"Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar. Sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de idéias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for. Uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados".

Fernando Pessoa, explicando a condição inevitavelmente fragmentária e incompleta da sua obra pela sua forma de pensar por sucessivas associações de idéias.
 
 
Saudade de John
(8 de dezembro de 1980 o sonho acabava-se para sempre)
Imagine você o que é isso para nós que sempre o amamos tanto...

 

Velha Yoko
em New York
rasga os olhos
vendo em prantos
o Central Park
de uma janela
do Edifício Dakota
E uma singela flor
de talhe solitário
miragem fecunda
e imaginativa
floresce no concreto
cresce no passeio público
onde o corpo de João sangrou e tombou
Espelha a alucinação daquele tormento
Rasgam-nos o delírio a lágrima o exato momento



Vida dependente do verso
(Não me leias com olhos comuns)
É o favor que fazes a uma vida





Teus olhos me lêem com que emoção?
Ao leres te sentes serena e calma?
Só te peço me leias com o coração,
e com a sensibilidade de tua alma.

Sou um ser inexato em meus versos,
decifrado, oculto, por compreender
as dimensões de meus eus dispersos
no que vivo se me ponho a escrever.

Não me tentes entender como poeta,
que como poeta sou só sem sentido.
Se um verso vivo e a vida engaveta,
sem que este verso tu tenhas lido

sofro minha inexistência escrita
pela ausência de teu olhar em mim.
Se não me lês, minha vida é finita,
é em teus olhos que sou sem fim.

Por isso tua leitura é fundamental.
Ela dá sentido à vida deste poeta.
Se me leres com olhos do essencial,
minha vida em meu verso é completa.

 




Antes agora de que depois
(Meu instante é precipício nesse ofício tão difícil)
Escrito em 1978




Sofro e reparto
dor e amor
Eu sei quem fui
não sei quem sou
Antes agora de que depois

A pátria é meu sonho
Meu braço a razão
Meu peito azul
é lavoura do ser
que vaga em mim
e continua a viver

E meu limite começa
em teu corpo
E planta a semente
da fome valente
E atormenta o espírito
da carne ausente

Canto o silêncio
desse instante
Sei que estou
e sigo adiante
sempre em busca de alguém

Trago o pensamento
na brisa da manhã
Paciente dúbia calmamente
passageira e completa

Nada é motivo
para tua inconstância
Nada é real
Vou esquecer o passado
Ser mais do presente
E não saber quem sou
nem pra onde vou

A vida se esquece
de tudo que vive
Estou necessitando
do amor que não tive
pra fundamentar
o meu tempo na Terra
e voltar a ser pó

 



BREVIDADES
(escritos de domingo à tarde)

você vai provar todas - o doce de uma a uma

hoje serei breve
a síntese em mim
ferve

1
puramente

a minha não escrita
é para ser deslida

2
o tipógrafo

o tipógrafo
cata cada letrinha
agrupando-as uma a uma
no componedor
e sua imensa chapa
se põe a compor
e não quer nem saber
quando o netinho lhe fala
do teclado do computador

3
mundominas

minas
o m de minas é uma montanhainha
o n de minas uma montanhazinha
o sol nasce e se põe nos ondulados
ao meio-dia o sol pinga sobre o i de minas
o a de minas é aurora
e o s é minha solidão longe de lá

4
o teu telhado é de vidro
então cuidado se tuas palavras
são jogadas ao ar como chuva
de meteoros

5
reticências

ruim de escrever
é quando se chega ao ponto
final

6
longe de mim
é onde estou
para perto
é que não vou

7
um sim
seguido de um sim
só pode ser
um outrossim

8
incoerência

dentro do avião
doze mil pés de altitude
sinto falta de ar

9
avião

santos dumont
inventa
e a boeing
aumenta

aumenta mais não inventa
fica no ar
ou caiu por terra?

