Número 1
coração cansou
do pouco caso
que lhe causou
o seu sorriso
(não rimou)
mas o riso
foi de arraso
Número 2
no sentido
está o sentir
de pressentir
o pretendido
de consentir
o tido
no havido
a vida
é ida
Número 3
havia
quando a via
como não mais
a vejo
já não há
vivo em paz
pois sem desejo
não dá
ela lá
eu cá
Número 4
se alguém
me encontrar
por aí
diga que estou
aqui
parti
sem me despedir
enquanto fui
preferi não ir
Número 5
chega de saudade
que essa fossa
tão nossa
é só bossa novidade
Número 6
a senhorita
anda sem tempo
imagine
quando chegar seu tempo
de senhora
Número 7
passado
assado
do
presente
sente
se
futuro
tu
o
Número 8
tendo amor
ame
sendo amada
tendo amada
ame
sendo amor
tendo
ame
ame
sendo
Número 9
estrangeira
viajando em teus beijos
(a)prendi tua língua
Número 10
A B
(C CAIU)
A B
i
s
m
o
Número 11
paisagem
jogou verde
colheu azul
mar
e
céu
burrinha
eu a elogiei com palavras difíceis
e como você não conhecia os sinônimos
achou que eu a estava ofendendo
não lhe peço desculpas
mas assim que puder
lhe envio um dicionário
não é não
na era da informática
e quanta desinformação
eu disse sim
ela entendeu não
um repente
(q não é autobiográfico)
sou repentino
o menino de uma só asa
venho de mim
enfim sou minha casa
tenho a luz
q desenha a sombra
brinco de ser
assim como sou
confesso a tristeza
q trago nos olhos
já fui tão distante
mas nunca tardei
sou dor e brisa
no sol de cada raio
afugento as feras
com meu grito inesperado
sou repentino
o menino sem a outra asa
venho de mim
a solidão mora lá em casa
especialmente hoje
hoje não tem pic nic
(meu nick se confessa sem pique)
nada de passatempo
(ah, como o tempo passa...)
a desatenção poética de quem acordou triste só não é menor que essa
sombra, vê
tenho agido por descuido e é nítido em meus olhos que meu coração é
descuidado (ou será mal cuidado?)
a irreflexão de escrever por fluxo fluxo fluxo o que vem vai o que sai cai na rede dos buscadores virtuais de entrelinhas (você, amiga, por
exemplo, ao tentar me entender, justo você que nem me conhece, nem sabe meu
nome e jamais verá uma lágrima minha)
talvez seja por inadvertência de um aluno que a vida jamais
conseguirá uniformizar e dar objetos didáticos pois sou anti-anti-eu
naquilo que se refere a mim
alheamento da floresta, diria o poeta amador que ama tão
profissionalmente que chega a amar o amor como um profissional que mente
pessoalmente e em pessoa se consente
abstração do abstrato abstração do abstrato abstração do abstrato
eu sou o abstrato da abstração
divertimento é artigo de lux
recreação
se tem merenda oba! que meu blog
seja deglutido por vorazes leitoras famintas senhoras & senhoritas
insaciáveis são todas as mulheres há hormônios femininos em todos os alimentos
consumidos
entretenimento é a palavra final
hoje essa página talvez não lhes dê esse privilégio o sol amanheceu sem sal eu
sei eu sou eu sim azul só sul
como sempre um jogo, palavras
eu me submeto ao capricho dessas deusas
venham
fiquem
sejam
vãs
olha o trem
eu sou do tipo q não conquista ninguém
vivo o momento a mais completa solidão
estou a fim de entrar numas de cantar
porq cantando sou mais forte sou mais eu
você q me ouve o q houve com você?
construir castelos amarelos de luar
o centro do mundo está dentro do prazer
quem viver verá o q não há mas há de haver
fere o indiferente mas a gente chega lá
seja o q não haja o q deseja e sabe ser
se ando sozinho nem eu sei pra onde vou
mas acabo indo sempre chego aqui estou
nesse vai-e-vem quem nunca foi jamais chegou
você q me ouve o q houve com você?
quem pensa q sabe mais carece de aprender
a sua pergunta é a resposta q eu dei
quem gosta de pouco se contenta com o q tem
um deus-nos-acuda deus lhe pague e passe bem
não fiq parada sai da linha olha o trem
olha o trem olha o trem olha o trem olha o trem
quem ama o feio
quem ama o feio
bonito não lhe aparece
quem ama o feio
bonito lhe parece óbvio
quem ama o feio
pode ser ruim de gosto
quem ama o feio
não teme assombração
quem ama o feio
não liga para cirurgião plástico
quem ama o feio
não vai a concurso de miss
quem ama o feio
carece de me conhecer
em terra de rei quem tem um olho é cego
em terra de cego quem tem um olho tem ego
em terra de cego quem tem um olho é considerado homem de muita visão
em terra de cego o governo é amarrado por nós cegos
em terra de cego quem não sabe braille é analfabeto
em terra de cego quem tem um olho costuma usar lupa
em terra de cego quem tem um olho pode ser ciclope
em terra de cego não tem arco-íris
em terra de cego quem tem um olho fecha-o
em terra de cego quem é surdo e mudo deve ser muito infeliz
em terra de cego ninguém acredita em amor à primeira vista
em terra de cego quem tem um olho é testemunha ocular
em terra de cego não tem microscópio
em terra de cego ninguém está no olho da rua
em terra de cego não tem olho gordo
em terra de cego ninguém vende à vista
em terra de cego ninguém elogiará tuas sobrancelhas e teus cílios
em terra de cego quem tem um olho não fura os olhos dos outros
em terra de cego quem tem um olho é míope
em terra de cego quem tem um olho é rei caolho
em terra de cego quem tem um olho evita cisco
em terra de cego não tem São Tomé
em terra de cego o que engorda o boi não é o olho do dono
em terra de cego não tem bode expiatório
em terra de cego a espada da justiça balança
em terra de cego as paredes têm ouvidos
em terra de cego quem tem um olho não vê os dois lados da questão
em terra de cego quem tem um olho deixa o rei nu
em terra de cego quem tem um olho não vê o rei
imaginação fértil
encontrei Karl Marx vestindo calça Lee
conversando com Trotski
que bebia uma Coca-Cola
foi quando chegou Stálin
os três iam se encontrar com Engels
na sede do FMI
não sei filho
pai,
por que que rico
nunca tem tempo
e vive dizendo
que tempo é dinheiro?
sex- symbol
Ava Lavínia Gardner
a tantos inspirou
até que morreu
ave
ó musa
de museu
tia zoquinha
o sonho de tia zoquinha
era estudar medicina
queria ser médica cirurgiã
infelizmente não deu
tia zoquinha fez o curso de corte e costura
fim próximo
viver está
pela hora
da morte
mas também
não precisa
encomendar
o funeral
deus analfa
(sr., perdão)
se na hora de criar o mundo
se em vez de verbalizar
deus escrevesse o "haja luz"
e sua atroz divina dúvida
ficasse entre haja e aja
se luz não houvesse
a luz não agiria
e talvez deus desistisse
e o mundo não criaria
entre o haver e o agir
o mundo nem existiria
mas deus preferiu falar
e jamais escreveria
deus quis e luz houve
deus agiu como devia
o mundo taí clarinho
nele há o que não havia
só depois de criado tudo
deus ao mundo se dirigiria
escrevendo poucas linhas
com sábia e santa sabedoria
"quero minha criação halegre
na mais completa armonia
o mundo criado hontem
é de vocês oje em dia
ó filhos amados meus
fiquem na pas de deuz"
oras rosa
uma rosa
é uma asor
é uma roas
é uma saor
oras
o paulo leminsky
o paulo leminsky
parou de fumar
o paulo leminsky parou de
beber
o paulo leminsky parou de
falar
o paulo leminsky parou de
escrever
o paulo leminsky parou de
parar
o paulo leminsky parou de
correr
o paulo leminsky parou de
criar
o paulo leminsky parou de
meter
o paulo leminsky parou de
inventar
o paulo leminsky inventou
de morrer
a paisagem
a paisagem um quadro sem moldura
rio
é claro que sabes
o tanto e quanto chorei
só não fazes idéia
do que com isso sequei:
o nosso rio sem margens
o nosso rio sem margens
fuga
queres fugir? então fuja
jamais te encontrarei
pois não vou te procurar
eis que tu te sentirás
perdidamente abandonada
escondendo-se
magoada
ferida
sozinha
fugindo de mim que já não tinhas
Rodízio
Ó desilusão
de boi noutro campo.
