PRÉVIA ALLOCUTÓRIA & LAUDATÓRIA

Para maior glória da despretensiosa poesia dita marginal
e admiração do mundo municipal,
quiçá (queira Deus!) estadual, federal e mundial via virtual internetical,
justo é que se publique pela Grande Rede estes textos nesta página,
que será assim uma espécie de "Diário de um bardo a bordo da nau Rompe-Nuvem",
que pretende fazer público o audacioso corajoso e desconhecido
Flavius Josephus de Almeida,
filho das Minnas Geraes, ora na capital de Goyáz, no planalto central
- com todas as licenças necessárias -
não só porque não contém coisa em que se possa temer,
que a fé perigue e os bons costumes pervertam,
mas porque sua lição é deleitável pelo discreto estilo e elevada pena
e porque será um clarim da fama,
que fará estremecer o universo assombrado da generosa piedade
e pródiga magnificência dos amados leitores.
Ressalve-se, no entanto, que este autor se julga um escritor em primeira dentição,
ainda no frescor de sua imaturidade autoral.
O melhor, segundo ele, está por vir.
Entende-se, porém, que escritos assim, saindo em fluxo turbinado
da cabeça e mãos, e nem tanto, ao que nitidamente parece, do coração,
merecem vir à luz, carecendo, ainda mais,
da benevolência de vossos ávidos olhos,
levando-se em consideração esta alma afligida,
que vivendo a antropofagia de suas idéias chegou até aqui,
quase ou meio são & salvo a léguas de centímetros do alvo,
manobrando solitário sua nau contra vento traquete.
O Qualificador do Santo Ofício Poético,
Frei Antônio de Santa Maria da Sagrada Família,
do Convento da Boa Hora dos Patriarchas Agostinhos Descalços,
Dies Veneris XXIV Januarius MMIII.
 
versinhos da série
pequeninos como quê

 

 

Número 1

 

coração cansou
do pouco caso
que lhe causou
o seu sorriso
(não rimou)
mas o riso
foi de arraso




Número 2

 

no sentido
está o sentir
de pressentir
o pretendido
de consentir
o tido
no havido
a vida
é ida

 

 




Número 3

 

havia
quando a via
como não mais
a vejo
já não há
vivo em paz
pois sem desejo
não dá
ela lá
eu cá



Número 4

 

se alguém
me encontrar
por aí
diga que estou
aqui

parti
sem me despedir
enquanto fui
preferi não ir




Número 5

 

chega de saudade
que essa fossa
tão nossa
é só bossa novidade

 


Número 6

 

a senhorita
anda sem tempo

imagine
quando chegar seu tempo
de senhora


 

Número 7

 

passado
assado
do
presente
sente
se
futuro
tu
o



Número 8

tendo amor
ame
sendo amada

tendo amada
ame
sendo amor

tendo
ame
ame
sendo


Número 9

 

estrangeira

viajando em teus beijos
(a)prendi tua língua



Número 10

 

A B
(C CAIU)
A B
i
s
m
o



Número 11

 

paisagem

jogou verde
colheu azul

mar
e
céu


burrinha

eu a elogiei com palavras difíceis
e como você não conhecia os sinônimos
achou que eu a estava ofendendo

não lhe peço desculpas

mas assim que puder
lhe envio um dicionário




não é não

na era da informática
e quanta desinformação

eu disse sim
ela entendeu não

 

um repente
(q não é autobiográfico)

sou repentino
o menino de uma só asa
venho de mim
enfim sou minha casa

tenho a luz
q desenha a sombra
brinco de ser
assim como sou

confesso a tristeza
q trago nos olhos
já fui tão distante
mas nunca tardei

sou dor e brisa
no sol de cada raio
afugento as feras
com meu grito inesperado

sou repentino
o menino sem a outra asa
venho de mim
a solidão mora lá em casa



especialmente hoje

hoje não tem pic nic
(meu nick se confessa sem pique)

nada de passatempo
(ah, como o tempo passa...)

a desatenção poética de quem acordou triste só não é menor que essa sombra, vê

tenho agido por descuido e é nítido em meus olhos que meu coração é descuidado (ou será mal cuidado?)

a irreflexão de escrever por fluxo fluxo fluxo o que vem vai o que sai cai na rede dos buscadores virtuais de entrelinhas (você, amiga, por exemplo, ao tentar me entender, justo você que nem me conhece, nem sabe meu nome e jamais verá uma lágrima minha)

talvez seja por inadvertência de um aluno que a vida jamais conseguirá uniformizar e dar objetos didáticos pois sou anti-anti-eu naquilo que se refere a mim

alheamento da floresta, diria o poeta amador que ama tão profissionalmente que chega a amar o amor como um profissional que mente pessoalmente e em pessoa se consente

abstração do abstrato abstração do abstrato abstração do abstrato eu sou o abstrato da abstração

divertimento é artigo de lux

recreação
se tem merenda oba! que meu blog seja deglutido por vorazes leitoras famintas senhoras & senhoritas insaciáveis são todas as mulheres há hormônios femininos em todos os alimentos consumidos

entretenimento é a palavra final
hoje essa página talvez não lhes dê esse privilégio o sol amanheceu sem sal eu sei eu sou eu sim azul só sul

como sempre um jogo, palavras
eu me submeto ao capricho dessas deusas
venham
fiquem
sejam
vãs

 

olha o trem

eu sou do tipo q não conquista ninguém
vivo o momento a mais completa solidão
estou a fim de entrar numas de cantar
porq cantando sou mais forte sou mais eu
você q me ouve o q houve com você?
construir castelos amarelos de luar
o centro do mundo está dentro do prazer
quem viver verá o q não há mas há de haver
fere o indiferente mas a gente chega lá
seja o q não haja o q deseja e sabe ser
se ando sozinho nem eu sei pra onde vou
mas acabo indo sempre chego aqui estou
nesse vai-e-vem quem nunca foi jamais chegou
você q me ouve o q houve com você?
quem pensa q sabe mais carece de aprender
a sua pergunta é a resposta q eu dei
quem gosta de pouco se contenta com o q tem
um deus-nos-acuda deus lhe pague e passe bem
não fiq parada sai da linha olha o trem
olha o trem olha o trem olha o trem olha o trem



quem ama o feio

quem ama o feio
bonito não lhe aparece

quem ama o feio
bonito lhe parece óbvio

quem ama o feio
pode ser ruim de gosto

quem ama o feio
não teme assombração

quem ama o feio
não liga para cirurgião plástico

quem ama o feio
não vai a concurso de miss

quem ama o feio
carece de me conhecer

 

em terra de rei quem tem um olho é cego

em terra de cego quem tem um olho tem ego
em terra de cego quem tem um olho é considerado homem de muita visão
em terra de cego o governo é amarrado por nós cegos
em terra de cego quem não sabe braille é analfabeto
em terra de cego quem tem um olho costuma usar lupa
em terra de cego quem tem um olho pode ser ciclope
em terra de cego não tem arco-íris
em terra de cego quem tem um olho fecha-o
em terra de cego quem é surdo e mudo deve ser muito infeliz
em terra de cego ninguém acredita em amor à primeira vista
em terra de cego quem tem um olho é testemunha ocular
em terra de cego não tem microscópio
em terra de cego ninguém está no olho da rua
em terra de cego não tem olho gordo
em terra de cego ninguém vende à vista
em terra de cego ninguém elogiará tuas sobrancelhas e teus cílios
em terra de cego quem tem um olho não fura os olhos dos outros
em terra de cego quem tem um olho é míope
em terra de cego quem tem um olho é rei caolho
em terra de cego quem tem um olho evita cisco
em terra de cego não tem São Tomé
em terra de cego o que engorda o boi não é o olho do dono
em terra de cego não tem bode expiatório
em terra de cego a espada da justiça balança
em terra de cego as paredes têm ouvidos
em terra de cego quem tem um olho não vê os dois lados da questão
em terra de cego quem tem um olho deixa o rei nu
em terra de cego quem tem um olho não vê o rei



imaginação fértil

encontrei Karl Marx vestindo calça Lee
conversando com Trotski
que bebia uma Coca-Cola

foi quando chegou Stálin
em sua Mercedes conversível

os três iam se encontrar com Engels
na sede do FMI

 

não sei filho

pai,
por que que rico
nunca tem tempo
e vive dizendo
que tempo é dinheiro?

 

sex- symbol

Ava Lavínia Gardner
a tantos inspirou
até que morreu

ave
ó musa
de museu



tia zoquinha

o sonho de tia zoquinha
era estudar medicina
queria ser médica cirurgiã
infelizmente não deu
tia zoquinha fez o curso de corte e costura



fim próximo

viver está
pela hora
da morte

mas também
não precisa
encomendar
o funeral



deus analfa
(sr., perdão)

se na hora de criar o mundo
se em vez de verbalizar
deus escrevesse o "haja luz"
e sua atroz divina dúvida
ficasse entre haja e aja
se luz não houvesse
a luz não agiria
e talvez deus desistisse
e o mundo não criaria
entre o haver e o agir
o mundo nem existiria
mas deus preferiu falar
e jamais escreveria
deus quis e luz houve
deus agiu como devia
o mundo taí clarinho
nele há o que não havia
só depois de criado tudo
deus ao mundo se dirigiria
escrevendo poucas linhas
com sábia e santa sabedoria
"quero minha criação halegre
na mais completa armonia
o mundo criado hontem
é de vocês oje em dia
ó filhos amados meus
fiquem na pas de deuz"



oras rosa

uma rosa
é uma asor
é uma roas
é uma saor
oras



o paulo leminsky

o paulo leminsky parou de fumar
o paulo leminsky parou de beber
o paulo leminsky parou de falar
o paulo leminsky parou de escrever
o paulo leminsky parou de parar
o paulo leminsky parou de correr
o paulo leminsky parou de criar
o paulo leminsky parou de meter
o paulo leminsky parou de inventar
o paulo leminsky inventou de morrer

 

a paisagem

a paisagem um quadro sem moldura

 

rio

é claro que sabes
o tanto e quanto chorei
só não fazes idéia
do que com isso sequei:
o nosso rio sem margens
o nosso rio sem margens

 

fuga

queres fugir? então fuja
jamais te encontrarei
pois não vou te procurar

eis que tu te sentirás
perdidamente abandonada
escondendo-se
magoada
ferida
sozinha

fugindo de mim que já não tinhas

 

Rodízio

Ó desilusão de boi noutro campo.
Olhos perdidos ruminam pastagens imaginárias.
Rumo ao matadouro. O pressentimento da dor final.
A faca afiada do magarefe. O golpe fatal. Sangue esguicha.
O uivo revoltado do animal já quase inanimado.
Depois do berro, o bruto mapeado e fatiado.
Cupim. Costela. Picanha. Maminha. Alcatra.
Filé. Contra-filé. Fraldinha. Língua. Coração.
O destino bovino é a suculência de sua carne.
Apenas mais um. Mas não era um boi anônimo.
Lá se foi o velho Rodízio.

