p/ Vera Nunes, in memoriam

 

Minha terra tem paineira
na praça do
grupo escolar,
que na meninice arteira
um dia cismei de plantar.

 

Cuidei-a, qual jardineiro,
a vi crescer, se esgalhar,
e em seu porte altaneiro
flores róseas a esbanjar.

Minha árvore regateira,
verdejante a sombrear,
farta
paina sementeira
deixa ao vento vaguear.

Em trabalho prazenteiro
pus-me paina a ajuntar,
fiz macio travesseiro
para a cabeça pousar.

Em fibra de seda faceira,
quero dormir e sonhar.
Pluma, lã: a alma inteira,

leve, enfim, descansar.

 

 

cardápio

o pf

do poeta faminto

 

leveza de dumbo

levando carga

de chumbo

 

solvete

delletido

 

ninguém tem nada com

tra

ninguém tem nada con

isso

 

estrondo

trovão

estorvando

som de chuva

 

orragangorra

      g    g

      g    g

      g    g

      g    g

      g    g

      g    g

 

mergulh

ar

na respiração

submersa

 

segunda- feia

segunda-freia

segundaferi-a

 

neme diga

não douvidos

 

apavore

evapore

aprove

a

 

queda

livre

de hífen

 

um abismo

se abriu

ninguém viu

quando o cego

caiu

 

afro

nta

preta

 

adeus

morto de cansaço

mandou celebrar

missa no 7º dia

 

só hoje só hoje só hoje só

hoje

 

ana

freud

freudiana

 

quem sabe o que

ninguém sabe

que

 

tecla com

lápis

 

ou vede

ou

veda

 

há quem tenha

fogão a

sem

 

o português trouxe

a primeira galinha

piada

 

perdeu até

a fé na fé

desde então

vai sem chão

e a pé

em seu monólogo

diz a Deus

- dialogo

com os seus

e os meus eus

 

nota

o músico

deu um nó

 

diário de uma só página

de uma só frase

uma só palavra

só uma letra

uma sílaba

 

na oficina

ofício

é sina

 

estão todos tão

atordoados

todos estão

tão aturdidos

 

segunda-feira, 29 de outubro

Reconstrói o castelo.

Não com antigas pedras,

mas outras,

tão sólidas quanto,

não aquelas,

para sempre

duras.

E nem na areia

movediça,

ex-princesa.

 

Não se conforme.

Indigne-se.

São tantas as diferenças

injustas, sacanas, infames.

O Mundo não tem governos.

Tem negociantes.

 

Mães, esposas, filhas, amigas,

todas as mulheres são deusas,

santas ou insanas,

todas as mulheres são donas,

mandonas ou complacentes,

todas as mulheres são divas,

lindas ou retocadas,

todas as mulheres são,

todas as mulheres dão

o melhor de si todas

as mulheres.

 

Com que olhos me vês?

Com que olhos me lês?

Com os que a terra há de comer?

Com olhos que têm tudo a ver?

Olhos cheios de porquês?

Com qual dos três?

 

Conheci uma arquiteta.

Ela desestruturou

meu coração bauhaus.

 

Não gosto assim.

Prefiro de outra maneira.

Um jeito menos doloroso.

Pode até doer,

mas que doa só em mim

e não fira mais ninguém,

muito menos a ti.

 

Não me deixe na mão

Não me deixe no chão

Não me deixe não

Não me deixe

 

sábado, 13 de outubro

Muitos temas.

E tu.

 

Periferia. Bordas. Margens. Entorno.

Viver pode ser por aí.

 

E quando a finalidade

é sempre o reinício?

 

O fetiche.

O fictício.

Mais que irrevelável.

Inconfessável.

Possível. Factível.

Ou apenas devassável.

 

Oh, nem todo horizonte

é belo.

 

Ande muito, ande mais, ande.

Toda cidade grande

se expande.

 

Até onde a vista alcança

te dá uma visão exata

de quão próxima é a distância

que teu olhar capta.

 

Quando se acorda sem vontade,

indorme-se.

 

Tudo tem uma ligação.

Nem sempre dá liga.

Algo que link.

Código 062.

 

Para sempre.

Até amanhã.

 

Woody Alen já me fez rir demais.

Woody Alen já me fez rir mais.

Woody Alen já me fez rir.

 

Arrebata.

Ou arremata.

 

As legendas, não;

as imagens.

 

sexta-feira, 12 de outubro

a aurora é a hora

que ignora o

agora

 

ou

suspira Flávio

ou

respira alívio

 

um abismo chamado estômago

vazio

 

escancarou a janela

viu o sim

o não

entreolhou pela fresta

 

não há rios mar não há

só barcos navios

veja lá

 

amanhã é feriado

folgo em saber

 

pontos facultativos

são reticentes

 

água áspera

água ácida

águà

 

poesia, por favor

mas sem gelo

 

parece mentira

mas é

 

de qual cor

e de que gosto

queres o mar?

 

inventa uma história

registre-a nos anais

da imaginação

 

maior e vacinado

teve paralisia

infantil

 

bata

com flor

não chibata

 

incorporo estrelas

à noite

todas têm nomes

de ex

 

the book is on the table

mas vou esperar por sua tradução

 

psiu

psique

psi

 

deus

quer dizer

tudo

deus

é demais

isso é muito

para deus

 

todos os meus amores

são do século passado

 

li em uma parede de caverna:

coração de pedra coração de pedra

se não te lapidar

meu amor vai se lascar

coração de pedra

 

caso não mais acorde

sono eterno

 

este poema

não o leia em voz alta

porque na verdade

ele não tem nada a dizer

a não ser a intenção

de fazê-lo ver

que às vezes ler

é descrer

por que foi escrever?

 

percursos que o rio

ou melhor

que a água

para si

toma

 

quantos degraus

tem o escuro?

 

na falta de palavras

perdi a fala

 

aproveito o ensejo

para enviar meu bocejo

de boa noite

e meu beijo de bom dia

 

sem grilo

fique com meus erros

e da próxima acerte

na mosca

 

não moras sozinha

se a solidão mora contigo

eu como estou na minha

já lhe neguei abrigo

mas ela se avizinha

diz me ter como amigo

 

Crianças Invisíveis

Homenagem sem falsas ilusões

 

São meninos subnutridos

distribuídos por lixões,

olhos vidrados, perdidos,

destituídos de ilusões.

 

Vão por aí, sem rumo,

supra-sumo de arrastões.

Prontos para consumo

de fumo, cola, tresoitões.

 

São meninas maltrapilhas,

ilhas dentre tubarões.

Bens dóceis de quadrilhas,

filhas de humilhações.

 

Nunca usaram mantilhas,

ou cartilhas de lições.

Rumo ao abate, novilhas

em armadilhas, calçadões.

 

Mas são crianças apenas,

plenas de deformações.

Supuradas gangrenas,

pequenas putrefações.

 

Crianças a duras penas,

em arenas de exclusões,

sobressaltadas, serenas,

centenas de milhões.

 

Vós que já sois pais,

aninhais as criações.

E às rejeitadas dedicais

mais - ou só orações.

 

Pai nosso, desça do céu,

véu azul de abstrações,

e constate, déu em déu,

do povaréu as privações.

 

Repare nestes franzinos

peregrinos de tribulações,

os exemplos genuínos

de desatinos, imperfeições.

 

Na Terra, clandestinos

inquilinos de imprevisões,

são Teus filhos pequeninos

hinos a Tuas contradições?

 

quinta-feira, 11 de outubro

Feridos tens os pés,

pisas em sal grosso.

Procurando o que és

encontras um fosso.

 

Sofres dor lancinante,

só, altivo, resignado.

Ou sob sol escaldante,

ou em clima gelado.

 

Vives tua exaustão

em crua e nua aflição,

desilusão, desalento.

 

No fosso, a fundura

te dá, com face escura

o Eu do esquecimento.

 

sábado, 6 de outubro

A chave para fechar

e a chave para abrir.

Abre para entrar,

fecha para não sair.

 

Diga grandes coisas.

Com os olhos, com os olhos.

 

Tudo a partir do poema.

O mais é um nada a dizer.

Em que palavras sobram,

são inúteis, meros signos,

símbolos, códigos, formas.

A partir do poema tudo.

 

O céu

está no azul.

