"Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar. Sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de idéias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for. Uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados".

Fernando Pessoa, explicando a condição inevitavelmente fragmentária e incompleta da sua obra pela sua forma de pensar por sucessivas associações de idéias.
 
 
Saudade de John
(8 de dezembro de 1980 o sonho acabava-se para sempre)
Imagine você o que é isso para nós que sempre o amamos tanto...

 

Velha Yoko
em New York
rasga os olhos
vendo em prantos
o Central Park
de uma janela
do Edifício Dakota
E uma singela flor
de talhe solitário
miragem fecunda
e imaginativa
floresce no concreto
cresce no passeio público
onde o corpo de João sangrou e tombou
Espelha a alucinação daquele tormento
Rasgam-nos o delírio a lágrima o exato momento



Vida dependente do verso
(Não me leias com olhos comuns)
É o favor que fazes a uma vida





Teus olhos me lêem com que emoção?
Ao leres te sentes serena e calma?
Só te peço me leias com o coração,
e com a sensibilidade de tua alma.

Sou um ser inexato em meus versos,
decifrado, oculto, por compreender
as dimensões de meus eus dispersos
no que vivo se me ponho a escrever.

Não me tentes entender como poeta,
que como poeta sou só sem sentido.
Se um verso vivo e a vida engaveta,
sem que este verso tu tenhas lido

sofro minha inexistência escrita
pela ausência de teu olhar em mim.
Se não me lês, minha vida é finita,
é em teus olhos que sou sem fim.

Por isso tua leitura é fundamental.
Ela dá sentido à vida deste poeta.
Se me leres com olhos do essencial,
minha vida em meu verso é completa.

 




Antes agora de que depois
(Meu instante é precipício nesse ofício tão difícil)
Escrito em 1978




Sofro e reparto
dor e amor
Eu sei quem fui
não sei quem sou
Antes agora de que depois

A pátria é meu sonho
Meu braço a razão
Meu peito azul
é lavoura do ser
que vaga em mim
e continua a viver

E meu limite começa
em teu corpo
E planta a semente
da fome valente
E atormenta o espírito
da carne ausente

Canto o silêncio
desse instante
Sei que estou
e sigo adiante
sempre em busca de alguém

Trago o pensamento
na brisa da manhã
Paciente dúbia calmamente
passageira e completa

Nada é motivo
para tua inconstância
Nada é real
Vou esquecer o passado
Ser mais do presente
E não saber quem sou
nem pra onde vou

A vida se esquece
de tudo que vive
Estou necessitando
do amor que não tive
pra fundamentar
o meu tempo na Terra
e voltar a ser pó

 



BREVIDADES
(escritos de domingo à tarde)

você vai provar todas - o doce de uma a uma

hoje serei breve
a síntese em mim
ferve

1
puramente

a minha não escrita
é para ser deslida

2
o tipógrafo

o tipógrafo
cata cada letrinha
agrupando-as uma a uma
no componedor
e sua imensa chapa
se põe a compor
e não quer nem saber
quando o netinho lhe fala
do teclado do computador

3
mundominas

minas
o m de minas é uma montanhainha
o n de minas uma montanhazinha
o sol nasce e se põe nos ondulados
ao meio-dia o sol pinga sobre o i de minas
o a de minas é aurora
e o s é minha solidão longe de lá

4
o teu telhado é de vidro
então cuidado se tuas palavras
são jogadas ao ar como chuva
de meteoros

5
reticências

ruim de escrever
é quando se chega ao ponto
final

6
longe de mim
é onde estou
para perto
é que não vou

7
um sim
seguido de um sim
só pode ser
um outrossim

8
incoerência

dentro do avião
doze mil pés de altitude
sinto falta de ar

9
avião

santos dumont
inventa
e a boeing
aumenta

aumenta mais não inventa
fica no ar
ou caiu por terra?

10
livros que não lerei
são em menor número
que os livros que não escreverei

ou

queria ler os livros que não escrevi
queria escrever livros para eu ler
escrever os livros que não lerei

11
na cova

morto
o homem volta a ser semente

e plantado na terra
não renasce

12
distância é ausência
é o não-estar
a impermanência

13
elas

elas
estão sempre pensando
em outras coisas

14
o que os olhos não sentem
o coração não vê
eles mentem
e o coração crê

15
vivo
de próprio punho
vida passada a limpo
mas sem rascunho

16
e pensar que nem imaginas
no quanto é bom ter
imaginação

17
o mundo está mudado

está para ser fundado
pelos anarquistas
um grupo organizado

18
adie adie
até que um dia
chega o dia adiado

19
anarina

ela se queixa
que só a solidão
a tem acompanhado

ela tem muito amor próprio
por isso não tem namorado

20
saudade
não tenho
tempo
para ti

21
a gente se esconde
do que está buscando
e até sabe onde
sem noção de quando

22
ao amanhecer

o sono fugiu
quando o peguei
estava na hora de acordar

23
imaginativo
vivo imaginando
imaginando
vivo
sem imaginação
não me ativo

24
temo
da luz
o excesso

o excesso cega
e cego
tropeço
não recomeço

25
poeta sem p é oeta
poeta sem o é peta
poeta sem e é pota
poeta sem a é poet
tirando o t do poeta
poeta fica sem t

26
o niilismo é
dos ismos
o que mais exige
pingos nos is

27
calvície:
cabeça sem cabelo
na superfície

28
quando me deito
a melhor rima
é mesmo leito

29
separação

de nós dois
o melhor
foi o depois

30
o til
do aviao
~
caiu

31
a gente quando morre
não fica sabendo antes
nem depois

32
....pare de dizer sim...
...senão...

33
de tanto ouvir
elogios calorosos
minhas orelhas
estão
pegando fogo

34
é vero

até o curso de Economia
é muito caro

35
férias

perto de ti
me sinto numa praia

do Oceano Glacial Ártico

36
desarvorada

quando as raízes de uma árvore
quebram um passeio público
é que pode dar galho

37
ela acha estrume
uma palavra bonita
quase poética

eu já acho uma b...

38
essa sobre o tempo eu conheço faz tempo
há tanto tempo que já perdi o tempo no tempo

o tempo perguntou ao tempo
quanto tempo o tempo tem?
o tempo respondeu ao tempo
que o tempo tem tanto tempo
que nem o tempo sabe o tempo
que o tempo tem

39
des
cer
es
ca
da
ou
su
bir

40
casaram-se
em regime de separação
de bens

ou seja
dormem em quartos
separados

41
beleza não pode ser tocada

a beleza é irretocável

42
ninguém é dono
de ninguém,
MEU bem

43
amor no fim

pensar até que eu penso

mas sinto muito

44
mau hálito

não escovar os dentes
é um mau hábito

45
escrevo
por escrever
escrevo pra qualquer um ler

e pro leitor que não entender
fica o escrito pelo não dito

e assim vou escrevendo
e quem continua me lendo
na certa vai se atrevendo
com este eu meu entendo
estou dando o que ele quer
e está tendo

46
não carecia da fotografia
bastava a dedicatória

aquilo sim
é um retrato falado de tua beleza

47
disse
a amada ao amado:

- você só se verá livre de mim
quando se casar comigo

48
monólogo

tanta gente falando sozinha
e ninguém me ouve
por isso me calo
pois nem mesmo eu
dou ouvidos ao que falo

49
ainda não existem
as crianças que vão nascer

e nem nomes elas têm
mas um dia elas vêm

serão fecundadas
geradas nascidas
humanizadas

então passarão a existir
as crianças que estão por vir

assim existirão
as crianças que nascerão

50
corada

perguntei-lhe o que era enrubescer

ela disse que não sabia

mas ficou vermelha de vergonha

51
dia a dia
ano a ano
a vida
é um anual
cotidiano

52
confissão

se sou
intenso
é sem
intenção

supervisione
com atenção

se acione
sem emoção

distensione
teu coração

53
antes
de lavar
as mãos
lave a torneira
assim
ao fechá-la
evitará sujeira
e preste atenção
depois de limpa
evite sujar a mão
não a leve ao sabão

54
moral e cívica

brasil
se escreve
com B
maiúsculo

55
amor
pormenor
maior

56
mutuamente

uma mão
lava a outra
quer dizer
a esquerda
higieniza
a direita

57
diante da atual escassez

até moças
de fino trato
procuram rapazes
a grosso modo

58
casamento

comunhão
de bens
&
reparação
de males

59
a lua

o lado escuro da lua
atua na tua na minha
na nossa vã ilusão
vê-la no céu a boiar
redonda pairando no ar
nua senhora lunar
minguante crescente luar
lua que a todos seduz
abrange a terra da luz
que este planeta não cansa
não pára de olhar
lua que o homem traduz
na força que a ti o conduz
a nave é leve e se atreve
em teu solo pousar
feiticeira encanta o céu
clareando o negro véu
solitária banha em mel
lua vaga segue ao léu

60
ser alguém
é mais difícil
que ser ninguém

61
in sensível

até o não amar
é sentir muito

62
belo eco

silencio cio cio cio

63
neologismos

inventei (ou criei)
uma palavra que funde
som & silêncio
somlêncio

se gostou
fique calada
admita fale
em simlêncio

64
purismo português

a língua
ou é
ou não é
uma íngua

65
matéria

o rio
em seu curso
se forma
com um canudo
(de águas)

66
mod tia

és
à parte

67
a barba cresce
já no prestobarba

68
nas alturas

o pai da aviação
não a batizou
mas disse:

- minha filha se chama Hosana

69
só não deixo
de escrever
com medo que as pessoas
não me leiam

70
conversa
de cônjuges

quando um de nós morrer
ficarei viúvo

71
óculos

pára-brisa
emoldurando
olhos

72
sou poeta de escol
não escrevo penico
escrevo urinol

73
quem ri
por último
pode muito bem
amar ao próximo

74
amor na cama
é camamor

75
estive
ausente
fazendo poesia
viajando no uni verso
de sua companhia

76
um do outro

eu estou na minha
ela está na dela
ela aprisionadinha
e eu em sua cela

77
declaração de amor

Goiânia
deixa-me sentar
em teu acento
circunflexo

78
ah,
se eu pudesse

fundaria um cemitério
só para passarinhos

79
sobrevivência

minha poesia
é provisória
porque minha vida
não é definitiva
mas vivo poeticamente
para que a poesia me viva

80
pernas pra que te quero
vão por becos sem saída
me levam pra onde espero
e longe chegam nessa vida

81
não me arrependo de nada
ou melhor
só me arrependo
de nunca ter
me arrependido

82
coleção

e tua vida
quantos calendários
tem?

