JOGOS DE ESPELHO

                                  Flávio Almeida Patrocínio

 

 

 

DIREÇÃO

Este texto quer servir de manjar de mil talheres para um diretor criativo, que nele garimpe leituras e releituras. Um diretor que o reescreva a sua maneira, como se fora um co-autor.

 

 

INTERPRETAÇÃO

É um trabalho para duas grandes atrizes, dessas que se envolvem corpo e alma com personagens, vivendo-os mais que os interpretando, e neles se espelham como reflexos vivos da imaginação. 

 

 

CENOGRAFIA

Sugere-se um cenário simples, com poucos elementos, somente aqueles indispensáveis para a ação, até para permitir ao espectador a possibilidade de imaginar o local físico em que a cena acontece.

 

 

 

As pessoas não deviam pendurar espelhos nas suas salas.

Virginia Woolf

 

O espelho é o aprendizado das aparências.

Alfredo Bosi

 

Viver e morrer diante do espelho.

Charles Baudelaire

 

JOGOS DE ESPELHO

                                  Flávio Almeida Patrocínio

 

 

PRIMEIRO ATO

 

No palco, sob um facho de luz, uma grande moldura coberta de cima a baixo, que representa um espelho. Ao seu lado uma escada comum, dessas de metal, que se abrem. Numa das laterais, ao fundo, uma arara repleta de roupas e tecidos multicoloridos e uma mesa simples, sobre a qual poderão estar pequenos objetos que serão ou não utilizados durante a ação. Mais à frente do palco, com vistas ao espelho, uma cama que lembra, sem muito esforço, um divã. Sobre esta um laptop/notebook ligado.

 

(NARCISA escolhe roupas na arara, colocando as selecionadas nos ombros. Após um tempo, encaminha-se para a moldura coberta e retira o pano. Do outro lado da moldura, como se fosse um reflexo/imagem, pode-se ver IMAGEM, imóvel, vestindo um collant, estilo balé, ginástica. NARCISA exibe-se, analisa-se diante do espelho. Num estalo percebe que IMAGEM permanece imóvel todo o tempo).

 

 

NARCISA

(Assustada, teatralmente, falando com IMAGEM no espelho).

Alto lá! Isso não está certo. Você não sou eu. Ou melhor, eu não sou você.

(Dá a volta e, atrás do espelho, fala diretamente com IMAGEM).

 

IMAGEM

Lógico que não. Sou apenas uma imagem.

 

NARCISA

Sim. Mas deveria ser a “minha” imagem; a imagem de mim. E não outra.

 

IMAGEM

E quem lhe garante que eu não sou, se eu sou?

 

NARCISA

Não, não é.

 

IMAGEM

Pois posso ser a imagem que você gostaria que eu fosse. Ou até mesmo a imagem que quer que eu seja. Como também posso não ser a imagem que você gostaria que a revelasse.

 

NARCISA

Ah, mas você está muito filosófica para uma imagem.

 

IMAGEM

Mas toda imagem é isso: filosofia pura. Reflexo do eu, do outro, de como nos vemos ou gostaríamos de ser vistos.

 

NARCISA

(Volta-se para a platéia, por um segundo, fazendo gesto de que não está entendendo nada).

Quer dizer, então, que você sou eu refletida no espelho?

 

IMAGEM

Alguma dúvida?

 

NARCISA

Todas... E nenhuma. Que não é... A gente nem se parece...

 

IMAGEM

Como eu disse, posso muito bem ser, não o que você é, e sim o que pensa que é ou o que gostaria de ser. Ou até a sua antiimagem.

 

NARCISA

Pois fique sabendo que estou satisfeitíssima em ser o que sou, como sou e não admito ter nenhuma imagem rebelde de mim. Não quero imagem com vida própria, que pode até ser distorcida. Onde já se viu isso?

 

IMAGEM

Eu entendo...

 

NARCISA

(Irônica, interage com a platéia).

Vejam , e ainda por cima é uma imagem compreensiva...

(Voltando-se para IMAGEM).

Mas fala sério. Você é apenas fruto de minha imaginação. Ou de minha solidão, sei lá.

 

IMAGEM

Sou não...

 

NARCISA

Talvez, pelo fato de ficar muito neste quarto, enfurnada entre quatro paredes, eu já comece a criar companhias metafísicas... Você não existe, é criação minha, invenção de minha necessidade de interagir com alguém.

