio da rua
o
U ultrapassa em curva meia lua
e em penny lane avua
do lado de lá da rua
o
A assemelha-se ao asfalto e árvores
e abbey road atravessa apressado e na sua



altos e baixos

bem ao estilo de mestre Drummond
 

 

E O AMOR SEMPRE EM ALTOS E BAIXOS

DE MAL DE BEM DE BEM DE MAL

AMOR É UMA COISA UM TRECO UM TROÇO

MAS SEM ELE NÃO POSSO

NEM REZAR UM PAI NOSSO



 

não e não ao não

 

não se perca na luz da cegueira
de quem te vê à sombra e em silêncio

não tolere as dores anestesiadas
na mágoa de saber-se esquecida e só

não se revele ao sonho de irrealidade
a iludir-te com promessas de amanhãs

não temas a caminhada de ir ou estar
querer retomar retornar renovar recuar

não se limite ao prazer seguido de lágrimas
em gangorra de mental sentir e consentir

não se deixe levar pela dor de curvar o arco
da solidão que tua humildade em vão triunfou

não deixes tua luz desenhar traços neutros
e sobretudo evite dizer ouvir pensar em não



rima rima

 

como sou meu verso é
de pé quebrado pobre de rima
a auto-estima em parangolé
em marcha a ré ladeira acima

meu verso é como sou
se vou ele vem como quem vai
se cai ali logo já se alevantou
e alavancou o meu ai ai ai

sou como é meu verso
perverso diante da inspiração
o não é meu lema de ser adverso
imerso nessa desconstrução

como é verso sou meu
um eu lírico metido a bacana
dando banana se cacho deu
colheu comeu bagaço e cana

é verso meu sou como
domo o corcel e estou muntado
agigantado tal qual gnomo
ou rei momo num spa sentado

rima rima como vai minha prima?
em cima e como vão vovó e titia?
na academia aprendendo esgrima
minha estima às duas boa guria

como se vê meu verso é babaca
quem saca o panaca o é também
e se ninguém lhe fecha a matraca
solta a macaca e aí, amém

rimar é fácil difícil é o sentido
que o atrevido poeta faz blague
não trague a safra é verso vencido
teu vestido sujo lave e enxágüe



variações de loucas estações
(você não entende nada do que eu digo)

 

invernoutono
primaverão
prinverout
inverão
noranoão
prouvein
priomoutono
outvera
primout
p i v o
invernoutono
verinverno
priverinvout
verinverno
invernouto
prinvernera
onovera
vernorão
veraerno
prima
out
ver
in
vera
ono
rão
erno



com platônico e segredado amor (I)

é impossível na distância longe
é improvável pela loucura toda
é inacreditável pelo jeito que é
é esquisito mesmo nunca te vi
é estranho assumir e não dizer
é sufocante não sentir e burlar
é silencioso e ecoa ressoa ânsia
é puro simples tão meu tão meu
é seguro sereno sublime faz bem
é sol chuvoso minha vida solo
é doce sentir o céu é inatingível
é solitário e me segue está aqui
é sempre assim e não dói e dói
é respirar uma falta de ar sem ar
é amar tendo o amor como à fé
é acreditar no supremo sem vê-lo
é confiar nele certo de que há
é viver o mistério da eternidade
é impossível é improvável mas é
é inacreditável é estranho é amor


 

marminas minasmar

 

há mar em minas
mar subterrâneo
oculto em silêncio
no desejo costeiro
do mineiro praieiro
marquieto marminas
em ondas montanhas
mar ainda que tardio
com sal de saudade
areias nas veias emegê
a ver navios maralto
minasmar doce lar
mar pra lá de bêagá
oceano ocê ano a anuai
mar mártire joaquim josé
(liberdade morreu na praia
de mar segredo inconfidente)
mar martelo de tõe chico lisboa
(esculpido a suor de aleijado
e espuma de pedra sabão)
sem porto mar de janelas
mar barroco de barro oco
mar maior que o São Francisco
com sua pose de riomar
mar junção de todos os rios
marminas secretíssimo
minasmar profundíssimo
águas imensas sem cais
brotando de grotões gerais
em azul da paleta de guignard
mar em sonho mar amar
mar vereda mar joão mar sertão
mar de minas: ser tão imaginação



morre à míngua


a pátria língua


essa grande íngua


morre essa língua
a pátria íngua à grande míngua


 

