JOGOS DE ESPELHO

                                  Flávio Almeida Patrocínio

 

 

 

DIREÇÃO

Este texto quer servir de manjar de mil talheres para um diretor criativo, que nele garimpe leituras e releituras. Um diretor que o reescreva a sua maneira, como se fora um co-autor.

 

 

INTERPRETAÇÃO

É um trabalho para duas grandes atrizes, dessas que se envolvem corpo e alma com personagens, vivendo-os mais que os interpretando, e neles se espelham como reflexos vivos da imaginação. 

 

 

CENOGRAFIA

Sugere-se um cenário simples, com poucos elementos, somente aqueles indispensáveis para a ação, até para permitir ao espectador a possibilidade de imaginar o local físico em que a cena acontece.

 

 

 

As pessoas não deviam pendurar espelhos nas suas salas.

Virginia Woolf

 

O espelho é o aprendizado das aparências.

Alfredo Bosi

 

Viver e morrer diante do espelho.

Charles Baudelaire

 

JOGOS DE ESPELHO

                                  Flávio Almeida Patrocínio

 

 

PRIMEIRO ATO

 

No palco, sob um facho de luz, uma grande moldura coberta de cima a baixo, que representa um espelho. Ao seu lado uma escada comum, dessas de metal, que se abrem. Numa das laterais, ao fundo, uma arara repleta de roupas e tecidos multicoloridos e uma mesa simples, sobre a qual poderão estar pequenos objetos que serão ou não utilizados durante a ação. Mais à frente do palco, com vistas ao espelho, uma cama que lembra, sem muito esforço, um divã. Sobre esta um laptop/notebook ligado.

 

(NARCISA escolhe roupas na arara, colocando as selecionadas nos ombros. Após um tempo, encaminha-se para a moldura coberta e retira o pano. Do outro lado da moldura, como se fosse um reflexo/imagem, pode-se ver IMAGEM, imóvel, vestindo um collant, estilo balé, ginástica. NARCISA exibe-se, analisa-se diante do espelho. Num estalo percebe que IMAGEM permanece imóvel todo o tempo).

 

 

NARCISA

(Assustada, teatralmente, falando com IMAGEM no espelho).

Alto lá! Isso não está certo. Você não sou eu. Ou melhor, eu não sou você.

(Dá a volta e, atrás do espelho, fala diretamente com IMAGEM).

 

IMAGEM

Lógico que não. Sou apenas uma imagem.

 

NARCISA

Sim. Mas deveria ser a “minha” imagem; a imagem de mim. E não outra.

 

IMAGEM

E quem lhe garante que eu não sou, se eu sou?

 

NARCISA

Não, não é.

 

IMAGEM

Pois posso ser a imagem que você gostaria que eu fosse. Ou até mesmo a imagem que quer que eu seja. Como também posso não ser a imagem que você gostaria que a revelasse.

 

NARCISA

Ah, mas você está muito filosófica para uma imagem.

 

IMAGEM

Mas toda imagem é isso: filosofia pura. Reflexo do eu, do outro, de como nos vemos ou gostaríamos de ser vistos.

 

NARCISA

(Volta-se para a platéia, por um segundo, fazendo gesto de que não está entendendo nada).

Quer dizer, então, que você sou eu refletida no espelho?

 

IMAGEM

Alguma dúvida?

 

NARCISA

Todas... E nenhuma. Que não é... A gente nem se parece...

 

IMAGEM

Como eu disse, posso muito bem ser, não o que você é, e sim o que pensa que é ou o que gostaria de ser. Ou até a sua antiimagem.

 

NARCISA

Pois fique sabendo que estou satisfeitíssima em ser o que sou, como sou e não admito ter nenhuma imagem rebelde de mim. Não quero imagem com vida própria, que pode até ser distorcida. Onde já se viu isso?

 

IMAGEM

Eu entendo...

 

NARCISA

(Irônica, interage com a platéia).

Vejam , e ainda por cima é uma imagem compreensiva...

(Voltando-se para IMAGEM).

Mas fala sério. Você é apenas fruto de minha imaginação. Ou de minha solidão, sei lá.

 

IMAGEM

Sou não...

 

NARCISA

Talvez, pelo fato de ficar muito neste quarto, enfurnada entre quatro paredes, eu já comece a criar companhias metafísicas... Você não existe, é criação minha, invenção de minha necessidade de interagir com alguém.

 

IMAGEM

Sou sua imagem, Narcisa. Sou o que você mais adora, admira, contempla e valoriza em si mesma. Somos indissociáveis. Sem mim, você ficaria totalmente sem referência.

 

NARCISA

(Irônica, interage com a platéia).

Convencida...

 

IMAGEM

Sou realista, como toda imagem deve ser. Ao deparar-se comigo, frente a frente, você encontra o outro lado de sua alma.

 

NARCISA

Como assim? O “outro lado” de minha alma?

 

IMAGEM

Vocês, humanos, têm duas almas. Uma, fora de você, que a vigia intimamente, e outra, dentro de você, atenta ao seu mundo exterior. Ambas precisam se encontrar, física e metafisicamente, porque somente unidas tornam o ser completo.

 

NARCISA

Não estou entendendo nada...

 

IMAGEM

É porque sua vaidade não lhe deixa ver.

 

NARCISA

Minha “vaidade?”

 

IMAGEM

Sim, você é uma mulher muita vaidosa. E ninguém melhor que eu para saber disso.

 

NARCISA

E o que é que minha vaidade não me deixa ver?

 

IMAGEM

A sua beleza interior... A sua melhor parte, Narcisa.

 

NARCISA

(Põe as mãos na cabeça. Anda pelo palco, falando consigo mesma).

Meu Deus, que papo mais estranho. E o que é pior: não passa de alucinação. Agora dei para falar sozinha, ver coisas... E se eu estiver ficando louca?

 

IMAGEM

Mas a vida inteira você falou comigo. Com uma diferença: não obtinha respostas assim, como agora, me vendo materializada, tête-à-tête.

(Sorri).

Calma! Não se preocupe. Este é um momento de extrema sanidade. E você não está falando sozinha, está?

 

NARCISA

Não sei por que estou aqui, prestando atenção em você.

 

IMAGEM

Que mal há nisso? Você não está prestando atenção em mim. E, sim, em você mesma. Está se transcendendo, não percebe?

 

NARCISA

(Impacientando-se).

Ah, pára! Que coisa absurda.

 

IMAGEM

Ninguém a conhece como você se conhece. Conseqüentemente, como sua imagem, eu a conheço tanto quanto, em toda sua amplitude.

 

NARCISA

(Em abstração, fala como se estivesse pensando em voz alta).

Papo brabo este. Se eu contasse, quem acreditaria? Iam dizer que fiquei doida de vez. E todos já me vêem como uma eremita, sem contato, a não ser com aqueles que teimam, insistentemente, em me procurar, e que só me acham quando permito, e isso tem se tornado cada vez mais raro.

 

IMAGEM

Você é como eu, aprisionada na redoma do espelho.

 

NARCISA

(Ainda abstraída, pensando).

A opção de morar nesta casa, com meus pais já bem idosos, e o que é pior, totalmente sustentada por eles, dependente deles... Não sei até que ponto isso influi ou contribui para me deixar tão na minha. Há anos meu quarto acabou por se tornar meu universo. É aqui que passo a maior parte de meu tempo. Minha vida tem se resumido a ler, Internet, pensar, lembrar, criar realidades paralelas. Imaginação tão fértil que...

 

IMAGEM e NARCISA

(Falam ao mesmo tempo, em uníssono).

...me leva até a dar vida e a dialogar com uma aparição que se diz minha imagem.

 

NARCISA

Eu não estou maluca. Posso até vir a ficar, mas ainda não... Isso tudo é fraqueza minha, eu sei.

 

IMAGEM

Descomplica. Simplifica. É mais fácil.

 

NARCISA

(Continua abstraída, movimentando-se).

Agora começo a ter certeza sobre as mudanças que venho notando em mim. Passar uma tarde inteira, por exemplo, com idéia fixa em algo que não tem nada a ver. E só percebo isso quando desencano.

 

IMAGEM

E quem, além de mim, percebe você tão bem? Ninguém... Claro, você não se abre com ninguém.

 

NARCISA

(Desconhecendo por completo a fala da IMAGEM).

Será que é o fato de eu chorar tanto de tempos em tempos? Em certas ocasiões bate um troço, chego a sentir náuseas, a cabeça dói dias seguidos, aquela dorzinha chata, que fica martelando, pulsando, latejando. Enquanto eu não me desmancho em lágrimas não pára de doer. E aí eu me sinto inchada, horrível, balofa, insuportável.

 

IMAGEM

(Recitando, toda teatral).

Nem o maior dos maiores espelhos, com seu enorme reflexo, o mais ampliado, poderá conter em si teu ego, teu ego no centro do mundo, teu egocentrismo no oco do umbigo, teu ego narcisismo, tua vaidade, tua pose de se achar a mais-mais, a tal em close, mas tão só, tão só, cada vez e sempre perdida, sem se encontrar no vazio de si, por si só, só em si. Ó ego solitária criatura dentro do nada.

 

NARCISA

(Em completo alheamento).

Aprisionei-me em minha própria imagem do passado. O que fui, o que vivi, o que deixei de viver. Essa aparição que aí está e que se diz minha imagem, veio tirar minha máscara, jogar em minha cara coisas que eu sei, são minhas, unicamente minhas, e que venho guardando ao longo dos anos; guardando, não, sedimentando, fermentando feito fel o que já foi mel.

 

IMAGEM

Você sempre será, nunca deixou de ser, uma doce criatura. Liberte-se...

 

NARCISA

(Reagindo).

Cale-se. Não invada minha privacidade com conceitos tolos. Você não vai conseguir me dividir. Essa sua conversa de duas almas. Conversa mole para engabelar uma mulher solitária, vazia, confessadamente aturdida, perdida.

 

IMAGEM

A descoberta da segunda alma refletida no espelho foi sua.

 

NARCISA

(Enfática).

Bobagem. Isso é besteira. Não acredito nessas coisas.