10
livros que não lerei
são em menor número
que os livros que não escreverei

ou

queria ler os livros que não escrevi
queria escrever livros para eu ler
escrever os livros que não lerei

11
na cova

morto
o homem volta a ser semente

e plantado na terra
não renasce

12
distância é ausência
é o não-estar
a impermanência

13
elas

elas
estão sempre pensando
em outras coisas

14
o que os olhos não sentem
o coração não vê
eles mentem
e o coração crê

15
vivo
de próprio punho
vida passada a limpo
mas sem rascunho

16
e pensar que nem imaginas
no quanto é bom ter
imaginação

17
o mundo está mudado

está para ser fundado
pelos anarquistas
um grupo organizado

18
adie adie
até que um dia
chega o dia adiado

19
anarina

ela se queixa
que só a solidão
a tem acompanhado

ela tem muito amor próprio
por isso não tem namorado

20
saudade
não tenho
tempo
para ti

21
a gente se esconde
do que está buscando
e até sabe onde
sem noção de quando

22
ao amanhecer

o sono fugiu
quando o peguei
estava na hora de acordar

23
imaginativo
vivo imaginando
imaginando
vivo
sem imaginação
não me ativo

24
temo
da luz
o excesso

o excesso cega
e cego
tropeço
não recomeço

25
poeta sem p é oeta
poeta sem o é peta
poeta sem e é pota
poeta sem a é poet
tirando o t do poeta
poeta fica sem t

26
o niilismo é
dos ismos
o que mais exige
pingos nos is

27
calvície:
cabeça sem cabelo
na superfície

28
quando me deito
a melhor rima
é mesmo leito

29
separação

de nós dois
o melhor
foi o depois

30
o til
do aviao
~
caiu

31
a gente quando morre
não fica sabendo antes
nem depois

32
....pare de dizer sim...
...senão...

33
de tanto ouvir
elogios calorosos
minhas orelhas
estão
pegando fogo

34
é vero

até o curso de Economia
é muito caro

35
férias

perto de ti
me sinto numa praia

do Oceano Glacial Ártico

36
desarvorada

quando as raízes de uma árvore
quebram um passeio público
é que pode dar galho

37
ela acha estrume
uma palavra bonita
quase poética

eu já acho uma b...

38
essa sobre o tempo eu conheço faz tempo
há tanto tempo que já perdi o tempo no tempo

o tempo perguntou ao tempo
quanto tempo o tempo tem?
o tempo respondeu ao tempo
que o tempo tem tanto tempo
que nem o tempo sabe o tempo
que o tempo tem

39
des
cer
es
ca
da
ou
su
bir

40
casaram-se
em regime de separação
de bens

ou seja
dormem em quartos
separados

41
beleza não pode ser tocada

a beleza é irretocável

42
ninguém é dono
de ninguém,
MEU bem

43
amor no fim

pensar até que eu penso

mas sinto muito

44
mau hálito

não escovar os dentes
é um mau hábito

45
escrevo
por escrever
escrevo pra qualquer um ler

e pro leitor que não entender
fica o escrito pelo não dito

e assim vou escrevendo
e quem continua me lendo
na certa vai se atrevendo
com este eu meu entendo
estou dando o que ele quer
e está tendo

46
não carecia da fotografia
bastava a dedicatória

aquilo sim
é um retrato falado de tua beleza

47
disse
a amada ao amado:

- você só se verá livre de mim
quando se casar comigo

48
monólogo

tanta gente falando sozinha
e ninguém me ouve
por isso me calo
pois nem mesmo eu
dou ouvidos ao que falo

49
ainda não existem
as crianças que vão nascer

e nem nomes elas têm
mas um dia elas vêm

serão fecundadas
geradas nascidas
humanizadas

então passarão a existir
as crianças que estão por vir

assim existirão
as crianças que nascerão

50
corada

perguntei-lhe o que era enrubescer

ela disse que não sabia

mas ficou vermelha de vergonha

51
dia a dia
ano a ano
a vida
é um anual
cotidiano

52
confissão

se sou
intenso
é sem
intenção

supervisione
com atenção

se acione
sem emoção

distensione
teu coração

53
antes
de lavar
as mãos
lave a torneira
assim
ao fechá-la
evitará sujeira
e preste atenção
depois de limpa
evite sujar a mão
não a leve ao sabão