Olhos perdidos ruminam pastagens imaginárias.
Rumo ao matadouro. O pressentimento da dor final.
A faca afiada do magarefe. O golpe fatal. Sangue esguicha.
O uivo revoltado do animal já quase inanimado.
Depois do berro, o bruto mapeado e fatiado.
Cupim. Costela. Picanha. Maminha. Alcatra.
Filé. Contra-filé. Fraldinha. Língua. Coração.
O destino bovino é a suculência de sua carne.
Apenas mais um. Mas não era um boi anônimo.
Lá se foi o velho Rodízio.
gordinha mineira
(quebrando o regime)
não sou de ferro
vou sair dos trilhos
quero comer um trem
uma pizza quatro estações
depois de morto, o anjo torto
p/ mestre drummond e seu anjinho
estranho amor é esse
que você está vendo:
ele lá, junto ao jazigo,
escrevendo ou lendo
depois que fez a leitura
de “Carlos, sossegue”
ele só segue Carlos
e loucamente o procura
sua família lhe deu asas
e nem se preocupa com
sua vida é reverenciar
à memória de drummond
na vastidão do cemitério
ali de tudo fica um pouco
versejam já sem palavras
o poeta morto e um louco
para ele não é loucura
- o silêncio é poesia pura -
ficar sossegado com Carlos
telúrico em sua sepultura
a inspiração é inefável
vozes vão se sublimando
ele é apenas o anjo torto
de um gauche dormitando
o velho anjo de sempre
soube chegar ao cúmulo
de redizer “vai, Carlos,
ser eterno num túmulo”
conjugal
o difícil
não é conjugar
o verbo casar
como transitivo direto
ou indireto
mas sim
no pretérito imperfeito
do indicativo
atirar o pau no gates
(outra a la drummondiana)
cara, relaxe,
o windows é isso que você está vendo:
hoje crefa
amanhã trava
depois de amanhã é quinta
e na sexta vai ser impossível
achar o mister bill gates
inútil você reiniciar
ou mesmo desligar
não se encane, ó não se grile
é melhor formatar a máquina
encare um download de frente
e pode até ser um vírus
que o northon desnorteado
ou talvez desatualizado
não conseguiu vacinar
o windows, cara,
você pirateia, enxerta na placa mãe
sem nem saber com quantos bitmatozóides
se faz a porra do winchester
e esquece que se a maicro é soft
o seu micruzinho é bem light
cara, pode crer,
vou desengavetar a máquina de escrever
mas se eu encontrar o tal do bill gates,
cara, do mesmo jeito que o windows deu pau
atirarei o pau no gates e o pau vai comer
ladainha da blogirl
santa internet
blogai por nós
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blogai por nós
Fui rimar amor com dor
a dor era dourada
da cor de uma jazida
preciosa mais que a vida
- eu adorei
Fui rimar amor com amor
ficou pobre minha rima
jogaram ódio em cima
deitaram mágoa na mina
- desamei
Fui rimar amor comigo
fiquei falando sozinho
hoje nem falar consigo
só olho pro meu umbigo
- silenciei
Fui rimar amor com sonho
delirei um pesadelo
chorei diante do espelho
fiz a Deus o meu apelo
- acordei
Amor não rima com flor
Amor não rima com dor
Amor não rima com amor
Amor não rima comigo
Amor é apenas um sonho
Flor é rima popular
dor é rima a mais vulgar
amor dá o que falar
comigo é bom não contar
sem amor não sei sonhar
Há um precipício
e o princípio de queda livre
O salto vital
A volta por cima
A ida e a vinda
A vida é tão linda
tão linda que finda
Há um fundo
para quem voa em vão
para quem vai saltar
para quem vai soltar
a imaginação
abrir as asas sobre o nada
o nada de toda amplidão
Há um abismo
e não cismo
O
A volta por cima
para quem vai saltar
para quem vai se soltar
A vida é tão linda
A margem de lá
A beira sem eira
Há um fundo
para quem voa
Abrir
a vida é tão linda
o nada de toda imensidão
Se você ficasse,
se você partisse,
se você tentasse
por mais um dia,
se você parasse
se você quisesse...
Mas você não quer,
você é foda, Maria!
Sorrindo sem graça
qual louca de lua,
sem melancolia,
sem roupa no corpo
pela noite que esfria,
sem José que queira
sua ganância inteira
de cadela perdigueira,
você vaga, Maria!
Maria, quem diria
que mulher assim,
tão senhora de si,
tão louca e a fim
não tivesse primazia?
amor
conquanto meu abraço te arromba
a gente se tromba no dorso do elefante
um diante do outro na selva urbana
tão bacana te saber a fim de atar-me
na catarse de sangria desatadíssima
ó santíssima diabinha que de eu zomba
na tromba do elefante tem sugação
não e não e não te devoro vegetariano
que se me dano sou carnívoro canibal
te como sem sal em fast fode
de momo
eu tomo uma pepsicoca nesse carnaval
só muito ar
pra se respirar
mas monsieur Apollinaire
que viveu a arte
de forma absoluta
surrealisticamente
respirou e morreu
de gripe espanhola
l'art pour l'art
a dor faz parte
faleci
fale sim sim
fale sim
fale
(falhanço)
qdo faminto minto
qdo apaixonado nado
qdo influencio cio
qdo revivo vivo
qdo posso osso
qdo aconchego chego
qdo desabafo bafo
qdo desfaço faço
qdo recompenso penso
qdo especifico fico
qdo sentencio cio
quando determino termino
qdo amar mar
qdo esquecer ser
qdo puder der
qdo valer ler
qdo reviver ver
qdo separar ar
qdo admoestar estar
qdo resolver solver
qdo acasalar lar
qdo definir ir
qdo resolver ver
quando senão não
qdo decorar orar
qdo barganhar ganhar
qdo preferir rir
qdo suspender pender
qdo desnudar dar
qdo revelar velar
qdo sossegar cegar
qdo acreditar ditar
qdo construir ruir
qdo escolher colher
qdo formatar atar
quando enfim fim
oh Janis
tua garganta
essa rouquidão
não grite
consigo
sou viciado em ti
e agora és pó
mas cansar jamais
de ser escravo de Jo
plin
onde o sol escancara largo sorriso
com raios incisivos nos maxilares
onde uma estranheza de ontens
torna oca a visão d’olhos inexistentes
onde as flores abruptas do silêncio
delirantes dispensam a fotossíntese
ali adormece um homem sem noites
ali o espaço atemporal é o nada no vazio
ao me abandonares com tua ausência
revelas-me nossas diferenças inconciliáveis
estou acordando para namorar a aurora
dei fim ao ciclo de sentimentos intermináveis
Mas
sua conversa
é sem sal
o umbigo
Pagamento
facilitado
Aliás
o que é bulhufas?
