p/ Vera Nunes, in memoriam
Minha terra tem paineira
na praça do grupo escolar,
que na meninice arteira
um dia cismei de plantar.
Cuidei-a, qual jardineiro,
a vi crescer, se esgalhar,
e em seu porte altaneiro
flores róseas a esbanjar.
Minha árvore regateira,
verdejante a sombrear,
farta paina sementeira
deixa ao vento vaguear.
Em trabalho
prazenteiro
pus-me paina a ajuntar,
fiz macio travesseiro
para a cabeça pousar.
Em fibra de seda
faceira,
quero dormir e sonhar.
Pluma, lã: a alma inteira,
leve, enfim, descansar.
cardápio
o pf
do poeta faminto
leveza de dumbo
levando carga
de chumbo
solvete
delletido
ninguém tem
nada com
tra
ninguém tem
nada con
isso
estrondo
trovão
estorvando
som de chuva
orragangorra
g
g
g
g
g
g
g
g
g g
g
g
mergulh
ar
na respiração
submersa
segunda- feia
segunda-freia
segundaferi-a
neme
diga
não
douvidos
apavore
evapore
aprove
a
queda
livre
de hífen
um abismo
se abriu
ninguém viu
quando o cego
caiu
afro
nta
preta
adeus
morto de
cansaço
mandou
celebrar
missa no 7º
dia
só hoje só hoje só hoje só
hoje
ana
freud
freudiana
quem sabe o que
ninguém sabe
que
tecla com
lápis
ou vede
ou
veda
há quem tenha
fogão a
sem
o português trouxe
a primeira galinha
piada
perdeu até
a fé na fé
desde então
vai sem chão
e a pé
em seu monólogo
diz a Deus
- dialogo
com os seus
e os meus eus
nota
o músico
deu um nó
diário
de uma só página
de
uma só frase
uma
só palavra
só
uma letra
uma
sílaba
só
na oficina
ofício
é sina
estão todos tão
atordoados
todos estão
tão aturdidos
segunda-feira, 29
de outubro
Reconstrói o castelo.
Não com antigas pedras,
mas outras,
tão sólidas quanto,
não aquelas,
para sempre
duras.
E nem na areia
movediça,
ex-princesa.
Não se conforme.
Indigne-se.
São tantas as diferenças
injustas, sacanas, infames.
O Mundo não tem governos.
Tem negociantes.
Mães, esposas, filhas, amigas,
todas as mulheres são deusas,
santas ou insanas,
todas as mulheres são donas,
mandonas ou complacentes,
todas as mulheres são divas,
lindas ou retocadas,
todas as mulheres são,
todas as mulheres dão
o melhor de si todas
as mulheres.
Com que olhos me vês?
Com que olhos me lês?
Com os que a terra há de comer?
Com olhos que têm tudo a ver?
Olhos cheios de porquês?
Com qual dos três?
Conheci uma arquiteta.
Ela desestruturou
meu coração bauhaus.
Não gosto assim.
Prefiro de outra maneira.
Um jeito menos doloroso.
Pode até doer,
mas que doa só em mim
e não fira mais ninguém,
muito menos a ti.
Não me deixe na mão
Não me deixe no chão
Não me deixe não
Não me deixe
sábado, 13 de
outubro
Muitos temas.
E tu.
Periferia. Bordas. Margens. Entorno.
Viver pode ser por aí.
E quando a finalidade
é sempre o reinício?
O fetiche.
O fictício.
Mais que irrevelável.
Inconfessável.
Possível. Factível.
Ou apenas devassável.
Oh, nem todo horizonte
é belo.
Ande muito, ande mais, ande.
Toda cidade grande
se expande.
Até onde a vista alcança
te dá uma visão exata
de quão próxima é a distância
que teu olhar capta.
Quando se acorda sem vontade,
indorme-se.
Tudo tem uma ligação.
Nem sempre dá liga.
Algo que link.
Código 062.
Para sempre.
Até amanhã.
Woody Alen já me fez rir demais.
Woody Alen já me fez rir mais.
Woody Alen já me fez rir.
Arrebata.
Ou arremata.
As legendas, não;
as imagens.
sexta-feira, 12 de
outubro
a aurora é a hora
que ignora o
agora
ou
suspira Flávio
ou
respira alívio
um abismo chamado estômago
vazio
escancarou a janela
viu o sim
o não
entreolhou pela fresta
não há rios mar não há
só barcos navios
veja lá
amanhã é feriado
folgo em saber
pontos facultativos
são reticentes
água áspera
água ácida
águà
poesia, por favor
mas sem gelo
parece mentira
mas é
de qual cor
e de que gosto
queres o mar?
inventa uma história
registre-a nos anais
da imaginação
maior e vacinado
teve paralisia
infantil
bata
com flor
não chibata
incorporo estrelas
à noite
todas têm nomes
de ex
the book is on
the table
mas vou esperar por sua tradução
psiu
psique
psi
deus
quer dizer
tudo
deus
é demais
isso é muito
para deus
todos os meus amores
são do século passado
li em uma parede de caverna:
coração de pedra coração de pedra
se não te lapidar
meu amor vai se lascar
coração de pedra
caso não mais acorde
sono eterno
este poema
não o leia em voz alta
porque na verdade
ele não tem nada a dizer
a não ser a intenção
de fazê-lo ver
que às vezes ler
é descrer
por que foi escrever?
percursos que o rio
ou melhor
que a água
para si
toma
quantos degraus
tem o escuro?
na falta de palavras
perdi a fala
aproveito o ensejo
para enviar meu bocejo
de boa noite
e meu beijo de bom dia
sem grilo
fique com meus erros
e da próxima acerte
na mosca
não moras sozinha
se a solidão mora contigo
eu como estou na minha
já lhe neguei abrigo
mas ela se avizinha
diz me ter como amigo
Crianças Invisíveis
Homenagem sem falsas
ilusões
São meninos subnutridos
distribuídos por lixões,
olhos vidrados, perdidos,
destituídos de ilusões.
Vão por aí, sem rumo,
supra-sumo de arrastões.
Prontos para consumo
de fumo, cola, tresoitões.
São meninas maltrapilhas,
ilhas dentre tubarões.
Bens dóceis de quadrilhas,
filhas de humilhações.
Nunca usaram mantilhas,
ou cartilhas de lições.
Rumo ao abate, novilhas
em armadilhas, calçadões.
Mas são crianças apenas,
plenas de deformações.
Supuradas gangrenas,
pequenas putrefações.
Crianças a duras penas,
em arenas de exclusões,
sobressaltadas, serenas,
centenas de milhões.
Vós que já sois pais,
aninhais as criações.
E às rejeitadas dedicais
mais - ou só orações.
Pai nosso, desça do céu,
véu azul de abstrações,
e constate, déu em déu,
do povaréu as privações.
Repare nestes franzinos
peregrinos de tribulações,
os exemplos genuínos
de desatinos, imperfeições.
Na Terra, clandestinos
inquilinos de imprevisões,
são Teus filhos pequeninos
hinos a Tuas contradições?
quinta-feira, 11 de
outubro
Feridos tens os pés,
pisas em sal grosso.
Procurando o que és
encontras um fosso.
Sofres dor lancinante,
só, altivo, resignado.
Ou sob sol escaldante,
ou em clima gelado.
Vives tua exaustão
em crua e nua aflição,
desilusão, desalento.
No fosso, a fundura
te dá, com face escura
o Eu do esquecimento.
sábado, 6 de outubro
A chave para fechar
e a chave para abrir.
Abre para entrar,
fecha para não sair.
Diga grandes coisas.
Com os olhos, com os olhos.
Tudo a partir do poema.
O mais é um nada a dizer.
Em que palavras sobram,
são inúteis, meros signos,
símbolos, códigos, formas.
A partir do poema tudo.
O céu
está no azul.
Gosto de brigar contigo.
Não me sinto teu inimigo.
Sei que não corro perigo.
Mas quero ver se consigo
amar-te mais do que brigo.
sexta-feira, 5 de outubro
Tão pequeno
mas tão
tão
- O que te dá aflição?
- Não ter unhas para roer.
Conheci Eva.
Cheirava a maçã.
Se nos duplicamos,
nus
simplificamo-nos.
Fui apresentado à noite.
- Muito prazer.
Tua flor é
ao mesmo tempo
vaso
Dou minha palavra.
Ou melhor
minhas palavras
dou.
Não são poucas,
mas é só o que tenho.
Só eu me incomodo.
Mas me deixo estorvo,
sou meu enfado,
não me podo.
Tudo a meu modo.
Não tiro o olho.
Não pode ser pecado.
Do trancelim de ouro
pende o crucifixo
entre os fartos seios,
em grande parte à mostra
no provocante decote.
Teclado.
Cato milho.
quinta-feira, 4 de
outubro
Pelo caminho que vais me levar,
preciso calçar meus sapatos
ou posso caminhar descalço?
Por mim, preferia levitar,
evitar cactos,
não pisar em falso.
E
se
Deus
não
existir
devemos
desistir?
Contigo
eu & cia.
Só
ésse ó.
Correu
contra o tempo
morreu
de contratempo
deus
criou-o
mundo
quarta-feira, 3 de
outubro
Nem a poder de reza
não movas uma palha
se ela te pesa
Mete o pau na poesia
Se sangrar desvirginou
Aí a poesia é mulher feita
e falada já ficou
Meu bem
teu corpo contém
glúten?
Não refaça nada
Seria muita desfeita
Até ontem à noite
eu ainda pensei
Mas agora é tarde
diá
logo
monó
coloque-os
solilóquios
Carregando folha de coca
a formiga colombiana
até troca de toca
Para um completo silêncio
fecha os olhos
Perdi a conta
de quantas segundas vias pedi
de contas a pagar que perdi
Tantas que nem dá para contar
Quando cai um avião
a gente fica sem chão
Pior que não
Caríssimo Romeu, da família Montecchio.
Antes de se aventurar a subir pelo balcão
e ir sorrateiramente ao quarto da jovem donzela
(ciente de que é ansiosamente esperado por ela)
compra pelo menos dois quilos de filé mignon.
Joga um pedaço para o doberman
um pedaço para o rottweiler
um para o pastor alemão
um para o fila
um pedaço para o buldogue
um pedaço para o boxer
um para o bullmastif
um para o cane corso
um pedaço para o mastiff
um pedaço para o mastim
um pedaço para o são bernardo
um pedaço para o pit bull
joga um pedaço até para o vira-lata.
E, ainda assim, atenção, pois todo cuidado é pouco.
No canil dos Capuleto tem muito cachorro
e tua Julieta é um filezinho.
terça-feira, 2 de outubro
Dou-te bombom sushi ombro e rima
Preferes
baton blush sombra e rímel
Quero-te
faminta carente e sensível
minha linda
És
minha iguaria
meu caviar
Sou
tua energia
teu KVA
Compartilha
comigo tua beleza.