 

gordinha mineira
(quebrando o regime)

não sou de ferro
vou sair dos trilhos
quero comer um trem
uma pizza quatro estações

 

depois de morto, o anjo torto
p/ mestre drummond e seu anjinho

estranho amor é esse
que você está vendo:
ele lá, junto ao jazigo,
escrevendo ou lendo

depois que fez a leitura
de “Carlos, sossegue”
ele só segue Carlos
e loucamente o procura

sua família lhe deu asas
e nem se preocupa com
sua vida é reverenciar
à memória de drummond

na vastidão do cemitério
ali de tudo fica um pouco
versejam já sem palavras
o poeta morto e um louco

para ele não é loucura
- o silêncio é poesia pura -
ficar sossegado com Carlos
telúrico em sua sepultura

a inspiração é inefável
vozes vão se sublimando
ele é apenas o anjo torto
de um gauche dormitando

o velho anjo de sempre
soube chegar ao cúmulo
de redizer “vai, Carlos,
ser eterno num túmulo”



conjugal

o difícil
não é conjugar
o verbo casar
como transitivo direto
ou indireto
mas sim
no pretérito imperfeito
do indicativo

 

atirar o pau no gates
(outra a la drummondiana)

cara, relaxe,
o windows é isso que você está vendo:
hoje crefa
amanhã trava
depois de amanhã é quinta
e na sexta vai ser impossível
achar o mister bill gates

inútil você reiniciar
ou mesmo desligar
não se encane, ó não se grile
é melhor formatar a máquina
encare um download de frente
e pode até ser um vírus
que o northon desnorteado
ou talvez desatualizado
não conseguiu vacinar

o windows, cara,
você pirateia, enxerta na placa mãe
sem nem saber com quantos bitmatozóides
se faz a porra do winchester
e esquece que se a maicro é soft
o seu micruzinho é bem light

cara, pode crer,
vou desengavetar a máquina de escrever
mas se eu encontrar o tal do bill gates,
cara, do mesmo jeito que o windows deu pau
atirarei o pau no gates e o pau vai comer

 

ladainha da blogirl

santa internet
blogai por nós
santa microsoft
blogai por nós
santa web
blogai por nós
são blogger
blogai por nós
santa explorer
blogai por nós
são script
blogai por nós
santa pyra
blogai por nós
são postpublish
blogai por nós
santa telefônica
blogai por nós
são outlook
blogai por nós
são link
blogai por nós
são e-mail
blogai por nós
são http
blogai por nós
são html
blogai por nós
santa www
blogai por nós
são template
blogai por nós
santa arrob@
blogai por nós
são hardware
blogai por nós
são software
blogai por nós
são modem
blogai por nós
são provedor
blogai por nós
são chat
blogai por nós
são browser
blogai por nós
são site
blogai por nós
santa apple
blogai por nós
são macintosh
blogai por nós
são ftp
blogai por nós
santa homepage
blogai por nós
são comment
blogai por nós

rompe nuvens virtuais
no céu no céu com minha mãe internetarei
agora e em toda hora de nossa vida
amém
 
Ah!mor
Fui rimar amor com flor
a flor era uma rosa
e rosa é flor perigosa
murcha à-toa a melindrosa
- me espinhei

Fui rimar amor com dor
a dor era dourada
da cor de uma jazida
preciosa mais que a vida
- eu adorei

Fui rimar amor com amor
ficou pobre minha rima
jogaram ódio em cima
deitaram mágoa na mina
- desamei

Fui rimar amor comigo
fiquei falando sozinho
hoje nem falar consigo
só olho pro meu umbigo
- silenciei

Fui rimar amor com sonho
delirei um pesadelo
chorei diante do espelho
fiz a Deus o meu apelo
- acordei

Amor não rima com flor
Amor não rima com dor
Amor não rima com amor
Amor não rima comigo
Amor é apenas um sonho

Flor é rima popular
dor é rima a mais vulgar
amor dá o que falar
comigo é bom não contar
sem amor não sei sonhar

 




A vida é tão linda
Há um abismo
e não cismo em dizer
uma ponte
mas não conte que há outro lado
A margem de lá
A ribanceira sem beira
eira eira eira...

Há um precipício
e o princípio de queda livre
O salto vital
A volta por cima
A ida e a vinda
A vida é tão linda
tão linda que finda

Há um fundo
para quem voa em vão
para quem vai saltar
para quem vai soltar
a imaginação
abrir as asas sobre o nada
o nada de toda amplidão

Há um abismo
e não cismo em dizer
O
salto vital
A volta por cima
para quem vai saltar
para quem vai se soltar
A vida é tão linda

A margem de lá
A beira sem eira
Há um fundo
para quem voa em vão
Abrir
as asas sobre o nada
a vida é tão linda
o nada de toda imensidão


 

O rio flui
água do que fui
liquedejantemente
seu plasma
miasma
amálgama
alma
de água corrente
que água parada
nada contém




 

Quem você pensa que é?
Gritou em várias línguas
cantou todas as delícias
falou de suas mágoas
fêz inúmeras mágicas
sentiu-se indelével
às vezes foi instável
mas conteve seu rítmo
fazendo-se de tímido
Quem você pensa que é?
Com quem você pensa que está falando?

Dormiu em pontes aéreas
visitou muitos países
conheceu tribos indígenas
esteve com alienígenas
libertou-se de presídios
esclareceu suas dúvidas
estendeu ao sol sua túnica
foi o primeiro dos últimos
Quem você pensa que é?
Com quem você pensa que está falando?

Subtraiu seus códigos
escreveu vários relatórios
abriu o baú da memória
e relatou sua história
pensou em marcar época
xingou a mãe do árbitro
confundiu flash e relâmpago
bateu chapa com o fotógrafo
Quem você pensa que é?
Com quem você pensa que está falando?

Transou um amor homérico
rezou rezas ao santíssimo
misturou pavor e pânico
fingiu ter um lado cênico
mostrou o quanto era cínico
e como não tinha domicílio
a ninguém pediu auxílio
pois vivia em seu exílio
Quem você pensa que é?
Com quem você pensa que está falando?

 


 

MARIA (À moda Drummondiana)
E agora, Maria?
A festa começou,
a luz acendeu,
o povo apareceu,
a noite chegou,
e agora, Maria?
E agora, você?
que vai com as outras,
que cheira a gasolina,
você que é prosa,
que às vezes se empolga,
que odeia, se anula,
sem medir sua gula?
E agora, Maria?
Está sem homem,
está sem palavra
e sem roupa íntima,
já não pode beijar,
já não pode querer,
poder já não pode,
a noite é um bode,
a coisa não veio,
o trem não veio,
o negócio não veio,
o troço, não
e nem o treco,
não deu nada na veia
muito menos na teia
e tudo parou
e tudo seguiu
e tudo sangrou
e tudo manchou,
e agora, Maria?
E agora, Maria?
sua língua está presa,
seu corpo está trêmulo,
sua sede tem fome,
que vontade que dá,
que agonia tamanha,
seu vestido curtinho,
seu jeito febril,
sua doçura
sua cabeça dura - e agora?
Com medo de tudo
quer sair correndo,
não existe saída,
e cadê suas pernas?
Quer varar a noite,
mas a noite dormiu;
quer seguir cantando,
mas caminha chorando.
E nenhuma cantada,
e nada de nada de nada.
Maria, e agora?

Se você ficasse,
se você partisse,
se você tentasse
por mais um dia,
se você parasse
se você quisesse...
Mas você não quer,
você é foda, Maria!
Sorrindo sem graça
qual louca de lua,
sem melancolia,
sem roupa no corpo
pela noite que esfria,
sem José que queira
sua ganância inteira
de cadela perdigueira,
você vaga, Maria!
Maria, quem diria
que mulher assim,
tão senhora de si,
tão louca e a fim
não tivesse primazia?


 
amaro da purificação
amor
porquanto minha tristeza te seduz
ela me reduz a teu sem nunca alegria
alergia de sol ojeriza à lua vai saber
um nada a ver num mundo sem mim
que por fim estou aqui e estou nem aí
pois perdi a força ante o negativo ímã
pondo rima em cima da geladeirinha
que nem é minha a casaca do pingüim
sei que vim para encarar teu rosto
chamei de mau agosto o que vi
de mau posto mau fosco mau tosco

amor
conquanto meu abraço te arromba
a gente se tromba no dorso do elefante
um diante do outro na selva urbana
tão bacana te saber a fim de atar-me
na catarse de sangria desatadíssima
ó santíssima diabinha que de eu zomba
na tromba do elefante tem sugação
não e não e não te devoro vegetariano
que se me dano sou carnívoro canibal
te como sem sal em fast fode de momo
eu tomo uma pepsicoca nesse carnaval

 
 
Apollinaire
entre A e B
Apollinaire e
Baudelaire
nada há de
aire[Do esp. aire.]
S. m. Bras. 1. Coisa vã.

muito ar
pra se respirar

mas monsieur Apollinaire
que viveu a arte
de forma absoluta
surrealisticamente
respirou e morreu
de gripe espanhola




Charles B
as flores do mal
contêm pétalas do bem-
me-quer
no ajardinado
poetar
de Baudelaire

l'art pour l'art
a dor faz parte


 
interfere
dentro ter feridas
te ferir
sentir-me ferido
por ti
com ferro conferindo
fere a interferência
no que difere
até no indeferir
nos ferimentos
não cicatrizados
no resistir
existir
exit
it

 
esperando-te
um lugar ao sol
camuflado de imensa luz
um lugar ao sol na praia
banhado em mar azul sem par
um lugar ao sol na praia com sombrinha
esperando por ti que estás vindo a nado da Europa
um lugar ao sol na praia com sombrinha comendo moqueca de camarão
quando chegares verás que se morreres na areia serás dela mais um grão



.: Amor sem eira nem beira :.

