(DIÁRIO DE UM BARDO

A BORDO DA NAU ROMPE-NUVE)

GRUPO ESCOLAR
Segunda-feira:
de uniforme e lancheira,
lá vou eu estudar.
Meus objetos: alforjes...
Viva o 'Norato Borges:
o meu grupo escolar.

abril 1970

Ofertai-me vossas quimeras
como sinal de virtude;
vem desde priscas eras
o símbolo dess'atitude.

Represado vosso açude
no círculo doutras esferas;
algo em vós vos ilude:
amansai vossas feras!

Deveras, hás de reter-vos
no meio onde inda domina
a voz - não a dos servos,

crias de quem as maquina,
engrenando-as no rito
do mais silencioso grito.

3-1-86

Tudo
como
dantes
no
quartel
de
Abrantes
E
nada
qual
Dante
na
Divina
Comédia.

3-1-86

Cidade,
berço da existência.
Dorme a noite
em seus brilhos.
O sonho se perde.
Pede urgência
para o futuro
de teus filhos.

4-1-86

Renoir
Vicent van Gogh
Picasso
Portinari
Di Cavalcanti
e eu
que estou
pintando
no pedaço

6-1-86

alegra-me saber
que usted tienes
una loucura
for me

8-1-86

enquanto cavo um buraco
solto risos de lisonja
um baita silêncio me ondeia
e tu me olhas serena
dando-me uma chance mínima
de pensar em algo remotamente
(im)possível

9-1-86

deste-me a chance
e agora quero abraçar-te
envolver-te toda
num aquecimento
de não mais esquecer

9-1-86

MANUELINA
Quis conhecer Pasárgada:
organizei a bandeira;
o dia vem, mas tarda;
parti numa terça-feira

Do sabonete Araxá
levei as três mulheres;
juntei os meus talheres,
pensando em comer por lá

Fiquei tísico, pálido, seco,
fui ao Recife e ao beco,
m'inspirei em Manuel...

Pasárgada se fêz perene
no café bom que Irene
coa pra Deus no céu

11-1-86

ANSIÃODADE
Escrever é difícil tarefa
que se possa empreender;
escreve quem sabe ler
ou do contrário: blefa

Falta noção de estilo?
Verseja, oh! juventude;
procure vigor e saúde
no velhinho do asilo

que tossindo solitário
tira de dentro do armário
um calhamaço de folhas

e joga ali, num cantinho,
de mais um litro de vinho,
uma, entre outras rolhas

13-1-86

MEMÓRIAS
Contemporâneo dos passadistas,
o tempo rememorizo...
Paisagens são revistas
para o meu regozijo.

O passado deixou pistas;
o tempo passa: é aviso.
Os galos incham cristas
e cantam o sol do juízo.

O presente é só lembranças
ocorridas antigamente
no auge de minhas andanças.

A vida não era urgente;
o mais eram festanças...
O hoje é o meu de repente...

5-2-86

Inda
nem
nasceu
e é
linda
na
bela
barriga
da
mãe

8-2-86

1986 d.L.

Nasceu a menininha quase sem-ar.
Respirando pela boca, chorou.
Lagrimazinhas de um olhar
embaçado, ante o que se des-
cortinou.
Um mundo, paisagens recentes
para quem veio ainda agorinha.
Rostos, vozes: são os parentes.
A madrinha quer conhecer a sobrinha.
- Que gracinha!

12-2-86

Alminha de anjinho
serena fragilidade.
O choro é sua fala:
comunicação sentida
por quem descobre
o mundo à sua volta
com um curioso par
de olhinhos iluminados
vendo e vivendo
as primeiras envergaduras
do arco de sua estrutura
humana

12-2-86

FOLGA
Escrevo quatorze linhas
de versos paralelos,
duros como pedrinhas
quebradeiras de martelos

do raciocínio estético
do vate maquinador,
que só tem de poético
seu coração de isopor

É leve e pesa tanto:
almoço, merendo, janto
as rimas de meu folheto

Rabisquei toda agenda
e saiu-me pior a emenda
que o restante do soneto

13-2-86

oh! deusa egípcia
da poesia

trindade
da pirâmide:

mãe/filha
espírito de encanto

13-2-86

tudo
foi
dito
r e p i t o
foi
dito
tudo
a
não
ser
(a c r e d i t o)
em
silêncio
te
ter

13-1-86

INDULGÊNCIA
conforme
a
esmola
dada
era
a
nota
anotada

14-2-86

SOLICITAÇÃO

relê
cada linha
palavra
sílaba

(o versinho
não quer
se ver
sozinho)

cuida do texto
vasto
como leitor
casto

a rima
arrima
acima
da estima

14-2-86

nossas filhas:
tua filha
minha

minha filha
tua

duas ilhas

o que o tempo continua
no tempo recua

15-2-86

BOM JARDIM
Nas pastagens da fazenda
rumino minhas leituras
Rabisco tais escrituras
enveredando pela senda

da inspiração: oferenda
do ar dessas planuras
Dos olhos tiro a venda
e olho para as lonjuras

Águas, árvores, aves
Líquidas sombras suaves
Minha vida não tem fim

A paz é tanta. O gado
descansa ao sol, folgado
Ah! Fazenda Bom Jardim...

16-2-86

Dadivosas sois vós, filhas
do sonho imorredouro.
Sabeis o destino das ilhas,
tens o vosso ancoradouro.

Mercês dos ventos alísios,
deslizam nas ondas pacíficas,
içais as velas: são guisos
para rotas magníficas.

Ides rumo a Indonésia,
pela enseada de mar estranho.
Querendo ter amnésia
é só aí tomar banho.

A nau naufraga em Bali.
Balinesas, balinesas,
que minha boca se cale
diante de vossas belezas.

20-2-86

escrever a partir de um tema
raciocinar conforme o resumo
defendendo razões do esquema
do poema construído no prumo
daquilo que sou e presumo
obter a vertente da estética
da vontade/luz maiakovskiana
mensagem de nuvem hermética
ética frágil qual porcelana
o poema é meu supra-sumo

26-2-86

seu
tesão
é só
um T
maiúsculo
o meu
enrijece
cresce
aparece
desobedece
esdrúxulo
sangue
carne
desejo
ereto
músculo

28-2-86

não descarte
vidas
em Marte

destarte
em toda
parte

em remotas
rotas
entre estrelas
havê-las

nos poros
de meteoros
nos milhares
de quasares
nas lacunas
das dunas

2-3-86

(tens poesia no sangue)
deves dar sangue pela poesia
(tens poesia no sangue)
és poeta tipo sanguíneo universal
(tens poesia no sangue)
teu coração bombeia versos
(tens poesia no sangue)
anti-corpos e letras celulares

3-3-86
 
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
e não ser Neruda
Ser trezentos e cinquenta
e não ser Mário de Andrade
Não ter nenhum caráter
e não macunaimar José Oswald
Ouvir o que disse o anjo torto
e infelizmente não ser Drummond
Leiloar um jardim multicor
e não ser a completa poeta Cecília
Pode fazer escuro e eu cantar
e jamais ser um Ferreirangular
Partir a gentil alma minha que Vaz
e não serei Luiz de Camões
Saber o segredo que a andorinha ouviu no fio
e toda cidade ficará sabendo que Henriqueta não sou
Na hora de trabalhar, as pernas pro ar
certo de não ser Murilo Mendes
É minha sina
Sabe como é
Quem desde sempre assina Flávio José

5-3-86

SOLIDÁGUA
Sou um homem cético
diante do poema concreto
pagando pra ver o poético
que há em cada objeto

Dando ao escalafobético
um sentido dito completo
sendo intérprete eclético
nele vendo o raro e seleto

O poema concreto solidifica
a vitamina palavreada
de ríspida rima rica

tateando a desmetrificada
água corrente de bica
de sua nascente purificada

6-3-86
 
Silêncio maior na tarde de outono.
Árvores amarelando suas folhas.
Paisagem serena de sol e mormaço.
O ar parado espera pelo vento.
E tudo é calma na sombra do tempo.

6-3-86

MÁRIOANDRADIANO
Não há um, nem dois, nem três,
nem outro tanto ou mais.
Nem dez, nem mil; não vês
que sendo um já sou demais?