Dá-me um acre de tua natureza.
Tua verdura, tua seiva, a lua tua.
Assim, como és e estás, nua nua.
Dá-me teus ímpetos hiperativos.
Teus peitos tesudos e nutritivos.
Tua lacuna, gula, mel de doidices.
Dou-me a ti, me atices, me erices.
Prova-me, aprova-me, me vicia.
Toma-me, seca, bêbada, se sacia.
Louva, implora, chora, ri e goza.
E adormeça lânguida, prazerosa.
segunda-feira, 1 de outubro
Texto quer dizer
Tecido.
Se
me visto, vou escrito.
Escrevo,
sou vestido.
Escrevo,
estou despido.
Testo,
teço, textcido.
Cadê o instantâneo?
Foi
momentâneo.
Passou.
Poema-relâmpago
Apenas um flash
Somente um clic
Olha-o passar
Estica
sobre
o abismo
a
corda invisível
Mas
não atravessa
Fica
Só
o desequilíbrio
é
possível
Nunca
existe
Sempre
resistirá
Hoje
insiste
Amanhã
será
É feio
se
espelhar
em
Narciso
Reticências
O
tempo de contar
até
três
Acaso teria outro
sabor
fosse
multicor
a
couve-flor?
o
que deus criou
pode
até ser inventivo
mas
é muito malcriado
-
arte final do inacabado
ou
o homem é ser
só
rascunhado?
já fui poeta
hoje não vou
mais
sem ais
em paz
a ponto de
nem preciso terminar a
letras
palavras
gavetas
poeta
guarda
livros
de ver
e haveres
o machado de assis
cortava palavras
foi bom enquanto duro
ou
Era só o que faltava
Era só
(o que faltava)
acompanhar-me
adormeço
adormeço
adormeço
adormeço
adormeço
adormeço
adormeço
carícia delicia
delícia acaricia
& cia.
a onda
- em suma –
não afunda
à praia ruma
- se abunda –
vira espuma
se inunda
em uma
não se (s)onda
o azul é mais
que uma cor
o azul é mais
que outra cor
o azul é mais
outra cor
o azul é mais
cor
o azul é mais
o azul é
o azul
azul
az
parte
de mim
e não chega
a ti
parte de mim
fica comigo
onde neve mora
amor
never more
corta ao meio
a dor da perda
de sonhos enfermos
divide-a para juntos
sofrermos
olhos
janelas
retinas
cortinas
eu me nino
durmo
adulto
me adulo
habita a solidão
imensa casa
sem cômodos
Nosso sexo,
acento
circunflexo.
Viva.
Viver é
expectativa.
Quem diria.
Estou teclando com alguém
que um dia (veja bem)
me ensinou datilografia.
sexta-feira, 21 de setembro
Eis a questão
Se destino não há,
que destino se dá,
a que se destinará,
quem destinatário será
do que destinado está?
Ou é desatino
de destino falar?
Desafino
só de em destino pensar?
Destino, fatos em sucessão
- podem ocorrer ou não?
Destino, vida do homem,
sua constituição?
Destino, causas independentes
de vontade, sorte, fado, fortuna
e que delas resultarão?
Destino é o que virá, acontecerá,
querendo-se ou não?
Destino é ou não é
designação?
Se meu destino é ir, seguir,
qual a direção?
Destino é contra-mão?
Destino não tem explicação?
Ficamos de nos encontrar.
Mas pode demorar.
Entre nós o mar.
lá vem
= nos trilhos =
um trem
que é que tem
tem nada não
que é que tem
tem nada não
que é que tem
tem nada não
que é que tem
tem nada não
que é que tem
tem nada não
que é que tem
café com pão
café com pão
café com pão
segunda-feira, 10
de setembro
ACESSE O ENDEREÇO ABAIXO E ASSISTA VIDEOCLIPE
COM MINHA CANÇÃO "BRINCADEIRAS
DE CRIANÇA" NO YOUTUBE...
http://br.youtube.com/watch?v=WS2DlLLm8wQ
sábado, 8 de
setembro
O sol de amanhã
O sol pós-meio-dia
O sol do norte-nordeste
Ó sol
tende piedade de nós
O sol sem sombra
O sol no olho oco
O sol em chamas
Ó sol
tende piedade de nós
O sol atômico
O sol tormentoso
O sol delirando fogo
Ó sol
tende piedade de nós
Fauna e flora imploram
Não secai as águas
Não queimai seres
Ó sol
acolhei nossa súplica
Pedras vegetam
Clorofila mineralizada
Aflora solidão
Dói existir sem eco
Água
O ato de bebê-la
líquida doce potável
e sabê-la
fonte finita
esgotável
Água
Carece preservá-la
de modo responsável
tomá-la
sabendo-se
insaciável
Flecha
do arco
ao alvo
pontaria
direção
vazio
imensidão
certeza
noção
meta
exatidão
E o cupido
é cego
coração
Por mais
humana que seja
não tem condição
A miséria é
da vida
a humilhação
Sua indigna
e extremada
negação
Avante
Levante
teu Eu
Torne gigante
o pigmeu
Silêncio é ressonância
O íntimo ao alcance
A estridência dentro
Sons de luz interior
O ser no ser do Ser
sexta-feira, 7 de
setembro
Peço-te mais que isso.
Só não me pergunte o quê.
Que por não saber o quanto
(e do mesmo tanto o que quero)
não te saberei responder.
Mas sei que isso é pouco.
É muito maior meu haver.
Na ampulheta,
em vez de areia,
espermatozóides.
Apenas de uma
e não de muitas
ejaculações.
Qual seria da vida
o tempo
para a passagem
de 400 milhões?
Tudo passa:
passilargo, passinhar,
en passant.
Passatempo, passe,
passeio, passível,
passarinho.
Passaroco, passim,
passion.
Passa
com o passamento
de tudo.
Parou de beber
AAà força
Contradição da traição:
no guarda-roupa
um cara pelado
com o coração na mão
Contra fetos
não há abortamentos?
Pode-se contar nos dedos
quem tem mãos limpas
quem dá mão à
palmatória
Se esse amor
for coisa boa
prende o danado
senão ele avoa.
Sendo esse amor
um trem qualquer
pode ser
de falsa mulher.
Se esse amor
for bom negócio
cuida dele
e evita sócio.
Se esse amor
for de verdade
dá-lhe sentido
e liberdade.
Se esse amor
não der em nada
já valeu
a chance dada.
Se esse amor
der para trás
deixe-o ir
e siga em paz.
Perdi a conta de quantas vezes
dividi em prestações
minha total desilusão
Nem lembro se foi no cheque
no carnê
ou no cartão
Mas deixei de pagar pra ver
e não creio mais em amor
que de si faz promoção
Não acredito e aconselho
a não cair nessa de amor
literalmente em liquidação
quinta-feira, 6 de
setembro
Eu perambulo sonâmbulo
Eu ando divagando
Eu vou voando
Eu sou souvenir
Eu estou destoando
Eu corro corroendo
Eu passo paciente
Eu vivo viés
Eu subo subitamente
Eu solo solamente
una vez eu eu eu eu
eu
ecôo
ecc homo
éter
Etc
ET a tc
Um espelho se vê no outro
Duplicidade disforme
imagem megami
Se era coisa que preste
não sei
O anel que tu me
deste
empenhei
Certos agudos do Milton
Seus arranjos vocais
Saímos de planícies
atravessamos
montanhas
chapadões
Ê Minas Gerais
Ê sertões
Euforia e fúria
vivo bipolar ativo
Ora escrevo
Ora grafo
Ora grifo
Ora cravo
Ora crivo
Ela abriu minha cabeça
Eu tenho um coração
em mente
Eu tenho em mente um
coração
Ela desenrolou as
tripas de meu cérebro
Imagine-as agora
como estão
Experimente chegar até mim
Só não desista nos
primeiros 1000kms de labirintos
de um caminhar
sem-fim
Areia movediça
Areia movediç
Areia movedi
Areia moved
Areia move
Areia mov
Areia mo
Areia m
Areia
Arei
Are
Ar
Ar?
Olho nos olhos de uma pessoa
hipnotizamo-nos
O olhar dela me vê
em si
Meu olhar a vê em
mim
E assim abrimos
nossos olhos
para silhuetas
escuras
Nossos olhos
fechamos
para claridades
atômicas
cogumelos de núcleos
incandescentes
Vedamos vistosos
vislumbres
Cegos iridescentes
O futuro ao adeus
pertence
Nada te posso pedir além de
Nada te posso dar mais que
Nada te posso dizer senão a
Se comigo estás
e não estou contigo
sinto
que ressentes
Sou sim
ser ambíguo
entrementes
Eu
no todo
estou quase
Quasímodo
Campo do poeta
Não há pênalti
só tiro de meta
Bola pra frente
alma inquieta
antes de até aqui chegar me perdi muito por aí
antes de até aqui
chegar
me perdi muito
por aí
Quando chegar a hora ouvirás
blim-blom
(ou será blim-blém?)
Se a gente não ligar a mínima
eles continuarão nem
aí
e eles andam em
bando
o tempo todo
articulando
E nós - só vez em
quando
raramente – e de
modo brando
Assim é
assim está
e vai ficando
com o poder podendo
e nos podando
Reclamar em forma de declamação
Contra leis e homens
corruptos
versos livres
A poesia versus a
hipocrisia
(abaixo o poder
arbitrário)
Poetas falando das
tribunas
musas na galeria
o povo unido no
plenário
E revogam-se
disposições
em contrário
quarta-feira, 29 de agosto
Coisas de André, meu filho...
http://br.youtube.com/watch?v=J4Ak4-PlOQ4
http://www.youtube.com/watch?v=wqANHZZtAYI
segunda-feira, 27 de agosto
Nunca é demais mostrar "PEQUI", música título do 19º CD do amigo Marcelo Barra, que tem letra minha. Clique e ouça PEQUI
PEQUI
(Marcelo Barra – Rinaldo Barra – Flávio
Almeida Patrocínio)
Tem que ser devagarinho,
rói daqui, raspa dali.
Py é casca, Qui espinho,
seu nome vem do Tupi.
Ouro e carne do cerrado,
gosto forte e exótico.
Com seu verde e dourado
é um fruto patriótico.
'Tá em todas as receitas,
sejam doces ou salgadas
e são muito bem aceitas,
mundo afora apreciadas.
O sabiá, o canarinho
e o atento bem-te-vi
têm o peito amarelinho
de tanto bicar pequi.
Cata pequi no cerrado,
cata pequi.
Cata pequi no cerrado,
cata pequi.
Não existe similar,
trem igual eu nunca vi.
Pro sertanejo caryocar
basta só comer pequi.