 

respingos

 

no meio do camInho
tem um i
esperando
por um pingo

e bem no centro
desse domIngo
também um i
requer um pingo de vontade
de c a m i n h a r

e eu não tenho
nem um
nem outro

ih vai chover
vou desandar
ando acomodado
e se chove
sou gato escaldado
deixa molhar
mas sou gato pingado
pingos
vão pingar
o i
vai se ilhar

sozinho em solidão
cheguei a esse ponto do
cam
i
nho
carecido de revisão
sem um pingo até no i
de ilusão
é domingo
e que chuvão


 

apresentação

 

prazer em conhecer:
sou anônimo
sou invisível
não penso
inexisto
não estou
nem aí

sou um cara impossível
com o gênio difícil
grilado o tempo todo
que não tem vícios
cheio de princípios
e não se entrega fácil

sou anônimo de mil nomes
invisível multifaces
impossível se saber
se sensível posso ser
depois de te conhecer
e sentir não ter o que dizer
e ficar mais só
mais só que sou
tanto só quanto só estou

de tudo podes te arrepender
menos de todo prazer imenso
em me conhecer
conhecendo comigo
o imenso prazer
de ler
escrever
e viver


 

corpos

 

por esquecimento
deixastes comigo
teu corpo no meu

descuidada que és
levastes contigo
meu corpo no teu

e então não sei
se o teu se entregou
ou se o meu se deu


 

muito prazer

conhecer-te é igual
ao que não sei
comparar

tua chegada
renova-me
o ar

a tua presença
quero em mim
respirar


 

Resposta automática

O e-mail que você postou,
tenha certeza que veio,
pois aqui ele chegou...
Foi bom receber seu e-mail.

Logo o responderei;
é este o seu anseio?
Claro que é, eu sei...
Pois é bom receber e-mail...



poeta bom é bom poeta
poeta bom teve anjo torto
poeta bom versejou no Porto
poeta bom é poeta morto


 

 
ad vento

 

deixa o vento ventar vida
vento para vôo de viver
vento em velocidade vivida
vento na vastidão da vulva
vento no vagão da volta
vento no vazio de você
vento no veleiro à vaga
vento no véu da viúva
vento no ouvido de van Beethoven
vento vadio de vagares
vento em viagem vai-não-vai
vento vem


 

plantio

papel em branco não pode passar
chão calcáreo
semeai

plantai o abc
na horto
grafia
choverá na tua hort
não brotarão palavras
nascerão palervas
daninhas

duvide de tudo
divide a dúvida comigo
e não consigo

para quem soub
esse ó esse
help
saber ler
pingos qual letras
vai chover na tua horto
grafia



os últimos e os outros
 
os últimos serão os pioneiros
os ultras virarão prioritários
os últimos lerão os primários
os ulteriores varrerão os principais
os últimos terão as primícias
os ulos sofrerão as úlceras
os últimos irão aos primórdios
os ultras verão os primatas
os últimos rirão dos primitivos
os úteis farão os primados
os últimos levarão as priacas
os únicos são os primogênitos
os últimos serão os penúltimos
os ultimados chegarão aos priorados
os últimos lerão os primeiros
os ultors chegarão de primíparos
os últimos sairão de princês
os ultrajados viverão os primevos
os últimos virarão primicérios
os ululos primos têm um primor primum
os úmeros não são unciformes
os unânimes são primorosos
os undergrounds levam aos priapos
os undífluos são úmidos
os últimos serão os principiantes


 