Sou tantos, inúmeros, vários,
diversos, incontáveis, enfim,
sou mais de cento e cinquenta Mários
e ainda assim sou terça parte de mim.

Não vês que não caibo dentro
de ti, de tudo e de nada;
e por isso mesmo nem entro

na caixa toráxica vertebrada
deste corpo que se julga o centro
de minh'alma descentralizada?

7-3-86

Ela vinha
de manhã
sem calcinha
e sutiã

Mas
(que falta de graça)
jamais
tirou
a couraça

8-3-86

Ei-lo, estampado sobre a paisagem.
Seu leque de raios abanando calor.
No deserto causa a sede e miragem.
Solapa do céu nuvens de seu vapor.
Infringe a regra da natural busca.
Solfeja o sol impondo nos ares.
A sombra de si por si só se ofusca
e faísca seu véu cobrindo altares.
Soletra cada raio e lazer propicia
ao corpo solto nessa altitude fria:
píncaros abismais de minh'alma vazia.

9-3-86

AMOR VOGAL
I love A.
I love E.
I love
I.
I love O.
I love U...

10-3-86
 
leu duas páginas:
a primeira e a última
e aliviado
livrou-se do livro
ali no vaso sanitário

ele é crítico literário

11-3-86

O que fará o faraó
finda a farra, ao se ferrar?
Os súditos lúcidos, ó,
obra a obra vão cobrar.
O que farão os esfarrapados?
Sua fanfarra erra: dá dó.
Abrem as asas os azarados:
uns são contra, outros pró.
O que dirá o diretor
da direita do Itororó?
É direito do reitor
reatar o laço e dar nó?

12-3-86

VISÕES
Profético, visionário,
anunciando o caos,
decorei o dicionário,
aprendi tocar Strauss,
tornei-me templário
de trinta e três graus.

Deste instante em Dante,
entre inferno e céu,
subi pela escada rolante
da torre de Babel
e desci pela estonteante
trança de Rapunzel.

13-3-86

somos
como
somos
graças
aos
cromossomos

13-3-86

As madrugadas se alongam.
Nem tudo dorme. Prevalece
um interromper constante.

Demorado amanhecer surge.
Repete-se o mormaço diário.
Dias vão e vêem.

Confirmo o crescimento definitivo
de raízes do homem à cidade,
num apego determinado.

As nuvens do destino modelam
formatos em variedades
as mais diversas possíveis.

14-3-86

A CIDADE (I)
A cidade é o relato dos homens,
a vida passada, vivida no tempo,
entre árvores, casas e ruas antigas.
Mãos anônimas a construíram,
fincando alicerces para sempre.
Silenciosas, traduziram a certeza
de sua realidade concreta e simples.
A cidade rompeu seu espaço
e cresceu, a planície habitada,
desde o turvo córrego ao pé da serra.
Em si, ela avança seus limites
e traduz seu lado contrário,
sustentado por vigas verticais,
se contendo como quem cai de sono
e jamais adormece por estar despertando.

A CIDADE (II)
As janelas são incontáveis.
Pelas portas que entram, saem.
Telhas por sobre as casas,
folhinhas verdes das sibipirunas,
esquinas por onde se cruzam.
Os homens, estes vivem para o trabalho:
edificar a cidade. A vida passa.
Essa terça-feira é apenas mais um dia.

15-3-86

Molhadas de chuva,
as árvores verdejam a cidade.
Copas folhadas folheiam ao vento
as páginas do tempo:
saudade, teu livro relemos
indo e vindo pela vida.
A manhã de amanhã
fica a dezesseis horas de agora.
A hora presente pressente o orvalho.
Chove.
A tarde toma banho.
Esta cidade já foi mais limpa.

16-3-86

Pajem do bebê poema
sugo maternal palavra:
leite sadio
no seio desta página.
Vigio.
Atento ao branco
saboreio dissabores.

17-3-86

Abro teu corpo
e aprofundo-me.
Dentro dele
alço vôo
percorrendo
delícias
paisagens
carnais.
Oh! altar
de néctar
sublimação
de esperas.
Desejo-te
ao sol
coração
de luz.
Dentro de ti
nossos corpos
se fundem
raízes suspensas
em prazeres
e ais.

18-3-86

O homem segue seu caminho.
Vai ao longe,
aonde quer chegar.
Chega.
Andando sozinho, sozinho.
E vê que ali
(ou lá)
não é seu lugar.

18-3-86

rever:
tudo passou
uma história in
terminável
uma história in
e narrável

19-3-86

O dia passou
num chove não molha.
Árvores tomaram banho
e sorriem para a noite.
O ar está parado.
Meu coração escurece
e a luz de nossos olhos
enfraquece.

19-3-86

antes muito antes
muito antes de ontem
dias muito distantes
dos dias nem me contem
são dias emocionantes
antes muito antes
muito antes de ontem
são lembranças constantes
que os sonhos remontem os amantes

19-3-86

de tempos em tempos
os balões flutuam

subo o mais alto
num vôo suave

lá de cima olho
minha cidade
zinha

19-3-86

Silêncio. Ouçam! Ouçam pelo vão.
Há uma voz interior sussurrando
com ofegante emoção,
se perguntando: até quando?

Até quando esperar o vindouro,
na crença de vir a verdade?
Meu coração vermelho fugiu do touro
e de suas ventas de atrocidade.

A voz tem som oco/tosco/opaco,
ressoando seu timbre vibrado,
qual tatu tatuado no buraco,

morto porque antes enterrado.
A fala destila trilha sonora de ecos.
A garganta é chão e galhos secos.

20-3-86

Um tema:
o risco que se corre
é a linha descrita
pelo poema
(...)
Se se retrai te trai
e não merecerá
este quase hai-kai

20-3-86

CACOFONIA é
o modo de ver
as coisas
que
loucas são

20-3-86

DACTILOS
o teclado da máquina de escrever tem 27 letras
pela ordem ei-las:
qwertyuiop
asdfghjklç
zxcvbnm
além do asterisco
da porcentagem
e do cifrão
exclamação
interrogação
os números
e tudo mais
a datilografia
é uma grande
é a maior curtição
(se bem que no computador
é bem superior)

21-3-86

atrás de vós
uma sombra
inocente
&
útil
torna-vos
personalista
&
fútil
- vosso é o sol?
consulte-o! -

21-3-86

o hipócrita
honra vos informar
que a mentira
de pernas curtas
está calçando
botas de sete-léguas

21-3-86

O SOPRO DO LUCRO

(I)
O som
de gaita
que ouço
é o som
da gaita
no bolso
(II)
dos mortos nada temo
que estes se foram
matéria etérea
plantada no chão
com os vivos cuidado
pois estão por aí
e mais e mais se humilham
por menos de um milhão

21-3-86

NOCAUTE
- Doadores de sangue
que fiquem próximo
ao ringue

(doadores
fizeram
fila)

Mike Tyson
vs.
Maguila

22-3-86

(I)
não
escrever
é
permanecer
no
ostracismo

(II)
que palavras tenho a mais
lições de vida prática
oficinas da gramática
de consoantes e vogais

22-3-86

Thelonius:
este é o nome
este é o homem
amado amém

ela delirava ao som da lira
e como Ava gardeneava seu filme

ele mitológico escreveu antologias
eros zeus phatos endeusados

ambos, ei-los,
à sombra de uma pilastra do Ateneu

24-3-86

RASCUNHO DE ANTERO ZUAL
Já não se vê o que se ouvia
quando vinha o alvorecer.
E à noitinha um tanger de plenitude,
a juventude tinha tudo sem poder,
numa atitude totalmente irreal.
Todavia, toda vez e quase sempre,
em que eu me lembre nunca deixei de pensar
nas esquinas nas meninas nos momentos
nos inventos criativos:
muito prazer!

25-3-86

Corpo de mulher, suave escultura
modelada em barro, em carne e osso.
Uma palavra te define: formosura!
Não me mates que ainda sou moço.
Expressão perfeita, doce criatura.
Ver-te sempre me causa alvoroço.
Amo-te, ó musa de minha literatura.
Não me mates que ainda sou moço.

