JOGOS DE ESPELHO
Flávio
Almeida Patrocínio
DIREÇÃO
Este
texto quer servir de manjar de mil talheres para um diretor criativo, que nele
garimpe leituras e releituras. Um diretor que o reescreva a sua maneira, como
se fora um co-autor.
INTERPRETAÇÃO
É
um trabalho para duas grandes atrizes, dessas que se envolvem corpo e alma com
personagens, vivendo-os mais que os interpretando, e neles se espelham como
reflexos vivos da imaginação.
CENOGRAFIA
Sugere-se
um cenário simples, com poucos elementos, somente aqueles indispensáveis para a
ação, até para permitir ao espectador a possibilidade de imaginar o local
físico em que a cena acontece.
As pessoas não deviam pendurar espelhos
nas suas salas.
Virginia Woolf
O espelho é o aprendizado das
aparências.
Alfredo Bosi
Viver e morrer diante do espelho.
Charles Baudelaire
JOGOS DE ESPELHO
Flávio
Almeida Patrocínio
PRIMEIRO ATO
No
palco, sob um facho de luz, uma grande moldura coberta de cima a baixo, que
representa um espelho. Ao seu lado uma escada comum, dessas de metal, que se
abrem. Numa das laterais, ao fundo, uma arara repleta de roupas e tecidos
multicoloridos e uma mesa simples, sobre a qual poderão estar pequenos objetos que
serão ou não utilizados durante a ação. Mais à frente do palco, com vistas ao
espelho, uma cama que lembra, sem muito esforço, um divã. Sobre esta um laptop/notebook ligado.
(NARCISA
escolhe roupas na arara, colocando as selecionadas nos ombros. Após um tempo,
encaminha-se para a moldura coberta e retira o pano. Do outro lado da moldura,
como se fosse um reflexo/imagem, pode-se ver IMAGEM,
imóvel, vestindo um collant, estilo
balé, ginástica. NARCISA exibe-se, analisa-se
diante do espelho. Num estalo percebe que IMAGEM
permanece imóvel todo o tempo).
NARCISA
(Assustada, teatralmente, falando com IMAGEM no espelho).
Alto
lá! Isso não está certo. Você não sou eu. Ou melhor, eu não sou você.
(Dá a volta e, atrás do espelho, fala diretamente com IMAGEM).
IMAGEM
Lógico
que não. Sou apenas uma imagem.
NARCISA
Sim.
Mas deveria ser a “minha” imagem; a imagem de mim. E não outra.
IMAGEM
E
quem lhe garante que eu não sou, se eu sou?
NARCISA
Não,
não é.
IMAGEM
Pois
posso ser a imagem que você gostaria que eu fosse. Ou até mesmo a imagem que
quer que eu seja. Como também posso não ser a imagem que você gostaria que a
revelasse.
NARCISA
Ah,
mas você está muito filosófica para uma imagem.
IMAGEM
Mas
toda imagem é isso: filosofia pura. Reflexo do eu, do outro, de como nos vemos
ou gostaríamos de ser vistos.
NARCISA
(Volta-se para a platéia, por um segundo, fazendo gesto de que não
está entendendo nada).
Quer
dizer, então, que você sou eu refletida no espelho?
IMAGEM
Alguma
dúvida?
NARCISA
Todas...
E nenhuma. Que não é... A gente nem se parece...
IMAGEM
Como
eu disse, posso muito bem ser, não o que você é, e sim o que pensa que é ou o
que gostaria de ser. Ou até a sua antiimagem.
NARCISA
Pois
fique sabendo que estou satisfeitíssima em ser o que sou, como sou e não admito
ter nenhuma imagem rebelde de mim. Não quero imagem com vida própria, que pode
até ser distorcida. Onde já se viu isso?
IMAGEM
Eu
entendo...
NARCISA
(Irônica, interage com a platéia).
Vejam
só, e ainda por cima é uma imagem compreensiva...
(Voltando-se para IMAGEM).
Mas
fala sério. Você é apenas fruto de minha imaginação. Ou de minha solidão, sei
lá.
IMAGEM
Sou
não...