Viagra do sertão,
seu cheiro atrai paixão.
Quando é tempo de pequi
é cada um por si.
Arranjo, violões e viola:
Natan Marques
Baixo: Marcelo Maia
Percussão: Heckton Rhádzzy
Piano: Napa
Vocal: Mara, João Marcelo e Lila
sexta-feira, 3 de
agosto
Coisas de Flávio...
http://www.5palavras.blogspot.com/
http://www.ghostpropaganda.blogspot.com/
quinta-feira, 2 de
agosto
CRISE
entusiasma
tusia
asma
NUMA BOA
Comigo
ninguém briga
só dou abrigo
e mão amiga
MILHÕES DE EUROS
Quer pagar
o Pato?
MACEDO
- Jesus Cristo é o...
- ...
- Senhor?
LULA NO PAN
Vaiaram um medalhão.
TANTÃ
“Um cachorro com muito dono,
morre de fome e ninguém cuida”.
Diagnóstico da crise aérea, segundo Lula.
Não, camarada Lula.
É, sim, uma cachorrada
de pouquíssimos donos,
cuidada, alimentada,
lucrando, com gula
e um mínimo de ônus.
Companheiro, fala sério,
não fica improvisando.
O senhor, que anda aéreo,
assuma logo o comando.
segunda-feira, 23 de julho
nada depois dessa
vírgula,
fechado em mim
sou sem saída
ou sem fim?
brasil:
quando não é caixa dois
é caixa preta
não durma
antes do ponto
nem acorde
depois
bebo da baba da moça
sede dela não tenho
só fome
que foi do 18º andar
isso eu sei
só não sei se caí
ou se pulei
não morri
me aleijei
isso não se esquece
é como andar de bicicleta
(na china ou na holanda?)
domingo, 22 de
julho
não
next vida
na próxima
alergiaaalegria
levanta
saia
sente
põe palavras sem sons na minha boca
de meus olhos tira palavras que nada têm a ver
cegueira muda desses tempos de mal conviver
dou por escrito o que sinto
assino embaixo do que penso
analfabeto que sou dessas coisas
ainda guarda meus dentes de leite
ainda guarda o naco de meu cordão umbilical
meus rabiscos ainda guarda meus primeiros desenhos
os brinquedos algumas roupas mechas de cabelo fotografias
memória de mil compartimentos de ávida saudade mantida fresca
por deus não invente de querer o paraíso aqui na terra
que a terra está em guerra que a terra está em guerra
uns contra os outros ou seja nós versus nós mesmos
estamos nos acabando assim a fim por fim enfim fim
radares descontrolados mapeiam o céu
não lêem nada detectam nem captam
sem rumo o norte bem pode ser o sul
há trajetos inseguros no espaço sem escalas
aves e aviões na contramão da liberdade
congestionando a imensidão azul da queda
idas e vindas vidas idas almas aéreas
dores etéreas vôos cegos e esse medo de fogo
cindacta
reverso
ou arremetida
sem data
sábado, 21 de julho
eu vos digo:
entrarei mudo
e sairei calado
por via das dúvidas
para evitar stress
não dêem ouvidos
ao meu silêncio
de 150 decibéis
que de pelúcia
seja o amigo urso
a pétala secou
entre páginas
do livro de Rosa
e poucos não são
os que perdidos
em desencontros
estão
os que acham
os que buscam
os que esperam
em vão
descolore-se a vida
verdes anos
foto amarelecida
mãe natureza
somos teus filhos
desnaturados
já quase
desnaturalizados
criminalidade
o ministério da justiça a
dverte
agora
a essa hora
estará bin laden
em tora bora
ou
bora bora?
tio sam
pode até ser rima para islã
sadan
talibã
irã
mas não a solução
floresta:
esta
flor
resta
não vivo da poesia
sem poesia não vivo
vivo a poesia
ela me vive
vive em mim
viva a poesia
consome em ti o desejo de consumo
em ti o desejo de consumo dá por consumado
para que o consumo do desejo se dê por consumido
porque consumo é um desejo a que estás acostumado
e já consomes este desejo como a um costume assumido
capital versus trabalho
resultado comprado
eme a o til não
é não
e sim
mão
se chover
acione
para
-brisa
-raios
-lamas
abra
guarda
-chuva
e aguarda
a aguada
parar
caiu na rede é
site de webpeixe
link de peixeweb
cardume virtual
sexta-feira, 20 de
julho
1)
beba
do
hic
[sic]
2)
originau
originaw
originao
3)
por mais errado
ou estranho que pareça
só pode ser descabeçado
quem tem cabeça
4)
não conseguiu me alcançar
ou melhor
foi incapaz de me acompanhar
(ou pior)
ficou para trás
ou -
- talvez
por ser relutante
tenha me deixado ir
adiante
apenas para seguir
meu eu distante
5)
tem faltado ar
finge que respira
finge
6)
volte ao index
das folhas secas
de papel chamex
7)
a última vez
que vi Kasparov
foi no xadrez
8)
com estes olhos
que a terra
há de come
çar a ver
9)
já não penso mais
ando esquecido
aliás (lembrei-me)
tenho ido
10)
cala a boca
quero dizer
silêncio
psiu
ouviu?
11)
07/07
TAM
q
u
e
d
a
PAN
o
i
d
ó
p
12)
endireita
a interrogação
e terás
uma exclamação
ou
controverso
entorta a exclamação
e obterás o inverso
13)
olho no olho de meu filho
imagino meu filho
olhando no olho de meu neto
imagino meu neto
olhando no olho de meu bisneto
imagino meu bisneto
olhando no olho de meu trineto
imagino meu trineto
olhando no olho de meu tataraneto
imagino meu tataraneto
olhando no oco da cara de minha geração
a partir de então o mundo será um imenso vão
14)
não diga nada
nada é o dizer mudo
diga tudo
fala extravasada
com ou sem conteúdo
15)
só
o cego
atravessou o vazio
sobre o abismo
se tivesse guia
não atravessaria
16)
rodovia
federal
todavia
b r
u acos
Quer ver algo legal que meu filho André (de 15 anos) e
eu inventamos de criar? Acesse:
http://br.youtube.com/watch?v=J4Ak4-PlOQ4
sexta-feira, 13 de
julho
Lava
Lágrima
(vulcão choroso)
Magma
(e raivoso)
Navegue
Sem remo
sem rumo
sem nau
Sem leme
sem lume
mar sem sal
É o fim
Já não me abala,
e para mim
é notório:
o que o papa fala,
mais que latim,
é latinório.
Desafio
Desfia
fio por fio
anos a fio
o fiapo
do ser
E fia
que será.
Traça
Vejo-te como caça.
Predador faminto de ti.
Espécimen escassa.
Prolifero-te.
Divagação
Dá vontade de ser
o que quer que seja
algo que sem saber
só tem quem bem
querer
deseja
Na mesma
No pleonasmo
o circunlóquio
redunda
No excesso
o desperdício
abunda
Moça do 1208
Entra-e-sai.
Sobe-e-desce.
Gravidez
Nove meses
a vida empurrando
com a barriga.
Solidão a dois
Só contigo consigo
ficar só comigo.
Consigo só contigo.
E comigo só
sigo.
Caco fato
Embaralha
Empastela
Espalha
- Amoela
Intervalo
Fechou para balanço.
Ou seja,
dançou as escondidas.
Epitáfio
Enfim
pó
Latim apostólico
O hálito do papa
(até quem o suporta
o nariz tapa),
vem da língua morta.
quinta-feira, 14 de
junho
Gaza
Na zona
proibida
agora tem
catapulta
Jesus
A última
cheia.
Imprensa
Veja.
A notícia passada
em revista.
Coisa de casal
Quando meu amor
comigo briga
(nem me diga)
ao dizer
que agora é
só amiga
é que ela
me castiga
Tal a escassez
Dia haverá
em que vegetariano
até planta carnívora
comerá.
Ou vice-versa.
Marca
Cicatriz,
tatuagem
do tatoo
reality.
Merchandising
Vamos, guria,
à Churrascaria
Bezerro de Ouro.
Conforme-se
A ruga
é elástica.
Estique-a
à plástica.
Presente de Merlim
Arthur,
deixa de onda:
é quadrada
tua távola
redonda.
Ambos
Tontos de interrogações.
Prontos para respostas.
A solapa
Dá a cara a tapa.
Mas quem bate
não escapa.
Rei sem detalhes
Podem
(mal ou bem)
falar de mim.
Mas que tem tem
que ser tim-tim
por tim-tim.
Friedrich
Nietzsche, fala assim
para Zaratrusta:
Deus não morreu.
Deus nem nasceu.
Sumô zen
Rechonchuda
a big
barriga
do Buda.
Coventry
Será uma nuclear
ogiva?
Ou é ao luar
a Lady
Godiva?
Ah, Raul
Acertar na mosca
é sopa.
Bsb
Maravilhas
no país
de alicie.
Pênalti
Jogo de palavras.
B deu bola.
A
tacante
sofreu falta
do Z
agueiro.
quinta-feira, 7 de
junho
Pilha de nervos
Ou Deus madrugou
ou Deus não dormiu.
Deus está por aqui.
Nunca vi Deus
(muito menos assim).
Hoje Deus está
em um dia ruim.
Sua santa paciência
está no fim.
A mensagem
O meio é
o e-mail
Permitido
Para que a liberdade
de expressão
sobreviva
e nenhum ato
de exceção
reviva
não verifique
a classificação
indicativa
Dentro da área
Eu não marco
em cima.
Dentro da área 2
Ela não faz
falta.
Inaudível
Sem som
sou surdo
não mudo
o tom
Pequeno anúncio
Perdeu-se o medo.
Quem encontrá-lo
favor passar batido.
Que ele seja ignorado.
Pois o medo perdido
é medo amedrontado.
segunda-feira, 4 de
junho
O passarinho
Em passarinho
pedra não jogo.
O pobrezinho
é tão indefeso.
Sem estilingues!
- A todos rogo
(ou alguém aí
quer ir preso?)
O passarinho
é um ser frágil,
só tem as asas
para se defender.
Vai pelo azul
em seu vôo ágil
(quanta maldade
é vê-lo sofrer).
Não atire pedra
(eu peço tanto)
e digo sempre:
liberdade é tudo.
O passarinho é
canto e encanto.
Até o remorso
sem ele é mudo.
sábado, 2 de junho
Última
Branca pá
gina de cal
Coreografia
Qual garça
a bailarina deslizou
na ponta dos pés
no lago dos cisnes
Morte
Depois do choro
e da chorumela
chorume
Nua
Falo da nudez,
não a que deixa à mostra,
mas da insinuante, sutil,
que convida a imaginação
ao exercício da descoberta,
às nuances de tradução
de corpo e arte,
ao prazer de revelar-se,
em transparência, o desejo
como único disfarce.