 

IMAGEM

Já lhe ocorreu que você não é assim, que você está assim, você ficou assim?

 

NARCISA

Eu me tornei uma descrente, apática, cética, algumas vezes até inconveniente comigo mesma, nesse mundo que criei a parte e que habito intolerante. E nesse mundo não há lugar para nada e ninguém. Ou seja, você está no lugar errado, na hora errada, com a pessoa errada.

 

IMAGEM

Impossível.

 

NARCISA

O quê?

 

IMAGEM

Isso.

 

NARCISA

(Impaciente).

Afinal, o que você quer? Me diz.

 

IMAGEM

Eu? O que eu poderia querer de você? Nada. Entenda, sou apenas reflexo do que você é. Eu só existo e estou aqui a partir do seu querer.

 

NARCISA

Meu querer, como? Se eu acabei de dizer que não te quero aqui. Você invadiu meu espaço.

 

IMAGEM

Você me convocou. Violei uma fronteira praticamente intransponível porque você me intimou. Cansou de ser outra diante do espelho. E sabe muitíssimo bem que não conseguiu me forjar como imagem caricata. Ganhei seu respeito, sua atenção. Ganhei forma. Estou presente.

(Pausa).

 

NARCISA

Vamos, continua...

 

IMAGEM

Sabia que desde que o mundo é mundo, o espelho sempre funcionou como um jogo da verdade?

 

NARCISA

Ah, é?  Mas uma de suas conclusões de minha relação com o espelho, é a de que eu o engano muito bem.

 

IMAGEM

É... E talvez por isso eu esteja aqui.

 

 

NARCISA

Como assim?

 

IMAGEM

Lá vem você. Eu disse que “talvez por isso...”

 

NARCISA

Você está aqui mesmo? Você existe?

 

IMAGEM

Olha, a gente ficaria o resto da vida discutindo sobre isso. Já lhe disse que sou e que posso vir a ser a imagem daquilo que você quiser que eu seja. Sou, além do reflexo de você, sou também o reflexo de seus desejos, por mais inconfessáveis que sejam.

 

NARCISA

Quer dizer, então, que é minha necessidade de ficar contida, calada, que a faz me instigar a falar, a me abrir...

 

IMAGEM

Garota esperta.

 

NARCISA

Sou muito armada, precavida, não tiro minha armadura por nada. Já confiei demais. Levei tanta bordoada que acabei me fechando. Hoje posso dizer que sou impenetrável.

(Longo suspiro).

 

IMAGEM

Acompanho sua terapia do espelho. Diante dessa moldura, lendo, olhando, meditando, falando, você sempre foi outra, principalmente quando fala de você. Vou repetir: você não é assim. Você está assim, ficou assim.

 

NARCISA

Eu tenho, não diria dificuldade, mas uma quase impossibilidade de conseguir perdoar.

(Pausa).

Difícil demais confessar isso, mas eu sou uma perdedora. Tento ser outra porque a mim eu já me conheço, e sei que desse mato não sai coelho. Sou a própria desiludida insistindo na ilusão.

 

IMAGEM

Acho bonito ouvindo-a falar assim.

 

NARCISA

Ah, tenha santa paciência...

 

IMAGEM

A imensidão interior é tanta que muitos se perdem. O seu interior pode ser ou um deserto sem-fim ou a mais linda paisagem. Às vezes vem a poesia e salva. Vem a música e resgata. A pintura arrebata aqui e ali. O amor...

 

NARCISA

(Cortante).

O amor, não. Este é carcereiro. Não passa de um imenso olho atento, vigilante. Este não salva ninguém, muito pelo contrário. Sacrifica. Tortura. Judia.

 

IMAGEM

Eu sei de suas dores, Narcisa. Mas são os motivos dessas dores que a têm tornado tão infeliz...

 

NARCISA

(Gargalha).

Eu infeliz? Infeliz, magoada, aprisionada, desesperançada, entrevada nesse espaço mínimo, com preguiça até de olhar a luz do sol, insegura, amedrontada, mórbida.

(Embarga a voz).

 

IMAGEM

Esta é você, em sua mais plena essência.

(Aproxima-se. Abraça-a. NARCISA chora).

 

(Palco às escuras).

 

 

 

SEGUNDO ATO

 

(Em BG, trecho da música GELSOMINA, com Caetano Veloso, do CD “Omaggio a Federico e Giulietta”).

 

(Abre a cena com NARCISA dormindo profundamente na cama-divã).

 

 

IMAGEM

(Surge da platéia, vestindo um collant. Caminhando, fala em tom professoral, como se estivesse dando uma aula bem agradável e interessante).

 

Todos aqui têm espelho em casa. E normalmente o espelho fica em locais onde se pode ter privacidade. Onde você pode estar com você, reservadamente. Há pessoas que passam horas diante do espelho. Conversando sozinhas, consultando-o, ensaiando o que dizer, lendo, simplesmente olhando com olhar perdido no nada, meditando, se investigando, admirando-se.

 

(Pequena pausa).

 

O espelho é revelador. Nus ou vestidos, diante do espelho caem todas as máscaras. Ele representa a vaidade. Olhando-se no espelho, pode-se amar ou odiar a própria aparência. Alguns se vêem com a identidade refletida ali, porque a imagem só aparece porque existe a luz. Sem luz não há imagem. A imagem é uma metáfora. No ato de se ver, muitos se reconhecem. Graças ao reflexo do espelho, que, segundo dizem, não mente jamais.

 

(Pequena pausa).

 

O espelho é esotérico. Desperta controvérsias. Aguça a imaginação. Sempre exerceu um fascínio sobre cientistas e filósofos. Está presente nas artes, na psicologia, na ciência e na fé. Principalmente nos salões de beleza.

(Ri).

 

(Pequena pausa).

 

Quando os portugueses chegaram à Terra de Vera Cruz, qual presentinho eles deram para ganhar a simpatia dos índios? Um espelhinho, um objeto mágico, que primeiro assustou e depois encantou.

 

(Pequena pausa).

 

Pela fé, todos foram criados à imagem e semelhança de Deus e n’Ele devem se espelhar. Ao morrer, todos se querem se ver face a face com Deus, como se se colocassem diante de um espelho, sem ter como fugir da realidade nua e crua.

 

(Pequena pausa).

 

Pela ciência o homem quer investigar corpos celestes, observar a estrutura de estrelas e galáxias, estudar e desvendar a história, a formação e a evolução do universo. Do que ele lança mãos para isso? De um espelho magistral chamado Hubble, um telescópio, verdadeiro observatório espacial, feito de espelhos que fotografam os objetos, medem precisamente suas posições e captam luzes.

 

(Pequena pausa).

 

(Declama, bem teatral, sua versão da lenda de Narciso).

No espelho das águas,

Narciso se admirava.

A lâmina líquida

por um instante estremeceu,

deformando a auto-imagem

que ele, encantado, mirava.

(Então Narciso chora).

É que naquele lago,

àquela mesma hora,

o Patinho Feio nadava.

 

(NARCISA acorda. Espreguiça-se. Levanta. Olha dentro do pano que cobre a moldura. Percebe que IMAGEM não está lá. Fica intrigada. Com os olhos, procura-a).

 

IMAGEM

(Da platéia, percebendo que NARCISA acordou e está à sua procura).

Hei, estou aqui.

 

NARCISA

O que você tá fazendo aí, ô imagem independente e desgarrada?

 

IMAGEM

Nada. Tô aqui, experimentando a sensação de estar liberta do espelho e sua moldura.

 

NARCISA

O que, aliás, não está certo...

 

IMAGEM

E tava esperando você acordar para poder te ver de um ângulo que os outros te vêem.

 

NARCISA

Isso dá uma tese.

 

IMAGEM

Você é muito complexa, Narcisa. Dá um tratado. Tratado geral de fugitiva da realidade.

 

NARCISA

(Esboça um sorriso. Espreguiça-se).

Só se você me dedurar, me entregar.

(Pausa).

Nossa, devo ter dormido horas.

 

IMAGEM

(Encaminha-se para o palco).

Dormiu bem. Lembra do sonho que teve?

 

NARCISA

(Assentindo).

Hum, hum, claro que lembro.

 

IMAGEM

Até porque estes sonhos lhe são freqüentes, não são?

 

NARCISA

Do que você está falando?

 

IMAGEM

Do sonho que você teve agora.

 

NARCISA

Até meus sonhos você perscruta?

 

IMAGEM

(Já no palco).

Sim. Tudo. Não há nada em você que eu não saiba. Nada.

 

NARCISA

Você é mais que imagem. É a própria imaginação.

 

IMAGEM

E então, vamos falar sobre o sonho?

 

NARCISO

Vamos nada.

 

IMAGEM

Por que não?

 

NARCISA

Pra quê? Você não acabou de dizer que sabe de tudo?

 

IMAGEM

Uma coisa é saber. Outra coisa é vê-la sofrendo, presa ao passado.

 

NARCISA

Isso é comigo, é coisa minha, que diz respeito somente a mim.

 

(Pausa).

 

IMAGEM

Pena que pense assim, pois não é assim.

 

NARCISA

Como é que é então?

 

IMAGEM

Como é que você se referiu a mim ainda agorinha...

(Tentando se lembrar, puxando pela memória).

Ah, “imagem independente e desgarrada”.

 

NARCISA

(Ri).

E não é não?

 

 

IMAGEM

Não!

 

NARCISA

Como não? É cheia das liberdades. Até se materializou.

 

IMAGEM

Enquanto você estiver aprisionada em si mesma, não sou não.

 

NARCISA

Não vem não, tá?!.

 

IMAGEM

Você se enclausurou. Veste-se com uma armadura impenetrável. Não ouve de ninguém o que é preciso ouvir. Uma palavra diferente, uma contestação, algo que a faça refletir sobre seu modo de ser, estar e viver.

 

NARCISA

Mais que imagem e imaginação; agora você tá dando uma de minha consciência, meu grilo falante.

 

(Ri).

 

Ou você prefere a Sininho? Cadê seu pozinho de pirlimpimpim?

 

IMAGEM

Isso é tática sua.

 

NARCISA

Tática?

 

IMAGEM

Fazer gracinha, para desviar o assunto.