 

Gosto de brigar contigo.

Não me sinto teu inimigo.

Sei que não corro perigo.

Mas quero ver se consigo

amar-te mais do que brigo.

 

sexta-feira, 5 de outubro

Tão pequeno

mas tão

tão

 

- O que te dá aflição?

- Não ter unhas para roer.

 

Conheci Eva.

Cheirava a maçã.

 

Se nos duplicamos,

nus

simplificamo-nos.

 

Fui apresentado à noite.

- Muito prazer.

 

Tua flor é

ao mesmo tempo

vaso

 

Dou minha palavra.

Ou melhor

minhas palavras

dou.

Não são poucas,

mas é só o que tenho.

 

Só eu me incomodo.

Mas me deixo estorvo,

sou meu enfado,

não me podo.

Tudo a meu modo.

 

Não tiro o olho.

Não pode ser pecado.

Do trancelim de ouro

pende o crucifixo

entre os fartos seios,

em grande parte à mostra

no provocante decote.

 

Teclado.

Cato milho.

 

quinta-feira, 4 de outubro

Pelo caminho que vais me levar,

preciso calçar meus sapatos

ou posso caminhar descalço?

Por mim, preferia levitar,

evitar cactos,

não pisar em falso.

 

E

se

Deus

não

existir

devemos

desistir?

 

Contigo

eu & cia.

ésse ó.

 

Correu

contra o tempo

morreu

de contratempo

 

deus

criou-o

mundo

 

quarta-feira, 3 de outubro

Nem a poder de reza

não movas uma palha

se ela te pesa

 

Mete o pau na poesia

Se sangrar desvirginou

Aí a poesia é mulher feita

e falada já ficou

 

Meu bem

teu corpo contém

glúten?

 

Não refaça nada

Seria muita desfeita

 

Até ontem à noite

eu ainda pensei

Mas agora é tarde

 

     diá

            logo

monó

coloque-os

solilóquios

 

Carregando folha de coca

a formiga colombiana

até troca de toca

 

Para um completo silêncio

fecha os olhos

 

Perdi a conta

de quantas segundas vias pedi

de contas a pagar que perdi

Tantas que nem dá para contar

 

Quando cai um avião

a gente fica sem chão

Pior que não

 

Caríssimo Romeu, da família Montecchio.

Antes de se aventurar a subir pelo balcão

e ir sorrateiramente ao quarto da jovem donzela

(ciente de que é ansiosamente esperado por ela)

compra pelo menos dois quilos de filé mignon.

Joga um pedaço para o doberman

um pedaço para o rottweiler

um para o pastor alemão

um para o fila

um pedaço para o buldogue

um pedaço para o boxer

um para o bullmastif

um para o cane corso

um pedaço para o mastiff

um pedaço para o mastim

um pedaço para o são bernardo

um pedaço para o pit bull

joga um pedaço até para o vira-lata.

E, ainda assim, atenção, pois todo cuidado é pouco.

No canil dos Capuleto tem muito cachorro

e tua Julieta é um filezinho.

 

terça-feira, 2 de outubro

Dou-te bombom sushi ombro e rima

Preferes baton blush sombra e rímel

Quero-te faminta carente e sensível

minha linda

 

És

minha iguaria

meu caviar

Sou

tua energia

teu KVA

 

Compartilha comigo tua beleza.

Dá-me um acre de tua natureza.

Tua verdura, tua seiva, a lua tua.

Assim, como és e estás, nua nua.

Dá-me teus ímpetos hiperativos.

Teus peitos tesudos e nutritivos.

Tua lacuna, gula, mel de doidices.

Dou-me a ti, me atices, me erices.

Prova-me, aprova-me, me vicia.

Toma-me, seca, bêbada, se sacia.

Louva, implora, chora, ri e goza.

E adormeça lânguida, prazerosa.

 

segunda-feira, 1 de outubro

Texto quer dizer Tecido.

Se me visto, vou escrito.

Escrevo, sou vestido.

Escrevo, estou despido.

Testo, teço, textcido.

 

Cadê o instantâneo?

Foi momentâneo.

Passou.

 

Poema-relâmpago

Apenas um flash

Somente um clic

Olha-o passar

 

Estica

sobre o abismo

a corda invisível

Mas não atravessa

Fica

Só o desequilíbrio

é possível

 

Nunca

existe

Sempre

resistirá

Hoje

insiste

Amanhã

será

 

É feio

se espelhar

em Narciso

 

Reticências

O tempo de contar

até três

 

Acaso teria outro sabor

fosse multicor

a couve-flor?

 

o que deus criou

pode até ser inventivo

mas é muito malcriado

- arte final do inacabado

ou o homem é ser

só rascunhado?

 

já fui poeta

hoje não vou

mais

sem ais

em paz

 

a ponto de

nem preciso terminar a

 

letras

palavras

gavetas

poeta

guarda

livros

de ver

e haveres

 

o machado de assis

cortava palavras

 

foi bom enquanto duro

ou

 

Era só o que faltava

Era só

(o que faltava)

acompanhar-me

 

adormeço

adormeço

adormeço

adormeço

adormeço

adormeço

adormeço

 

carícia delicia

delícia acaricia

& cia.

 

a onda

- em suma –

não afunda

à praia ruma

- se abunda –

vira espuma

se inunda

em uma

não se (s)onda

 

o azul é mais

que uma cor

o azul é mais

que outra cor

o azul é mais

outra cor

o azul é mais

cor

o azul é mais

o azul é

o azul

azul

az

 

parte de mim

e não chega

a ti

parte de mim

fica comigo

 

onde neve mora

amor

never more

 

corta ao meio

a dor da perda

de sonhos enfermos

divide-a para juntos

sofrermos

 

olhos

janelas

retinas

cortinas

 

eu me nino

durmo

adulto

me adulo

 

habita a solidão

imensa casa

sem cômodos

 

Nosso sexo,

acento

circunflexo.

 

Viva.

Viver é

expectativa.

 

Quem diria.

Estou teclando com alguém

que um dia (veja bem)

me ensinou datilografia.

 

sexta-feira, 21 de setembro

Eis a questão

Se destino não há,

que destino se dá,

a que se destinará,

quem destinatário será

do que destinado está?

Ou é desatino

de destino falar?

Desafino

só de em destino pensar?

Destino, fatos em sucessão

- podem ocorrer ou não?

Destino, vida do homem,

sua constituição?

Destino, causas independentes

de vontade, sorte, fado, fortuna

e que delas resultarão?

Destino é o que virá, acontecerá,

querendo-se ou não?

Destino é ou não é

designação?

Se meu destino é ir, seguir,

qual a direção?

Destino é contra-mão?

Destino não tem explicação?

 

Ficamos de nos encontrar.

Mas pode demorar.

Entre nós o mar.

 

lá vem

= nos trilhos =

um trem

que é que tem

tem nada não

que é que tem

tem nada não

que é que tem

tem nada não

que é que tem

tem nada não

que é que tem

tem nada não

que é que tem

café com pão

café com pão

café com pão

 

segunda-feira, 10 de setembro

ACESSE O ENDEREÇO ABAIXO E ASSISTA VIDEOCLIPE

COM MINHA CANÇÃO "BRINCADEIRAS DE CRIANÇA" NO YOUTUBE...

 

http://br.youtube.com/watch?v=WS2DlLLm8wQ

 

sábado, 8 de setembro

O sol de amanhã

O sol pós-meio-dia

O sol do norte-nordeste

Ó sol

tende piedade de nós

O sol sem sombra

O sol no olho oco

O sol em chamas

Ó sol

tende piedade de nós

O sol atômico

O sol tormentoso

O sol delirando fogo

Ó sol

tende piedade de nós

Fauna e flora imploram

Não secai as águas

Não queimai seres

Ó sol

acolhei nossa súplica

 

Pedras vegetam

Clorofila mineralizada

Aflora solidão

Dói existir sem eco

 

Água

O ato de bebê-la

líquida doce potável

e sabê-la

fonte finita esgotável

Água

Carece preservá-la

de modo responsável

tomá-la

sabendo-se insaciável

 

Flecha

do arco

ao alvo

pontaria

direção

vazio

imensidão

certeza

noção

meta

exatidão

E o cupido

é cego

coração

 

Por mais

humana que seja

não tem condição

A miséria é

da vida

a humilhação

Sua indigna

e extremada

negação

 

Avante

Levante

teu Eu

Torne gigante

o pigmeu

 

Silêncio é ressonância

O íntimo ao alcance

A estridência dentro

Sons de luz interior

O ser no ser do Ser

 

sexta-feira, 7 de setembro

Peço-te mais que isso.

