PRÉVIA ALLOCUTÓRIA & LAUDATÓRIA

Para maior glória da despretensiosa poesia dita marginal
e admiração do mundo municipal,
quiçá (queira Deus!) estadual, federal e mundial via virtual internetical,
justo é que se publique pela Grande Rede estes textos nesta página,
que será assim uma espécie de "Diário de um bardo a bordo da nau Rompe-Nuvem",
que pretende fazer público o audacioso corajoso e desconhecido
Flavius Josephus de Almeida,
filho das Minnas Geraes, ora na capital de Goyáz, no planalto central
- com todas as licenças necessárias -
não só porque não contém coisa em que se possa temer,
que a fé perigue e os bons costumes pervertam,
mas porque sua lição é deleitável pelo discreto estilo e elevada pena
e porque será um clarim da fama,
que fará estremecer o universo assombrado da generosa piedade
e pródiga magnificência dos amados leitores.
Ressalve-se, no entanto, que este autor se julga um escritor em primeira dentição,
ainda no frescor de sua imaturidade autoral.
O melhor, segundo ele, está por vir.
Entende-se, porém, que escritos assim, saindo em fluxo turbinado
da cabeça e mãos, e nem tanto, ao que nitidamente parece, do coração,
merecem vir à luz, carecendo, ainda mais,
da benevolência de vossos ávidos olhos,
levando-se em consideração esta alma afligida,
que vivendo a antropofagia de suas idéias chegou até aqui,
quase ou meio são & salvo a léguas de centímetros do alvo,
manobrando solitário sua nau contra vento traquete.
O Qualificador do Santo Ofício Poético,
Frei Antônio de Santa Maria da Sagrada Família,
do Convento da Boa Hora dos Patriarchas Agostinhos Descalços,
Dies Veneris XXIV Januarius MMIII.
 
versinhos da série
pequeninos como quê

 

 

Número 1

 

coração cansou
do pouco caso
que lhe causou
o seu sorriso
(não rimou)
mas o riso
foi de arraso




Número 2

 

no sentido
está o sentir
de pressentir
o pretendido
de consentir
o tido
no havido
a vida
é ida

 

 




Número 3

 

havia
quando a via
como não mais
a vejo
já não há
vivo em paz
pois sem desejo
não dá
ela lá
eu cá



Número 4

 

se alguém
me encontrar
por aí
diga que estou
aqui

parti
sem me despedir
enquanto fui
preferi não ir




Número 5

 

chega de saudade
que essa fossa
tão nossa
é só bossa novidade

 


Número 6

 

a senhorita
anda sem tempo

imagine
quando chegar seu tempo
de senhora


 

Número 7

 

passado
assado
do
presente
sente
se
futuro
tu
o



Número 8

tendo amor
ame
sendo amada

tendo amada
ame
sendo amor

tendo
ame
ame
sendo


Número 9

 

estrangeira

viajando em teus beijos
(a)prendi tua língua



Número 10

 

A B
(C CAIU)
A B
i
s
m
o



Número 11

 

paisagem

jogou verde
colheu azul

mar
e
céu


burrinha

eu a elogiei com palavras difíceis
e como você não conhecia os sinônimos
achou que eu a estava ofendendo

não lhe peço desculpas

mas assim que puder
lhe envio um dicionário




não é não

na era da informática
e quanta desinformação

eu disse sim
ela entendeu não

 

um repente
(q não é autobiográfico)

sou repentino
o menino de uma só asa
venho de mim
enfim sou minha casa

tenho a luz
q desenha a sombra
brinco de ser
assim como sou

confesso a tristeza
q trago nos olhos
já fui tão distante
mas nunca tardei

sou dor e brisa
no sol de cada raio
afugento as feras
com meu grito inesperado

sou repentino
o menino sem a outra asa
venho de mim
a solidão mora lá em casa



especialmente hoje

hoje não tem pic nic
(meu nick se confessa sem pique)

nada de passatempo
(ah, como o tempo passa...)

a desatenção poética de quem acordou triste só não é menor que essa sombra, vê

tenho agido por descuido e é nítido em meus olhos que meu coração é descuidado (ou será mal cuidado?)

a irreflexão de escrever por fluxo fluxo fluxo o que vem vai o que sai cai na rede dos buscadores virtuais de entrelinhas (você, amiga, por exemplo, ao tentar me entender, justo você que nem me conhece, nem sabe meu nome e jamais verá uma lágrima minha)

talvez seja por inadvertência de um aluno que a vida jamais conseguirá uniformizar e dar objetos didáticos pois sou anti-anti-eu naquilo que se refere a mim

alheamento da floresta, diria o poeta amador que ama tão profissionalmente que chega a amar o amor como um profissional que mente pessoalmente e em pessoa se consente

abstração do abstrato abstração do abstrato abstração do abstrato eu sou o abstrato da abstração

divertimento é artigo de lux

recreação
se tem merenda oba! que meu blog seja deglutido por vorazes leitoras famintas senhoras & senhoritas insaciáveis são todas as mulheres há hormônios femininos em todos os alimentos consumidos

entretenimento é a palavra final
hoje essa página talvez não lhes dê esse privilégio o sol amanheceu sem sal eu sei eu sou eu sim azul só sul

como sempre um jogo, palavras
eu me submeto ao capricho dessas deusas
venham
fiquem
sejam
vãs