 

NARCISA

Eu sei direitinho aonde você quer chegar. Não vem não, não vem não, não vem não.

 

IMAGEM

Falar sobre isso vai lhe fazer bem. Você não vê o mal que lhe faz ficar guardando essa história a sete chaves, como segredo absoluto?

 

(Pausa).

 

Sai dessa. E daí? Dane-se o resto do mundo. Você se abandonou por conta de um passado irrecuperável.

 

(Pausa).

 

Sua vida estagnou. Você se resume a isso aqui. Você não se conclui. Uma mulher bonita, cheia de vida, mas sem expectativas, sem perspectivas, sem horizontes, atolada na areia movediça da saudade, do sentimento impossível.

 

NARCISA

Mais que imagem, imaginação e consciência. Você é minha... digamos, advogada do diabo.

 

IMAGEM

Não, Narcisa. Sou apenas e tão-somente o reflexo do que você é. E não quero continuar assim, feito nada caminhando para lugar nenhum.

 

NARCISA

(Emocionando-se).

Se você me conhece tão bem como diz me conhecer. Se você sabe tudo de mim quanto diz saber, então você pode avaliar o quanto é difícil pra mim...

(À flor da pele, começa a chorar, copiosamente).

 

IMAGEM

(Desconcertada).

Eu sei, eu sei...

 

(Solidária, aproxima-se, mantendo uma distância mínima entre as duas. Respeitosa, deixa a crise de choro passar. Toma NARCISA pela mão e a conduz).

Vem comigo. Não precisa temer. Pode confiar.

 

(Ambas entram por uma fresta do pano que cobre a moldura, como se partissem para uma viagem dentro do espelho).

 

(Palco às escuras).

 

(Em BG, trecho de música a escolher).

 

(NARCISA surge em outra extremidade do palco sob um facho de luz. Olhar fixo e perdido por sobre a platéia, corpo ereto, imóvel, braços estendidos, como se estivesse esperando alguém para um abraço).

 

NARCISA

Eu era uma menina. Uma menina com um sonho. Uma menina com um sonho lindo de viver. Uma menina com um sonho lindo de viver além-mar, na América do Norte. Entrei no avião imaginando que seria uma viagem com passagem só de ida. Passei um tempo sem enviar notícia. As pessoas se diziam preocupadas comigo. Eu falava com minha mãe, por apenas alguns minutos por mês, só para tranqüilizá-la, fazendo dela minha porta-voz diante dos demais.

 

(Voz de uma mulher idosa em off).

“Ela está bem! Mandou lembranças para todos”.

 

(Outro facho de luz, de cor diferente, ilumina outro ponto do palco. IMAGEM está sob ele, com o olhar fixo por sobre a platéia).

 

IMAGEM

Cinco anos depois estava de volta, como se não tivesse dito nada, como se nada tivesse acontecido. E até hoje, nunca disse essa boca é minha sobre este período. Ela desconversa, muda de assunto, evita falar, e até sem perceber fica nitidamente possessa, como se sentisse invadida, ou se quisesse enterrar as experiências desta época misteriosa de sua vida.

 

(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, ilumina outro ponto do palco. NARCISA está sob ele, imóvel, olhar fixo).

 

NARCISA

Dizem que estou deprê. Porque vivo amuada, não saio de casa, de meu quarto. As pessoas lá fora ficaram sem saber como agir, entre a preocupação e a vontade de transgredir minha vontade, invadir minha casa, meu espaço, este meu mundo. Sei que no início alguns chegaram a recorrer a conselhos de terapeutas, que à distância não quiseram fazer diagnóstico de meu estado. Só disseram que possivelmente eu estaria confinada em respeito a um período de luto, por ter perdido algo por lá...

 

(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, em outro ponto do palco).

 

IMAGEM

(Sob este facho).

Ela voltou um caco. Olhos fundos. Cabelos maltratados. Desânimo total. Uma apatia de dar dó. Não faltou quem não ficasse com pena dela. E ela impenetrável, impassível, olhando para o nada, vendo coisa alguma. E ficou muito difícil lidar com ela, sempre tão segura, tão senhora de si, dona do próprio nariz, que nunca deixou ninguém se meter em sua vida. Viviam todos aos cochichos. Achavam que era preciso fazer algo, e urgente, porque ela tava igual zumbi, alheia a tudo e a todos.

 

(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, em outro ponto do palco).

 

NARCISA

(Sob este facho).

Ninguém era louco de tomar qualquer iniciativa. Primeiro porque minha mãe achou que com tempo e vagar eu voltaria ao mundo real. Que nada melhor que apoio, carinho e zelo da família e dos amigos para as coisas entrarem nos eixos. Segundo, porque com certeza eu ia virar uma fera, ia achar que estavam conspirando contra mim, pelas costas, ia chamar a todos de traíras, e ia me fechar mais ainda, vendo-os até como inimigos. E conhecendo-me como eles me conhecem... eu ia mesmo.

 

(Um novo facho de luz, de cor diferenciada, em outro ponto do palco).

 

IMAGEM

O que aconteceu nos Estados Unidos, aconteceu, diz respeito somente a ela. Mas, para que vire essa página de uma vez por todas, é preciso botar pra fora e contar seu caso com o...

(Sai da posição extática em que estava e se dirige à NARCISA, saltitando em volta dela).

Com o? O? O?

(Como se estivesse esperando resposta).

 

NARCISA

(Mais relaxada, mas fica visivelmente envergonhada, sem lugar no palco).

Pára! Você não vai fazer isso comigo. Me fazer pagar este mico. E além do mais você está banalizando minha situação.

 

IMAGEM

(Dirigindo-se à platéia, envolvendo-a em curiosidade).

Vocês não fazem a mínima idéia com quem esta mulher teve um affair na Califórnia...

 

NARCISA

Você acha mesmo que eu mereço esta super exposição?

 

IMAGEM

(Dirigindo-se à NARCISA).

Chega de mistério. Você não continuará nessa vida, entregue à própria solidão. A vida está à sua espera. Viva, mulher, viva!

 

(Põe-se a caminhar pelo palco a passos largos, demarcados, de forma bem teatral).

 

Que o mundo inteiro conheça sua história. Que bobagem ficar fazendo este segredo todo. Até eu, sua humilde imagem, uma modesta coadjuvante, me sinto envaidecida de, por vias indiretas, ter tirado minha casquinha no bofe. E depois você teve um caso com “o cara”, sonho de consumo de todas as mulheres do planeta...

 

NARCISA

Esta história tem dois lados. E já nem sei mais qual dos dois é o mais difícil pra mim.

 

IMAGEM

Os tempos são outros. Abra essa cabeça, criatura.

 

(Em ritmo ágil, ambas retiram o pano que cobre a moldura. Em seguida ficam frente a frente, como se NARCISA estivesse vendo sua IMAGEM no espelho. Sobre elas dois fachos de luz, de cores diferenciadas).

 

NARCISA

Aonde você quer chegar com isso?

 

IMAGEM

Você já está começando a sentir mais leve, não está?

 

NARCISA

Fiz um cofre em meu peito e dentro dele guardei como meu tesouro e segredo cinco anos definitivos de minha vida. Ninguém, absolutamente ninguém sabe o que aconteceu comigo nesse período. Se eu contasse a história de tudo que vivi nos Estados Unidos, por um lado seria crucificada, abominada, queimada qual Joana Darc em praça pública. Por outro seria chamada de sonhadora, mentirosa, enfim, ninguém acreditaria, iam fazer troça de mim. Certas verdades, se contadas, parecem mentiras.

 

IMAGEM

Pior ainda: ninguém acreditaria se você dissesse que quando o love terminou, você com o pé e ele entrou com a bunda.

 

(Pausa).

 

Ele te amou muito. É inegável. Mas muito mesmo. Era louco por você. Pirado. E tinha um ciúme louco.

 

(Pausa. As feições de ambas aparentam saudosismo).

 

Ele queria transar sem camisinha.

 

NARCISA

Eu nunca permiti.

 

IMAGEM

Ele adorava café da manhã com salsicha, ovo, torrada, panqueca, batata frita, ketchup.

 

NARCISA

Eco. Eu achava aquilo um horror.  ao vê-lo lambendo os dedos e os beiços.

 

IMAGEM

Fumava três carteiras de cigarro Camel por dia.

 

NARCISA

Às vezes até quatro. Cheirava a nicotina e alcatrão.

 

IMAGEM

Um beberrão.

 

NARCISA

Verdade. Bebia o tempo todo.

(Soletrando).

O – tem – po – to – do.

 

IMAGEM

(Suspira).

Mas era... é um gato. Mesmo que deixasse toalha molhada em qualquer canto. Cuecas e meias sujas pela casa. E tivesse chulé.

 

NARCISA

(Suspira).

Demais. Lindo. Um sonho. Ainda que deixasse a porta aberta todas as vezes que ia ao banheiro.

 

IMAGEM

Ele sempre foi um mulherengo.

 

NARCISA

Sempre.

 

IMAGEM

Você nunca acreditou nele.

 

NARCISA

Ele jurava amor, eu queria e não queria, não tinha como, não podia acreditar...

 

IMAGEM

Mas ao mesmo tempo não queria perdê-lo.

 

NARCISA

Deus me livre!

 

IMAGEM

Até o dia que ele propôs uma transa a três.

 

NARCISA

Aquilo foi o fim.

 

IMAGEM

Por que? Por que ele não disse qual o sexo da terceira pessoa do ménage?

 

NARCISA

Que fosse o Leonardo DiCaprio.

 

IMAGEM

Ou a Angelina Jolie...

 

NARCISA

Engraçadinha...

 

IMAGEM

E ele insistiu nisso. Queria porque queria.

 

NARCISA

Foi o fim.

 

IMAGEM

E fim é fim e pronto. Uma pessoa não pode ficar fadada a viver de lembranças, mesmo que apaixonadíssima, em luto eterno por um amor irrecuperável, que um dia foi possível e hoje é impossível...

 

NARCISA

(Suspirando).

É... Impossível.

 

IMAGEM

Você evita falar o nome dele?

 

NARCISA

Do William?