NARCISA
Talvez,
pelo fato de ficar muito neste quarto, enfurnada entre quatro paredes, eu já
comece a criar companhias metafísicas... Você não existe, é criação minha,
invenção de minha necessidade de interagir com alguém.
IMAGEM
Sou
sua imagem, Narcisa. Sou o que você mais adora, admira, contempla e valoriza em
si mesma. Somos indissociáveis. Sem mim, você ficaria totalmente sem
referência.
NARCISA
(Irônica, interage com a platéia).
Convencida...
IMAGEM
Sou
realista, como toda imagem deve ser. Ao deparar-se comigo, frente a frente,
você encontra o outro lado de sua alma.
NARCISA
Como
assim? O “outro lado” de minha alma?
IMAGEM
Vocês,
humanos, têm duas almas. Uma, fora de você, que a vigia intimamente, e outra,
dentro de você, atenta ao seu mundo exterior. Ambas precisam se encontrar,
física e metafisicamente, porque somente unidas tornam o ser completo.
NARCISA
Não
estou entendendo nada...
IMAGEM
É
porque sua vaidade não lhe deixa ver.
NARCISA
Minha
“vaidade?”
IMAGEM
Sim,
você é uma mulher muita vaidosa. E ninguém melhor que eu para saber disso.
NARCISA
E
o que é que minha vaidade não me deixa ver?
IMAGEM
A
sua beleza interior... A sua melhor parte, Narcisa.
NARCISA
(Põe as mãos na cabeça. Anda pelo palco, falando consigo mesma).
Meu
Deus, que papo mais estranho. E o que é pior: não passa de alucinação. Agora
dei para falar sozinha, ver coisas... E se eu estiver ficando louca?
IMAGEM
Mas
a vida inteira você falou comigo. Com uma diferença: não obtinha respostas
assim, como agora, me vendo materializada,
tête-à-tête.
(Sorri).
Calma!
Não se preocupe. Este é um momento de extrema sanidade. E você não está falando
sozinha, está?
NARCISA
Não
sei por que estou aqui, prestando atenção em você.
IMAGEM
Que
mal há nisso? Você não está prestando atenção
NARCISA
(Impacientando-se).
Ah,
pára! Que coisa absurda.
IMAGEM
Ninguém
a conhece como você se conhece. Conseqüentemente, como sua imagem, eu a conheço
tanto quanto, em toda sua amplitude.
NARCISA
(Em abstração, fala como se estivesse pensando em voz alta).
Papo
brabo este. Se eu contasse, quem acreditaria? Iam dizer que fiquei doida de
vez. E todos já me vêem como uma eremita, sem contato, a não ser com aqueles
que teimam, insistentemente, em me procurar, e que só me acham quando permito,
e isso tem se tornado cada vez mais raro.
IMAGEM
Você
é como eu, aprisionada na redoma do espelho.
NARCISA
(Ainda abstraída, pensando).
A
opção de morar nesta casa, com meus pais já bem idosos, e o que é pior,
totalmente sustentada por eles, dependente deles... Não sei até que ponto isso
influi ou contribui para me deixar tão na minha. Há anos meu quarto acabou por
se tornar meu universo. É aqui que passo a maior parte de meu tempo. Minha vida
tem se resumido a ler, Internet, pensar, lembrar, criar realidades paralelas.
Imaginação tão fértil que...
IMAGEM e NARCISA
(Falam ao mesmo tempo, em uníssono).
...me leva até a dar vida e a dialogar com uma aparição que se
diz minha imagem.
NARCISA
Eu
não estou maluca. Posso até vir a ficar, mas ainda não... Isso tudo é fraqueza
minha, eu sei.
IMAGEM
Descomplica.
Simplifica. É mais fácil.
NARCISA
(Continua abstraída, movimentando-se).
Agora
começo a ter certeza sobre as mudanças que venho notando
IMAGEM
E
quem, além de mim, percebe você tão bem? Ninguém... Claro, você não se abre com
ninguém.
NARCISA
(Desconhecendo por completo a fala da IMAGEM).
Será
que é o fato de eu chorar tanto de tempos em tempos? Em certas ocasiões bate um
troço, chego a sentir náuseas, a cabeça dói dias seguidos, aquela dorzinha
chata, que fica martelando, pulsando, latejando. Enquanto eu não me desmancho
em lágrimas não pára de doer. E aí eu me sinto inchada, horrível, balofa,
insuportável.