27-3-86

o termo
a ser usado
está enfermo
hospitalizado

o termo
a ser usado
veio de terno
engravatado

o termo
a ser usado
está na urna
esticado

o termo
a ser usado
pra seu governo
foi enterrado

28-3-86

Relatei o que vi:
como Ezequiel
- o visionário bíblico -
deitei de lado
emudeci
comi excrementos
lucidamente viajei
às tumbas do silêncio
até que o filho do homem
fêz-se carne
e devorou-se

30-3-86

versos
têm
versões
várias
noções
diversas
de
uni
versos
ver
sáteis

30-3-86

Vida e tempo presente:
duas facas de um gume
viver é constantemente
o tempo não se resume

Ambos se acompanham
no trajeto que procuram
se se perdem, ganham
o que entre si apuram

30-3-86

Todos
indistintamente
usamos
distintivos
racionais
e por mais
instintivos
que sejamos
ainda assim
raciocinamos
mas nem sem-
pre
agimos com-
o pensamos

2-4-86
 
Onde o verso escondeu-se
foi sombra um dia foi sol
hoje apenas musgos infligem
a natureza de sua presença.
O verso quis ocultar-se
no pouco de cada coisa,
entretanto deu um basta
e ficou sem nenhum ritmo.
A ele, dizem os loucos
poetas da atualidade,
chegarão palavras novas
sem vogais e consoantes.
Mas a língua portuguesa
rio d'águas passadas,
de pobre fêz-se mendiga
de sobras gramaticais.
Fruto de igual sabor,
não se revela, esconde-se
nas grimpas de copa verde
de árvore sem raiz.
O verso depende dela,
a indecifrável matrona,
senhora de seus limites,
mulher indigna dos poetas.

6-4-86

Sondar as ruelas
da velha cidade.
Aqui pisou Tomáz
o poeta inspirado
pela mulher irreal.
Nessa praça o alferes
conspirou contra todos.
Naquela casa sem número
residiu o escrivão.
Nessa outra sem rebôco
viveram andarilhos
e bêbados irreverentes.
A velha cidade dorme.
O passado é só história.
O tempo encarregou-se
dos mártires e traidores.

7-4-86

Dentro há
transcendental
universo humano
de enigmas verbais.
Sussurros, acordes
de música silenciosa
captando um som qualquer,
inaudível, inaudível.
Ao acordares em ti
algum símbolo de homem,
traduzirás este mundo
além do inatingível.

8-4-86

tudo é maior e melhor
quando somos universais
seres dotados de sentimentos
servos de nossa crença
donos de luz própria
a nos iluminar e conduzir

10-4-86
 
tua beleza
é de loba grávida
dando luz
à lua

11-4-86

na hora nem notei
a indiferença peculiar
dos homens de negócio

administrei o assunto
e logo entrou dinheiro
na conversa

ele tem um sonho impagável
de ver sua fisionomia
na nota de dois milhões

12-4-86

se
a
seta
indica
outro
alvo
o
arqueiro
fica
são
e
salvo

13-4-86

Pensar é exercício:
a mente é armazém:
seu estoque é vasto:
meditou e me ditou
palavras imaginárias:
o cérebro é fiação
de artérias mui sensíveis

13-4-86

recuperaste meu verso
há muito perdido

estava no esquecimento
e ficou exclusivo

aguardando sua hora
de ser lido no tempo

incubado no casulo
desta tua cabeça intensa

14-4-86

descobrir
quantas telhas
exatamente
cobrem as casas
desta cidade

quando chove
certamente
o número de pingos
é dez vezes
maior

15-4-86

defendamo-nos todos
ante o inimigo comum

passa à nossa porta
olhando-nos de soslaio

vive à espreita
identificando sonhos

cataloga nossos dias
de agendas censuradas

carimba nossos papéis
interditando nossas v/idas

jamais vencerá, creiam,
está desarmado de amigos

16-4-86

Plantei um ipê amarelo
que cresceu e deu flores
A cidade ficou maravilhada
com minh'árvore florida

16-4-86

Clara
descobriu desde pequena
o que nasceu
primeiro:
não foi o ovo
nem a galinha:
foi a gema

16-4-86

Praça da Matriz
966 metros de altitude
palmeiras/sibipirunas/la floenses
A torre implora o céu rumo ao infinito
apontando o silêncio altíssimo
de um amor que se foi
e ficou
fincado em cada uma de todas as pedrinhas
de teu calçadão
Amor: saudade vivida
em tua longa extensão
há de durar o tempo
deste antigo casarão
Praça da Matriz:
fui feliz?

17-4-86

Olhos floreiam
ondulações no espaço temporal

Árvore cresce
na verticalidade clorofilada

Tudo paira
resignado pela criação apressada

Houve luz
e naquele instante nada se ou/viu

18-4-86

PATRIAZINHA SALVE SALVE
A ordem
progride
O progresso
ordena
A vida
se agride
Ó alma
pequena
À cura
convide
O câncer
gangrena

19-4-86

ILHA DE VITÓRIA
Vi o mar pela primeira vez
numa tarde quase noite
dum rubro mês de outubro

Lembro-me dos navios imensos
imersos nas águas balouçantes
em meio a ventania e chuva

O porto era confusão de línguas
de homens vindos de longe longe
estranhos em terra estrangeira

Seus navios eram possantes
cada qual com sua bandeira
tremulante em terra brasileira

Um destes navios ancorou seu nome
em minha memória mineira:
"blue line" - linha azul

O mar de Vitória é lindo
lá sou homem-ilha
e o Espírito Santo é divino

21-4-86

ANTENAS
Quem te vê
vidrado
na caixa
de madeira
plástico
e vidro

Sabe que tens
o olho comprido
capaz de ver
imagens
captar mensagens
em todos os sentidos

Quem teve
canais modulados
válvulas
sistemas transistorizados
sabe sondar-te
idiota do vídeo
com teu controle
modernamente
remoto

21-4-86

Ele

o abc
lê o d

f g
h i j l
Ele lê
m n o p q
sem por quês
e se acaso erre
é esse
que t u
zês

21-4-86

deus:
dândi por onde ande
ateu enquanto Eu
muito quando Sou
teu

23-4-86

Cabe a mim julgar
necessário seja
a poética titica
de certos blasfemadores
amadores
do templo da carochinha

26-4-86

TENSÃO
O tempo realiza. A distância
de revelar-se o lado oculto.
Chega-se ao sonho com ânsia,
o passado fica, faz-se vulto

de uma espera rica em vidas,
a cada segundo ciente de si,
entre sombras interrompidas,
entre espaços do que há aqui

nesse momento de expectativa
em que a alma se sente viva,
em que o corpo entra em gozo

de estranhas sensações reais
e marcas fincadas e imortais
ilusões do silêncio nervoso.

29-4-86

AO NAVEGANTE AVISO
Escrevo, escrevo, reescrevo,
servo da escrita irrestrita,
sirvo-me de uma oficinaflita
pagando o preso que devo

soltar no papel que dita
linhas ariscas em alto relevo;
e a desfolhá-las me atrevo
a correr os riscos da escrita.

Bardo a bordo da nau temporã,
colherei já os frutos de amanhã,
ou já será colheita tardia?

No mar de amar, armarei o esteio
e lavrarei o livro de joio e centeio
com frases que só o vento es/colheria.

2-5-86

MAIO
as tardesmaiam em maio
mês de virgens que fulguram
moças: maçãs permitidas
noivas ansiosas: sim sim sim
o altar é mais embaixo
(que vulgar
lugar comum)
o cálice contém fome saciada

2-5-86

A FIRMA
Durmo. O noturno aconchego;
repouso em nuvens de cansaço,
e nesse berço acho sossego
longe daquilo que faço.

Atrapalho-me no emprego,
a ele me entrego sem embaraço,
e volta e meia peço arrego
diante de qualquer erro crasso.

E dormindo um sono transitório
encaixo-me dentro do escritório
no realismo da vida prática.

Bato ponto, sou produto/produzindo,
e assim, nem mesmo dormindo
descanso da vida burocrática.

6-5-86
 
O verso não compensa
o crime de ser ou não
poeta de primeira linha

Que pensa pensa pensa
para chegar à conclusão
de raposa diante da vinha

A vontade é imensa
mas quede a inspiração
que me teve e me tinha?