54
moral e cívica

brasil
se escreve
com B
maiúsculo

55
amor
pormenor
maior

56
mutuamente

uma mão
lava a outra
quer dizer
a esquerda
higieniza
a direita

57
diante da atual escassez

até moças
de fino trato
procuram rapazes
a grosso modo

58
casamento

comunhão
de bens
&
reparação
de males

59
a lua

o lado escuro da lua
atua na tua na minha
na nossa vã ilusão
vê-la no céu a boiar
redonda pairando no ar
nua senhora lunar
minguante crescente luar
lua que a todos seduz
abrange a terra da luz
que este planeta não cansa
não pára de olhar
lua que o homem traduz
na força que a ti o conduz
a nave é leve e se atreve
em teu solo pousar
feiticeira encanta o céu
clareando o negro véu
solitária banha em mel
lua vaga segue ao léu

60
ser alguém
é mais difícil
que ser ninguém

61
in sensível

até o não amar
é sentir muito

62
belo eco

silencio cio cio cio

63
neologismos

inventei (ou criei)
uma palavra que funde
som & silêncio
somlêncio

se gostou
fique calada
admita fale
em simlêncio

64
purismo português

a língua
ou é
ou não é
uma íngua

65
matéria

o rio
em seu curso
se forma
com um canudo
(de águas)

66
mod tia

és
à parte

67
a barba cresce
já no prestobarba

68
nas alturas

o pai da aviação
não a batizou
mas disse:

- minha filha se chama Hosana

69
só não deixo
de escrever
com medo que as pessoas
não me leiam

70
conversa
de cônjuges

quando um de nós morrer
ficarei viúvo

71
óculos

pára-brisa
emoldurando
olhos

72
sou poeta de escol
não escrevo penico
escrevo urinol

73
quem ri
por último
pode muito bem
amar ao próximo

74
amor na cama
é camamor

75
estive
ausente
fazendo poesia
viajando no uni verso
de sua companhia

76
um do outro

eu estou na minha
ela está na dela
ela aprisionadinha
e eu em sua cela

77
declaração de amor

Goiânia
deixa-me sentar
em teu acento
circunflexo

78
ah,
se eu pudesse

fundaria um cemitério
só para passarinhos

79
sobrevivência

minha poesia
é provisória
porque minha vida
não é definitiva
mas vivo poeticamente
para que a poesia me viva

80
pernas pra que te quero
vão por becos sem saída
me levam pra onde espero
e longe chegam nessa vida

81
não me arrependo de nada
ou melhor
só me arrependo
de nunca ter
me arrependido

82
coleção

e tua vida
quantos calendários
tem?

83
livro

gosto de contemplar
os olhos que me vêem
e me sinto exemplar
aos olhos que me lêem

84
se de ti me afasto
é porque eu me basto

a solidão é companheira
última única e primeira

85
não virtual

ela fez feio
não respondeu
meu e-mail

eu fui
ela não veio

86
entre o sono
e o sonho
os que dormem
estão
de acordo

87
entre existir e haver
há e existe

a tal sinonímia
é triste

88
sempre ausente

de manhã
não estou aqui

e de tarde
não venho

89
não basta
saber
que é ser humano

tem que dizer:
- sou humano

90
avião a jato

sobe um
DC 10

91
eu
sinônimo
de mim
antônimo
de nós

92
amor próprio

inteiro ela me teve
até que me perdeu

eu que era só dela
agora sou só meu

93
Deus disse:
haja luz e luz houve
- a bíblia ensina

a palavra divina
é uma hidrelétrica
usina

94
loucura
mesmo
é sensatez
a esmo
é sabedoria
à revelia

95
não sei
se crio
ou se invento
penso horas a fio
meu processo é lento
sento
me angustio

não sei se invento
ou se crio
mas tento
de fio a pavio
sou poento
e só poesio

96
cartilhinha

Ivo
viu
a uva

a uva
veio
da videira
de vasta
viçosa
e vistosa
vinha
de Vilma
a viúva

a uva
vem
e vira
vinho

Ivo
e a viúva
Vilma
vivem
em Vinhedo

97
de dentro
de mim
não saio

e ninguém
entra

98
horizonte é futuro
não existe horizontem

99
dor mineral

chutei uma pedra

ela gritou
ai

100
estava
perdido
entre palavras
escondido
no mundo das letras
até que a poesia
sem querer me achou