 

IMAGEM

É William, é?

 

NARCISA

É.

 

IMAGEM

É assim que você o chamava?

 

NARCISA

(Suspira).

Sim, William.

 

IMAGEM

William Bradley. O mito que ora desmistificamos.

 

NARCISA

Nessa época ele não era famoso não. Vivia de bicos.

 

IMAGEM

(À platéia).

E ela era stripper.

 

NARCISA

Eu era uma stripper.

 

IMAGEM

Você era uma...

 

NARCISA

Stripper.

 

IMAGEM

Viu só? Não doeu. Nos Estados Unidos você foi uma stripper.

 

NARCISA

Eu trabalhei como stripper.

 

IMAGEM

Arrancou pedaço? Te diminuiu?

 

NARCISA

Não.

 

IMAGEM

E foi como stripper que você conheceu o William?

 

NARCISA

Foi. Ele era motorista...

 

IMAGEM

Motorista?

 

NARCISA

...é, motorista da limusine que levava e trazia a gente... as garotas de programa... para os compromissos.

 

IMAGEM

(Para a platéia).

Mas ela sabia que o William Bradley já tinha trabalhado como carregador de geladeira em loja de eletrodomésticos e até vestido de galinha para promover a cadeia de fast-food Pollo Loco.

 

NARCISA

(Suspira fundo).

William Bradley...

 

IMAGEM

(Suspirando também).

Um metro e oitenta e três. Corpo escultural. Estonteantes olhos azuis...

 

NARCISA

(Suspirando mais fundo ainda).

Ah, meu William Bradley Pitt.

 

NARCISA e IMAGEM

(Sobem dois degraus da escada de metal e falam em uma só voz, com os braços para o alto).

Brad Pitt.

 

(Música triunfal).

 

(Palco às escuras).

 

 

TERCEIRO ATO

 

(A grande moldura representando um espelho está coberta de cima a baixo. NARCISA está sentada na cama-divã, com o laptop/notebook no colo. Pelo fundo do palco entra LUÍSA, a mesma atriz que interpreta IMAGEM, agora em trajes diferentes).

 

 

LUÍSA

Ô de casa, tô entrando...

 

NARCISA

(Surpresa, põe o laptop/notebook na cama. Levanta-se bruscamente).

Peraí, mas você não é a... a...

(Confunde a visitante com IMAGEM).

 

LUÍSA

Luísa... Nooosssa, Narcisa, você fica tão enclausurada aqui, isolada, que quando recebe visita mal conhece os amigos.

 

(As duas se cumprimentam).

 

NARCISA

É que, eu, eu, por um momento, pensei, confundi você, achei que fosse outra pessoa.

 

LUÍSA

E aí, tudo bem? Tava com saudade, vim ver como você está.

 

NARCISA

Tudo bom.

 

LUÍSA

Menina, mas que gracinha que estão seus pais. Casal mais fofo. Me receberam de mãos dadas. Acredita que já tem quase um ano que a gente não se vê?

 

NARCISA

Jura? O tempo voa.

 

LUÍSA

É, mas nós somos vizinhas de porta, Narcisa. E nós duas, amigas de infância, crescemos juntas, estudamos num mesmo colégio, começamos na mesma faculdade, sempre fomos carne com a unha. Unidas, inseparáveis. De repente... Até pra falar com você é mais difícil que ter audiência com o papa.

 

NARCISA

(Esforça-se para não ser indelicada).

A vida vai tomando rumos diferentes...

 

LUÍSA

Sei...

 

NARCISA

E depois a gente já conversou muito sobre isso em outras vezes, e pra mim esse assunto zefiní.

 

LUÍSA

Ih, calma, calma, não estou aqui para futucar passado, nem reabrir ferida nenhuma. Eu só lamento... Deixa pra lá, é saudosismo bobo meu, tenho que respeitar seu jeito, por mais que isso dê um nó na minha cabeça. 

 

NARCISA

(Desconfortável).

Cada um é cada um.

 

LUÍSA

(Ajeita-se, sentando em um dos degraus da escada).

Você não conseguiu e nem vai conseguir me perdoar, não é?

 

NARCISA

Por que você insiste tanto nisso, hein? São águas passadas, a fila andou.

 

LUÍSA

É, mas você mudou da água para o vinagre comigo. Nunca mais foi a mesma, não me engole mais. Isso é tão claro. E me dói tanto, Narcisa.

 

NARCISA

Pra começar, se eu não te engolisse você não estaria aqui, agora.

 

LUÍSA

Eu estou porque sou persistente, ou insistente, sei lá. E eu jurava que mais uma vez você ia mandar dizer que tava indisposta, ou que tava dormindo, sei lá mais o quê.

 

NARCISA

Ah, não... Não começa...

 

LUÍSA

Não há um só dia em que esta pendência entre nós não me incomode. Eu me sinto tão mal. Toda noite, é só botar a cabeça no travesseiro e me dá uma sensação de vazio tão grande. Eu choro. Se você soubesse...

(Soluça, chorosa).

 

NARCISA

É nisso que dá...

 

LUÍSA

(Secando os olhos).

A raiz de tudo está naquela maldita época quando entramos pra faculdade, você me contou que aquele irmão do seu namorado-quase-noivo se declarou pra você. E depois veio me dizer que ele ficava pegando no seu pé, se engraçando, dando em cima, não dando trégua, e você tava dividida entre contar ou não para o...

 

NARCISA

Stop, please... Não tô a fim desse papo, não... Quantas vezes já disse e quantas vou ter que repetir?

 

LUÍSA

Eu preciso ter essa conversa com você...

 

NARCISA

Eu não quero. Aquilo foi brabo...

 

LUÍSA

Precisamos olhar uma nos olhos da outra sem constrangimento, como nos olhávamos antigamente. Vamos passar a limpo, zerar tudo...

 

NARCISA

Não... E zerar tudo é impossível.

(Pausa).

Olha, vê, me dá até um calafrio... Levei um tempão para voltar à normalidade, e não acho que seja uma boa exorcizar isso em mim. Não mesmo. Desconfia, tá?!.

 

LUÍSA

É, mas teve um lado bom também...

 

NARCISA

Você acha mesmo?

 

LUÍSA

Hei, por mais desligada que você seja, aquele momento foi um divisor para nossa amizade... É antes e depois daquilo...

 

NARCISA

Você ficou forçando a onda, dizendo que se ele tava me cantando é porque eu tinha dado mole pra ele...

 

LUÍSA

E?

 

NARCISA

Aquilo foi virando novela. Aquela ladainha todo dia...

 

LUÍSA

E?

 

NARCISA

Você me aparece aqui, do nada, sem avisar e sem ser chamada.

(Pequena pausa).

Por que você tá lembrando disso agora, tão assim fora do contexto?

 

LUÍSA

Por favor, Narcisa, eu preciso, nós precisamos lavar essa roupa suja.

 

NARCISA

Sei não... Foi cruel. Você tinha que arrancar esse defunto da cova? Isso tem tanto tempo...

(Pequena pausa).

Tá vendo por que eu a evito? Você sempre bate nessa mesma tecla, volta sempre a essa vaca fria.

 

LUÍSA

Por causa desse episódio eu perdi sua amizade, o que eu tinha de mais precioso em minha vida, desde que eu me entendo por gente.

 

NARCISA

Você fez um verdadeiro terror pra cima da minha cabeça. Aquilo foi pior que uma santa inquisição, tudo na base da pressão...

 

LUÍSA

Com toda franqueza, eu tinha certeza de que você tava me contando o caso pela metade...

 

NARCISA

Foi nada. Você foi sacana, jogou verde pra colher maduro.

(Pequena pausa).

Não gosto nem de lembrar... Você não tinha nada que tocar nessa ferida...

 

LUÍSA

Ferida? Peraí, aquele acontecimento nos uniu mais ainda na época... O que você tá chamando de ferida, naquele tempo a gente chamou de pacto, lembra? Uma leitura de nossos códigos femininos mais íntimos.

 

NARCISA

Que piração foi aquilo...

 

LUÍSA

Foi... Mas passado o impacto inicial, até que foi de boa...

 

NARCISA

Até hoje ainda fico meio assim...

 

LUÍSA

Pois é, eu sei que isso mexe com você, a bloqueou por completo. Puxa, como eu gostaria que isso ficasse definitivamente bem resolvido dentro de você...

 

NARCISA

Impossível.

 

LUÍSA

Impossível?

 

NARCISA

É, impossível!

 

LUÍSA

Você é rancorosa, credo.

(Longa pausa).

Como é impossível para você cicatrizar essa ferida, fico me sentindo como se tivesse forçado a continuidade de nossa amizade...

 

NARCISA

A verdade dói, mas é verdade.

 

LUÍSA

(Chora).

Estou sem chão.

(Soluçando).

Dei tempo ao tempo, achando que com o tempo as coisas iam se acertar, você amoleceria seu coração, mas pelo visto seu coração petrificou, com o mais inabalável concreto armado.

(Soluçando).

Eu forcei a barra querendo manter a amizade.

(Leva as mãos ao rosto).

Que burra que eu fui. Se a gente recapitular, quanto malabarismo eu fiz para tentar continuar presente ao seu lado.

 

NARCISA

Você tá entrando numas... São conclusões suas.

 

LUÍSA

Tô não... Muita gente já tinha reparado nisso... Minha mãe mesmo falou um punhado de vezes: “Essa amizade de vocês parece via de mão única...”

 

NARCISA

É meu jeito... Se vivo reclusa é opção minha.

 

LUÍSA

Putz! Agora me vêm tantas coisas à cabeça...

 

NARCISA

Deixa quieto, vai. Você tá fazendo drama...

 

LUÍSA

Depois daquilo, eu nem sei quantos namorados você teve... E os que fiquei sabendo, fiquei sabendo pela boca dos outros... Nem de lhe perguntar eu tinha chance.

 

NARCISA

É porque não houve nada sério desde então...

 

LUÍSA

Mas antes era diferente... A gente era fome com a vontade de comer. Irmãs siamesas. Onde uma tava, com quem que fosse e onde estivesse, a outra tava junta...

 

NARCISA

Antes foi só o Marquinhos...