IMAGEM
(Recitando, toda teatral).
Nem o maior dos maiores espelhos, com seu enorme
reflexo, o mais ampliado, poderá conter em si teu ego, teu ego no centro
do mundo, teu egocentrismo no oco do umbigo, teu ego narcisismo, tua vaidade,
tua pose de se achar a mais-mais, a tal em close, mas tão só, tão só, cada vez
e sempre perdida, sem se encontrar no vazio de si, por si só, só em si. Ó ego
solitária criatura dentro do nada.
NARCISA
(Em completo alheamento).
Aprisionei-me
em minha própria imagem do passado. O que fui, o que vivi,
o que deixei de viver. Essa aparição que aí está e que se diz minha imagem,
veio tirar minha máscara, jogar em minha cara coisas que eu sei, são minhas,
unicamente minhas, e que venho guardando ao longo dos anos; guardando, não,
sedimentando, fermentando feito fel o que já foi mel.
IMAGEM
Você sempre será, nunca
deixou de ser, uma doce criatura. Liberte-se...
NARCISA
(Reagindo).
Cale-se.
Não invada minha privacidade com conceitos tolos. Você não vai conseguir me
dividir. Essa sua conversa de duas almas. Conversa mole para engabelar uma mulher solitária, vazia, confessadamente aturdida, perdida.
IMAGEM
A descoberta da segunda alma refletida no espelho foi sua.
NARCISA
(Enfática).
Bobagem. Isso é besteira. Não acredito nessas coisas.
IMAGEM
Já
lhe ocorreu que você não é assim, que você está assim, você ficou assim?
NARCISA
Eu
me tornei uma descrente, apática, cética, algumas vezes até inconveniente
comigo mesma, nesse mundo que criei a parte e que habito intolerante. E nesse
mundo não há lugar para nada e ninguém. Ou seja, você está no lugar errado, na
hora errada, com a pessoa errada.
IMAGEM
Impossível.
NARCISA
O
quê?
IMAGEM
Isso.
NARCISA
(Impaciente).
Afinal,
o que você quer? Me diz.
IMAGEM
Eu?
O que eu poderia querer de você? Nada. Entenda, sou apenas reflexo do que você
é. Eu só existo e estou aqui a partir do seu querer.
NARCISA
Meu
querer, como? Se eu acabei de dizer que não te quero aqui. Você invadiu meu
espaço.
IMAGEM
Você
me convocou. Violei uma fronteira praticamente intransponível porque você me
intimou. Cansou de ser outra diante do espelho. E sabe muitíssimo bem que não conseguiu
me forjar como imagem caricata. Ganhei seu respeito, sua atenção. Ganhei forma.
Estou presente.
(Pausa).
NARCISA
Vamos,
continua...
IMAGEM
Sabia
que desde que o mundo é mundo, o espelho sempre funcionou como um jogo da
verdade?
NARCISA
Ah,
é? Mas uma de suas conclusões de minha
relação com o espelho, é a de que eu o engano muito bem.
IMAGEM
É...
E talvez por isso eu esteja aqui.
NARCISA
Como
assim?
IMAGEM
Lá
vem você. Eu disse que “talvez por isso...”
NARCISA
Você
está aqui mesmo? Você existe?
IMAGEM
Olha,
a gente ficaria o resto da vida discutindo sobre isso. Já lhe disse que sou e
que posso vir a ser a imagem daquilo que você quiser que eu seja. Sou, além do
reflexo de você, sou também o reflexo de seus desejos, por mais inconfessáveis
que sejam.
NARCISA
Quer
dizer, então, que é minha necessidade de ficar contida, calada, que a faz me
instigar a falar, a me abrir...
IMAGEM
Garota
esperta.
NARCISA
Sou
muito armada, precavida, não tiro minha armadura por nada. Já confiei demais.
Levei tanta bordoada que acabei me fechando. Hoje posso dizer que sou
impenetrável.
(Longo suspiro).
IMAGEM
Acompanho
sua terapia do espelho. Diante dessa moldura, lendo, olhando, meditando,
falando, você sempre foi outra, principalmente quando fala de você. Vou repetir:
você não é assim. Você está assim, ficou assim.