101
não me arrisco
a me explicar
não corra o risco
de me entender
só me leia
por favor

é ler para crer
vou te pegar na veia
sem tirar nem pôr

102
com minha poesia
quero ir pra academia
cheio de inspiração

eu poeta tomo banho
vou lá e tomo posse
pelado só de roupão

103
Deus não deu
asas à cobra
nem presas
ao passarinho

104
invencionice

na página do word está meu world

seu branco me induz às palavras
quando não às cores

105
se a mim
alguém é indiferente
eu também
a sou a ele
igualmente

106
das palavras
abuso
senão é
bem capaz
das coitadas
caírem em desuso

107
bercinho

poeta e musa
uma filha
terão um dia

a menina já tem nome
vai se chamar maria
maria poesia
 
1
uma palavra só minha

 

nenhuma palavra me pertence
palavras são de domínio público
existem para a comunicação
nos diversos idiomas
pronunciadas abertamente
signos universais
elas são imprescindíveis
e não têm dono
mas eu quisera uma palavra
só minha
dita única e exclusivamente
por mim

 

2
pedra florescida

 

floresce na pedra
uma mínima flor
discreta quase secreta
delicadamente
alvissareira
uma florzinha de nada
brotou na cavidade mineral
colore a fenda com seu raro
numa teimosia de comover
emociona a pedra enfeitada
a pedra florescida rompida
a flor na pedra dá à pedra vida

3
arco e flecha

 

a palavra flecha
atingiu o alvo:
teu ouvido

na ponta da seta
o substantivo amor
fincado cupido

minha sintaxe
acertou a mira
nessa audição

a inflexível flecha
esticou-se no arco
de teu coração

4
que seja o que for

 

Se for para melhor, que seja ótimo.
Se for para pior, que seja o mínimo.
Se for para o bem, que seja bem-vinda.
Se for para o mal, que seja rápido.
Se for para a sorte, que seja grande.
Se for para o azar, que seja sexta 13.
Se for para a vida, que seja longa.
Se for para a morte, que seja dormindo.
Se for para o sonho, que seja realizado.
Se for para a realidade, que seja clara.
Se for para sofrer, que seja sem dor.
Se for para pisar, que seja ladrilhado.
Se for para seguir, que seja sem rumo.
Se for para ir, que seja de encontro.
Se for para o adeus, que seja sempre.
Se for para mim, que seja exclusiva.
Se for para nós, que seja nosso.
Se for para todos, que seja por igual.
Se for para poucos, que seja merecido.
Se for para mudar, que seja na essência.
Se for para dizer, que seja dito.
Se for para calar, que seja em silêncio.
Se for para ontem, que seja passado.
Se for para o futuro, que seja imprevisto.
Se for para a guerra, que seja em paz.
Se for para perder, que seja o tempo.
Se for para duvidar, que seja sincera.
Se for para o amor, que seja comigo.
Se for para alegrar, que seja feliz.
Se for feliz, que seja amada.
Se for, que seja.