83
livro

gosto de contemplar
os olhos que me vêem
e me sinto exemplar
aos olhos que me lêem

84
se de ti me afasto
é porque eu me basto

a solidão é companheira
última única e primeira

85
não virtual

ela fez feio
não respondeu
meu e-mail

eu fui
ela não veio

86
entre o sono
e o sonho
os que dormem
estão
de acordo

87
entre existir e haver
há e existe

a tal sinonímia
é triste

88
sempre ausente

de manhã
não estou aqui

e de tarde
não venho

89
não basta
saber
que é ser humano

tem que dizer:
- sou humano

90
avião a jato

sobe um
DC 10

91
eu
sinônimo
de mim
antônimo
de nós

92
amor próprio

inteiro ela me teve
até que me perdeu

eu que era só dela
agora sou só meu

93
Deus disse:
haja luz e luz houve
- a bíblia ensina

a palavra divina
é uma hidrelétrica
usina

94
loucura
mesmo
é sensatez
a esmo
é sabedoria
à revelia

95
não sei
se crio
ou se invento
penso horas a fio
meu processo é lento
sento
me angustio

não sei se invento
ou se crio
mas tento
de fio a pavio
sou poento
e só poesio

96
cartilhinha

Ivo
viu
a uva

a uva
veio
da videira
de vasta
viçosa
e vistosa
vinha
de Vilma
a viúva

a uva
vem
e vira
vinho

Ivo
e a viúva
Vilma
vivem
em Vinhedo

97
de dentro
de mim
não saio

e ninguém
entra

98
horizonte é futuro
não existe horizontem

99
dor mineral

chutei uma pedra

ela gritou
ai

100
estava
perdido
entre palavras
escondido
no mundo das letras
até que a poesia
sem querer me achou

101
não me arrisco
a me explicar
não corra o risco
de me entender
só me leia
por favor

é ler para crer
vou te pegar na veia
sem tirar nem pôr

102
com minha poesia
quero ir pra academia
cheio de inspiração

eu poeta tomo banho
vou lá e tomo posse
pelado só de roupão

103
Deus não deu
asas à cobra
nem presas
ao passarinho

104
invencionice

na página do word está meu world

seu branco me induz às palavras
quando não às cores

105
se a mim
alguém é indiferente
eu também
a sou a ele
igualmente

106
das palavras
abuso
senão é
bem capaz
das coitadas
caírem em desuso

107
bercinho

poeta e musa
uma filha
terão um dia

a menina já tem nome
vai se chamar maria
maria poesia
 
1
uma palavra só minha

 

nenhuma palavra me pertence
palavras são de domínio público
existem para a comunicação
nos diversos idiomas
pronunciadas abertamente
signos universais
elas são imprescindíveis
e não têm dono
mas eu quisera uma palavra
só minha
dita única e exclusivamente
por mim

 

2
pedra florescida

 

floresce na pedra
uma mínima flor
discreta quase secreta
delicadamente
alvissareira
uma florzinha de nada
brotou na cavidade mineral
colore a fenda com seu raro
numa teimosia de comover
emociona a pedra enfeitada
a pedra florescida rompida
a flor na pedra dá à pedra vida

3
arco e flecha

 

a palavra flecha
atingiu o alvo:
teu ouvido

na ponta da seta
o substantivo amor
fincado cupido

minha sintaxe
acertou a mira
nessa audição

a inflexível flecha
esticou-se no arco
de teu coração

4
que seja o que for

 

Se for para melhor, que seja ótimo.
Se for para pior, que seja o mínimo.
Se for para o bem, que seja bem-vinda.
Se for para o mal, que seja rápido.
Se for para a sorte, que seja grande.
Se for para o azar, que seja sexta 13.
Se for para a vida, que seja longa.
Se for para a morte, que seja dormindo.
Se for para o sonho, que seja realizado.
Se for para a realidade, que seja clara.
Se for para sofrer, que seja sem dor.
Se for para pisar, que seja ladrilhado.
Se for para seguir, que seja sem rumo.
Se for para ir, que seja de encontro.
Se for para o adeus, que seja sempre.
Se for para mim, que seja exclusiva.
Se for para nós, que seja nosso.
Se for para todos, que seja por igual.
Se for para poucos, que seja merecido.
Se for para mudar, que seja na essência.
Se for para dizer, que seja dito.
Se for para calar, que seja em silêncio.
Se for para ontem, que seja passado.
Se for para o futuro, que seja imprevisto.
Se for para a guerra, que seja em paz.
Se for para perder, que seja o tempo.
Se for para duvidar, que seja sincera.
Se for para o amor, que seja comigo.
Se for para alegrar, que seja feliz.
Se for feliz, que seja amada.
Se for, que seja.

 

5
ininteligível

 

ostento minha antipoética
a frase-feita desversejante
o lugar-comum poéticaos
típica expressão do blablá
blague blog big bananada
dicção imagética a sintax
atitude cerebral do poetar
ordinário marche revolver
e o pastiche e que se lixe
cocteil de lágrimas brindo
o choque diante do banal
a inteligência culta oculta
verso come feno na coxia
sem o guarda-chuva o sol
vulgar é divulgar o trivial
bota as boutades ao vento
divertida ironia sem tédio
quero ser sentimental tal
linha de montagem fabril
hoje não fui trabalhar fui?
my read-made today dei
elipse elipsoidal elíptico
faço alegoria carnavalei
recortes cortes montage
registros frasais defront
fatigado incapaz delírio
fragmentado e esboçado
quem leu não leu se leu
não leu mas eu escreveu


Sob a árvore azul

 

o dia passou vestindo o mesmo terno branco

calçando o inconfundível sapato camurça

com seu inseparável chapéu panamá sob o sol e o céu
o dia passou fissurado atrás de uma sombra

olhando sem parar o relógio de bolso

preso à correntinha das horas

o dia passou seguindo solitário

a um enterro sem assistência

ao lado de um hóspede da pensão diária sem portas e janelas
com o passar do dia ao longo de toda espera

aproximou-se da árvore azul suspensa sobre o grande caos

o dia deitou-se ao seu pé abaixo de suas raízes e fronde azul azul
recostou a cabeça em seu tronco

levitando obesa sua carcaça invisível transparente incolor
o dia passou o resto do tempo dormindo até que a noite chegou



escrevi nas linhas das mãos palavras em códigos
peguei a cigana chamada vida pela ignorância
ela até hoje não conseguiu traduzir meu destino
eu estou criptografado sou ser incompreensível
minha única clareza detecta quem lê meus olhos
ainda que estes sejam codificados na memória
do que a alma captura na aura de quem me quer
as imagens incorporadas ao meu andar caminho
há normas especiais consignadas em meu eu
jamais me decodificarás que não te darei a chave
primeiro deves decifrar-me com meu silêncio
este sim é intraduzível ao teu atordoado amor



juntam-se à minha vida todos os medos
medo do poeta diante do papel em branco
medo do poema vir com bruscas alegrias
medo da leitora se inebriar com minha dor
medo de mim como escritor sem palavras
medo de acabar a obra que jamais começarei

 
Primeiro poeminha para a amada imaginária

que o silêncio nada nos explique
só a suavidade desse momento
o dia de sol quente adormecendo
e de um extremo ao outro nós
envolvidos serenamente
na brisa do simples
querer
 
Segundo poeminha para a amada imaginária

tão simples que me comovem
teu jeito de caminhar presente
teu cabelo ensolarado trigal
mãos de pianista sem partitura
seios maçãs róseas
quero a carne de teus lábios
mordê-la até sangrar
mordê-la até sangrar
até sangrar
singrar teu mar revolto
eu em ti me solto
vivo solto
 
Terceiro poeminha para a amada imaginária

amassei teu branco vestido
com meus abraços de mil ondas
se estivesses nua teria marcado tua pele
suavíssima criatura anjo sem asas
agora corres saltitante pela grama
do descampado imenso
tua leveza é um vôo rasante
pouso em ti para ousar sonhar
o sonho de quem ama com medo
o medo de quem sonha amando
 
Quarto poeminha para a amada imaginária

frente a frente com meu coração
és a própria exatidão de seu motor
distribuindo sangue pelas artérias
num bombear de ritmo sereno
movimentos compassados
até o momento da dor
de teu prazer pleno
teu gozo sanguíneo
fincada em mim
compenetrado em ti
suados suspiros
e ais

 

Quinto poeminha para a amada imaginária

amada amiga teimosa silhueta
não sabes o que fazer com minha humildade
andas tão distraída que trombas com pássaros
há dias em que a imensidão te é minúscula
voas em meu peito toda estabanada
queres habitar desastrada o meu céu eu sei
meu céu com todas as suas imperfeições
tu te multiplicas em brilhos de milhares de milhões
e unicamente minha és todas as suas constelações



um ensaio sobre a mortis finis


na tumba o corpo tomba só a vida é de morte

a morte é um sono profundo, mais que a cova
a morte é o fim de sempre e o início do nunca

a vida é fetal e a morte é fatal

o ruim da hora da morte é que se vive só até lá

a morte pode ser o fim de tua eternidade ou o início

existe morte depois da vida a vida é curta e morrer a encurta


hoje pertenço à alvura da noite


seja como for o dia de amanhã
a noite branca está aqui em casa
com seu sobretudo
suas olheiras
seu ar deprimido
sua palidez

sob o sobretudo da noite há nuances
ela anda nua
de lua
atormentando poetas domesticados
bardos caseiros
que esses lobos noturnos são indefesos
ao seu olhar sereno

essa noite se apossará de mim
pelas horas em claro
da madrugada afora

a noite não dorme há dias
noite sem fim
e a fim


Para a insistentezinha
(Eis aí o poema que me pediste)

Não te amo porque te amando
conheceria a inquietude,
advinda da saudade
de minha incompletude.
(A paz que busco é simples,
nela está a beatitude).

Te amando me dividiria
em sonhos e pensamentos.
Não imagino ninguém
atando meus sentimentos.
(Não sou dado a sofrer
e fujo de regulamentos).

Não te amo porque te amando
eu sofreria na certa.
Não tente ser companhia
de minha alma deserta.
(Mas deixaste meu coração
em estado de alerta).

Te amando me perderia
na confusão arbitrária
do amor se apossando
de minha vida diária.
(Moça, desista de mim;
pro amor eu sou um pária).

Te amando confessaria
algum segredo que tenha.
Te daria carta branca,
saberias minha senha.
(Ah, moça, me esquece;
não venha e nem convenha).

Não te amo porque te amando
seria mais disperso que sou.
Quero viver livre sempre,
por nada nesse mundo me dou.
(Moça, não sejas insistente;
já te falei que não vou...)

Te amando desatinaria,
de cabeça iria fundo.
Me perderia de mim
nos cafundós deste mundo.
(Moça, pára com isso;
que assim eu me confundo).



Lula e a cambada (ou a peemedebezada ou a tucanaiada ou a pefêlêzada ou a et ceteraiada)
(Já começou a esculhambação em nome da governabilidade)

Dois camaleões se beijam
sobre a bandeira brasileira

Ele do lado verde
e ela da cor amarela

Ela da cor dele
e ele da cor dela

Isso vai passar em branco?
E a brava gente nem fica azul?

O avanço somando-se ao retrocesso
é o custo da faixa de ordem e progresso?

Já não basta de estrumeira
sobre a auriverde bandeira?

Ah, os sonhos são alucinações
Não sonho mais PT saudações


Universaldo

Deus está à venda
Faça o pagamento
em dízim’oferenda
Não deixo suspeita
e se perguntarem
negarei: “É lenda
Compre sem nota
pois não se deduz
no imposto de renda
E só pague em cash
Fuja da malha fina
do fiscal da Fazenda
Essa mercadoria
é coisa muito fina
ótima encomenda
Sendo contrabando
não dou garantia
por favor entenda
Fechado o negócio
jamais nos vimos
nada de parlenda
No mais agradeço
E cuidado, é frágil
A boa fé recomenda
Que Deus lhe pague
por toda confiança
me risque da agenda
Farei ar de incrédulo
Esconjuro a heresia
“Deus posto à venda?”

 

indubitavelmente

minha grande dúvida:
há entre nós
alguma certeza?

com toda certeza
quanto a isso não há
a menor dúvida!

 

véspera do abandono

sou pescador
de poesias
pego-as aos feixes
em cardumes
lindas em ti
versos enfeites
multiplicam-se
em sóis pães
e raros peixes
és meu rio mar
barco bússola
(não me deixes)

 

dor purifica

ah, o amor
ou é delírio de felicidade
ou é purificad or

 

na cama

na cama
é que o amor
nos inflama
doce paixão
nos ama
nossa união
nos proclama

na cama
nossa brasa
exala chama
sou escravo
és a dama
sou senhor
és a mucama
há veludo
e lama

na cama
segredamos
toda trama
sugo chupo
flor e mama
beijo louco
tua rama
o gozo
nos aclama

 

Eu, o polichinelo
ou commedia dell'arte in società

Estou me lapidando, vou me polindo,
aprendendo o natural sorriso social
à custa de muito ensaio e fingimento.

Levarei ainda alguns anos para convencer
- não aos outros, a mim mesmo – que sou
capaz de me dominar como insubmisso,
um indignado diante da realidade crua e cruel,
resistindo à tentação de mandar todo mundo
parar de fazer de conta que é e vive feliz
(ou será que a alienação cega a verdade?)