7-5-86

passeio pelo campo
arvorecido/aqualuz
camisa branca/flores
no céu azul sol arde
insetos inquietos
são mais que espertos
peixes e águas:
um se respira no outro

8-5-86

o verso
é cortina
de fogo
em janela
de água
corrente
estando
a palavra
em jogo
a criação
é chama
ardente

8-5-86

De manhã
o sol aquece
À tarde
paira o mormaço
À noite
o tempo padece
sob o véu
de seu cansaço

8-5-86

BORGES
O cego tateia
imaginária paisagem
escura visão
de imagens esparsas
formas perplexas
dele diante de si
como algo no vácuo
ecoando nos breus

Nu, sem rosto
mãos inatingíveis
pés ausentes do chão
abismo ismo
sons atonais
sondas infinitas
de espaços galáticos
e sombras

9-5-86

que bom:
o bom é que
o que é bom
o é
é bom que o
bom o que é
é o que bom
é o

9-5-86

Entro
dentro
de
dentr
Dentro
de
dentro
entr

9-5-86

ADAPTAÇÃO
sanguínea corrente
alagou o peito
represou no pulmão
reteve o fluxo
da pulsação
com aparelhagens sofisticadas
exatas e computadorizadas
cardiologistas graduados
socorreram apressados
europeus e asiáticos
americanos catedráticos
latinos mais práticos
russos experientes
enfermeiras assistentes
todos com a mesma missão
chegaram à conclusão
que das tripas
não se faz coração

10-5-96

MATRIZ
Se relampeja
de perto da igreja saio
que na torre tem pára-raio
Mas, chovendo,
mais que correndo
nela entro
e fico santinho lá dentro
Fugindo de mim
eu me sigo
e se ali estou com Deus
estou comigo,
penso! Este é meu credo
Na casa do Pai me hospedo
Examino as feições dos santos
Meu Deus,
são vinte e tantos
Quando a chuva passa
deparo-me com a praça
Êta chuva abençoada
deixou-me a alma lavada

11-5-86

Deus
fez de seu dedo pincel
e com ele pintou
de azul o céu
Nuvens passaram em branco

11-5-86

DIA SEGUINTE
sábado
sou lerdo e lento
qual cágado

sou quase o pingo
no i
de domingo

11-5-86

BACALHAU
No navio
escandinavo
vi o viking
e a rainha cega
da Noruega

12-5-86

BANANOSA
Em Manágua
debaixo dum pé d'água
não plantei bananeira
mas deu cacho:
chamei Ortega
de Noriega
Eu acho que foi lá
que molhei meu chapéu panamá

12-5-86

as catedrais se alongam
estendendo silenciosas
nas tardes dos dias de semana

estátuas olham
olhar petrificado
olhos de compaixão

é tudo ladainha
que em coro decoramos
e eu já fui coroinha

12-5-86

PÓSTUMO
Senhor de suas convicções
travou batalhas em campo neutro
Não venceu todas
mas lutou para ganhá-las
Despojado de vaidades
armou-se para o embate
de êxito e triunfo
A morte o coroou

13-5-86

MUSICAL
No verso que escrevo me atrevo
a retratar com relevo o som
como símbolo do eco a seco
com ou sem o sim do nem
um sinal de ver a sombra
verde dever a crescer ao sul
sendo assim azul azul áz
da côr em forma de cór
coração pulsando em sol
lá lá que dá dó

13-5-86

dou ênfase ao circunflexo
ó, não me esqueço do agudo
acho o português complexo
não tenho certeza de tudo
só sei que os acentos somem
e o til não é amigo do homem

14-5-86

o que há de bom
bombeia
o que há de som
sombreia
o que há de tom
tomba
o que há de bom
bomba
o que há de som
soma
o que há de tom
toma
em bom som e tom

15-5-86

Olhai
o olhar sobre
sai
a menina dos olhos
na retina da vida
revira a visão
de quem vê
a ação da cor
no coração da razão

15-5-86

ALIANÇA
O moçolteiro
direitista
é noivo
Se se casa
passa para
a esquerda

16-5-86

BIC
bic(a)
alva
espessura
pássaro
pernalta
soltando
tintazul
no branco
céu do papel

16-5-86

GARÇA

ave
cheia
de
graça

16-5-86

Rio da noite.
E o riso flui
líquido
corrente
lento
escuridão
adentro

16-5-86

HITLERIANO

- Adolfo
que tal as férias
no Golfo?

16-5-86

AO MARUJO
Siga a rota
da frota no mar
No Índico
indica
No Pacífico
pacifica
que o Atlântico
virá por acréscimo

17-5-86

No momento digo não
digo não momentâneo
ríspido rápido
não certeiro
assim insípido
(digo não
ao dicionário)

18-5-86
 
LITORÂNEO
Diante do mar não me contenho
e me ponho a sonhar todo infinito:
traço em meu corpo um desenho
geografia de um ser livre e bonito
Sinto-me grande, sempre crescente
além da estrutura que me revela:
fora de mim sei que estou presente
nessa grandeza líquida e bela
O mar me assusta, às vezes,
faz em mim acumularem-se deuses
de uma soberania sem-igual
Sou temente, crédulo e puro
diante do mar eu quero, juro,
ser eu mesmo de forma natural
ser eu mesmo sem-fim, afinal

19-5-86

Doei doeu: a herança era ânsia
Sobrou assombrou o só sóbrio
Dista disto irrestrita distância
Pobre descubro sobre o opóbrio
Driblo o estribilho e embaralho
Aparelho volumoso alto-falante
Que cabeça! Comecei o cabeçalho
Acabei gabando-me galã galante
Ceder amanhã cedo com fome e sede
Sob o casebre de telhas de ar e argila
Na viga está esticada esta rede
Deito nela a costela e a carcaça cochila
O sonho não pára para além da parede
Doa a dor: inventaria amor pedi-la

22-5-86

A reta configura
um alvo. Direta!
Rumo da procura.
Certa. Uma seta!
Corretamente in-
dica do virtual:
Só apenas o sim.
En)(fim. Afinal( )

23-5-86

Diga-me com quem andas
e te direi quem tu és;
e falarei por quais bandas
tu metes as mãos pelos pés.
Caminhas ao lado dos falsos
e dos principais opressores.
E oprimidos, nossos percalços
não são só de dissabores.
Como sombra és nitidamente
notado em qualquer lugar
mas se tornas transparente
logo hás de se aprontar
se in-vestir de inconsciente
ao lado de quem vais estar

25-5-86

juntamente conosco
vamos começar a tentativa
nossa iniciativa é primar
para que a causa sobreviva

o céu ficará fosco
a noite não será festiva
quem quiser se molhar
enxugue a sede tempestiva

a ânsia estará convosco
na inundação, à deriva
o lance é ir e voltar
a indecisão é decisiva

e conosco ninguém podôsco
nenhum radar capta tal sensitiva
mas o lance é adaptar
a liberdade ao que lhe priva

28-5-86

Ria. No Rio ou na Bulgária. Ria.
Ria. Do horário. Do salário. Ria.
Ria da reformagrária. Da história.
Da faixa etária: ria. Ponte aérea
em Pretória. Embarcaria na Síria.
Sem ou com cárie: ria.

29-5-86

O DOADOR
Rui doou um rim.
Ele riu.
Não doeu.
Nem foi ruim.

29-5-86

Ter a palavra em qualquer hora e lugar
e com ela expressar a infinitude mental
dos códigos fotocelulares instantâneos

Traduzir os símbolos e com eles assimilar
os graus reacionários da semântica:
deusa toda poderosa & Ltda.

Gramaticalmente um texto visualiza
o que representar sua metalinguagem
apresentando entre-linhas reticências...

A palavra é junção de signe-ficado
e está acima de suspeitas ortografais
da classe desunida mas letrada

Ei-la nestes versos presentemente:
aqui/agora impondo-se impressa
ante vossos olhos de leitores

Palavra: escrita e/ou falada
diz o que quer dizer e até mais...
Além do que deixa sub-entendido

2-6-86

(1)
O CAMARADA
Nosso herói: iòreh traz pra frente.
Um camarada companheiro.
100%.
Seu dia de folga no Volga - recente,
causa de nosso intento, digamos, invento.
Ele, o bardo a bordo da nau decapitada
versejava sem rumo, ou melhor, navegava.

(2)
NILÁTS
O tempo foi-se
em que ficávamos martelando,
camaradas.
O Politburo
O Kremlim
A Nomenklatura
A Rua Treblinka
Comemos couve em Kiev
Górki é o máximo.