Teimosos
Escrevem poemas
sobre poemas
poetas sem temas.
Com tantos temas
escrever poemas
sobre poetas sem
temas.
Sinfonia
Cada palavra
um músico
na orquestra
do texto.
Deslize
Na rua do sabão,
cai, cai.
Escorregão.
Tempovida
Já estava na hora:
deu-se um tempo
de hora marcada.
E este não havia,
faltara. Não dava
para mais nada.
A vida no tempo
dado é biografia
não autorizada.
sexta-feira, 1 de
junho
Alimentai
Divida a safra
de vida.
Haiti, Biafra...
A safra de vida
divida.
quinta-feira, 31 de
maio
Ato de contrição
“Insatisfeitos!
Descumprem tratos,
se vêem só com direitos,
têm mil e uns defeitos,
não passam de ingratos.
Dei-lhes vida (e a minha)”, diz Cristo,
pondo tudo em limpos pratos.
Nós desdenhamos: “Só isto?”
O mestre suspira: “Desisto!”
Contrito de Seus feitos e atos.
Filosofia de Ascenso Ferreira
Gostava de filosofar,
comer, dormir, vadiar.
“Hora de trabalhar?
- Pernas pro ar
que ninguém é de ferro”,
dizia, em tom de brincadeira,
ele que de ferro não era,
mas que assinava Ferreira.
A exumação
Se vísceras visses
reviradas,
em exposição.
Com as gulodices
mal trituradas
na mastigação.
Em bisbilhotices
entre ossadas
e decomposição.
Talvez aplaudisses
as bicharadas
em deglutição.
Ou desistisses
das presepadas
da exumação.
quarta-feira, 30 de maio
Crisálida
Do casulo
para o vôo
- um pulo.
Luz forte
Verão.
O sol
cega.
Nada católico
Um terço de mim
reza.
Já um quarto...
Romeo and Juliet
Foi o rouxinol,
não a cotovia.
Vês, este sol
não é o do dia.
Outros tempos
Ex-pudicas?
Por que são?
Ora, picas!
Canção solo
Na terra,
ou se planta
ou se enterra.
Rito do conflito
Dar o dito
por não dito
(mas no grito),
é passar pito
no veredicto.
Nos olhos
Têm tudo a ver,
duas meninas
meu olhar ter.
Balas perdidas
Rio, Rio, a que ponto
chegou em ti o horror:
gangues em confronto
acertaram o Redentor.
Sem crédito
Foi ao banco
descontar cheque
em branco.
Beijo
a boca da noite
e sua língua roça
o céu da minha.
Noite, oh! noite,
não me deixe na fossa,
nem se sinta sozinha.
Cachos de estrelas
colhemos em nossa
celeste vinha.
Frutifica-me
e em si mais adoça
sua baga já docinha.
E noite, oh! noite,
que ter eu possa
a lua por vizinha.
Lua a banhar-se
no breu de sua poça
meladinha.
domingo, 27 de maio
Um dia choveu estranho.
Panca d’água diferente.
Contando ninguém acredita.
Eu, menino, na fazenda
fiquei por entender a cena,
inimaginável e surpreendente.
Cada gota dessa chuva
era uma letra. Uma letra
em cada pingo. O alfabeto líquido
caído em cacimbas, poças, lagos,
represas não se diluía instantanea
mente. Em rios, a correnteza
levava tudo, em jorros de A a Z.
Antes da evaporação, tive tempo
para brincar, juntar sílabas,
formar uma palavra, aquosa, frágil,
úmida, com letras em vários tons
de azul e verde, em uma transparência
mágica, em alto-relevo, inefável:
teu nome eu escrevi.
E nunca mais choveu assim.
sábado, 26 de maio
Pare de beber
Pare de tomar a pi...
Lula
Libra
Leu o horóscopo do dia.
Para seu signo, a previsão:
“Hoje vais cair em tentação”.
Cortou volta da confeitaria.
Não resistiria a uma ambrosia
após o pingado e o pão.
sexta-feira, 25 de
maio
Dia do Fico
Se é para o bem de todos
e a felicidade geral da nação
diga ao povo que fico.
Assinado: Rei da pretensão.
Dia do Fico 2
Um dia (não sei quando)
ainda fico
rico.
Aí eu me mando.
O espaço exato
entre o piscar dos olhos
e o bater do coração,
do pensado agora
e a respiração,
quem saberá dizer
com precisão?
Não será essa inexatidão
a resposta ao ser ou não ser?
Eis a questão.
Shangri-La onde?
Shangri-La longe?
Há grileiros
em Shangri-La,
há?
Não para ser reino
de um Zé-qualquer,
mas a monarquia dos sem-terra
apossando se avizinha.
As invasões dão trono a Rainha.
Na sinagoga
não ecoa sino.
Seu bimbalhar
acorda o rabino.
Blim-blom,
shalom.
Blim-blém,
amém.
É sabbath
em Jerus
além.
Plim-plim
Prozac
Projac
Fervilha.
Pode servi-la.
Assopra
a sopa
de lentilha
(ou de ervilha).
Avestruz Master
Não valeu (nem)
a pena
Pé ante pé
um passo de cada vez
de vagar se chega
Janela
à vista
Dia D
Hoje é dia de
Ora ora
por que
essa espera?
A hora h
é já
e agora
ou não era?
Ó confusão do boi na cidade
(a si e aos outros atrapalha).
Ó rendição do homem no campo
de batalha (em sua fashion mortalha).
Ó drummondiana solidão que me estraçalha.
A munheca ainda pulsa.
O pulso ainda desmunheca.
A munheca ainda repulsa.
O pulso ainda breca.
A munheca ainda expulsa.
Uma vez fora
entorna
água à torneira
não torna
Só
o olho da rua
vê
a cidade nua
Vir,gula
Rompenuvem
pontocom
comsem
br
Jurubeba
Primeiro, Pedro,
é dose ser dependente,
teu grito se faz urgente.
Pare de beber
tanta aguardente
Leão do Norte.
Ou queres morrer?
Pedro, Pedro, seja forte.
- Independência ou morte.
quinta-feira, 24 de
maio
Notas na partitura
Tem um dó
lar
Aqui um re
al
Nenhum mi
lhão
As demais vêm
em cifras
Papel A4
poemas a três por dois
Taquicardia.
Meu coração ainda bate
sem bateria.
Quero ficar sozinho.
Com a poesia.
A solidão não tem namorado.
Não quer se sentir solitária
tendo alguém a seu lado.
Já brinquei de pique.
Mas hoje não tenho mais.
Nem de brincadeira.
Entre não
e nem
alguém sem
afirmação aprovação aceitação
No tricô, no crochê,
ainda que disperso,
cada ponto um pensamento.
No poema que ninguém lê,
cada linha um verso
alinha um sentimento.
Para quê e por quê
exigir do poeta um estilo?
(É tudo muita loucura).
Se este ou aquele?
Se isto ou aquilo?
Não cobre nada do figura.
Ame-o ou deixe-o
escrever tranqüilo.
Baixe a guarda.
Abaixo a ditadura.
Teoriza, teoriza, teoriza.
A tudo relativiza.
No fim vem a prática
e, absolutista, concretiza.
E tiraniza, tiraniza, tiraniza.
Ela é de paz.
Com suas tiradas (tira não!),
com suas sacadas (e socadas),
meu bem muito bem me faz.
Amor é senso de humor.
O amor é perspicaz.
Eu me repito.
Tênue - por um triz.
Às vezes refaço feio,
às vezes faço bonito.
Por esse meio
eu me peço bis.
Tudo errado.
Tipo assim:
o silêncio legendado
que imprimes em mim
com caracteres empastelados
de teu mental caixotim.
No colégio da poesia
as aulas eram recreio.
Lá, o que eu escrevia
metia musa no meio.
Com a colega Maria
até hoje metaforeio.
quarta-feira, 23 de maio
Cleópatra, hoje em dia,
na intimidade seria chamada
de Cléo.
Leonardo da Vinci
seria simplesmente Léo.
Alexandre, o Grande,
abreviariam para Alê.
- Deus do céu...
Deus? Uê,
de Dê...
Tatua
no céu da boca
a lua.
Teclas
Teclado
Tecladedos e
tc
Ausência
cia.
Uma palavra que jamais escreveste.
Uma palavra que nunca leste.
Uma palavra que em tempo algum viste.
Uma palavra que não disseste nem ouviste.
Uma palavra indicionarizada.
Uma palavra não neologismada.
Uma palavra de língua nenhuma.
Uma palavra nova, em suma.
Uma palavra. Uma.
terça-feira, 22 de maio
Dessa fonte bebo:
inesgotável.
Água que recebo:
potável.
Assim me percebo:
insaciável.
Dentre bilhões ele se empenha
e não se abate no bom combate.
O turbilhão exige: concentre!
E nessa disputa ele bota banca.
Ali à porta, ela chama: venha!
Frente à porta, ela fala: bate!
Bate à porta, ela ordena: entre,
que para ti a entrada é franca.
Nesse espaço ele se embrenha,
leve e solto, já sem embate.
Óvulo fecundo, habita o ventre,
sol de amor na paisagem branca.
Assim, num átimo fica prenha
a fêmea, no ávido ato do engate.
Um só espermatozóide, dentre
bilhões, do prazer vida arranca.
segunda-feira, 21 de maio
Não dou ouvidos ao que
me dizes.
Ou seja: já não presto mais atenção.
Também, depois de tantos deslizes,
tornei-me frio, árido de compaixão.
Eu suportei a loucura de tuas crises,
vivi contigo o abismo da depressão.
Tuas ofensas, em indóceis reprises,
deixaram-me incapaz até de perdão.
Se lúcida vens - logo te contradizes,
cega de rancor, senhora da situação,
intoxicada de fel, abrindo cicatrizes
com magoada e fastidiosa repetição.
Nas tuas mentiras distingo matizes
de dramas e problemas sem solução.
Artifícios, invenções e chamarizes:
contra estes me vacinei com a razão.
Ponho-te na cota de grandes atrizes.
Muito acreditei em tua interpretação.
Mas agora chega de papéis infelizes;
cansei-me de cenas de dissimulação.
domingo, 20 de maio
Ourivesaria
e alquimia
Se o fazer poesia é ourivesaria,
fosse eu poeta, ourives seria.
Ou eu ourives, poeta gravaria
em ouro, e palavras esculpiria.
De seu estado bruto as tiraria,
e com precisão as derreteria.
As inferiores eu transmutaria;
em nobres raridades as tornaria.
E assim, poesias eu escreveria,
e uma a uma as ornamentaria.
E, artesanalmente, as talharia.
Detalhadamente as modelaria.
Um formato de jóia lhes daria
e metáforas brilhantes cravaria.
