LÁGRIMAS PARA BANHAR CELESTE & OUTROS POEMAS

Abri na noite as grandes águas, criadas no tempo de chorar. (Cecília Meireles)

1)
Por que nos desentendemos tanto,
se a força de nosso amor-criança venceu o tempo
e chegou aos dias de nossa maturidade?
Por que as palavras contradizem essa volúpia
do sentir mais doce, infinito e sublime
que arrebata nossos corações febris?
Por que a distância, se o desejo é a presença
do cheiro nas narinas, do suor nos corpos
nos momentos únicos de nós dois?
Por que?

2)
Aos meus olhos, és a minha própria visão.
O dom de enxergar vem de ti. Te vejo em tudo.
Em tudo te vejo. No invisível estás. No intocável.
No que há de mais obscuro em mim. No fundo mais fundo.
És a forma de todas as coisas que aprecio.
Meu subterrâneo, minha superfície, as alturas minhas.
No escuro te tateio, te acho, te ilumino.
Quero ver. Não me cegues deixando-me.

3)
Volto a ti cabisbaixo. Olhos sem brilho.
Caio, mas escalo abismos. Colho flores nas encostas.
A escalada é sacrificante, pois a queda é sempre sem querer.
Faço um esforço sobre-humano para tornar ao topo de nós.
Nada tenho a oferecer-te senão as flores que colhi.
Aceite-as. Enfeite com elas nosso leito,
deita tua confusa cabeça em meu peito
e me dá uma noite de descanso e sossego.

4)
Nosso reencontro: o maior acontecimento.
Batizou nossos corpos a suprema força do prazer.
Tão preciosos os momentos. Únicos, todos.
Entreguei-te minha alma e a possuístes
com sua fome soberana de mulher estremecida,
ofegante e sedenta depois do ato sublime do amor.
Agora sabemos da eternidade. Não temos mais razão.
Quando nos abandonamos nos perdemos um no outro.
Sem ti não me acho. Onde estarei? Existo?
Te reencontrei para desculpar-me sendo teu, como sempre.
Sempre fui teu. Nunca me possuí sem ti. Quero ser meu.
Te reencontrei e me julguei eu. A primeira e única pessoa.
Volto a ser nada. Nada sou. Um vazio caminha pelas ruas.
O inexistente poeta sem a musa que é a própria poesia.
Mas um dia te reencontrei. Só, me resto, me basto, perdido.

5)
Sem ti não há auroras. O sol se põe sombrio.
Desisto da emoção, da inspiração, da arte, do calor.
Meu amor fica abafado pela dor. Pela saudade.
Infeliz de mim quando falo palavras que te ferem.
O que há de doce em mim já não completa teu néctar?
Não te conforto mais? Meu afeto é incompleto?
Perdoa o que digo. Esquece o que te fiz. Releva.
Está nublado em meu peito. Preciso de tuas manhãs.
Estou confinado ao silêncio. Exilado na saudade.
Se nada digo, é para não te magoar com meu dicionário
de falas desatinadas e sem sentido.
Mas este ser silencioso é teu e por ti em silêncio tem vivido.
Te amo, escrevo. Minha fidelidade põe meu amor em relevo.

6)
A quietude de tudo me pertence.
Toco as nuvens. Me sinto vento.
Os olhos de mansidão com que te vejo.
Meu canto mudo que ouves.
A doçura de um sentimento louco
que experimentas e não entendes.
Minha vida flui. Sem ti nada sou.
O céu cai sobre mim feito abismo.

7)
Antes amanhecia. Agora entardeço.
Sou o padecer de algo dentro,
pulsando lembranças e dor – meus ais.
Tudo é profundo em mim,
mas sem virtudes, só culpas.
Eu, o imperdoável.

8)
Os dias passam. Vem, amanhã!
Com sua luz definida, me banha.
Quero ficar comovido, sozinho comigo,
com o olhar úmido de esperança.
A emoção de ser simples e triste,
fingindo alegria todos os dias.
Amanhã, quem sabe, tudo pode acontecer.
Serei mais simples e menos triste.
Dias em que a vida pára em mim.

9)
A luz do amor apagou-se.
Tateio na escuridão minh’alma sem corpo.
Minha casa é alicerçada na ansiedade.
Sinto-me cego e a luz não me serve mais.
A tarde é de sol e isso não me interessa.
Meu coração bate sem pressa.

10)
Não vês o meu olhar. Minh’alma não vês.
O teu amor por mim não me percebe como sou, por inteiro.
Fico esquecido em ti. Fatigado em teus olhos.
Tua amargura te priva do melhor de nós.
Nunca poderás encontrar um outro eu.
Agitado e calmo. Pleno de ternura.
Resignado em confirmar-te distante.
Olhando o vazio no vazio que me tornei e sou.