(3)
EMON ED OSSON IÒREH
oto too
otto toot
-(é palíndromo
não de palindromia)-
nome de nosso herói
i m p o r t a m o s
-(saiba que importa saber
de navio
ou avion
se o inglês v(l)er
um: saberá igualmente
muito mais - mas
dois: toquei
na Toca do Áporo
na Oropa
que apuro)-
achamos que faltou ar/puro
-(enrouqueci com tanto barulho)-

(4)
RECAÍDA MOROSA
-(escura suíte do Othon
nem noto a foto do broto do otto
que traz-me um coto
para que eu então possa vê-lo)-
e no abismo da noite
ouvimos um saltério

(5)
A VOLTA
antes da viagem de volta
para o interior
voltou-se para dentro de si
a roupa é pouca
vou arru/má-la
podemos ir
ele fala,
e só, ri

4-6-86

Começo pelas árvores: que encanto!
Floreiam. E à sombra de uma centenária
e verde e possante
escrevo.
Eis os versos:
um aprendizado silencioso
de folhas ruflantes.
O vento ventando.
O frescor das lembranças.
A respiração ofegante.
Agora sei que tudo ficou de papel passado.

6-6-86

O VINDOURO
Enquanto tem encanto
não me encontra
no entanto te garanto
minh'alma está pronta
tanto que te adianto
a troca e a compra

Isto! Posto que de sobra
tudo até se antecipa
o que deve e nos cobra
e aquele que nos evita
que é firme e se dobra
e portanto nos estica

8-6-86

MINERAL
O sólido, em seu estado,
retém a fórmula em si.
E se diz, diz-se formado
em Nova Dely e aqui.

É duro e muito dura
seu formato consistente.
Tanto bate e não fura
mesmo que insistentemente.

Mas a duração é o de menos
na concepção dos por quês
de objetos grandes e pequenos.

Pode ser, quem sabe, talvez;
somando, obtendo os cosenos,
liquidará com a solidez.

12-6-86

o
tarado
em
estado
de
choque
trepou
num
poste

14-6-86
 
CORRESPONDÊNCIAS
Poetas, cantai vossas musas
em versos definitivos;
dai-lhes palavras confusas,
enchei-as de adjetivos.

Para vós, são intrusas
tornando-vos cativos,
ou são venenosas medusas
com seus molares crivos?

São mulheres de carne farta,
risonhas e bem vestidas,
lendo de Hesse, o Sidarta

e vossas cartas não lidas,
envoltas em pele de marta,
as ovelhas enlobecidas.

19-6-86

A noite enviuvou-se.
Vestiu-se de negro
e tem sono.

Virgem de sol
grávida de lua
cheia

repousa
em quarto minguante

e nem sonha.

22-6-86

BLUE
Uma pétala da asa de Dédalo,
que pena - caiu; outras caíram.
E ele, altíssimo, incrédulo,
não viu o que outros viram.
Nem Santos Dumont do 14 Bis
marcou tempo no relógio de pulso;
afinal, o céu espaçoso de Paris
permitia seu pássaro avulso.
A Terra é azul
De Bali a Istambul:
ave-leve-nave-clave-de-sol.
Azuladamente.
Instrumento blue.

26-6-86

A PEDRA
No tocante à pedra, é duro
afirmar que a criei objeto
de invenção, inconcluso projeto
a ser deter-minado num futuro.

Ela é perfecta, mineral puro,
poemaugusto (bom e concreto).
Pelos campos filosofou Epicuro
sobre a matéria, seu tema dileto:

"Ordenando-a, não obedece;
duradoura em imóvel posição,
como está, fica, permanece

como que fincada no chão.
A pedra é o que parece
em seu aspecto de sólida solidão."

29-6-86

Eis a palavra em desuso
para expressar-te o tanto
de sons mudos do canto
que só para ti traduzo

A palavra é qual recanto
(nele o poeta é intruso
autor de livro inconcluso)
a espelhar um quebranto

da palavrinha repetida
(imagem na íris retida):
tom sobre tom de cor

ou cores de tintas tantas
que as palavras - são quantas
para te revelar meu amor?

5-7-86

(1)
o arco
e s t i c a
na flecha
a seta indica
finca
&
fica

(2)
a seta
e o alvo:
(uma maçã
na cabeça)
do poeta
calvo

9-7-86

IMPRESSÃO

Pregue os olhos
nestas letras

Páginas brancas
elas pretas

9-7-86

traduzir de mim
para ti
o momento sublime
de tudo
em que sou
meu próprio escudo
protegendo algo
que já perdi

conduzir de ti
para mim
o instante solene
do nada
em que és e estás
bem guardada
e portanto sozinha
aqui

12-7-86

Secretamente.
Silencioso ouço meu coracão
atento
a criar algum novo invento
como bom cientista
amoroso

12-7-86

de fome anda sedenta
de sede anda faminta
a morte caminha lenta
a vida não há quem sinta
a febre é mais distinta
a fossa se quer nojenta
de verdade há quem minta
mentira não se comenta
o caos de tudo se isenta
realmente como se pinta
a realidade é tormenta
e a certeza quase extinta
dinheiros? menos de trinta
tem o peso que se ausenta
que com mais prazer se requinta
ante a dor que experimenta
ei-la ali se apresenta
na vida que a todos finta
de forma clara e cinzenta
conforme é a cor da tinta

15-7-86

Ligo o belo ao livre
e trago líquido e certo
um som que ouso tinir
longe e às vezes perto
Sigo o vale do simples
e levo comigo a foice
para cortar certas ervas
da vegetação que foi-se

16-7-86

te chamo
camarada
e ficas
com essa cara
amarrada

te chamo
companheiro
e queres
me comprar
com dinheiro

te chamo
de amigo
e pensas
que só amo
meu umbigo

te chamo
de irmão
e dizes
precisar ir
mas não

assim
não
te
chamo
mais
de mais nada

18-7-86

se me chamam
bardo
digo:
ardo
com minha poética
de apimentações
sem estética
ou definições
contra caretas
o bardo da Garbo
e outras gretas

19-7-86

vendo com olhos livres
a s s i m
se não pagas
o olho da cara
pára
de te prenderes
(em pesares e prazeres)
a mim

21-7-86
 
DESVARIOS
Demonstro não ser - e sou.
Eu - primeira pessoa - singular
a destruir (oh! Deus) o altar
que minha ira amaldiçoou.
No melhor de meus sonhos acordo
e transbordo a noite: imaginações.
Estou em ti em todas aparições:
no teu barco, teu mar, a bordo.
Esqueço-me e perco-me em abandono
triste e só a recuar, indo sem volta.
Teu olhar me prende e assim me solta
deixando-me ficar entregue ao sono.
O mais é um silêncio absoluto
de espirais que aumentam e diminuem
de dias que vão e noites que fluem
na vastidão do passageiro minuto.
E cada segundo se torna o limite
entre a ida e vinda da vida diária.
A esperança é uma dor hereditária
que teu amor nega para que eu acredite.

26-7-86

Na floresta dos embaraços refugiei,
correndo sem rumo, louco, fugindo.
Uma perseguição que traduzir não sei
de tão cruel correria, assim vou indo
exaustivamente apavorado e temeroso,
ciente dos tantos pavorosos perigos,
fujo de mim, de Deus todo-poderoso,
fujo da paz, deixando-a aos inimigos.
E só, vejo-me entre árvores trançadas,
raízes à mostra e suas copas desgalhadas
dando um sombrio ar misterioso.
Tropeço, caio, levanto-me, insisto.
Quero ir, chegar, ficar não resisto.
Estar nessa floresta é muito perigoso.

8-8-86

A seu tempo deduz-se a constância
de uma vida renovada diariamente,
que sendo plena, é de alta relevância
no pedestal construído firmemente.
A ela volto meus olhos desvendados,
pois para vê-la torno-me mais vivo;
atencioso, aconteço sob meus cuidados,
sobrevivendo aos dissabores que cultivo.
E na vida, tudo há sempre acontecido,
com mistério de viver o revivido
ante a certeza do que está por vir.
A vivência entende-se pelo existido,
realizado muito antes de ter havido.
Verei o que virá, bastando apenas resistir.

8-8-86

Cautela, cada passo medido,
num dado momento e trajeto.
Se o caminho é sempre reto,
é também o mais comprido.