cubículo
de uma alma serena
e nada vale a pena
preso por roubar
a cena
depósito
de oxigênio rarefeito
traficado do nada
ação planejada
um crime perfeito
armazém
varejista de planos
nada no estoque tem
por anos e anos
de perdas e danos
caixa de ressonância
de ai ais
de nada serve a ânsia
e nem mais
tórax e eleganância
cofre para segredos
sem chave
e nada de medos
doces ardumes azedos
ave!
túmulo da vida
em paz eterna
em nada jaz jazida
furada ferrada ferida
funda cisterna
sala de estar
de românticos nós
meio tom de voz
nada mais a falar
teu despeito a peitar
peito meu
graal de sangue e fel
tudo em nada deu
respeito o que é teu
só não me sejas cruel
Desapegue-se
Não se entregue
Desfaça a mala de lembranças:
tua nudez mapeada revestida de luz
estrela acesa na claridade
a manhã entardeceu noturna
Vou perder a fome de ti
A saudade engorda e como comi
te beijo nada
que de nada vale o beijo na boca gélida
da qual saem palavras de afiado aço
feito espadas cravadas em meus sentimentos
cada uma com sua função dolorosa de podar-me
que já nem sei se me tens inteiramente
que ando tão ferido de morte na alma e persisto
mas sei que de ti – não do amor – logo desisto
mas veja bem
ele também
pode ser
um cisco
santa luzia
a visão leitora
protegei
desse risco
Eliane é druida
eremita inquieta
acorda o insondável
com idéias talvegues
paixão fogosa
fêmea instruída a dar
com os Peixes n’água
e se molha e se afoga
por mais e mais
ela é carioca ela é
carinhoca
Eliane é sax sex mas
diluída em jazz
e bem batida na bossa
ela é mais que som só
é anti é ágil é útil
dúctil diz-se humana
desanda na contramão
tem contração
prazer em desejar
poeta porreta
goza viver
Eliane pode avoar
então não dorme
a filha da noite
a louca de asas
a maga magana
a mulher foda
elianecúmeno
quer porque quer
metamorfoseia eia!
elétrica eli-aneel
virtual elianet
Eliane lambe beiços
com suas tortas
cigana tacho de cobre
mundana mandona
fulana fula pidona
suas letras entorpecem
sai grogue dela
um maço de cigarras
ela delicicia o cio de si
a poesia a acaricia
ei-la plena em suspiros
Eliane traz à luz
cegos atormentados
um eu um outro um sem
dói nela não estar
e estando vai indo
fugiu da História
a inventiva criadora
gata leoa linda de lua
oh musa toma essa loa
brincas de ser como és
de viés ao invés dona dez
Nem a mim revelo meus segredos
ou não os traduzi ainda pois decifrá-los
pode ser me devorar com perplexidades
do que eu seja sem saber ou não queira ser
Nem o que fui o já vivido o passado o anterior
nada faz sentido ao meu alheamento desmemoriado
Amnésia conveniente o não-lembrar para esquecer
ou o esquecimento como forma de lembrança arredia
ou se lembra ou se esquece ou se deixa escapar aprisionado
porque ser livre é um conceito que só a paz íntima concretiza
e que silêncios secretos em forma de temor tornam impossível
Segredos são sombras de mim para comigo
que admitindo-os sigilosamente me confidencio
deparo-me com cenas do vivido em imaginação
e aí me confundo crendo imaginar o que de fato vivi
mas a vida em si é o que há de mais recôndito
pois se faz no escuro do útero para ser clarividência
e mistério maior não há que o espaço mínimo ou máximo
entre a cabeça e o coração e o que vai em um e em outro
que ambos são fontes e depositários refúgios e esconderijos
De meus segredos preparo-me para a grande fuga
enquanto minha cabeça pensa no que meu coração sente
e pensando e sentindo mil trilhões de segredos se formam
um a um ocultados de mim mesmo como forma de existir
como meio de me preservar da verdade do que sou e renego
como forma de ser sem saber ou de não saber como acabei sendo
no que vou me tornando com contornos em torno de transtornos sem retorno
Sei que sou e este ser é que se tornou meu único e maior
segredo
do qual tenho medo por não me entender existindo com ele
apesar dele contido nele sendo o que sou confuso em sua redoma
porque de meu segredo depende toda minha verdade existencial
e se me exponho a mim corro o risco de jamais confiar no eu poeta
e o poeta que há neste homem sempre foi apesar de não poder ser
já que tudo conspira para que seus sentimentos não se traduzam
e sejam duras sua sensibilidade e sua natureza
confessa ao escrever
e este é o segredo que revelado ninguém nessa vida vai querer saber
porque uma coisa é o silêncio surdo da voz e outra é o que acabas de ler
e é mesmo tudo tão confuso que podes ter chegado até aqui sem nada entender
afinal
tudo vive em mim
do fim para o próprio fim
em tudo por tudo estou
desde que sei que ser sou
conheço o bem tal e qual
igualmente conheço o mal
o pecado como atitude
não se compara à virtude
tenho noção sobre o certo
e o errado está por perto
tantos por aí que julguei
me julgam à revelia da lei
se nasci para vir ao mundo
morrendo sou mais profundo
experimento soberba alegria
e sofro como jamais sofreria
estou no céu em paz comigo
clamo no inferno meu castigo
na água no fogo no ar enfim
estou em tudo e tudo em mim
e só estando em tudo concluí
que nada sou contudo em ti
perdi a fé em ti
de tua sinceridade
desconfio
tua verdade é fio sem meada
não creio piamente e não pio
não confiar é o fim da picada
à tua voz os olhos
desmentem
tropeças em frases contraditórias
e ainda que tuas palavras tentem
não acredito em tuas histórias
há em ti subliminar
mensagem
tua verdade perdeu força comigo
fazes da mentira camuflagem
ter fé em ti não mais consigo
é bem maior que o céu
quem te amar mais que eu
será louco porque é impossível
eu mais te amo que todos poderão
porque ninguém jamais te amará tanto
não há quem seja capaz de amor desmedido
o amor que de mim tens é o maior que podes ter
e em mim há amor melhor ainda que a outra posso dar
pois não comportas em ti a imensidão desse amor ad infinitum
és confiante demais por saberes que te dedico amor incomensurável
amor assim não receberás de outro mas outra poderá de mim obter maior até
já que te acostumaste a achar a expansão amorosa
uma necessidade só minha para ti
e mal sabes que toda progressão deste amor
requer em teu peito espaço cada vez mais amplo
e és contida demais para suportares a grandeza
do que nem imaginas que está por vir deste amor meu
tens a certeza de que será sempre imenso no entanto já atingiste o limite
do que te satisfaz em ser amada como queres e és
e eu só posso te dizer que a fonte inesgotável do amor
que em mim se multiplica diariamente não encontra em ti suficiente armazenagem
e amor assim não se represa e nem se exclui
correndo o risco de explodir teu coração com megatons
de solidão
após seu descontentamento de irrefreável e ininterrupto propagar-se
e como jamais encontrarás amor com tal amplitude te sentirás sem chão
com a ausência deste que te oferto loucamente e que é bem maior que o céu
em latim
podes ser in
e negares algo
a ti ou a outrem
por exemplo
está na moda
te privares da
felicidade
se és assim e de tudo ris
em inglês ou latim
és sim um in
feliz
olha só
que zona
repara
observa vê
aqui nada
funciona
e ninguém sabe
por quê
detona
pt
detona
ou a elite
detona
você
Os dias que passaram
deixaram emoções.