 

LUÍSA

Agora tô entendendo... Que boçal, que imbecil eu fui.

 

NARCISA

Vamos parar, vamos? Isso não vai levar a nada... E se continuar pode até estragar tudo...

 

LUÍSA

“Estragar tudo...” Mais? Não tem jeito.

 

NARCISA

Isso de ficar tirando pica-pau do oco, tornando frescos acontecimentos difíceis...

 

LUÍSA

(Fazendo drama).

Como é que eu fui boba de não querer enxergar... Você nunca mais foi a mesma comigo. Lógico, você é legal, sempre foi muito polida, mas quem sempre fez questão de ficar afirmando e reafirmando a força de nossa amizade, fui eu...

 

NARCISA

Melodramática, pára! Isso é coisa da sua cabeça, viu?!. Não tem nada a ver...

 

LUÍSA

É verdade: além de dar muitas voltas o mundo é pequeno... Depois que a gente saiu do colégio, se eu, literalmente, não corresse atrás de sua amizade, talvez a gente nem se cruzasse mais, mesmo sendo vizinhas de porta...

 

NARCISA

Acho melhor você ir agora, antes que entorne tudo com essa sua tempestade em copo d’água.

 

LUÍSA

Tá me mandando embora, é? Agora que eu consegui furar seu bloqueio impenetrável, faço questão, já adiamos por demais uma conversa que ficou entalada em você. Ainda que seja a última vez, é melhor conversarmos agora.

 

NARCISA

Você tá dando uma dimensão muito maior do que isso merece, não percebe?

 

LUÍSA

É porque para você minha amizade já não lhe diz mais respeito.

 

NARCISA

Você tá somatizando, ligando nada a nada para tirar conclusões sob a ótica de uma análise só sua... A partir de suas encucações e elucubrações.

 

LUÍSA

No fundo, no fundo, você sabe que este clic que deu hoje, aqui, agora, dentro de mim, não apitou à-toa, não...

 

NARCISA

Eu manter distância, não foi suficiente para você entender tudo?

 

LUÍSA

Eu sou meio bobinha. Tinha que ouvir da sua boca.

 

NARCISA

Se você continuar desse jeito, vou acabar achando que você é que não trabalhou bem essa questão, apenas camuflou, despistou, ficou adiando sua erupção...

 

LUÍSA

Não vem não... Não transfere, não...              

 

NARCISA

Passado é passado. Passou, passou... Você tem sua vida, eu tenho a minha.

 

LUÍSA

Sei...

 

NARCISA

Você acha que você e eu estaríamos conversando agora, aqui, no meu quarto, se tivesse ficado só mágoa? Estaríamos não... E, quer saber? Não tirou pedaço, me livrou foi de uma fria... Doeu? Doeu... E eu não sei o que doeu mais, se me sentir traída ou ter sido feito de palhaça...

 

LUÍSA

Continua... Fala mais... Quero, preciso ouvir...

 

NARCISA

Psicologicamente você me pressionou tanto, que eu acabei confessando...

 

LUÍSA

E eu também confessei... Precisava fazer aquilo porque já não tava mais agüentando segurar a barra...

 

NARCISA

Por que você voltou a tocar nesse assunto, hein?!.

 

LUÍSA

A gente só falou disso uma vez, naquela ocasião. Não concluímos... Você foge dessa conversa igual diabo da cruz. Além do fato de ter ficado sem falar comigo anos e nem conseguir falar com você eu consigo mais...

 

NARCISA

Achei melhor assim...

 

LUÍSA

Respeitei isso. Te dei razão. Tanto que te procurei umas duas, três vezes, insisti, mas não quis persistir. Tava tudo muito complicado...

 

NARCISA

Você não devia ficar remexendo nisso.

 

LUÍSA

É que desde então eu tive uma oportunidade sequer de ficar assim tête-à-tête com você, sozinhas... Porque você evitou isso o tempo todo...

 

NARCISA

Eu mudei muito...

 

LUÍSA

Não tem como negar isso... E como dói. Me machuca. Nunca vou abrir mão de sua amizade. Já me sinto privada de sua convivência. Tenho engolido seco, me feito de boba, sei que, se eu não te procurar, você não dará um passo em minha direção, mas você é mais que uma irmã pra mim...

(Longo e constrangedor silêncio).

Não me importo de me sentir humilhada. Até acho que mereço. Mas se eu cometi um pecado, eu já paguei por ele...

 

NARCISA

Ambas pagamos. O purgatório não é nada agradável...

 

LUÍSA

Pois então me tira desse inferno astral. Eu fico enganando a mim mesma, tentando me fazer crer que tudo aquilo teve um lado bom.

 

NARCISA

Mesmo concluindo que vive enganando a si mesma, você acha mesmo que teve um lado bom?

 

LUÍSA

Não, eu sei que não.

 

NARCISA

Você me fez contar, sob absurda pressão, que eu tava transando com o irmão do único cara que eu achava que me levava a sério...

 

LUÍSA

A gente tava mal na época. Tanto eu quanto você precisávamos desabafar, expor aquele emaranhado louco.

 

NARCISA

(Dura).

Assim que eu te contei, me sentindo péssima, uma vagaba, segura de que teria em você o apoio que nem merecia; que você me diria as palavras certas que eu precisava ouvir para me sentir confortada...

 

LUÍSA

Pelo amor de Deus, me perdoa. Não tem perdão, mas me perdoa...

 

NARCISA

Você me conta tudo aquilo...

 

LUÍSA

(Desanda a chorar.)

Eu sou uma desgraçada... Uma fraude. Uma mentira humana...

 

NARCISA

(Fria.)

Você se sentiu confortável a partir de minha confissão.

 

LUÍSA

Não, não, não... Não me senti...

 

NARCISA

“Ah, agora que eu sei que ela traiu o quase-noivo, eu posso contar pra ela que...”

 

LUÍSA

(Desesperada).

Pelo amor de Deus, eu não tive esse sentimento... Eu ia te contar de qualquer jeito...

 

NARCISA

“Agora ela pode ficar sabendo que eu e o namorado dela, o quase-noivo, temos um caso bem debaixo do nariz dela... Ela agora se igualou a mim na safadeza, na sacanagem... Chumbo trocado não dói...”

 

LUÍSA

Eu juro que ia te contar, eu juro... Eu já te disse, fui seduzida... Tava carente. Evitei o máximo...

 

NARCISA

Me poupe, né? Você ficava elogiando o irmão dele, como que me sugestionando a prestar atenção nele... “Repara o gato que ele é... Viu como ele estava ontem?”

 

LUÍSA

Eu errei muito, mas eu vi meu erro, caí na real, queria te contar tudo, ao mesmo tempo que queria te proteger, não perder sua amizade...    

    

NARCISA

Eu não queria falar nisso. Eu evitei, evitei, relevei, ao meu modo tentei manter as boas lembranças de nossa amizade de infância, considerando o elo entre nossas famílias, o fato de sempre termos sido vizinhas de porta...

 

LUÍSA

Pode doer o tanto que tiver que doer, mas a gente não tinha, eu pelo menos não tinha mais como fugir disso... A gente há muito se deve essa conversa... Adiá-la seria deixar morrer à míngua qualquer chance de nos olharmos sem falsidade, sem fingimento.

 

NARCISA

(Com as duas mãos pega no rosto de LUÍSA).

Se você tá mesmo disposta a ir fundo nessa história, olha bem pra mim e me diz com toda sinceridade que ainda possa restar em você...

 

LUÍSA

O que você quer saber?

 

NARCISA

O irmão dele sabia da transa de vocês, não sabia?  

 

LUÍSA

(Confirmando).

Hum, hum...

                

NARCISA

Você chegou a dizer pra ele, a sugerir, sugestionar, inadvertidamente, que inconfessadamente, mesmo sendo quase-noiva do outro, eu tinha uma quedinha por ele, que eu ficava elogiando ele pelos cantos, não é?

 

LUÍSA

(Olha fixamente para NARCISA, sem reação).

Olha, eu, eu...

 

NARCISA

Empurrou ele pra cima de mim, sim ou não?

 

LUÍSA

(Confirmando).

Hum, hum...

 

NARCISA

(Solta o rosto de LUÍSA).

Eu sabia, eu tinha certeza...

 

LUÍSA

Como?

 

NARCISA

Você nunca me enganou...

 

LUÍSA

Como?

 

NARCISA

Desde pequenas foi assim. Você tentava me imitar em tudo.

 

LUÍSA

Não pega pesado, não...

 

NARCISA

Você tem razão, a gente precisava mesmo ter uma conversa. Por Deus, você viu o quanto eu evitei revolver esse passado, mas agora você vai ter que me ouvir...

 

LUÍSA

Mas seja benevolente. Releva. O que precisa ser esclarecido já foi confessado...

 

NARCISA

Seu problema, sabe qual é? As pessoas sempre te pouparam muito. Umas até te toleram; outras temem você. De mim ninguém nunca ouviu nada, mas se você fez o que fez comigo, imagina só...

 

LUÍSA

Eu juro que eu te contar que ele não era o homem ideal pra você, que não te merecia, era um galinha, dava em cima de tudo quanto era mulher, mesmo te jurando amor eterno... Ele me envolveu, me seduziu, disse que se eu contasse pra você ele ia dizer que era mentira minha, que eu é que dava em cima dele...

 

NARCISA

Sinceramente eu não ia saber em quem acreditar. E aí você caiu na lábia dele só para se certificar de que eu ia entrar numa fria?!.. Quanta consideração...      

 

LUÍSA

Não sei o que é pior, se seu silêncio ou seu sarcasmo...

 

NARCISA

Minha indiferença. Essa é de matar. E quer saber mais? Você transou com os dois. E sabe por que?

 

LUÍSA

Não fala assim...

 

NARCISA

Você tem coragem de negar que transou com os dois, tem?

 

LUÍSA

Não...

 

NARCISA

Não o quê?

 

LUÍSA

Não nego...

 

NARCISA

A vida inteira, enquanto tive estômago eu agüentei calada seus desvios, suas dissimulações pra cima de mim. Foi por isso que eu dei um basta. Eu resolvi que não ia entrar nesse jogo de fingir que nossa amizade tava numa boa, que passei uma borracha no passado, que você pode continuar a vir aqui em casa a hora que bem entendesse.