Só não me pergunte o quê.

Que por não saber o quanto

(e do mesmo tanto o que quero)

não te saberei responder.

Mas sei que isso é pouco.

É muito maior meu haver.

 

Na ampulheta,

em vez de areia,

espermatozóides.

Apenas de uma

e não de muitas

ejaculações.

Qual seria da vida

o tempo

para a passagem

de 400 milhões?

 

Tudo passa:

passilargo, passinhar,

en passant.

Passatempo, passe,

passeio, passível,

passarinho.

Passaroco, passim,

passion.

Passa

com o passamento

de tudo.

 

Parou de beber

AAà força

 

Contradição da traição:

no guarda-roupa

um cara pelado

com o coração na mão

 

Contra fetos

não há abortamentos?

 

Pode-se contar nos dedos

quem tem mãos limpas

quem dá mão à palmatória

 

Se esse amor

for coisa boa

prende o danado

senão ele avoa.

Sendo esse amor

um trem qualquer

pode ser

de falsa mulher.

Se esse amor

for bom negócio

cuida dele

e evita sócio.

Se esse amor

for de verdade

dá-lhe sentido

e liberdade.

Se esse amor

não der em nada

já valeu

a chance dada.

Se esse amor

der para trás

deixe-o ir

e siga em paz.

 

Perdi a conta de quantas vezes

dividi em prestações

minha total desilusão

Nem lembro se foi no cheque

no carnê

ou no cartão

Mas deixei de pagar pra ver

e não creio mais em amor

que de si faz promoção

Não acredito e aconselho

a não cair nessa de amor

literalmente em liquidação

 

quinta-feira, 6 de setembro

Eu perambulo sonâmbulo

Eu ando divagando

Eu vou voando

Eu sou souvenir

Eu estou destoando

Eu corro corroendo

Eu passo paciente

Eu vivo viés

Eu subo subitamente

Eu solo solamente

una vez eu eu eu eu eu

ecôo

ecc homo

éter

Etc

ET a tc

 

Um espelho se vê no outro

Duplicidade disforme

imagem megami

 

Se era coisa que preste

não sei

O anel que tu me deste

empenhei

 

Certos agudos do Milton

Seus arranjos vocais

Saímos de planícies

atravessamos montanhas

chapadões

Ê Minas Gerais

Ê sertões

 

Euforia e fúria

vivo bipolar ativo

Ora escrevo

Ora grafo

Ora grifo

Ora cravo

Ora crivo

 

Ela abriu minha cabeça

Eu tenho um coração em mente

Eu tenho em mente um coração

Ela desenrolou as tripas de meu cérebro

Imagine-as agora como estão

 

Experimente chegar até mim

Só não desista nos primeiros 1000kms de labirintos

de um caminhar sem-fim

 

Areia movediça

Areia movediç

Areia movedi

Areia moved

Areia move

Areia mov

Areia mo

Areia m

Areia

Arei

Are

Ar

Ar?

 

Olho nos olhos de uma pessoa

hipnotizamo-nos

O olhar dela me vê em si

Meu olhar a vê em mim

E assim abrimos nossos olhos

para silhuetas escuras

Nossos olhos fechamos

para claridades atômicas

cogumelos de núcleos incandescentes

Vedamos vistosos vislumbres

Cegos iridescentes

O futuro ao adeus pertence

 

Nada te posso pedir além de

Nada te posso dar mais que

Nada te posso dizer senão a

 

Se comigo estás

e não estou contigo

sinto

que ressentes

Sou sim

ser ambíguo

entrementes

 

Eu

no todo

estou quase

Quasímodo

 

Campo do poeta

Não há pênalti

só tiro de meta

Bola pra frente

alma inquieta

 

antes de até aqui chegar me perdi muito por aí

antes de até aqui

                           chegar

                                       me perdi muito

                                                                por aí

 

Quando chegar a hora ouvirás

blim-blom

(ou será blim-blém?)

 

Se a gente não ligar a mínima

eles continuarão nem aí

e eles andam em bando

o tempo todo articulando

E nós - só vez em quando

raramente – e de modo brando

Assim é

assim está

e vai ficando

com o poder podendo

e nos podando 

 

Reclamar em forma de declamação

Contra leis e homens corruptos

versos livres

A poesia versus a hipocrisia

(abaixo o poder arbitrário)

Poetas falando das tribunas

musas na galeria

o povo unido no plenário

E revogam-se disposições

em contrário

 

quarta-feira, 29 de agosto

Coisas de André, meu filho...

http://br.youtube.com/watch?v=J4Ak4-PlOQ4

http://www.youtube.com/watch?v=wqANHZZtAYI

 

segunda-feira, 27 de agosto

Nunca é demais mostrar "PEQUI", música título do 19º CD do amigo Marcelo Barra, que tem letra minha. Clique e ouça PEQUI

 

PEQUI

(Marcelo Barra – Rinaldo Barra – Flávio Almeida Patrocínio)

 

Tem que ser devagarinho,

rói daqui, raspa dali.

Py é casca, Qui espinho,

seu nome vem do Tupi.

 

Ouro e carne do cerrado,

gosto forte e exótico.

Com seu verde e dourado

é um fruto patriótico.

 

'Tá em todas as receitas,

sejam doces ou salgadas

e são muito bem aceitas,

mundo afora apreciadas.

 

O sabiá, o canarinho

e o atento bem-te-vi

têm o peito amarelinho

de tanto bicar pequi.

 

Cata pequi no cerrado,

cata pequi.

Cata pequi no cerrado,

cata pequi.

 

Não existe similar,

trem igual eu nunca vi.

Pro sertanejo caryocar

basta só comer pequi.

 

Viagra do sertão,

seu cheiro atrai paixão.

Quando é tempo de pequi

é cada um por si.

 

Arranjo, violões e viola: Natan Marques

Baixo: Marcelo Maia

Percussão: Heckton Rhádzzy

Piano: Napa

Vocal: Mara, João Marcelo e Lila

 

sexta-feira, 3 de agosto

 

Coisas de Flávio...

http://www.5palavras.blogspot.com/

http://www.ghostpropaganda.blogspot.com/

 

quinta-feira, 2 de agosto

 

CRISE

entusiasma

    tusia

          asma

 

NUMA BOA

Comigo

ninguém briga

só dou abrigo

e mão amiga

 

MILHÕES DE EUROS

Quer pagar

o Pato?

 

MACEDO

- Jesus Cristo é o...

- ...

- Senhor?

 

LULA NO PAN

Vaiaram um medalhão.

 

TANTÃ

“Um cachorro com muito dono, morre de fome e ninguém cuida”.

                                        Diagnóstico da crise aérea, segundo Lula.

 

Não, camarada Lula.

É, sim, uma cachorrada

de pouquíssimos donos,

cuidada, alimentada,

lucrando, com gula

e um mínimo de ônus.

Companheiro, fala sério,

não fica improvisando.

O senhor, que anda aéreo,

assuma logo o comando.

 

segunda-feira, 23 de julho

nada depois dessa

vírgula,

 

fechado em mim

sou sem saída

ou sem fim?

 

brasil:

quando não é caixa dois

é caixa preta

 

não durma

antes do ponto

nem acorde

depois

 

bebo da baba da moça

sede dela não tenho

só fome

 

que foi do 18º andar

isso eu sei

só não sei se caí

ou se pulei

não morri

me aleijei

 

isso não se esquece

é como andar de bicicleta

(na china ou na holanda?)