Primorosa seria minha refinaria.
Com rica exatidão eu as poliria.
Outros elementos eu combinaria
(como química, física, astrologia,
misticismo, medicina, metalurgia)
à minha artística e exclusiva cria.
Os procedimentos eu conheceria,
ferramentas e instrumentos teria.
E, por fim, realizado constataria:
poesia é ourivesaria e alquimia.
sábado, 19 de maio
Sabedoria chinesa
Entre Mao
e Lao,
o Tao.
No sarau
Ninguém me ama,
ninguém me quer.
Danço sem dama
qual Fred Astaire.
No sarau 2
Quem me amar,
quem me quiser,
favor não me chamar
de Baudelaire,
e sim me tratar
por Apolinaire.
Em resumo
Haja fôlego
para se criar
um curto poema.
Pesa o respirar
- quanto menor
mais exige ar.
É ofegante o sintetizar.
É quase um enfisema
pulmonar.
Ilha de Bali
Foi numa quarta
que brigamos feio.
Ela se dizia farta,
eu tava de saco cheio.
Ela quase me enfarta,
por pouco a esbofeteio.
Voltarmos? Descarta
o impossível devaneio.
Mudei-me para Jacarta
(aqui tem lan house e correio),
mas que um raio me parta
ao meio
se eu escrever uma carta,
se eu enviar um e-mail.
Na praia conheci Marta,
surfista com quem ondeio.
quinta-feira, 17 de maio
Tire
tudo
do
tudo
Tu
do
tudo
tire
Do
tu
tire
tu
Tudo
do
tudo
tire
Ei, DJ,
quem não arrisca
não arranha o
long-play.
Ela nunca leu um poema meu. Nunca pediu
um. Nem quer.
Sequer imagina ser a fonte
bêbada de luz. Ela
é manancial. Nascente
bêbada de luz.
Origem bêbada de luz.
Ela faz brotar.
Mina bêbada de luz.
Ébria de meu sóbrio
poetar.
Narciso, Narciso do eu,
existe espelho mais
nítido
que este que evitas
olhar
e que a realidade
me deu?
Então não gostas de azul?
Por que te opões a
essa cor?
A todas as suas
gradações desprezas?
A que pinta o céu
em tom de firmamento?
Perguntaste às aves
se a acham obtusa?
Que dá profundidade
ao mar em movimento?
Aos peixes
indagaste se a vêem difusa?
Só a ti, camaleão,
é permitido tal recusa?
quarta-feira, 16 de maio
Erro 404.
O endereço que ora visitas não existe.
Fique aqui para prosseguir.
Passar bem. Até amanhã.
Durma com os anjos, irmã,
que pré-púberes não sejam.
E não conte carneiros
que sem lã estejam.
Chorou
ao ver a borboleta
pousando ao alcance da mão.
De medo e pavor,
não de emoção.
Eu
(feito um),
robô,
Isaac assim
move.
Está na moda
reinventar a pólvora
e a
roda.
terça-feira, 15 de
maio
Toma para ti essa estrela.
- Vês? Não está acesa.
Coração, olhos, delicadeza:
tu vais assim acendê-la.
Que ela em teu coração
a seu modo se aninhe,
e dentro dele caminhe
se sentindo na amplidão.
Em teus olhos a proteja
e deles a torne menina.
E que a vagar pela retina
em pleno céu ela se veja.
E com tua delicadeza
a estrelinha farás brilhar,
e em teu coração e olhar
tu a trarás sempre acesa.
Se sou poeta?
Quase.
Serei um dia.
A poesia
me projeta.
Estou na base.
Há os que voltarão a ser pó.
Eu, pólen.
Ela é tecelã.
Um a um seus fios em mim
se entrelaçam. Nós dois e um
casulo. Uso o pulôver que ela
teceu na fria manhã.
Casa com
Casa comigo
Casa comida
Casa alugada
Casa conjugada
Casa casal
Caso perdido
Caso comprido
Caso
Acendi uma palavra.
A luminosidade traduzida
que eu não soube pronunciar.
Veio o silêncio e apagou-a.
A palavra já não mais há
A palavra era eu. Breu.
O dia nasceu com uma dúvida.
E essa ele trouxe das sobras
das sombras da noite.
Trabalho muito.
O que faço para sobreviver?
Poemas.
segunda-feira, 14 de maio
Nada
No aquário
no rio
no mar
o peixe
Um dia ter
para sempre
nome gravado no mármore.
Aqui jaz. Descanse em paz.
Última rima impressa.
A primeira vez
(ou terá sido a última?)
que ela foi embora
foi também a única.
Ela à minha volta
não é companhia.
- É escolta.
Com ela a meu lado
não me sinto par.
- Mas vigiado.
Ela dá um abraço,
tento fugir.
- Tentáculos, laço.
Quer passar ternura,
fazer carinho.
- Dá gastura.
Quando ela vem,
chega junto.
- Sinto um trem.
Insiste seu olhar
em fitar o meu.
- Não dá pra encarar.
Ela dá bola,
insinua-se, joga ponto.
- Já não mais rola.
Não se acha culpada,
Diz sofrer, sem merecer.
- Sempre dissimulada.
Desesperada, tudo faz,
ameaça se suicidar.
- Que descanse em paz.
Quem sabe, assim,
eu também sossegarei,
enfim.
Fazenda Esperança
Não beijou a mão do papa.
Só lhe subtraiu o anel.
A ingratidão que se revelou
quando eu a fotografei com minha roleiflex
é que ela queimou meu filme.
Utilidade lúdica.
Cumplicidade pública.
Beethoven surdo.
Atividade rústica.
Vontade súbita.
Um pintor cego.
Realidade acústica.
Tonalidade música.
O cantor mudo.
Nada faz sentido.
O todo, tudo.
quinta-feira, 10 de
maio
Rente
ao texto
fronte
e
verso
o testo
Eu
sigo
sempre essa
confessa menina.
(Suave promessa).
Ela vai
sem pressa
e regressa moça fina.
(Que nada a impeça).
Voraz à beça
a rugir se expressa
mulher felina.
(Seu cio nunca cessa).
Fêmea. Fera. Feminina.
Ok!
É preciso muito
dB
para se fazer um
DJ
O
som morreu
Faz silêncio
abso-
luto
de um
minuto
No teto do céu ar rarefeito respirei.
O íngreme Everest escalei.
No fundo do mais profundo cheguei.
Em fossas abissais mergulhei.
O eu ártico explorei. Meu antártico mapeei.
Em aventuras de mim me desafiei.
Em sólidos colchões de superfícies implacáveis,
nu me deitei.
Sobre lâminas cortantes de friagens insuportáveis,
pernoitei.
Dormi. Sonhei.
Bandeiras finquei.
Pegadas e impressões deixei.
Icebergs quebrei.
Meu corpo congelei.
Glacial me tornei.
O que tentei ser preservei.
Por meu degelo esperarei.
Um dia acordarei.
quarta-feira, 9 de
maio
Ora (rireis) estrelas ele ouve! Coitado,
pirou de vez; está fora da realidade.
Se as escuta, com elas tem falado.
Esse caso é de extrema gravidade.
Digo-vos, sem temer ser internado:
conversamos, sim, com naturalidade.
Noites e dias temos nos encontrado,
as estrelas e eu, e com assiduidade.
E mais, incrédulos: posso tocá-las
e banhar-me em luminosidade,
nelas viajando, milhões de escalas.
Em cada estrela amizades travo.
Apresento-me, com afabilidade:
- Sou Bilac; vosso criado Olavo.
terça-feira, 8 de
maio
Nada digo.
Com meu silêncio
convivo comigo.
Meu silêncio
é grande amigo.
Meu silêncio
é melhor contido.
Com meu silêncio
venho sigo tenho ido
- consigo.
Meu silêncio
é maior contigo.
Sem tirar nem por
nos baste
o instante da flor
e seu sutil olor
(no ar e na haste).
Ó Minas Gerais,
a tardia liberdade
que me deste,
juntada à saudade,
não cabem em Goiás
nem no Centro-Oeste.
Eu me basto
no que de mim
resto.
Eu me gasto
e ao fim
presto.
Muito te amei, não nego,
com a cara e a coragem.
Nessa cara um olhar cego
viu-te na inútil paisagem.
E, na coragem, meu ego
a ti viu, e eras miragem.
Não se sabe se é verdade,
mas corre mundo a fama.
O pobre Marquês de Sade
após os dias de Sodoma
jamais comeu uma dama.
O coitado caiu em coma,
nunca mais saiu da cama.
- O que é bulhufas,
Patavina?
- Não sei. Sabendo
me ensina?
- Sim, amiga,
verei com Necas
de Pitibiriba.
sexta-feira, 4 de
maio
Anônimo e encorajado, para ti escrevo.
Querer-te
como, se me és impossível?
Desejar-te
mais seria sofrer; não devo!
Tu
não me notas. Sou para ti invisível.
És
linda estrela longínqua, inacessível.
Só
posso admirar-te, com doce enlevo.
Perdoa-me,
se a ti parece inconcebível
e
piegas o modo como eu te descrevo.
Espero,
moça, achares compreensível
que
eu, poeta e romântico incorrigível
a
ti, humilde cante, e com tanto relevo.
Não
me repreendas; não és insensível.
Saibas:
acho-te deliciosíssima, incrível.
Ter-te não posso; a
dizer-te me atrevo.
p/ Luciana Domenico Vecchio
Acordei menos.
Parte
de mim ainda dorme.
Mantendo
os sentidos plenos
ajunto-me
em nacos pequenos
até
que o todo se conforme.
Os
dias, áridos terrenos
exigem:
em si se transforme.
Manhã
de eu disforme.
Aqui
e ali uns empenos.
Para
que nada se deforme
corro
a aplicar drenos
de
uma forma uniforme.
O
corpo prova venenos,
mas a vida resiste,
enorme.
quinta-feira, 3 de
maio
Fio a fio
ela
bordou
na
toalha
de
rosto
um
navio.
Que
naufraga
nas
lágrimas
que
ela seca
na
absorção
da
peça macia
de
puro algodão.
sexta-feira, 27 de
abril
A lhe evitar.
A levitar.
Os fins
justificam
teu snif?
O querer quando beira,
é sem eira que ele vem.
A seu querer, Deus queira,
que lhe queira também.
Ou querendo se obtém?
Querer para a vida inteira.
Querer sem ter a quem.
De seu querer só requeira
a querência que já tem.
E por querê-la, mantém.
E não vá fazer besteira
se vir a querer alguém...
O querer na ribanceira
é descarrilado trem.
Ao querer não se detém.
Querer é pura doideira.
Faz gagá ficar neném.
Ao inseguro dá ciumeira.
Querer é um sofrer zen.
Querer por si se entretém.