 

LUÍSA

Puxa...

 

NARCISA

Você queria ouvir, então escuta... Eu já tô cheia de faz-de-conta...

 

LUÍSA

Calma! Respira. Você tá com dez pedras na mão... Assim vou acabar sendo massacrada...

 

NARCISA

Você é muito filha-da-mãe, sabia? Mas vou exorcizar este karma de uma vez por todas...

 

LUÍSA

Eu nunca tinha visto você assim. 

 

NARCISA

Eu tava quieta no meu canto. Hoje sou outra. Cansei de ser a boazinha, a complacente, que sempre tolerou tudo, aceitando as pessoas como elas são. E no seu caso, fiquei entojada! Eu tô por aqui, ó, até as tampas...

 

LUÍSA

Mas também não precisa chegar ao ponto de perder a compostura...

 

NARCISA

Ah, vá te catar... Quem é você pra falar de compostura?

 

LUÍSA

(Ironizando).

É hoje o dia da sessão de descarrego.

 

(Longa pausa).

 

NARCISA

(Olha para LUÍSA. Silêncio. Aponta para LUÍSA. Cai na risada. Gargalha como louca).

 

(Música em BG. Um rap regado a pop).

(Ao som da música, de forma engraçada, ambas dançam, rindo muito).

 

LETRA PARA MUSICAR

CANTO:

Tudo em mim ela imita.

Como isso me irrita.

Eu sou única, exclusiva, one.

Mas tenho uma amiga-clone.

Ela não consegue ser original.

Ela vive tentando fazer igual.

Pega emprestado até meu visual.

Diz que me admira, mas é minha rival.

 

O que eu visto, penso, minhas relações.

Onde estou quer ser o centro das atenções.

Igual a mim só eu, não aceito imitações.

 

Tudo a gente aceita em nome da amizade.

Só não deixe que ela roube sua identidade.

E que se sinta dona de sua individualidade.

Todo cuidado é pouco, ou vira rivalidade.

 

Você que é competente, bem-sucedida,

Cuidado: você é modelo, será seguida.

Você que é diferente, carismática, extrovertida,

inteligente, esperta, bonita, bem-vestida.

É melhor já ir pensando numa saída.

Seu sucesso vai atrair uma amiga-clone pra sua vida.

 

Chega a ser doentia essa competição.

Se alguma coisa dá errada, ela ri de satisfação.

Mas se tudo dá certo ela é só irritação,

até entra em depressão.

 

LUÍSA

(Vai tirando a roupa durante a música. Por baixo o collant da IMAGEM. Ajeita os cabelos, desfazendo penteado e retirando enfeites. As duas riem a valer ao som da música. Fala alto, em meio ao som).

Sou eu, sua imagem. Você foge há anos de Luísa, de tudo e de todos. Mas não há como fugir de mim. Como evitar a verdade que está dentro e diante de si mesma?

(Para a platéia).

Seja original. Quem não consegue imitar, que nem tente fazer igual. 

(Posiciona-se atrás da moldura coberta).

 

NARCISA

(Voltando-se para a platéia).

Ela é um anjo. Ela veio exorcizar meus fantasmas!

Agora preciso ir. Tá na hora do Big Brother.

 

 

(Palco às escuras).

 

 

EXTRAFIM (Opcional)

 

NARCISA e IMAGEM

(Sentadas no proscênio, quando o público já se levanta para sair. Olham pontos infinitos sobre a platéia. Viajam).

 

NARCISA

O espelho

de agora

é o mesmo

de antigamente.

Mas, ao olhá-lo,

a qualquer hora,

verás como estás

diferente.

Sua imagem

se arvora

em refletir

o presente.

O espelho

aflora

o real

na gente.

 

IMAGEM

O espelho

não te reconhece.

Contigo, a imagem

não se parece.

O refletido

te desmerece.

Olha, e ao se ver,

esquece.

 

NARCISA

No espelho meu rosto:
eu comigo, face a face,

sem estampar mágoa ou desgosto.

E tudo se refaz. Ou desfaz-se.

 

NARCISA

No teu jogo de espelhos

tu te deformas.

Tua imagem tem mil formas,

há reflexos reais

do que és, como estás.

Não te olho, não te vejo

e já nem te sinto mais.

Mas só agora percebo,

no teu jogo de espelhos

nuas nuanças por trás,

do que podes ser capaz.

 

IMAGEM

Te olhas

no espelho

ou é ele

que te vê?

 

NARCISA

No espelho,

a pessoa refletida

é a pessoa repetida.

 

IMAGEM

Se diante do espelho

desfilo,

minha imagem

me revê

e não crê

que seja aquilo.

 

NARCISA

Espelho meu,

espelho meu:

me refletes

ou te vejo eu?

 

IMAGEM

Velho espelho,

sempre pronto

a dar conselho.

 

 

 

 

ELA NUNCA DORME

                                                       Texto de Flávio Almeida Patrocínio.

 

 

(Sobre as atrizes, fachos de luz de cores variadas. Sugere-se que a movimentação de “A” pelo palco seja mais lenta. E a movimentação de “B” seja mais dinâmica. Mas essa conclusão será exclusivamente do diretor e das personagens).

 

 

A - Você nunca dorme?

 

B - Nunca!

 

A - Então não sabe o que é sonhar...

 

B - Não.

 

A - Fica uma pilha de nervos...

 

B - Fico.

 

A - Como é que seu organismo agüenta...

 

B - Pois é.

 

A - E não dá sonolência durante o dia?

 

B - Dá.

 

A - E por que não dorme?

 

B - Eu tento. Não consigo.

 

A - Estranho...

 

B - Muito.

 

A - E remédios?

 

B - Ingeri vários.

 

A - Nada?

 

B - Nada.

 

A - Dizem que hipnotismo...

 

B - Comigo não funciona.

 

A - Há clínicas especializadas...

 

B - A maioria já me conhece.

 

A - Em vão?

 

B - Em vão.

 

A - E período menstrual?

 

B - Melhor me esquecer.

 

A - Estressada?

 

B - Dez vezes mais.

 

A - Bebida?

 

B - Não bebo.

 

A - Fuma?

 

B - Tenho nojo.

 

A - Pratica exercícios?

 

B - Raramente.

 

A - Dizem que ajuda.

 

B - Só se for aos outros.

 

A - É depressiva?

 

B - Consultei. Me examinaram. Não concluíram isso.

 

A - E sexo?

 

B - O que é que tem?

 

A - Faz muito?

 

B - Não é por aí.

 

A - Por que não?

 

B - Porque não é.

 

A - Mas dizem que...

 

B - ...não quero saber.

 

A - Evita esse assunto?

 

B - Intimidade é indevassável.

 

A - Algum médico já abordou esse tema com você?

 

B - Todos tentam.

 

A - Todos?

 

B - Sim. Principalmente em terapias.

 

A - Você não consegue se abrir?

 

B - Sei lá. Não admito invasão.

 

A - Nesse bloqueio pode estar a raiz de tudo.

 

B - Tenho certeza que não.

 

A - Como pode ter certeza?

 

B - Eu me conheço.

 

A - Estou quase concluindo que você não tem vida sexual...

 

B - Está, é?

 

A - Precisa trabalhar sua afetividade...

 

B - “Trabalhar” é ótimo.

 

A - Sua carência amorosa.

 

B - Noites em claro, já li vasta literatura sobre esse tópico.

 

A - Você é uma mulher em constante vigília.

 

B - Oh!

 

A - Ironiza...

 

B - Ah!

 

A - Não abre a guarda.

 

B - Não me solto.

 

A - Sempre desperta sob a redoma...

 

B - ...impenetrável.

 

A - Não se desliga.

 

B - Cabeça a mil. Não sei se penso, se sinto.

 

A - Sentimentos confusos.

 

B - Atribuladíssimos. Quando morrer eu durmo.

 

A - Você é assim como uma mola encolhida.

 

B - Mais que isso. Uma bomba relógio.

 

A - Vulcão contido.

 

B - Em todos os sentidos.

 

A - Prisão de ar, de ventre...

 

B - Pum! Ou melhor, bum. Posso explodir.

 

A - Explodir, não... Eclodir.

 

B - Eclodir?

 

A - É. Vir à luz, surgir, aparecer, desabrochar...

 

B - Transar, você quer dizer...

 

A - É inerente. Faz parte da natureza humana.

 

B - Sei.

 

A - Regula todo o organismo.

 

B - Em vez de dormir, tem que estar desperta...

 

A - Para se chegar à exaustão e cair nos braços de Morfeu.

 

B - Nem de Morfeu, nem de Romeu.

 

A - O deus dos sonhos, filho de Hypnos, deus do sono.

 

B - Meio-irmão da Morte, ópio impróprio.

 

A - Morfeu assume a forma que você quiser...

 

B - Nos sonhos... E para sonhar antes é preciso dormir.

 

A - Ele se molda à sua vontade, ao seu desejo oculto...

 

B - Para sonhar antes preciso dormir.

 

A - Morfeu surge como a pessoa amada...

 

B - Morfeu, não. Muito menos Hypnos. Talvez morfina...

 

A - Ele dorme em cama feita de ébano...

 

B - Uma coisa é uma coisa, outra coisa é analogia...

 

A - Dorme profundamente em uma caverna escura decorada com flores.

 

B – Papoulas douradas...

 

A - Ele percorre o espaço em silêncio. Toma forma humana...

 

B - Ah, Morfeu, ópio épico, há um abismo entre nós.

 

A - Claro, Morfeu é um deus.

 

B - Eu jamais durmo. Morfeu nunca acorda.

 

A - Sua missão é habitar os sonhos.

 

B - (Gritando, irônica) Acorda, Morfeu!

 

 

(Olhares fixos em um ponto qualquer sobre a platéia, ambas falam ao mesmo tempo, frases claras, mas desencontradas).

 

 

A - Corpo físico. Corpo espiritual.

 

B - A consciência constante.

 

A - Dormir descansa.

 

B - Eu não descanso.