 

domingo, 22 de julho

não

next vida

na próxima

 

alergiaaalegria

 

levanta

saia

sente

 

põe palavras sem sons na minha boca

de meus olhos tira palavras que nada têm a ver

cegueira muda desses tempos de mal conviver

 

dou por escrito o que sinto

assino embaixo do que penso

analfabeto que sou dessas coisas

 

ainda guarda meus dentes de leite

ainda guarda o naco de meu cordão umbilical

meus rabiscos ainda guarda meus primeiros desenhos

os brinquedos algumas roupas mechas de cabelo fotografias

memória de mil compartimentos de ávida saudade mantida fresca

 

por deus não invente de querer o paraíso aqui na terra

que a terra está em guerra que a terra está em guerra

uns contra os outros ou seja nós versus nós mesmos

estamos nos acabando assim a fim por fim enfim fim 

 

radares descontrolados mapeiam o céu

não lêem nada detectam nem captam

sem rumo o norte bem pode ser o sul

há trajetos inseguros no espaço sem escalas

aves e aviões na contramão da liberdade

congestionando a imensidão azul da queda

idas e vindas vidas idas almas aéreas

dores etéreas vôos cegos e esse medo de fogo

 

cindacta

reverso

ou arremetida

sem data

 

sábado, 21 de julho

eu vos digo:

entrarei mudo

e sairei calado

por via das dúvidas

para evitar stress

não dêem ouvidos

ao meu silêncio

de 150 decibéis

 

que de pelúcia

seja o amigo urso

 

a pétala secou

entre páginas

do livro de Rosa

 

e poucos não são

os que perdidos

em desencontros

estão

os que acham

os que buscam

os que esperam

em vão

 

descolore-se a vida

verdes anos

foto amarelecida

 

mãe natureza

somos teus filhos

desnaturados

já quase

desnaturalizados

 

criminalidade

o ministério da justiça a

dverte

 

agora

a essa hora

estará bin laden

em tora bora

ou

bora bora?

 

tio sam

pode até ser rima para islã

sadan

talibã

irã

mas não a solução

 

floresta:

esta

flor

resta

 

não vivo da poesia

sem poesia não vivo

vivo a poesia

ela me vive

vive em mim

viva a poesia

 

consome em ti o desejo de consumo

em ti o desejo de consumo dá por consumado

para que o consumo do desejo se dê por consumido

porque consumo é um desejo a que estás acostumado

e já consomes este desejo como a um costume assumido

 

capital versus trabalho

resultado comprado

 

eme a o til não

é não

e sim

mão

 

se chover

acione

para

       -brisa

       -raios

       -lamas

abra

guarda

           -chuva

e aguarda

a aguada

parar

 

caiu na rede é

site de webpeixe

link de peixeweb

cardume virtual

 

sexta-feira, 20 de julho

 

1)

beba

do

hic

[sic]

 

2)

originau

originaw

originao

 

3)

por mais errado

ou estranho que pareça

só pode ser descabeçado

quem tem cabeça

 

4)

não conseguiu me alcançar

ou melhor

foi incapaz de me acompanhar

(ou pior)

ficou para trás

ou -

- talvez

por ser relutante

tenha me deixado ir

adiante

apenas para seguir

meu eu distante

 

5)

tem faltado ar

finge que respira

finge

 

6)

volte ao index

das folhas secas

de papel chamex

 

7)

a última vez

que vi Kasparov

foi no xadrez

 

8)

com estes olhos

que a terra

há de come

çar a ver

 

9)

já não penso mais

ando esquecido

aliás (lembrei-me)

tenho ido

 

10)

cala a boca

quero dizer

silêncio

psiu

ouviu?

 

11)

07/07

TAM

          q

            u

               e

                 d

                    a

PAN

          o

        i

     d

   ó

p

 

12)

endireita

a interrogação

e terás

uma exclamação

ou

controverso

entorta a exclamação

e obterás o inverso

 

13)

olho no olho de meu filho

imagino meu filho

olhando no olho de meu neto

imagino meu neto

olhando no olho de meu bisneto

imagino meu bisneto

olhando no olho de meu trineto

imagino meu trineto

olhando no olho de meu tataraneto

imagino meu tataraneto

olhando no oco da cara de minha geração

a partir de então o mundo será um imenso vão

 

14)

não diga nada

nada é o dizer mudo

diga tudo

fala extravasada

com ou sem conteúdo

 

15)

o cego

atravessou o vazio

sobre o abismo

se tivesse guia

não atravessaria

 

16)

rodovia

federal

todavia

b r

 u acos

 

Quer ver algo legal que meu filho André (de 15 anos) e eu inventamos de criar? Acesse:

http://br.youtube.com/watch?v=J4Ak4-PlOQ4

 

sexta-feira, 13 de julho

 

Lava

Lágrima

(vulcão choroso)

Magma

(e raivoso)

 

Navegue

Sem remo

sem rumo

sem nau

Sem leme

sem lume

mar sem sal

 

É o fim

Já não me abala,

e para mim

é notório:

o que o papa fala,

mais que latim,

é latinório.

 

Desafio

Desfia

fio por fio

anos a fio

o fiapo

do ser

E fia

que será.

 

Traça

Vejo-te como caça.

Predador faminto de ti.

Espécimen escassa.

Prolifero-te.

 

Divagação

Dá vontade de ser

o que quer que seja

algo que sem saber

só tem quem bem

querer

deseja

 

Na mesma

No pleonasmo

o circunlóquio

redunda

No excesso

o desperdício

abunda

 

Moça do 1208

Entra-e-sai.

Sobe-e-desce.

 

Gravidez

Nove meses

a vida empurrando

com a barriga.

 

Solidão a dois

Só contigo consigo

ficar só comigo.

Consigo só contigo.

E comigo só

sigo.

 

Caco fato

Embaralha

Empastela

Espalha

- Amoela

 

Intervalo

Fechou para balanço.

Ou seja,

dançou as escondidas.

 

Epitáfio

Enfim

 

Latim apostólico

O hálito do papa

(até quem o suporta

o nariz tapa),

vem da língua morta.

 

quinta-feira, 14 de junho

Gaza

Na zona

proibida

agora tem

catapulta

 

Jesus em São Paulo

A última

cheia.

 

Imprensa

Veja.

A notícia passada

em revista.

 

Coisa de casal

Quando meu amor

comigo briga

(nem me diga)

ao dizer

que agora é

só amiga

é que ela

me castiga

 

Tal a escassez

Dia haverá

em que vegetariano

até planta carnívora

comerá.

Ou vice-versa.

 

Marca

Cicatriz,

tatuagem

do tatoo

reality.

 

Merchandising

Vamos, guria,

à Churrascaria

Bezerro de Ouro.

 

Conforme-se

A ruga

é elástica.

Estique-a

à plástica.

 

Presente de Merlim

Arthur,

deixa de onda:

é quadrada

tua távola

redonda.

 

Ambos

Tontos de interrogações.

Prontos para respostas.

 

A solapa

Dá a cara a tapa.

Mas quem bate

não escapa.

 

Rei sem detalhes

Podem

(mal ou bem)

falar de mim.

Mas que tem tem

que ser tim-tim

por tim-tim.

 

Friedrich

Nietzsche, fala assim

para Zaratrusta:

Deus não morreu.

Deus nem nasceu.

 

Sumô zen

Rechonchuda

a big

barriga

do Buda.

 

Coventry

Será uma nuclear

ogiva?

Ou é ao luar

a Lady

Godiva?

 

Ah, Raul

Acertar na mosca

é sopa.

 

Bsb

Maravilhas

no país

de alicie.

 

Pênalti

Jogo de palavras.

B deu bola.

A

tacante

sofreu falta

do Z

agueiro.

 

quinta-feira, 7 de junho

Pilha de nervos

Ou Deus madrugou

ou Deus não dormiu.

Deus está por aqui.

Nunca vi Deus

(muito menos assim).

Hoje Deus está

em um dia ruim.

Sua santa paciência

está no fim.

 

A mensagem

O meio é

o e-mail

 

Permitido

Para que a liberdade

de expressão

sobreviva

e nenhum ato

de exceção

reviva

não verifique

a classificação

indicativa

 

Dentro da área

Eu não marco

em cima.

 

Dentro da área 2

Ela não faz

falta.

 

Inaudível

Sem som

sou surdo

não mudo

o tom

 

Pequeno anúncio

Perdeu-se o medo.

Quem encontrá-lo

favor passar batido.

Que ele seja ignorado.

Pois o medo perdido

é medo amedrontado.

 

segunda-feira, 4 de junho

O passarinho

Em passarinho

pedra não jogo.

O pobrezinho

é tão indefeso.

Sem estilingues!

- A todos rogo

(ou alguém aí

quer ir preso?)