11)
O que te comove? O que te emociona?
Que felicidade é abrangente em ti?
Sinto-me incapaz de atingir-te.
Inalcansável sonho sonhado toda uma vida.
O que te fiz um dia tornou-me incerto.
Nada do que eu faça agora trará certezas.
E tudo que te digo te fere, magoa e te faz chorar.
Isso me comove. Isso me emociona.
Resume a infelicidade em mim, meu amor.

12)
Já me desesperei, agora quero ser só.
Sou mesmo pedra bruta, sólida em si.
Ninguém é capaz de entalhar-me, dar-me forma.
Sou o que sinto e sinto ser um ser sem sentimentos.
Lanço palavras e elas voltam, ferindo-nos.
A substância dura da paixão que é sina.
Minha alegria é de pedra errando o pássaro.
Ai, dói. Mas o coração é tão humilde.
O coração-pedra, pedra de uma lápide.
Todo o meu amor jaz em silêncio perene.
Minha solidão é grande e já foi maior meu desespero.

13)
O sol é frio. O mofo nas paredes do quarto.
A dificuldade em respirar beira a agonia.
Há resíduos de saudade no ambiente.
A falta de ar limita meus pulmões
e minha capacidade de ver o mundo.
Não reparas em mim minha singeleza.
Podia ir mais além, mas fico aqui, aquém.
Meu peito vai inchando, inflamado de febre.
Busco ar onde não tem. Respirar não consigo.
Sou tão simples que minha apatia é invisível.
Não respiro mais. Não respiro nunca.
Todo o ar do mundo é impuro sem ti.

14)
O amor não pôde se concluir.
Sem alimento, ficou temeroso.
Capengou e se desfez no ar
como uma nuvem pesada
resumida no vento de chuva.
Ficou perpétuo em seu breve silêncio?
Revelador em sua incapacidade?
O amor ficou menor ante o orgulho?
Não diz mais nada, o amor?
Meu amor é um verdadeiro amor!

15)
Coração assim não descansa.
Vive de lampejos, latejando, dormente,
sôfrego em seu desempenho de órgão vital.
Paciência pouca ao bater.
Irriga um sangue ralo, incolor.
Coração exausto num peito ofegante.
Dói, e muito ainda há de sofrer.

16)
Meu desespero não conta.
Meu despreparo para a nova realidade,
isso é problema meu.
A vida criada por mim para mim,
aquela que deixei para trás, acreditando
que a felicidade estaria pela frente,
isso é irrelevante, não pesa.
Nada do que eu sinta é fácil.
Sozinho, sentindo, padecendo,
convivendo com problemas. Meus e teus.
Danificado pela sensibilidade.
Creio no amor e este descrê de meu sonho.
Não olhei para o passado. Fixei o olhar na vida.
Sim, sou egoísta, tens razão.
Um egoísta só coração.

17)
O silêncio é maior acompanhado da dor.
A dor silenciosa da distância.
A silenciosa dor da ausência.
O resumo infinito de tudo.
Ninguém se pertence quando ama.
(Não sou meu. Sou teu.)
O amor revela o ser
em seu próprio desespero.
Oh! agonia, deixe-me respirar.
Angústia febril, silêncio doloroso.
Nada me resta a não ser sofrer.

18)
A distância revela ausência.
Ausência ensurdece com seu silêncio.
Silêncio traduz abismos.
Abismos separam.
Agora é cada um na sua?
Você, como quiser,
e eu, no mundo da lua?
Agora é cada um por si?
Você, onde estiver,
e eu, por aí?
“O poeta que se vire.
E, mesmo sem ar,
que respire”.

19)
O amor me ilumina, entre o sol e a noite.
Sentimento que em mim repousa e me faz recolher
ao aconchego de sua essencial natureza.
Amor exigindo cuidados. E calma.
Com suas asas, o amor acolhe meu sono.
Durmo no colo do amor. Um segundo. Muitas horas.
Ele é pleno de surpresas e me encanta.
O amor. Meu amor por ela.
O amor maior que a vida me dá como único.

20)
Oh minha amada, perdoa.
Silencia o que te disse de ruim e em ti ecoa.
A palavra falada é maldita;
Não fica, como a palavra escrita.
Não tem valor, não expressa.
A escrita documenta, é impressa.
Falo coisas desatinadas, sem relevo.
Atenção, amor, para o que te escrevo.
Para o que te escrevo de próprio punho.
Vamos, juntos, passar por mais este junho.
Depois do inverno, amada, depois,
a primavera há de reflorir em nós dois.

21)
A imensidão da solidão me contempla.
Seus olhos cristalizados de dama envolvente
flutuam na estranheza de minha dor
e envolvem minha ternura desajeitada.
O amor da espera me tornou solitário.
O tempo perdido foi o meu tesouro,
sem mapa no meu coração-ilha.
A senhora solidão finge dormir
e me deixa inerte.
Ah, o medo de perder-te...
(Não posso me tornar mais só
do que sempre fui e sou.)