 

amor há

 

onde há amor
há onda de amar
ama o que há
que há de maravilhar
o mar que há em desejar
que o bem há de muito querer
a afeição de haver possuído
na ternura que há de haver
havendo sentimento realizado
possuindo haveres em ter
no que se preferiu escolher
sentido possuído existido tido e havido
no amor há amorfia de não se saber se houve
que se amor há é no amar a mando do coração amado
e dele é impossível se amorar
e nem adianta se amarar



tríplice mensagem
 
às vezes parece impossível
mas só faço questão
do que me é imprescindível
ela colhia lírios
qual lágrimas nos vastos campos
de seus pungentes martírios
andorinha no fio
escutou um segredo
e não fez verão de medo



cuidado para não enlouquecer

de tanto querer bem há quem enlouquece
querer bem sem estar certo se com ela acontece
de também bem querer como se bem merece
que pensar em abandono faz sofrer enfraquece
a cabeça a solidão da dor só em si se fortalece
o coração se entrega ao sombrio e adoece
nenhum sol existe que brilhe muito e aquece
o pensamento delira no vazio e assim se esquece
e a vontade de viver de falta de vida padece
todo caminho se cansa e leva ao estresse
aos poucos se fica louco e a agonia apetece
nenhum anjo do céu é lembrado em prece
por isso se cuide e em se cuidar se apresse
não fique contando as horas vê se adormece
ainda que alguma esperança de volta tivesse
ainda que sonhar viver juntos um dia pudesse
e se ela pensasse diferente e assim quisesse
cuidado que dor de desamor no peito embrutece
amar é bom mas o amar demais só favorece
à pessoa amada que ao sentir desobedece
ao coração e ao amor em nada agradece
como se o amor nenhum bem lhe fizesse
então querer tanto bem não é uma benesse
pois de querer bem há quem enlouquece



ela está tão mudada

 

ela não é mais a mesma menina
ela envelheceu ao me abandonar
nem sei mais como pensar nela
pois se penso já não me ilumina
a luz aflita de seu sereno olhar
qual lua azul penetrando a cela
onde meu coração se aprisionou
onde eu passo horas pensando
no tanto que ela está mudada
justo ela antes tão apaixonada
tão assim meiga suave e dada
ficará sem mim até quando?
saiba que dói mais que tudo
ainda que não tire meu escudo
dói com urgente necessidade
esquecê-la para ter liberdade
abandoná-la para ter amparo
nossa história não tem reparo
vai desabar a qualquer instante
como mudou a moça inconstante
ela foi a melhor era tão especial
hoje simplificou tudo ficou igual
tomara que ela se encontre nela
como eu me achei aqui nessa cela



Quando o amor adoece

 

Acontece do amor adoecer
gerando distanciamento
olhares de alheamento
sensações répteis insanas
fases duras desumanas
Nas raízes ressecam vidas
poços para lágrimas sentidas
cavam e aí adoecem os dois
e as mágoas vêm depois
ilhadas em negro trauma
no lago vazio da alma
Tudo fica consumado
consumido no passado
para que se acovardem
Sintomas de febre ardem
contorcem dores abdominais
Se se desfez não se refaz
não mais pois só se recolhe
o amor adoecido se tolhe
o corpo perde o coração
a mente é letargia e aflição
quem triste fica amando sofre
O coração se tranca qual cofre
A cabeça é idéia fixa obsessão
Amor doente respira depressão



Marcha triste

 

Estava apertado de serviço ela gritou:
- A banda está passando vem ver!
A banda passou tocando marcha fúnebre
Era o enterro da ilusão em cor roxa de paixão
Um ritual enfileirado cabisbaixo de homens serenos
e mulheres com véus negros sobre rostos tristes
Tubas e surdos pontuando a lentidão dos passos
rumo a um vazio da desesperança da multidão
Sempre haverá uma quimera e nunca a última
outra a mais com restos mortais de desânimo
um sem quê nem por quê que a vida consolida
que viver é um eterno buscar sentido pra vida
e tanta desilusão se enterra nos fins de tarde
que o bronze dos sinos já está gasto de sons
que a tristeza sem fim só recomeça sempre
Mas eu estava com trabalho até as tampas
quando ela aos pulos e aos gritos me chamou
Só sei que a banda passou e me enlutou