Em altos e baixos se estende,
dando-se inteiro e estranho.
Um dia perdido é ganho,
uma luz se apaga e acende

o lume da dúvida expressa
no ir-e-vir desta estrada
que pé-ante-pé se atravessa,

sem se chegar ao destino
que em torno de si é nada,
a não ser um grão pequenino.

19-8-86

TE VI
A tela na sala
é cela, e cala
a família.
A tela brilha
como bela ilha
para náufragos
da imagem
que
à deriva
se salvam
sãos
e
são alvos

23-8-86
 
Kafka disse:
quando vier
a peste
quero estar
em Praga

24-8-86

ESTRELAS
respondes ao firmamento
as incontáveis estrelas contadas
e recontadas ao longe
em longas noites

quatrilhões delas
vermelhas e amarelas
estrelas estrelas estrelas
amarelas e vermelhas

24-8-86

NUVEM DE TERNO E GRAVATA
Na União Soviética
sem etiqueta: ética só vi
na boutique poética
do camarada Wladimir

25-8-86

CANSAÇO
O rústico fustiga o sentido
e afasta o fortuito fazer.
Empresta um frasco devolvido
contendo essência do ser.

É fragância vendida na fonte,
rente ao ponto de parte partida;
vive a frente da sombra defronte
dessa árvore frondosa: a vida.

E reverte na volta um salto,
um rito solfeja o contralto
e palavras compõe, letradas.

De acordo com ele, quem revela
o laço contorna a parcela
das subidas desenfreadas.

26-8-86

Rara esta hora nesta era.
Agora, explora do presente
a aurora, pois em si prepondera
a tua mente onisciente.
Deveras, deverás ter tato
e trato, em contraste manifesto.
A hora é um vão a jato
e sabes o mais, o resto.
Deves desenvolver o dom
em afinidade, sem ou com.
(Quebrei o ritmo do poema.
É nisso que dá a falta de tema.)

27-8-86

a composição do corpo
como objeto vivificado
de líquido quente corrente
fazendo mover troncos
membros e cabeças

o sangue só se extingue
ao longo adormecer no mormaço

o corpo é composto do oposto
com restos de artefatos e outros
e com sangue que por si só se distingue

28-8-86

fora isso
o sucesso é um desserviço
o bagaço é um desperdício
o começo come só o início
e o mais é fictício:
fora isso: piço
(que esse é o único vício)
fogos de artifício
do alto do mais alto
edifício

28-8-86

1969
Que Yúri
procure
entre constelações
desde o solo
de sua Apolo
o inventivo
e criativo
Deus

Nos breus
interestelares
nos quasares
no inatingível
no invisível
nas galáxias
no buraco negro
de seu rumo cego

29-8-86

CRIANÇA:
Mama com fé e bagulho
na terra em que cresceste.
E nunca nunca pergunte
que país é este.

29-8-86

Em dado momento ruiu-se o muro
de Berlim e seu maior arquiteto,
um falso alemão que, credo, esconjuro,
o Fuerer enrabava direto.

Como cabia no orifício (furo),
aquele falo possante e ereto,
ejaculante... teso e duro,
osso colossal do esqueleto?

Hitler urrava, rasgava a suástica,
suava e gemia: era sua tática
de melhor possuir-se pelo garanhão.

Adolf, quem diria, segredava
sua tara nazista (e dava)
seu rabo sujo de líder alemão.

30-8-86

O pássaro age nos ares.
Suas duas asas flainando
são apenas penas ruflando
no vôo por sobre hectares
de terra; vários lugares
ele perpassa voando.
Suas penas plenas pairando,
suspensas em seus pulsares.
Ele se eleva em sol/clave
de grave-canto, corpo-nave,
levemente pesando no ar.
Seu pouso é pausa-descanso
leveza no espaço manso.
Há tanto céu pra voar...

1-9-86

Divina fez média
na comédia
que estreou

Que tragédia
quem pagou
não gostou

2-9-86

V:
letra
de virtude
e vício

vês
o vôo
em que vou

aspas
vespas
ou
asas
de aves
vulg
ares

8-9-86

RIBEIRÃO BOM JARDIM
Admiro as quaresmeiras
margeando o Bom Jardim:
florescem alvissareiras...
Todo agosto é assim!

9-9-86

ESCALAFOBÉTICA
O que somos sem os sons?
Somos só soldados do soul
ou somos solitários do rock'in'roll?
yes or not?
Nossas posições são as mesmas
no braço da velha ranheta guitarra.
Não estamos sós. Viemos após.
Poeira da visão metálica.
O tempo é este. O tempo é já.
O tempo é tampa de jacá.
A unidade é unicamente
a união de um simnão!

13-9-86

O BOBO DA CORTE
O bobo da corte era cortês.
No palácio era palhaço.
- De bobeira,
com inteligência,
farei rir Vossa Excelência.
Porém, disse o rei:
- Não, nunca rirei.
Ria e ria a rainha,
sorrindo tudo que tinha.
Chorou de rir a princesa,
estampando toda tristeza.
O príncipe, a princípio,
coitado, de ira, riu, pirado.
O rei, de porre,
desceu as escadarias da torre.
Absoluto, pediu silêncio:
- Psssiiiuuu...
De súbito, deu de cara
com um súdito.
E de ímpeto,
estourou-lhe os tímpanos.
Depois contou os degraus
dois a dois.
Caiu.
E barulhento, disse:
- Ordeno e eu próprio
me condeno.
O rei riu, riu e riu
de sua lei.

17-9-86

Determinado a deter. Minado
da cabeça aos pés, eis que eclode
o estopim: um barulho sacode
e faz mover o imóvel ora parado

Corro só e grito socorro. Quem acode
o sôfrego poeta desinspirado?
Soneto, trova, elegia, ode...
Quem pode é apoderado.

21-9-86

A PROVA DOS NOVE
(I)
Os aventureiros chegaram.
Vieram todos ao mesmo tempo.
Uns maiores e melhores que outros.
E todos a fim de começar aquela batalha.
Dispostos a desvencilhar qualquer indefinição.
Certos de serem os vencedores apesar de tanta coisa.
Os aventureiros chegaram e já estão a caminho de novo nova mente.

(II)
São tantos.
Quanto mais
melhor.
Assim sem conta incontável
distinguem-se pelas vozes
e às vezes aprofundam-se
pens¿ativos pensando
no que deixaram
no que ficou do que restou
muito antes de tudo enfim se acabar.

Agora era trilhar o desconhecido
buscando conhecer as fronteiras.
As afrontas enfrentarão de frente.
Aprontarão diante da calmaria
e seguirão o indicativo presente.
E futuristas jamais voltarão
e do jeito que são
quem sabe eles sabiam.
Quando vinham viam.
Onde iam
não.

(III)
Se chegassem chegariam.
A condição duvidosa das indicações:
por quais caminhos caminhariam?
Inúmeros. Muitos. Diversos. Demais.
Cada um no seu e cada um na sua
e todos atrás do bem-comum
do incomum que lhes comunicasse
a próxima verdade acerca do sim
que nada dá senão a certeza
(a não ser que certamente acertassem)
dos erros percalços
de uma caminhada longa
no lengalenga da mentalidade
de quem assim pensasse
sobre quem agisse
longe do disse-me-disse
eles ou algum deles falaria
o que na certa diria qualquer um
ou nenhum dissesse:
se fosse o que acabou-se
antes sêsse mas não ésse.

(IV)
Eis que dentre todos
apenas um: ele
o aventureiro do silêncio não se calou
e ergueu-se disposto a caminhar
posto que os outros ficaram no lugar
indecisos entre estradas atalhos e trilhas.
E ele sim - não pensou se compensava
tentar conhecer com tentativas
indo de encontro ao que lhe esperava
em algum ponto.
Se fosse iria.
E foi então que se ofereceu
digno de ser aceito caminhante
recusando-se esperar pelos demais
que ali estavam aguardando
dando um tempo sob o céu e o sol
e o clima era propício
para quem ficasse
e para quem fosse.

(V)
O caminho retoma o que há de
liberdade, pois se encaminha.
Vem de encontro. E encontra.
Busca para si o que traz para sempre
em suas duas paralelas de idas e vindas
de vidas que à sombra de dúvida
retornam ao começo e recomeçam.
Ir. Com o impulso mover-se
até que chegando lá
saindo daqui
são horas e dias e meses e anos.
Então é melhor dar o primeiro passo
que assim se chega longe e devagar.