22)
No silêncio tudo se tornara mais claro.
Agora os barulhos emergem,
numa profusão de sinos
na catedral em ruínas de meu corpo.
Febril de saudade, ardo em labaredas
em meio a um deserto, com sede.
Não mereço o teu frescor.
Tanta tristeza e tanta beleza.
Até a mais distante estrela
serei assim, inconsciente,
nítido em meu sentir.
Merecia um silêncio maior.
Mas esse barulho, essa confusão íntima.
Sou o fogo. Raio límpido.
Vou me consumir em ti até o fim.

 

& OS OUTROS POEMAS

 

mens
corpore

corporal
mente


minha parte chão
tua parte mar
nosso todo ar
o mínimo não

todo inteiro teu
meu exato eu
todo toda tua
tudo tudo tudo

metade em ti
em ti a outra
duas contigo
inteira ficas

completa és
em mim
pra mim
por mim

totalmente
o máximo sim
unicamente
infinitamente


conheço-a pela voz
conheço só sua voz
conheço-a de ouvi-la
conheço por ouvir
ouço-a falar
e tudo diz

conhece-me pelo que digo
sabe o que ouve
conhece meu timbre
ouve-me dizer
fala comigo
é toda ouvido

ainda não há olhos
entre nós
não há face
nem mãos
tudo faz-se
pela voz


trivial
é ver
três
como um
comum


tão só
não se está
quanto uma árvore
uma pedra de nada
violeta em xaxim
o eu tão só
no sótão
de mim


ela é toda ritmada

”ó bruta flor do querer bruta flor bruta flor” (c Veloso)

 

a moça morde a maçã
com claros dentes de leite
lábios carne de fruta
pele de cor palidez
dedos de pura carícia
olhos fachos de luz
seios fartos de mel
corpo pleno de céu
mar de sol e prazer
mata-me sim de viver
que eu quero e quero querer
sou seu e só seu eu sei ser
sou sua maçã de amanhã
me fome me come me faça
me tenha me ganha me dê
me sinta me toca me abraça
com ritmo graça e um quê
de querer-me querido e querendo
morde a maçã me mordendo


espécie em extinção

 

a bandeira
do tamanduá
é brasileira
e nela está
(embora
discordem)
escrito
progreessordem

 

ninho

 

o ovo nasceu
no depois
da galinha
a botar
por onde
ela o pôs
sem tirar


el corvo

 

p o e
a l a n
p o e t a
e d g a r d

 

blanco

 

tranco
o coração
banco
a solidão
arranco
a ilusão
manco
sem chão
estanco
a razão
vou em vão
de branco


modos

tudo em mim
não o é de todo

de todo modo
movo o mundo

vou fundo
e em mim mudo

o modo todo
em tudo

 

zooflavio (II)

 

curió que tudo olha é curioso
mico de opinião é polêmico
leão que impera rei napoleão
cavalo machucado dor cavalar
vaca bagunceira avacalha
abelha intrusa é uma abelhudice
pipoca de peru é peroá
filhote de gato engatinha
filhote de golfinho engalfinha
ema cheia de graça Ipanema

 

um silêncio infinito
grita mais em meu grito
um vazio sem fim
se completa em mim
noites vagas orvalham
e lindas estrelas falham
dores vagam no céu
almas perdidas ao leú


na palavra palavra a palavra palavreia
palavrando palavras palavrantes
palavrava palavrápidas palavruuuns
palavrosas palavríssimas palavrudas
palavrávio palavra flávio palavralmei


 

manifesto

tomado por empréstimo ou a quatro mãos com Fabiana Crispino

 

ó
os conceitos da expressão artística
eu e meu estilo minimalista

cortarei o supérfluo
não exagerarei
abaixo o colorido o pomposo
o floreado o artesanal

hei de deparar com a limpeza
com a clareza da geometria reta e seca
utilizando-me de materiais
de pré-fabricados
da simetria crua

minha intenção
é dar um basta aos moldes em larga escala
apagarei de uma vez
todas as marcas da identidade
da emoção
do significado mastigado
oferecido sem reflexão

substituirei o básico
o óbvio das formas
por minhas conjunturas pessoais
alcançarei meus objetivos

em um primeiro momento
não me leia
não me aprecie
não se aprofunde
apenas passe os olhos
sem perceber traços de minha personalidade
e questione-me depois

confesso a falta de recursos inebriantes
se concentre e otimize tua capacidade de criar
pois tens a mesma função que eu
neste texto

não me tome por puro e intenso
construa tu mesma um sentido
para preencher meu vazio


um eu viajante

 

onde estou que já cheguei
e nem sabia-me vindo
pelos caminhos que fui
pelas estrelas que ia
que estando de partida
nem pensei que viria
e só de saber que saí
aqui sonhei que estaria


zooflavio (I)