 

olha o trem

eu sou do tipo q não conquista ninguém
vivo o momento a mais completa solidão
estou a fim de entrar numas de cantar
porq cantando sou mais forte sou mais eu
você q me ouve o q houve com você?
construir castelos amarelos de luar
o centro do mundo está dentro do prazer
quem viver verá o q não há mas há de haver
fere o indiferente mas a gente chega lá
seja o q não haja o q deseja e sabe ser
se ando sozinho nem eu sei pra onde vou
mas acabo indo sempre chego aqui estou
nesse vai-e-vem quem nunca foi jamais chegou
você q me ouve o q houve com você?
quem pensa q sabe mais carece de aprender
a sua pergunta é a resposta q eu dei
quem gosta de pouco se contenta com o q tem
um deus-nos-acuda deus lhe pague e passe bem
não fiq parada sai da linha olha o trem
olha o trem olha o trem olha o trem olha o trem



quem ama o feio

quem ama o feio
bonito não lhe aparece

quem ama o feio
bonito lhe parece óbvio

quem ama o feio
pode ser ruim de gosto

quem ama o feio
não teme assombração

quem ama o feio
não liga para cirurgião plástico

quem ama o feio
não vai a concurso de miss

quem ama o feio
carece de me conhecer

 

em terra de rei quem tem um olho é cego

em terra de cego quem tem um olho tem ego
em terra de cego quem tem um olho é considerado homem de muita visão
em terra de cego o governo é amarrado por nós cegos
em terra de cego quem não sabe braille é analfabeto
em terra de cego quem tem um olho costuma usar lupa
em terra de cego quem tem um olho pode ser ciclope
em terra de cego não tem arco-íris
em terra de cego quem tem um olho fecha-o
em terra de cego quem é surdo e mudo deve ser muito infeliz
em terra de cego ninguém acredita em amor à primeira vista
em terra de cego quem tem um olho é testemunha ocular
em terra de cego não tem microscópio
em terra de cego ninguém está no olho da rua
em terra de cego não tem olho gordo
em terra de cego ninguém vende à vista
em terra de cego ninguém elogiará tuas sobrancelhas e teus cílios
em terra de cego quem tem um olho não fura os olhos dos outros
em terra de cego quem tem um olho é míope
em terra de cego quem tem um olho é rei caolho
em terra de cego quem tem um olho evita cisco
em terra de cego não tem São Tomé
em terra de cego o que engorda o boi não é o olho do dono
em terra de cego não tem bode expiatório
em terra de cego a espada da justiça balança
em terra de cego as paredes têm ouvidos
em terra de cego quem tem um olho não vê os dois lados da questão
em terra de cego quem tem um olho deixa o rei nu
em terra de cego quem tem um olho não vê o rei



imaginação fértil

encontrei Karl Marx vestindo calça Lee
conversando com Trotski
que bebia uma Coca-Cola

foi quando chegou Stálin
em sua Mercedes conversível

os três iam se encontrar com Engels
na sede do FMI

 

não sei filho

pai,
por que que rico
nunca tem tempo
e vive dizendo
que tempo é dinheiro?

 

sex- symbol

Ava Lavínia Gardner
a tantos inspirou
até que morreu

ave
ó musa
de museu



tia zoquinha

o sonho de tia zoquinha
era estudar medicina
queria ser médica cirurgiã
infelizmente não deu
tia zoquinha fez o curso de corte e costura



fim próximo

viver está
pela hora
da morte

mas também
não precisa
encomendar
o funeral



deus analfa
(sr., perdão)

se na hora de criar o mundo
se em vez de verbalizar
deus escrevesse o "haja luz"
e sua atroz divina dúvida
ficasse entre haja e aja
se luz não houvesse
a luz não agiria
e talvez deus desistisse
e o mundo não criaria
entre o haver e o agir
o mundo nem existiria
mas deus preferiu falar
e jamais escreveria
deus quis e luz houve
deus agiu como devia
o mundo taí clarinho
nele há o que não havia
só depois de criado tudo
deus ao mundo se dirigiria
escrevendo poucas linhas
com sábia e santa sabedoria
"quero minha criação halegre
na mais completa armonia
o mundo criado hontem
é de vocês oje em dia
ó filhos amados meus
fiquem na pas de deuz"



oras rosa

uma rosa
é uma asor
é uma roas
é uma saor
oras



o paulo leminsky

o paulo leminsky parou de fumar
o paulo leminsky parou de beber
o paulo leminsky parou de falar
o paulo leminsky parou de escrever
o paulo leminsky parou de parar
o paulo leminsky parou de correr
o paulo leminsky parou de criar
o paulo leminsky parou de meter
o paulo leminsky parou de inventar
o paulo leminsky inventou de morrer

 

a paisagem

a paisagem um quadro sem moldura

 

rio

é claro que sabes
o tanto e quanto chorei
só não fazes idéia
do que com isso sequei:
o nosso rio sem margens
o nosso rio sem margens

 

fuga

queres fugir? então fuja
jamais te encontrarei
pois não vou te procurar

eis que tu te sentirás
perdidamente abandonada
escondendo-se
magoada
ferida
sozinha

fugindo de mim que já não tinhas

 

Rodízio

Ó desilusão de boi noutro campo.
Olhos perdidos ruminam pastagens imaginárias.
Rumo ao matadouro. O pressentimento da dor final.
A faca afiada do magarefe. O golpe fatal. Sangue esguicha.
O uivo revoltado do animal já quase inanimado.
Depois do berro, o bruto mapeado e fatiado.
Cupim. Costela. Picanha. Maminha. Alcatra.
Filé. Contra-filé. Fraldinha. Língua. Coração.
O destino bovino é a suculência de sua carne.
Apenas mais um. Mas não era um boi anônimo.
Lá se foi o velho Rodízio.