O passarinho

é um ser frágil,

só tem as asas

para se defender.

Vai pelo azul

em seu vôo ágil

(quanta maldade

é vê-lo sofrer).

Não atire pedra

(eu peço tanto)

e digo sempre:

liberdade é tudo.

O passarinho é

canto e encanto.

Até o remorso

sem ele é mudo.

 

sábado, 2 de junho

Última

Branca pá

gina          de cal

 

Coreografia

Qual garça

a bailarina deslizou

na ponta dos pés

no lago dos cisnes

 

Morte

Depois do choro

e da chorumela

chorume

 

Nua

Falo da nudez,

não a que deixa à mostra,

mas da insinuante, sutil,

que convida a imaginação

ao exercício da descoberta,

às nuances de tradução

de corpo e arte,

ao prazer de revelar-se,

em transparência, o desejo

como único disfarce.

 

Teimosos

Escrevem poemas

sobre poemas

poetas sem temas.

Com tantos temas

escrever poemas

sobre poetas sem

temas.

 

Sinfonia

Cada palavra

um músico

na orquestra

do texto.

 

Deslize

Na rua do sabão,

cai, cai.

Escorregão.

 

Tempovida

Já estava na hora:

deu-se um tempo

de hora marcada.

E este não havia,

faltara. Não dava

para mais nada.

A vida no tempo

dado é biografia

não autorizada.

 

sexta-feira, 1 de junho

Alimentai

Divida a safra

de vida.

Haiti, Biafra...

A safra de vida

divida.

 

quinta-feira, 31 de maio

Ato de contrição

“Insatisfeitos!

Descumprem tratos,

se vêem só com direitos,

têm mil e uns defeitos,

não passam de ingratos.

Dei-lhes vida (e a minha)”, diz Cristo,

pondo tudo em limpos pratos.

Nós desdenhamos: “Só isto?”

O mestre suspira: “Desisto!”

Contrito de Seus feitos e atos.

 

Filosofia de Ascenso Ferreira

Gostava de filosofar,

comer, dormir, vadiar.

“Hora de trabalhar?

- Pernas pro ar

que ninguém é de ferro”,

dizia, em tom de brincadeira,

ele que de ferro não era,

mas que assinava Ferreira.

 

A exumação

Se vísceras visses

reviradas,

em exposição.

Com as gulodices

mal trituradas

na mastigação.

Em bisbilhotices

entre ossadas

e decomposição.

Talvez aplaudisses

as bicharadas

em deglutição.

Ou desistisses

das presepadas

da exumação.

 

quarta-feira, 30 de maio

Crisálida

Do casulo

para o vôo

- um pulo.

 

Luz forte

Verão.

O sol

cega.

 

Nada católico

Um terço de mim

reza.

Já um quarto...

 

Romeo and Juliet

Foi o rouxinol,

não a cotovia.

Vês, este sol

não é o do dia.

 

Outros tempos

Ex-pudicas?

Por que são?

Ora, picas!

 

Canção solo

Na terra,

ou se planta

ou se enterra.

 

Rito do conflito

Dar o dito

por não dito

(mas no grito),

é passar pito

no veredicto.

 

Nos olhos

Têm tudo a ver,

duas meninas

meu olhar ter.

 

Balas perdidas

Rio, Rio, a que ponto

chegou em ti o horror:

gangues em confronto

acertaram o Redentor.

 

Sem crédito

Foi ao banco

descontar cheque

em branco.

 

Beijo a boca da noite

e sua língua roça

o céu da minha.

 

Noite, oh! noite,

não me deixe na fossa,

nem se sinta sozinha.

 

Cachos de estrelas

colhemos em nossa

celeste vinha.

 

Frutifica-me

e em si mais adoça

sua baga já docinha.

 

E noite, oh! noite,

que ter eu possa

a lua por vizinha.

 

Lua a banhar-se

no breu de sua poça

meladinha.

 

domingo, 27 de maio

Um dia choveu estranho.

Panca d’água diferente.

Contando ninguém acredita.

Eu, menino, na fazenda

fiquei por entender a cena,

inimaginável e surpreendente.

Cada gota dessa chuva

era uma letra. Uma letra

em cada pingo. O alfabeto líquido

caído em cacimbas, poças, lagos,

represas não se diluía instantanea

mente. Em rios, a correnteza

levava tudo, em jorros de A a Z.

Antes da evaporação, tive tempo

para brincar, juntar sílabas,

formar uma palavra, aquosa, frágil,

úmida, com letras em vários tons

de azul e verde, em uma transparência

mágica, em alto-relevo, inefável:

teu nome eu escrevi.

E nunca mais choveu assim.

 

sábado, 26 de maio

Pare de beber

Pare de tomar a pi...

Lula

 

Libra

Leu o horóscopo do dia.

Para seu signo, a previsão:

“Hoje vais cair em tentação”.

Cortou volta da confeitaria.

Não resistiria a uma ambrosia

após o pingado e o pão.

 

sexta-feira, 25 de maio

Dia do Fico

Se é para o bem de todos

e a felicidade geral da nação

diga ao povo que fico.

Assinado: Rei da pretensão.

 

Dia do Fico 2

Um dia (não sei quando)

ainda fico

rico.

Aí eu me mando.

 

O espaço exato

entre o piscar dos olhos

e o bater do coração, 

do pensado agora

e a respiração,

quem saberá dizer

com precisão?

Não será essa inexatidão

a resposta ao ser ou não ser?

Eis a questão.

 

Shangri-La onde?

Shangri-La longe?

Há grileiros

em Shangri-La,

há?

 

Não para ser reino

de um Zé-qualquer,

mas a monarquia dos sem-terra

apossando se avizinha.

As invasões dão trono a Rainha.

 

Na sinagoga

não ecoa sino.

Seu bimbalhar

acorda o rabino.

Blim-blom,

shalom.

Blim-blém,

amém.

É sabbath

em Jerus

              além.

 

Plim-plim

Prozac

Projac

 

Fervilha.

Pode servi-la.

Assopra

a sopa

de lentilha

(ou de ervilha).

 

Avestruz Master

Não valeu (nem)

a pena

 

Pé ante pé

um passo de cada vez

de vagar se chega

 

Janela

à vista

 

Dia D

Hoje é dia de

 

Ora ora

por que

essa espera?

A hora h

é já

e agora

ou não era?

 

Ó confusão do boi na cidade

(a si e aos outros atrapalha).

Ó rendição do homem no campo

de batalha (em sua fashion mortalha).

Ó drummondiana solidão que me estraçalha.

 

A munheca ainda pulsa.

O pulso ainda desmunheca.

A munheca ainda repulsa.

O pulso ainda breca.

A munheca ainda expulsa.

 

Uma vez fora

entorna

água à torneira

não torna

 

Só

o olho da rua

a cidade nua

 

Vir,gula

 

Rompenuvem

pontocom

comsem

br

 

Jurubeba

Primeiro, Pedro,

é dose ser dependente,

teu grito se faz urgente.

Pare de beber

tanta aguardente

Leão do Norte.

Ou queres morrer?

Pedro, Pedro, seja forte.

- Independência ou morte.

 

quinta-feira, 24 de maio

Notas na partitura

Tem um dó

                  lar

Aqui um re

                  al

Nenhum mi

                   lhão

As demais vêm

em cifras

 

Papel A4

poemas a três por dois

 

Taquicardia.

Meu coração ainda bate

sem bateria.

 

Quero ficar sozinho.

Com a poesia.

 

A solidão não tem namorado.

Não quer se sentir solitária

tendo alguém a seu lado.

 

Já brinquei de pique.

Mas hoje não tenho mais.

Nem de brincadeira.

 

Entre não

e nem

alguém sem

afirmação aprovação aceitação

 

No tricô, no crochê,

ainda que disperso,

cada ponto um pensamento.

No poema que ninguém lê,

cada linha um verso

alinha um sentimento.

 

Para quê e por quê

exigir do poeta um estilo?

(É tudo muita loucura).

Se este ou aquele?

Se isto ou aquilo?

Não cobre nada do figura.

Ame-o ou deixe-o

escrever tranqüilo.

Baixe a guarda.

Abaixo a ditadura.

 

Teoriza, teoriza, teoriza.

A tudo relativiza.