fantasma de elefante - elefantasma
foca fotografando - focaliza
cobra endividada - cobrança
onça feia – geringonça
urso na justiça – recurso
galo beberrão – gargalo
morcego apaixonado – amorcego
pato muito apegado – carrapato
sapo na lavanderia – sapólio
urubu em casa - urubupungá
bem-te-vi na TV – M T V


no meio do caminho tinha

 

no meio do caminho tinha
uma medida inexata
não uma rocha monte ou pedrinha
mas uma casamata

tanta estranheza dali vinha
coisa louca irreal insensata
ou até uma singela galinha
ou o mais horrível primata

ou um trem fora da linha
ou uma tremenda gata
um tal Pero Vaz de Caminha
comparando-o a uma fragata

ou o ET de Varginha
e Mozart compondo cantata
Hitler dirigindo um fusquinha
Franz Kafka em veste barata

a raposa diante da vinha
Alice e o homem de lata
ó Cinderela coitadinha
quanta rima pobre e chata


as balzaqueanas e os implicantes

 

o exercício de amar
nos requer aprendizes
infelizes atores ou cantores
a interpretar
cantando amores
por atrizes

como elas fingem
e nós que tanto fugimos
quando certa idade atingem
delas mais exigimos
no papel que interpretam
e nos interceptam
e nem as assistimos

acabam sós
as que são mães viram avós
e nós?
uns eternos rococós
porquinhos rabicós
meio manés e bocós

juntos somamos idades
espelhamos vaidades
infelizmente não dá
somos mais pra lá
que pra cá
anti sócios para nossas saciedades


v i v e n d o
c o n c i s o
d o e n d o



procuro
formas & fórmulas
no escuro

busco a simplicidade
e – claro -
criar com liberdade

estou pronto
para a experimentação
onde me encontro

e em toda parte
sou estou e vou
respirando arte



milhões de palavras
em meu dicionário de silêncios
ouve meus olhos e vê

 

luz feita de ar
rarefeito
efeito estufa
o peito
ar tesão
moldando seios
ar mamento
sugando meios
de respirar
ares alheios

 

boa viagem querida

 

tentou entender a vida
olhando para o passado
então se viu perdida
em um tempo atrasado
no passado a vida vivida
um vivido jamais mudado
uma história escrita e lida
o viver não revisado
tanta vida concebida
concedida sem pecado
o viver é uma lida
um eterno aprendizado
mas a vida é em seguida
passo dado foi andado

ao olhar decidida
para frente novo traçado
viu que a melhor pedida
é o que deve ser tentado
um novo rumo convida
o futuro todo ofertado
a manhã só é permitida
a quem estiver acordado
vida é passagem de ida
viver é estar embarcado
boa viagem querida
vive o teu aguardado
não tente entender a vida
olhando para o passado
sua vida já está de partida
diga adeus pronto e acabado

 

minha primavera

 

não brinque com coisa séria
não ria da miséria
não faça pilhéria com a histeria
não ponha ao máximo o stéreo
não corte a artéria
não vá para a sibéria
não recrimine pondere
não pise no freio acelere
não desconsidere que fere
não supervalorize a matéria
não são impropérios mistérios
não saia de férias
não prenda as feras
não tema cemitérios
não leia homero mas considere-o
não se perca no hemisfério nortesul
não siga eros
não se faça de estéril
não evite minha primavera

 

retrospectiva

 

aqueles nossos momentos
que hoje dispensam relatos

em que todos os fundamentos
do amor foram mais que exatos

e nossos sonhados intentos
foram pactos e fortes tratos

eram só grandes planejamentos
nem chegaram a pequenos atos


em um todo

 

sou um Ser
uma só gota
no tão imenso
oceano Humano

uma gotícula
de água impura
suja o desmedido
Humano oceano

única mancha
causa mínimo dano
eu completamente
um Ser só e insano


dois tratados sobre a mentira

 

verdade mentira

 

acreditar na verdade requer competência
no outro estabelecer regras de coerência
já a mentira até abona sua evidência
a verdade vive de benevolência
a mentira se insufla
a mentira se camufla
quem mente quer convencer
que a mentira verdade quer ser
quem mente tem-na como verdade
e mente com a máxima sinceridade
e a verdade fica na dela
até porque ninguém acredita nela

 

as mentiras de fulana

 

sempre que é flagrada
fulana sai pela tangente
e se se sente acuada
mais reafirma o que mente

com a boca na botija
entra em contradições
e caso a situação exija
mente aos borbotões

coisa com coisa diz
fala tanto nem respira
mais e mais se contradiz
viver é sua mentira

fulana já nem sabe
se fala claro ou delira
sua verdade não cabe
na cota de sua mentira

e mentindo engana
e enganando mais mente
mente tanto essa fulana
que se acha convincente


apontamentos

 

no caráter o que é supremo?
não o extremo

na conduta o que mais realça?
não uma vida falsa

no estilo o que é mais admirável?
não o equilíbrio instável

em tudo e em todas as coisas
que a felicidade seja uma atitude
ativando a mente em plenitude