Te amo silenciosamente às vezes
– para ser exato o ano todo os doze meses
Te amo calmamente de vez em quando
– precisamente se estou em fogo brando
Te amo com benevolência volta e meia
– na medida em que pega na veia
Te amo com dificuldade ocasionalmente
– confuso entre coração e mente
Te amo fragilizado em certas fases
– com curtas e grossas frases
Te amo sofrendo normalmente
– sem saber o que acontece com a gente
Te amo perdidamente quando posso
– pois nosso sonho já não é tão nosso
Te amo com aprofundamento quando dá
– quando queres saber o que é e o que há
Te amo com raiva acidentalmente
– se me feres a alma impiedosamente
Te amo saudável e tranqüilo casualmente
– querendo curar nosso amor dormente
Te amo feito bobo e de jeito fortuito
– e quando é assim não é outro meu intuito
Te amo com lealdade de modo freqüente
– que meu amor se doa a ti fielmente
Te amo sinceramente faça chuva ou faça sol
– e em peito se pode ouvir o canto de um rouxinol
Te amo com fome e sede se dá na telha
– qual pólen virando mel para uma trabalhadeira abelha
Te amo com sacanagens se estou a fim
– sem me importar se o colchão é de espuma ou de capim
Te amo como briguento se a vontade bate
– depende da maneira de como conduzes o embate
Te amo apaixonado e teu eternamente
– numa loucura que deixa Deus pirado inexplicavelmente
 
dígono
digressão
não diga não
e não diga
não
(diguice)

faleci
fale sim sim
fale sim
fale
(falhanço)

 

 

credo
recreio em Marataízes no ES
na tantã grei caótica
na confusão dos tantos
na permissão dos recados
na suspeição da córnea
na ida terna
ah nem

 
semaninha
a segunda nasceu na terça
foi batizada na quarta
ficou mocinha na quinta
se casou na sexta
se enviuvou no sábado
chove todo domingo
e assim se emanou
em sete luas meninas
e sete meninos sóis
 
quando ando
quando respiro piro
qdo namoro moro
qdo consinto sinto
qdo consigo sigo
qdo divago vago
qdo reajo ajo
qdo desespero espero
qdo desprezo prezo
qdo admito mito
qdo aprofundo fundo
qdo influo fluo
quando consumo sumo

qdo faminto minto
qdo apaixonado nado
qdo influencio cio
qdo revivo vivo
qdo posso osso
qdo aconchego chego
qdo desabafo bafo
qdo desfaço faço
qdo recompenso penso
qdo especifico fico
qdo sentencio cio
quando determino termino

qdo amar mar
qdo esquecer ser
qdo puder der
qdo valer ler
qdo reviver ver
qdo separar ar
qdo admoestar estar
qdo resolver solver
qdo acasalar lar
qdo definir ir
qdo resolver ver
quando senão não

qdo decorar orar
qdo barganhar ganhar
qdo preferir rir
qdo suspender pender
qdo desnudar dar
qdo revelar velar
qdo sossegar cegar
qdo acreditar ditar
qdo construir ruir
qdo escolher colher
qdo formatar atar
quando enfim fim

 
agudo
oh Janis
cala a boca
cry baby
sua louca
maybe

oh Janis
tua garganta
essa rouquidão
não grite
consigo

sou viciado em ti
e agora és pó
mas cansar jamais
de ser escravo de Jo
plin

 
cuidado com as palavras
a página em branco se oferece
então bate a tentação da escrita
foi assim em composição infantil
e depois já no tempo da redação
sem mais nem menos eis o texto
mas ó não brinque com palavras
ou antes deixe em paz as letras
que isso pode acabar em frases
daí para o parágrafo é um pulo
a seguir vem um capítulo inteiro
com tantas imagens metafóricas
que até a introdução se esquece
as margens nem servem de limite
introdução linguagem maiúsculas
minúsculas títulos seções trechos
e literalmente expressões citações
tópicos estilo seqüência conteúdo
concisão clareza desenvolvimento
espaços conclusão notas de rodapé
escrever é mais que sinais gráficos
também não é só a tradução da fala
escrever é diferente de falar é mais
a escrita tem suas próprias regras
a ortografia depende da pontuação
que em concordância deverá estar
com o uso de contratempos verbais
pronto enfim pariu a obra deu a luz
extensa síntese desta publicação
que se chamares isto de poema
logo dirás que sou um poeta purista
só rimo à míngua a pátria da língua
 
posfácio
onde os dias de todos os dias
não se repetem horas após horas

onde o sol escancara largo sorriso
com raios incisivos nos maxilares

onde uma estranheza de ontens
torna oca a visão d’olhos inexistentes

onde as flores abruptas do silêncio
delirantes dispensam a fotossíntese

ali adormece um homem sem noites
ali o espaço atemporal é o nada no vazio

ao me abandonares com tua ausência
revelas-me nossas diferenças inconciliáveis

estou acordando para namorar a aurora
dei fim ao ciclo de sentimentos intermináveis

 

G e n é r i c a s

primeira
Uma mulher
sem pés
nem cabeça
ainda assim
tem a melhor
parte
segunda
O pé
de vento
calça
sapato
de nuvem
terceira
Ela
é um doce
de pessoa

Mas
sua conversa
é sem sal

quarta
Se
contigo
não tem
grilo
louva-a-deus
quinta
A primeira
separação
deixa marca

o umbigo

sexta
Vende-se
dificuldades

Pagamento
facilitado

sétima
Olho
gordo
pesa?
oitava
Não entendi bulhufas

Aliás
o que é bulhufas?

nona
Se és
incapaz
de imitar
não tente
fazer igual
décima
Existem homens
de bem
e homens que estão
de mal a pior

conta conjunta
ssim é para quem não sabe amar
te dei meu coração
como um cheque em branco
em ti depositei minha vida
o saldo do melhor de mim
podias sacar
não soubeste preencher
nem assinar

peito meu
prisão
de um pobre coração
sem sursis
dentro e nada são
tão desinfeliz

cubículo
de uma alma serena
e nada vale a pena
preso por roubar
a cena

depósito
de oxigênio rarefeito
traficado do nada
ação planejada
um crime perfeito

armazém
varejista de planos
nada no estoque tem
por anos e anos
de perdas e danos

caixa de ressonância
de ai ais
de nada serve a ânsia
e nem mais
tórax e eleganância

cofre para segredos
sem chave
e nada de medos
doces ardumes azedos
ave!

túmulo da vida
em paz eterna
em nada jaz jazida
furada ferrada ferida
funda cisterna

sala de estar
de românticos nós
meio tom de voz
nada mais a falar
teu despeito a peitar

peito meu
graal de sangue e fel
tudo em nada deu
respeito o que é teu
só não me sejas cruel

 
Vaga
Esqueça-me
Não se endoideça
Deslembre de mim como fui:
um eco uma sombra uma miragem
estrela apagada no breu
em tudo eu sem nada meu
Sei vagar no éter da dor
com anestesiado sofrimento

Desapegue-se
Não se entregue
Desfaça a mala de lembranças:
tua nudez mapeada revestida de luz
estrela acesa na claridade
a manhã entardeceu noturna
Vou perder a fome de ti
A saudade engorda e como comi

 

Para quem quer se sentir alguém ou para ti ou ninguém
Seguir sem volta
Ir em frente
Não
há retorno para o que só segue
nem sossego para quem prossegue
Abandonar-se na ida desenfreada
rumo ao acaso ao infinito inatingível
Todos os caminhos se oferecem agora
Cada um com sua direção mão única
Ir seguir adiantar-se num passo apressado
Fugir é andar pensamenteando com a respiração presa
A eterna busca do refúgio é que é o encontro
O trôpego encontro consigo já sem fôlego
Ar para se respirar é o que mais tem
mas o ar que procuras não há
O ar que vivamente te mantém
Nem todo o ar existente dá
para te fazer chegar além
pois tua ansiedade é ir até lá
Como queres te sentir alguém
nem toda esperança perdida está
Se queres habitar a terra de ninguém
a idéia não é de todo má
mas haver nada tem
e o que vier a ter será
Segue em frente e vem
 
amor finado
não-amar com desamor e desalmado
amargurar a dor de se sentir mal-amado
eternizar a aflição de se perceber calado
revolucionar a força do peito já cansado
brigar consigo e morrer na praia afogado
gritar a luz interna do braseiro apagado
celebrar a face oculta do sonho velado
matar a sede de ser em cada dia adiado
soltar o verbo na cama à noite acordado
cantar a brisa aquecida no sopro abafado
buscar tulipas e papoulas em pleno cerrado
trancar segredos amargos no vão do passado
ganhar coragem e seguir o rumo pensado
chegar ao ponto negro do mundo mudado
olhar teus olhos e chorar o pranto orvalhado
pegar tua mão serenada e dizer obrigado
andar sem parar sem chegar mas ao teu lado
matar o futuro com a arma do chumbo trocado
cunhar a ferida fatal e não colher o semeado
plantar dois corpos no chão de campo sagrado
aplainar duas cruzes cravá-las e tudo acabado
lembrar dois amores e se sentir descansado
rezar uma missa profana a um deus enfezado
ficar para sempre sem vida morrido e matado

 
infrutífero amor
teu amor é de sombra, fria e constante
e não advém de árvore, nem de marquise
não sei se provém de fase de lua minguante
ou se vem das encostas em desabado deslize
teu amor é geada em flores toscas de junho
matando o fruto antes da brota primaveril
o danado é vento de areia em redemunho
me naufraga sem apoio em mar alto e hostil
teu amor é uma loucura em forma de mito
ergue pilastras ao profano rei da amargura
suas mágoas são eternas e estão em seu rito
de celebração de sua poderosa irmã loucura
teu amor é um cancro num coração vazio
carcomendo a pulsação de sua fonte vital
teu amor não me amedronta e eu o desafio
para a luta mais sangrenta da batalha final
teu amor estará triturado dentro de mim
e será expelido no esgoto da indiferença
e uma vez dele tendo me livrado enfim
estarei tranqüilo e feliz sem tua presença
teu amor agora só causa pena e dá asco
é o próprio pavor em forma de desespero
se por um lapso nele penso aí me lasco
pois teu amor é em mim louco entrevero
teu amor me alimenta de negatividade
me enerva tanto que perco as estribeiras
um amor doentio que beira a insanidade
sombra e geada a desabar das ribanceiras
teu amor me subtrai toda espontaneidade
e solitário me deixa no Monte das Oliveiras
teu amor não me quer amando de verdade
arranca de meu paraíso macieiras e videiras



ferido de morte
te beijo menos
que ao menos te beijando pouco
não fico louco de pedra
doido de bater com pau
não acordo o pássaro da aurora
que assim ele não voa pelas tardes
atrás da sanidade de descobrir-se leve
enquanto a realidade o faz sentir-se preso

