Da série: “No fim de tudo começa de novo...”
M(n)udez
- Por que tanto silêncio?
- E acaso silêncio tem tanto?
- Tem...
- Então o que te incomoda é isso?
- O quê?
- A quantidade...
- Sim...
- O silêncio em si já é muito.
- Eu sei, diz tudo...
- É, diz...
Ao
referir-me a ti
Não acredite em tudo que lhe contam. Há mentiras tão bem
engendradas, que ganham veracidade até no brilho do olhar de quem as emite. Eu,
por exemplo, sou uma farsa. A quem falo de amor, acaba por me ferir. Acredito,
sabe. Abusar de minha boa fé é fácil. E nunca aprendo. Por isso lhe digo,
experiente que sou: nem sempre acredite em palavras pensadas e pesadas. Cuidado
com as artimanhas.
Never
Começa com um piano, mal tocado. Mas não. Aos poucos cresce,
e é dentro da gente. A sonoridade invade. Coração, pêssego
Fonte
clara
Ainda não
encontrei o caminho das pedras para minha escrita. Ainda piso em águas, lodo,
lama, enfrento charcos, pântanos, mas sei que todo romântico passa por isso.
Romântico no sentido amplo do ser. A visão subjetiva. O modus
operandi do dia-a-dia, a forma, o contorno, os
detalhes de tudo. A observação geral do todo, em tudo por tudo. Poderia dizer
que às vezes sofro sendo assim. Mas não. Essa é minha missão. Ver o
imperceptível. Então percebo que o ato de escrever (dom?) é a necessidade de
expressar, mesmo que ininteligível e hermético, essas
nuanças da rotina. Alguém já me aconselhou a cura. Mas essa febre interior não
cessa. Sou impulsionado, entende? E se não pôr para fora é possível até que
fique entrevado. Agora, por exemplo, estou remexendo uma montanha de barro.
Logo, logo será possível saciar-me com a água clarinha minando de poço tão
sujo...
Um sol
invisível
Quem já
parou para pensar nas regras impostas verá que algumas são estranhas, tentam nos condicionar a comportamentos adequados,
pré-estabelecidos, em conformidade com o rumo a seguir
Corja!
Os mais
atentos já devem ter percebido o silêncio geral. Com os olhos. Porque ninguém
diz essa boca é minha. Mas atordoa. Tal emudecer reporta-nos a um tempo de
mordaça revelada. Hoje, a mudez humana vem da falta do que dizer. Se alguma
esperança havia, gritamos para obtê-la. Uma vez conquistada, decepcionamo-nos.
E agora, dizer o quê? Calemo-nos para sempre, então? Não, não e não. Berremos a
plenos pulmões. Fora, corja! Não podemos consentir que brinquem conosco, com o
sentimento daqueles que nem sabem o que é sentir. Que estes, coitados, nem
pensar conseguem.
Aquário
humano
Desde que
engoli um peixinho vivo, há muitos e muitos anos, sei não, mas meu peito parece
um aquário. E como meu coração palpita muito e sempre, digo: é ele. Será? Não,
não pode ser. Isso é loucura.
Difícil
perdão
Meu pai foi
assassinado quando eu tinha 8 anos. O homem que o matou expressava temor nos
olhos, pensando que eu vingaria a desdita. Assim viveu o resto de seus dias.
Jamais pensei em tal hipótese. Ele morreu dormindo, de morte natural, em março,
no dia de meu aniversário de 39 anos. Meses depois de sua morte o perdoei,
solitariamente, em seu túmulo, que me foi difícil de ser encontrado, dentre
centenas de outros. Não sofri qualquer dor. Saí do cemitério numa leveza. Era
domingo. Foi um perdão parecido com uma enorme agulha, retirada de meu coração,
onde ficou enfiada por três décadas. Sangrou um pouco, mas estanquei o jorro
com os dias seguintes para minha contemplação de certezas. A verdade é essa. A
finíssima agulha está aqui para quem quiser ver.
Distúrbio Bipolar Afetivo
Ultimamente, em meu trabalho
(onde
a maior parte do tempo vivo),
quase
sempre eu me atrapalho
com o
tal Distúrbio Bipolar Afetivo.
Então
de toda paciência me valho
ainda
que atarefado e apreensivo.
É
que as mulheres com quem convivo
cismaram
de querer assumir o leme,
mas
vivem entre o tal Bipolar Afetivo
e a
inevitável da T.P.M.
É
nessas horas que a área treme
e com
terremotos é que sobrevivo.
A
elas parece que nós, os machos
(e
a nós só se referem no coletivo)
somos
culpados pelos altos e baixos
e pelo
modo às vezes agressivo,
que sob
o Transtorno Bipolar Afetivo
de nós
elas fazem pobres capachos.
E
nessa hora, nem que a vaca tussa
(aja
com calma e seja bem criativo)
não
desembarcam da montanha russa
desse
tal Distúrbio Bipolar Afetivo.
Procure
ser manso e compreensivo
ou o
jeito mandão delas se aguça.
Às
vezes eufóricas, depois deprimidas,
impensadamente, em repente compulsivo,
se vêem
lindas, feias, odiadas, queridas,
ora
calminhas, ora em tom aflitivo
culpam
o tal Distúrbio Bipolar Afetivo
pelas
tantas oscilações em suas vidas.