e que a luz da simplicidade
revele o sol da integridade
e seja sempre uma virtude


deixa estar

 

sou difícil quase impossível
beira o milagre a compreensão
do que sou sinto penso quero

sou o próprio silêncio entre as estrelas
sinto todo o peso do mundo sobre mim
penso em tudo ao mesmo tempo já
quero a possibilidade do que não é fácil
que é saber-me querido e amado
que isso ainda não vivi e não sei
daí ser realmente muito complicado
que explicando-me (até que tentei)
mais e mais te confundirei
teu coração é despreparado
e com ele jamais contarei

mas também sei simplificar
e vejo possiblidade de um dia realizar
o milagre dos sonhos que sonhei

menos o sonho de contigo contar
e por mais que eu sinta pense e queira
infelizmente sei que jamais o realizarei



dia a dia
dia adia
dia ad ia
diaadia
dia a
a dia
dia
a


 

ida vida e volta

 

guarda em ti
este ser calado
que sou

diz: "- o que ouvi
foi pronunciado
no que ele calou

"- então percebi
que o passado
sem querer ficou"

"- não o perdi
havia se afastado
mas retornou"

"- está aqui
olhar lacrimejado
nada falou"

"- mas ainda sorri
tão resguardado
que me povoou"

"- sempre o senti
seu jeito dado
me ganhou"

"- com ele vivi
o inimaginado
que irrealizou"

"- amadureci
e meu amado
me adulou"

"- não consegui
dar o cuidado
que ele implorou"

"- então eu vi
que por um lado
ele frustrou"

"- tanto corri
mostrei enfado
o muito acabou"

"- no que insisti
meu ego centrado
se exacerbou"

"- andei por aí
dona do riscado
que sempre reinou"

"- mandei e pedi
e tão bem mandado
ele tudo aceitou"

"- tanto o iludi
que o coitado
acreditou"

"- chorou e eu ri
me deu seu agrado
bem se portou"

"- tão mal agi
e ele esnobado
até se humilhou"

"- durona fingi
e ele acanhado
sem lugar ficou"

"- de morte o feri
triste e amuado
ele se mandou"

"- não insisti
mandei foi recado
quando embarcou"

"- a partir daí
meu reino encantado
se desencantou"

"- o tempo por si
ficou encarregado
e me mostrou"

"- saudade nutri
com tudo acabado
a vida definhou"

"- mas não o perdi
havia se afastado
mas retornou"

"- está aqui
olhar lacrimejado
nada falou"

"- mas ainda sorri
tão resguardado
que bom que voltou"

guarda de novo em ti
este ser tão calado
que fui e inda sou

mas olha aqui
quero ser respeitado
teu caráter mudou?


blim blém blom

 

de raminho em raminho
cantante e feliz
o pequeno passarinho
na torre da matriz
fez seu ninho
com amor e carinho

mas o pobrezinho
acabou sozinho
(ó destino ó desatino)
sua fêmea não piou fino
- ali não acasalaria
pois não agüentaria
não poderia suportar
o barulhão do bimbalhar
do sino


cada qual
com seu diferente

ou o diferencial
é o igualmente?

 

musa demitida
(por insensibilidade poética)

 

não considere mais teus
todos os versos meus

não os leia como para ti
como um dia os escrevi

mantenha o menosprezo
para tudo o que escrevo

dê de ombros desconheça
não tens coração na cabeça

como pude te dar poesia
se não a queria e nem a lia?

me enganei ao me inspirar
em quem mal sabe sonhar

meus versos te pertenceram
mas jamais te comoveram

versos que a ti se declararam
e que nunca te emocionaram

belos versos a ti dedicados
e só por cortesia guardados

agora só considere como teus
os meus versinhos de adeus


somatório

 

o que sou
mais o que és
resultou
em viés
somou
de través
viajou
no convés

o que sou
mais o que és
trocou
mãos pelos pés
não nos tornou
dez
virou
esse estress

o que sou
mais o que és
acabou
em pontapés
enfumaçou
chaminés
is now
e não yes

o que sou
mais o que és
rock in roll
nada de jazz
monstreou
no Lago Ness
mumificou
qual Ramsés

inspirou
Philip Glass
ruminou
canapés
atraiçoou
meus Sãos Tomés
o que sou
mais o que és


despoesia

 

esquecendo-me
liberta-te
de mim

ficas só
contigo
nada a ver
comigo
(nem amor
nem amigo)

lembrando-te
prendo-me
à dor do fim

aqui dentro
a agonia
de tua luz
mais fria
(pela traição
adeus despoesia)

 

por assim dizer

 

recomeçar a partir de
ir até a
chegar como se
pensar de modo que
falar bem do
tudo volta em
na Terra como no
aqui e