Toda essa miséria purgando a humanidade,
a solidão proliferando qual flores murchas,
a violência epidêmica de irmãos predadores,
os interesses atuais acima da vida futura,
guerras armando-se para nossa extinção,
e essa praga de pragmatismo, ética, etiqueta,
porque tenho que fazer a barba, tomar banho,
compor o corpo físico, trajá-lo, ter com/postura,
pegar na mão do desconhecido, e sorrir...

Nesse particular tenho obtido progresso,
ainda sendo um amargo realista confesso,
estou me disciplinando qual um polichinelo,
sorrindo contrafeito meu belo riso amarelo.
Daqui a quatro décadas estarei rindo à-toa,
numa boa, como qualquer homem de sucesso.

Rir sem desgosto, estampar alegria no rosto,
não ser anti-social, conviver, ter amabilidade,
esquecer o mundo - nada de contrariedade.
O sorriso é o cartão de visita em sociedade.

Imagino-me numa festa, pompa e júbilo no ar...
E eu todo sorridente, rindo tanto... até chorar.

 

Intimista
"No, woman, no cry..."

Acostumamo-nos com o que somos. Com sofrimento, é verdade.
Aderentes um ao outro, como as coisas à nossa volta. Tristes.
Tudo em redor de nós é inanimado. Cada objeto calado reflete
a nossa indefinição diante do universo que ocultamos. Solitários.
Se te comoves, não comungo contigo da tua momentaneidade.
E nem minha presença preenche o teu espaço vazio. Estranhos.
Convivemos com o que diariamente nos aborda em nossa casa.
Chamamo-nos pelos nomes, mas nos ouvimos mudos. Distantes.
O que há de verdadeiro em nosso convívio é o alheamento,
o abismo em nossa cama, teu nervosismo fragilizado. Frieza.
Pacientemente nos julgamos unidos nessa desunião serenada,
e tudo que juntos juntamos nos observa em comoção. Objetos.
Não te olho, não me vês, não mais nos aprofundamos em nós,
porque nos tornamos cúmplices dessas fraquezas. Infelicidade.
Mas sem ti não saberia onde fica o remédio para dor de cabeça.
E sem mim não encontrarias outro para tua aflição diária. Enfim.

 

um blues

 

toca um blues bem preto
mas não sopre esse sax
e essa gaita me apavora
o baixo me atormenta
e essa guitarra assola-me
o piano é tanto lamento
bateria coração nas baquetas
ai, esse andamento lento
suspiro meu melancólico
lágrimas em menor tom
estou esvaindo em mim
viro nuvem água um nada
essa música me dilui
minhas células se separam
sangue êxtase purificação
estou trêmulo por dentro
toca um blues em silêncio
um blues manso silencioso
pois ainda não quero morrer

 

A vida imita a arte

A vida não é nada original
É um plágio sem igual

A vida não segue em frente
se não vivida exatamente
A vida é tal e qual
em pessoa ou animal
A vida gerando vida
é a vida reproduzida
A vida perde a esperança
se não for à semelhança
A vida é, e pra sê-lo
carece d’algum modelo
A vida não se conforma
sem a risca de uma norma
A vida quando cria
arremeda e copia
A vida todos os sete
dias só se repete
A vida, aparentemente,
na verdade o é falsamente
A vida se mira na existência
como cópia de coincidência
A vida que em ti habita,
tudo que fazes, ela imita
A vida ser só consegue
se a outra vida segue
A vida de antes e após
uma da outra, xerox
A vida é a própria insistência
de repetir-se na experiência
A vida tem seus hábitos e modos
que são idênticos aos de todos
A vida sozinha desfaz-se
requer carbono dupla face
A vida contigo faz um trato
ela se vê em teu retrato
A vida artisticamente te falsifica
e à fonte não cientifica
A vida detalha em blow-up
e de tudo tem backup
A vida por mais que viva
só coletivamente é criativa

Se morreres de enfarte
Se permitires um aparte
Se pulares a melhor parte
Se tiveres a cabeça em Marte
Se esqueceres do start
Se desanexares o encarte
A vida pode plagiar-te

A vida imita a arte
em questionável qualidade
A arte irrita a vida
com sua originalidade

 

Conficções

Ganhar-me já foi fácil;
já fui bem mais iludível.
Mas meu coração volátil
tornou-me um ser intátil,
e, portanto, inatingível,
e, pro amor, insuscetível,
que amor é inadmissível.
- Agora ficou impossível.

Quisera ser mais versátil
e não assim inacessível
- um cara quase invisível,
arredio a todo convívio...
Vendo meu ser, capte-o,
descobrirás algo incrível:
ele é tímido e intangível,
mas docemente sensível.

 

Cansaço e súplica

Deus, por favor não me obrigue,
ó, Senhor, não me castigue
- eu não quero ganhar asas...

Há céu demais pra sempre e muito voar.
E minha vida errática, meu Pai,
já anda assim tão no ar...

 

Autopseudografia
p/ Hugo Brockes

O poeta é um fingidor
finge muito e numa boa
um original plagiador
psicografando
Pessoa

Finge tão completamente
numa insinceridade à-toa
que o poeta se consente
ser o bardo de Lisboa

Que chega a fingir que é dor
e chora pra si essa loa
que se ele sua de amor
sempre seco o suor soa

A dor que deveras sente
o poeta não apregoa
pois tão bem ele mente
que a verdade o enjoa

Finge tão bem o poeta
tão completamente finge
que a dor que interpreta
é a dor que o atinge

 

escrito num azulejo do banheiro de uma clínica de recuperação
para românticos

loucura
ou é a temperatura
ou vivo o auge da doidura
ou é o cerne da descompostura
ou minha lucidez não tem mesmo cura
ou a insanidade é menos mental e mais pura
ou discernir é uma iluminação um tanto quanto escura
ou a irreflexão me chama a atenção para uma decisão madura
ou o absurdo de ser assim revelou em mim a plenitude máxima da secura
ou essa doidice faz parte de uma absoluta vontade de quebrar agor'aqui toda essa e s t r u t u r a
ou a insensatez é condição lógica para ocultar o trauma de viver na paúra
ou o criador enlouqueceu e pecou ao dar um nó no cérebro dessa criatura
ou foi porra-louquice meter os pés pelas mãos cruz credo esconjura
ou não tem nada a ver eu correr atrás de ti até essa lonjura
ou vai indo o coração se cansa e não mais te atura
ou vira extravagância suportar tanta agrura
ou uma hora se quebra a envergadura
ou a doideira é aliada da frescura
ou sou maluco pela ternura
ôu, tu és uma belezura
ôu, mas que fissura
ôu, gostosura
loucura

 

Sol em silêncio

Não há bom dia,
se tua voz não ouço a me desejar
- um Sol nascente a me negar um simples raio,
dentre os zilhões de sua esfera.

Não há boa tarde,
se a outra metade do dia se passa em teu silêncio
- e no olho do céu o Sol reina sem ver na distância
um ofuscado eu em seu esplendor.

Não há boa noite
se tua ausência se acrescenta à escuridão
- e o Sol abaixo do horizonte me deixa sem sono e sonhos,
esperando por seu ciclo silencioso de amanhã.

 

Beijos e abraços

A linguagem do amor
se traduz com sedução.
Um gesto em seu louvor
revela a paixão.
Tua boca diz que sim...
Lá vou eu então...
Se queres viver por mim,
tens assim meu coração.

Meus desejos são teus beijos,
que frescor.
Teus abraços em meus braços,
que calor.
Entre beijos e abraços viverei,
e contigo mais feliz sempre serei.

Com meus passos
teus caminhos seguirei.
Meus caminhos
aos teus passos eu darei.
E nos braços de quem amo
quero estar,
com ternura calorosa
a beijar.

 

Muitos beijos

De olhos fechados,
te beijo com lábios molhados
no orvalho sereno do coração.

(Beijamos em sublime silêncio,
prostrados nessa viagem,
nossa prece de emoção).

Nossas bocas conversam.
Falamos uma mesma língua,
sugando a mais louca paixão.

Hálito suave, doçura,
desejo, leveza, candura,
brisa, ternura, ímpeto, tesão...

E não sendo primeiro, nem último,
é único, gostoso e múltiplo...
...Cada beijo tem nova feição.

E beijando, a vida é sonho...
O amor é uma pátria livre
na volúpia da imaginação.

 

tão simples demais

um sonho dentre tantos sonhos
como um desejo dentro da vida

sonhar vivendo
viver sonhando

o sonho que sonhas viver
a vida que vives a sonhar

podes escolher
escolha realizar

 

vida & morte

F E T O

olor
por
repor
expor
compor
recompor
amor
ardor
ar dor
reator
torpor
estupor
retor
tumor
bolor
decompor
fedor

F É T I D O

 

O poeta em mim

Não quero ser poeta mental.
Não pode ser fruto da faculdade intelectual
essa quase falta de ar de quando escrevo,
essa coisa, essa imensidade, esse enlevo.
- Meu pensamento é atormentado,
e o que tenho em mente não é poesia.
E não faz sentido o pensado,
o que em mim é só agonia.

Não quero ser poeta da inspiração,
que poesia não é como ar no pulmão.
O que estimula minha atividade criadora
não advém de uma atitude inspiradora.
- Não posso aceitar a moção divina
como orientadora de minha poesia.
A aparição das palavras me fascina,
mas não é epifania.

Quero ser o poeta que ensaio ser.
Espontâneo no ato pleno de escrever.
Sem pensar – porque como dói pensar.
E sem essa de que preciso me inspirar.
- Ser um poeta que não se sabe poeta,
simples demais para a arte da poesia.
Como minha vida já nasceu incompleta,
era visto que assim versaria.

Ser um poeta etéreo, desligado.
Um poeta alheio a todo palavreado.
Não faço poesia, ela é que me aborda.
E se dou corda, ela pinta e transborda.
- Portanto, o poeta que sou é pura fama.
Não há poeta sem uma fonte de poesia.
E fonte não tenho, pois ninguém me ama.
Poeta só serei se amado for um dia.