 

gordinha mineira
(quebrando o regime)

não sou de ferro
vou sair dos trilhos
quero comer um trem
uma pizza quatro estações

 

depois de morto, o anjo torto
p/ mestre drummond e seu anjinho

estranho amor é esse
que você está vendo:
ele lá, junto ao jazigo,
escrevendo ou lendo

depois que fez a leitura
de “Carlos, sossegue”
ele só segue Carlos
e loucamente o procura

sua família lhe deu asas
e nem se preocupa com
sua vida é reverenciar
à memória de drummond

na vastidão do cemitério
ali de tudo fica um pouco
versejam já sem palavras
o poeta morto e um louco

para ele não é loucura
- o silêncio é poesia pura -
ficar sossegado com Carlos
telúrico em sua sepultura

a inspiração é inefável
vozes vão se sublimando
ele é apenas o anjo torto
de um gauche dormitando

o velho anjo de sempre
soube chegar ao cúmulo
de redizer “vai, Carlos,
ser eterno num túmulo”



conjugal

o difícil
não é conjugar
o verbo casar
como transitivo direto
ou indireto
mas sim
no pretérito imperfeito
do indicativo

 

atirar o pau no gates
(outra a la drummondiana)

cara, relaxe,
o windows é isso que você está vendo:
hoje crefa
amanhã trava
depois de amanhã é quinta
e na sexta vai ser impossível
achar o mister bill gates

inútil você reiniciar
ou mesmo desligar
não se encane, ó não se grile
é melhor formatar a máquina
encare um download de frente
e pode até ser um vírus
que o northon desnorteado
ou talvez desatualizado
não conseguiu vacinar

o windows, cara,
você pirateia, enxerta na placa mãe
sem nem saber com quantos bitmatozóides
se faz a porra do winchester
e esquece que se a maicro é soft
o seu micruzinho é bem light

cara, pode crer,
vou desengavetar a máquina de escrever
mas se eu encontrar o tal do bill gates,
cara, do mesmo jeito que o windows deu pau
atirarei o pau no gates e o pau vai comer

 

ladainha da blogirl

santa internet
blogai por nós
santa microsoft
blogai por nós
santa web
blogai por nós
são blogger
blogai por nós
santa explorer
blogai por nós
são script
blogai por nós
santa pyra
blogai por nós
são postpublish
blogai por nós
santa telefônica
blogai por nós
são outlook
blogai por nós
são link
blogai por nós
são e-mail
blogai por nós
são http
blogai por nós
são html
blogai por nós
santa www
blogai por nós
são template
blogai por nós
santa arrob@
blogai por nós
são hardware
blogai por nós
são software
blogai por nós
são modem
blogai por nós
são provedor
blogai por nós
são chat
blogai por nós
são browser
blogai por nós
são site
blogai por nós
santa apple
blogai por nós
são macintosh
blogai por nós
são ftp
blogai por nós
santa homepage
blogai por nós
são comment
blogai por nós

rompe nuvens virtuais
no céu no céu com minha mãe internetarei
agora e em toda hora de nossa vida
amém
 
Ah!mor
Fui rimar amor com flor
a flor era uma rosa
e rosa é flor perigosa
murcha à-toa a melindrosa
- me espinhei

Fui rimar amor com dor
a dor era dourada
da cor de uma jazida
preciosa mais que a vida
- eu adorei

Fui rimar amor com amor
ficou pobre minha rima
jogaram ódio em cima
deitaram mágoa na mina
- desamei

Fui rimar amor comigo
fiquei falando sozinho
hoje nem falar consigo
só olho pro meu umbigo
- silenciei

Fui rimar amor com sonho
delirei um pesadelo
chorei diante do espelho
fiz a Deus o meu apelo
- acordei

Amor não rima com flor
Amor não rima com dor
Amor não rima com amor
Amor não rima comigo
Amor é apenas um sonho

Flor é rima popular
dor é rima a mais vulgar
amor dá o que falar
comigo é bom não contar
sem amor não sei sonhar

 




A vida é tão linda
Há um abismo
e não cismo em dizer
uma ponte
mas não conte que há outro lado
A margem de lá
A ribanceira sem beira
eira eira eira...

Há um precipício
e o princípio de queda livre
O salto vital
A volta por cima
A ida e a vinda
A vida é tão linda
tão linda que finda

Há um fundo
para quem voa em vão
para quem vai saltar
para quem vai soltar
a imaginação
abrir as asas sobre o nada
o nada de toda amplidão

Há um abismo
e não cismo em dizer
O
salto vital
A volta por cima
para quem vai saltar
para quem vai se soltar
A vida é tão linda

A margem de lá
A beira sem eira
Há um fundo
para quem voa em vão
Abrir
as asas sobre o nada
a vida é tão linda
o nada de toda imensidão


 

O rio flui
água do que fui
liquedejantemente
seu plasma
miasma
amálgama
alma
de água corrente
que água parada
nada contém




 

Quem você pensa que é?
Gritou em várias línguas
cantou todas as delícias
falou de suas mágoas
fêz inúmeras mágicas
sentiu-se indelével
às vezes foi instável
mas conteve seu rítmo
fazendo-se de tímido
Quem você pensa que é?
Com quem você pensa que está falando?

Dormiu em pontes aéreas
visitou muitos países
conheceu tribos indígenas
esteve com alienígenas
libertou-se de presídios
esclareceu suas dúvidas
estendeu ao sol sua túnica
foi o primeiro dos últimos
Quem você pensa que é?
Com quem você pensa que está falando?