No fim vem a prática

e, absolutista, concretiza.

E tiraniza, tiraniza, tiraniza.

 

Ela é de paz.

Com suas tiradas (tira não!),

com suas sacadas (e socadas),

meu bem muito bem me faz.

Amor é senso de humor.

O amor é perspicaz.

 

Eu me repito.

Tênue - por um triz.

Às vezes refaço feio,

às vezes faço bonito.

Por esse meio

eu me peço bis.

 

Tudo errado.

Tipo assim:

o silêncio legendado

que imprimes em mim

com caracteres empastelados

de teu mental caixotim.

 

No colégio da poesia

as aulas eram recreio.

Lá, o que eu escrevia

metia musa no meio.

Com a colega Maria

até hoje metaforeio.

 

quarta-feira, 23 de maio

Cleópatra, hoje em dia,

na intimidade seria chamada

de Cléo.

Leonardo da Vinci

seria simplesmente Léo.

Alexandre, o Grande,

abreviariam para Alê.

- Deus do céu...

Deus? Uê,

de Dê...

 

Tatua

no céu da boca

a lua.

 

Teclas

Teclado

Tecladedos e

tc

 

Ausência

          cia.

 

Uma palavra que jamais escreveste.

Uma palavra que nunca leste.

Uma palavra que em tempo algum viste.

Uma palavra que não disseste nem ouviste.

Uma palavra indicionarizada.

Uma palavra não neologismada.

Uma palavra de língua nenhuma.

Uma palavra nova, em suma.

Uma palavra. Uma.

 

terça-feira, 22 de maio

Dessa fonte bebo:

inesgotável.

Água que recebo:

potável.

Assim me percebo:

insaciável.

 

Dentre bilhões ele se empenha

e não se abate no bom combate.

O turbilhão exige: concentre!

E nessa disputa ele bota banca.

 

Ali à porta, ela chama: venha!

Frente à porta, ela fala: bate!

Bate à porta, ela ordena: entre,

que para ti a entrada é franca.

 

Nesse espaço ele se embrenha,

leve e solto, já sem embate.

Óvulo fecundo, habita o ventre,

sol de amor na paisagem branca.

 

Assim, num átimo fica prenha

a fêmea, no ávido ato do engate.

Um só espermatozóide, dentre

bilhões, do prazer vida arranca.

 

segunda-feira, 21 de maio

Não dou ouvidos ao que me dizes.

Ou seja: já não presto mais atenção.

Também, depois de tantos deslizes,

tornei-me frio, árido de compaixão.

 

Eu suportei a loucura de tuas crises,

vivi contigo o abismo da depressão.

Tuas ofensas, em indóceis reprises,

deixaram-me incapaz até de perdão.

 

Se lúcida vens - logo te contradizes,

cega de rancor, senhora da situação,

intoxicada de fel, abrindo cicatrizes

com magoada e fastidiosa repetição.

 

Nas tuas mentiras distingo matizes

de dramas e problemas sem solução.

Artifícios, invenções e chamarizes:

contra estes me vacinei com a razão.

 

Ponho-te na cota de grandes atrizes.

Muito acreditei em tua interpretação.

Mas agora chega de papéis infelizes;

cansei-me de cenas de dissimulação.

 

domingo, 20 de maio

Ourivesaria e alquimia

Se o fazer poesia é ourivesaria,

fosse eu poeta, ourives seria.

 

Ou eu ourives, poeta gravaria

em ouro, e palavras esculpiria.

 

De seu estado bruto as tiraria,

e com precisão as derreteria.

 

As inferiores eu transmutaria;

em nobres raridades as tornaria.

 

E assim, poesias eu escreveria,

e uma a uma as ornamentaria.

 

E, artesanalmente, as talharia.

Detalhadamente as modelaria.

 

Um formato de jóia lhes daria

e metáforas brilhantes cravaria.

 

Primorosa seria minha refinaria.

Com rica exatidão eu as poliria.

 

Outros elementos eu combinaria

(como química, física, astrologia,

 

misticismo, medicina, metalurgia)

à minha artística e exclusiva cria.

 

Os procedimentos eu conheceria,

ferramentas e instrumentos teria.

 

E, por fim, realizado constataria:

poesia é ourivesaria e alquimia.

 

sábado, 19 de maio

Sabedoria chinesa

Entre Mao

e Lao,

o Tao.

 

No sarau

Ninguém me ama,

ninguém me quer.

Danço sem dama

qual Fred Astaire.

 

No sarau 2

Quem me amar,

quem me quiser,

favor não me chamar

de Baudelaire,

e sim me tratar

por Apolinaire.

 

Em resumo

Haja fôlego

para se criar

um curto poema.

Pesa o respirar

- quanto menor

mais exige ar.

É ofegante o sintetizar.

É quase um enfisema

pulmonar.

 

Ilha de Bali

Foi numa quarta

que brigamos feio.

Ela se dizia farta,

eu tava de saco cheio.

Ela quase me enfarta,

por pouco a esbofeteio.

Voltarmos? Descarta

o impossível devaneio.

Mudei-me para Jacarta

(aqui tem lan house e correio),

mas que um raio me parta

ao meio

se eu escrever uma carta,

se eu enviar um e-mail.

Na praia conheci Marta,

surfista com quem ondeio.

 

quinta-feira, 17 de maio

Tire

tudo

do

tudo

     Tu

     do

     tudo

     tire

          Do

          tu

          tire

          tu

               Tudo

               do

               tudo

               tire

 

Ei, DJ,

quem não arrisca

não arranha o long-play.

 

Ela nunca leu um poema meu. Nunca pediu

um. Nem quer. Sequer imagina ser a fonte

bêbada de luz. Ela é manancial. Nascente

bêbada de luz. Origem bêbada de luz.

Ela faz brotar. Mina bêbada de luz.

Ébria de meu sóbrio poetar.

 

Narciso, Narciso do eu,

existe espelho mais nítido

que este que evitas olhar

e que a realidade me deu?

 

Então não gostas de azul?

Por que te opões a essa cor?

A todas as suas gradações desprezas?

A que pinta o céu em tom de firmamento?

Perguntaste às aves se a acham obtusa?

Que dá profundidade ao mar em movimento?

Aos peixes indagaste se a vêem difusa?

Só a ti, camaleão, é permitido tal recusa?

 

quarta-feira, 16 de maio

Erro 404.

O endereço que ora visitas não existe.

Fique aqui para prosseguir.

 

Passar bem. Até amanhã.

Durma com os anjos, irmã,

que pré-púberes não sejam.

E não conte carneiros

que sem lã estejam.

 

Chorou

ao ver a borboleta

pousando ao alcance da mão.

De medo e pavor,

não de emoção.

 

Eu

(feito um),

robô,

Isaac assim

move.

 

Está na moda

reinventar a pólvora

e a roda.

 

terça-feira, 15 de maio

Toma para ti essa estrela.

- Vês? Não está acesa.

Coração, olhos, delicadeza:

tu vais assim acendê-la.

Que ela em teu coração

a seu modo se aninhe,

e dentro dele caminhe

se sentindo na amplidão.

Em teus olhos a proteja

e deles a torne menina.

E que a vagar pela retina

em pleno céu ela se veja.

E com tua delicadeza

a estrelinha farás brilhar,

e em teu coração e olhar

tu a trarás sempre acesa.

 

Se sou poeta?

Quase.

Serei um dia.

A poesia

me projeta.

Estou na base.

 

Há os que voltarão a ser pó.

Eu, pólen.

 

Ela é tecelã.

Um a um seus fios em mim

se entrelaçam. Nós dois e um

casulo. Uso o pulôver que ela

teceu na fria manhã.

 

Casa com

Casa comigo

Casa comida

Casa alugada

Casa conjugada

Casa casal

Caso perdido

Caso comprido

Caso

 

Acendi uma palavra.

A luminosidade traduzida

que eu não soube pronunciar.

Veio o silêncio e apagou-a.

A palavra já não mais há

A palavra era eu. Breu.

 

O dia nasceu com uma dúvida.

E essa ele trouxe das sobras

das sombras da noite.

 

Trabalho muito.

O que faço para sobreviver?

Poemas.

 

segunda-feira, 14 de maio

Nada

No aquário

no rio

no mar

o peixe

 

Um dia ter

para sempre

nome gravado no mármore.