NARCISA
Eu
tenho, não diria dificuldade, mas uma quase impossibilidade de conseguir
perdoar.
(Pausa).
Difícil
demais confessar isso, mas eu sou uma perdedora. Tento ser outra porque a mim
eu já me conheço, e sei que desse mato não sai coelho. Sou a própria desiludida
insistindo na ilusão.
IMAGEM
Acho
bonito ouvindo-a falar assim.
NARCISA
Ah,
tenha santa paciência...
IMAGEM
A
imensidão interior é tanta que muitos se perdem. O seu interior pode ser ou um
deserto sem-fim ou a mais linda paisagem. Às vezes vem a poesia e salva. Vem a
música e resgata. A pintura arrebata aqui e ali. O amor...
NARCISA
(Cortante).
O
amor, não. Este é carcereiro. Não passa de um imenso olho atento, vigilante.
Este não salva ninguém, muito pelo contrário. Sacrifica. Tortura. Judia.
IMAGEM
Eu
sei de suas dores, Narcisa. Mas são os motivos dessas dores que a têm tornado
tão infeliz...
NARCISA
(Gargalha).
Eu
infeliz? Infeliz, magoada, aprisionada, desesperançada, entrevada nesse espaço
mínimo, com preguiça até de olhar a luz do sol, insegura, amedrontada, mórbida.
(Embarga a voz).
IMAGEM
Esta
é você, em sua mais plena essência.
(Aproxima-se. Abraça-a. NARCISA chora).
(Palco às escuras).
SEGUNDO ATO
(Em BG, trecho da música GELSOMINA, com
Caetano Veloso, do CD “Omaggio a Federico
e Giulietta”).
(Abre a cena com NARCISA dormindo profundamente na cama-divã).
IMAGEM
(Surge da platéia, vestindo um collant.
Caminhando, fala em tom professoral, como se estivesse dando uma aula bem
agradável e interessante).
Todos
aqui têm espelho
(Pequena pausa).
O
espelho é revelador. Nus ou vestidos, diante do espelho caem todas as máscaras.
Ele representa a vaidade. Olhando-se no espelho, pode-se amar ou odiar a
própria aparência. Alguns se vêem com a identidade refletida ali, porque a
imagem só aparece porque existe a luz. Sem luz não há imagem. A imagem é uma
metáfora. No ato de se ver, muitos se reconhecem. Graças ao reflexo do espelho,
que, segundo dizem, não mente jamais.
(Pequena pausa).
O
espelho é esotérico. Desperta controvérsias. Aguça a
imaginação. Sempre exerceu um fascínio sobre cientistas e filósofos. Está
presente nas artes, na psicologia, na ciência e na fé. Principalmente nos salões de beleza.
(Ri).
(Pequena pausa).
Quando
os portugueses chegaram à Terra de Vera Cruz, qual presentinho eles deram para
ganhar a simpatia dos índios? Um espelhinho, um objeto mágico, que primeiro
assustou e depois encantou.
(Pequena pausa).
Pela
fé, todos foram criados à imagem e semelhança de Deus e n’Ele devem se
espelhar. Ao morrer, todos se querem se ver face a face com Deus, como se se colocassem diante de um espelho, sem ter como fugir da
realidade nua e crua.
(Pequena pausa).
Pela
ciência o homem quer investigar corpos celestes, observar a estrutura de
estrelas e galáxias, estudar e desvendar a história, a formação e a evolução do
universo. Do que ele lança mãos para isso? De um espelho magistral chamado Hubble, um telescópio, verdadeiro
observatório espacial, feito de espelhos que fotografam os objetos, medem
precisamente suas posições e captam luzes.
(Pequena pausa).
(Declama, bem
teatral, sua versão da lenda de Narciso).
No espelho das águas,
Narciso se admirava.
A lâmina líquida
por um instante estremeceu,
deformando a auto-imagem
que ele, encantado, mirava.
(Então Narciso chora).
É que naquele lago,
àquela mesma hora,
o
Patinho Feio nadava.