 

o ser e o nada

 

invisibilidade
do nada
inexistente

ninguém viu
porque ninguém
não se vê

tão comum
como um
nenhum

uma coisa
qualquer
sem ser

 

intensidade

 

aprenda a pensar
pense ao aprender
pense aprendendo
e pensando aprenda
seja aprendiz do que pensa
e não só pense
e nem só aprenda

o pensamento é a apreensão do ser
o aprendido fica na mente
armazenado para a ação
a atividade do aprendizado
o fazer bem pensado

o que se sabe porque aprendeu
pensando enquanto o saber
eleva o pensamento
de querer sempre reaprender
e repensar o ser
porque pensa
logo é intensa


o fim de tudo

 

perdi perdeste perdemos
e tudo que somos é nada
diante do que tivemos

a flor abrindo-se de madrugada
o pássaro voando rumo à aurora
o degrau acrescentado à escada
o relógio esquecendo sua hora

perdeste perdemos perdi
e me vejo olhando vazio
naquilo que um dia vivi

fui tão caloroso e acabei com frio
simples demais para tua grandeza
chorando tanto pra mais de um rio
incerto e tonto com tanta incerteza

perdemos perdi perdeste
e não importa se foi a poesia
que eras musa e esqueceste

da linda paisagem que em mim havia
pois teus olhos não viram o invisível
o que é a poesia diante dessa agonia
agora que o amor se fez insensível?

perdi perdeste perdemos
e nada somos e nada vivemos
perdeste perdemos perdi
sei-me só e só o só sabe de si
perdemos perdi perdeste
musa em tudo que em mim leste


para sofrer

 

para sofrer basta esperar:
o bote da víbora traição
a dor de amor a cegar
a morte da ilusão

o assalto à mão amada
a tortura da falta de ar
a solidão amargurada
para sofrer basta sonhar

a confiança traída
a sombra em todo lugar
a falta de amor na vida
para sofrer basta tentar

ser feliz algum dia
correr sem nunca parar
dar asas à alegria
para sofrer basta estar

de bem sentindo-se mal
sem sono e sem luar
diferente e tão igual
para sofrer basta pensar

o tanto que quis e perdeu
o pouco que pôde dar
a luta que não venceu
para sofrer basta amar


a desesperança

 

não te pedi
nada mais
nada menos
que lealdade

e te dei
do bom
e do melhor
de minha fidelidade

do que te pedi
fiquei
com menos

do que te dei
perdeste
o melhor



sem ti
nem por
ti

sem ti
rar
nem por
tu
do

ir por ir
ir por aí
até consumir
como sumi

eu
te tive
eu não te
vi

 

de ti há em mim
o que em nós
nos individualiza

cada um em si é outro
alheio ao que sou
por meio do que és

aquilo que juntos somos
com particularidades afins
diferentes mas próximos

ambos únicos
por tudo em nós
como em um todo

 

camaleão do céu

 

devo ter perdido o senso
se dei para ouvir estrelas
e se mais o som adenso
ouço cores e sou a sê-las
(mais que vê-las tê-las)
falam tonalidades amarelas
ciciam matizes vermelhas
incorporo-me às centelhas
sou campeador de ovelhas
perdido entre as estrelas

 

nada de novo
sob o sol

só sobre

 

tu e o vento

 

quando o vento
por tua cabeça passa
fico pensando nesse momento
o que se passa em tua cabeça
com tanta idéia avessa

se em tua cabeça o vento
somente os cabelos embaraça
ou se tua mente mais embaça
pois tu ao vento é uma graça
teu corpo todo descompassa

 

deus é brasileiro

 

deus é brasileiro
mas nega
qualquer envolvimento

deus é brasileiro
e não assina
silva

deus é brasileiro
nos estados unidos é americano
na alemanha é alemão
na Bélgica é belga
e assim por diante

deus é brasileiro
ou deu
zé brasileiro?

deus é brasileiro
mas diz que não tem
nada com isso

deus é brasileiro
então ele tem
no máximo 503 anos

deus é brasileiro
mas vive
no exílio


último acto

 

compactuo
pactuo
atuo

a tu o compacto
não senão em mim
pacto ato último sim

sem tato
tatuo
tu o retrato do fim


nada é

 

igual a nada
nada

nada igual a
nada

nada a nada igual

nada = a

nada dna de nada

nda


tão

 

tão eterno que passou
tão verão que esfriou
tão eu que em mim sou
tão tão aqui estou restou
tão assim que até assou
tão fugaz que eternizou


luta de estranhezas

 

minha vida toda aqui
moro num deserto inimaginável
imensidão de fin’areia nas cercanias
sol escaldante exclusivamente sobre mim
árido vento faz doer os pulmões calcificados
sequidão de meu coração-cáctus florespinhado
miragens na ausência de outras paisagens
tudo menos eu a desejar outro recanto além deste
sou assim nômade desertado deserdado de sonhos outros
meu tempo parou no tempo em que me fiz sem lágrimas azuis

aqui vivo de encher vasilhames de ampulhetas
encher vasilhames de ampulhetas encher vasilhames de ampulhetas
aqueles pequenos recipientes propícios aos eremitas seres ausentes
e como não consigo lacrimejar meus olhos ressecados vivo de encher vasilhames
de ampulhetas


ajude-me-nos!