Subtraiu seus códigos
escreveu vários relatórios
abriu o baú da memória
e relatou sua história
pensou em marcar época
xingou a mãe do árbitro
confundiu flash e relâmpago
bateu chapa com o fotógrafo
Quem você pensa que é?
Com quem você pensa que está falando?

Transou um amor homérico
rezou rezas ao santíssimo
misturou pavor e pânico
fingiu ter um lado cênico
mostrou o quanto era cínico
e como não tinha domicílio
a ninguém pediu auxílio
pois vivia em seu exílio
Quem você pensa que é?
Com quem você pensa que está falando?

 


 

MARIA (À moda Drummondiana)
E agora, Maria?
A festa começou,
a luz acendeu,
o povo apareceu,
a noite chegou,
e agora, Maria?
E agora, você?
que vai com as outras,
que cheira a gasolina,
você que é prosa,
que às vezes se empolga,
que odeia, se anula,
sem medir sua gula?
E agora, Maria?
Está sem homem,
está sem palavra
e sem roupa íntima,
já não pode beijar,
já não pode querer,
poder já não pode,
a noite é um bode,
a coisa não veio,
o trem não veio,
o negócio não veio,
o troço, não
e nem o treco,
não deu nada na veia
muito menos na teia
e tudo parou
e tudo seguiu
e tudo sangrou
e tudo manchou,
e agora, Maria?
E agora, Maria?
sua língua está presa,
seu corpo está trêmulo,
sua sede tem fome,
que vontade que dá,
que agonia tamanha,
seu vestido curtinho,
seu jeito febril,
sua doçura
sua cabeça dura - e agora?
Com medo de tudo
quer sair correndo,
não existe saída,
e cadê suas pernas?
Quer varar a noite,
mas a noite dormiu;
quer seguir cantando,
mas caminha chorando.
E nenhuma cantada,
e nada de nada de nada.
Maria, e agora?

Se você ficasse,
se você partisse,
se você tentasse
por mais um dia,
se você parasse
se você quisesse...
Mas você não quer,
você é foda, Maria!
Sorrindo sem graça
qual louca de lua,
sem melancolia,
sem roupa no corpo
pela noite que esfria,
sem José que queira
sua ganância inteira
de cadela perdigueira,
você vaga, Maria!
Maria, quem diria
que mulher assim,
tão senhora de si,
tão louca e a fim
não tivesse primazia?


 
amaro da purificação
amor
porquanto minha tristeza te seduz
ela me reduz a teu sem nunca alegria
alergia de sol ojeriza à lua vai saber
um nada a ver num mundo sem mim
que por fim estou aqui e estou nem aí
pois perdi a força ante o negativo ímã
pondo rima em cima da geladeirinha
que nem é minha a casaca do pingüim
sei que vim para encarar teu rosto
chamei de mau agosto o que vi
de mau posto mau fosco mau tosco

amor
conquanto meu abraço te arromba
a gente se tromba no dorso do elefante
um diante do outro na selva urbana
tão bacana te saber a fim de atar-me
na catarse de sangria desatadíssima
ó santíssima diabinha que de eu zomba
na tromba do elefante tem sugação
não e não e não te devoro vegetariano
que se me dano sou carnívoro canibal
te como sem sal em fast fode de momo
eu tomo uma pepsicoca nesse carnaval

 
 
Apollinaire
entre A e B
Apollinaire e
Baudelaire
nada há de
aire[Do esp. aire.]
S. m. Bras. 1. Coisa vã.

muito ar
pra se respirar

mas monsieur Apollinaire
que viveu a arte
de forma absoluta
surrealisticamente
respirou e morreu
de gripe espanhola




Charles B
as flores do mal
contêm pétalas do bem-
me-quer
no ajardinado
poetar
de Baudelaire

l'art pour l'art
a dor faz parte


 
interfere
dentro ter feridas
te ferir
sentir-me ferido
por ti
com ferro conferindo
fere a interferência
no que difere
até no indeferir
nos ferimentos
não cicatrizados
no resistir
existir
exit
it

 
esperando-te
um lugar ao sol
camuflado de imensa luz
um lugar ao sol na praia
banhado em mar azul sem par
um lugar ao sol na praia com sombrinha
esperando por ti que estás vindo a nado da Europa
um lugar ao sol na praia com sombrinha comendo moqueca de camarão
quando chegares verás que se morreres na areia serás dela mais um grão



.: Amor sem eira nem beira :.

Te amo silenciosamente às vezes
– para ser exato o ano todo os doze meses
Te amo calmamente de vez em quando
– precisamente se estou em fogo brando
Te amo com benevolência volta e meia
– na medida em que pega na veia
Te amo com dificuldade ocasionalmente
– confuso entre coração e mente
Te amo fragilizado em certas fases
– com curtas e grossas frases
Te amo sofrendo normalmente
– sem saber o que acontece com a gente
Te amo perdidamente quando posso
– pois nosso sonho já não é tão nosso
Te amo com aprofundamento quando dá
– quando queres saber o que é e o que há
Te amo com raiva acidentalmente
– se me feres a alma impiedosamente
Te amo saudável e tranqüilo casualmente
– querendo curar nosso amor dormente
Te amo feito bobo e de jeito fortuito
– e quando é assim não é outro meu intuito
Te amo com lealdade de modo freqüente
– que meu amor se doa a ti fielmente
Te amo sinceramente faça chuva ou faça sol
– e em peito se pode ouvir o canto de um rouxinol
Te amo com fome e sede se dá na telha
– qual pólen virando mel para uma trabalhadeira abelha
Te amo com sacanagens se estou a fim
– sem me importar se o colchão é de espuma ou de capim
Te amo como briguento se a vontade bate
– depende da maneira de como conduzes o embate
Te amo apaixonado e teu eternamente
– numa loucura que deixa Deus pirado inexplicavelmente
 
dígono
digressão
não diga não
e não diga
não
(diguice)

faleci
fale sim sim
fale sim
fale
(falhanço)