 

IMAGEM

Sou sua imagem, Narcisa. Sou o que você mais adora, admira, contempla e valoriza em si mesma. Somos indissociáveis. Sem mim, você ficaria totalmente sem referência.

 

NARCISA

(Irônica, interage com a platéia).

Convencida...

 

IMAGEM

Sou realista, como toda imagem deve ser. Ao deparar-se comigo, frente a frente, você encontra o outro lado de sua alma.

 

NARCISA

Como assim? O “outro lado” de minha alma?

 

IMAGEM

Vocês, humanos, têm duas almas. Uma, fora de você, que a vigia intimamente, e outra, dentro de você, atenta ao seu mundo exterior. Ambas precisam se encontrar, física e metafisicamente, porque somente unidas tornam o ser completo.

 

NARCISA

Não estou entendendo nada...

 

IMAGEM

É porque sua vaidade não lhe deixa ver.

 

NARCISA

Minha “vaidade?”

 

IMAGEM

Sim, você é uma mulher muita vaidosa. E ninguém melhor que eu para saber disso.

 

NARCISA

E o que é que minha vaidade não me deixa ver?

 

IMAGEM

A sua beleza interior... A sua melhor parte, Narcisa.

 

NARCISA

(Põe as mãos na cabeça. Anda pelo palco, falando consigo mesma).

Meu Deus, que papo mais estranho. E o que é pior: não passa de alucinação. Agora dei para falar sozinha, ver coisas... E se eu estiver ficando louca?

 

IMAGEM

Mas a vida inteira você falou comigo. Com uma diferença: não obtinha respostas assim, como agora, me vendo materializada, tête-à-tête.

(Sorri).

Calma! Não se preocupe. Este é um momento de extrema sanidade. E você não está falando sozinha, está?

 

NARCISA

Não sei por que estou aqui, prestando atenção em você.

 

IMAGEM

Que mal há nisso? Você não está prestando atenção em mim. E, sim, em você mesma. Está se transcendendo, não percebe?

 

NARCISA

(Impacientando-se).

Ah, pára! Que coisa absurda.

 

IMAGEM

Ninguém a conhece como você se conhece. Conseqüentemente, como sua imagem, eu a conheço tanto quanto, em toda sua amplitude.

 

NARCISA

(Em abstração, fala como se estivesse pensando em voz alta).

Papo brabo este. Se eu contasse, quem acreditaria? Iam dizer que fiquei doida de vez. E todos já me vêem como uma eremita, sem contato, a não ser com aqueles que teimam, insistentemente, em me procurar, e que só me acham quando permito, e isso tem se tornado cada vez mais raro.

 

IMAGEM

Você é como eu, aprisionada na redoma do espelho.

 

NARCISA

(Ainda abstraída, pensando).

A opção de morar nesta casa, com meus pais já bem idosos, e o que é pior, totalmente sustentada por eles, dependente deles... Não sei até que ponto isso influi ou contribui para me deixar tão na minha. Há anos meu quarto acabou por se tornar meu universo. É aqui que passo a maior parte de meu tempo. Minha vida tem se resumido a ler, Internet, pensar, lembrar, criar realidades paralelas. Imaginação tão fértil que...

 

IMAGEM e NARCISA

(Falam ao mesmo tempo, em uníssono).

...me leva até a dar vida e a dialogar com uma aparição que se diz minha imagem.

 

NARCISA

Eu não estou maluca. Posso até vir a ficar, mas ainda não... Isso tudo é fraqueza minha, eu sei.

 

IMAGEM

Descomplica. Simplifica. É mais fácil.

 

NARCISA

(Continua abstraída, movimentando-se).

Agora começo a ter certeza sobre as mudanças que venho notando em mim. Passar uma tarde inteira, por exemplo, com idéia fixa em algo que não tem nada a ver. E só percebo isso quando desencano.

 

IMAGEM

E quem, além de mim, percebe você tão bem? Ninguém... Claro, você não se abre com ninguém.

 

NARCISA

(Desconhecendo por completo a fala da IMAGEM).

Será que é o fato de eu chorar tanto de tempos em tempos? Em certas ocasiões bate um troço, chego a sentir náuseas, a cabeça dói dias seguidos, aquela dorzinha chata, que fica martelando, pulsando, latejando. Enquanto eu não me desmancho em lágrimas não pára de doer. E aí eu me sinto inchada, horrível, balofa, insuportável.