 

ajude-me
meus pensamentos me perturbam com tanta vastidão
meus olhos me incomodam com paisagens delirantes
minha voz me desatina com sua lamúria de pronúncias
minha audição me enlouquece com eloqüentes sons
minhas mãos me agoniam tentando tocar o improvável
ajude-me
não sei o destino de meus desejos de completude desatinada
perdi o rumo do silêncio no vazio criado a partir de minha luz
sonho com espaço e ar abertos a asas presas à vontade de ficar
proíbo meu ser de ser ao não ser do infinito querer ser sem o saber
crio noites anteriores aos dias não percebendo o quanto é sol e céu
ajude-me
faça doer em mim a certeza de que perder é mais que perder é tudo
estraçalhe minh’alma na poesia de sabê-la difícil penando o mundo
condense na amplidão de meu peito mínimo a liberdade de sentir-se
domine o marsertão que me confunde entre o lá e cá o longe e o aqui
amorteça amor teça amor defina em paz o sacrifício que sou em pedir
ajude-nos

 

estou com fome de tua luz, menina

 

e aquela luz, menina?
como conseguiste escondê-la?
sofro da falta de sua louca intensidade

vem, volta, me ilumina!
ainda que com sua distância de estrela
mas aqui dentro de mim tal sua proximidade

 

dos andrades: Oswald o antropófago

 

até prova em contrário
Oswald ficou de mal de Mário
até que tudo se esclareça
o primeiro era mais cabeça
até que a verdade venha à tona
ele também morreu na lona
até que chegue luz ao passado
ele é o pai do matriarcado
até que ao chão batatinha deite rama
ele é o afundador de Pindorama
até que a arte venha bater na coxia
o cara foi o rei da antropofagia
até que se deixe ir à fruta que partiu
o danado entrou de pau no pau brasil
até para quem o chamou de antilírico
o sujeito escreveu verso satírico
até para os que nunca leram sua revista
o camarada se debochou comunista
até que murche a flor em sua lapela
o paulista se fez o rei da vela
até que se tire caroço do angu
foi ele quem comeu a deliciosa Pagu
e de Tarsila foi o grande Aboporu
até hoje nos causa espanto e sedução
toda deglutição na dentição da começão



cura-me de mim

 

todo cuidado é
muito frágil

e até no cuidar
seja ágil

é que sou meio arredio
e meu carecer fugidio

quando cuida que não
já estou salvo e são

então sobrevivo
troco de curativo

acho saída
tiro casca da ferida

até hoje não há cura
para meu mal de ternura


haja
o que ouvir

seja
como força

venha
como vida

aja
o que houvier


nosso amor um pic-nic
estou no maior pique
sou incontido dique
tenho insondável psique
não há nada em que não me arrisque
me permita que eu te disque
se te ver deixa que eu pisque
se eu for peça para que eu fique
de tudo menos de mim abdique
querendo te dou meu cic
te confesso meu nick
me revelo num clic
até já estou mais liric
te escrevo poemas com bic
(computador não complique)
esse amor é simplesmente chic


livre arbítrio

 

o certo pelo duvidoso
não troque não é vantajoso
o sim pelo não
vai depender da situação (ou está fora de cogitação?)
o bem pelo mal (o bom pelo mau)
e acaso me lê algum boçal?
o dia inteiro pela noite afora
para guarda noturno negócio da hora
os pés pelas mãos
dependerá da escalada pelos desvãos
uma coisa pela outra
uma coisa é uma noisa noutra loisa é doutra
o tudo pelo nada
contudo resultando em obrigado: de nada!
eu por ti (tu por mim)
que amém seja sempre assim
o tanto fez pelo tanto faz
desde que guerra resulte em paz
uns pelos outros
se ficar tudo na mesma e a turma for de acordo
cem por sem
como se alguém fosse ninguém
três por quatro
e afinal qual é o trato?
elas por elas
desde que sejam todas belas
um por um
em conformidade com o conformismum
seis por meia dúzia
fica com a metade da mesmice
o dito pelo não dito
e o disse-me-disse
olha
escolha
colha
ou não


antes livre

 

antes de mim foram tantos os poucos recantos da paz do sem-fim
antes de ti foram restos palavras protestos na sombra do além
antes de deus foi o homem pecado sem nome sem paz nem além

sente e esquece e resista e penetre e insista e fale e cale e chore e cante e erga os braços
és livre meu bem


o texto do dia

 

o texto atestado
o texto detestado
o texto no contexto
o ex texto
o x do texto teto
o texto teste
o texto txt
o texto na testa
o texto testemunha
o texto testosterona
o texto
não este
outro
o texto


b.o. - boletim de ocorrência

 

dei de cara
contigo

deste de testa
comigo

batemos
de frente

olho no olho
umbigo com umbigo

boca a boca
nariz a nariz

resultado: beijos
até de esquimós

desde então
cá estamos nós

sempre juntos
nunca sós

não trombamos
nos apaixonamos


estilo de ser

 

não consigo
a fórmula

(nada transtorna
tudo entorna)

mas persigo
a forma

(ela contorna
a mim retorna)

e fustigo
a norma

(essa inconforma
noutra não torna)

 

vem!