Assim
tem sido o exaustivo cotidiano
deste que
vos narrou este demonstrativo.
Eu:
o carcamano, o insano e desumano,
destrutivo, enjoativo, erosivo e explosivo,
causador
do tal Distúrbio Bipolar Afetivo,
careço
de um tratamento freudiano.
E
mais não vos escrevo, pois eis que elas
estão
por perto – e é só por este motivo –
pois se
descobrem que é a respeito delas
(e
se julgam este meu texto depreciativo)
em nome
do tal Distúrbio Bipolar Afetivo
me xingarão a ponto de deixar seqüelas.
Get ready (Bon Jovi)
“Tonight
you're
not
gonna
be
alone
making
love
on
the
telephone.
If
you
can
hold
on
i'm
gonna
take
you
all
the
way
tonight”.
Confusão
Li o poema sobre confu
são saudades
senti que somos to
dos iguais dos eternos confusos
Li porque precisa
vá variar um sentimento antigo
quase velho, que já tem a
nos olhos nos cabelos nas palavras.
Li o poema sobre confu
são saudades
senti que somos to
dos iguais dos eternos confusos
Li porque precisa
vá variar um sentimento antigo
quase velho, que já tem a
nos olhos
nos cabelos nas palavras.
Saudade.
A 7ª palavra mais difícil de traduzir.
Uma
lista compilada pela empresa britânica Today Translations, com as opiniões de mil tradutores
profissionais coloca a palavra “SAUDADE”, em português, como a sétima mais difícil do mundo para
se traduzir.
A
relação é encabeçada por uma palavra do idioma africano Tshiluba,
falando no sudoeste da República Democrática do Congo: “ilunga”. “Ilunga”
significa “uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira
vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez”.
Em
segundo lugar ficou a palavra “shlimazi”, em ídiche (língua
germânica falada por judeus, especialmente na Europa central e oriental), que
significa “uma pessoa cronicamente azarada”.
Em
terceiro, “radioukacz”,
em polonês, que significa “uma pessoa que trabalhou como telegrafista para os
movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da antiga Cortina de
Ferro”.
Contexto cultural
A
Today Translations
entende que, embora as definições sejam aparentemente precisas, o problema para
o tradutor é refletir, com outras palavras, as referências à cultura local que
os vocábulos originais carregam. Pode se olhar no dicionário e encontrar o
significado, mas, mais importante que isso, são as experiências culturais e a
ênfase cultural das palavras.
As dez palavras consideradas de mais
difícil tradução
Ilunga (tshiluba) - Uma pessoa
que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o
mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.
Shlimazl (ídiche) - Uma pessoa
cronicamente azarada.
Radioukacz (polonês) - Pessoa que trabalhou como telegrafista
para os movimentos de resistência o domínio soviético nos países da antiga
Cortina de Ferro.
Naa (japonês) - Palavra usada apenas em uma região do
país para enfatizar declarações ou concordar com alguém.
Altahmam (árabe) - Um tipo de tristeza profunda.
Gezellig (holandês) - Aconchegante.
Saudade.
Selathirupavar (tâmil, língua falada no
sul da Índia) - Palavra usada para definir um certo tipo de ausência
não-autorizada frente a deveres.
Pochemuchka (russo) - Uma pessoa que faz perguntas demais.
Klloshar (albanês) - Perdedor.
Quebrou o pau
Ele chegou animado
e querendo
diversão.
Tava mesmo encasquetado
a viver forte
emoção,
uma noite inteira
largado,
muito bem
hospedado
e super a fim
do bem-bão.
Ligou prum velho amigo,
que falou: “’Xá
comigo,
logo, logo ‘tá na mão;
mas nada de
confusão,
vai de boa, na
moral”.
Já com tudo ajeitado,
o esquema todo
montado,
o cara tava
animado:
“Hoje eu vou quebrar o pau”.
Eu vou quebrar o pau {Repete 2
vezes}
Daí a pouco um avião,
pousa em seu
apartamento.
Seu romântico coração,
aumentou o batimento.
Toda linda foi chegando,
lhe abraçando e
beijando,
num grande
assanhamento.
Ela um pedaço do céu;
parecia lua de
mel
aquele acasalamento,
e que sublime
momento
a sintonia do
casal.
Ele tava inspirado,
muito muito afoguetado,
repetiu de peito
estufado:
“Hoje eu vou quebrar o pau”
Eu vou quebrar o pau {Repete 2
vezes}
Ele em ponto de bala
já doidim pra mandar ver.
Ela, então, nem se fala,
em tempo de
enlouquecer.
Vai daqui, vai dali,
“isso, vai, assim, aí”;
é o amor a se
entender.
Era tanta aflição,
ternura, fogo,
paixão;
não tinham tempo
a perder,
ambos querendo
prazer,
vivendo a loucura
total.
E nesse vai-não-vai,
tira, põe,
entra-e-sai,
ele dá um urro:
“Ai...
acabei de quebrar o
pau”.
Ele quebrou o pau {Repete 4
vezes}