(VI)
Foi. A ida é para chegar.
Ainda que muito diferente seja
mas é igual ao que não se iguala
a ante-sala do mistério primeiro
que era onde se encontrava o ar
que respirava o bravo e corajoso
herói na penumbra daquele lugar
onde nada se ouvia. Nem o silêncio.

Foi. Indo só com ele e ninguém mais
que mais ninguém entendeu o limite
e atendeu o convite que não se faz
a não ser pelo caminho que transite
este que é aventureiro e por aí vai
contraindo emoções
emoções que atrai.

(VII)
O que dizer
se ensurdecedoras
são as doentias audições do homem só?
Com essa ele resumiu a síntese.
E tratou de arranjar companhia.
Logo que possível queria conversa
com o verde que era cor disponível
ali no escuridéu de olhos e vendas
e sendas lindas pelas quais se via
uma sombra de gelo sobre paredes.
Não tremeu porque se aqueceu em si
de dentro e de fora aquém e além
como alguém que se revestisse bem
de quem também estivesse com frio.

(VIII)
Lembra-me a nave a neve e o nível
da penúltima onda branda espraiando
a meus pés no espaço frio de um mar.
O novo a nuvem e o níquel se aniquilam
nas mãos desta nossa poça a qual peço
não respingar no branco desta folha
que é pra não manchar o poema fresco.
Lembra-me de correr o risco e salientar
a fórmula mística que no íntimo guardo
de qual norma reativando o retrocesso
um processo sem sucesso e sem nada de nexo
um número fixo no eixo e eu não
eu procuro esquecer aquele ano de sessenta e

(IX)
O aventureiro reconhece:
que texto confuso este!
Ele hoje vai bem, obrigado!
É um chevalier da Ordem
primeiro vigilante
guardião iluminado
acabou como um iniciado
da Liga Municipal de Antropofagia.
Os outros (aqueles)
os demais aventureiros
- coitados -
não sabem o quanto é
bom e agradável
ocupar a cadeira de Mestre Oswald

30-9-86

POESIA PAU-
Armado de unhas e dentes
vais para a batalha carnal,
com teus pensares indecentes,
antropofágico, canibal...

És o mais entre os dementes;
te julgas um deus, o tal...
Só pensas no entrementes
onde metes a cara-de-pau.

Vejo-te a pedir arrogo
ao apagar-se o fogo
que incendeia tua tocha.

Pagú, Antonieta, Tarsila...
São frios corpos de argila
para ti, Oswald, brocha...

6-10-86

O MORDOMO
O domínio do medo
se confirma nas pálpebras
do mordomo do castelo.
As olheiras de fraque azul-escuro
passeiam pelas tábuas do assoalho
enquanto no porão o gélido cadáver
está coberto de flores.
O assassino às soltas
esconde-se nas folhagens da paisagem
um campo verdejante expande-se além.
O perigo é de se temer
o medomina olhos estranhos
do serviçal que viu e calou-se
uma vida entre altas paredes
trancada por portas possantes.
É o velho morcego das noites
transeunte nos cômodos espaçosos
sinistramente sombrios.
O mordomo serviu o chá.
O morto, desde as duas.
Meia-lua entre nuvens.
O assassino fugiu a tempo.
Chegaram a polícia e a funerária.
A principal testemunha é uma tal senhora Lady Agatha.
Quem é o principal suspeito?

17-10-86

Uma palavra puxa outra:
letras e sílabas se misturam
e as frases se instauram
na página: campo neutro

Aqui, no branco, fica fácil
imprimir os tipos gráficos
manter o impossível ritmo
do que se tornará estático

Talvez seja o sempre imóvel
que prenda para a leitura
sem lei dura estabelecida

Ou quem sabe até o espaço
que se disputa a calmo palmo
para ocupar suspenso no vácuo

22-10-86

A rigor vigora a vida
chamacesa diuturna
que forte ou enfraquecida
se expõe e/ou enfurna

Vida viva sobrevivente
que ampla e contemplativa
se instala qual semente
e brota: a vida viva

E im/planta quase alheia
nos vales e nos cumes
no rol do chão ou areia

ou verdeja nos estrumes
e basta a quem semeia
adubando a seus costumes

28-10-86

O dom é dado
a quem domina
o lado nato
a quem atina
no ato
a quem empina
um barato
a quem assina
com tato
ao qu'imagina
abstrato
ao que doma
sem pacto
que toma
intacto

29-10-86

num dado momento
houve um lance
que mesmo lento
fugiu-me do alcance
marllamelou
abolirei nos dedos
os dados que ele obrou
e terei
o que so(u)brou

30-10-86

HAI-KAI
É o cúmulo
à noite
abrir-se um túmulo.

30-10-86

Se vangloria
é glória vã.
Olha, Glorinha,
um pé de maçã;
sob a sombrinha,
que linda manhã.
Peca, santinha,
santinha de satã.

1-11-86

TELEGRAPHIA
A EH A LETRA PRIMEIRA
QUAL EH A ZÚLTIMA?

2-11-86

DONA ETELVINA FALA:
"...foi dito e feito
o Benedito
tem este defeito
de achar esquisito
o que é direito
porém digo
e repito:
ele é assim
e eu o aceito..."

7-11-86
 
CONFICÇÕES
(1)
Um outro eu
diferente de mim
através do qual vejo-me livre
capaz de ser
único e diverso
sendo ao mesmo tempo dois
e apenas um:
quando sou e estou
dentro e fora
juntos
comigo

(2)
O impossível desejo da sombra:
esquecê-la de maneira sentida
como destino de um sol perplexo
ante a condição errante de deus
que se limita a desejar tudo
tudo que se realiza no centro
daquilo que inexiste e se apresenta
ao descanso eterno do efêmero

(3)
Dificil desenterrar o fóssil
da era quimérica do antes
quando se confundiam todos:
os répteis e as crateras

12-11-86

BRUMADO, ABRIL DE 1842
Um a um os pavões aparecem
colorindo essa vegetação rasteira.
Aqui, quando os campos florescem,
a primavera é à vida inteira.

Como são belos os pavões - exclamam!
Que beleza rara essa natureza.
E assim amamos os que nos amam
sendo o amor nossa grande incerteza.

E eles, majestosos - desfilam
pelo vale alegre e verdejante
de nossa terra im-produtiva.

Os pavões, ao sol, como brilham
suas multicores penas elegantes
que se abrem nessa tarde festiva.

17-11-86

POEMA MINUTO
Você senta
segundos
e lê

23-11-86

TÁVOLA
Mesa redonda
roda de amigos
papos rolam

25-11-86

Contudo,
digo,
ab-nego
do f-ato de falar
e abstrato
me entrego
qual um ja-
to a aterriz-
a...............r

28-11-86

Um século - eu nem calculo
o número exato das horas.
Os dias passei num casulo
sem lusco-fusco ou auroras.

Aguardei todo o tempo exigido
para saber do sol e sentí-lo.
Para existir, estar inserido,
sem exílio, na sala do asilo.

Velho, sei dos anos que pesam
e as lembranças se revezam
nas lacunas de minha memória.

Cem vezes cem vezes cem
o que sei não ouvi de ninguém
e afinal contei minha história.

30-11-86

BALADA DOS TRINT'ANOS
Trint'anos, trint'anos...
À prática co'os planos...
Daqui por diante é vencer,
ouvir, falar e ver
cada minuto expirando,
um fio se arrebentando;
tão frágil que é invisível,
mas segura (é incrível!)
a balança da vida passada,
na qual a vida é pesada.

Trint'anos, trint'anos...
Cicranos, beltranos, fulanos...
Amigos de caminhada
em busca de quase nada.
Um pouco da existência
se faz da insistência
que se tem diariamente
de gente tão diferente
se igualando indefinida,
em razão da própria vida.

A vida está na metade?
Será esta a meia-idade?
Tudo basta ao vivente:
para a sede, água corrente,
o tempo de boa colheita,
sonhar co'a vida feita,
com muito para fazer,
hora nenhuma a perder;
o ócio ficando pasmo
diante do entusiasmo.
O som do tempo ecoa,
a asa do vento voa;
a vida se vive vivendo,
o ser só será, sendo,
em si o sol da essência,
sinal de toda ciência
fazendo da raça humana
egoísta, suserana,
se apoderando de nada;
rebelde civilizada...