te beijo nada
que de nada vale o beijo na boca gélida
da qual saem palavras de afiado aço
feito espadas cravadas em meus sentimentos
cada uma com sua função dolorosa de podar-me
que já nem sei se me tens inteiramente
que ando tão ferido de morte na alma e persisto
mas sei que de ti – não do amor – logo desisto


 
libertação mútua
te dei linha
tu te soltaste
sozinha voaste
tão alto e para tão longe
te perdi de vista
a distância te conquista
soltei ao vento o carretel
agora estás só ao léu
tens o espaço a amplidão
te libertei para a solidão de tudo
estás solta para a isolação de todo
comigo voavas e te sentias presa
a ciranda de meu vôo te era mansa
querias a imensidão para tua dança
contigo estás e a liberdade te cansa
calmo e comigo minhas asas vou curar
vou curar minhas asas e me soltar
e quem sabe voar para sempre pousar
quero ser e estar tranqüilo sem ti
te libertei para te perderes encontrando-te por aí
e só te dando o infinito
cheguei ao ilimitado de mim
estou bem sem tuas mágoas
fiquei melhor sem teus rancores
mandei tudo para o espaço
joguei tudo para cima
tu e tua egocêntrica auto-estima
aqui estou enfim sobrevivi
foi preciso te dar muita linha
para ver que a vida que contigo tinha
era mais tua - e como a deixavas sozinha
minha vida só agora é finalmente minha

nãosim
não é não?
sim, não é não
não é, não
não, é, não
não é
é não
não
é
não não é sim, não
não é não, sim
sim não é, não
senão
assim
o não
não é não
o não é
não o é
não
sim



santinha
meu poema
dura o tempo
de um olhar
que pisco

mas veja bem
ele também
pode ser
um cisco

santa luzia
a visão leitora
protegei
desse risco

 
conciso
pára
para o fim
basta um
basta um não
não pra mim
é não
basta
basta um sim
ou então
dar um basta
pôr termo
ao que desgasta
e torna enfermo
o coração
cesse a dor
o coração não
acesse
teu desamor
senha inválida
flor esquálida

 

Eliane
Eliane é isto: ducto
condutor de arte
aproxima distâncias
pega na veia
para dar passagem
ao sangue poético
incensa a alma
com oscilações
de luz e ar
e sua única certeza
é eterna dúvida

Eliane é druida
eremita inquieta
acorda o insondável
com idéias talvegues
paixão fogosa
fêmea instruída a dar
com os Peixes n’água
e se molha e se afoga
por mais e mais
ela é carioca ela é
carinhoca

Eliane é sax sex mas
diluída em jazz
e bem batida na bossa
ela é mais que som só
é anti é ágil é útil
dúctil diz-se humana
desanda na contramão
tem contração
prazer em desejar
poeta porreta
goza viver

Eliane pode avoar
então não dorme
a filha da noite
a louca de asas
a maga magana
a mulher foda
elianecúmeno
quer porque quer
metamorfoseia eia!
elétrica eli-aneel
virtual elianet

Eliane lambe beiços
com suas tortas
cigana tacho de cobre
mundana mandona
fulana fula pidona
suas letras entorpecem
sai grogue dela
um maço de cigarras
ela delicicia o cio de si
a poesia a acaricia
ei-la plena em suspiros

Eliane traz à luz
cegos atormentados
um eu um outro um sem
dói nela não estar
e estando vai indo
fugiu da História
a inventiva criadora
gata leoa linda de lua
oh musa toma essa loa
brincas de ser como és
de viés ao invés dona dez

 
Trabalhar trabalhar trabalhar
Sufocar saudades loucas
Conviver com este ar do planalto
seco até a alma
Ah! Goiânia, ponto G do Brasil,
capital de meus suspiros e ais
onde penso a centenas de quilômetros
estou sem estar aqui
pensamento é às vezes angústia
Pensar pensar pensar (em ti)
e trabalhar trabalhar trabalhar
O tempo passa rápido
(mas ainda assim é lento)
a velocidade da angústia
o equilíbrio entre ir e ficar
Quero ir: há braços para os abraços
palpitação/desejos/penso longe longe
pensamento a quilômetros do corpo
corpo homogêneo ao teu - em uníssono
Enquanto
isso: trabalhar trabalhar
Alimento os dias com minha paixão
as noites eu reservo para as estrelas
desta sequidão planaltina
e através delas falo contigo
como lobo atormentado uivando para a lua
não me ouves? Úúúúúú...




Re-fluxo

Nem a mim revelo meus segredos
ou não os traduzi ainda pois decifrá-los
pode ser me devorar com perplexidades
do que eu seja sem saber ou não queira ser

Nem o que fui o já vivido o passado o anterior
nada faz sentido ao meu alheamento desmemoriado

Amnésia conveniente o não-lembrar para esquecer
ou o esquecimento como forma de lembrança arredia
ou se lembra ou se esquece ou se deixa escapar aprisionado
porque ser livre é um conceito que só a paz íntima concretiza
e que silêncios secretos em forma de temor tornam impossível

Segredos são sombras de mim para comigo
que admitindo-os sigilosamente me confidencio
deparo-me com cenas do vivido em imaginação
e aí me confundo crendo imaginar o que de fato vivi
mas a vida em si é o que há de mais recôndito
pois se faz no escuro do útero para ser clarividência
e mistério maior não há que o espaço mínimo ou máximo
entre a cabeça e o coração e o que vai em um e em outro
que ambos são fontes e depositários refúgios e esconderijos

De meus segredos preparo-me para a grande fuga
enquanto minha cabeça pensa no que meu coração sente
e pensando e sentindo mil trilhões de segredos se formam
um a um ocultados de mim mesmo como forma de existir
como meio de me preservar da verdade do que sou e renego
como forma de ser sem saber ou de não saber como acabei sendo
no que vou me tornando com contornos em torno de transtornos sem retorno

Sei que sou e este ser é que se tornou meu único e maior segredo
do qual tenho medo por não me entender existindo com ele
apesar dele contido nele sendo o que sou confuso em sua redoma
porque de meu segredo depende toda minha verdade existencial
e se me exponho a mim corro o risco de jamais confiar no eu poeta
e o poeta que há neste homem sempre foi apesar de não poder ser
já que tudo conspira para que seus sentimentos não se traduzam
e sejam duras sua sensibilidade e sua natureza confessa ao escrever
e este é o segredo que revelado ninguém nessa vida vai querer saber
porque uma coisa é o silêncio surdo da voz e outra é o que acabas de ler
e é mesmo tudo tão confuso que podes ter chegado até aqui sem nada entender


afinal tudo vive em mim
do fim para o próprio fim
em tudo por tudo estou
desde que sei que ser sou
conheço o bem tal e qual
igualmente conheço o mal
o pecado como atitude
não se compara à virtude
tenho noção sobre o certo
e o errado está por perto
tantos por aí que julguei
me julgam à revelia da lei
se nasci para vir ao mundo
morrendo sou mais profundo
experimento soberba alegria
e sofro como jamais sofreria
estou no céu em paz comigo
clamo no inferno meu castigo
na água no fogo no ar enfim
estou em tudo e tudo em mim
e só estando em tudo concluí
que nada sou contudo em ti




encharcada de poesia
almanancial de versos
conta gotas de lirismo
brota do silêncio íntimo
jorra da luz o simples
meus poros inundados
flui em mim palavramor
sou um lago tranqüilo
não um brejo movediço
ser poeta desde o ínicio
não foi não tem sido fácil
e é sempre muito difícil


perdi a fé em ti

de tua sinceridade desconfio
tua verdade é fio sem meada
não creio piamente e não pio
não confiar é o fim da picada

à tua voz os olhos desmentem
tropeças em frases contraditórias
e ainda que tuas palavras tentem
não acredito em tuas histórias

em ti subliminar mensagem
tua verdade perdeu força comigo
fazes da mentira camuflagem
ter fé em ti não mais consigo


 

declaração e ameaça

é bem maior que o céu
quem te amar mais que eu
será louco porque é impossível
eu mais te amo que todos poderão
porque ninguém jamais te amará tanto
não há quem seja capaz de amor desmedido
o amor que de mim tens é o maior que podes ter
e em mim há amor melhor ainda que a outra posso dar
pois não comportas em ti a imensidão desse amor ad infinitum
és confiante demais por saberes que te dedico amor incomensurável
amor assim não receberás de outro mas outra poderá de mim obter maior até
já que te acostumaste a achar a expansão amorosa
uma necessidade só minha para ti
e mal sabes que toda progressão deste amor
requer em teu peito espaço cada vez mais amplo
e és contida demais para suportares a grandeza
do que nem imaginas que está por vir deste amor meu
tens a certeza de que será sempre imenso no entanto já atingiste o limite
do que te satisfaz em ser amada como queres e és
e eu só posso te dizer que a fonte inesgotável do amor
que em mim se multiplica diariamente não encontra em ti suficiente armazenagem
e amor assim não se represa e nem se exclui
correndo o risco de explodir teu coração com megatons de solidão
após seu descontentamento de irrefreável e ininterrupto propagar-se
e como jamais encontrarás amor com tal amplitude te sentirás sem chão
com a ausência deste que te oferto loucamente e que é bem maior que o céu




em inglês
podes ser in
(e não out)
e estares na moda

em latim
podes ser in
e negares algo
a ti ou a outrem

por exemplo
está na moda
te privares da
felicidade

se és assim e de tudo ris
em inglês ou latim
és sim um in
feliz


 

Brasil

olha
que zona
repara
observa vê
aqui nada
funciona
e ninguém sabe
por quê
detona
pt
detona
ou a elite
detona
você


 

ah meu amor
não há mal algum
mas o cérebro é essencial
o sentimento alimenta
mas o que o sustenta
é mental
por isso o cérebro é vital
deverias ter um
não ia te fazer nenhum mal


 

o que sou?
sou inúmeros
milhares de mim
em todos
ou em um
ou em lugar algum
mas sou nenhum
e sou ninguém
e só serei muitos
se for existir e estar
em alguém
em ti por exemplo
meu amor meu bem

 


 

pára
que não vou te dar ouvidos
minha resposta não vais escutar
entre ser ou não ser
não sou e sou
pra quê questionar?


 

 
matei a amizade
a amizade morreu
veio a saudade
a saudade nasceu
cresceu viveu
e sem amor
e saudoso
estou eu


 

 
Letra para uma melodia do mestre Paulinho Machado, 83 anos,
datada de 1985

Os dias que passaram
deixaram emoções.
As ilusões levaram,
ficaram as canções.
Dos sonhos acordei
e acordado vi
que tudo que sonhei
só em sonhos vivi.
As luzes acenderam
nas sombras do passado.
As noites se perderam
comigo acordado.
Os tempos de outrora
agora percebi,
com o passar das horas
até sentiram o que senti.