 

IMAGEM

(Recitando, toda teatral).

Nem o maior dos maiores espelhos, com seu enorme reflexo, o mais ampliado, poderá conter em si teu ego, teu ego no centro do mundo, teu egocentrismo no oco do umbigo, teu ego narcisismo, tua vaidade, tua pose de se achar a mais-mais, a tal em close, mas tão só, tão só, cada vez e sempre perdida, sem se encontrar no vazio de si, por si só, só em si. Ó ego solitária criatura dentro do nada.

 

NARCISA

(Em completo alheamento).

Aprisionei-me em minha própria imagem do passado. O que fui, o que vivi, o que deixei de viver. Essa aparição que aí está e que se diz minha imagem, veio tirar minha máscara, jogar em minha cara coisas que eu sei, são minhas, unicamente minhas, e que venho guardando ao longo dos anos; guardando, não, sedimentando, fermentando feito fel o que já foi mel.

 

IMAGEM

Você sempre será, nunca deixou de ser, uma doce criatura. Liberte-se...

 

NARCISA

(Reagindo).

Cale-se. Não invada minha privacidade com conceitos tolos. Você não vai conseguir me dividir. Essa sua conversa de duas almas. Conversa mole para engabelar uma mulher solitária, vazia, confessadamente aturdida, perdida.

 

IMAGEM

A descoberta da segunda alma refletida no espelho foi sua.

 

NARCISA

(Enfática).

Bobagem. Isso é besteira. Não acredito nessas coisas.

 

IMAGEM

Já lhe ocorreu que você não é assim, que você está assim, você ficou assim?

 

NARCISA

Eu me tornei uma descrente, apática, cética, algumas vezes até inconveniente comigo mesma, nesse mundo que criei a parte e que habito intolerante. E nesse mundo não há lugar para nada e ninguém. Ou seja, você está no lugar errado, na hora errada, com a pessoa errada.

 

IMAGEM

Impossível.

 

NARCISA

O quê?

 

IMAGEM

Isso.

 

NARCISA

(Impaciente).

Afinal, o que você quer? Me diz.

 

IMAGEM

Eu? O que eu poderia querer de você? Nada. Entenda, sou apenas reflexo do que você é. Eu só existo e estou aqui a partir do seu querer.

 

NARCISA

Meu querer, como? Se eu acabei de dizer que não te quero aqui. Você invadiu meu espaço.

 

IMAGEM

Você me convocou. Violei uma fronteira praticamente intransponível porque você me intimou. Cansou de ser outra diante do espelho. E sabe muitíssimo bem que não conseguiu me forjar como imagem caricata. Ganhei seu respeito, sua atenção. Ganhei forma. Estou presente.

(Pausa).

 

NARCISA

Vamos, continua...

 

IMAGEM

Sabia que desde que o mundo é mundo, o espelho sempre funcionou como um jogo da verdade?

 

NARCISA

Ah, é?  Mas uma de suas conclusões de minha relação com o espelho, é a de que eu o engano muito bem.

 

IMAGEM

É... E talvez por isso eu esteja aqui.

 

 

NARCISA

Como assim?

 

IMAGEM

Lá vem você. Eu disse que “talvez por isso...”

 

NARCISA

Você está aqui mesmo? Você existe?

 

IMAGEM

Olha, a gente ficaria o resto da vida discutindo sobre isso. Já lhe disse que sou e que posso vir a ser a imagem daquilo que você quiser que eu seja. Sou, além do reflexo de você, sou também o reflexo de seus desejos, por mais inconfessáveis que sejam.

 

NARCISA

Quer dizer, então, que é minha necessidade de ficar contida, calada, que a faz me instigar a falar, a me abrir...

 

IMAGEM

Garota esperta.

 

NARCISA

Sou muito armada, precavida, não tiro minha armadura por nada. Já confiei demais. Levei tanta bordoada que acabei me fechando. Hoje posso dizer que sou impenetrável.

(Longo suspiro).

 

IMAGEM

Acompanho sua terapia do espelho. Diante dessa moldura, lendo, olhando, meditando, falando, você sempre foi outra, principalmente quando fala de você. Vou repetir: você não é assim. Você está assim, ficou assim.