 

vem que tem
vem de trem
vem de bem
vem que vem
vem bem zen
vem com sem
vem por bem
vem do aquém
vem do além
vem meu bem
vem sem porém
vem ver alguém
vem ser também
vem sem bens
vem de benz
vem sem nem
vem meu neném
vem da nuvem
vem do amém
vem do ah nem
vem do harém
vem sem ninguém
vem por mim
vem!


quem como eu já comeu

 

dou razão
faço gosto
fico emocionado
quem como eu
já comeu pão
com suor do próprio rosto
sabe o quanto é salgado


coincidência

 

narciso
no espelho das águas
ad
mirou-se

a lâmina líquida
por um instante
estremeceu
(narciso chora)
deformando a imagem
que mirava

é que naquele lago
àquela mesma hora
o patinho feio
nadava



crime bíblico

 

tinha que ser
Caim matou
a bel prazer

 

pelancas para pitanguy

 

o que seria drástico
se torna fantástico:
quem ama o feio
despreza cirurgião plástico


filme de terror

 

a tensão
câmera
sombra
ação

assombração

 

chamas

 

entre lava
de vulcão
e larva
de borboleta
a explosão
bela e leve
belíssima
levíssima
a erupção
do planeta
destruição breve
ilusão levíssima
cena belíssima
louca visão
a borboleta
voando em vão
em único e último
vôo sobre o vulcão

 

comunicação

 

ao me comunicar
arrisco tudo
entre o falar
e o ficar mudo
o alegrar
e o ser sisudo
o desbundar
e o carrancudo
sei fantasiar
não me iludo
posso desprezar
mas ajudo
vou me igualar
me transmudo
posso abandonar
mas acudo
vestir desfilar
ando desnudo
cantar e calar
grave e agudo
ao me comunicar
o risco é arriscar
arrisco tudo

 


diferentes

 

uns se acomodam
mas como eu
outros se incomodam

 


conclusão

 

não não me iludo:
nada é igual
a diferença é tudo



e perspicácia

 

a vida requer eficácia
a hipocondríaco não convém
ser dono de farmácia

 

 

posso até brochar

 

se não me concentro
quando estou fora de ti
não dou uma dentro


desdizendo

 

falando de modo banal:
antes acompanhado
do que só mal



desastrado

 

revela teu lado artista
mete os pés pelas mãos
e te acharão contorcionista

 

Deus é mesmo brasileiro

 

está mais que provado:
porque no sétimo dia
decretou feriado


reinados naturais

 

o leão é o rei
da selva
o grilo rei da relva


lusco-fusco pirilâmpico

 

os tempos estão mudados
ou os vaga-lumes sumiram
ou estão todos apagados


como vovó já dizia

 

minha bisavó fez terapia
e para ela dr. Freud não era
homem de muita psicologia



bem a seu modo freqüentou altas rodas

 

bem a seu modo
pensou estar enganando
todas as pessoas o tempo todo

freqüentou altas rodas
onde foi enganado todo o tempo
pelas pessoas todas


vai fundo!

 

é apenas uma rima
não há mesmo solução
e ainda por cima
a constatação
por mais vasto que seja o coração
ó drummond raimundo:
o homem sempre acaba
antes do mundo


a dissimulada

 

ao te ver exibindo
na maior vaidade
tua dupla personalidade
e achando tudo lindo
de acordo com teus costumes
tão bem padronizada
eis que me pego pensando:
até a faca de dois gumes
deve ser amolada
de vez em quando


na lata

 

te juro:
o que achas
saber não procuro


lição de vida

 

e pensar que os erros
nada te ensinaram

tudo o que sofremos
depois do que vivemos
e nem as dores adiantaram

sei de tudo agora que estamos sós
mas por te achares bem preparada
pareces tão desinteressada de nós
e como não queres saber de nada
a gente não mais se entende

é melhor que nosso amor se acabe
pois só se aprende
quando não se sabe
só se aprende
quando não se sabe


o sol quem diria

 

o sol
o sol nasce
o sol nasce para todos

mas para alguns o sol não precisava nascer
o sol não precisava nascer para quem gosta de sombra
o sol não precisava nascer para quem gosta de água fresca

no entanto o sol nasce sombra para quem gosta de água fresca
o sol nasce fresco para quem gosta de sombra
o sol é caloroso mas à sombra é muito fresco e bebe água