A menina baladeira
cansada de vaivém,
já não quer, na saideira,
só ficar, mas ir além.
Em seu querer se abstém.
Tem balzaca rezadeira,
querendo sem ter ninguém,
faz prece casamenteira:
“Ó Santo Antônio, amém”.
Querer ela quer, porém...
Outro, na longa fileira
(este queria um harém)
quer uma gata na coleira,
uma fêmea por refém.
Mas não tendo se contém.
Querer é arte arteira.
Querer fica sempre aquém.
Querer é chá de cadeira.
Querer é poder e faz bem.
Querer é saber ficar sem.
quarta-feira, 25 de
abril
Algo que não há.
Que se houvesse, seria.
Não como é, se existisse.
Que talvez fosse, talvez.
Mas não, não mesmo.
Líquido verso. Escorre.
Flui à compreensão. Esvai-se.
Como água escassa do futuro.
Sente agora a sede vindoura.
E haja sol.
Ficaram quites:
o fogo do inferno
arde-lhe, tal qual aos outros
os fornos de Auschwitz.
O coração quer sair pela boca.
Beije-o. Ou morda-o.
A rua que leva o gago
ao otorrinolaringologista
é toda de paralelepípedo.
Ora, ora,
veja as coisas por dentro
e dá logo o fora.
Ais
Dia
de enchente
rio
ri?
Acho
que chora.
Até
os olhos
d’água.
Lágrimas:
gotas
a
mais.
Tresluz
Eu
grudo na luz.
Alimento-me.
Embebo-me.
Defeco
e urino luz.
Eu na
transparência,
46
anos-luz em mim.
O doido das iluminações
e dormências esclarec
idas.
Leitura
Livros entram pelos olhos.
Impregnam, absorvem, transportam
a páginas de viagens únicas.
Aguçam. Ativam os sentidos.
Sinta o cheiro. Viva a emoção.
Tenha a sensação. Perca o fôlego.
E, por fim, feche-os e deixe lá
na estante interior os personagens,
a trama, o desfecho, o fio condutor.
Ao alcance de tua mão – e imaginação
de leitor-colecionador.
terça-feira, 24 de
abril
Há dúvida entre qual
destas palavras gosto menos:
se equívoco ou se óbvio.
Obviamente posso estar
equivocado quanto a isso,
mas é.
Quão breves
e leves são
aves que ao céu
não tornam
Ninguém viu nada
Só se ouviu o baque seco
e depois o conteúdo
da caixa preta
Pós-parto
resguardo
leite farto
Mama mia
Livre?
Só a queda.
Ajuste de contas
entre sóbrio poeta
e palavras tontas:
poesias prontas?
Psiulêncio
Isso não está certo.
Onde já se viu, ao sol,
querer apagar a própria sombra?
Tentar estancar o fluxo do suor?
Desidratar-se por renegar a sede?
Em carne viva, curtir a insolação?
Sob zil raios sentir-se estátua de sal?
Ainda que te julgues uma geleira,
ao sol, isso certo não está.
sábado, 21 de abril
Conecto-te etc
étera
A porta se abre
para onde não há chão.
Escancara-se para o vazio.
Rampa para um caminho sobre o nada.
Atravessa-a para a levitação.
Equilibra-te em corda imaginária.
Pelo vão vai. Ou não.
Ó rainha, quão simples és.
Ao contares comigo os favos
de tua dulcíssima colméia,
ficas assim toda melada,
junto a um lambuzado zangão.
Não tenho dormido.
É um estorvo
o grasnido
(áspero que dói)
do implicante corvo
do vizinho Alan Poe.
Inconfidência
Joaquim
sentiu-se traído
por ter extraído
sem anestesia
o siso
de J. Silvério
Cego de sons,
ensurdeço.
Até te ver
fazendo mímicas.
Luz própria.
Não paguei.
Apagaram.
A depressão: irmã
viúva
sob cobertor,
usando blusa e luva
de lã
em dia de muito calor.
Eu não penso em nada
que não seja
Meio-dia de céu vermelho.
Eu nunca tinha visto o sol
tão amarelo assim.
E nem nuvens tão brancas.
Visão assustadora
mente linda.
Quem antes viu o arco-íris
achou mais ainda.
Do nada
nada
conclui
se
Tudo o que sei
faz de conta
que não
Perguntas sem respostas
te deixam respondão?
Uma bala perdida
passou de raspão.
Sem direção,
às vezes a morte
erra
de mão.
aspas
as
p
as
“p”
sexta-feira, 20 de abril
Canibais
Entre mortos e feridos,
serviram-se todos.
Letra
Tirar
de letra
a
letra a
Tirar
de letr
a
letra r
Tirar
de let
a
letra t
Tirar
de le
a
letra e
Tirar
de l
a
letra l
tirar
de
quinta-feira, 19 de
abril
1
Se é sem eira,
então nem beira.
2
O ser
se revive
a cada
queda livre.
Quem do céu
cai
que ao chão
não prive
de ser anteparo
e de ampará-lo,
inclusive,
quando já não mais
sobrevive.
3
Asas de xícara.
Vôos de Ícaro.
Sol de cera.
4
Oh! que saudades eu tenho
de meu primeiro desenho.
O tempo se transforma em distância
quando se recorda a infância.
5
Se distrai
este poeta mineiro
fazendo uai-kai.
6
Foi indo toda vida.
Quando é fé acabou.
Um beco sem-saída.
7
Let it
be
atles
8
Não faz da palavra
mansa escrava,
que a qualquer hora
ela se mostra brava
e senhora.
9
Contra anti
concepcional,
a Igreja
não dá uma
dentro.
10
Eram dois pares de gêmeos,
seres desconhecidos entre si.
Os dizigóticos Anjo e Arcanjo:
um, aonde ia levava o banjo;
o outro, bom de tuba e arranjo.
E os gêmeos monozigóticos,
identificados Querubim e Serafim:
o primeiro, graduado em flautim;
o segundo exímio no bandolim.
Passado os tempos angelicais,
de dizi e monozi, os góticos
rapazes se conheceram,
cada um na sua, numa boa,
agora feras na guitarra, baixo,
teclado e bateria. Isso bastou.
O quarteto formou a banda Lúcifer,
que anima as pesadas baladas
de um inferninho chamado Éden.
terça-feira, 17 de abril
Olhos vês
Distorções
a olhos vesgos.
Choque a olhos volts.
Fixação a olhos visgos.
Liberdade a olhos vetados.
Veneno a olhos víboras.
Cenas a olhos
vídeos.
Saudade a olhos viúvos.
Fome a olhos varados.
Segredos a olhos voyeurs.
Pálpebras a olhos velcros.
Ternura a olhos veludos.
Estranheza a olhos velados.
Cansaço a olhos
vermelhos.
Previsões a olhos
videntes.
Lágrimas a olhos vertentes.
Loucura a
olhos vidrados.
Coragem a
olhos valentes.
Prazo a olhos válidos.
Destruição a olhos
vândalos.
Tristeza a olhos
vazados.
Pureza a olhos
virgens.
Paisagens a olhos
verdes.
Tentativa a olhos vãos.
Ciscos a
olhos visados.
Ausência
a olhos vagos.
Mundo a olhos vastos.
Nudez a olhos vendados.
Tudo a olhos vistos.
segunda-feira, 16 de abril
Ajo por instinto.
Ou reajo?
Alheio à razão, sinto.
Ação? Reação?
Intuição. Inconsciência.
Instinto de conservação.
De sobrevivência.
A linguagem é contra.
Negaceia. Apronta.
Odeia. Desencontra.
A linguagem afronta.
Eu te amando,
ou passo da conta
ou fico devedor.
Vai somando.
Põe na ponta
do lápis o amor.
Em tua vida,
a poesia
(cria perdida),
revivas.
De tuas tetas
de musa parida
chovem letras
nutritivas.
Ora, que doe.
Me doei,
ela se doeu.
Ei,
e eu?
Inacessível
és minha
senha
Não brinca
Uma hora
trinca
Ou brinque
mas sem
meu link
É como se não existisses.
Se não antes, menos agora.
Também, quem mandou
se apegar a tolices
e deixar passar da hora?
Nada houve. Ô desmemória.
Nenhuma lembrança ficou
para contar a história.
sexta-feira, 23 de março
Soletro-te.
Tuas palavras todas.
Cada humana letra de teu eu.
Aglutino-te em sílabas para releituras.
És textual, contextual, intertextual, gestual.
Estás por escrever, página em branco, meu enredo.
Meu
bem
meu corpo não contém
glúten
nem retém
sêmen
Em seus dias
de o.b.
ela –
deprê
depreda
até
o que
não vê
E la
nave va
zia
Ela
me chamou para dançar.
Eu que não sei, fui.
A música era silenciosa e lenta.
Com ela tudo flui.
Sem
tirar nem pôr
são pormenores.
Como, pós-amor,
suores.
segunda-feira, 19 de
março
Mandei um buquê
As
rosas não
falham.
Rio de quê
Bala
perdida,
atirada sem mira,
acerta uma vida
alvo da ira.
Bala perdida,
disparada sem norte,
só tem ida,
na volta é morte.
Maquiage
Nas
superfícies
não
vês as sujidades,
as tais
imundícies
das
profundidades.
domingo, 18 de
março
APRESENTE-SE E GANHE PRESENTES
Quer ganhar os 4 livrinhos* de minha autoria até agora lançados pela “Coleção Goiânia Inspira”? Sim, ganhar... de graça mesmo. (Mas atenção: não restam muitos exemplares).
Envie (à parte) um envelope médio já selado (R$ 2,00 em selos, custo da postagem), com seu endereço de destinatário já escrito certinho, com CEP e tudo para:
Flávio Almeida Patrocínio
Caixa Postal 4016
ACF Casa Branca
74.120-970 – GOIÂNIA – GO.
*Os livrinhos são:
1) A plástica desnecessária
2) Riso sem siso
3) Intermináv
4) Mas, e o humour?
terça-feira, 6 de
março
p/ James Joyce
A
E
I
O
Ulisses
Pôs o pé na peia.
Inda bem que tava de meia.
segunda-feira, 5 de
março
Não basta, pois é pouco.
Aliás, é o mínimo, um nada.
É preciso descontentar-se,
pois.
Anda cheio de palavras.
Cheio das palavras.
Incolor, não tem odor,
isso é flor?
Ou rima pobre de amor?
- Só se for.
Há uma gota de sangue em cada
placa de microscópio.
Minha canção do exílio,
compus em terra distante.
Me foi luxuoso auxílio
naquele saudoso instante.
Nem por isso virou estribilho.
E a vida seguiu adiante.
Na cozinha lá de casa
cultivo cheiro verde,
hortaliças e verduras
em lavoura que tudo dá.
Planto de tudo um pouco.
Delícias que colho frescas
pra família se fartar.