 

NARCISA

Eu tenho, não diria dificuldade, mas uma quase impossibilidade de conseguir perdoar.

(Pausa).

Difícil demais confessar isso, mas eu sou uma perdedora. Tento ser outra porque a mim eu já me conheço, e sei que desse mato não sai coelho. Sou a própria desiludida insistindo na ilusão.

 

IMAGEM

Acho bonito ouvindo-a falar assim.

 

NARCISA

Ah, tenha santa paciência...

 

IMAGEM

A imensidão interior é tanta que muitos se perdem. O seu interior pode ser ou um deserto sem-fim ou a mais linda paisagem. Às vezes vem a poesia e salva. Vem a música e resgata. A pintura arrebata aqui e ali. O amor...

 

NARCISA

(Cortante).

O amor, não. Este é carcereiro. Não passa de um imenso olho atento, vigilante. Este não salva ninguém, muito pelo contrário. Sacrifica. Tortura. Judia.

 

IMAGEM

Eu sei de suas dores, Narcisa. Mas são os motivos dessas dores que a têm tornado tão infeliz...

 

NARCISA

(Gargalha).

Eu infeliz? Infeliz, magoada, aprisionada, desesperançada, entrevada nesse espaço mínimo, com preguiça até de olhar a luz do sol, insegura, amedrontada, mórbida.

(Embarga a voz).

 

IMAGEM

Esta é você, em sua mais plena essência.

(Aproxima-se. Abraça-a. NARCISA chora).

 

(Palco às escuras).

 

 

 

SEGUNDO ATO

 

(Em BG, trecho da música GELSOMINA, com Caetano Veloso, do CD “Omaggio a Federico e Giulietta”).

 

(Abre a cena com NARCISA dormindo profundamente na cama-divã).

 

 

IMAGEM

(Surge da platéia, vestindo um collant. Caminhando, fala em tom professoral, como se estivesse dando uma aula bem agradável e interessante).

 

Todos aqui têm espelho em casa. E normalmente o espelho fica em locais onde se pode ter privacidade. Onde você pode estar com você, reservadamente. Há pessoas que passam horas diante do espelho. Conversando sozinhas, consultando-o, ensaiando o que dizer, lendo, simplesmente olhando com olhar perdido no nada, meditando, se investigando, admirando-se.

 

(Pequena pausa).

 

O espelho é revelador. Nus ou vestidos, diante do espelho caem todas as máscaras. Ele representa a vaidade. Olhando-se no espelho, pode-se amar ou odiar a própria aparência. Alguns se vêem com a identidade refletida ali, porque a imagem só aparece porque existe a luz. Sem luz não há imagem. A imagem é uma metáfora. No ato de se ver, muitos se reconhecem. Graças ao reflexo do espelho, que, segundo dizem, não mente jamais.

 

(Pequena pausa).

 

O espelho é esotérico. Desperta controvérsias. Aguça a imaginação. Sempre exerceu um fascínio sobre cientistas e filósofos. Está presente nas artes, na psicologia, na ciência e na fé. Principalmente nos salões de beleza.

(Ri).

 

(Pequena pausa).

 

Quando os portugueses chegaram à Terra de Vera Cruz, qual presentinho eles deram para ganhar a simpatia dos índios? Um espelhinho, um objeto mágico, que primeiro assustou e depois encantou.

 

(Pequena pausa).

 

Pela fé, todos foram criados à imagem e semelhança de Deus e n’Ele devem se espelhar. Ao morrer, todos se querem se ver face a face com Deus, como se se colocassem diante de um espelho, sem ter como fugir da realidade nua e crua.

 

(Pequena pausa).

 

Pela ciência o homem quer investigar corpos celestes, observar a estrutura de estrelas e galáxias, estudar e desvendar a história, a formação e a evolução do universo. Do que ele lança mãos para isso? De um espelho magistral chamado Hubble, um telescópio, verdadeiro observatório espacial, feito de espelhos que fotografam os objetos, medem precisamente suas posições e captam luzes.

 

(Pequena pausa).

 

(Declama, bem teatral, sua versão da lenda de Narciso).

No espelho das águas,

Narciso se admirava.

A lâmina líquida

por um instante estremeceu,

deformando a auto-imagem

que ele, encantado, mirava.

(Então Narciso chora).