Eu sei,
tudo mudou,
também mudei.
A primavera era uma flor de espera
que desabrochou.
E assim,
floriu, cheirou
em meu jardim.
A rosa da esperança cultivei,
plantei dentro de mim.

Eu sei,
tudo passou
e eu fiquei.
O perfume é saudade,
flor felicidade
que nunca murchou.
Estou em paz comigo,
em paz com Deus,
em paz com meus irmãos,
os meus amigos hoje sei quem são,
só meus amores eu amei em vão.
Estou em paz comigo,
em paz com Deus,
em paz com meus irmãos,
os meus amigos hoje sei quem são,
só meus amores eu amei em vão.


 

herramos

a jente
não temos
geito


 

ASSIM SIM SENÃO NÃO

estes poemas foram escritos em 1986
1
As flores de papel celofane enfeitam a sala.
Um jarro de porcelana. Uma toalha de linho branco.
Um cruci fixo na parede. A janela aberta.
Entra uma luz transparente e o som de um instrumento
melancolicamente alegre.
Eu sou uma estátua, contemplável.
E a vida é monótona e essas flores não murcham.

 

2
Vejo
que você
me olha
sem
que você
perceba

(eu sei
não tem nada
a ver)

psiu
olhe pra mim
e me veja
olhando
pra você

( vendo?)

 

3
Muitos são os dias num instante de saudade.
Solidão: penso às escuras.
Mas está tão claro, meu amor...
Acho raro dizer isso assim
num tom simples
e natural.

 

4
falo de mim coisas assim
um rio que tenho sem saber
um mar que ofereço sem ter

 

5
Minha mãe tempera a salada.
Rodelas de tomate folhas de alface
o vinagre o azeite o sal.
É assim que seu pai gosta, ela me diz.
O amor satisfaz o gosto.
Meu pai chega do trabalho toma banho janta
anda de um lado pra outro depois vai dormir.
Minha mãe ainda fica na cozinha.
Ensaboando enxaguando enxugando...
Tão esquecida de prazeres.
Tão concentrada em afazeres.

 

6
Sonhou comigo.
A paisagem um quadro sem moldura.
No sonho havia um rio tão grande
atravessando meu destino. E eu era feliz.
A correnteza, as águas desatinadas
inundando minha vida. E eu era feliz.
Pedia auxílio, em vão. As águas revoltadas,
as águas violentas. E exaustas.
Apenas um silêncio. Tudo calmo.
Ela acordou. Eu dormia.

 

7
Como as rainhas são lúcidas,
o que elas querem é sugar meu néctar,
desfrutar um sabor, um aroma,
uma dádiva sublime para sustentar o sonho.
E vão tecer novas tramas,
vão provar o quanto é doce
o açúcar de minha carência.

 

8
Com obstinação cristã,
como quem deseja um reino eterno,
assim eu te procuro e te encontro.
Estás onde vou e vais me seguir
pelo resto de minha vida.
Meu caminho, minha verdade,
minha sombra e meus passos.
O que vem de mim é o que me dás
e o que te dou faz brilhar o teu sorriso,
acende uma luz, aquece o teu corpo.

 

9
Abismo intransponível
entre nós
força invisível
voz inaudível
impossível sonho:
você
e
eu
a sós

 

10
todo dia um eterno repetir-se:
despir-se da roupa
vestir-se de nua
e deixa correr o mel da lua

 

11
A noite caiu
e eu estou
que nem posso
me levantar

Mas baixo astral não
leve como quê
pode-se dizer
pluma

 

12
Não sei o que dizer agora
Depois eu digo depois eu ligo
Eu sei o número
Fique tranquila
Tudo bem comigo
Alô alô
Caiu a ligação

 

13
Não sei o que dizer diante do novo.
A expressão impressa em meu silêncio
se resolve dissolvendo-se em puro espanto.
E calado, procuro definir com os olhos
a quase totalidade de minha incompreensão,
a extremidade do que se faz novamente,
refazendo outras maneiras de ver,
formas de criar e sentir,
até que eu assuma a exatidão de tudo
que em mim existe
e insiste a deslumbrar com seu inventivo encanto.

 

14
Tudo voltará a ser pó. Eis a revelação.
O sopro que nos deu a vida
é de pura fragância, aroma de flores
que já murcharam dentro de mim.
Porque viu que eu era triste e só
me veio a revelação: tudo voltará a ser pó.
A terra de meu corpo, agora sei,
é uma terra inóspita, infértil,
tão estéril quanto a palavra solidão.
Meu corpo se aguça. Minha vontade é sublime.
Quero ser pó.

 

15
Não venha falar do poder divino.
À luz de nossos desejos, tudo é sombra,
tudo é fundo e escuro, tudo é fraqueza.
Ninguém sabe. Eu sei. Eu sou.
Sou de carne e osso, e sustento.
Sou fraco, minha fraqueza é minha fúria.
Minha fraqueza é conhecer o prazer,
desfrutar as alucinações, viagens delirantes,
gritos sufocados, angústia de buscar o momento
para ser muito feliz.
A fraqueza é a força de quem busca.
Ninguém sabe. Eu sei.

 

16
A sensação é profundamente abismal.
Sinto-me além de minha atmosfera,
numa órbita de alucinantes estranhezas,
quando sei não ser o que era e nem sabia
antes do que seria, acaso estar, ocaso sou,
só, dentro da redoma impenetrável, sem ar.
Sufocado, angustia-me tanta angústia.
O silêncio é tormenta atormentando no vazio
ecoando a solidão solitária.
É corpo quando não é - é e não é corpo.
Quase morto, considero-me muito pleno,
num plano de levitação, eu comigo - levemente.

 

17
Eles dirão que eu
como poeta sou extremamente sombrio

Minha poesia um raio de sol
para mim e para todos vocês

 

18
O cheiro da essência, a atração, um convite
e a revoada de pássaros mais íntimos,
pássaros assustados dentro do peito.
Queria conhecer o fundo de teu abismo,
descer, descer, infinitas descidas.
Sempre uma luz, sempre uma sombra,
e voltar a subir, subir, infinitas subidas.
E lá no fundo e no alto sussurrar um segredo,
falar em silêncio ou gritar, não sei, talvez...
Sei que estás plantada
e tuas raízes emaranhadas que me prendem
vivem presas ao meu destino.
Só tenho sossego quando os pássaros pousam.

 

19
O que é poesia? Não sei!
O enigma indecifrável das palavras,
a fagulha, o fogaréu, fumaça e cinzas.
A poesia quer o impossível,
qualquer coisa que esteja além
daquilo que é invisível.
Assim, respirar a sensção do vôo,
alcançar o reino do que é breve
e ser leve, leve, leve.

 

20
E foi falando falando falando
e falou tanto e falava falava
que por fim eu disse:
pára de falar
e ele parou.
Aí então eu continuei
e falei muito falei tudo falei
e fui falando falando falando.

 

21
Muitas vezes escrevi teu nome
em papéis molhados de lágrimas.
Chorei, choro, hei de chorar,
sempre que lembrar o passado:
palavras que são punhais,
lembranças que são estrelas,
constelações que se multiplicam
no céu de minha angústia,
pontos distantes, pérolas, pedras brilhantes.
Muitas vezes solucei teu nome
e em sonhos te contemplei nua,
adorei teu corpo, enfezado.
Muitas vezes subi pelas paredes,
ansiei tua presença,
me contorci em desejos, sozinho.
Chorei, choro, hei de chorar,
sempre que lembrar nossos encontros:
abraços que são naufrágios,
beijos que são dilúvios,
águas desatinadas, águas infiéis,
águas violentas de um rio sem margens.

 

22
amo-te tanto
que de titã
fiquei tantã

 

23
máquinas máquinas máquinas
que graxa tem um poemassim

 

24
O MÁGICO DE OS
WALD
No início
que grande começo
que começão

 

25
TIRADENTES
Joaquim
martirizou-se
se sentiu traído
por ter extraído
sem anestesia
o siso
de J. Silvério




entre desejar e querer
penso e sinto

com o sentir pensado
com pensar sentido

o desejo se quer
sintoma do pensamento

quero sempre mais
do que pensei

sentindo desejar
com querência

pensando desejoso
em quanto tenho querido

quero desejar
e desejo querer

pensando sentir
e sentindo o que penso

querendo desejando sentir
sobretudo pensando

sentir quero e meu querer
não passa do desejo

pois só penso
não sinto


 

A linguagem da paixão

livrinho, publicado em novembro de 1994, sob patrocínio da CEF,
ilustrado por Clarisse Castro Alves, dedicado às mulheres que em suores suspiram, em vão, por amores (im)possíveis

salta aos olhos com nitidez
a sensação que transmites
e por mais que me evites
posso notar a escassez

que tua alma revela
nestes olhinhos serenos
que velozes e pequenos
querem fugir de uma cela

trancada pelo destino
que às vezes fica aberta
mas a paisagem deserta
emoldura o desatino

de teus olhinhos falantes
cheios de imaginação
que ora sim ora não
se ofuscam e são brilhantes

ao ponto de clarear
com toda transparência
a mais íntima essência
que tentas acalentar

ao sol do que imaginas
ma força do que desejas
que tem sabor de cerejas
e sumo de tangerinas

que são frutas saborosas
maduras principalmente
mordidas tão docemente
tão macias e cheirosas

irradiam uma textura
na pele do fruto em flor
cujo caldo tem sabor
da mais secreta doçura

que é seiva estimulante
de todos os deuses é mel
o sonho a senha o céu
o mais próximo e distante

ao alcance dos anseios
com nuvens para o repouso
se te deitas eis que ouso
enlouquecidos devaneios

de um ser apaixonado
calmo e silencioso
um sonhador ansioso
pelo sonho realizado

pela face da alegria
oculta sob aparência
dessa doce experiência
marcada pela magia

e pela volúpia inefável
que a palavra não exprime
por ser mansa e sublime
essa loucura saudável

vigor de todos os seres
fonte de tal energia
capaz de fazer um dia
conter em si os haveres

de um milênio reinante
no segundo secular
capaz de nunca passar
somente naquele instante

sendo no exato momento
motivo de exaltação
deixando sem força e ação
o físico e o pensamento

o temor de descobrir
o delírio louco e são
quanto tempo em vão
pensas em redimir?

quantas horas perdidas
desafiando teus medos?
se pensarás nos segredos
serão duas tuas vidas?