 

 

credo
recreio em Marataízes no ES
na tantã grei caótica
na confusão dos tantos
na permissão dos recados
na suspeição da córnea
na ida terna
ah nem

 
semaninha
a segunda nasceu na terça
foi batizada na quarta
ficou mocinha na quinta
se casou na sexta
se enviuvou no sábado
chove todo domingo
e assim se emanou
em sete luas meninas
e sete meninos sóis
 
quando ando
quando respiro piro
qdo namoro moro
qdo consinto sinto
qdo consigo sigo
qdo divago vago
qdo reajo ajo
qdo desespero espero
qdo desprezo prezo
qdo admito mito
qdo aprofundo fundo
qdo influo fluo
quando consumo sumo

qdo faminto minto
qdo apaixonado nado
qdo influencio cio
qdo revivo vivo
qdo posso osso
qdo aconchego chego
qdo desabafo bafo
qdo desfaço faço
qdo recompenso penso
qdo especifico fico
qdo sentencio cio
quando determino termino

qdo amar mar
qdo esquecer ser
qdo puder der
qdo valer ler
qdo reviver ver
qdo separar ar
qdo admoestar estar
qdo resolver solver
qdo acasalar lar
qdo definir ir
qdo resolver ver
quando senão não

qdo decorar orar
qdo barganhar ganhar
qdo preferir rir
qdo suspender pender
qdo desnudar dar
qdo revelar velar
qdo sossegar cegar
qdo acreditar ditar
qdo construir ruir
qdo escolher colher
qdo formatar atar
quando enfim fim

 
agudo
oh Janis
cala a boca
cry baby
sua louca
maybe

oh Janis
tua garganta
essa rouquidão
não grite
consigo

sou viciado em ti
e agora és pó
mas cansar jamais
de ser escravo de Jo
plin

 
cuidado com as palavras
a página em branco se oferece
então bate a tentação da escrita
foi assim em composição infantil
e depois já no tempo da redação
sem mais nem menos eis o texto
mas ó não brinque com palavras
ou antes deixe em paz as letras
que isso pode acabar em frases
daí para o parágrafo é um pulo
a seguir vem um capítulo inteiro
com tantas imagens metafóricas
que até a introdução se esquece
as margens nem servem de limite
introdução linguagem maiúsculas
minúsculas títulos seções trechos
e literalmente expressões citações
tópicos estilo seqüência conteúdo
concisão clareza desenvolvimento
espaços conclusão notas de rodapé
escrever é mais que sinais gráficos
também não é só a tradução da fala
escrever é diferente de falar é mais
a escrita tem suas próprias regras
a ortografia depende da pontuação
que em concordância deverá estar
com o uso de contratempos verbais
pronto enfim pariu a obra deu a luz
extensa síntese desta publicação
que se chamares isto de poema
logo dirás que sou um poeta purista
só rimo à míngua a pátria da língua
 
posfácio
onde os dias de todos os dias
não se repetem horas após horas

onde o sol escancara largo sorriso
com raios incisivos nos maxilares

onde uma estranheza de ontens
torna oca a visão d’olhos inexistentes

onde as flores abruptas do silêncio
delirantes dispensam a fotossíntese

ali adormece um homem sem noites
ali o espaço atemporal é o nada no vazio

ao me abandonares com tua ausência
revelas-me nossas diferenças inconciliáveis

estou acordando para namorar a aurora
dei fim ao ciclo de sentimentos intermináveis

 

G e n é r i c a s

primeira
Uma mulher
sem pés
nem cabeça
ainda assim
tem a melhor
parte
segunda
O pé
de vento
calça
sapato
de nuvem
terceira
Ela
é um doce
de pessoa

Mas
sua conversa
é sem sal

quarta
Se
contigo
não tem
grilo
louva-a-deus
quinta
A primeira
separação
deixa marca

o umbigo

sexta
Vende-se
dificuldades

Pagamento
facilitado

sétima
Olho
gordo
pesa?
oitava
Não entendi bulhufas

Aliás
o que é bulhufas?

nona
Se és
incapaz
de imitar
não tente
fazer igual
décima
Existem homens
de bem
e homens que estão
de mal a pior

conta conjunta
ssim é para quem não sabe amar
te dei meu coração
como um cheque em branco
em ti depositei minha vida
o saldo do melhor de mim
podias sacar
não soubeste preencher
nem assinar

peito meu
prisão
de um pobre coração
sem sursis
dentro e nada são
tão desinfeliz

cubículo
de uma alma serena
e nada vale a pena
preso por roubar
a cena

depósito
de oxigênio rarefeito
traficado do nada
ação planejada
um crime perfeito

armazém
varejista de planos
nada no estoque tem
por anos e anos
de perdas e danos

caixa de ressonância
de ai ais
de nada serve a ânsia
e nem mais
tórax e eleganância

cofre para segredos
sem chave
e nada de medos
doces ardumes azedos
ave!