As ilusões levaram,
ficaram as canções.
Dos sonhos acordei
e acordado vi
que tudo que sonhei
só em sonhos vivi.
As luzes acenderam
nas sombras do passado.
As noites se perderam
comigo acordado.
Os tempos de outrora
agora percebi,
com o passar das horas
até sentiram o que senti.
Eu sei,
tudo mudou,
também mudei.
A primavera era uma flor de espera
que desabrochou.
E assim,
floriu, cheirou
em meu jardim.
A rosa da esperança cultivei,
plantei dentro de mim.
Eu sei,
tudo passou
e eu fiquei.
O perfume é saudade,
flor felicidade
que nunca murchou.
Estou em paz comigo,
em paz com Deus,
em paz com meus irmãos,
os meus amigos hoje sei quem são,
só meus amores eu amei em vão.
Estou em paz comigo,
em paz com Deus,
em paz com meus irmãos,
os meus amigos hoje sei quem são,
só meus amores eu amei em vão.
a jente
não temos
geito
2
Vejo
que você
me olha
sem
que você
perceba
(eu sei
não tem nada
a ver)
psiu
olhe pra mim
e me veja
olhando
pra você
(tá vendo?)
3
Muitos são os dias num instante de saudade.
Solidão: penso às escuras.
Mas está tão claro, meu amor...
Acho raro dizer isso assim
num tom simples
e natural.
4
falo de mim coisas assim
um rio que tenho sem saber
um mar que ofereço sem ter
5
Minha mãe tempera a salada.
Rodelas de tomate folhas de alface
o vinagre o azeite o sal.
É assim que seu pai gosta, ela me diz.
O amor satisfaz o gosto.
Meu pai chega do trabalho toma banho janta
anda de um lado pra outro depois vai dormir.
Minha mãe ainda fica na cozinha.
Ensaboando enxaguando enxugando...
Tão esquecida de prazeres.
Tão concentrada em afazeres.
6
Sonhou comigo.
A paisagem um quadro sem moldura.
No sonho havia um rio tão grande
atravessando meu destino. E eu era feliz.
A correnteza, as águas desatinadas
inundando minha vida. E eu era feliz.
Pedia auxílio,
as águas violentas. E exaustas.
Apenas um silêncio. Tudo calmo.
Ela acordou. Eu dormia.
7
Como as rainhas são lúcidas,
o que elas querem é sugar meu néctar,
desfrutar um sabor, um aroma,
uma dádiva sublime para sustentar o sonho.
E vão tecer novas tramas,
vão provar o quanto é doce
o açúcar de minha carência.
8
Com obstinação cristã,
como quem deseja um reino eterno,
assim eu te procuro e te encontro.
Estás onde vou e vais me seguir
pelo resto de minha vida.
Meu caminho, minha verdade,
minha sombra e meus passos.
O que vem de mim é o que me dás
e o que te dou faz brilhar o teu sorriso,
acende uma luz, aquece o teu corpo.
9
Abismo intransponível
entre nós
força invisível
voz inaudível
impossível sonho:
você
e
eu
a sós
10
todo dia um eterno repetir-se:
despir-se da roupa
vestir-se de nua
e deixa correr o mel da lua
11
A noite caiu
e eu estou
que nem posso
me levantar
Mas baixo astral não
leve como quê
pode-se dizer
pluma
12
Não sei o que dizer agora
Depois eu digo depois eu ligo
Eu sei o número
Fique tranquila
Tudo bem comigo
Alô alô
Caiu a ligação
13
Não sei o que dizer diante do novo.
A expressão impressa em meu silêncio
se resolve dissolvendo-se em puro espanto.
E calado, procuro definir com os olhos
a quase totalidade de minha incompreensão,
a extremidade do que se faz novamente,
refazendo outras maneiras de ver,
formas de criar e sentir,
até que eu assuma a exatidão de tudo
que em mim existe
e insiste a deslumbrar com seu inventivo encanto.
14
Tudo voltará a ser pó. Eis a revelação.
O sopro que nos deu a vida
é de pura fragância, aroma de flores
que já murcharam dentro de mim.
Porque viu que eu era triste e só
me veio a revelação: tudo voltará a ser pó.
A terra de meu corpo, agora sei,
é uma terra inóspita, infértil,
tão estéril quanto a palavra solidão.
Meu corpo se aguça. Minha vontade é sublime.
Quero ser pó.
15
Não venha falar do poder divino.
À luz de nossos desejos, tudo é sombra,
tudo é fundo e escuro, tudo é fraqueza.
Ninguém sabe. Eu sei. Eu sou.
Sou de carne e osso, e sustento.
Sou fraco, minha fraqueza é minha fúria.
Minha fraqueza é conhecer o prazer,
desfrutar as alucinações, viagens delirantes,
gritos sufocados, angústia de buscar o momento
para ser muito feliz.
A fraqueza é a força de quem busca.
Ninguém sabe. Eu sei.
16
A sensação é profundamente abismal.
Sinto-me além de minha atmosfera,
numa órbita de alucinantes estranhezas,
quando sei não ser o que era e nem sabia
antes do que seria, acaso estar, ocaso sou,
só, dentro da redoma impenetrável, sem ar.
Sufocado, angustia-me tanta angústia.
O silêncio é tormenta atormentando no vazio
ecoando a solidão solitária.
É corpo quando não é - é e não é corpo.
Quase morto, considero-me muito pleno,
num plano de levitação, eu comigo - levemente.
17
Eles dirão que eu
como poeta sou extremamente sombrio
Minha poesia um raio de sol
para mim e para todos vocês
18
O cheiro da essência, a atração, um convite
e a revoada de pássaros mais íntimos,
pássaros assustados dentro do peito.
Queria conhecer o fundo de teu abismo,
descer, descer, infinitas descidas.
Sempre uma luz, sempre uma sombra,
e voltar a subir, subir, infinitas subidas.
E lá no fundo e no alto sussurrar um segredo,
falar em silêncio ou gritar, não sei, talvez...
Sei que estás plantada
e tuas raízes emaranhadas que me prendem
vivem presas ao meu destino.
Só tenho sossego quando os pássaros pousam.
19
O que é poesia? Não sei!
O enigma indecifrável das palavras,
a fagulha, o fogaréu, fumaça e cinzas.
A poesia quer o impossível,
qualquer coisa que esteja além
daquilo que é invisível.
Assim, respirar a sensção do vôo,
alcançar o reino do que é breve
e ser leve, leve, leve.
20
E foi falando falando falando
e falou tanto e falava falava
que por fim eu disse:
pára de falar
e ele parou.
Aí então eu continuei
e falei muito falei tudo falei
e fui falando falando falando.
21
Muitas vezes escrevi teu nome
em papéis molhados de lágrimas.
Chorei, choro, hei de chorar,
sempre que lembrar o passado:
palavras que são punhais,
lembranças que são estrelas,
constelações que se multiplicam
no céu de minha angústia,
pontos distantes, pérolas, pedras brilhantes.
Muitas vezes solucei teu nome
e em sonhos te contemplei nua,
adorei teu corpo, enfezado.
Muitas vezes subi pelas paredes,
ansiei tua presença,
me contorci em desejos, sozinho.