 

ocorrência de duas vidas arrastadas e uma terceira

eu poderia ter dito que não que sim que talvez quem sabe sei lá
poderia ter suspirado fechado os olhos sorrido com o canto da boca
ter criado expectativas deixado esperança dado de ombros ficado mudo
fingido que não era comigo escrito um verso na mente cantarolado Dindi
ter feito de conta que lia um livro dobrado minhas camisas contado azulejos
calculado o próximo passo pesado as palavras pensado em sair por aí
vasculhado meus objetos pessoais pegado com meu são sebastiãozinho
ignorado tua estridência quase incompreensiva tua desfaçatez cega
sentado formalmente e ficar te ouvindo despejar frases de um estranho fluxo
me defendido de tuas acusações passadas presentes no eterno acuar-me
ter deitado e rolado quando caíste em contradição sobre o número discado
me envolvido corporalmente com tua gana de avançar furiosa em mim
segurado teu braço de força desconhecida revelando ódio amoroso
pegado tua mão com a serenidade de sempre te conduzindo sobre brasas
mordido com tudo aquela maçã solitária na fruteira e cuspir a casca raivoso
massacrado aquele mosquito teu aliado que rondava minha cabeça quente
deveria ter arrancado os olhos a unha para ver se do oco não te via assim
cutucado a onça com vara curta insinuando deixar-te de vez adeus adeus
jurado morrer entregue à míngua de saber-me sem cura com tantos desvãos
corrido de encontro ao desespero contido a raiva miserável da dor penetrante
aguçado tua imaginação com gestos de nós dois na hora do bem-bom tantã
te surpreendido com o papelzinho que trazia no bolso com uma declaração
ameaçado deixar a barba crescer e arrancar do rosto a pintinha com teu nome
ter dormido no chão ali mesmo enquanto debatias com ar monologuista
ter ajuntado minhas coisas deletado os e-mails chutado o pau da barraca
te xingado de insensível (adjetivo que tanto odeias) insensível e tapada
rasgado o verbo aberto o cofre de nossas insatisfações voltado atrás em tudo
poderia ter simulado uma cólica e rolado gritando ai ai ai e chorado berrando
e não paravas de falar estavas com mil pedras na mão na intifada conjugal
espumavas bílis destilando o rosário de nossos pecados sob o mesmo teto
eu devia ter falado não podia ter esquecido não gosto não gosto nunca nem
aquela camisola cabelos na pia e no chão do banheiro tua chinela branca
tua leitura em voz alta certas músicas teu desinteresse pela poesia de Lorca
pelos contos de Rubião teu desatino por telenovela tua gula fora de hora
falavas falastes em incontrolável verborragia de lavar roupa suja em casa
nunca tinha te visto assim te ouvido pronunciar toda mágoa de anos
chorei pra e por dentro briguei com meu grito para fazer imperar o silêncio
e quando tudo pareceu desabar ficarmos sem alternativa para mais nada
faltar respeito para nossos olhos outrora lacrimejantes de ternura e paixão
quando um simples olhar tinha a linguagem impronunciável do mundo
te ver possessa abrindo o jogo pondo as cartas na mesa desafiando Deus
indignada possuída bufando senhora de si me deixando abaixo dos cachorros
poderia ter acontecido o que nem é bom pensar para arrependimento eterno
foi nesse exato momento vinte e poucos minutos após tudo descambar
em que passei do purgatório ao inferno sob o fogo de tua sequidão de cáctus
desesperadamente impulsiva incontrolável estremecida e tremendo febril
que ouvimos a voz angelical de nossa filhinha chegando da escola
toda novidadeira jeitinho doce e suave de quem espera paz aconchegante
correste e te trancaste no banheiro para se recompor do desequilíbrio
e eu fui salvo momentaneamente pelo caderninho cheio de rabiscos
multicoloridos inintelingíveis inesperados me mostrando uma luz inexata
“aqui, papai, seu nome e o da mamãe, e isso daqui é um sol e uma lua...”
 

Carta em versos para a doce amiga

Amiga, estou cativado por tua amizade,
que sem ela eu já não me imagino mais.
Usa sempre comigo de toda sinceridade,
e sem querer ou exigir a exclusividade
(eu respeito tanto a tua individualidade),
só te peço, amiga, a mais total liberdade
para cuidar de tuas feridas sentimentais.

Fazer-te feliz é parte da minha felicidade.
Quero ver-te nas nuvens, repleta de paz.
Conte sempre com toda minha lealdade,
juro a observância rigorosa da verdade,
serei íntegro, presente, com intensidade,
perseverante no fortalecer dessa amizade,
sem a qual, repito, não me imagino mais.

E no dia em que te sentires bem e curada
das dores que tanto mal te fizeram lá atrás;
quando te ver alegre, rindo, toda animada...
Ê, doce amiga, me sentirei de alma lavada,
meu coração vai bater em total disparada
(ainda não será o momento de dizer nada),
vou transparecer que estarei feliz demais...

Tu sabes quanto prezo ser teu bom amigo,
que te sou fiel e o tanto que és admirada...
Quando enfim a dor em ti não tiver abrigo,
e já não mais sofreres por teu amor antigo,
quero ver se então crio coragem e te digo:
é tão perfeito, amiga, te ter sempre comigo,
que sem ti, reafirmo, viver já não consigo...
És mais que a amiga, és musa e namorada...

 

vôo pra dentro

e não vôo porque se povôo o céu
haverá o escarcéu das aves fáceis
as indóceis invejam o eu tão livre
que não sendo leve sou mais azul
desalado mares ares circunavego
entregue ao eu ilimitado em mim
voar é simples mas não alço alvo
incansado e perto do firmamento
sem tocar no solo me movimento
jamais me pouso em pensamento
voando solto em meu sentimento
vôo ágil nessa arte se estou a fim
fecho os olhos inspiro e digo sim
aqui pairando longe de onde vim
pensar o vôo ao léu avoante vou
e não vôo porque se povôo o céu
as aves fáceis aprontam sarapatel

 

percepção e vida

pares de olhos lêem meus poemas aqui perdidos
e poemas ganham vida própria na primeira leitura
se apresentam ao leitor com um olá muito prazer
se não-lidos poderiam nem ter sido e não seriam
os que virão a ser serão se os lerem outros olhos
percorrer a vista sobre eles dando a luz do existir
poemas ainda dispersos em mim passarão a ser
sendo codificados sob o prisma de olhos e olhos
meus poemas aqui perdidos lutam pra sobreviver
teus olhos em meus poemas podem se perceber
e meus poemas e teus olhos aqui têm tudo a ver
agradecem ao leitor com um obrigado por nos ler

 

work in progress continuum

procurando por um verso
em todo vasto universo
no mundo literário
etéreo vago e vário
o versinho enxuto
do poema minuto
verso hiper sintético
no refazer poético
o verso já breve
só ágil se se escreve
um verso conciso
lapso de improviso
verso que jaz eterno
mal de vate moderno
um verso obobjeto
augusto e concreto
verso palha e choco
em ninho pós barroco
com ar estrambótico
exótico estilo gótico
um salmo e cântico
claro tão romântico
verso no vapt e fixo
do vupt não prolixo
um verso trabalhado
e nada de embolado
verso vindo do veio
veloz de um e-mail
um que se declama
lendo um telegrama
um em tom aforístico
a lapidar mini dístico
um versinho prosaico
e rudemente arcaico
com deglutir mágico
de ser antropofágico
mas sem preciosismo
do fácil trovadorismo
versejado por artista
versado renascentista
filhote do realismo
negando subjetivismo
poço de arte artesiano
do verso parnasiano
um verso simbolista
da volta subjetivista
o tal verso sensorial
impressionismo qual
verso Salvador Dali
surrealista até aqui
um verso tipo ditongo
e não assim tão longo
um verso sem tema
ilustrando um poema
verso com alegoria
primaverando a poesia
um verso sem diáfora
mas rico em metáfora
um verso que se basta
quanto mais se desgasta
verso que se completa
sem depender do poeta
não esse verso métrico
com seu esquema tétrico
talvez esteja até manco
qual esse verso branco
um verso que bem crive
seu escrever mais livre
o verso que tanto anseio
nesse final encontrei-o
verso que penei procurando
mas enfim acabei achando
agora quero e vou exibi-lo
tem minha cara o sem estilo
o verso que estava à procura
renega à mamãe literatura
resolveu por si só dar pausa
meu verso rebelde sem causa
nenhum movimento o ganhou
nem escola literária o engessou
é verso de todos e de ninguém
acha que a poesia não vai bem
é um verso de muita opinião
que caga e anda pra inspiração
este verso pronto e acabado
é o versinho de pé quebrado

 

Lúcido camponês

Aqui estou nesse descampado
à sombra de alta montanha
ruminando no pasto o gado
tranquilo pastando ao seu pé
Enternecido quase estranho
eu queria saber tocar oboé
Mas só sei tocar rebanho
Ê boi...”

 

A ponte

Do lado de lá da ponte o outro te vê
És para ele o outro desse lado da ponte
Não apontes para ele do outro lado
pedindo ao indeciso que se apresse
e venha por sobre e através
e que primeiro a atravesse
Pode ser que ele se defronte
vendo o outro esperando que ele
cruze só para confirmar a ponte
Em margens opostas sem respostas
um não quer que outro se amedronte
Se não fazes tu essa ligação antes
abrindo caminho para dois confiantes
talvez então o outro se desaponte
A ponte é a passagem entre extremos
Estende-se sobre o abismo essa ponte
Estabelece para ambos o encontro
a interseção entre lá e cá do horizonte
Suspenso estás com o outro na ponte

 

a liturgia e pompa

em.ti.ainda.penso
sabes.o.que.sinto
cheiro.de.incenso
aroma.do.absinto
.amor.era.imenso
era.e.é.não.minto
..amo.o.suspenso
sem.estar.extinto
.amo.longe.tenso
o.coração.recinto
claro.vazio.denso
qual.oco.labirinto
ambiente.intenso
..multicores.pinto
.tua.agonia.venço
o.perdão.consinto
.juntos.consenso
timtim.vinho.tinto
queimado.incenso
fumaça.de.absinto

 

não escrevi o que ora lês

não escrevi o que ora lês
seria incapaz de fornecer-te tal prazer
estás a imaginar e o texto é cria tua
de tua imaginação criativa
a sustentação relativa de tua razão e emoção
o cálculo inteligente de tua mente aberta ao ato
a inspiração que escondes de ti mesma
o êxtase de saber-se poeta sem escrever
febril com as palavras sob teu domínio
paixão pelas letras agrupadas no raciocínio
vendo-se manipuladora dos versos
senhora dona do dom de dominar a forma
comunicando-se esteticamente consigo
com o mundo à tua volta e com o silêncio
este poema não é meu é teu e tem teu estilo
escreve-o e dê-lhe a matriarcal autoria
por ora está pronto em teu pensamento
imaginas que lendo-o já esteja composto
não está e por enquanto é matéria etérea
precisa textualizar-se para ganhar vida
escreve-o e dê-lhe a maternal acolhida
tua poesia não é lida só pensada e sentida

 

solitudine

insolidão
desolidão
resolidão
consolidão
nesolidão
sósolidão

 

as mil portas

abrir-se a primeira porta
para só restarem novecentas e noventa e nove outras
portas à direita e portas à esquerda num corredor imenso
encontram-se destrancadas e dão passagem para o inesperado
algumas servem de entrada para o vazio que há do outro lado
essas têm um ranger de madeira empenada pelo tempo
quem por elas passou encontrou o que não procurava
podem ser labirintos para o externar da loucura
têm aquelas instransponíveis pelo silêncio
outras escancaradas para o abismo de um passo em falso
vácuos escuros para olhos e corpos após transpô-las
fossos para a solidão do além estar
abrir-se a primeira porta e sentir o calafrio
de não haver saída para as demais

 

quando ela se arrepender

ainda é cedo
mas ao se doer
ela vai ceder
jogará o dado

rasgará seda
abanará o sedém
me dará cd
livro de cda
carona de sedã
latinha de soda
entrará de sola
no sofá da sala
quererá se dar

contudo
nem a cedilha
de sua sedução
me sediará
nem sutra
nem salmo
nem sade
nem sartre

estarei sedado
sem dor
sem sede
sem sal
sédulo
e cediço
sem dona

sedimentado
em meu ser
sedentário
e sedicioso
com tudo
que se deu

sendo mais eu
e não mais seu


a double personae duo

eu sou o outro em mim
o outro em mim sou eu
em mim eu sou o outro
sou eu em mim o outro
outro eu em mim o sou
sou em mim o outro eu
sou o outro eu em mim
outro sou em mim o eu
eu o sou em mim outro
em mim o outro eu sou
o eu em mim sou outro
sou eu o outro em mim
eu o outro em mim sou
o outro eu em mim sou
o em mim sou eu outro
outro em mim sou o eu
outro eu o sou em mim
eu o sou em mim outro
em mim sou eu o outro
em mim sou o outro eu
o eu sou outro em mim
eu em mim sou o outro
sou outro o em mim eu
o sou em mim eu outro
em outro o mim sou eu
mim sou o eu em outro
sou o eu em mim outro
o outro sou eu em mim
em mim sou outro o eu
sou o em mim eu outro
eu o outro sou em mim
o outro em mim sou eu
eu sou o outro em mim

 

Antes

Antes só
por instantes
que só como antes.

 

Triste

Triste:
céu não há
sol inexiste.

 

Ah! o amor

Ah! o amor
sem tirar
nem por.

 

Olhos não vejam

Olhos não vejam
negros olhos
que lacrimejam

 

Basta!

Basta!
Amor assim
só se desgasta

 

Adeus!