 

A - Dormir é inconsciência

 

B - Vivo ligada, elétrica.

 

A - Noites e dias iguais.

 

B - Minha mente a mil, a zil.

 

A - O físico reclama.

 

B - Meu espírito não abandona meu corpo.

 

A - Dormir é um silêncio astral.

 

B - Pensamentos, sentimentos

 

A - Todos somos iguais quando dormimos.

 

B - Não penso sobre o que estou sentindo.

 

A - Somos perfeitos nesse reino desconhecido.

 

B - Sentir sobre o que penso é mais difícil.

 

A - Venta, chove, faz frio, há lua, estrelas caem, nascem.

 

B - Não me encontro em mim.

 

A - São nossos momentos de viagem.

 

B - A fadiga me estimula a prosseguir.

 

A - Somos viajantes enquanto dormimos.

 

B - Então prossigo, sem me mover do lugar.

 

A - Estamos protegidos quando absortos.

 

B - Sou um ser frágil, obstinado pela busca.

 

A - Nos encontramos dentro de nós mesmos.

 

B - Não fecho os olhos, não fecho os olhos.

 

A - É preciso relaxar, ser mais clean, mais light, mais zen.

 

B - Todas as tonalidades são fortes, expressivas.

 

A - Seja fogo, ar, água, terra, liberdade e paciência.

 

B - Vozes, instrumentos e ruídos com decibéis elevados.

 

A - Imagine-se em uma praia, ou nas montanhas, em paz.

 

B - Tudo à minha volta ecoa, ecoa, estardalhaços, zoeira...

 

A - Que seja verde o que for verde. E azul o que azul for.

 

B - Para a respiração todo ar é pouco.

 

A - Se-re-ni-da-de. Tran-qui-li-da-de.

 

B - As pulsações de meu coração são transgressoras.

 

A - Viver... Dormir... Sonhar...

 

B - Mais que dormir, vontade de não mais acordar.

 

A - Dormir... Sonhar... Viver...

 

B - Sonhar, certa de que morrer é dormir.

 

A - Você precisa adormecer profundamente.

 

B - Profundamente...

 

A - Qual uma criança...

 

B - Inocentemente...

 

A - Inocentemente...

 

B - Melhor que fosse eternamente...

 

A - Eternamente, ainda não. Ternamente, calma e serenamente. Entorpecida. Em completa entrega, paz sem-fim, suprema quietude...

 

B - (Espreguiçando-se) Ai, essa conversa está me dando sono...

 

 

(Palco totalmente às escuras).

 

 

FIM

 

 

 

Amor a tempo e a hora

nosso amanhecer

     p/ o primeiro raio de sol da primeira manhã de nossa amizade

 

Não te vejo,

não te conheço,

apenas te imagino.

 

Não sei se é desejo

e nem sei se mereço,

mas será o destino?

 

A nos apresentar

um ao outro, assim,

nessa noite, do nada?

 

Ponho-me a te escutar,

e até falo de mim,

em tenra madrugada.

 

Tua história cativa,

tua voz me acalma

e o dia mostra a face.

 

Meu coração reaviva.

Tua luz acende a alma

e meu temor desfaz-se.

 

A solidão fica insegura

com tua doce presença

a perturbá-la em meu ser.

 

Tudo em nós é ternura,

nos dá uma paz intensa

e um novo amanhecer.

 

 

Tu em mim

Eu em ti

Tudo assim

em infinito

completar 

Ao teu mundo

vou

e me trazes

ao meu

 

Não te assustes

com meu querer

De tão singular

é revelador

E nem te comovas

com meu terno olhar

e seu lacrimejar:

é pura seiva de amor

 

 

me pedes que eu eternize

nossas coisas de amor

são tantos os instantes

bruscos lentos inesquecíveis

que nem sei se a eternidade

é o que anseio para nós dois

ou se o sonho definitivo

de um amor simples belo e vivo

 

não sei porque

mas acho que toda chuva

cai apaixonadamente

talvez porque dentro de mim

a vida rebrota da aridez

e pequenos milagres se dão

quando me recolho nessa hora

da chuva apaixonada lá fora

 

arde o azul

na tarde

sem ti

 

para tão belo romance

deveria ter te conhecido

na biblioteca

 

quero beber de tua luz

para atravessar noites

cavernas

eclipses

 

se eu te fizer falta um dia

e doer forte

me coma em chocolates

 

não quero ficar sem ti

no meio de uma ponte

indeciso

sem saber para onde ir  

se sigo adiante

ou se volto

 

o que são as reticências

para ti?

dúvidas?

ou o inacabado

ou o interminável?

 

abra-me teus segredos

e te revelarei meu jardim secreto

onde cultivo uma flor difícil:

amor-perfeito – conheces?

me dizes o que ocultas 

e a colherei para enfeitar

tua sinceridade 

ornamentarei tua frágil

transparência

 

Hoje os pássaros

se recolherão mais cedo

Podes pousar em mim

ó meu arvorado bem

Dou-te as asas

do descanso

Vem!

 

Quando ouvir de ti

que me amas

que teus olhos digam

e que meu corpo ouça

Quero que vejas

o ecoar desse prazer

a sonoridade de teu amor

extasiando meu viver

 

Terna

Eterna

Eternura

Eternidade

Eternuridade

 

Sóis

é o que

sois

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas entrelinhas

da ausência

não há silêncio

e sim os dizeres

da saudade

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma rima

para amor?

- Esplendor

Outra

que não sejam 

dor

nem flor?

- Multicor

Então chore

que o amor

tuas lágrimas

colore

Ou namore

e ao amor

indague

e explore

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sim

Há sentido

Eu sinto

Eu tenho tido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São tons de azul:

celeste

anil

marino

Azul no coração

na voz

nas carícias

na volúpia

Tu és azul

Azul-horizonte

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não quero repetir erros.

Um raio já caiu sobre mim

- outro não tornará.

Não há como recuar para o futuro.

Estou em busca de nós.

Não me deixes deixar-te.

Não te deixarei deixar-me.

Procura-me em ti e te acharás

em mim. Então me encontro teu.

És plena e lúcida em minha vida,

senhora da lucidez e plenitude,

a própria dona da poesia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Todo amor que te dou

é um amor que fico devendo.

Porque o amor que tenho

não é suficientemente

o tanto que desejaria tivesses.

Está muito aquém

do que posso oferecer-te.

Por mereceres infinito

o amor mais desregrado,

o amor mais irrestrito,

o amor mais desmedido  

o amor mais dado

e o amor mais querido.

Porém todo o amor que te dou

é o meu melhor e mais lindo,

nunca o mesmo, sempre novo,

inesgotável e fidedigno.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que são palavras,

amor,

se o vento as leva,

espalhando-as no ar,

pulverizando com elas

o silêncio do mundo?

Sigo calado

com meu sentimento.

Meu olhar te diz

com mansidão 

o quanto te amo

em atos, pensamentos

e em incontida emoção.

Minha entrega é sincera.

Meus gestos me confessam

o teu menino aprendiz

da difícil arte de amar.

Deixa ecoar em ti

a certeza de que sou teu.

Pode ser pouco, eu sei,

mas é tudo. Sempre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

eu te amo

e as tuas verdades

de mulher romântica

me fazem sentir amado

já os teus fundamentos

de senhora prática

te deixam confusa

e eu mais apaixonado

(mesmo posto de lado)

em ti debatem-se a musa

e a dona do riscado

que teme a paixão intrusa

e o amor não agendado

(pro futuro despreparado)

e eu modéstia inclusa

me sinto um amador

cada vez mais inspirado

a adotar a tática

de amar a romântica

e ir ganhando a prática

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

para sentir-me vivo

tenho que me ver

em teus olhos

mas não sobrevivo

se não sou visto

por eles

                       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

um acontecimento único

soma-se a um momento raro

para se tornar eternidade

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A finitude do amor

O amor é finito, mansa musa, finito como todas as coisas.

Mas em sua finitude pode ser ilimitado, como um facho de luz

que atravessa o universo e resplandece por um segundo apenas.

O amor não se resguarda de seus limites e se julga forte e para sempre.

Não o amor, e sim aqueles que pensam que o possuem – que pensar é um erro.

Sentir é mais adequado para quem julga amar – nada é eterno, amantes,

e no amor tudo é fugaz, breve, ágil e o mais é acomodação do sentir,

que aí, sim, já não se ama mais, só o pensamento sobrevive, como saudade,

memória, lembrança, história do amor que chegou, instalou-se no peito e dormiu.

O pensamento do amor no frescor de sua aparição na vida de quem dele carece.

O pensamento do amor na inexatidão de sua sobrevida resultando em não-sentimento.

Ai, de quem ama sem arrebatamento. Quem vive alicerçando o amor sem paredes,

o amor sem portas e janelas, o amor destelhado aberto às estrelas ausentes...

Para amar tem que se aprofundar em cada segundo da existência do amor,

que no segundo seguinte pode ser que somente um vazio escureça a alma,

como aquele facho de luz que cruza a imensidão para deparar-se com o nada de si.

Não posso te amar com a ternura que imaginei fosses capaz de merecer, mansa musa.

Seria demais para ti – e não saberias retribuir tamanha doçura de meu coração-colméia.

Dei-te muitos dos favos do mais puro em mim. Mostrei-te os pólens com que fabrico

o mel de minha carência, mas não houve tempo de conheceres as florescências,

as primaveras constantes de meu amor em abundância, de meu amor essência e éter.

Não devo te amar com a grandiosidade que deixei expandir-se em tua direção.   

Ficarias perdida em minhas planícies, em minhas montanhas, em meus abismos.

O latifúndio de meu amor requer a disposição de quem sonha plantar e colher.
Não basta invadir-me, ocupar-me, acenar com promessas de sementes e grãos.

Mereço mãos que me acariciem confiantes – que meu coração é terreno fértil.

Sou de culturas longas e o amor é brevíssimo. Não vive o tempo de uma árvore,

de um ipê amarelo, mesmo que seja até sua primeira florada. Amor é solo seco.

Não creio que te amar com palavras seja suficiente para comportares em ti

as alusões que faço, com ecos profundos, mas que em ti passam ao largo.