É que naquele lago,

àquela mesma hora,

o Patinho Feio nadava.

 

(NARCISA acorda. Espreguiça-se. Levanta. Olha dentro do pano que cobre a moldura. Percebe que IMAGEM não está lá. Fica intrigada. Com os olhos, procura-a).

 

IMAGEM

(Da platéia, percebendo que NARCISA acordou e está à sua procura).

Hei, estou aqui.

 

NARCISA

O que você tá fazendo aí, ô imagem independente e desgarrada?

 

IMAGEM

Nada. Tô aqui, experimentando a sensação de estar liberta do espelho e sua moldura.

 

NARCISA

O que, aliás, não está certo...

 

IMAGEM

E tava esperando você acordar para poder te ver de um ângulo que os outros te vêem.

 

NARCISA

Isso dá uma tese.

 

IMAGEM

Você é muito complexa, Narcisa. Dá um tratado. Tratado geral de fugitiva da realidade.

 

NARCISA

(Esboça um sorriso. Espreguiça-se).

Só se você me dedurar, me entregar.

(Pausa).

Nossa, devo ter dormido horas.

 

IMAGEM

(Encaminha-se para o palco).

Dormiu bem. Lembra do sonho que teve?

 

NARCISA

(Assentindo).

Hum, hum, claro que lembro.

 

IMAGEM

Até porque estes sonhos lhe são freqüentes, não são?

 

NARCISA

Do que você está falando?

 

IMAGEM

Do sonho que você teve agora.

 

NARCISA

Até meus sonhos você perscruta?

 

IMAGEM

(Já no palco).

Sim. Tudo. Não há nada em você que eu não saiba. Nada.

 

NARCISA

Você é mais que imagem. É a própria imaginação.

 

IMAGEM

E então, vamos falar sobre o sonho?

 

NARCISO

Vamos nada.

 

IMAGEM

Por que não?

 

NARCISA

Pra quê? Você não acabou de dizer que sabe de tudo?

 

IMAGEM

Uma coisa é saber. Outra coisa é vê-la sofrendo, presa ao passado.

 

NARCISA

Isso é comigo, é coisa minha, que diz respeito somente a mim.

 

(Pausa).

 

IMAGEM

Pena que pense assim, pois não é assim.

 

NARCISA

Como é que é então?

 

IMAGEM

Como é que você se referiu a mim ainda agorinha...

(Tentando se lembrar, puxando pela memória).

Ah, “imagem independente e desgarrada”.

 

NARCISA

(Ri).

E não é não?

 

 

IMAGEM

Não!

 

NARCISA

Como não? É cheia das liberdades. Até se materializou.

 

IMAGEM

Enquanto você estiver aprisionada em si mesma, não sou não.

 

NARCISA

Não vem não, tá?!.

 

IMAGEM

Você se enclausurou. Veste-se com uma armadura impenetrável. Não ouve de ninguém o que é preciso ouvir. Uma palavra diferente, uma contestação, algo que a faça refletir sobre seu modo de ser, estar e viver.

 

NARCISA

Mais que imagem e imaginação; agora você tá dando uma de minha consciência, meu grilo falante.

 

(Ri).

 

Ou você prefere a Sininho? Cadê seu pozinho de pirlimpimpim?

 

IMAGEM

Isso é tática sua.

 

NARCISA

Tática?

 

IMAGEM

Fazer gracinha, para desviar o assunto.

 

NARCISA

Eu sei direitinho aonde você quer chegar. Não vem não, não vem não, não vem não.

 

IMAGEM

Falar sobre isso vai lhe fazer bem. Você não vê o mal que lhe faz ficar guardando essa história a sete chaves, como segredo absoluto?

 

(Pausa).

 

Sai dessa. E daí? Dane-se o resto do mundo. Você se abandonou por conta de um passado irrecuperável.

 

(Pausa).

 

Sua vida estagnou. Você se resume a isso aqui. Você não se conclui. Uma mulher bonita, cheia de vida, mas sem expectativas, sem perspectivas, sem horizontes, atolada na areia movediça da saudade, do sentimento impossível.

 

NARCISA

Mais que imagem, imaginação e consciência. Você é minha... digamos, advogada do diabo.

 

IMAGEM

Não, Narcisa. Sou apenas e tão-somente o reflexo do que você é. E não quero continuar assim, feito nada caminhando para lugar nenhum.