túmulo da vida
em paz eterna
em nada jaz jazida
furada ferrada ferida
funda cisterna

sala de estar
de românticos nós
meio tom de voz
nada mais a falar
teu despeito a peitar

peito meu
graal de sangue e fel
tudo em nada deu
respeito o que é teu
só não me sejas cruel

 
Vaga
Esqueça-me
Não se endoideça
Deslembre de mim como fui:
um eco uma sombra uma miragem
estrela apagada no breu
em tudo eu sem nada meu
Sei vagar no éter da dor
com anestesiado sofrimento

Desapegue-se
Não se entregue
Desfaça a mala de lembranças:
tua nudez mapeada revestida de luz
estrela acesa na claridade
a manhã entardeceu noturna
Vou perder a fome de ti
A saudade engorda e como comi

 

Para quem quer se sentir alguém ou para ti ou ninguém
Seguir sem volta
Ir em frente
Não
há retorno para o que só segue
nem sossego para quem prossegue
Abandonar-se na ida desenfreada
rumo ao acaso ao infinito inatingível
Todos os caminhos se oferecem agora
Cada um com sua direção mão única
Ir seguir adiantar-se num passo apressado
Fugir é andar pensamenteando com a respiração presa
A eterna busca do refúgio é que é o encontro
O trôpego encontro consigo já sem fôlego
Ar para se respirar é o que mais tem
mas o ar que procuras não há
O ar que vivamente te mantém
Nem todo o ar existente dá
para te fazer chegar além
pois tua ansiedade é ir até lá
Como queres te sentir alguém
nem toda esperança perdida está
Se queres habitar a terra de ninguém
a idéia não é de todo má
mas haver nada tem
e o que vier a ter será
Segue em frente e vem
 
amor finado
não-amar com desamor e desalmado
amargurar a dor de se sentir mal-amado
eternizar a aflição de se perceber calado
revolucionar a força do peito já cansado
brigar consigo e morrer na praia afogado
gritar a luz interna do braseiro apagado
celebrar a face oculta do sonho velado
matar a sede de ser em cada dia adiado
soltar o verbo na cama à noite acordado
cantar a brisa aquecida no sopro abafado
buscar tulipas e papoulas em pleno cerrado
trancar segredos amargos no vão do passado
ganhar coragem e seguir o rumo pensado
chegar ao ponto negro do mundo mudado
olhar teus olhos e chorar o pranto orvalhado
pegar tua mão serenada e dizer obrigado
andar sem parar sem chegar mas ao teu lado
matar o futuro com a arma do chumbo trocado
cunhar a ferida fatal e não colher o semeado
plantar dois corpos no chão de campo sagrado
aplainar duas cruzes cravá-las e tudo acabado
lembrar dois amores e se sentir descansado
rezar uma missa profana a um deus enfezado
ficar para sempre sem vida morrido e matado

 
infrutífero amor
teu amor é de sombra, fria e constante
e não advém de árvore, nem de marquise
não sei se provém de fase de lua minguante
ou se vem das encostas em desabado deslize
teu amor é geada em flores toscas de junho
matando o fruto antes da brota primaveril
o danado é vento de areia em redemunho
me naufraga sem apoio em mar alto e hostil
teu amor é uma loucura em forma de mito
ergue pilastras ao profano rei da amargura
suas mágoas são eternas e estão em seu rito
de celebração de sua poderosa irmã loucura
teu amor é um cancro num coração vazio
carcomendo a pulsação de sua fonte vital
teu amor não me amedronta e eu o desafio
para a luta mais sangrenta da batalha final
teu amor estará triturado dentro de mim
e será expelido no esgoto da indiferença
e uma vez dele tendo me livrado enfim
estarei tranqüilo e feliz sem tua presença
teu amor agora só causa pena e dá asco
é o próprio pavor em forma de desespero
se por um lapso nele penso aí me lasco
pois teu amor é em mim louco entrevero
teu amor me alimenta de negatividade
me enerva tanto que perco as estribeiras
um amor doentio que beira a insanidade
sombra e geada a desabar das ribanceiras
teu amor me subtrai toda espontaneidade
e solitário me deixa no Monte das Oliveiras
teu amor não me quer amando de verdade
arranca de meu paraíso macieiras e videiras



ferido de morte
te beijo menos
que ao menos te beijando pouco
não fico louco de pedra
doido de bater com pau
não acordo o pássaro da aurora
que assim ele não voa pelas tardes
atrás da sanidade de descobrir-se leve
enquanto a realidade o faz sentir-se preso

te beijo nada
que de nada vale o beijo na boca gélida
da qual saem palavras de afiado aço
feito espadas cravadas em meus sentimentos
cada uma com sua função dolorosa de podar-me
que já nem sei se me tens inteiramente
que ando tão ferido de morte na alma e persisto
mas sei que de ti – não do amor – logo desisto


 
libertação mútua
te dei linha
tu te soltaste
sozinha voaste
tão alto e para tão longe
te perdi de vista
a distância te conquista
soltei ao vento o carretel
agora estás só ao léu
tens o espaço a amplidão
te libertei para a solidão de tudo
estás solta para a isolação de todo
comigo voavas e te sentias presa
a ciranda de meu vôo te era mansa
querias a imensidão para tua dança
contigo estás e a liberdade te cansa
calmo e comigo minhas asas vou curar
vou curar minhas asas e me soltar
e quem sabe voar para sempre pousar
quero ser e estar tranqüilo sem ti
te libertei para te perderes encontrando-te por aí
e só te dando o infinito
cheguei ao ilimitado de mim
estou bem sem tuas mágoas
fiquei melhor sem teus rancores
mandei tudo para o espaço
joguei tudo para cima
tu e tua egocêntrica auto-estima
aqui estou enfim sobrevivi
foi preciso te dar muita linha
para ver que a vida que contigo tinha
era mais tua - e como a deixavas sozinha
minha vida só agora é finalmente minha