 

5
ininteligível

 

ostento minha antipoética
a frase-feita desversejante
o lugar-comum poéticaos
típica expressão do blablá
blague blog big bananada
dicção imagética a sintax
atitude cerebral do poetar
ordinário marche revolver
e o pastiche e que se lixe
cocteil de lágrimas brindo
o choque diante do banal
a inteligência culta oculta
verso come feno na coxia
sem o guarda-chuva o sol
vulgar é divulgar o trivial
bota as boutades ao vento
divertida ironia sem tédio
quero ser sentimental tal
linha de montagem fabril
hoje não fui trabalhar fui?
my read-made today dei
elipse elipsoidal elíptico
faço alegoria carnavalei
recortes cortes montage
registros frasais defront
fatigado incapaz delírio
fragmentado e esboçado
quem leu não leu se leu
não leu mas eu escreveu


Sob a árvore azul

 

o dia passou vestindo o mesmo terno branco

calçando o inconfundível sapato camurça

com seu inseparável chapéu panamá sob o sol e o céu
o dia passou fissurado atrás de uma sombra

olhando sem parar o relógio de bolso

preso à correntinha das horas

o dia passou seguindo solitário

a um enterro sem assistência

ao lado de um hóspede da pensão diária sem portas e janelas
com o passar do dia ao longo de toda espera

aproximou-se da árvore azul suspensa sobre o grande caos

o dia deitou-se ao seu pé abaixo de suas raízes e fronde azul azul
recostou a cabeça em seu tronco

levitando obesa sua carcaça invisível transparente incolor
o dia passou o resto do tempo dormindo até que a noite chegou



escrevi nas linhas das mãos palavras em códigos
peguei a cigana chamada vida pela ignorância
ela até hoje não conseguiu traduzir meu destino
eu estou criptografado sou ser incompreensível
minha única clareza detecta quem lê meus olhos
ainda que estes sejam codificados na memória
do que a alma captura na aura de quem me quer
as imagens incorporadas ao meu andar caminho
há normas especiais consignadas em meu eu
jamais me decodificarás que não te darei a chave
primeiro deves decifrar-me com meu silêncio
este sim é intraduzível ao teu atordoado amor



juntam-se à minha vida todos os medos
medo do poeta diante do papel em branco
medo do poema vir com bruscas alegrias
medo da leitora se inebriar com minha dor
medo de mim como escritor sem palavras
medo de acabar a obra que jamais começarei

 
Primeiro poeminha para a amada imaginária

que o silêncio nada nos explique
só a suavidade desse momento
o dia de sol quente adormecendo
e de um extremo ao outro nós
envolvidos serenamente
na brisa do simples
querer
 
Segundo poeminha para a amada imaginária

tão simples que me comovem
teu jeito de caminhar presente
teu cabelo ensolarado trigal
mãos de pianista sem partitura
seios maçãs róseas
quero a carne de teus lábios
mordê-la até sangrar
mordê-la até sangrar
até sangrar
singrar teu mar revolto
eu em ti me solto
vivo solto
 
Terceiro poeminha para a amada imaginária

amassei teu branco vestido
com meus abraços de mil ondas
se estivesses nua teria marcado tua pele
suavíssima criatura anjo sem asas
agora corres saltitante pela grama
do descampado imenso
tua leveza é um vôo rasante
pouso em ti para ousar sonhar
o sonho de quem ama com medo
o medo de quem sonha amando
 
Quarto poeminha para a amada imaginária

frente a frente com meu coração
és a própria exatidão de seu motor
distribuindo sangue pelas artérias
num bombear de ritmo sereno
movimentos compassados
até o momento da dor
de teu prazer pleno
teu gozo sanguíneo
fincada em mim
compenetrado em ti
suados suspiros
e ais

 

Quinto poeminha para a amada imaginária

amada amiga teimosa silhueta
não sabes o que fazer com minha humildade
andas tão distraída que trombas com pássaros
há dias em que a imensidão te é minúscula
voas em meu peito toda estabanada
queres habitar desastrada o meu céu eu sei
meu céu com todas as suas imperfeições
tu te multiplicas em brilhos de milhares de milhões
e unicamente minha és todas as suas constelações



um ensaio sobre a mortis finis


na tumba o corpo tomba só a vida é de morte

a morte é um sono profundo, mais que a cova
a morte é o fim de sempre e o início do nunca