Adeus!
Vão-se os sóis
vêm os breus.

 

Tudo bem

Tudo bem.
Não deu.
Viva sem.

 

Foi lindo

Foi lindo.
Passou.
É findo.

 

Esqueça

Esqueça.
Tira o coração
da cabeça.

 

Perdoe

Perdoe.
Respire fundo.
Não se magoe.

 

Fim

Fim.
Agora é não.
Era sim.

 

Dá-se por perdido

Dá-se por perdido
O sonhado
não vivido.

 

Desistiu

Desistiu.
Enfraqueceu.
Não resistiu.

 

Sorriu

Sorriu...
Viu?
Não viu.

 

Pensa bem

Pensa bem.
Reflete.
Fica. Vem.


Erros de Eros

1)
te busco em mim
e em mim estás
e estou em ti
eu para sempre

tu eternamente
aqui

2)
fêmea
teme-a
faça-a tremer
gemer
morrer
e voltar
a viver

3)
úmida
a mim
unida
tímida
porém
cedida
e bem
fodida

4)
leves carícias
plumas ao vento
de teu corpo
suave

5)
te vejo
desejo
se sonho
me assanho
me dou
te ganho
me unhou
te arranho
me bates
apanho

6)
goza
musa
minha poesia
toda prosa

7)
a rosa
cada pétala
se despetala
ao falo
da língua
que a cala


Pensas que sentes

ou sentes que pensas?

Queres sentir com a inteligência
- Mas que falta de sensibilidade...
O amor beira, sim, a demência
Sim, de loucura, de insanidade...

O amor é o apogeu da doidice
O absurdo habitando o coração
Se a temeridade não existisse
amar não seria uma irreflexão

Sê imprudente, ama, extravasa,
comete a paixão de sofrer da luz
Essa doença obscurece e vaza
entre corpos que se vestem nus.

Foge às normas, extravagante,
busque em ti a falta de senso
Tudo é leve para o titubeante
Tudo é pesado para o denso

Ama, ama com o pensamento
Ama, sente só com a cabeça
E não será amor sentimento
mas razão que te enlouqueça

Ama com toda tua inteligência,
com perspicácia e com agudeza
Teu intelecto ama em essência
e teu coração em profundeza

Só que entre o pensar e o sentir,
o raciocínio ágil e a percepção,
se o cérebro ama a lógica de existir,
o coração só quer outro coração


O fim de tudo

Para meu coração aceso, desprezo.
Para meu amor coeso, desprezo.
Para meu jeito indefeso, desprezo.
Para meu desejo teso, desprezo.

Para minha amorosa crença, indiferença.
Para minha vida tensa, indiferença.
Para minha cabeça que pensa, indiferença.
Para minha dor suspensa, indiferença.

Para o adiar de meu dia a dia, apatia.
Para o sol de minha poesia, apatia.
Para a sombra de minha agonia, apatia.
Para a minha apagada simpatia, apatia.

Para o meu total grande bem, desdém.
Para o meu ser-ninguém, desdém.
Para o meu aqui sem além, desdém.
Para essa coisa, esse trem, desdém.

Para toda minha ilusão, rejeição.
Para um simples coração, rejeição.
Para o calor deste vulcão, rejeição.
Para carícias em minha mão, rejeição.

Para minha voz avulsa, repulsa.
Para meu sangue que pulsa, repulsa.
Para minha paz expulsa, repulsa.
Para o amor que propulsa, repulsa.

Para minha luz confusa, recusa.
Para minha voz obtusa, recusa.
Para a paixão inconclusa, recusa.
Para o que não mais se usa, recusa.

Desprezo, indiferença, apatia, desdém,
rejeição, repulsa, recusa...
Tornei-me uma sombra à sombra, um ninguém.
A minha dor de amor assim o acusa.

 

concluindo

e
de resto
se não
te amo
também
não te detesto


Quem pode pode
quem não pode sacode.
Quem pode pode
quem não pode se explode
quem não pode dá bode
quem não pode eclode
quem não pode se fode
Quem pode pode
quem não pode faz ode.
Quem pode pode
quem não pode toma Toddy.
quem não pode acode
quem não pode não
quem não pode não pode.
Quem pode pode
quem não pode
Quem pode pode
quem não pode
quem não pode
quem não pode
quem não pode


Mentir é fácil demais

Eu sei, eu sei, meu bem...
Sei bem quando estás mentindo.
Só que não posso acordar alguém
que finge que está dormindo...

Para V.

Na distância
entre uma estrela
e outra
tua ausência exata
se silencia absoluta.
A vastidão imensa
se faz oca e neutra
qual espaço

di profundis
gruta.


deliriozinhos no mormaço da tarde febril

corisco arisco rabisco isco risco o disco arrisco pisco o cisco belisco aprisco psico


o amor?
ah, o amor
tem sempre
uma interrogação
após si

 

estou
a fim
de começar

 

o pensamento
segue o pulsar
da dor ilusória
impossível fugir
o coração tem memória
jorrando sangue
o coração faz história
no peito
qual medalha
de inglória
coração
de razão irrisória
coração meu
de sentimental
escória

 

faltar um dedo
na mão esquerda
é o mínimo

 

pensa bem
pensa bastante
pensa muito
pensa tudo
pensa fundo
que pensando
assim
poderás pensar
no que o pensamento
repensa
a todo momento
enquanto pensas
o pensado
com ar de pensador
pensamenteando
ó pensante
ser


Humilíssimo

Cale. Não dizer é se pronunciar
no silêncio do bom entendimento,
que nada se expressa no falar
do inteligível e mudo padecimento.

A dor apregoa o ressentimento
na falta da voz por si a se abafar;
emudecer a angústia do momento
na solidão de um ser a agonizar.

A hora é mesmo de sofrer e calar
todo e qualquer grito no isolamento.
E nenhuma lágrima poderá rolar
se não for da face do sofrimento.

Taciturno assim, tão desatento
ao som de ti que só sabe se dar,
sentir e crer e exaltar o lamento
da dor que é a crueza de amar.

Vive agora o que te pode restar,
além da verdade do esquecimento.
Cale para sempre e deixe estar,
amanhã sopra novo outro vento.

Aliviará o sal de teu ferimento
e te fará entender e mais silenciar.
Na tua humildade cale o tormento
e sofra calado pois vão te humilhar.

Leve chibatadas, mas baixe o olhar,
carregando a cruz de teu sentimento.
Com ignorância, vão te sangrar,
vão te fazer sentir quase excremento.

Mas calma: age sem arrependimento,
tua hora de luz não tardará a chegar.
A impiedade é assim de efeito lento,
somente o tempo tua dor há de curar.

Deixa que te exponham por aí sem ar,
na loucura de teu mais doido intento,
que é querer, amar, sorrir, sonhar,
nem que seja da vida um por cento.


O tempo
p/ o menino André, lá longe

"O tempo perguntou ao tempo:
- Quanto tempo o tempo tem?
O tempo respondeu ao tempo:
- O tempo tem tanto tempo
que nem o tempo sabe o tempo
que o tempo tem".

O tempo entrou no relógio.
Ponteiros tics e tacs.
O tempo sem perder tempo
deu um tempo entre meio dia
e meia noite. Perdeu a hora.
E está atrasado faz tempo.

O tempo passou pelo calendário.
Dias semanas meses.
- Um ano é muito tempo
e passa voando ligeiro...
Tudo isso é passatempo.
Cuidado com o contratempo.

O tempo viu a tempestade.
Provou fruta temporã.
Degustou temperos.
Experimentou a temperatura.
Viu que tudo é temporário.
Abaixo e acima da têmpora.

O tempo é este. O tempo é já.
O tempo é tampa de jacá
dentro do qual tudo há:
crianças brincando, jovens curtindo
e velhos vendo o tempo passar.
E gente que nem tempo tem.

O tempo perguntou ao tempo:
- Quanto tempo nos restará?
O tempo respondeu ao tempo:
- Dê tempo ao tempo, pois somente o tempo
com o passar do tempo saberá.
Temporariamente não dá.

 

meu coração
ranzinza
é ardente brasa
sob fina camada
de cinza
assopre
sopre
que ele sofre
sofre
e faça isso logo
que ele quer pegar fogo
amar
incendiar
chama
chama
chama


plantio

não temas
crê
semente


tanto
para nada
no entanto
nada pára
entretanto
cada palavra
é portanto
clara

 

adiei a dor de saber
que a senha para o sonho
é a solidão de ser
(e só
sou)


em
tudo
feliz
ano
todo

Silêncio
Silêncio dói.
Saudade mói.
O adeus corrói.

 

 

in finito além alvo

 


o
som
silencioso
o grito que sai
é a voz que se alevanta
é o alto brado que se solta
para encontrar eco na liberdade
o peito é a fonte do emudecer com sons
as palavras habitam o ser e lhe dão significado
o que os olhos dizem está impresso nos dicionários
dessa desalma
calm- a -flita
a me indicar
há o infinito
bem no alto
além acima
extramundo
reestrelares
psilenciosas
tudo quanto
sobrevi-verá
a mãe Terra
los desastros
las galáxias
a antimatéria
disse minada
nos es paços
pre tomados
em um todo
micro cosmo
macrocosmo
eco sis tema
en sol arado
homosapien
nãovivenada
nuncavêolha
alt as alturas
no azul azul
a silen ciosa
increme n t e
inclem e n te
rompenuvem




verdadeiramente
verdadeira
verdade
mente
ente
etne
etnem
edadrev
ariedadrev
etnemariedadrev



 
 

 

UM LANCE DE DARDO
UM LANCE DE NERDS
LANCE
DE DÓ

UM LANCE
D DÉDALO

LANCE
D DUO

UM LANCE DE LANÇA

UM LANCH
E



 

 

 

o primeiro dos cinco sentidos
a visão

viu o cego e não tinha nada a ver
não soube dizer se nele haviam dois ocos
ou duas saliências na face
não enxergou sua cegueira enfurecida
nem visualizou o ser transtornado que é
que em vista da razão se vendara
pois estava mais cego que o cego que viu
mendigando a luz de sua visão
o enxergar com olhos em vão
e então o que fazia sentido
era de sentido obscurecido

 

 

o segundo dos cinco sentidos
a audição

ouviram do i
às margens plá
um gri um bra
retum
e o só da lib
em rai osfú
bril no
da pát
nesse inst
(ouviu tudo pelas met des
e meia dúzia de palavr bast)
nada houve
de mouco
audível
silêncio ruído
de indepen
ou mort

 

 

o terceiro dos cinco sentidos
o olfato

isso não está cheirando
bem aromatizado este escrito
odorífera fragância
olor de raro faro
ou de perfume
ou de fetidez
que o frasco de ti
tem meu rastro

 

 

o quarto dos cinco sentidos
o gosto

ainda não senti o teu
sei que teu rosto tem o gôsto que gosto
que teus lábios carnudos são gostosos
das delícias que são tuas maçãs róseas
e do sabor inesgotável de tua íntima flor
de pétalas macias agradáveis ao paladar
que hei de desfrutar com mil talheres
no banquete de nós dois afoitos
bendita és tu entre as mulheres

 

 

o quinto dos cinco sentidos
o tato

tenha tato
não ponha a mão em coisas minhas
(meu coração por exemplo)

tudo bem que não queiras
fazer amor comigo
(saiba o onanismo exige tato)
claro entendo estás certa
o amor é cego cego cego
(por isso tens que ter muito tato)
folgo em saber como dizes
que és mulher de muitíssimo tato
(sinal de que vais se tocar e apalpar)
importante que não generalizes afirmando
“os dedos das mãos não são iguais”
(mas também não são de todo diferentes)
vives metendo os pés pelas mãos
não demora e todos te chamarão
de contorcionista
meu amor, além de lavar as mãos, nada viu
também quem te mandou esfregar os olhos
com as mãos ensaboadas
aproximou-se de mim frágil
com uma mão na frente e outra atrás
(até que tirou a mão da frente)
vês essa asa?
é a asa esquerda de um pássaro
(eu na tua mão) minha asa direita está voando
 