sem falta

 

a falta que ela me faz agora até que não é nada
não é nada diante da falta que ela me fez um dia
que também não era nada ante a falta que eu sentia
quando ela mentia se dizendo minha eterna namorada
sua difícil falta reclama minha flauta sem ser tocada
sem ser afinada por seus lábios úmidos de aragem fria
que de meu instrumento tiravam a mais gozosa melodia
uma sinfonia de prazeres em nossa pauta improvisada
sua falta foi maior nas primeiras hora do primeiro dia
quando apalpei sua ausência na cama pela madrugada
sua metade ao relento eu e minha saudade abandonada
somada ao amor fominha com a febre que em mim ardia
a falta dela é uma lembrança no infinito da louca agonia
que sem ela tudo passa e em verdade não aconteceu nada
a casca da vida se retrai mas a dor no miolo é desesperada
a sua lenta falta me consome sempre mais em melancolia
sinto falta da lágrima até porque nunca sequer foi chorada
falta da surpresa que não chegou a tempo de me causar alegria
falta da palavra doce que jamais chegou a ser pronunciada
falta do que não sabia e do que sabendo não saber saber fingia



caçando luzes

tentei guardar uma réstia de luz
um singelo feixe iluminado
na palma de minha mão esquerda

abafá-la a ponto de retê-la para sempre
e ela não sucumbiu escapou radiante
para meu desaponto já quase triunfante

o pequeno raio que ainda desejo prender
será para tocar teu coração cego de mim
iluminá-lo com pequenos fachos serenos

um a um a cristalizar teu coração soberbo
compô-lo com pequenos pontos clareantes
refazendo a esperança de nele aninhar-me

entre o impossível e o milagre devaneio
a impossibilidade de conter um mínimo de luz
o milagre inimaginável de ganhar teu coração

persigo pontos luminosos velozes demais
e quando acontece de pegar algum no ar
ele foge-me à velocidade natural própria da luz

enquanto isso teu coração bate escuro sem foco
nele não toco sem a clareza do eu sem cintilância
e mais ele é ausência e mera serenidade à distância

sou caçador de fulgores para entrar em teu peito
corro atrás do brilho para iluminar-te mas é ilusão
jamais chegarei à luminosidade de teu coração

que uma réstia de luz é passagem para tua existência
tua essência tem fome de clarezas e estridências
juntos acenderíamos um vistoso louco e eterno clarão



 

infindável

não contentando em apenas vê-las
dei de contar e recontar estrelas

ei-las lá distantes brilhantes ao léu
ponteando faiscantes o noturno céu

tantas quantas múltiplas incontáveis
em noites mapeadas por luzes instáveis

pus-me em aflitiva missão a perdê-las
em contagens inexatas sem prendê-las

ao olhar matemático e exaustivo
percebi o impossível no infinitivo

as noites de minha vida são um nada
para contar todas numa só noite estrelada



acorrentadas

 

desabrochai pétalas
de palavras escravas
carece libertá-las
destrancar travas
não vê-las bravas
em suas amarras
desatá-las das garras
do senhor da senzala
afoito na ebulição
de dar-lhes abolição
eu poeta as escrevo
delas sou escravo
palavras sem liberdade
sempre mais que tardia
sentem necssidade
pedem anistia
em asas de poesia

 