(NARCISA acorda. Espreguiça-se. Levanta. Olha dentro do
pano que cobre a moldura. Percebe que IMAGEM não
está lá. Fica intrigada. Com os olhos, procura-a).
IMAGEM
(Da platéia, percebendo que NARCISA acordou e está à sua procura).
Hei,
estou aqui.
NARCISA
O
que você tá fazendo aí, ô imagem independente e desgarrada?
IMAGEM
Nada.
Tô aqui, experimentando a sensação de estar liberta do espelho e sua moldura.
NARCISA
O
que, aliás, não está certo...
IMAGEM
E
tava esperando você acordar para poder te ver de um ângulo que os outros te
vêem.
NARCISA
Isso
dá uma tese.
IMAGEM
Você
é muito complexa, Narcisa. Dá um tratado. Tratado geral de fugitiva da
realidade.
NARCISA
(Esboça um sorriso. Espreguiça-se).
Só
se você me dedurar, me entregar.
(Pausa).
Nossa,
devo ter dormido horas.
IMAGEM
(Encaminha-se para o palco).
Dormiu
bem. Lembra do sonho que teve?
NARCISA
(Assentindo).
Hum, hum, claro que lembro.
IMAGEM
Até
porque estes sonhos lhe são freqüentes, não são?
NARCISA
Do
que você está falando?
IMAGEM
Do
sonho que você teve agora.
NARCISA
Até
meus sonhos você perscruta?
IMAGEM
(Já no palco).
Sim.
Tudo. Não há nada em você que eu não saiba. Nada.
NARCISA
Você
é mais que imagem. É a própria imaginação.
IMAGEM
E
então, vamos falar sobre o sonho?
NARCISO
Vamos
nada.
IMAGEM
Por
que não?
NARCISA
Pra
quê? Você não acabou de dizer que sabe de tudo?
IMAGEM
Uma
coisa é saber. Outra coisa é vê-la sofrendo, presa ao passado.
NARCISA
Isso
é comigo, é coisa minha, que diz respeito somente a mim.
(Pausa).
IMAGEM
Pena
que pense assim, pois não é assim.
NARCISA
Como
é que é então?
IMAGEM
Como
é que você se referiu a mim ainda agorinha...
(Tentando se lembrar, puxando pela memória).
Ah,
“imagem independente e desgarrada”.
NARCISA
(Ri).
E
não é não?
IMAGEM
Não!
NARCISA
Como
não? É cheia das liberdades. Até se materializou.
IMAGEM
Enquanto
você estiver aprisionada em si mesma, não sou não.
NARCISA
Não
vem não, tá?!.
IMAGEM
Você
se enclausurou. Veste-se com uma armadura impenetrável. Não ouve de ninguém o
que é preciso ouvir. Uma palavra diferente, uma contestação, algo que a faça
refletir sobre seu modo de ser, estar e viver.
NARCISA
Mais
que imagem e imaginação; agora você tá dando uma de minha consciência, meu
grilo falante.
(Ri).
Ou
você prefere a Sininho? Cadê seu pozinho de pirlimpimpim?
IMAGEM
Isso
é tática sua.
NARCISA
Tática?
IMAGEM
Fazer
gracinha, para desviar o assunto.
NARCISA
Eu
sei direitinho aonde você quer chegar. Não vem não, não vem não, não vem não.
IMAGEM
Falar
sobre isso vai lhe fazer bem. Você não vê o mal que lhe faz ficar guardando
essa história a sete chaves, como segredo absoluto?
(Pausa).
Sai
dessa. E daí? Dane-se o resto do mundo. Você se abandonou por conta de um
passado irrecuperável.
(Pausa).
Sua
vida estagnou. Você se resume a isso aqui. Você não se conclui. Uma mulher bonita, cheia de vida, mas sem expectativas, sem
perspectivas, sem horizontes, atolada na areia movediça da saudade, do
sentimento impossível.
NARCISA
Mais
que imagem, imaginação e consciência. Você é minha... digamos, advogada do
diabo.
IMAGEM
Não,
Narcisa. Sou apenas e tão-somente o reflexo do que você é. E não quero
continuar assim, feito nada caminhando para lugar nenhum.
NARCISA
(Emocionando-se).