 

 


a lua
sozinha no céu
não é mais sozinha que eu

mas me comparo à lua
qual sombra à sombra
no breu

luz própria ela não tem
eu sem luz vivo também
mas se o sol a irradia
qual musa inspira poesia
movimenta a astrologia
vira deusa da mitologia
brilhando clara no além
a lua tem suas fases
gira em torno de seu eixo
eu vivo horas fugazes
minguante e cheio de quases
crescente em meu desleixo
verdade que não queixo
mas ser novo nunca me deixo
eu que sou apenas mais um
com a lua tenho em comum
a falta de atmosfera
e sua superfície estranha
sou sua maior cratera
ou quem sabe alta montanha
ou mesmo a sequidão
da planície de seus mares
que perdidos na imensidão
estão em muitos lugares
ou ainda sua poeira lunar
que a minha sofreguidão
sacode ao se levantar
para vagamente boiar
qual a lua na amplidão
rumo ao nada ao nunca ao não
somos satélites solitários
ela e eu secundários
ela tem sua face escura
eu tenho cá essa secura
ela é imponderável
e eu incomunicável
na distância que nos encara
minha imprecisão é sua metade clara
isolada é sua tez
a lua é mesmo sozinha
mas sua sozinhês
nem chega perto da minha
sei que sou aluado
vivo no mundo da lua
sempre desacompanhado
tendo a companhia sua
vejo-a longe longe pairando
com ela me equiparando
seu são jorge com sua armadura
enciumado com essa loucura
não gosta da comparação
seu cavalo monta minha solidão
o guerreiro com sua lança afiada
crava a pontiaguda numa fincada
em meu coração de dragão
sem fogo pelas ventas
frágil na imensidão
sem amor e sem nada
sem brilho sem emoção
sem jamais ser contemplado
por olhos de admiração
sim, a lua sozinha no céu
não é mais sozinha que eu
a lua tem quem nela se inspira
de poetas é alvo de mira
por ela há quem suspira
quanto a mim ninguém percebeu
meu coração mal respira
e dragônico solitário delira
e tão lunático já enlouqueceu
é alheio e distraído
coração de anjo caído
por seu são jorge ferido
em completa dor de abstração
a lua pode ser sozinha
mas não se compara à minha
a sua solidão
lua, sou eu o seu mais louco louco
de mim não faça pouco
ó luar de meus pés sem chão
 


 


o que penso
o que sinto
em imenso
labirinto
de complic
ação
meu sentir
é na cabeça
meu pensar
no coração



 

 


despir-se
da roupa
vestir-se
de nua
e deixa
correr
o mel
da lua



 

 


deus
&
caos
vêm
no
plurauls



TeXtO
c
Om
tExT
o
C
oNtExTo

cOnTeXto
S
eM
tExT
o
C
oNtEsTo

 

aquele amasso
p/ gilberto gil flora gil preta gil e joão gil e garçons do splanada grill no riu viu?

o rio de janeiro continua indo
o rio de janeiro continua medo
o rio de janeiro febre dengue mato
alô, alô minha nêga
aquele amasso
alô benedita
quanto fracasso
alô, alô seu marinho
ibope é traço
alô alô garotinho
língua de trapo
fernando permanece traficando a droga
mandando em bangu um e em todo o pedaço
falando ao celular com o cartel inteiro
alô, alô fernandinho seu maloqueiro
alô, alô beira-mar o rei do cheiro
alô, alô seu delega tranca o bandido
alô, alô rosinha sê rosa choque
alô cambada do assalto vê se não mata
toda a gente periféra olha o balaço
todo o povo que trafega muito cuidado
com tanta bala perdida nesse pedaço
alô moça carioca o que é que eu faço
quero teu beijo moreno e teu mormaço
minha praia é teu corpo e teu regaço
eu te vejo e logo esqueço todo cansaço
alô rio de janeiro rio sozinho
o rio de janeiro continua indo
o rio de janeiro continua end
o rio de janeiro é maneiro e fácil
alô alô menina mina te pego a laço
teu footing no calçadão é passo a passo
alô dona do meu eu eu sou teu macho
alô miss do mundo meu solta no espaço
vou lamber o pão de açúcar de cima a baixo
vou comer a tua fruta até o bagaço
sou sensível minha linda mas sou de aço
eu sou pobre pobre pobre anti-ricaço
mas te amo minha vida aquele amasso


o (f)ato de (eu) escrever

escrevo por escrever escrevo breve no crivo
escrevo para ser lido por quem me quiser ler
escrevo pra espairecer e nunca pra aparecer
escrevo porque descrevo o que atrevo a dizer
escrevo qual escravo cravando cravo de ferro
escrevo trava travessa travesseiro travessura
escrevo qual escrevente lavrando a escritura
escrevo no escritório na escrivaninha escrota
escrevo crio criando criativo criado da criatura
escrevo preto no branco papel e tinta se tanto
escrevo de saco cheio urinando matéria prima
escrevo gravo e treleio letra lápis grafite e bic
escrevo conversando acordado até dormindo
escrevo batendo teclas do alfabeto enfadonho
escrevo palavra fácil na linguagem dificultada
escrevo verbos pronomes sinônimos adjetivos
escrevo espada afiada lâmina sangra a corte
escrevo dona maria senhor josé e sua família
escrevo pão de manhã e suco ou café à tarde
escrevo banalidades para ler e perder tempo
escrevo brincando de nada no vazio do papel
escrevo crônica poema conto romance novela
escrevo receita de bolo três ovos fubá e óleo
escrevo açúcar e ponho na vasilhinha de sal
escrevo a esmo mesmo mas fujo da mesmice
escrevo merda bosta e muita gente não gosta
escrevo tanto agora que não páro de escrever
escrevo coisa com coisa que a coisa já coisou
escrevo fim e a escrita ficou restrita ao escritor
escrevo basta de tudo e nada do escrito ficou
escrevo a penúltima linha e leio o que escrevi
escrevo o que escrevi e o que li aqui não creio


ninguém

sou um poeta menor
minhas rimas são pobres
meus versos nascem livres
sou um servente em minha obra
misturo areia grossa cimento e água
minha poesia concreta leva ferro na estrutura
minha inspiração é cerebral e não sangra o coração
quero enxugar o texto dele retirando o maior número de palavras
pois sou um poeta menor alheio a pormenores da poética água com açúcar
sou um poeta menor que escreve com minúsculas poemas que ninguém tem saco pra ler


liric

as borboletas
poderiam atingir o sol

se vivessem o suficiente


nadatudo

não há nada que eu possa fazer que já não tenha sido feito
a não ser talvez consertar o que acaso venha com algum defeito
ou quem sabe reconstruir o que necessariamente possa ser refeito
ou ainda me considerar capaz de ajeitar o que certamente não tem jeito
qualquer uma dessas tarefas que me outorgarem posso adiantar que aceito
que mesmo não sabendo fazer nada de novo sempre encontro um novo conceito
e dessa maneira vou levando minha inventiva criatividade meio que na raça e no peito
obstinadamente procurando imaginar aquilo que eu seja capaz de criar a partir do desfeito
e dessa maneira vou levando minha inventiva criatividade meio que na raça e no peito
que mesmo não sabendo fazer nada de novo sempre encontro um novo conceito
qualquer uma dessas tarefas que me outorgarem posso adiantar que aceito
ou ainda me considerar capaz de ajeitar o que certamente não tem jeito
ou quem sabe reconstruir o que necessariamente possa ser refeito
a não ser talvez consertar o que acaso venha com algum defeito
não há nada que eu possa fazer que já não tenha sido feito

 

egocentro

o que seria de mim
não fosse ela

o que seria dela
não fôssemos nós

o que seria de nós
não fosse eu

 

Teus olhos têm palavras

Teus olhos têm palavras.
Frases de ver/olhar.
Leio amor na visão de mim.
Ouço amor visivelmente.
Amor me vê de retinas claras.
Amor me observa de íris livre.
Se fechas os olhos, anoiteço.
Manso, descanso, alcanço esse par
de infinitos
olhos em silêncio.
Abres, e o sol, turbilhão de dizeres
fala por teus olhos, em cores falantes.
Amor me ouve no que falares.
Amor existe se me olhares.
Teus olhos traduzem sentimentos vários.
Olhar de amor, resumo de dicionários.


Estou no sereno

Estou no sereno
para te dar o luar.

Colho girassóis à noite
para teus buquês de orvalho.


ego herege

o olhar contra a luz
- estou cego -
vejo vulto de cruz
e a Jesus nego
sua chaga traduz
ausência de prego
não há, no Cristo, pus,
nem, em mim, ego

 

mr. down

no abandono de mim
não mais me possuo

sou ninguém enfim
e em nada atuo

cheguei ao fim
e assim continuo

do etéreo vim
e nesse rio fluo

 

fogo

começo a sentir
sobre a pele
as escamas

serpente?
peixe?

na veia
corre a chama

queima
voraz

o anti-ser
sou

 

Linhas sem alinhavos

1) Saudade transpira em mim que respiro saudade sem fim.
2) Sozinho, deserto. Contigo, incerto.
3) Meu amor agora é dor. Agora é dor meu amor.
4) Para mim, um minuto é eterno e absoluto.
5) Por enquanto, me recolhi. Mas ainda direi: desisti.
6) Sou um projeto da falta de afeto.
7) Insistente, aflito, hei de alcançar o infinito.
8) Teu coração me acusa. Meu coração me recusa.
9) Com a vida fui me escrevendo e com o tempo vou me lendo.
10) O amor acabou-se forte e no fim me deixou sem norte.
11) Será que só, comigo, só assim consigo?

 

preciso ser exato
exato e preciso

é preciso ser exato
c o n c i s o

 

não tiro versos da manga
só tenho palavras no bolso
sentimentos coração peito nu
inspiração à flor da pele

poesia não dá camisa a ninguém


stelar

em seu rastro luminoso

estrela soltou um e

depois deixou cair o r

 

amor pelo futebol
p/ andrezinho

eu team o


o poeta segundo o dicionário

o poeta é
aquele que tem faculdades poéticas e se consagra à poesia

o poeta é
aquele que faz versos

o poeta é
aquele que tem imaginação inspirada

o poeta é
aquele que devaneia ou tem caráter idealista

vate catar


simplice

pensei:
múltiplo sou
desdobrado em partes
de substâncias diferentes
com elementos acrescentados
vasta complexidade
intransponíveis dificuldades

que nada

sou mais que singelo
tão simples que chego a ser simplório
sem ornatos
de fácil utilização
de facílima compreensão
sem mecanismos mirabolantes

e sou mais

não encerro conotações
tão puro chego a ser mero
vivo a informalidade da artevida
ser normal quase comum
sem aparato ou ostentação
de modestíssimo poetar

meu luxo é o verso

mas saibam, ó musas perversas:
ainda que meu coração de poeta seja sem malícia
e beire a ingenuidade
um coração papalvo, crédulo
saibam que não me deixo facilmente enganar

eu sou pobre pobre pobre

quem me ache uma criaturinha
mas estou fazendo fortuna com as palavras
já posso comprar um caderno e um lápis
ir para a fazenda e abraçar as paisagens
que venham os poemas espontâneos
que falem as emoções menos brandas
deixarei essas perversas babando
musas maquiavélicas danadinhas
impacientes para o banquete do trovador

ai de mim que sou humilde e só

e justo eu que escrevo e falo simples
e não sei de amor mais que a solidão de desejá-lo
ontem dei para expressar a forma verbal amara
que pertence ao mais-que-perfeito simples de amar


abstrações

coragem e medo
alegria e tristeza
pobreza e honra
são exemplos abstratos

pensas dizer não à realidade sensível

pensamento e ciência te envolvem

o não figurativo
o transcendente
a irrealidade
te elevam

o insensorial
o desconcreto
de difícil compreensão
a obscuridade em tela
tudo é vago
o abstruso invade
tu te distrai na dor de amar sem amor