Aqui jaz. Descanse em paz.

Última rima impressa.

 

A primeira vez

(ou terá sido a última?)

que ela foi embora

foi também a única.

 

Ela à minha volta

não é companhia.

- É escolta.

Com ela a meu lado

não me sinto par.

- Mas vigiado.

Ela dá um abraço,

tento fugir.

- Tentáculos, laço.

Quer passar ternura,

fazer carinho.

- Dá gastura.

Quando ela vem,

chega junto.

- Sinto um trem.

Insiste seu olhar

em fitar o meu.

- Não dá pra encarar.

Ela dá bola,

insinua-se, joga ponto.

- Já não mais rola.

Não se acha culpada,

Diz sofrer, sem merecer.

- Sempre dissimulada.

Desesperada, tudo faz,

ameaça se suicidar.

- Que descanse em paz.

Quem sabe, assim,

eu também sossegarei,

enfim.

 

Fazenda Esperança

Não beijou a mão do papa.

Só lhe subtraiu o anel.

 

A ingratidão que se revelou

quando eu a fotografei com minha roleiflex

é que ela queimou meu filme.

 

Utilidade lúdica.

Cumplicidade pública.

Beethoven surdo.

Atividade rústica.

Vontade súbita.

Um pintor cego.

Realidade acústica.

Tonalidade música.

O cantor mudo.

Nada faz sentido.

O todo, tudo.

 

quinta-feira, 10 de maio

Rente

ao texto

fronte

e

verso

o testo

 

Eu sigo

sempre essa

confessa menina.

(Suave promessa).

Ela vai

sem pressa

e regressa moça fina.

(Que nada a impeça).

Voraz à beça

a rugir se expressa

mulher felina.

(Seu cio nunca cessa).

Fêmea. Fera. Feminina.

 

Ok!

É preciso muito

dB

para se fazer um

DJ

 

O som morreu

Faz silêncio

abso-

luto

de um

minuto

 

No teto do céu ar rarefeito respirei.

O íngreme Everest escalei.

No fundo do mais profundo cheguei.

Em fossas abissais mergulhei.

O eu ártico explorei. Meu antártico mapeei.

Em aventuras de mim me desafiei.

Em sólidos colchões de superfícies implacáveis,

nu me deitei.

Sobre lâminas cortantes de friagens insuportáveis,

pernoitei.

Dormi. Sonhei.

Bandeiras finquei.

Pegadas e impressões deixei.

Icebergs quebrei.

Meu corpo congelei.

Glacial me tornei.

O que tentei ser preservei.

Por meu degelo esperarei.

Um dia acordarei.

 

quarta-feira, 9 de maio

Ora (rireis) estrelas ele ouve! Coitado,

pirou de vez; está fora da realidade.

Se as escuta, com elas tem falado.

Esse caso é de extrema gravidade.

 

Digo-vos, sem temer ser internado:

conversamos, sim, com naturalidade.

Noites e dias temos nos encontrado,

as estrelas e eu, e com assiduidade.

 

E mais, incrédulos: posso tocá-las

e banhar-me em luminosidade,

nelas viajando, milhões de escalas.

 

Em cada estrela amizades travo.

Apresento-me, com afabilidade:

- Sou Bilac; vosso criado Olavo.

 

terça-feira, 8 de maio

Nada digo.

Com meu silêncio

convivo comigo.

Meu silêncio

é grande amigo.

Meu silêncio

é melhor contido.

Com meu silêncio

venho sigo tenho ido

- consigo.

Meu silêncio

é maior contigo.

 

Sem tirar nem por

nos baste

o instante da flor

e seu sutil olor

(no ar e na haste).

 

Ó Minas Gerais,

a tardia liberdade

que me deste,

juntada à saudade,

não cabem em Goiás

nem no Centro-Oeste.

 

Eu me basto

no que de mim

resto.

Eu me gasto

e ao fim

presto.

 

Muito te amei, não nego,

com a cara e a coragem.

Nessa cara um olhar cego

viu-te na inútil paisagem.

E, na coragem, meu ego

a ti viu, e eras miragem.

 

Não se sabe se é verdade,

mas corre mundo a fama.

O pobre Marquês de Sade

após os dias de Sodoma

jamais comeu uma dama.

O coitado caiu em coma,

nunca mais saiu da cama.

 

- O que é bulhufas,

Patavina?

- Não sei. Sabendo

me ensina?

- Sim, amiga,

verei com Necas

de Pitibiriba.

 

sexta-feira, 4 de maio

Anônimo e encorajado, para ti escrevo.

Querer-te como, se me és impossível?

Desejar-te mais seria sofrer; não devo!

Tu não me notas. Sou para ti invisível.

 

És linda estrela longínqua, inacessível.

Só posso admirar-te, com doce enlevo.

Perdoa-me, se a ti parece inconcebível

e piegas o modo como eu te descrevo.

 

Espero, moça, achares compreensível

que eu, poeta e romântico incorrigível

a ti, humilde cante, e com tanto relevo.

 

Não me repreendas; não és insensível.

Saibas: acho-te deliciosíssima, incrível.

Ter-te não posso; a dizer-te me atrevo.

 

                       p/ Luciana Domenico Vecchio

Acordei menos.

Parte de mim ainda dorme.

Mantendo os sentidos plenos

ajunto-me em nacos pequenos

até que o todo se conforme.

 

Os dias, áridos terrenos

exigem: em si se transforme.

 

Manhã de eu disforme.

Aqui e ali uns empenos.

Para que nada se deforme

corro a aplicar drenos

de uma forma uniforme.

 

O corpo prova venenos,

mas a vida resiste, enorme.

 

quinta-feira, 3 de maio

Fio a fio

ela bordou

na toalha

de rosto

um navio.

Que naufraga

nas lágrimas

que ela seca

na absorção

da peça macia

de puro algodão.

 

sexta-feira, 27 de abril

A lhe evitar.

A levitar.

 

Os fins

justificam

teu snif?

 

O querer quando beira,

é sem eira que ele vem.

A seu querer, Deus queira,

que lhe queira também.

Ou querendo se obtém?

 

Querer para a vida inteira.

Querer sem ter a quem.

De seu querer só requeira

a querência que já tem.

E por querê-la, mantém.

 

E não vá fazer besteira

se vir a querer alguém...

O querer na ribanceira

é descarrilado trem.

Ao querer não se detém.

 

Querer é pura doideira.

Faz gagá ficar neném.

Ao inseguro dá ciumeira.

Querer é um sofrer zen.

Querer por si se entretém.

 

A menina baladeira

cansada de vaivém,

já não quer, na saideira,

só ficar, mas ir além.

Em seu querer se abstém.

 

Tem balzaca rezadeira,

querendo sem ter ninguém,

faz prece casamenteira:

“Ó Santo Antônio, amém”.

Querer ela quer, porém...

 

Outro, na longa fileira

(este queria um harém)

quer uma gata na coleira,

uma fêmea por refém.

Mas não tendo se contém.

 

Querer é arte arteira.

Querer fica sempre aquém.

Querer é chá de cadeira.

Querer é poder e faz bem.

Querer é saber ficar sem.

 

quarta-feira, 25 de abril

Algo que não há.

Que se houvesse, seria.

Não como é, se existisse.

Que talvez fosse, talvez.

Mas não, não mesmo.

 

Líquido verso. Escorre.

Flui à compreensão. Esvai-se.

Como água escassa do futuro.

Sente agora a sede vindoura.

E haja sol.

 

Ficaram quites:

o fogo do inferno

arde-lhe, tal qual aos outros

os fornos de Auschwitz.

 

O coração quer sair pela boca.

Beije-o. Ou morda-o.

 

A rua que leva o gago

ao otorrinolaringologista

é toda de paralelepípedo.

 

Ora, ora,

veja as coisas por dentro

e dá logo o fora.

 

Ais

Dia de enchente

rio ri?

Acho que chora.

Até os olhos

d’água.

Lágrimas: gotas

a mais.

 

Tresluz

Eu grudo na luz.

Alimento-me. Embebo-me.

Defeco e urino luz.

Eu na transparência,

46 anos-luz em mim.

O doido das iluminações

e dormências esclarec

idas.

 

Leitura

Livros entram pelos olhos.