Se
você me conhece tão bem como diz me conhecer. Se você sabe tudo de mim quanto
diz saber, então você pode avaliar o quanto é difícil pra mim...
(À flor da pele, começa a chorar, copiosamente).
IMAGEM
(Desconcertada).
Eu
sei, eu sei...
(Solidária, aproxima-se, mantendo uma distância mínima entre as
duas. Respeitosa, deixa a crise de choro passar. Toma NARCISA pela mão e a
conduz).
Vem
comigo. Não precisa temer. Pode confiar.
(Ambas entram por uma fresta do pano que cobre a moldura, como se
partissem para uma viagem dentro do espelho).
(Palco às escuras).
(Em BG, trecho de música a escolher).
(NARCISA surge em outra extremidade do palco sob um facho de luz. Olhar fixo e perdido por sobre a platéia, corpo ereto,
imóvel, braços estendidos, como se estivesse esperando alguém para um abraço).
NARCISA
Eu
era uma menina. Uma menina com um sonho. Uma menina com um sonho lindo de
viver. Uma menina com um sonho lindo de viver além-mar, na América do Norte. Entrei
no avião imaginando que seria uma viagem com passagem só de ida. Passei um
tempo sem enviar notícia. As pessoas se diziam preocupadas comigo. Eu falava
com minha mãe, por apenas alguns minutos por mês, só para tranqüilizá-la,
fazendo dela minha porta-voz diante dos demais.
(Voz de uma mulher idosa em off).
“Ela
está bem! Mandou lembranças para todos”.
(Outro facho de luz, de cor diferente, ilumina outro ponto do palco.
IMAGEM está sob ele, com o olhar fixo por sobre a platéia).
IMAGEM
Cinco
anos depois estava de volta, como se não tivesse dito nada, como se nada
tivesse acontecido. E até hoje, nunca disse essa boca é minha sobre este
período. Ela desconversa, muda de assunto, evita falar, e até sem perceber fica
nitidamente possessa, como se sentisse invadida, ou se quisesse
enterrar as experiências desta época misteriosa de sua vida.
(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, ilumina outro ponto do
palco. NARCISA está sob ele, imóvel, olhar fixo).
NARCISA
Dizem
que estou deprê. Porque vivo amuada, não saio de casa, de meu quarto. As
pessoas lá fora ficaram sem saber como agir, entre a preocupação e a vontade de
transgredir minha vontade, invadir minha casa, meu espaço, este meu mundo. Sei
que no início alguns chegaram a recorrer a conselhos de terapeutas, que à
distância não quiseram fazer diagnóstico de meu estado. Só disseram que
possivelmente eu estaria confinada em respeito a um período de luto, por ter
perdido algo por lá...
(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, em outro ponto do
palco).
IMAGEM
(Sob este facho).
Ela
voltou um caco. Olhos fundos. Cabelos maltratados. Desânimo total. Uma apatia
de dar dó. Não faltou quem não ficasse com pena dela. E ela
impenetrável, impassível, olhando para o nada, vendo coisa alguma. E
ficou muito difícil lidar com ela, sempre tão segura, tão senhora de si, dona
do próprio nariz, que nunca deixou ninguém se meter em sua vida. Viviam todos
aos cochichos. Achavam que era preciso fazer algo, e urgente, porque ela tava
igual zumbi, alheia a tudo e a todos.
(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, em outro ponto do
palco).
NARCISA
(Sob este facho).
Ninguém
era louco de tomar qualquer iniciativa. Primeiro porque minha mãe achou que com
tempo e vagar eu voltaria ao mundo real. Que nada melhor que apoio, carinho e
zelo da família e dos amigos para as coisas entrarem nos eixos. Segundo, porque
com certeza eu ia virar uma fera, ia achar que estavam conspirando contra mim,
pelas costas, ia chamar a todos de traíras, e ia me fechar mais ainda, vendo-os
até como inimigos. E conhecendo-me como eles me conhecem... eu ia mesmo.
(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, em outro ponto do
palco).
IMAGEM
O
que aconteceu nos Estados Unidos, aconteceu, diz respeito somente a ela. Mas,
para que vire essa página de uma vez por todas, é preciso botar pra fora e
contar seu caso com o...
(Sai da posição ext