tua fome é sedenta?
tua sede é faminta?
não se proíba e sinta
a coisa que te atormenta

que te rouba noites de sono
que te faz insaciável
mas que por ser impalpável
te deixa no abandono

a ver estrelas pairando
no espaço nu e vazio
cintilam raios de frio
em teu corpo queimando

cujas brasas abraças
contra teu peito macio
sem poder cortar o fio
que une tuas devassas

nas quais te julgas menina
com ar de mulher madura
tão casta suave e pura
e no fundo tão ladina

a vacilante heroína
da batalha pessoal
a majestade irreal
destronada pela sina

virtuosa e deslumbrada
afoita e esperançosa
tens orvalhada a rosa
de tua roseira podada

e fazes de insinuante
com este jeitinho sério
cercada de todo mistério
- um mistério cativante

capaz de alucinar
meu coração disparado
carente d’algum cuidado
que só tu podes me dar

realças com toda ternura
a solidão de meus dias
eu te vejo não me vias
pelas ruas da procura

teu sorriso é plenitude
tua voz é melodia
meu amor eu só queria
tomar essa atitude

revelar-te essa paixão
que guardo soberbamente
olhando-te mansamente
através da solidão

iluminas a cidade
com este teu brilho discreto
és meu único projeto
de plena felicidade

teu corpo é porto seguro
neste mar de ansiedade
tu tens a capacidade
de só ser o que procuro

desculpa-me a liberdade
dessa louca confidência
peço-te paciência
com minha sinceridade

quero que sejas honesta
guardando este segredo
sabendo que nunca é cedo
para amar o que resta

a um homem cuidadoso
que sonha sempre contigo
que sendo teu bom amigo
tem este dom precioso

de notar a escassez
e toda luz que transmites
que por mais que me evites
traduzi com nitidez




Uma indecisão e tanto

Digo talvez a quem me pergunta se vou,
porque talvez vá, mas não sei nada ainda.
Talvez eu até saiba dizer, mas como sou
um daqueles que o velho comodismo adotou,
digo talvez e deixo a decisão na berlinda.

Entre o ir e o não-ir, talvez não, não vá,
e talvez, ao chegar a hora h, até possa ir.
Que talvez, assim, indo, ao estar do lado de lá,
talvez, não sei, nem sinta saudades de cá,
se bem que, talvez, eu prefira mesmo desistir.

Vou ou não vou, talvez seja melhor ficar,
permanecer aqui talvez seja o mais certo.
Pode ser que talvez eu decida por estar
onde esteja e não ir, quando a hora chegar,
que lá estando, a distância não é nada perto.

Mas acho que talvez vá sim e por que não?
O tempo urge, e aguardam resposta até 2.096.
E são tantas coisinhas que exigem definição...
Por isso não sei se quero ou não, ir a pé ao Japão.
Talvez vá, talvez não, quem sabe, pode ser, talvez...




não penses
em mim
e na separação
como me lembro
de ti
firme resolvida
magoada toda vida
insistindo no não

que sofrerias tanto
e não mereces
(ah não mereces)
tão grande agonia
e tamanha aflição

espaireça
fique bem
me esqueça
adeus
perdão




não há mais como
encontrar um amor
pra vida inteira
porque (calculo)
mais de metade da vida
já vivi

então procuro a amada
para o segundo meado
de minha existência
ou menos

o que dela me resta
o que ainda tenho
o que me sobra
com o que posso contar
e me falta
para amar
viver para alguém
e quem sabe
alguém que viva pra mim
seja por mim amada
e me ame também
inteiramente
até o fim


 

tudo é possível

tudo é possível
até a impossibilidade
de saber
que nem tudo
o é
quando deveria
ser




um outro eu
diferente de mim
através do qual vejo-me livre
capaz de ser
único e diverso
sendo ao mesmo tempo dois
e apenas um:
quando sou e estou
dentro e fora
juntos
comigo

 

 
que se correr
o risco de ser
sair vivo
de estar livre
de ficar firme
de se soltar
e sentir
o risco de ir
sem volta
seguir em paz
sem olhar
para trás



é tanta
a dor


dá um nó
na garganta

ela enforca
nosso amor

a vida emborca




aquilo

ali

está
aqui
além
aquém
acolá
tão
perto
tão
longe



ou é
mais ou menos
ou menos o mais
ou mais é menos
é




I love
you
and U2

 

 
estes olhos
que a terra
há de comer
vêem olhos
na face da Terra
com fome
muita fome
gente sem nome
nem sobrenome


 

o mundo
é quadrado
é redondo
enrolado
tem embondo
no céu o sol
se pondo
em Pasárgada
e Macondo
não sei onde
me escondo
só pra te ver


 

jim in outdoors

 

out the doors
death
mister morrison
morre som
the leg
end


 

 
na rua
da amargura
te vejo passar
doçura
noite
chove
lágrima pura


 

a fundação do nada em nada se deu
o alicerce no ar as paredes invisíveis
nenhum habitante para movimentá-lo
o nada absolutamente angustiante
o inexistir em si como coisa nenhuma
saudade é nada do nada de nada
o amor que dá em nada em nada resulta
quando nada é um mínimo de saber-se
e dizer de nada ao obrigado sem volta
assim de modo algum absolutamente não
nada para nós é a mais nítida negação
de que nada em nós é sim pura aceitação


 

 
Sisifummond

No centro da estrada havia
uma baita brita
tinha uma rocha na metade da rodovia
existia uma matéria mineral
imenso seixo grande calhau
no ponto convergente da vereda da via da trilha
encontrava-se um butelo dum quase meteoro

Sempre me lembrarei dessa ocorrência
na existência de meu velho olhar exausto
Sempre hei de lembrar que no centro da estrada
havia uma baita brita
tinha uma rocha na metade da rodovia
existia uma matéria mineral
imenso seixo grande calhau
no ponto convergente da vereda da via da trilha
encontrava-se um butelo dum quase meteoro




Contigo dei-me ao luxo de poetar
Eras a musa da blusa de florzinhas
Tinhas um eu menino dentro do olhar
e estrelas penduradas nas trancinhas

Teu sorriso era mesmo uma gracinha
Boca hortelanzada e dentes porcelanantes
Chupei uvas molhadas de tua doce vinha
e tu sabias e era sempre melhor que antes

Até o dia em que achaste que eras tudo
Que sem ti minh’alma ficaria só sozinha
Eu bem te disse que não, nunca me iludo
e que saberia seguir minha vida na minha

Deste de ombros, te sentindo a poderosa
O centro de meu mundo, deusa e rainha
Ah, coitadinha de ti, sempre desastrosa
Me tinhas e não mais me tens, tadinha

Aprendeste uma lição difícil e facinha:
com poetas é melhor ser e ser sensível
Que poetas gostam de dar asas e linha
para musas que acham voar impossível

Sei que outras virão parar em meu canto
Ganharão versos, se considerarão minhas
Mas também fortes se julgarão dum tanto
que também estas se acharão lindinhas

Todo poeta tem culpa de fazer mulheres
se sentirem as principais e perfeitinhas
Delas eles fazem repasto de mil talheres
Como tu que já não me tens e me tinhas


 

coleçãozinha de parlendas (ou parlengalengas)
1)
a tacanha
aranha
fanha
se acanha
e fica
numa sanha
se apanha
por manha

 

2)
a paca opaca tem capa
pega e pica pacu
a paca peca pacata
se pica pirarucu
e pito pinta paca
se a paca põe pata
ou pé em pitu

 

3)
fofa a foca faminta
fica na fila finita
fulana no frio frita fish
o faro fareja farofa
feita de farinha farol

 

4)
o rato romeu rompeu a rua risonho
rolou a rampa do rio na ribanceira
ria da roupa do rebelde rei ricaço
que roia retratos rótulos relíquias
e restos de rímel e rouge de renata
a rainha ruiva redentora do reino

 

5)
domingo que vem, vem
cachimbo não tem, tem
binga, não, falta fogo
tem bingo, o jogo
tem ringo, o cão
tem ringue, na lona
tem ronco
domingo tem macarrona
nada

 

6)
é rouco
e mouco
muito louco
muito
é pouco

 

7)
papa gaio planta milho
peri quito come grama
mary taca pau no filho
essa gata mãe me ama

 

8)
com pena penei a ema
com pena amena penou
a pena apenas empena
e penada penalizou
a pena é pé na peia
dá pé ter pé de meia
não pena e ame a ema
sem pena emocionou

 

9)
um dois pó de arroz
três quatro arroz barato
cinco seis arroz pro mês
sete oito arroz afoito
nove dez arroz e filés
falta o zero arroz quero
tudo contado arroz papado
e no finzinho arroz soltinho

 

10)
segunda chega de primeira
na terça parte de mim
na quarta da rosa-dos-ventos
na quinta dimensão de ti
na sexta faço sesta no sótão
no sábado sou cágado lerdo
no domingo vingo a semana
sou legal sou fausto fantástico

 

11)
eu
em constantinopla
desconstantinopolizei
a desconstantinopolização
que a desconstantinopolizava
fui o desconstantinopolizador
de Constantinopla
eu




desenhou numa nuvem
o rosto da imaginação
ganhou face o pensado
ficou uma perfeição
arte final original
na mais perfeita feição
mas a nuvem desfez-se
em rápida desatenção
fugaz o desenho lindo
fumaça na imensidão
desmanchou-se no ar
em perdida resolução
nada que é belo resiste
ao vento da solidão
a perfeição ficou triste
disforme recordação
na memória do sonho
de fugitiva duração
a nuvem desintegrou
sua efêmera ilusão


 

diga
ainda que se contradiga
ainda que mostre fadiga
ainda que alguém maldiga
ou outrem bendiga
diga


 

se não penso
fico suspenso
no não-pensar
fico propenso
a não idealizar
um eu imenso
em mim sem ar
penso e denso
fico só a falar


 

estas palavras
se pretendem poemas
escrevê-las cultas e belas
dignas de sensíveis donzelas
para serem lidas à luz de velas
nos confessionários e celas
nas praças públicas e capelas
nas tribunas e vielas
mansões casebres favelas
é que são elas

poemas não carecem de palavras
devem ser como janelas
escancaradas sem taramelas
alimentos nas panelas
jurubebas jilós beringelas
informais e não querelas
que suportem essas rimadelas
que saem pelas tabelas
feito churumelas
pau nelas

e estas palavras
ainda se pretendem
poemas

 

pensa
pensa bem
pensa, bem
bem,
pensa


 

sou autor
do poema
ator sem papel
ato falho
a


 

a mancheia tiro do bolso
um sem número de borboletas
e com elas pago o tempo mágico
da vida crisálida vida rápida breve
vida larva vida ninfal transitória
que uma borboleta vive o tempo
de soletrar panapaná lepidóptero


 

o que tive de meu
perdi
dei
esqueci nalgum canto
num outro momento
em desapego com tudo
entregue ao não remorso
de haver perdido
dado
esquecido
o que tive de meu
até tu
que ficaste para trás
há muito tempo
há muito tempo



ainda

não aprendi a viver
vivo estudando
para aprender

 
sobre mentir

sete é conta de mentiroso
porém
verdade e mentira
sete letras têm

não é verdade
que a mentira
tem pernas curtas

a mentira tem pernas curtas
mas o mentiroso
tem a língua comprida

o verdadeiro mentiroso
é o que mente de verdade

quem admite que mente
diz a verdade

 

extraído do manifesto pau-brasil

a poesia existe nos fatos - a poesia para os poetas - alegria dos que não sabem e descobrem - a poesia ágil e cândida - como uma criança - a contribuição milionária de todos os erros - como falamos - como mos - uma única luta – a luta pelo caminho - só não se inventou uma máquina de fazer versos - nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo - ver com olhos livres.