Têm também abacaxis,
maçãs, bananas, laranjas,
uvas, melões e peras,
que ceifadas vão para a cesta
ou conservadas na geladeira.
- São frutas de meu pomar.
De alto a baixo a vizinhança,
ao sentir o cheiro no vento,
já grita, alvoroçada:
- Manda um pouco pra cá.
De minha safra o que sobra,
exporto pelo elevador,
amostrinhas pra cada andar.
Eu, urbano roceiro,
moro em um arranha-céu
no centro de uma cidade,
tão grande que igual não há.
Tenho mão boa pra planta.
Sou fazendeiro do lar.
Estamos na margem do infinito
a que chamamos abismo
(mas que se oferece a nós
como amplidão).
quarta-feira, 28 de fevereiro
Quem conhece o gosto e o cheiro,
agora vai conhecer o som
Recentemente foi lançado "PEQUI", o 19º CD do amigo Marcelo Barra, consagrado cantor e compositor goiano. A música título tem letra minha. O arranjo é do maestro Natan Marques (um cara que eu, desde rapazola, sempre admirei e curto muito), braço direito e músico de todas as horas da cantora Elis Regina. Sinto-me feliz em dividir este momento todo especial com você... Clique e ouça PEQUI
PEQUI
(Marcelo Barra – Rinaldo Barra – Flávio
Almeida Patrocínio)
Tem que ser devagarinho,
rói daqui, raspa dali.
Py é casca, Qui espinho,
seu nome vem do Tupi.
Ouro e carne do cerrado,
gosto forte e exótico.
Com seu verde e dourado
é um fruto patriótico.
'Tá em todas as receitas,
sejam doces ou salgadas
e são muito bem aceitas,
mundo afora apreciadas.
O sabiá, o canarinho
e o atento bem-te-vi
têm o peito amarelinho
de tanto bicar pequi.
Cata pequi no cerrado,
cata pequi.
Cata pequi no cerrado,
cata pequi.
Não existe similar,
trem igual eu nunca vi.
Pro sertanejo caryocar
basta só comer pequi.
Viagra do sertão,
seu cheiro atrai paixão.
Quando é tempo de pequi
é cada um por si.
Arranjo, violões e viola:
Natan Marques
Baixo: Marcelo Maia
Percussão: Heckton Rhádzzy
Piano: Napa
Vocal: Mara, João Marcelo e Lila
sexta-feira, 19 de janeiro
desenhei um navio na areia
do deserto
e não é que eu vi
o que diziam não haver
e lamento muito não ter gritado:
- nada à vista
Essa não é minha praia
para morrer afogado
voltamos para casa
de onde nunca devíamos ter
saído
ainda que a casa tivesse
caído
e que o movimento tenha
ruído
pênsil
logo
euxisto
deus
é dos meus
estou dentre
os seus
dito e feito
quem diria
que alguém faria
quinta-feira, 11 de janeiro
O
poema exige: quero sair.
Por onde, não interessa.
Que isso depende muito
da qualidade do poeta.
Quando
te vejo,
não sei porque,
mas bate uma coisa,
dá um trem,
sinto um troço,
acontece um negócio,
e eu fico te olhando
feito bobo, babando,
sentindo teu cheiro
na imaginação.
No
princípio era o verbo.
E, pretérito imperfeito,
Ele cria.
Eu, presente do indicativo,
creio.
Tarde demais.
Eu que antes somente
abotoava a presilha
de minha armadura,
agora mandei soldar.
Não posso mais sair.
Ninguém vai entrar.
mínimo
mi mo
Não aconteceu nada
e quando nada acontece
nada pode ter acontecido
e isso é tudo
Se te perdi
é porque me descuidei
e eu sou mesmo desatento
um avoado
que nem havia percebido que havia
te ganho (ou ganhado)
Dou por dividida a solidão.
Reparto-a em duas.
À minha metade: rejeição.
São ambas tuas.
Se tu a causaste em mim,
acho mais do que justo.
Solidão de amor é assim,
tem sempre um custo.
O meu relógio parou
na hora errada
e ainda por cima
atrasado.
Já fui mais.
Lá vi muito.
Cá estou eu.
Só vou se
Cuida de saber quantas vezes
tantas outras resultarão naquelas que
somadas serão suficientemente totalizadas
em todas as contagens no afinal de tudo pronto
Ninguém acende a estrela.
Ela é que não se apaga.
Brilha na distância para vê-la.
Vaga.
O amor é cego,
meu bem.
E no escurinho é bom
também.
Vem ver além.
Briga de galo.
Briga de foice.
Sangue.
Brigada vermelha.
Como antes,
desde o primeiro:
Lucy in the
sky
with
diamantes,
Lucy in the
sky
de
brigadeiro.
quarta-feira, 10 de janeiro
Du Soleil.
Fugiu
com o circo.
Chora
flui
desanuvia transpira
transborda.
Agora dilui
esvazia respira
acorda.
Leia
minha mão esquerda.
Ela não sabe escrever.
Não
penso mais.
Sentir muito menos.
Meus dias são de paz.
Estão serenos
(plenos).
Problemas? Tanto faz.
Aliás,
deixei-os para trás,
são pequenos.
Os
outros
não são
nosotros.
Andei
pensando.
Aí parei.
Inclusive de pensar.
Sobre
fundo branco
o alvo.
Eu
vi algo
que não existe.
Quem não viu,
desiste.
Só eu vi
e (também)
nunca existi.
Melhor
sozinho
que só desacompanhado.
Batatinha
quando nasce
é da infância o refrão.
2006
domingo, 24 de dezembro
poeminhas escritos em
25/12/86, do livro scribendi nullus finis
Maria deu a luz
nasceu Jesus
Hosana
é Natal
Não foi cesariana
foi parto normal
Jesus ficou neném
bem além
Hotel não tem
pensão também
não há nem
casa de ninguém
(com ou sem
mil ou cem)
- Ah não, José, que trem!
- calMaria, meu bem
Assim Cristinho
nasceu alegrinho
em Belém
sábado, 23 de dezembro
Um
poeminha de 1978, publicado à página 71
de
meu primeiro livro “Fardos Azuis”.
Presépio
celeste é adornado.
O menino pobre o vê
e conforma-se.
Há uma criatura singela
na manjedoura.
Sente o calor dos bois,
acolhido na manta da mãe.
Estrebaria colorida
pela noite de luz
recebe os pastores.
O pirralho absorto em fé
ganha de um deles
um pulôver
de lã azulada.
quinta-feira, 21 de dezembro
DESAFINADO 2
Eu
desafino, amor,
e mal
sei tocar violão.
Mas lhe
peço por favor
- repare
não,
dê valor
à intenção.
Eu só
quero lhe agradar,
revelar
minha paixão.
Por isso
ouso cantar
- deixe
estar,
ouça com
o coração.
Você
sabe muito bem
o quão
romântico sou,
e pode
ver também
- nem
vem!
no que
isso me tornou.
Romantismo
hoje em dia
é uma
coisa démodé.
E eu até
faço poesia
- hê,
hê,
inspirado
em você.
Se eu
sou desafinado,
se me
meto a tocador,
é que
estou apaixonado
- então
cuidado,
pois é
frágil meu amor.
Sei que
é muita pretensão,
coisa
sem quê nem porquê.
Mas em
compensação
- trem bão,
sou louquinho por você.
quinta-feira, 14 de dezembro
Vento só
pra
flauta
Fincou o pé.
Não
tem para onde ir.
Não
quer chegar.
Sequer
caminha.
Ela
é estátua de si mesma.
Amamente
com
leite das pedras
esse
filho impossível
o
amor
Há vagas:
noções
memórias
lembranças
Quer que eu
te
leve a sério?
Sorria
e
faça-me rir.
Orgasmo
é
gozado
Deixa
pasmo
e
passado
Entusiasmo
serenado
Sobreviva
acima
da vida
Exercite
o ato
de
ressuscitar-se
Me encarrego
Me
sobrecarrego
Me
entrego
e
não nego:
estou
num prego
Será um cacófato
o
elo perdido?
Tudo na vida tem um preço
E
não vou deixar barato
se
bem me conheço
Quando morrer
cremado
não quero ser
apenas
por saber
que
sob minhas cinzas
-
a arder –
nenhuma
brasa há de haver
Pior que as inúteis
são
as coisas
fúteis
A pressa
é arquiinimiga
da
afeição
Íris
de
teu arco
lança
sete cores
e
que em mim
mires
Cala-te
se
estás feliz
Teu
silêncio
não
te contradiz
sábado, 9 de dezembro
Pelo visto
o
imprevisto
impregnou
isto:
o
olhar
jamais
visto
não
é quisto
mas
cisto
Então vamos deixar o
americano do Norte
mandar
e desmandar no planeta?
Se
sentir dono do Mundo com sua ânsia
de
ganância e toda exuberância bélica
e
seu ilógico aparato tecnológico?
Deixar
em dólar ser idolatrado,
e
pelo ar, pelo mar, em qualquer lugar
ele
botar os pés?
Não
sei para que stress
se a resposta é yes.
Quer coisa mais inútil
nos
dias de hoje
que
um poeta e sua lira?
A
realidade é inspiradora.
O
sonho é de pirar.
O
resto é ira.
Uma caverna
de
qualquer montanha
do
Afeganistão
Bin
Laden
transformou
em mansão
Ali
vive muito bem
qual
sultão
Ele
e seu harém
Inventei uma palavra,
mas
esqueci.
Meu
neologismo
perdi.
Criou
não
escreveu
Pensou
não
anotou
não
lembrou
ninguém
leu.
A
memória não perdoa.
A
palavra voa.
Coisa
à toa.
É
GO
Ego
Egoiás
Acordo cor
A
cor do
amanhecer
p/
Décio Pignatari
bob cheira cola
baby coca
co
co ca la
naco taco
toca
loca oca
ola
p(s)ignatári o
Vontade de fugir
para
dentro de ti.
Ficar
aí.
Nunca
mais sair.
Pousada sobre uma pedra
a
leveza da borboleta.
Afã de hífens:
efe-off-ufa-alf
-a
Beijo de língua.
Em
qual?
Sei
não.
Se
por si só
o
beijo já é tradução
universentimental.
Para seu conhecimento
(não
se desaponte),
a
Praça Sete é um obelisco
no
meio de um cruzamento
A vida afetiva de efe é
ativa.
A
vida afetiva em nada afeta.
A
vida afetiva não é festiva.
A
vida afetiva é defectiva.
A
vida afetiva é sim aflitiva.
A
vida afetiva é quase furtiva.
A
vida efetiva de efe é viva.
Sou de contemplações.
Vejo-te
indo e vindo.
Sigo
te olhando tanto.
És
mina de emoções.
Nem
o mar é tão lindo
quanto.