Tu sabes que sou de profundidades. Não quero aprender a mirar o raso, não e não.

O espelho das águas não é confiável. E depois venta muito em tuas fronteiras

e ao sabor do vento tudo vai sem rumo, indo para a distância a bel prazer.

Esse vento, mansa musa, é útil à fina poeira que esvoaça das plantas floríferas,

fecundando os óvulos ornamentados, que tu bem sabes te fartaram de mel. 

Tu provaste de minha carência. Tanto que me revelaste o quanto o amor é pouco.

Sim, pouco, por mais que tenha sido e eu te dado. Finito que é, limita-se no receber.

Não possibilita a doação extremada de quem é ilimitado. Seu finito não me comportou.

Alicerçamos um amor que sonhávamos diferente, aberto à amplidão de nossas vidas.

Tu me mostraste a impossibilidade de querer o amor maior que o sentir, que o pensar,

que a imaginação do desejo de ser para sempre feliz. Que entre nós o eterno não haverá.

Contento-me com os alicerces, mansa musa, com as paredes imaginárias da alegria,

as portas escancaradas ao entra-e-sai do futuro, as janelas de frente para a infância.

O amor é finito e os filhos que ele não gerou ficam sublimados, nas constelações.     

Não edificamos a casa. O tempo de amar passou. Ó implacável finitude de nosso amor. 

Mas vem a estação da polinização das flores. Armazenarei néctar, sem amarguras.

E a saudade que doer no peito será sentida na respiração que capta os aromas do vivido,

meu facho de luz que a finitude de teu amor fez saber-se um facho de luz apenas.

Assim se deu a criação

de meu mundo:

- Haja luz!

E luz houve

em forma de mulher:

- tu!

Então o vazio de mim

passou a ser habitado

por ti,

meu amor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não ouvir a tua voz,

ainda que por algumas horas,

torna tudo o mais sem som.

Sem ouvi-la também emudeço

- o maior silêncio do mundo

me habita se não te ouço.

Tua voz em meus tímpanos

inaugura palavras simples,

por mais antigas que sejam.

Tuas cordas vocais dão o tom,

qual instrumento afinando meu ser

- só fé mim flá sol sim dom.

Voz tranqüila de quem perdoa

por antecipação, de quem acalma

ainda que impaciente esteja.

Voz que traz frases iluminadas.

Escuto-te reverenciando a luz

que de ti brota quando falas.

Quando pronuncias meu nome

estremeço e me sinto batizado.

Agora que tenho certidão e teu sou,

conversa comigo, canta, sussurra,

balbucia, que tua voz me posiciona,

me aciona, tua voz me emociona.

Diga-me algo a todo momento,

coisas assim como: “Eu te amo,

gosto de ficar calada a teu lado,

meu teimoso e apaixonado Flávio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acalento o desejo

de te fazer um carinho

sem te assustar

ou até

- devo dizer -

sem que isso te incomode

Não quero te surpreender

com um leve toque

uma singela manifestação de

carinho (sim carinho!)

E nem digo te abraçar te beijar

te cheirar explorar as latitudes

longitudinais de teu corpo intocado

Se bem que sonho caminhar a teu lado

de mãos dadas – só isso: de mãos dadas

Mas não – Acariciar-te é um ato de domador

um gesto ousado que pode te distanciar

e eu – sinceramente – não quero te assustar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

só se comparam contigo

aves borboletas e flores

já há muito extintas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por teu olhar me vi outro

Teus olhos deram luz à minha aura

Ilumino-me em tua visão

A partir do que vês em mim

é que me traduzo eu

- o menino que te viu mulher

a mulher que o menino quer

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

À procura de um sentido

Tua flecha procura um alvo em mim

O alvo sou eu por inteiro

– não um pedaço uma parte

Eu todo teu

a fim de ser flechado

por ti

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ó exploradora criatura

por que me deixas na confluência

de teu mundo externo

se desejo entrar em tua vida

e incorporar teu plano existencial?

Capte-me que a ti me adapto

Uma vez teu - teu para sempre

Esquece as verdades relativas

Encontre realizações definitivas

Posso te oferecer paisagens – queres?

Revelar-me em nossas diferenças – preferes?

Se fores incomum – sou verdadeiro

Consente em ti as mudanças que vives

Sou parte de tuas transformações – percebes?

És tão versátil – ó musa da compreensão

És mutável e sensível – realiza-te em mim

que te quero nova te encontro outra e a ti me dou

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É ampla

tua visão sobre tudo

e todas as coisas

Confio em tua percepção

Teus sentimentos são universais

És simples – eu sei

mas tua vida está na imensidão

do que só tu consegues dimensionar

e vivenciar

Inclui-me no teu imenso

Soma o que sentes ao que penso

que meu medo de sentir ainda venço

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Expandir-me em tua convivência

Aventurar-me em ti para enfim descobrir-te

Explorar tua natureza de mulher perdida

na própria geografia de teu ser

Ensina-me o que sabes intuitiva criatura

Move-te pela inspiração de meu olhar

que te vê espalhando ternura sem par

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Confundimo-nos tanto

Mistura homogênea

Um em únicos

O tu em mim

Sou mais teu que meu

Minha vida para ti

És a melhor parte do que sou 

O todo

Eu teu

E meu eu és tu

Juntos

Intimamente universais

A mais integrada fusão

Universalmente íntimos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Posso dizer-te eterna

Eterna no que és em mim

Eterna no que sou em ti

Eterna no que somos em nós

Eterna por saber-se assim

Eterna no que tens de linda

Eterna no olhar infinito

Eterna por ser esta mulher

terna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

És meu porto

Para me ancorar em ti

cruzei todos os mares:

mar dos marasmos

mar dos martírios

mar do marketing

o mar marital

mar de mármore

mar do marxismo

mar de marulhos

mares sem margens

Contigo

só quero amar

no mar

de maravilhas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ela?

Ela é um

p o e m a

(inspirando

outros mil

em mil outros)

Um poema

de amor

d i f í c i l

e sem fim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando viste

pela última vez

o teu próprio

olhar?

Há quanto tempo

não te olhas?

O que és

tu vês?

Te amo

porque te vi

Te amo

porque te vejo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ela veio

como se não quisesse chegar

e entrou em mim

Ela escancarou

as janelas de meu peito

e me trouxe luz e ar

Ela plantou

flores miúdas em meus poros

e as colhe pelas manhãs

Ela fala

como quem ouve meu olhar

e sorri de meu desajeito

Ela traduz

meus versos para o silêncio

linguagem que só ela entende

Ela ama

a vontade de futuro comigo

mas teme meu amor presente

Ela brilha

e me ganha na velocidade da luz

e eu vivo em seu universo paralelo

Ela vem

de caminhos que não quis trilhar

e eu a quero comigo em novo caminhar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Te dou

quantos crepúsculos quiseres

Que eles se confundam

com tua luminosidade

ó minha menina matutina

e vespertina

- crescente

e decrescente

de amanheceres

e anoiteceres

Irei às camadas superiores

da atmosfera

e trarei a luz do sol

já oculto e exausto

Estarei perto do horizonte

porque dentro de ti

Aí quererei dormir

entre a aurora

e o lusco-fusco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não te preenche

mas transborda em mim

Para ti pode não ser nada

mas cá dentro é tudo é tanto

significa um mundo

É o que sinto:

algo como vulcão

ou labirinto

Sintoma quase irreal

Delírio plural do eu

já se tratando por nós

Se é amor?

E se for?

Estás preparada

para a responsabilidade

de musa absoluta?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cuido de tudo:

dos sonhos das esperanças das alegrias

Vigio tua agonia para que morra à míngua

Pajeio tua impulsividade para que não estrague teus dias

Fico em volta de ti observando a natureza das coisas

Teus altos e baixos teu ir e vir teu olhar às vezes perdido

fitando um ponto inexato entre mim e o nada além

Então te percebo carente de cuidados fragilizada pelo tempo

Desconfiada descrente sentida mas querendo viver

E quando te sentes amada percebes que a felicidade anseia

por tua confiança por tua força de exigir da vida o que a vida tem

e a vida toda te negou: alegrias esperanças sonhos

além de tudo belo e bom que a vida te deu e acrescentas ao amor

que podes me dar mas temes que podes ter mas tremes

ao saber que te será tão intenso que pode até doer ao respirar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

eternamente

meu amor por ti

a toda hora

aqui ali

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

essa tua luz

de inconfundível

clarão

jamais deixa anoitecer

meu coração

e meu ser

a luz inevitável

da evidência

amorosa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

dar-se

inteiro

porém

um pouco

de cada vez

simples

verdadeiro

com amor

e altivez

- que assim

o universo

se fez

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

hoje

para o amor

é o primeiro dia

daqui pra frente

como amanhã

também o será

no que é sempre novo

e de novo

se renovará

ou melhor

r e c o m e ç a r á

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

não ouso

pronunciar teu nome

assim dou de segredar

a felicidade inominada

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

a criancice

dos dias

no amor

renascendo

sempre

do ventre

da alegria

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

amor:

dicionário

de silêncios

no linguajar

dos olhos

no dizer tudo

do sentir mudo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sou eu

em ti

sou teu

em mim

sou

porque és

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

no invisível

a face

de todas as coisas

a visão

de tudo

teu olhar

sobre mim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

teu coração

merece

meu amor

teu amor

carece

de meu coração

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

és a alma

da alma

da alma

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

acendes

minha poesia

com tua pira

e a inspira

com tua alegria

de ser

e star

musa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

a eternidade

mora em ti

numa fração

de segundo

todo meu mundo

é teu

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

pensar

lembrar

reviver

a saudade

nos acorda

para a vontade

do amor pleno

em pensamentos

lembranças

e vida

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

um olhar

que só fale

em silêncio

deixando ecoar

o indizível

o inaudível

o intraduzível

- eis o amor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

deixe

a realidade

chegar

a sonho

tudo

ganha sentido

se a emoção

se eternizar

em ti

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

aprendi

com a poesia

a querer

o impossível

- então te encontrei

te quis

e agora sei

que poeticamente

é possível

ser feliz