 

Charles Pierre Baudelaire escreveu

 Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal).

Vou publicar As Flores do E-mail.

 

Ave!

Duas preciosidades enaltecem a Matriz:
o relógio e o sino.
O primeiro, ou atrasa ou não funciona.
O velho sino não bate nem rebate mais.
A alta torre, além de abrigar ambos,
até pouco tempo dava guarida a uma coruja.
A grande ave, antes de ser expulsa da casa de Deus,
dava a louca de sobrevoar a abóbada da igreja
durante as missas, sentindo-se anjo pássaro,
pairando sobre as cabeças fervorosas dos fiéis.
A coruja anciã desapareceu na noite de breus.
Sem saber a hora exata. Sem badalar de sino.
Para sempre ausente, exilada em sufocado adeus.
Suas asas desaprenderam a arte do vôo.
Ela pousou ninguém sabe onde. Muito longe.

 

em resumo

repito
digo
outra vez
torno a dizer
insisto
reproduzo

as letras são as mesmas de sempre
o ato de juntá-las forma as palavras
palavras agrupadas dão frases
frases parágrafos
texto

(dá uma dor
não saber
escrever)

 

sem título

coração
oração
ração
ação

 

Visitado pelo tempo

O tempo me visita a seu modo.
Silencioso, o tempo. Apressa-se, lento.
Contra ele, nada. Nem ele pode consigo.
Se resplandece, evolui a seu tempo.
Desordena em ordem diária. Minuto de ser,
existir fragmentado, desencontradamente.
Tempo som, tempo cor, contra tempo,
passa tempo, sempre o tempo, sem tempo,
no tempo, fazendo-se temporariamente.
Veio me dar um recado, talvez.
“Olha a vida passando sem intervalos”.
Não me ouviu, que o tempo não escuta ninguém.
Tempo, o tempo tem. Tem que sobra e nos falta.
Mas não. Se desintegra em si para parecer renovado.
Estabelece o círculo dos sentidos.
Porque tudo depende dele. Ele dá tempo ao tempo.
E cobra com o tempo a dívida atemporal.
Impiedoso, implacável, inexorável.
Estático e instável. Exato e memorável.
O tempo é um só desde outros tempos.
Ultrapassadamente adiante. Temporão. Tempório.
Tempo passado, tempo futuro, presentempo.

 

ávida libido

tão longe e sou capaz de tocar-te
no silêncio na imaginação no desejo

acaricio teu rosto com sublime mão
experiência mistério encantamento

a volúpia de teu corpo ao meu alcance
suspiros delírios anseios e muito prazer

na distância colho tua rosa ainda orvalhada
púbis ventre língua falo musa divindade minha


 

ágil frágil

confundiu as asas da borboleta
com pétalas de u’a sutil violeta

a primeira brevemente plantada em um vaso
a segunda sobrevoando com sua beleza

ambas frágeis à luz de todo entendimento
delírio último de ágil singeleza


 

universominas

minas
que se minas já não houvesse
eu não teria estado lá

minas
pois se minas tivesse já sido
não haveria tanta saudade cá

minas
ah se minas não mais existisse
tamen libertas quae será


 

Sem palavras

Não quero este poema feito de palavras

Se puderes capturá-lo no branco abaixo
captarás a simplicidade sensível
de meu versejar no invisível

Que este poema era para não existir
não fosse minha insistência de escre/vê-lo
a partir do nada (no nada) para que possas lê-lo



Vida solo

Sou para ti água colhida nas mãos em concha
Ai
de tua sede se não for urgente nessa hora
A água escorre pelas frestas e esvai-se
Teus lábios ressequidos não merecem o beijo
Amar requer saciar a aridez da vida solo
Ai de mim que te dei de beber tão difícil
A água do amor a colhe quem não a estanca
Tua sede bebeu da indecisão e permanece
Tua sede não há de saciar-se comigo
A água que te dou em minhas mãos em concha


quando

quando limpas, as louças - jantam,
quando alertas, os pássaros - nublam,
quando precoces, os rios - delineam,
quando perenes, os deuses - profanam.


 

narciso

além da luz de minha dimensão
imensa é a força do olhar
pois ao meu ver eu vejo a imensidão
mas tenho asas e não sei voar

eu vejo o que desejo perceber
e através de mim ser o que sou
ao que reflete a luz compete ser
imagem do espelho em que se mirou

olha narciso não é preciso fazer cara feia
deixa essa idéia pra lá deixa pra lá
veja narciso leia o aviso cria juízo teu paraíso sou eu
teu paraíso sou eu


 

entrega

ofereço uma de minhas asas à tua espada de afiada lâmina
corta-a sem piedade que a aurora está próxima
na noite o sangue se mistura ao prateado da lua
de dia a dor muda sua face e clama ao sol
decepa esse inútil membro emplumado
e depois te oferecerei minha outra asa também
arranca de mim a mínima possibilidade de sonhar
e voar


 

sensações

ver
ouvir
cheirar
provar
apalpar
(em 5 segundos ela me aguça
os cinco sentidos)
até o sentido figurado faz sentido
e também o sexto sentido
tem sentido


 

Windows

Nem
Jesus Cristo
Ctrl B


 

duas pessoas

fico sem ti
mas não vivo
sem você


 

reescrevendo um versinho
atendendo a sugestão de meus filhos

aviao
~

o acento
caiu
do avião



a solidão pensamenteia

estou
estou só pensando em nós
só estou pensando em nós
só pensando em nós estou
estou pensando em nós só
estou só



Te amo sempre mais

Te amo mais que ontem
Te amarei amanhã mais que hoje
E depois de amanhã te amarei ainda mais
E o meu amor de anteontem que parecia imenso
será simples perto do que será o de depois de amanhã
que esse nem chegará a ser incomensurável
pois um amor infinitamente crescente
além de não caber inteiramente no peito
extravasa a vida em cristalina enchente
pois esse turbilhão é seu sedento leito
Amor sem fim que só tem nascente



Em tua ausência

Em tua ausência desapareci
não me encontrava em mim
Sem
ti sou nada e me desfaço
em mil pedaços de inexistência
Eis que te reencontro e reavivo
o ser que sou completo em ti
Nosso
amor tem a força do sol
Toda intensidade nos possui
Estando contigo sou eu comigo
O teu amor me recria inteiro
O teu amor me reinventa teu
O teu amor é o amado meu



sobre ontem

não são estes olhos os olhos de ontem
ontem estes olhos não eram de ver nem de olhar
ontem não foi visto pela visão de passado
que ontem era presente ontem
ontem foi sobre aviso de que seria
um dia qualquer da semana perdido num mês do ano
ontem vejo como vinte e quatro horas antes
ontem como tempo não diz mais nada a ninguém
o feito ontem fez-se naquele momento
o momento de fazer o que somente ontem seria
nunca ontem esteve tão atrasado como agora
porque ontem dependeu do que ontem dependia
destes olhos que ontem viram o que ontem viu
ontem se fez de forma passageira e precedente
imediamente anterior a este dia em que estás
ontem é tempo indeterminado aqui
ontem ainda é recente mas sempre será
enquanto existir o hoje que amanhã
será ontem



Distúrbio bipolar afetivo

Escrever é minha terapia
O fluxo da in-consciência me dá expressão
Coloquial meu texto pois falo entre o pensar e o sentir
Não penso sinto
Não sinto penso
Minha escrita me salva do silêncio interior
Dentro de mim sou tão calado
Ouço o sangue
Sangue coagulado de letras
Chega ao coração com palavras
Sobe ao cérebro com frases
Não sou poeta
Poeta não sou
Sou paciente de mim
Dependo de escrever para viver
a loucura de parecer são
E normalmente não estou



tese

a sede era tanta
que bebi um riacho

acho que o amor é água



variações

eu te amoro
eu te amorfo
eu te amortizo
eu te amoralizo
eu te amorango
eu te amordaço
eu te amorteço
eu te amoreno
eu te amorfanho
eu te amoreco
eu te amorico
eu te amorosidade
eu te amorífico
eu te amorio
eu te amorisco
eu te amorno
eu te amorreado
eu te amortalho
eu te amorrinho
eu te amorsego
eu te amortiço
eu te amorudo
eu te amorzinho
eu te amo



em desdobramento

parte do que fui
sou
parte do que vou
flui
partindo do ser
estou ficando
sendo
fluindo
em partes
existindo



verbalmente

ela se queixa com razão
que muitas vezes me faltam palavras
não consigo terminar as frases
falo pelas metades
não concluo meu raciocínio
não me expresso bem

ontem por exemplo
no auge de nós dois
disse a ela
"eu te..."
e mais uma vez minha língua
foi lenta comparada ao sentimento

é isso que a mentecapta não capta
é isso que ela não entende
mas sou assim e nada me surpreende
sentir é coisa silenciada no pensamento
e o que em mim parece ser inacabado
é que é verdadeiro é que é inteiro
se eu só pensei em falar e não falei
só de pensar já está falado
resumidamente está dito
não detalho não repito