ela assim distraída
ela tão desatenta
amar é mais difícil que se deixar abandonar

eu e minhas idéias
arredio ao material
eterno poeta sem musa
pois amar me é impossível já tendo sofrido a dor de amar


e friedrich wilhelm nietzsche descriou deus

dândi
por onde ande
&
ateu
enquanto eu

 

um bife

resumo
síntese
abreviatura
sumário
epítome
sinopse
concisão
redução

do boi de corte


belorizonte, minhas gerais

primavera vera vera veremos
o inverno o outono e o sol de verão

horizonte belo belo horizonte
um concreto armado no meu coração

poderosa rosa rosa poderosa
flor da ilusão

primavera vera vera veremos
o inverno o outono e o sol de verão

horizonte belo belo horizonte
cidade feliz mas que felicidade

poderosa rosa rosa poderosa
flor da solidão

 

letra de uma singela canção de 1976

na rua em que eu moro tem um anjo
que nunca pecou e que se chama solidão

na rua em que eu moro existe um homem
que muito sonhou e se perdeu na ilusão

que vive sozinho sem destinação
acordando sonhos em seu coração

que muito ganhou em tudo que perdeu
o homem solitário sou eu

 

delirium imaginarium transitorium ad infinitum
(carta enviada por paulo cotta pacheco)

experimenta o lado escuro
cega a claridade da luz do entendimento
a consciência da realidade não interessa
qualquer distúrbio te favorece
se alterado o raciocínio te reconhecerás
fixa a idéia pois é tudo arrebatador
teu espírito é inquieto por natureza
a excitação deve movimentar teu ser
sê desvairado e te julgarão sem órbita
exalta não a falta de ar nos pulmões
mas na cabeça na máquina mental
as correntes elétricas de teus neurônios
teu cérebro desmaterializa a lógica
sê extremo na falta de lógica formal
foge do evidente processo intelectual
o conhecimento verdadeiro é a loucura
quebra as regras de todas as estruturas
modifica as operações do pensamento
renega a tradição empírico-positivista
a matemática do sonho te arrebatará
tudo é simbólico e nada existe sem ti
a apreensão da realidade advém da dor
deixa de ser a totalidade do que vives
sem uma transformação permanente
serás comum como todos os santos
não há dialética não havendo síntese
uma idéia independe do que pensas
coerência é um curvo caminho retilíneo
eras criança e vivias de tuas descobertas
somos de infantil raciocínio primitivo
o louco vive o abstrato dimensional
tudo o que acontece estava imprevisto
abaixo regras e princípios de orientação
para que explicitar o que implícito está?
mesmo em argumento não sei a resolução
entender um sonhador é desnecessário
fale-me em cálculo e te dou mil lágrimas
as variáveis são graus da maior incerteza
a veracidade está contida na falsidade
fraciona a linguagem coisa-com-coisa
fala muito e diga o mínimo que puderes
não estarás na plenitude de teu juízo
tudo para ti é difuso e nada é simples
afirmação e negação és criador de deus
és o inventor do divino de teu céu
espera a morte que ela vem e não tarda
a morte é aconchegante ela é profunda
a eternidade é o sono da inconsciência
o lado escuro te absorve é nele que vives
a luz do entendimento causa cegueira
a loucura é a matrona que mansa te acolhe

 

fugitivo cego

eu não sou este que lês
que este nada escreveu
e nem sou aquele que vês
que aquele desapareceu

eu não sou este que sonhas
que este há muito acordou
de suas manhãs risonhas
e a tarde inteira chorou

eu não sou este que pensas
que este não existe mais
pra ele ficaram tensas
todas as coisas banais

eu não sou este que tens
que este jamais se deu
não o inclua em teus bens
que este não será teu

eu não sou este que queres
que este nunca se apega
abandona-me se puderes
ou segue minh'alma cega


46 PLATÔS
receba-os como seus, criaturinha

1-
O pássaro tem sono.
Suas asas
adormecem.

2-
Fui um templo.
Até que idolatrei
a mim mesmo.

3-
Teus olhos:
enigmática fonte
de visões sêcas.

4-
Palavras, palavras.
Sons da pronúncia
silenciosa.

5-
Solitária floresta.
Cada árvore
é uma ausência.

6-
O tempo de antes,
quando o agora
era futuro distante.

7-
Tudo é mistério.
Inclusive
o nada.

8-
Longe estás.
És tão distante
que nem sei onde ficas.

9-
Estrelas.
Sendo incontáveis,
não há como contê-las.

10-
Estilhaços no firmamento.
Estrelas explodem,
se despedaçam e se arrebentam.

11-
Boiando no espaço,
a Lua não é tão velha...
A Terra também não é nova.

12-
Amor: fragmentos
de frações de segundo
aos quatro ventos.

13-
O sol de meu peito queima,
com seus raios abafados
e contidos.

14-
Impossível.
Impossível é esconder
tua luz dentro de mim.

15-
Ouça o que ontem gritei
em alto e bom som:
- Silêncio!!!

16-
Cego, tateio
flores multicores
crescidas no passeio.

17-
A diferença
entre tarde e noite
está no absoluto.

18-
Cuidado com a baba
do cachorro manco
zumbizando ao sol de agosto.

19-
Pisar em flor não é nada.
Pior é amassar
seus pólens.

20-
O sol
madruga
pra clarear.

21-
Revela-me um grande país
de insondáveis paisagens
a geografia de teu corpo.

22-
A água
é um peixe
líquido.

23-
Tudo que é
oco
não ecoa.

24-
Narciso
é quem vê num lago
um espelho.

25-
Nuvens realçam,
com suas rendas,
o azul.

26-
Silêncio.
Dor
da solidão.

27-
Sou:
uma estátua
com uma idéia fixa.

28-
Na ponta dos dedos,
suas carícias
são fachos de luz.

29-
Coração,
cavalo muito bravo
escoiceando o peito.

30-
O tempo
é um passo
à frente.

31-
Ah! esses pardais...
Pássaros leves
de meu lugar-comum.

32-
Tua boca
é um cantinho
de açucenas.

33-
Queres a intensidade
de duas asinhas
em meu azul imenso?

34-
Meus braços
só não abraçam
quem não os alcança.

35-
Liberdade,
vem -
me captura!

36-
Se posso te exprimir
por palavras, digo:
és inefável.

37-
Estéril, intacto,
o coração deserto
é um cáctus.

38-
Mais de mil aromas
tem a florzinha suave
de teu sorriso tranquilo.

39-
Os sons
do espaço
são multicores.

40-
Finda a tarde.
O sol em si
é só lilás.

41-
Raiz suspensa,
paira solta no azul.
Abismo fundo do caos.

42-
As tardes.
As de terça
crepitam mormaços.

43-
Não convém suportar
as profundidades
das superfícies.

44-
Atirei uma pedra
ao vento.
Não pesou nada.

45-
O tempo?
Ah! o tempo
não nasceu ontem.

46-
No meio
do caminho
tem um pingo no i.

 

viajando na maionese
(literalmente)

composição
a maionese é um produto obtido da emulsão de óleos,
ovos, açúcar, água, sal, suco concentrado de limão e vinagre.
contém aditivos EDTA, cálcio dissódico (antioxidante),
TBHQ e óleo de resina de páprica

características nutricionais
em cada 100 g, o produto contém em média 712Kcal de calorias, 1,0 g de proteínas, 1,5 g de carboidratos,
1,7 g de sal, 78,0 g de lipídios, sendo que em cada destas 78 g contém 4,72 g de ácidos graxos saturados, 50,15 g de ácidos graxos monoinsaturados, 23,10 g de cidos graxos poliinsaturados e 0,058 g de colesterol
e contém ômega 3

a embalagem é um pote de vidro
com 250 gramas de quantidade nominal
8 meses é o prazo de validade
pesa 386 g
tem 112mm de altura
diâmetro/base é de 66mm

a maionese é preparada com ingredientes de qualidade e temperos cuidadosamente selecionados para atingir a cremosidade ideal para dar aquele toque especial, saboroso e saudável no seu lanche, na sua salada e em todas as suas receitas favoritas

 

dízimo

religiões são como leilões
em que pregadores lucram
com seus pregões
ou melhor
pregações


subcutânea

sob ponte de safena, coração,
passa rio de sangue

 

historinha

a moça dos meus sonhos
me tirava o sono

foi então que eu vi
que se ela me tirava o sono
não havia sonhos

a moça deixou de existir


quadrinha

minha vida está em alta
minha vida está em festa
o tempo que me falta
é o tempo que resta


frase solta
o que ninguém sente não tem sentido

 

é sempre assim

a montanha vem até Maomé
que não tem fé para escalá-la


luna

a lua minguante é um C no céu

louca para ser crescente


fêmina

ganha um homem
perde o hímen


bíblia começo e fim

o casal do gênesis
gerou
os quatro cavaleiros do apocalipse


famoso quem

creio nisso de fato:
o sucesso me leva
para o anonimato

e, mal pago e fodido,
serei um popular anônimo
um ilustre desconhecido


escrever é uma viagem

escrever é uma viagem
escrever é a paisagem
escrever é a bagagem
escrever é paragem
escrever é vadiagem
escrever é a pilotagem
escrever é aterrissagem
escrever é decolagem
escrever é a engrenagem
escrever é embreagem
escrever é ultrapassagem
escrever é sabotagem
escrever é derrapagem
escrever é a passagem
escrever é uma viagem


código de barra

fui absolutamente cardinal
cinco, nove, setenta e sete vezes

houve um tempo em que cheguei a ser fracionário
assim meio, terço, sexto, vigésimo

depois multiplicativo
como duplo, triplo, quíntuplo, sêxtuplo, décuplo

cheguei à série ordinal em primeiro,
segundo, décimo, undécimo, octagésimo

hoje eu mesmo faço meu número
atômico áureo binário cardeal combinatório complexo composto primo abbe avogadro fermat loschmidt mach dual ímpar inteiro irracional natural negativo octal par perfeito pi pitagórico positivo transcendente transfinito triangular


então leia

para quem sabe ler

.

um pingo é letra


GYN

inúmeras
ruas com nomes T’s
numerosas
ruas denominadas C’s
precedidas de incontáveis números

a T-4 e a T-5 ficam num setor bom
aliás, Bueno

a C-208 fica no Jardim América
a C-259 no Nova Suíça

terra qualis vitae
meu bem

você de sua rua me expulsou
a letra apagou o número subtraiu

estou longe agora
sem C nem T

não sabe que só mulheres perfeitas
outras ruas enfeitam?

fiz a análise que você pediu
acabei de crer
Goiânia é o ponto G
do Brasil


calendário doméstico

domingo
mãe, tem macarronada? tem frango, mãe? do jeito que eu gosto, no molho de açafrão? comi tanto, bati os ossos no prato, a cachorrada se ajuntou em volta

segunda
o despertador me assustou logo cedo. pulei da cama. a bicicleta de pneu furado. tive mesmo que pegar o cata-jeca. saí de prima

terça
era pra ser um dia dos mais comuns. Mas vejo a poética. sei o que o padre latinista me ensinou: na liturgia católica, meu filho, terça é uma das horas canônicas. aprendi depois, terça ou tércia é o mesmo que 9 horas da manhã. as outras partes em que se divide a recitação do ofício divino ou breviário: matinas, laudes, vésperas, prima, sexta, noa e completas

quarta
ela esteve aqui em casa. o colchão macio macio. o paraíso orthocrin de gemidos mais que gostosos, cintilantes e gozosos. quando ela se foi era meia hora do dia seguinte

quinta
minha namorada apalpando-se descobriu um nódulo no seio esquerdo. é benigno, meu amor, é benigno. e foi esse o diagnóstico do médico. o danado tocou no que é belo e bom. escalei a montainha de ciúme? não, sim, não, talvez

sexta
hoje tem ensaio da peça. estou atrasado com o texto da última cena. preciso bolar o título do anúncio sob minha incumbência. a imagem de são sebastião que ficava na cristaleira caiu e se quebrou. juntei os caquinhos do santinho. coitadinho de meu sãosebastiãozinho. o soldado convertido. rogai por mim que também ando numa quebradeira

sábado
viajei na maionese. Verona é melhor que Belo Horizonte. mas nem tanto assim. Eu volto, querida. amanhã tem frango e macarronada na casa de mamãe