nãosim
não é não?
sim, não é não
não é, não
não, é, não
não é
é não
não
é
não não é sim, não
não é não, sim
sim não é, não
senão
assim
o não
não é não
o não é
não o é
não
sim



santinha
meu poema
dura o tempo
de um olhar
que pisco

mas veja bem
ele também
pode ser
um cisco

santa luzia
a visão leitora
protegei
desse risco

 
conciso
pára
para o fim
basta um
basta um não
não pra mim
é não
basta
basta um sim
ou então
dar um basta
pôr termo
ao que desgasta
e torna enfermo
o coração
cesse a dor
o coração não
acesse
teu desamor
senha inválida
flor esquálida

 

Eliane
Eliane é isto: ducto
condutor de arte
aproxima distâncias
pega na veia
para dar passagem
ao sangue poético
incensa a alma
com oscilações
de luz e ar
e sua única certeza
é eterna dúvida

Eliane é druida
eremita inquieta
acorda o insondável
com idéias talvegues
paixão fogosa
fêmea instruída a dar
com os Peixes n’água
e se molha e se afoga
por mais e mais
ela é carioca ela é
carinhoca

Eliane é sax sex mas
diluída em jazz
e bem batida na bossa
ela é mais que som só
é anti é ágil é útil
dúctil diz-se humana
desanda na contramão
tem contração
prazer em desejar
poeta porreta
goza viver

Eliane pode avoar
então não dorme
a filha da noite
a louca de asas
a maga magana
a mulher foda
elianecúmeno
quer porque quer
metamorfoseia eia!
elétrica eli-aneel
virtual elianet

Eliane lambe beiços
com suas tortas
cigana tacho de cobre
mundana mandona
fulana fula pidona
suas letras entorpecem
sai grogue dela
um maço de cigarras
ela delicicia o cio de si
a poesia a acaricia
ei-la plena em suspiros

Eliane traz à luz
cegos atormentados
um eu um outro um sem
dói nela não estar
e estando vai indo
fugiu da História
a inventiva criadora
gata leoa linda de lua
oh musa toma essa loa
brincas de ser como és
de viés ao invés dona dez

 
Trabalhar trabalhar trabalhar
Sufocar saudades loucas
Conviver com este ar do planalto
seco até a alma
Ah! Goiânia, ponto G do Brasil,
capital de meus suspiros e ais
onde penso a centenas de quilômetros
estou sem estar aqui
pensamento é às vezes angústia
Pensar pensar pensar (em ti)
e trabalhar trabalhar trabalhar
O tempo passa rápido
(mas ainda assim é lento)
a velocidade da angústia
o equilíbrio entre ir e ficar
Quero ir: há braços para os abraços
palpitação/desejos/penso longe longe
pensamento a quilômetros do corpo
corpo homogêneo ao teu - em uníssono
Enquanto
isso: trabalhar trabalhar
Alimento os dias com minha paixão
as noites eu reservo para as estrelas
desta sequidão planaltina
e através delas falo contigo
como lobo atormentado uivando para a lua
não me ouves? Úúúúúú...




Re-fluxo

Nem a mim revelo meus segredos
ou não os traduzi ainda pois decifrá-los
pode ser me devorar com perplexidades
do que eu seja sem saber ou não queira ser

Nem o que fui o já vivido o passado o anterior
nada faz sentido ao meu alheamento desmemoriado

Amnésia conveniente o não-lembrar para esquecer
ou o esquecimento como forma de lembrança arredia
ou se lembra ou se esquece ou se deixa escapar aprisionado
porque ser livre é um conceito que só a paz íntima concretiza
e que silêncios secretos em forma de temor tornam impossível

Segredos são sombras de mim para comigo
que admitindo-os sigilosamente me confidencio
deparo-me com cenas do vivido em imaginação
e aí me confundo crendo imaginar o que de fato vivi
mas a vida em si é o que há de mais recôndito
pois se faz no escuro do útero para ser clarividência
e mistério maior não há que o espaço mínimo ou máximo
entre a cabeça e o coração e o que vai em um e em outro
que ambos são fontes e depositários refúgios e esconderijos

De meus segredos preparo-me para a grande fuga
enquanto minha cabeça pensa no que meu coração sente
e pensando e sentindo mil trilhões de segredos se formam
um a um ocultados de mim mesmo como forma de existir
como meio de me preservar da verdade do que sou e renego
como forma de ser sem saber ou de não saber como acabei sendo
no que vou me tornando com contornos em torno de transtornos sem retorno