Chorei, choro, hei de chorar,
sempre que lembrar nossos encontros:
abraços que são naufrágios,
beijos que são dilúvios,
águas desatinadas, águas infiéis,
águas violentas de um rio sem margens.
22
amo-te tanto
que de titã
fiquei tantã
23
máquinas máquinas máquinas
que graxa tem um poemassim
24
O MÁGICO DE OS
WALD
No início
que grande começo
que começão
25
TIRADENTES
Joaquim
martirizou-se
se sentiu traído
por ter extraído
sem anestesia
o siso
de J. Silvério
com o sentir pensado
com pensar sentido
o desejo se quer
sintoma do pensamento
quero sempre mais
do que pensei
sentindo desejar
com querência
pensando desejoso
em quanto tenho querido
quero desejar
e desejo querer
pensando sentir
e sentindo o que penso
querendo desejando sentir
sobretudo pensando
sentir quero e meu querer
não passa do desejo
pois só penso
não sinto
que tua alma revela
nestes olhinhos serenos
que velozes e pequenos
querem fugir de uma cela
trancada pelo destino
que às vezes fica aberta
mas a paisagem deserta
emoldura o desatino
de teus olhinhos falantes
cheios de imaginação
que ora sim ora não
se ofuscam e são brilhantes
ao ponto de clarear
com toda transparência
a mais íntima essência
que tentas acalentar
ao sol do que imaginas
ma força do que desejas
que tem sabor de cerejas
e sumo de tangerinas
que são frutas saborosas
maduras principalmente
mordidas tão docemente
tão macias e cheirosas
irradiam uma textura
na pele do fruto em flor
cujo caldo tem sabor
da mais secreta doçura
que é seiva estimulante
de todos os deuses é mel
o sonho a senha o céu
o mais próximo e distante
ao alcance dos anseios
com nuvens para o repouso
se te deitas eis que ouso
enlouquecidos devaneios
de um ser apaixonado
calmo e silencioso
um sonhador ansioso
pelo sonho realizado
pela face da alegria
oculta sob aparência
dessa doce experiência
marcada pela magia
e pela volúpia inefável
que a palavra não exprime
por ser mansa e sublime
essa loucura saudável
vigor de todos os seres
fonte de tal energia
capaz de fazer um dia
conter em si os haveres
de um milênio reinante
no segundo secular
capaz de nunca passar
somente naquele instante
sendo no exato momento
motivo de exaltação
deixando sem força e ação
o físico e o pensamento
o temor de descobrir
o delírio louco e são
quanto tempo em vão
pensas em redimir?
quantas horas perdidas
desafiando teus medos?
se pensarás nos segredos
serão duas tuas vidas?
tua fome é sedenta?
tua sede é faminta?
não se proíba e sinta
a coisa que te atormenta
que te rouba noites de sono
que te faz insaciável
mas que por ser impalpável
te deixa no abandono
a ver estrelas pairando
no espaço nu e vazio
cintilam raios de frio
em teu corpo queimando
cujas brasas abraças
contra teu peito macio
sem poder cortar o fio
que une tuas devassas
nas quais te julgas menina
com ar de mulher madura
tão casta suave e pura
e no fundo tão ladina
a vacilante heroína
da batalha pessoal
a majestade irreal
destronada pela sina
virtuosa e deslumbrada
afoita e esperançosa
tens orvalhada a rosa
de tua roseira podada
e fazes de insinuante
com este jeitinho sério
cercada de todo mistério
- um mistério cativante
capaz de alucinar
meu coração disparado
carente d’algum cuidado
que só tu podes me dar
realças com toda ternura
a solidão de meus dias
eu te vejo não me vias
pelas ruas da procura
teu sorriso é plenitude
tua voz é melodia
meu amor eu só queria
tomar essa atitude
revelar-te essa paixão
que guardo soberbamente
olhando-te mansamente
através da solidão
iluminas a cidade
com este teu brilho discreto
és meu único projeto
de plena felicidade
teu corpo é porto seguro
neste mar de ansiedade
tu tens a capacidade
de só ser o que procuro
desculpa-me a liberdade
dessa louca confidência
peço-te paciência
com minha sinceridade
quero que sejas honesta
guardando este segredo
sabendo que nunca é cedo
para amar o que resta
a um homem cuidadoso
que sonha sempre contigo
que sendo teu bom amigo
tem este dom precioso
de notar a escassez
e toda luz que transmites
que por mais que me evites
traduzi com nitidez
Digo talvez a quem me pergunta se
vou,
porque talvez vá, mas não sei nada ainda.
Talvez eu até saiba dizer, mas como sou
um daqueles que o velho comodismo adotou,
digo talvez e deixo a decisão na berlinda.
Entre o ir e o não-ir, talvez não, não vá,
e talvez, ao chegar a hora h, até possa ir.
Que talvez, assim, indo, ao estar do lado de lá,
talvez, não sei, nem sinta saudades de cá,
se bem que, talvez, eu prefira mesmo desistir.
Vou ou não vou, talvez seja melhor ficar,
permanecer aqui talvez seja o mais certo.
Pode ser que talvez eu decida por estar
onde esteja e não ir, quando a hora chegar,
que lá estando, a distância não é nada perto.
Mas acho que talvez vá sim e por que não?
O tempo urge, e aguardam resposta até 2.096.
E são tantas coisinhas que exigem definição...
Por isso não sei se quero ou não, ir a pé ao Japão.
Talvez vá, talvez não, quem sabe, pode ser, talvez...