 

NARCISA

(Emocionando-se).

Se você me conhece tão bem como diz me conhecer. Se você sabe tudo de mim quanto diz saber, então você pode avaliar o quanto é difícil pra mim...

(À flor da pele, começa a chorar, copiosamente).

 

IMAGEM

(Desconcertada).

Eu sei, eu sei...

 

(Solidária, aproxima-se, mantendo uma distância mínima entre as duas. Respeitosa, deixa a crise de choro passar. Toma NARCISA pela mão e a conduz).

Vem comigo. Não precisa temer. Pode confiar.

 

(Ambas entram por uma fresta do pano que cobre a moldura, como se partissem para uma viagem dentro do espelho).

 

(Palco às escuras).

 

(Em BG, trecho de música a escolher).

 

(NARCISA surge em outra extremidade do palco sob um facho de luz. Olhar fixo e perdido por sobre a platéia, corpo ereto, imóvel, braços estendidos, como se estivesse esperando alguém para um abraço).

 

NARCISA

Eu era uma menina. Uma menina com um sonho. Uma menina com um sonho lindo de viver. Uma menina com um sonho lindo de viver além-mar, na América do Norte. Entrei no avião imaginando que seria uma viagem com passagem só de ida. Passei um tempo sem enviar notícia. As pessoas se diziam preocupadas comigo. Eu falava com minha mãe, por apenas alguns minutos por mês, só para tranqüilizá-la, fazendo dela minha porta-voz diante dos demais.

 

(Voz de uma mulher idosa em off).

“Ela está bem! Mandou lembranças para todos”.

 

(Outro facho de luz, de cor diferente, ilumina outro ponto do palco. IMAGEM está sob ele, com o olhar fixo por sobre a platéia).

 

IMAGEM

Cinco anos depois estava de volta, como se não tivesse dito nada, como se nada tivesse acontecido. E até hoje, nunca disse essa boca é minha sobre este período. Ela desconversa, muda de assunto, evita falar, e até sem perceber fica nitidamente possessa, como se sentisse invadida, ou se quisesse enterrar as experiências desta época misteriosa de sua vida.

 

(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, ilumina outro ponto do palco. NARCISA está sob ele, imóvel, olhar fixo).

 

NARCISA

Dizem que estou deprê. Porque vivo amuada, não saio de casa, de meu quarto. As pessoas lá fora ficaram sem saber como agir, entre a preocupação e a vontade de transgredir minha vontade, invadir minha casa, meu espaço, este meu mundo. Sei que no início alguns chegaram a recorrer a conselhos de terapeutas, que à distância não quiseram fazer diagnóstico de meu estado. Só disseram que possivelmente eu estaria confinada em respeito a um período de luto, por ter perdido algo por lá...

 

(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, em outro ponto do palco).

 

IMAGEM

(Sob este facho).

Ela voltou um caco. Olhos fundos. Cabelos maltratados. Desânimo total. Uma apatia de dar dó. Não faltou quem não ficasse com pena dela. E ela impenetrável, impassível, olhando para o nada, vendo coisa alguma. E ficou muito difícil lidar com ela, sempre tão segura, tão senhora de si, dona do próprio nariz, que nunca deixou ninguém se meter em sua vida. Viviam todos aos cochichos. Achavam que era preciso fazer algo, e urgente, porque ela tava igual zumbi, alheia a tudo e a todos.

 

(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, em outro ponto do palco).

 

NARCISA

(Sob este facho).

Ninguém era louco de tomar qualquer iniciativa. Primeiro porque minha mãe achou que com tempo e vagar eu voltaria ao mundo real. Que nada melhor que apoio, carinho e zelo da família e dos amigos para as coisas entrarem nos eixos. Segundo, porque com certeza eu ia virar uma fera, ia achar que estavam conspirando contra mim, pelas costas, ia chamar a todos de traíras, e ia me fechar mais ainda, vendo-os até como inimigos. E conhecendo-me como eles me conhecem... eu ia mesmo.

 

(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, em outro ponto do palco).

 

IMAGEM

O que aconteceu nos Estados Unidos, aconteceu, diz respeito somente a ela. Mas, para que vire essa página de uma vez por todas, é preciso botar pra fora e contar seu caso com o...

(Sai da posição ext