 

o site fala

por aqui
você passa:
"que papo de índio
essa nuvem de fumaça"

acesa me acessa
sempre com pressa -
e até vira o rosto
"é muita letra pro meu gosto"

você me olha
mas não me lê
e diz "eu voltarei amanhã"
e sempre en passant

você vai ver, viu
acessou não leu
nuvem romeu
ou melhor rompeu

 

enigmatismo

você ainda não entendeu
você não vai entender nunca

jamais entenderá você a mim o que de mim você tem
o que de mim você vê o que de mim você lê e não crê

entender até pode ser o mesmo que compreender
mas intendere na raiz da palavra é que são elas

eu sei que sou enigma indecifrável e você sabe
um segundo antes um segundo depois e não sou igual

saber o que é ter idéia clara disso tudoaquiagora
perceber a graça do escritor escrito

você não é perita você não tem prática
por isso não deduza cabeça de medusa

não conclua fica na sua
não procure me achar e nem meu mundo na lua

nem pense em pensar e em compensação
não se meta a interpretar minha insignificação

o sentido é a própria idéia transbordante e mental
você me lê e bóia no mar smo de si sem sal

não faço versos como aquele que boemiza trazendo poeira das estrelas
as noites já foram mais noites e a turma do sereno já orvalhou de sono

fiz nevar nos trópicos mas consumi quase toda minha energia vital
levando meu sol raio por raio para o lado mais gélido do sul polar

minha poesia é meu igloo sem mim vazio
se tentar me entender você vai morrer de frio

 

por hoje é só

por
hoje
eu

a vida inteira vivida pelas metades

eu

por
hoje

a vida inteira inteiramente amei meia amei-a

 

textinho do mestre Millôr

daqui
A língua, acima e abaixo da superfície
O trocadilho, não sei por que, se convencionou chamar de ''a forma mais baixa de humor''.
Nunquinha.
Sem ele não existiria Joyce, não existiria Shakespeare (trocadilho o tempo todo), não existiria Molière.
Olha, a literatura perderia uma de suas faces melhores.
Por exemplo, pra quem, cristão, sempre quis saber o que é a graça de Deus, basta visitar a Igreja de São Pedro.
Está lá, na cúpula, o trocadilho em tamanho gigantesco: ''Pedro, tu és pedra, e sobre ti edificarei a minha Igreja''.
até aqui

et = emtempo
millôr milhor
humillôr humour
ri de si
mestre
ainda lhe envi@rei um e-meyer arroba ponto com
br = boaredação


não tente ver a vertente James

trocadilho
dilhotroca trodicalho
trolhocadi trocalhodi trocodilha
calhoditro dilhocatro
trocadilho

a frase de efeito depende muito do efeito da frase
o efeito da frase na frase de efeito
o efeito do efeito na frase da frase
o efeito frase dá efeito na frase

nunca li finnegan's wake
não cheguei ao fim de ulisses
dublinenses que nada
lennon nonsim
becktett tett a téte
jarry já ri de pauleminsko
sou da cultura do contra a contracultura
a poesia concreta ainda não tem o patrocínio do cimento Goyas

pign
atari games de palavras = jogo jógo jôgo jõgo
os irmãos campos gerais rosa rosae rosado roceiros = fazenda é fazendo-a concreta campos e pastos
= ó solidão de boitempo nos campos
= em todos os campos a poesia joga
= a publicidade a síntese o roteiro o verso a palavra a pala a lavra
= breve bebe mono sí-la- bica
= água agá dois ó aguado
= meu humor é líquido
e incerto


alembrar

lembrei-me de dizer. meros lapsos de reminiscências vagas. como tenho memória fraca, esquecer nosso amor tem sido meu forte. ah, mas é melhor esquecer a memória boa do cheiro do gosto do toque do êxtase. sim, até que tenho ótimas recordações de quando tinha boa memória para nosso sentimento amoroso. aquelas velhas lembranças que caem sempre no esquecimento, ex-amor. nosso amoro, por exemplo, tinha memória curta e agora tem amnésia looonnngaaa. desculpe-me, amour, é que havia esquecido que a palavra aminésia não tem i. como também me esqueci por completo a melhor marca de sabão em pó. não é que deu um branco total. aquele com que lavavas alvas camisas e brancas cuecas e claras meias. ou não tinha nada disso, nem varal? leia-me e esqueça o que leu de mim esquecido esquecendo-te esquecedor. não sinta mais. dessinta. viva a dissintonia. o que é mesmo esse sentimento, o amor? esqueça ex.

 

te desamo

de onde menos
se espera
é que coisa alguma
pode chegar

 

todas as palavras ou quase

ó vocábulos de minha língua
alfabeticamente procuro-vos
no pai-dos-burros
abro o desmancha-dúvidas
vasculho no tira-teimas
páginas esclarecedoras dos dicionários
anseio por vossos significados vários

ó meu enciclopédio anti-tédio
tudo que agregais latinais
em gráficos sinais
de consoantes e vogais
regras gramaticais
marcas flexionais
termos coloquiais
normas lexicais
modos estruturais
conjugações verbais
íntimas funcionais
substantivais adjetivais adverbiais
palavras a mais dicionarizais
com sons e tudo o que significais
palavras registradas no Aurélio
palavras organizadas no Houaiss


por tudo que é mais sagrado

tomara
que o dia do Juízo Final
não seja hoje

 

gibis

Batman é Bruce Wayne
Zorro é Dom Diego
Superman é Clark Kent

e você
quem é?


lenda lenga

o gato de sete-léguas
bateu as botas

 

para a gatinha

no escuro
todos os gatos são pardos

no claro
todos os gatos são lerdos

 

tardança

aguarde
ainda é cedo
para o retarde


cético

como nunca vi São Tomé
não acredito nele


sinuca

estando
numa
sinuca
confie
no
seu
taco


laurinha

a beleza infantil da menininha
já esboça uma arte-final adulta


como é contada


a história do pecado original
não é nada original


casório

lua de mel
"enfim sós"

anos depois
"S.O.S."



dedos

anéis bonitos
não escondem
unhas feias
 

 

travessia

a ponte acrescenta ao rio
ou o rio estabelece a ponte?


 

qualidade

e vive
muito
melhor
quem
vive
melhor
e muito

 

queixosa

tua vida
é uma estrada
cheia de espinhos

então
não é bom
ter os pés no chão

 

não é o cão

o chão
é o melhor
amigo do homem

 

então

o que mudo fala
surdo não ouve

 

colméia

abelha-rainha
e zangão
em lua-de-mel

 

acabou viúvo

o
casamento
foi
indissolúvel

 

da hora

Christian Huyghens
inventou o relógio
de pêndulo

o holandês
fez hora
com a cara
de todo mundo

pra lá pra cá
pra cá pra lá

 

extremista
até
ele
tem
seus
meios

 

salcet

home
insert
print screen
pause
page
up
delete
page
down
scroll
lock
pause
break
num
enter
ctrl
alt
esc
tab
caps lock
end

 

âmbito semântico

porque através da palavra sou poderoso

renovo a nova metáfora

não estou preso a nada
nem tudo me prende
no reino dos sonhos serei rei
sob as ordens de quem?

 

cicatrizes
inventário

vou te falar das coisas que aprendi
no tempo em que tudo era como sonhei
hoje estou pensando no que perdi
pois me esqueci do que ganhei
e não tem nada a ver com o que pensei

muitos amigos presos em muitas prisões
aqueles que eu julguei uns sonhadores
estão pagando suas ilusões
nas mãos aflitas dos torturadores
nas opiniões e nos rancores

e eu na vida mansa
de muita sombra e água fresca
vivendo o dia a dia
sorriso aberto cabeça feita

estou nesse caminho
e o que não vai bem a gente ajeita
não vou pichar os muros
o que é esquerda
o que é direita?

 

espere não se desespere

vou me atrasar um pouco para o encontro com você depois dos meados de outubro
mas novembro juliano e gregoriano se oferecerá com trinta dias e a vida toda bem mais
até lá as sibipirunas já terão esbanjado todos os cachos de suas amarelas flores
muitas cigarras machos já terão se arrebentado de tanto cantar para atrair seus pares
estarei só em algum lugar longe do mar perto do sertão misturado à paisagens
minha cabeça merece o descanso que meu coração não tem e quer e sonha ter
preciso reescrever essa frase antes que se torne verdade para as duas atentas leitoras
reescrevendo então: meu coração merece o descanso que minha cabeça jamais teve
você me disse que eu amo com a cabeça quando deveria amar com o coração
você não tem prestado atenção em mim: nem cabeça nem coração corpo inteiro sou
somos uma integral indefinida em dois pontos especificados do seu domínio do seu do seu
se eu demorar mais que o previsto pode saber que é porque lá a lua estará convidativa
ando comovido comigo suspirando ox i gênio de tanto versejar vida prática contigo
minha bela a manhã é sua a tarde se oferece e a noite se deitará a seu lado em minha ausência
não se preocupe espere que n'algum lugar meu pensamento estará galopando desesperado
quando chegar quando estiver de volta trarei um molho de flores campestres colhidas no descampado
é o sinal querida de que estarei maior que agora você imensidão de mim amplidão de tudo que sou
é só um tempo um adiar dos olhos sentir a sua mão na minha mesmo estando entre nós a distância

 

mudanças

se eu der uma sumidinha
se assuste, não, eu volto eu volto
tenho que fazer umas coisas
talvez leve alguns dias
você tem meu e-mail
é o canal do encontro
do sinal de vida câmbio
pode dizer saudade
ou não estou nem aí
pode ficar calada
que de silêncios entendo
abrir o rompenuvem
ler reler treler multiler
nas entrelinhas eu
tentando dizer distante
ausente dizendo espere
palavras só sabem repetir
outras palavras por vir
cansei-me das palavras
parto normal de letras
casa cheia de frases
cruzei com meu parágrafo
e ele nem disse bom dia
será porque era noite?
meus textos são assim
ao deixá-los de lado
eles entornam comigo
não se acostumam nunca
com o choque do breu à luz
sempre imediato e lúdico
quem no breu navega a luz cega
não cabem no mar o orvalho
e a lágrima


aviso aos navegantes

antes de começar a ler o que se segue
pense pense pense

humor bom
só depende
do bom humor

quem ri por último
pode ter o raciocínio lento

mau humor
leitor?
o seu
ou este meu
que você
leu?

humor?
bom
este exemplar
é um péssimo exemplo

 

adão adão

no barro do qual o homem foi criado
devia ter alguma minhoca

 

ditos bem ditos

a cavalo dado
não se olha
os dentes encavalados

Deus dá o frio
conforme o cobertor de orelha

ventos passados
não movem moinhos parados

quem pode pode
quem não pode que se acode

santo de casa não faz milagre
na rua nem no quintal

de grão em grão a galinha
enche o papo de papá

quem tem boca vai a Roma... ria a pé

o sol nasce para todos
principalmente no nordeste

em terra de cego
quem tem um olho é rei... ncidente

quem ama o feio
bonito lhe parece óbvio

devagar se vai ao longe
mas demora demais

 

o sol nasce para todos

o que já não é o caso
da sombra
e água fresca


mídia nanica

a imprensa alternativa
está sem

 

sai til

cachorro bem tratado
que foge de casa
chuta
ou
vira
a lata?


idólatra

não deixes
que o bezerro de ouro
chegue à condição
de touro