que sofrerias tanto
e não mereces
(ah não mereces)
tão grande agonia
e tamanha aflição
espaireça
fique bem
me esqueça
adeus
perdão
então procuro a amada
para o segundo meado
de minha existência
ou menos
o que dela me resta
o que ainda tenho
o que me sobra
com o que posso contar
e me falta
para amar
viver para alguém
e quem sabe
alguém que viva pra mim
seja por mim amada
e me ame também
inteiramente
até o fim
dá dó
dá um nó
na garganta
ela enforca
nosso amor
a vida emborca
out the doors
death
mister morrison
morre som
the leg
end
No centro da estrada havia
uma baita brita
tinha uma rocha na metade da rodovia
existia uma matéria mineral
imenso seixo grande calhau
no ponto convergente da vereda da via da trilha
encontrava-se um butelo dum quase meteoro
Sempre me lembrarei dessa ocorrência
na existência de meu velho olhar exausto
Sempre hei de lembrar que no centro da estrada
havia uma baita brita
tinha uma rocha na metade da rodovia
existia uma matéria mineral
imenso seixo grande calhau
no ponto convergente da vereda da via da trilha
encontrava-se um butelo dum quase meteoro
Teu sorriso era mesmo uma gracinha
Boca hortelanzada e dentes porcelanantes
Chupei uvas molhadas de tua doce vinha
e tu sabias e era sempre melhor que antes
Até o dia em que achaste que eras tudo
Que sem ti minh’alma ficaria só sozinha
Eu bem te disse que não, nunca me iludo
e que saberia seguir minha vida na minha
Deste de ombros, te sentindo a poderosa
O centro de meu mundo, deusa e rainha
Ah, coitadinha de ti, sempre desastrosa
Me tinhas e não mais me tens, tadinha
Aprendeste uma lição difícil e facinha:
com poetas é melhor ser e ser sensível
Que poetas gostam de dar asas e linha
para musas que acham voar impossível
Sei que outras virão parar em meu canto
Ganharão versos, se considerarão minhas
Mas também fortes se julgarão dum tanto
que também estas se acharão lindinhas
Todo poeta tem culpa de fazer mulheres
se sentirem as principais e perfeitinhas
Delas eles fazem repasto de mil talheres
Como tu que já não me tens e me tinhas
2)
a paca opaca tem capa
pega e pica pacu
a paca peca pacata
se pica pirarucu
e pito pinta paca
se a paca põe pata
ou pé em pitu
3)
fofa a foca faminta
fica na fila finita
fulana no frio frita fish
o faro fareja farofa
feita de farinha farol
4)
o rato romeu rompeu a rua
risonho
rolou a rampa do rio na ribanceira
ria da roupa do rebelde rei ricaço
que roia retratos rótulos relíquias
e restos de rímel e rouge
de renata
a rainha ruiva redentora do reino
5)
domingo que vem, vem
cachimbo não tem, tem
binga, não, falta fogo
tem bingo, o jogo
tem ringo, o cão
tem ringue, na lona
tem ronco
domingo tem macarrona
nada
6)
é rouco
e mouco
muito louco
muito
é pouco
7)
papa gaio planta milho
peri quito come grama
mary taca pau no filho
essa gata mãe me ama
8)
com pena penei a ema
com pena amena penou
a pena apenas empena
e penada penalizou
a pena é pé na peia
dá pé ter pé de meia
não pena e ame a ema
sem pena emocionou
9)
um dois pó de arroz
três quatro arroz barato
cinco seis arroz pro mês
sete oito arroz afoito
nove dez arroz e filés
falta o zero arroz quero
tudo contado arroz papado
e no finzinho arroz soltinho
10)
segunda chega de primeira
na terça parte de mim
na quarta da rosa-dos-ventos
na quinta dimensão de ti
na sexta faço sesta no sótão
no sábado sou cágado lerdo
no domingo vingo a semana
sou legal sou fausto fantástico
11)
eu
em constantinopla
desconstantinopolizei
a desconstantinopolização
que a desconstantinopolizava
fui o desconstantinopolizador
de Constantinopla
eu
poemas não carecem de palavras
devem ser como janelas
escancaradas sem taramelas
alimentos nas panelas
jurubebas jilós beringelas
informais e não querelas
que suportem essas rimadelas
que saem pelas tabelas
feito churumelas
pau nelas
e estas palavras
ainda se pretendem
poemas
sete é conta de mentiroso
porém
verdade e mentira
sete letras têm
não é verdade
que a mentira
tem pernas curtas
a mentira tem pernas curtas
mas o mentiroso
tem a língua comprida
o verdadeiro mentiroso
é o que mente de verdade
só quem admite que mente
diz a verdade
extraído
do manifesto pau-brasil
a poesia existe nos fatos - a poesia
para os poetas - alegria dos que não sabem e descobrem - a poesia ágil e
cândida - como uma criança - a contribuição milionária de todos os erros - como
falamos - como mos - uma única luta – a luta pelo caminho - só não se inventou
uma máquina de fazer versos - nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do
mundo - ver com olhos livres.
Charles
Pierre Baudelaire escreveu
Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal).
Vou publicar As Flores do E-mail.
Ave!
Duas
preciosidades enaltecem a Matriz:
o relógio e o sino.
O primeiro, ou atrasa ou não funciona.
O velho sino não bate nem rebate mais.
A alta torre, além de abrigar ambos,
até pouco tempo dava guarida a uma coruja.
A grande ave, antes de ser expulsa da casa de Deus,
dava a louca de sobrevoar a abóbada da igreja
durante as missas, sentindo-se anjo pássaro,
pairando sobre as cabeças fervorosas dos fiéis.
A coruja anciã desapareceu na noite de breus.
Sem saber a hora exata. Sem badalar de sino.
Para sempre ausente, exilada em sufocado adeus.
Suas asas desaprenderam a arte do vôo.
Ela pousou ninguém sabe onde. Muito longe.
em resumo
repito
digo
outra vez
torno a dizer
insisto
reproduzo
as letras são as mesmas de sempre
o ato de juntá-las forma as palavras
palavras agrupadas dão frases
frases parágrafos
texto
(dá uma dor
não saber
escrever)
sem título
coração
oração
ração
ação
Visitado
pelo tempo
O tempo me visita a seu modo.
Silencioso, o tempo. Apressa-se, lento.
Contra ele, nada. Nem ele pode consigo.
Se resplandece, evolui a seu tempo.
Desordena em ordem diária. Minuto de ser,
existir fragmentado, desencontradamente.
Tempo som, tempo cor, contra tempo,
passa tempo, sempre o tempo, sem tempo,
no tempo, fazendo-se temporariamente.
Veio me dar um recado, talvez.
“Olha a vida passando sem intervalos”.
Não me ouviu, que o tempo não escuta ninguém.
Tempo, o tempo tem. Tem que sobra e nos falta.
Mas não. Se desintegra em si para parecer renovado.
Estabelece o círculo dos sentidos.
Porque tudo depende dele. Ele dá tempo ao tempo.
E cobra com o tempo a dívida atemporal.
Impiedoso, implacável, inexorável.
Estático e instável. Exato e memorável.
O tempo é um só desde outros tempos.
Ultrapassadamente adiante. Temporão. Tempório.
Tempo passado, tempo futuro, presentempo.
ávida libido
tão longe e sou capaz de tocar-te
no silêncio na imaginação no desejo
acaricio teu rosto com sublime mão
experiência mistério encantamento
a volúpia de teu corpo ao meu alcance
suspiros delírios anseios e muito prazer
na distância colho tua rosa ainda orvalhada
púbis ventre língua falo musa divindade minha
ágil frágil
confundiu as asas da borboleta
com pétalas de u’a sutil violeta
a primeira brevemente plantada em um vaso
a segunda sobrevoando com sua beleza
ambas frágeis à luz de todo entendimento
delírio último de ágil singeleza
universominas
minas há
que se minas já não houvesse
eu não teria estado lá
minas há
pois se minas tivesse já sido
não haveria tanta saudade cá
minas há
ah se minas não mais existisse
tamen libertas quae
será
Sem
palavras
Não quero
este poema feito de palavras
Se puderes
capturá-lo no branco abaixo
captarás a simplicidade sensível
de meu versejar no invisível
Que este
poema era para não existir
não fosse minha insistência de escre/vê-lo
a partir do nada (no nada) para que possas lê-lo
Vida solo
Sou para ti
água colhida nas mãos
Ai
A água escorre pelas frestas e esvai-se
Teus lábios ressequidos não merecem o beijo
Amar requer saciar a aridez da vida solo
Ai de mim que te dei de beber tão difícil
A água do amor a colhe quem não a estanca
Tua sede bebeu da indecisão e permanece
Tua sede não há de saciar-se comigo
A água que te dou em minhas mãos em concha
quando
quando limpas, as louças - jantam,
quando alertas, os pássaros - nublam,
quando precoces, os rios - delineam,
quando perenes, os deuses - profanam.