Entediado,
não
porque chove
e
sim por ter eu estiado.
Não
com tempo de sol
e
sim de céu nublado.
Em pleno vôo uma pena
da
asa de um pássaro
cai.
A
altura anestesia.
Não
dói seguir.
Vai.
Por ser eu merecedor
quero
o amor que me for dado.
Um
amor sem tirar nem por,
amor
há muito aguardado.
Para
senti-lo peço por favor,
ao
ganhá-lo direi obrigado.
Flores de árvores
frutíferas:
vê-las
apreciá-las
cheirá-las
comê-las.
E
sementes devolvê-las
para
outras florações.
O outono,
essa
estação
mono.
segunda-feira, 4 de dezembro
És
toda encanto
e me deixas triste.
Meu amor é tanto
e para ti inexiste.
À fome suplanto,
o gorjeio resiste.
Te dou meu canto,
me tiras o alpiste.
À bela donzela
dei - e dou trela.
Estou na dela.
Só não sei
o que sou pra ela.
(É minha dona
essa amazona?)
Pronta, monta
(sinto o arreio
e seu esporeio).
Galopa, mela,
apronta, rela
até ficar tonta.
Ela é boa de sela.
quinta-feira, 30 de novembro
Mantém em ti o mistério,
questionadora
criatura.
Teu
silêncio me chega revelador.
Enigma
de mil indagações.
Porque
és mulher, me subornas
com
tua voracidade. Em mim
alimentas
se te insinuas
com
códigos sutis.
A
imaginar-te são meus dias febris.
Chove.
Mais
dentro de mim estou.
O que
sou se agasalhou.
Vai entender?
Antes
cuida
para
não pirar.
Tudo
é possível
de
se inexplicar.
De todos os modos.
Mas
sempre diferentes
os
modos todos.
Há de ser no íntimo,
onde
ninguém alcança
(nem
mesmo ela,
ao
vasculhar recônditos).
Aí
deve habitar a liberdade
e
respirar sem couraça
a
sensibilidade.
Mi casa tu casa.
Asa.
Tão
frio faz.
Brasa.
Cio.
Estou
com estás.
Fio
pavio.
Voraz.
Páginas em branco o livro.
Histórias
não vividas
como
poderão ser escritas?
Leia-as
com as palavras
da
imaginação,
que
estas mágicas são,
que
nestas as magias estão.
O
livro, páginas em branco.
Ou
também este é só invenção?
quinta-feira, 23 de
novembro
Esqueci
teu nome,
tua voz e história.
Tua fisionomia
me vem e some
na aragem fria
da desmemória.
Sei que existes
e éramos
tristes.
Ah, o vaga-lume:
ora aceso ora apagado,
só assim se assume.
Por mais distante que estejas,
que tu
sejas
parte de
mim.
Porque
ainda que te ausentes,
tu te
sentes
assim.
Mais que puro flerte,
realizo-me no sonho
de ainda pertencer-te.
quarta-feira, 22 de
novembro
Em caldo te tomo
e em frutas como
de ti cada gomo.
Dei seta
indo por uma reta,
bati na imaginação.
E ela era concreta,
vindo na contramão.
Ágeis
e-mails
arroubos
& spans
Gaiolas
com pássaros
fora.
Estes cantam
e a liberdade
lhes é sonora.
Ordem estabelecida:
toda descida na ida
na volta vira subida.
Deixa de ser
besouro de pernas
para o ar,
a se debater
sem se virar.
autolhar
rever
se
N
U N C A N E V E
r
se sou
sem sal
sendo só?
seu sim!
salve
sua pele
vou
arrancar o couro
lhe
deixar toda esfolada
à flor da carne viva
sociedade protetora
de anymore
tudo
em
rima
tudo
en
sina
tudo
a
cima
deserto desertor
de idéias
até
tu
cáctus?
Z
pode ser
N
coisas
sede
de jus
taça
sem sentir não
faz sentido
Ivo
viu
o
oco
Ivo
ouviu
o
eco
uivo
propaga
anda
nega
a alma
do ócio
mental
mente
tal
ente
O
U T
B L A C K W H I T E
PLANETA
TER
ERRA
impactou
zero
a
zero
fixou
no
mato
sem
cacho
o coração
parou
de abater
se
ou
infinito
ou
ínfimo
MIRA
ADMIRA
ME
para o
túmulo
não levas
acúmulo
-
muito prazer
-
fôdo meu
chega
de
convers
afiada
ensimesmado
em si
mesmo
então
é ex-planeta
Plutão?
segunda-feira, 20
de novembro
Deu um tiro no pé.
Usava um 38.
É a partir do rascunho
que
sou original.
Só
que de meu punho
tende
sair algo de cunho
intelectual.
Então
me acabrunho,
pois
não me alcunho
como
tal.
O
verso que empunho
é
cerebral.
É
frio (eu testemunho),
por
demais racional,
como
que pensado em junho
por
um poeta invernal
a
curtir o sentir no sal.
Por
isso me rasgo, me unho
para
que a arte final
simples
seja, e sentimental.
sábado, 18 de
novembro
Ao fundo Bob Dylan canta “The Times They Are A - Changin'…”
Germina flor
Arrebenta asfalto nuvem seda
pele plasma
Cresce floresce enfeita
colore perfuma suaviza
E antes de murchar secar
poliniza
se pereniza
Se é virtual
programado equipamento
frio comportamento
Enter com
enternecimento
Perdeu a chave
Pior:
não sabe
se está fora
ou dentro
Mas cabe
em si
Asas
a duras penas
voam
vão
Caço coisas
Faço coisas
Traço coisas
Passo coisas
Asso coisas
Laço coisas
Algumas coisas
Essas coisas
Outras coisas
e loisas
Sou um
sem número
de estatísticas
Se perder dói
padece perdoe
Perdura mas perece
Prescreve se perde
Era passou se foi
O que pede a pedra
dá
que pedra pede pouco:
solo para estar
mão para armar
alvo para mirar
Acata
Cata a inanimada
matéria de si
por si só fragmentada
sólida e ambígua
Pedra não pede carícia
afago pedra não pede
Rolando se lapida
Insensível não cede
Atira-a sem feri-la
que sua filosofia
é polir-se sem chorar
mesmo quando lápide
Não era para
Não passou de
Não deu em
Não chegou a
Não foi como
Tem
dias
que
não
Há noites que sim
Raro clarão
Rasuras
Ranhuras
Agruras
E auroras auguras
Sóis inauguras
em juras aventuras
dores e curas
Em ti todas as criaturas
Embora nada tenha
dou-te meu loguin
confio-te minha senha
Acesse-me
Venha!
Ando indo
Eu me concluo
na medida em que fluo
Sou estou
e jamais me findo
Ela tem um quê
- de querida
- de quem nada quer
domingo, 12 de novembro
Reações à Traição
Amorosa no Brasil
Cada qual
sabe enfrentar o drama,
ao pegar outro enroscado
com sua mulher na cama.
NO SUL
O gaúcho fica
de boa
quando ocorre a traição.
Assassina a patroa
e não larga o Ricardão.
O catarinense
só acredita
quando flagra sua senhora.
Se o barriga-verde se irrita?
“Depende da posição e da hora”.
O curitibano se
cala
diante de tal artimanha.
É que o guampo não fala
se a pessoa lhe é estranha.
NO SUDESTE
O paulista, se
traído
entra numas de apatia.
E frustrado, enrustido
recorre à terapia.
Já o corno carioca
não sofre nem se incuba.
Se por outro ela o troca,
ele e os dois fazem suruba.
O capixaba,
nesse negócio,
não recrimina sua boneca.
Ele a chama, mais ao “beócio”,
pra comerem uma moqueca.
O mineiro é
tradicional,
este jamais se acanha.
Mata o amante conjugal
e mantém sua piranha.
NO CENTRO OESTE
O
sul-mato-grossense, por zelo,
age de modo natural.
Cura a dor de cotovelo
pescando
no Pantanal.
O mato-grossense: “Eu não ligo,
pra essa
conversa sem nexo.
A
bichinha é casada comigo,
nada sabe
sobre sexo”.
O goiano
atraiçoado
contra a depressão peleja,
e com outro corneado
monta dupla sertaneja.
O brasiliense
fica possesso
- chifre lhe causa desgosto.
Corre para o Congresso
e inventa um novo imposto.
NO NORTE
O tocantinense
é sangue frio,
não tem mágoas nem traumas.
Põe a trairagem na conta do cio
que vem do calor de Palmas.
Paraense não é machista,
só resmunga um Belém-bem.
E por mais que ela insista,
nunca mais fica de bem.
O amapaense não
liga pro “sócio”.
“Preocupar com isso pra quê?
Chifre Linha do Equador Equinócio
a gente sabe que tem, mas não vê”.
O roraimense
tem muito medo
de passar por um vexame.
Ele sabe, mas guarda segredo,
pois “o outro é só um Ianomâmi”.
O amazonense
conformado,
solta um sorriso maroto.
“Quem com ela está deitado
não é homem, é um boto”.
O acreano
perdoa o xodó,
vai ao Daime, aceita, discreto.
E sob efeito do chá de cipó
redobra o carinho e afeto.
O rondoniano,
pioneiro bom,
não desespera, não tem insônia.
Inclusive fundou a ASCRON:
Associação dos Cornos de Rondônia.
NO NORDESTE
O baiano mantém
a calma,
não estressa, não se ouriça.
“Lavar a honra e a alma
dá trabalho; ai, que preguiça”.
Sergipano, cabra-macho,
se sua mulher o engana,
mata a traíra e seu cacho
e amasia com outra fulana.
O alagoano, com
fama de brabo,
ao invés de chegar o chicote,
senta em cima do próprio rabo
e traça um Sururu de Capote.
Pernambucano nem pia,
não põe a coisa em relevo.
Veste sua fantasia
e se esbalda no frevo.
Não há paraibano
que aceite:
“Corno não; NEGO, não me acho”.
Mas já perdoa o café-com-leite,
até mesmo com mulher-macho.
“Fazer o quê?”, diz o Potiguar.
“Sarapatel com minha peixeira?
Cerca ela sempre vai pular,
pois é louca por macaxeira”.
O cearense fica
na dele
com essa coisa meia a meia,
pois vê que não é só ele
que pega mulher feia.
O piauiense é
bem teórico
ao absolver sua colombina.
Chifre é achado pré-histórico,
um dos orgulhos de Teresina.
O maranhense, a
par de tudo,
a hora exata e com quem foi,
bota o enfeite pontiagudo
e cai no Bumba-meu-Boi.
(...)
Mas, e Fernando de Noronha?
O
arquipélago fica reservado...
Vai que o
corno quer morder a fronha
e vingar com
chumbo trocado...
sexta-feira, 10 de novembro
Hoje é dia de