Sei que sou e este ser é que se tornou meu único e maior segredo
do qual tenho medo por não me entender existindo com ele
apesar dele contido nele sendo o que sou confuso em sua redoma
porque de meu segredo depende toda minha verdade existencial
e se me exponho a mim corro o risco de jamais confiar no eu poeta
e o poeta que há neste homem sempre foi apesar de não poder ser
já que tudo conspira para que seus sentimentos não se traduzam
e sejam duras sua sensibilidade e sua natureza confessa ao escrever
e este é o segredo que revelado ninguém nessa vida vai querer saber
porque uma coisa é o silêncio surdo da voz e outra é o que acabas de ler
e é mesmo tudo tão confuso que podes ter chegado até aqui sem nada entender


afinal tudo vive em mim
do fim para o próprio fim
em tudo por tudo estou
desde que sei que ser sou
conheço o bem tal e qual
igualmente conheço o mal
o pecado como atitude
não se compara à virtude
tenho noção sobre o certo
e o errado está por perto
tantos por aí que julguei
me julgam à revelia da lei
se nasci para vir ao mundo
morrendo sou mais profundo
experimento soberba alegria
e sofro como jamais sofreria
estou no céu em paz comigo
clamo no inferno meu castigo
na água no fogo no ar enfim
estou em tudo e tudo em mim
e só estando em tudo concluí
que nada sou contudo em ti




encharcada de poesia
almanancial de versos
conta gotas de lirismo
brota do silêncio íntimo
jorra da luz o simples
meus poros inundados
flui em mim palavramor
sou um lago tranqüilo
não um brejo movediço
ser poeta desde o ínicio
não foi não tem sido fácil
e é sempre muito difícil


perdi a fé em ti

de tua sinceridade desconfio
tua verdade é fio sem meada
não creio piamente e não pio
não confiar é o fim da picada

à tua voz os olhos desmentem
tropeças em frases contraditórias
e ainda que tuas palavras tentem
não acredito em tuas histórias

em ti subliminar mensagem
tua verdade perdeu força comigo
fazes da mentira camuflagem
ter fé em ti não mais consigo


 

declaração e ameaça

é bem maior que o céu
quem te amar mais que eu
será louco porque é impossível
eu mais te amo que todos poderão
porque ninguém jamais te amará tanto
não há quem seja capaz de amor desmedido
o amor que de mim tens é o maior que podes ter
e em mim há amor melhor ainda que a outra posso dar
pois não comportas em ti a imensidão desse amor ad infinitum
és confiante demais por saberes que te dedico amor incomensurável
amor assim não receberás de outro mas outra poderá de mim obter maior até
já que te acostumaste a achar a expansão amorosa
uma necessidade só minha para ti
e mal sabes que toda progressão deste amor
requer em teu peito espaço cada vez mais amplo
e és contida demais para suportares a grandeza
do que nem imaginas que está por vir deste amor meu
tens a certeza de que será sempre imenso no entanto já atingiste o limite
do que te satisfaz em ser amada como queres e és
e eu só posso te dizer que a fonte inesgotável do amor
que em mim se multiplica diariamente não encontra em ti suficiente armazenagem
e amor assim não se represa e nem se exclui
correndo o risco de explodir teu coração com megatons de solidão
após seu descontentamento de irrefreável e ininterrupto propagar-se
e como jamais encontrarás amor com tal amplitude te sentirás sem chão
com a ausência deste que te oferto loucamente e que é bem maior que o céu




em inglês
podes ser in
(e não out)
e estares na moda

em latim
podes ser in
e negares algo
a ti ou a outrem

por exemplo
está na moda
te privares da
felicidade

se és assim e de tudo ris
em inglês ou latim
és sim um in
feliz


 

Brasil

olha
que zona
repara
observa vê
aqui nada
funciona
e ninguém sabe
por quê
detona
pt
detona
ou a elite
detona
você


 

ah meu amor
não há mal algum
mas o cérebro é essencial
o sentimento alimenta
mas o que o sustenta
é mental
por isso o cérebro é vital
deverias ter um
não ia te fazer nenhum mal


 

o que sou?
sou inúmeros
milhares de mim
em todos
ou em um
ou em lugar algum
mas sou nenhum
e sou ninguém
e só serei muitos
se for existir e estar
em alguém
em ti por exemplo
meu amor meu bem

 


 

pára
que não vou te dar ouvidos
minha resposta não vais escutar
entre ser ou não ser
não sou e sou
pra quê questionar?


 

 
matei a amizade
a amizade morreu
veio a saudade
a saudade nasceu
cresceu viveu
e sem amor
e saudoso
estou eu


 

 
Letra para uma melodia do mestre Paulinho Machado, 83 anos,
datada de 1985

Os dias que passaram
deixaram emoções.
As ilusões levaram,
ficaram as canções.
Dos sonhos acordei
e acordado vi
que tudo que sonhei
só em sonhos vivi.
As luzes acenderam
nas sombras do passado.
As noites se perderam
comigo acordado.
Os tempos de outrora
agora percebi,
com o passar das horas
até sentiram o que senti.

Eu sei,
tudo mudou,
também mudei.
A primavera era uma flor de espera
que desabrochou.
E assim,
floriu, cheirou
em meu jardim.
A rosa da esperança cultivei,
plantei dentro de mim.

Eu sei,
tudo passou
e eu fiquei.
O perfume é saudade,
flor felicidade
que nunca murchou.
Estou em paz comigo,
em paz com Deus,
em paz com meus irmãos,
os meus amigos hoje sei quem são,
só meus amores eu amei em vão.
Estou em paz comigo,
em paz com Deus,
em paz com meus irmãos,
os meus amigos hoje sei quem são,
só meus amores eu amei em vão.


 

herramos

a jente
não temos
geito


 

ASSIM SIM SENÃO NÃO

estes poemas foram escritos em 1986
1
As flores de papel celofane enfeitam a sala.
Um jarro de porcelana. Uma toalha de linho branco.
Um cruci fixo na parede. A janela aberta.
Entra uma luz transparente e o som de um instrumento
melancolicamente alegre.
Eu sou uma estátua,