narciso
além da luz de minha dimensão
imensa é a força do olhar
pois ao meu ver eu vejo a imensidão
mas tenho asas e não sei voar
eu vejo o que desejo perceber
e através de mim ser o que sou
ao que reflete a luz compete ser
imagem do espelho em que se mirou
olha narciso não é preciso fazer cara feia
deixa essa idéia pra lá deixa pra lá
veja narciso leia o aviso cria juízo teu paraíso sou eu
teu paraíso sou eu
entrega
ofereço uma de minhas asas à tua espada de afiada lâmina
corta-a sem piedade que a aurora está próxima
na noite o sangue se mistura ao prateado da lua
de dia a dor muda sua face e clama ao sol
decepa esse inútil membro emplumado
e depois te oferecerei minha outra asa também
arranca de mim a mínima possibilidade de sonhar
e voar
sensações
ver
ouvir
cheirar
provar
apalpar
(em 5 segundos ela me aguça
os cinco sentidos)
até o sentido figurado faz sentido
e também o sexto sentido
tem sentido
Windows
Nem
Jesus Cristo
Ctrl B
duas pessoas
fico sem ti
mas não vivo
sem você
reescrevendo um versinho
atendendo
a sugestão de meus filhos
aviao
~
o acento
caiu
do avião
a solidão pensamenteia
só estou
estou só pensando em nós
só estou pensando em nós
só pensando em nós estou
estou pensando em nós só
estou só
Te amo sempre mais
Te amo mais que ontem
Te amarei amanhã mais que hoje
E depois de amanhã te amarei ainda mais
E o meu amor de anteontem que parecia imenso
será simples perto do que será o de depois de amanhã
que esse nem chegará a ser incomensurável
pois um amor infinitamente crescente
além de não caber inteiramente no peito
extravasa a vida em cristalina enchente
pois esse turbilhão é seu sedento leito
Amor sem fim que só tem nascente
Em tua
ausência
Em tua ausência desapareci
não me encontrava
Sem
em mil pedaços de inexistência
Eis que te reencontro e reavivo
o ser que sou completo
Nosso
Toda intensidade nos possui
Estando contigo sou eu comigo
O teu amor me recria inteiro
O teu amor me reinventa teu
O teu amor é o amado meu
sobre ontem
não são estes olhos os olhos de ontem
ontem estes olhos não eram de ver nem de olhar
ontem não foi visto pela visão de passado
que ontem era presente ontem
ontem foi sobre aviso de que seria
um dia qualquer da semana perdido num mês do ano
ontem vejo como vinte e quatro horas antes
ontem como tempo não diz mais nada a ninguém
o feito ontem fez-se naquele momento
o momento de fazer o que somente ontem seria
nunca ontem esteve tão atrasado como agora
porque ontem dependeu do que ontem dependia
destes olhos que ontem viram o que ontem viu
ontem se fez de forma passageira e precedente
imediamente anterior a este dia em que estás
ontem é tempo indeterminado aqui
ontem ainda é recente mas sempre será
enquanto existir o hoje que amanhã
será ontem
Distúrbio
bipolar afetivo
Escrever é
minha terapia
O fluxo da in-consciência me dá expressão
Coloquial meu texto pois falo entre o pensar e o
sentir
Não penso sinto
Não sinto penso
Minha escrita me salva do silêncio interior
Dentro de mim sou tão calado
Ouço o sangue
Sangue coagulado de letras
Chega ao coração com palavras
Sobe ao cérebro com frases
Não sou poeta
Poeta não sou
Sou paciente de mim
Dependo de escrever para viver
a loucura de parecer são
E normalmente não estou
tese
a sede era tanta
que bebi um riacho
acho que o amor é água
variações
eu te amoro
eu te amorfo
eu te amortizo
eu te amoralizo
eu te amorango
eu te amordaço
eu te amorteço
eu te amoreno
eu te amorfanho
eu te amoreco
eu te amorico
eu te amorosidade
eu te amorífico
eu te amorio
eu te amorisco
eu te amorno
eu te amorreado
eu te amortalho
eu te amorrinho
eu te amorsego
eu te amortiço
eu te amorudo
eu te amorzinho
eu te amo
em desdobramento
parte do que fui
sou
parte do que vou
flui
partindo do ser
estou ficando
sendo
fluindo
em partes
existindo
verbalmente
ela se queixa com razão
que muitas vezes me faltam palavras
não consigo terminar as frases
falo pelas metades
não concluo meu raciocínio
não me expresso bem
ontem por exemplo
no auge de nós dois
disse a ela
"eu te..."
e mais uma vez minha língua
foi lenta comparada ao sentimento
é isso que a mentecapta não capta
é isso que ela não entende
mas sou assim e nada me surpreende
sentir é coisa silenciada no pensamento
e o que em mim parece ser inacabado
é que é verdadeiro é que é inteiro
se eu só pensei em falar e não falei
só de pensar já está falado
resumidamente está dito
não detalho não repito
estou mudado
vejo pelo espelho retrovisor
do veículo da existência
o passado passando
as ruelas vagando
fico para trás
tão longe
lá onde
eu fui
seu
eu
e
palavrolhos
foi só abrir o dicionário
as palavras saltaram todas
e entraram por meus olhos
que agora não só vêem
como descrevem
poesia à vista
as manhãs
ei, poeta, escreva aí
um poema que celebre a manhã
mas antes não durma
não experimente a sensação de acordar
os primeiros raios do sol não valem
nem o alarido de pássaros matinais
escreva a partir da memória de ontem
quando amanheceste sonolento
e não pensavas em escrever sobre
as manhãs são todas iguais, poeta,
somente aos teus olhos elas se renovam
as paisagens amanhecem a partir delas
descreva a manhã de um dia perdido
baixo acústico
a corda esticada
solta um som
um som que acorda
precipite-se no caos
uma sombra mergulhou no vazio
o abismo se fez mais fundo e sombrio
parece até sem-fim mas tem sim
cai nele e vem para perto de mim
estou aqui não pergunte porque vim
Gyn
resido numa cidade ainda desconhecida
no coração do cerrado ela floresceu
aguardava por mim com suas tardes
sou naturalista para entender seu mormaço
o calor de seus dias entorna-me o suor
ela se distrai comigo ainda perdido
eu a interpreto iludido com sua luz
ela é clara clara em demasia clareira
minha vida a habita ela me povoa voa oa
cheguei até aqui atravessei o paranaíba
a nado sem nada nadando de braçadas
acho que ri acho que chora
cachoeira é despenhadeiro com água
depois da queda a água já fez bonito
cai deitada e segue o rio em seu rito
seu murmúrio é só um burburinho
água é água em seu líquido caminho
pensamento
não há como repensar o impensado
sem dó
bem-me-quer
é apenas a pétala
que teus dedos arrancaram
antes de uma malmequer
não adianta eu te querer bem
se mal sabes o que te dou
por exemplo essa flor
que tu sem dó desfolhou
signos
sou de Peixes
até debaixo d’água
e ela Escorpião
mesmo num círculo de fogo
sou um poeta
sem açúcar e sem afeto
ninguém me chama
João Cabral de Mello Neto
em bom português
versinho versinho meu
se eu te der uma musa
faz ela casar com eu?
menst
não deve ser fácil ser mulher
guardar enxovaizinhos vida afora
e ficar colecionando dias nos meses
como marcas de purificação da natureza
mais feminina que tudo nesse mundo
sangra muito e comumente até dói
mas ela sabe que não sou de importar com isso
e nesses tempos aflora a vermelha paixão
de amor dor urgência prazer e tesão
a recompensa plena no cio
ela delícia e eu me delicio
pensares
pensamentos e pensamentos
casa habitada por memórias
todos em volta da mesa
as falas nítidas de pai
o olhar sereno de mãe
as irmãs fazendo tranças nas bonecas
e eu com o olhar perdido
pensando longe como sempre
tudo faz falta quando se é assim
nada é completo e nem se completa
eu ali ausente demais
perdido entre vozes e movimentos
mamãe serve um pedaço de bolo
eu o como em pensamentos
está anoitecendo
a lua é dona de si
já já estará na hora de dormir
vou deitar-me com meus pensares
sonhar que estou pensando
ou pensar que estou sonhando
Tratado
Será que
nunca verei o coração de um mosquito?