 

estou mudado

vejo pelo espelho retrovisor
do veículo da existência
o passado passando
as ruelas vagando
fico para trás
tão longe
lá onde
eu fui
seu
eu
e



palavrolhos

foi só abrir o dicionário
as palavras saltaram todas
e entraram por meus olhos

que agora não só vêem
como descrevem

poesia à vista

 

as manhãs

ei, poeta, escreva aí
um poema que celebre a manhã
mas antes não durma
não experimente a sensação de acordar
os primeiros raios do sol não valem
nem o alarido de pássaros matinais
escreva a partir da memória de ontem
quando amanheceste sonolento
e não pensavas em escrever sobre
as manhãs são todas iguais, poeta,
somente aos teus olhos elas se renovam
as paisagens amanhecem a partir delas
descreva a manhã de um dia perdido



baixo acústico

a corda esticada
solta um som
um som que acorda



precipite-se no caos

uma sombra mergulhou no vazio
o abismo se fez mais fundo e sombrio
parece até sem-fim mas tem sim
cai nele e vem para perto de mim
estou aqui não pergunte porque vim


 

Gyn

resido numa cidade ainda desconhecida
no coração do cerrado ela floresceu
aguardava por mim com suas tardes
sou naturalista para entender seu mormaço
o calor de seus dias entorna-me o suor
ela se distrai comigo ainda perdido
eu a interpreto iludido com sua luz
ela é clara clara em demasia clareira
minha vida a habita ela me povoa voa oa
cheguei até aqui atravessei o paranaíba
a nado sem nada nadando de braçadas



acho que ri acho que chora

cachoeira é despenhadeiro com água
depois da queda a água já fez bonito
cai deitada e segue o rio em seu rito
seu murmúrio é só um burburinho
água é água em seu líquido caminho


pensamento

não há como repensar o impensado


 

sem

bem-me-quer
é apenas a pétala
que teus dedos arrancaram
antes de uma malmequer

não adianta eu te querer bem
se mal sabes o que te dou
por exemplo essa flor
que tu sem dó desfolhou



signos

sou de Peixes
até debaixo d’água

e ela Escorpião
mesmo num círculo de fogo

 

sou um poeta
sem açúcar e sem afeto
ninguém me chama
João Cabral de Mello Neto




em bom português

versinho versinho meu
se eu te der uma musa
faz ela casar com eu?



menst

não deve ser fácil ser mulher
guardar enxovaizinhos vida afora
e ficar colecionando dias nos meses
como marcas de purificação da natureza
mais feminina que tudo nesse mundo
sangra muito e comumente até dói
mas ela sabe que não sou de importar com isso
e nesses tempos aflora a vermelha paixão
de amor dor urgência prazer e tesão
a recompensa plena no cio
ela delícia e eu me delicio



pensares

pensamentos e pensamentos
casa habitada por memórias
todos em volta da mesa
as falas nítidas de pai
o olhar sereno de mãe
as irmãs fazendo tranças nas bonecas
e eu com o olhar perdido
pensando longe como sempre
tudo faz falta quando se é assim
nada é completo e nem se completa
eu ali ausente demais
perdido entre vozes e movimentos
mamãe serve um pedaço de bolo
eu o como em pensamentos
está anoitecendo
a lua é dona de si
estará na hora de dormir
vou deitar-me com meus pensares
sonhar que estou pensando
ou pensar que estou sonhando



Tratado

Será que nunca verei o coração de um mosquito?
Deus é tão perfeito mas tão perfeito que vê-lo seria afear sua existência
Quando ficar grande quero crescer bastante e ser bem mais maior
Leio o jornal de cabeça pra baixo o mundo está virado mesmo
A pressão sanguínea da flor está baixa por isso essa taquicardia
Se eu soubesse de onde vem a brisa mandava alargar a passagem
Um dia mamãe me bateu tão forte que a surra até hoje dói na memória
Quer me dar um motivo para deixar-te? Penteie esses cabelos pra ver
Falo com árvores sim e elas me respondem com folhas-palavras
Um pássaro fez um ninho na minha cabeça. Nessa ocasião virei estátua
Pensa pra falar pois quem não pensa pra falar não fala o que não pensa
Andorinha no fio escutou uma conversa telefônica. Fez verão
Uma traça devorou sozinha um livro de Balzac. Tinha mais de trinta
Quando chove até as águas dos rios ficam molhadas
Só subo em árvores que não dão frutos. Ai preguiça de colher
A flor-da-noite começa a cheirar às três e dezoito da tarde
O dia já estava longe quando o alcancei pra desejar boa noite
Estou na idade de aprender a falar paralelepípedo sem engasgar

 

o publicitário

não assista
cenas dos meus próximos capítulos
que minha vida só tem plim-plim



25 de outubro

Mestre Oswald
disse que aprendeu com seu filho de dez anos
que a poesia é a descoberta
das coisas que nunca viu

E eu aprendi com minha avó de noventa e dois anos
que a poesia é a revelação
das coisas que não se vê porque não existem



negócio de ocasião

troco meu computador
por um lápis
com ponta

 

sensualidade
sensualidade é você me mostrar
seus dedos cheios de anéis
seus pés em sandalinha baixinha
o piercing no mamilo esquerdo
a tatuagem na virilha
e este seu molar de ouro

 

canção do abílio

minha terra tem sibipirunas
onde os pardais fazem ninho
aqui nem pardais têm
e quando aparecem são tímidos

minha terra tem seus campos
maracanã mineirão morumbi
além dos irmãos augusto e haroldo
minha terra tem mais hectares

tem um vulcão extinto
querendo o orgasmo da erupção
não permito que Deus morra
sem antes ir lá visitar

não permito que Deus morra
sem que vá à minha terra
depois de lá haver visitado
Deus lá quererá ser enterrado



duas vidas

de certa feita fui o alvo do atirador de facas
da primeira vez ele me acertou uma bem aqui ó
no coração
já da segunda uma afiada lâmina embainhou-se
bem no meio da testa



esconderijo

do oiapoque ao chuí
pensando em ti
chegando aqui me esqueci
só aqui
aqui onde?
aqui
onde meu coração de ti se esconde



troca

o pássaro beija-flor
beija a flor-pássaro



Campestres

Soubesse eu os nomes de todos os passarinhos
certamente saberia os de todas as flores do cerrado
Mas conheço por exemplo o papa-capim
e a deliciosa mama-cadela
Como se parecem contigo



O jardineirinho

Dizem que vivo de arrancar ervas daninhas
Mas sou um colhedor de trevos
Cato também pequenas samambaias no lodo
Penso ser um poeta de parcos recursos verbais
Quero dizer, meus pensamentos são mais nobres
do que tudo o que sai de dentro de mim
não sei se do coração ou da cabeça
Leio Mozart ouço Shakeaspere
Quando entro num bar e peço água
todos acham ser este o jeito mais crucial
de matar a sede que em todos é insaciável
mas que contento muito bem sem agonia
Sinto que está chegando a hora de regar jardins


 

Oswadiando

hotel classe a
só para quem anda com finanças bonanças
comi bem, meu bem
papei, papai, mamei, mamãe
os pedidos atendidos no quarto
ela toda hora me chamando de meu gato
no quilo me achei no direito de um ronronar
com muitos e variados beijos
e todas aquelas coisas loucas de amor

 

 

tardo

não falo de estrelas
mas do excesso de noite em mim

noite de silêncios
em que uma intransponível linha imaginária
me separa de minha Roseclair

nunca amanhecerei

 

 

a Lua está grávida

transou com o Sol
sem usar camisinha de Vênus

macros e microgametas
fecundantes nos planetas



 

deus é o autor de mim
de onde deduz-se que deus
perdeu tempo com algumas
coisinhas

)agora
dei
para
ficar
inventando
com
a
criação
de
deus(


 

 

cena

está o velho Rimbaud
sozinho dentro do barco no meio do lago
lendo o inédito livro de um jovem poeta

sob sol quente abriu uma sombrinha azul
e à medida que lê rasga um a um os poemas em pedacinhos
minúsculos só com letras sílabas quando muito uma palavra
e joga na água para alimentar os peixes

aquele é o original o livro inédito tem uma única cópia
se eu quiser reaver meus versos terei que pescá-los
e montar o grande quebra-cabeça de minha criação

cardumes letrados comem pelas mãos do bardo Rimbaud
aquela ração poética que já não me nutre e nem pertence mais

 

 

com filtro

e-mail de nicotina para alcatrão:
tem um maço de dias que eu não fumo

 

 

Tirésias, o vidente de Tebas


ver o breu é estar cego

depois de contemplá-la tomando banho ela o cegou
e lhe deu o dom da profecia

não é verdade que ela o tornara em uma mulher
para depois torná-lo homem novamente

e ainda que tivesse isso acontecido
se o rei e a rainha dos deuses lhe perguntassem
sobre em qual dos sexos teve mais prazer no amor
contrariaria o mito respondendo que enquanto homem

então não precisaria ter prazer por nove vezes
para se igualar ao incomparável prazer dela como mulher
que somente com ele ela alcançou

e sua fúria não o cegaria de novo
pois como tirar a visão de quem nada vê?
e sua vida longa é um interminável caminhar no escuro

 

 

fluido

mergulho na beleza
sou um peixe deslumbrar

as águas e suas faces
como vitrais
ou cristais

 

 

encontrada na praia uma garrafa
dentro dela uma mensagem

ele não tem mais nada negro amor
bob

 

 

poética líquida

muita água sobre minha cabeça e não é chuva
uma nau à deriva no espaço sem âncora
errante navega no ar pelas marés invisíveis
cá embaixo observo a movimentação elevada
um lago sobre mim ou um mar não sei
as gotículas feitas de palavras
ondas poéticas esfacelam o barco
a água desaba sobre mim
estou molhado em versos

 

 

Estou usando aquela camisa de vento
Calçando meu sapato de nuvens
Vestindo a velha calça de água
Só esqueci de pôr a cueca de brisa
Justo hoje que meu sol está quente


 

 

das mil dúvidas outras mil dúvidas e mais mil dúvidas
dessas três mil dúvidas outras mil dúvidas a mais
e entre as quatro mil dúvidas apenas essa
de que a dúvida possa se multiplicar
e chegar a tanto


 

 

Estige

Atravessarei a nado o rio do Inferno

 

não, não existe
foi apenas pensado
uma idéia de praia sem mar
de mar sem terra
de terra sem ar
de ar sem vida
de vida sem fim
brotando do pensamento
concluída na imaginação
do quase impossível


 

 

imensidão

atropelei uma estrela anã
em minha correria entre constelações

agora sou um viajante visado no firmamento


 

Canto

Ouça essa ária silenciosa
O sol, regente do improvável
está mais perto que longe
O dia é azul com fundo branco
(A força do branco atrai radiações
e se torna síntese das cores)
Diluo-me até o fim da tarde
entre a ária que só eu ouço
e essa cor pálida ao fundo