Trint'anos, trint'anos...
Desejos, os mais insanos...
Os hábitos são costumeiros,
os olhos aventureiros,
querem ver em demasia
a soberba soberania
do dia se esvaindo
em cada noite caindo
no peito da juventude,
em sonhos, paz e saúde.

Trint'anos, trint'anos...
Apesar das perdas e danos,
dos versos já renegados,
dos poemas engavetados;
das múltiplas escolhas,
aos montes, quais folhas
de velha sibipiruna
que ao solo coaduna
bem fundo suas raízes,
bem verde suas matizes.

Nov./86

Jamais debateremos temas instigantes.
Opiniões divergentes nos distanciaram
das sugestões de soluções importantes
que nossas indagações questionaram.

Somos diferentes, Irmão, distantes
um do outro, vasta quilometragem.
Agora, então, muito mais que antes:
não somos parte da mesma paisagem.

É comum que pessoas incomuns
realmente não sejam como alguns
que são seres, simples habitantes.

Nós, Irmão contrário, os dois juntos,
trataremos de tratar outros assuntos;
evitemos, pois, os temas instigantes.

5-12-86

algoz me diz
que o caifás
de cadiz
quis lilás
a gris
nos beirais
do chafariz

9-12-86

Meramente formal o encontro
entre olhares que se desconhecem
Um fingir desleal - e pronto -
mas os olhos jamais esquecem

10-12-86

Definitivo silêncio se resolve
ante a busca sem encontro,
em torno de novas esferas,
o coração sem coragem bate
e tremula sua bandeirinha
à beira de um clamor tristonho

10-12-86

A sabedoria silenciou-se. Única.
Sendo lume se fez escurecida
como tristemente se revelara
antes de conter em si
todas as regras de condução.

11-12-86

(Os poetas
na realidade
são penetras.)

Atormentado pelas alucinações
mentalizo o ator que fui, e sou.
(Mas consulto
meu umbigo
antes de entrar
em assuntos ambíguos.)

Abismo. Sempre caimos nos ismos.
Porque afinal somos sempre os mesmos.

12-12-86

HAI-CAIS DO PORTO
O navio:
não
vi-o

Parou
ou melhor:
ancorou

Sabe o marítimo
que o mar
tem seu ritmo

13-12-86

Vício
saúde
d'ofício
&
Virtude
vício
d'atitude

15-12-86

VALE DE LÁGRIMAS
Há noites não durmo.
Perder-te deu-me um coração de chumbo.
Pesa-me tanto o ar sobre as costas.
Oh! exausta respiração.
Não creio na tua ausência.
Para sempre não me será a falta silenciosa
destes longos dias.
Nas manhãs de sol agasalho-me.
Tardes saudosas.
Horas iguais se repetem diariamente.
Vejo-as passar passivamente,
como quem emudeceu.
Delírios murchos de saudade.
Olhos rasos, minh'alma inundada de lembranças,
pensamentos, devaneios, alheamento...
E assim, revivendo, eis a vida.
O relato de uma tristeza indócil.
Morreste, estabelecendo-te no infinito limite.
Partiste, deixando-me sublimar em mim distante.
Sombra de um lugar frio tornei-me.
Estás onde te encontrarei um dia,
quando se eternizarem nossas vidas,
além dos sonhos impossíveis,
vertidas as lágrimas,
e o coração tornar-se leve novamente,
desvencilhando-me da matéria-carcaça,
da couraça, caixa toráxica,
quando fluir da respiração a plenitude
do definitivo reencontro de nosso último
(ou primeiro) e eterno sono.

19-12-86

máquina sensível
poeta em greve não escreve
faz piquete frente ao papel

19-12-86

GRÁVIDA
entre
no ventre
de vosso ventre
a inocente
semente
de gente

20-12-86

GEOGRAFIA PESSOAL
Em Nova Iorque, não me pergunte por que.
Em Amsterdan, até amanhã.
Em Bruxelas, agora é que são elas.
Em Berlim, ai de mim.
Em Viena, que pena!
Em Lisboa, à-toa, à-toa.
Em Zurich, pique-nic.
Em Moscow, do Bolshói vi um show.
Em Belgrado, garotas do meu agrado.
Em Sidney, australiei.
Em Nova Déli, salvaram-me a pele.
Na França, quanta festança.
(Paris me deixou desinfeliz.)
Em Roma, quem tem boca, coma.
Em Santiago, tomei um bom trago.
Em La Paz, tanto fez, tanto faz.
Em Lima, fiquei sem rima.
Na Venezuela, velhinhas na janela.
No Brazil, p.q.p.
(Onde eu estava? Na ilha de Java.)

21-12-86

TUDO É POSSÍVEL
Tudo é possível.
Até a impossibilidade
de saber que nem tudo o é
quando deveria ser.

22-12-86

Hosana
Nasceu Jesus
Maria deu a luz
É natal

Não foi cesariana
Foi parto normal

25-12-86

Jesus ficou nenên
bem além

hotel não tem
pensão também
não há nem
casa de ninguém
(com ou sem
mil ou cem)

- José, que trem!

- CalMaria, meu bem.

Assim Cristinho
nasceu alegrinho
em Belém

25-12-86

DRAMA
ninguém me ama
ninguém me quer
nunca ganhei
um Moliére

26-12-86

(1)
dia de hoje
agora presente
escapa/foge
momentaneamente

e determina
solto no leito
igual rotina
tal qual efeito

de permanência
selo eficaz
vã existência
leva e traz

solo de cordas
ao leve toque
som pelas bordas
que luz evoque

ponto exato
seja atingido
manso regato
rumo influído

marco fincado
no ar sem eira
vai demarcado
à sua maneira

tema repetido
ontem-amanhã
livro relido
atrativo imã

parte ao todo
se integraliza
de certo modo
completa e visa

o pleno espaço
em si retém
o desembaraço
de não e nem

de nunca ter tido
o tudo e nada
ser redividido
em conta somada

marca abstrata
e tão realista
imagem grata
suaviza a vista

relato inverso
enquanto revisto
unido disperso
não passa disto

traço incorreto
causa de impasse
contrato e teto
quisesse e ficasse

(2)
rito direto e rijo
sendo até rudimentar
da face faz-se desejo
beleza do elementar

atinge farto alimento
e faminta fome há
sede demais (sedento)
com vida revidará

o vindo de longas voltas
havido pelo vindouro
tendo amarras soltas
sem ter dado no couro

claro que firme e forte
estável estava fixo
supor obter suporte
ir pro lixo com o prolixo

perpetuar a fagulha
no escuro escondida
ela ali se vasculha
e sem escolha convida

ao fogo que ferro derrete
ferida quente confere
nenhum dito se repete
se não há quem o tolere

(...)

dez./86

PESSOA
tudo vale
a pena
se a palma
te acena
vale a pena
sendo tumor
benígno
não gangrena
vale a pena
a demasia
excessivamente
amena
vale a pena
voar
valseando
via Viena
vale a pena
ser dos ares
pássaro
até hiena
vale a pena
a vala
cavar-se
pequena
vale a pena
poesia
e poeta
de quarentena
vale a pena
a alma
não ter
esquema
vale a pena
solucionar-se
todo e qualquer
problema
vale a pena
desencadear
um terço
e novena
vale a pena
balancear
e medir-se
à trena
vale a pena
captar
ondas
de antena
vale a pena
cruzar
a ponte
de safena
vale a pena
apressar
tal qual
Senna
vale a pena
apreciar
o mar
de Cartagena
vale a pena
Navratílova
não se dizer
romena

vale a pena
loira
negra
ruiva/morena
vale a pena
a lei
libertar
se condena
vale a pena
ver dez
chegar
a centena
vale a pena
viver
com força
plena
vale a pena
repetir
e repetir
e repetir
a cantilena

dez./86

- Quem pensas que és?

- Sou o que penso...
Suspensos eis meus pés
em leve vôo intenso
de flutuante levitação
o corpo acima do chão.

- Ainda te lembras daquele tempo?

- Lembro. Mas já esqueci...

dez./86