a vida é fetal e a morte é fatal

o ruim da hora da morte é que se vive só até lá

a morte pode ser o fim de tua eternidade ou o início

existe morte depois da vida a vida é curta e morrer a encurta


hoje pertenço à alvura da noite


seja como for o dia de amanhã
a noite branca está aqui em casa
com seu sobretudo
suas olheiras
seu ar deprimido
sua palidez

sob o sobretudo da noite há nuances
ela anda nua
de lua
atormentando poetas domesticados
bardos caseiros
que esses lobos noturnos são indefesos
ao seu olhar sereno

essa noite se apossará de mim
pelas horas em claro
da madrugada afora

a noite não dorme há dias
noite sem fim
e a fim


Para a insistentezinha
(Eis aí o poema que me pediste)

Não te amo porque te amando
conheceria a inquietude,
advinda da saudade
de minha incompletude.
(A paz que busco é simples,
nela está a beatitude).

Te amando me dividiria
em sonhos e pensamentos.
Não imagino ninguém
atando meus sentimentos.
(Não sou dado a sofrer
e fujo de regulamentos).

Não te amo porque te amando
eu sofreria na certa.
Não tente ser companhia
de minha alma deserta.
(Mas deixaste meu coração
em estado de alerta).

Te amando me perderia
na confusão arbitrária
do amor se apossando
de minha vida diária.
(Moça, desista de mim;
pro amor eu sou um pária).

Te amando confessaria
algum segredo que tenha.
Te daria carta branca,
saberias minha senha.
(Ah, moça, me esquece;
não venha e nem convenha).

Não te amo porque te amando
seria mais disperso que sou.
Quero viver livre sempre,
por nada nesse mundo me dou.
(Moça, não sejas insistente;
já te falei que não vou...)

Te amando desatinaria,
de cabeça iria fundo.
Me perderia de mim
nos cafundós deste mundo.
(Moça, pára com isso;
que assim eu me confundo).



Lula e a cambada (ou a peemedebezada ou a tucanaiada ou a pefêlêzada ou a et ceteraiada)
(Já começou a esculhambação em nome da governabilidade)

Dois camaleões se beijam
sobre a bandeira brasileira

Ele do lado verde
e ela da cor amarela

Ela da cor dele
e ele da cor dela

Isso vai passar em branco?
E a brava gente nem fica azul?

O avanço somando-se ao retrocesso
é o custo da faixa de ordem e progresso?

Já não basta de estrumeira
sobre a auriverde bandeira?

Ah, os sonhos são alucinações
Não sonho mais PT saudações


Universaldo

Deus está à venda
Faça o pagamento
em dízim’oferenda
Não deixo suspeita
e se perguntarem
negarei: “É lenda
Compre sem nota
pois não se deduz
no imposto de renda
E só pague em cash
Fuja da malha fina
do fiscal da Fazenda
Essa mercadoria
é coisa muito fina
ótima encomenda
Sendo contrabando
não dou garantia
por favor entenda
Fechado o negócio
jamais nos vimos
nada de parlenda
No mais agradeço
E cuidado, é frágil
A boa fé recomenda
Que Deus lhe pague
por toda confiança
me risque da agenda
Farei ar de incrédulo
Esconjuro a heresia
“Deus posto à venda?”

 

indubitavelmente

minha grande dúvida:
há entre nós
alguma certeza?

com toda certeza
quanto a isso não há
a menor dúvida!

 

véspera do abandono

sou pescador
de poesias
pego-as aos feixes
em cardumes
lindas em ti
versos enfeites
multiplicam-se
em sóis pães
e raros peixes
és meu rio mar
barco bússola
(não me deixes)

 

dor purifica

ah, o amor
ou é delírio de felicidade
ou é purificad or

 

na cama

na cama
é que o amor
nos inflama
doce paixão
nos ama
nossa união
nos proclama

na cama
nossa brasa
exala chama
sou escravo
és a dama
sou senhor
és a mucama
há veludo
e lama

na cama
segredamos
toda trama
sugo chupo
flor e mama
beijo louco
tua rama
o gozo
nos aclama

 

Eu, o polichinelo
ou