 

fim abstrato

 

não dá mais não dá sinto tanto tudo
o fato do diálogo acabar aos berros
e apesar do meu olhar chorar mudo
com todos os acertos e todos os erros
e ainda que eu te pareça só e sisudo
é que há muito eu por nada me iludo
não dá mais não dá mesmo e te digo
posso até tentar ser um bom amigo
mas certamente eu não conseguirei
porque sei de antemão e não serei
pois o melhor amor de mim te dei
e é difícil conviver e não consigo
sorrir sem frescor para quem amei
olhar para baixo como nunca olhei
só de pensar perco o senso e brigo
me xingo de estúpido e cá comigo
sei que a paciência não é teu forte
tem hora que teu humor é de morte
me deixas sem ação um sem norte
nos perdemos de tanto querer mais
o tempo perdido em coisas banais
ausente na espera de mar sem cais
no delírio de meu aparente pé atrás
faço de tudo para parecer tanto faz
não dá sinto te dizer meus venenos
destilei bílis somos dois fenômenos
ou muito menos e o pouco é demais
não dá mais tudo se perdeu é jamais
a saudade que o teu cheiro me traz
hei de conviver entre suspiros e ais
sobreviver e tentar de novo em paz
mas meu amor perdão não dá mais
não dá mais e até digo infelizmente
nos perdemos infelizes e de repente
ó amor o que será que deu na gente?



me escrever-te

 

tenho que escrever preciso não fico sem
escrever algo qualquer coisa me faz bem
escrever teu nome em letras de relevo
sobrenome amor te nomeio se escrevo
escrever azul na estrela em tua testa
celebrar o escrito no teu corpo em festa
soletrar palavras redundantes sem sentido
frases soltas vão queimar teu ouvido
frases loucas num falar tão desconexo
tornar fácil e simples o complexo
catar letras nos poros de teus desejos
abecêjar pronúncias com teus beijos
aprender gramática na urgência da gula
escrever tese antítese relato e bula
curar-me analfabeto de teu alfabeto
e quem sabe neologizar novo dialeto
escrever te amo em braille visionário
reescrever em ti todo meu dicionário
rabiscar no negro quadro da solidão
que vou bem entre meu sim e teu não
rascunhar núpcias de mel em mim
nossa cama nosso altar tesão e sim
descrever teu gozo escrito em grito
fica o dito e o falo em teu fruto bendito



desértica

 

na página deserta
planto palavras-cáctus
como espinhos intactos ao sol
da branca paisagem iletrada
pensando preenchê-la com nada

só dúvidas e nem sombras há
letras qual grãos de areia fina
na ampulheta textual
suo para escrever suor sal
sol escaldante num ato visceral

sem idéias em campo aberto
sinto-me deserto e só só e deserto
ante o espaço exigindo texto
e nada de tema nada de nada de nada
eu em sol e a página transpirada



sem erro

 

não digue
não seje
não ouva
não pida
não fêda
não perda
não erre

 

human machine

 

não mais
on the road
farei meu
download
um backup
ficar é escape
viver é zip
em meu euquipe
nada é pior
fatal error
não me delet
só desligue-me
em segurança



possível demência

 

partindo do começo enfim
finalmente no princípio de tudo
inicialmente grave depois agudo
alfa de aprendiz sem estudo
o a de um alfabeto mudo
o 1 somando-se desnudo
no que nasce e renasce em mim
primeiramente assim há sim
parti cheguei estou sou sei vim
nada é melhor e nem foi tão ruim
eu também comeria o proibido fruto
daquele auspicioso e perfeito jardim
sou um vulto sensivelmente bruto
e se Deus é caminho verdade vida
me perdoe a sombra umedecida
onde repouso tão a fim do fim
o peso dessa anatomia carcomida


 

nada a ver

 

tudo é se é
e se não é
pode ser?

exemplo: a fé
só dá pé
se não descrer

a marcha ré
se volver

cuca lelé
se endoidecer

chulé
se feder

qualquer zé
só se vencer

outro pelé
está pra nascer

são tomé
pra crer e ver

e eu tão mané
vai saber?

e nem fiz o pré
e dou de escrever

pois é
nem tudo é
ou tem de ser

há lé com cré
rima mais blasé
suportou desler?


 

dáctil

 

desapontado
(de última geração)
o teclado
oferece letras
cabe juntá-las
formar palavras
visualizá-las no monitor
a página virtual em tela
insights em megabytes
poesia na aragem fria
enter home pause insert
delete alt lá contrl-se b(aby)
primeiro escrevo à lápis
meus versos de tecnologia de ponta