Deus é tão perfeito mas tão perfeito que vê-lo seria
afear sua existência
Quando ficar grande quero crescer bastante e ser bem mais maior
Leio o jornal de cabeça pra baixo o mundo está virado mesmo
A pressão sanguínea da flor está baixa por isso essa taquicardia
Se eu soubesse de onde vem a brisa mandava alargar a passagem
Um dia mamãe me bateu tão forte que a surra até hoje dói na memória
Quer me dar um motivo para deixar-te? Penteie esses cabelos pra ver
Falo com árvores sim e elas me respondem com folhas-palavras
Um pássaro fez um ninho na minha cabeça. Nessa ocasião virei estátua
Pensa pra falar pois quem não pensa pra falar não fala
o que não pensa
Andorinha no fio escutou uma conversa telefônica. Fez verão
Uma traça devorou sozinha um livro de Balzac. Tinha
mais de trinta
Quando chove até as águas dos rios ficam molhadas
Só subo em árvores que não dão frutos. Ai preguiça de colher
A flor-da-noite começa a cheirar às três e dezoito da tarde
O dia já estava longe quando o alcancei pra desejar boa noite
Estou na idade de aprender a falar paralelepípedo sem engasgar
o publicitário
não assista
cenas dos meus próximos capítulos
que minha vida só tem plim-plim
25 de
outubro
Mestre Oswald
disse que aprendeu com seu filho de dez anos
que a poesia é a descoberta
das coisas que nunca viu
E eu aprendi
com minha avó de noventa e dois anos
que a poesia é a revelação
das coisas que não se vê porque não existem
negócio de ocasião
troco meu computador
por um lápis
com ponta
sensualidade
sensualidade é você me mostrar
seus dedos cheios de anéis
seus pés em sandalinha baixinha
o piercing no mamilo esquerdo
a tatuagem na virilha
e este seu molar de ouro
canção do abílio
minha terra tem sibipirunas
onde os pardais fazem ninho
aqui nem pardais têm
e quando aparecem são tímidos
minha terra tem seus campos
maracanã mineirão morumbi
além dos irmãos augusto e haroldo
minha terra tem mais hectares
lá tem um vulcão extinto
querendo o orgasmo da erupção
não permito que Deus morra
sem antes ir lá visitar
não permito que Deus morra
sem que vá à minha terra
depois de lá haver visitado
Deus lá quererá ser enterrado
duas vidas
de certa feita fui o alvo do atirador de facas
da primeira vez ele me acertou uma bem aqui ó
no coração
já da segunda uma afiada lâmina embainhou-se
bem no meio da testa
esconderijo
do oiapoque ao chuí
pensando em ti
chegando aqui me esqueci
só aqui
aqui onde?
aqui
onde meu coração de ti se esconde
troca
o pássaro beija-flor
beija a flor-pássaro
Campestres
Soubesse eu
os nomes de todos os passarinhos
certamente saberia os de todas as flores do cerrado
Mas conheço por exemplo o papa-capim
e a deliciosa mama-cadela
Como se parecem contigo
O
jardineirinho
Dizem que
vivo de arrancar ervas daninhas
Mas sou um colhedor de trevos
Cato também pequenas samambaias no lodo
Penso ser um poeta de parcos recursos verbais
Quero dizer, meus pensamentos são mais nobres
do que tudo o que sai de dentro de mim
não sei se do coração ou da cabeça
Leio Mozart ouço Shakeaspere
Quando entro num bar e peço água
todos acham ser este o jeito mais crucial
de matar a sede que em todos é insaciável
mas que contento muito bem sem agonia
Sinto que está chegando a hora de regar jardins
Oswadiando
hotel classe a
só para quem anda com finanças bonanças
comi bem, meu bem
papei, papai, mamei, mamãe
os pedidos atendidos no quarto
ela toda hora me chamando de meu gato
no quilo me achei no direito de um ronronar
com muitos e variados beijos
e todas aquelas coisas loucas de amor
tardo
não falo de estrelas
mas do excesso de noite em mim
noite de silêncios
em que uma intransponível linha imaginária
me separa de minha Roseclair
nunca amanhecerei
a Lua está grávida
transou com o Sol
sem usar camisinha de Vênus
macros e microgametas
fecundantes nos planetas
deus é o autor de mim
de onde deduz-se que deus
perdeu tempo com algumas
coisinhas
)agora
dei
para
ficar
inventando
com
a
criação
de
deus(
cena
lá está o velho Rimbaud
sozinho dentro do barco no meio do lago
lendo o inédito livro de um jovem poeta
sob sol quente abriu uma sombrinha azul
e à medida que lê rasga um a um os poemas em pedacinhos
minúsculos só com letras sílabas quando muito uma palavra
e joga na água para alimentar os peixes
aquele é o original o livro inédito tem uma única cópia
se eu quiser reaver meus versos terei que pescá-los
e montar o grande quebra-cabeça de minha criação
cardumes letrados comem pelas mãos do
bardo Rimbaud
aquela ração poética que já não me nutre e nem pertence mais
com filtro
e-mail de nicotina para alcatrão:
tem um maço de dias que eu não fumo
Tirésias,
o vidente de Tebas
só ver o breu é estar cego
depois de contemplá-la tomando banho ela o cegou
e lhe deu o dom da profecia
não é verdade que ela o tornara em uma mulher
para depois torná-lo homem novamente
e ainda que tivesse isso acontecido
se o rei e a rainha dos deuses lhe perguntassem
sobre em qual dos sexos teve mais prazer no amor
contrariaria o mito respondendo que enquanto homem
então não precisaria ter prazer por nove vezes
para se igualar ao incomparável prazer dela como mulher
que somente com ele ela alcançou
e sua fúria não o cegaria de novo
pois como tirar a visão de quem nada vê?
e sua vida longa é um interminável caminhar no escuro
fluido
mergulho na beleza
sou um peixe deslumbrar
as águas e suas faces
como vitrais
ou cristais
encontrada na praia uma garrafa
dentro dela uma mensagem
ele não tem mais nada negro amor
bob
poética líquida
muita água sobre minha cabeça e não é chuva
uma nau à deriva no espaço sem âncora
errante navega no ar pelas marés invisíveis
cá embaixo observo a movimentação elevada
um lago sobre mim ou um mar não sei
as gotículas feitas de palavras
ondas poéticas esfacelam o barco
a água desaba sobre mim
estou molhado em versos
Estou
usando aquela camisa de vento
Calçando meu sapato de nuvens
Vestindo a velha calça de água
Só esqueci de pôr a cueca de brisa
Justo hoje que meu sol está quente
das mil dúvidas outras mil dúvidas e mais mil dúvidas
dessas três mil dúvidas outras mil dúvidas a mais
e entre as quatro mil dúvidas apenas essa
de que a dúvida possa se multiplicar
e chegar a tanto
Estige
Atravessarei
a nado o rio do Inferno
não, não existe
foi apenas pensado
uma idéia de praia sem mar
de mar sem terra
de terra sem ar
de ar sem vida
de vida sem fim
brotando do pensamento
concluída na imaginação
do quase impossível
imensidão
atropelei uma estrela anã
em minha correria entre constelações
agora sou um viajante visado no firmamento
Canto
Ouça essa ária silenciosa
O sol, regente do improvável
está mais perto que longe
O dia é azul com fundo branco
(A força do branco atrai radiações
e se torna síntese das cores)
Diluo-me até o fim da tarde
entre a ária que só eu ouço
e essa cor pálida ao fundo