Impregnam, absorvem, transportam

a páginas de viagens únicas.

Aguçam. Ativam os sentidos.

Sinta o cheiro. Viva a emoção.

Tenha a sensação. Perca o fôlego.

E, por fim, feche-os e deixe lá

na estante interior os personagens,

a trama, o desfecho, o fio condutor.

Ao alcance de tua mão – e imaginação

de leitor-colecionador.

 

terça-feira, 24 de abril

Há dúvida entre qual

destas palavras gosto menos:

se equívoco ou se óbvio.

Obviamente posso estar

equivocado quanto a isso,

mas é.

 

Quão breves

e leves são

aves que ao céu

não tornam

 

Ninguém viu nada

Só se ouviu o baque seco

e depois o conteúdo

da caixa preta

 

Pós-parto

resguardo

leite farto

Mama mia

 

Livre?

Só a queda.

 

Ajuste de contas

entre sóbrio poeta

e palavras tontas:

poesias prontas?

 

Psiulêncio

 

Isso não está certo.

Onde já se viu, ao sol,

querer apagar a própria sombra?

Tentar estancar o fluxo do suor?

Desidratar-se por renegar a sede?

Em carne viva, curtir a insolação?

Sob zil raios sentir-se estátua de sal?

Ainda que te julgues uma geleira,

ao sol, isso certo não está.

 

sábado, 21 de abril

Conecto-te etc

étera

 

A porta se abre

para onde não há chão.

Escancara-se para o vazio.

Rampa para um caminho sobre o nada.

Atravessa-a para a levitação.

Equilibra-te em corda imaginária.

Pelo vão vai. Ou não.

 

Ó rainha, quão simples és.

Ao contares comigo os favos

de tua dulcíssima colméia,

ficas assim toda melada,

junto a um lambuzado zangão.

 

Não tenho dormido.

É um estorvo

o grasnido

(áspero que dói)

do implicante corvo

do vizinho Alan Poe.

 

Inconfidência

Joaquim

sentiu-se traído

por ter extraído

sem anestesia

o siso

de J. Silvério

 

Cego de sons,

ensurdeço.

Até te ver

fazendo mímicas.

 

Luz própria.

Não paguei.

Apagaram.

 

A depressão: irmã

viúva

sob cobertor,

usando blusa e luva

de lã

em dia de muito calor.

 

Eu não penso em nada

que não seja

 

Meio-dia de céu vermelho.

Eu nunca tinha visto o sol

tão amarelo assim.

E nem nuvens tão brancas.

Visão assustadora

mente linda.

Quem antes viu o arco-íris

achou mais ainda.

 

Do nada

nada

conclui

se

 

Tudo o que sei

faz de conta

que não

 

Perguntas sem respostas

te deixam respondão?

 

Uma bala perdida

passou de raspão.

Sem direção,

às vezes a morte

erra

de mão.

 

aspas

as

   p

     as

  “p”

 

sexta-feira, 20 de abril

Canibais

Entre mortos e feridos,

serviram-se todos.

 

Letra

Tirar de letra

a letra a

Tirar de letr

a letra r

Tirar de let

a letra t

Tirar de le

a letra e

Tirar de l

a letra l

tirar de

 

quinta-feira, 19 de abril

1

Se é sem eira,

então nem beira.

 

2

O ser

se revive

a cada

   queda livre.

Quem do céu

                cai

    que ao chão

não prive

de ser anteparo

e de ampará-lo,

inclusive,

quando já não mais

sobrevive.

 

3

Asas de xícara.

Vôos de Ícaro.

Sol de cera.

 

4

Oh! que saudades eu tenho

de meu primeiro desenho.

O tempo se transforma em distância

quando se recorda a infância.

 

5

Se distrai

este poeta mineiro

fazendo uai-kai.

 

6

Foi indo toda vida.

Quando é fé acabou.

Um beco sem-saída.

 

7

Let it

be

atles

 

8

Não faz da palavra

mansa escrava,

que a qualquer hora

ela se mostra brava

e senhora.

 

9

Contra anti

concepcional,

a Igreja

não dá uma

dentro.

 

10

Eram dois pares de gêmeos,

seres desconhecidos entre si.

Os dizigóticos Anjo e Arcanjo:

um, aonde ia levava o banjo;

o outro, bom de tuba e arranjo.

E os gêmeos monozigóticos,

identificados Querubim e Serafim:

o primeiro, graduado em flautim;

o segundo exímio no  bandolim.

Passado os tempos angelicais,

de dizi e monozi, os góticos

rapazes se conheceram,

cada um na sua, numa boa,

agora feras na guitarra, baixo,

teclado e bateria. Isso bastou.

O quarteto formou a banda Lúcifer,

que anima as pesadas baladas

de um inferninho chamado Éden.

 

terça-feira, 17 de abril

Olhos vês

 

Distorções a olhos vesgos.

Choque a olhos volts.

Fixação a olhos visgos.

Liberdade a olhos vetados.

Veneno a olhos víboras.

Cenas a olhos vídeos.

Saudade a olhos viúvos.

Fome a olhos varados.

Segredos a olhos voyeurs.

Pálpebras a olhos velcros.

Ternura a olhos veludos.

Estranheza a olhos velados.

Cansaço a olhos vermelhos.

Previsões a olhos videntes.

Lágrimas a olhos vertentes.

Loucura a olhos vidrados.

Coragem a olhos valentes.

Prazo a olhos válidos.

Destruição a olhos vândalos.

Tristeza a olhos vazados.

Pureza a olhos virgens.

Paisagens a olhos verdes.

Tentativa a olhos vãos.

Ciscos a olhos visados.

Ausência a olhos vagos.

Mundo a olhos vastos.

Nudez a olhos vendados.

Tudo a olhos vistos.

 

segunda-feira, 16 de abril

Ajo por instinto.

Ou reajo?

Alheio à razão, sinto.

Ação? Reação?

Intuição. Inconsciência.

Instinto de conservação. 

De sobrevivência.

 

A linguagem é contra.

Negaceia. Apronta.

Odeia. Desencontra.

A linguagem afronta.

 

Eu te amando,

ou passo da conta

ou fico devedor.

Vai somando.

Põe na ponta

do lápis o amor.

 

Em tua vida,

a poesia

(cria perdida),

revivas.

De tuas tetas

de musa parida

chovem letras

nutritivas.

 

Ora, que doe.

Me doei,

ela se doeu.

Ei,

e eu?

 

Inacessível

és minha

senha

 

Não brinca

Uma hora

trinca

Ou brinque

mas sem

meu link

 

É como se não existisses.

Se não antes, menos agora.

Também, quem mandou

se apegar a tolices

e deixar passar da hora?

Nada houve. Ô desmemória.

Nenhuma lembrança ficou

para contar a história.

 

sexta-feira, 23 de março

Soletro-te.

Tuas palavras todas.

Cada humana letra de teu eu.

Aglutino-te em sílabas para releituras.

És textual, contextual, intertextual, gestual.

Estás por escrever, página em branco, meu enredo.

 

Meu bem

meu corpo não contém

glúten

nem retém

sêmen

 

Em seus dias

de o.b.

ela – deprê

depreda até

o que não vê

 

E la

nave va

            zia

 

Ela me chamou para dançar.

Eu que não sei, fui.

A música era silenciosa e lenta.

Com ela tudo flui.

 

Sem tirar nem pôr

são pormenores.

Como, pós-amor,

suores.

 

segunda-feira, 19 de março

 

Mandei um buquê

 

As rosas não

falham.

 

Rio de quê

 

Bala perdida,

 atirada sem mira,

acerta uma vida

 alvo da ira.

Bala perdida,

 disparada sem norte,

só tem ida,

 na volta é morte.

 

Maquiage

 

Nas superfícies

não vês as sujidades,

as tais imundícies

das profundidades.

 

domingo, 18 de março

 

APRESENTE-SE E GANHE PRESENTES

Quer ganhar os 4 livrinhos* de minha autoria até agora lançados pela “Coleção Goiânia Inspira”? Sim, ganhar... de graça mesmo. (Mas atenção: não restam muitos exemplares).

 

Envie (à parte) um envelope médio já selado (R$ 2,00 em selos, custo da postagem), com seu endereço de destinatário já escrito certinho, com CEP e tudo para:

 

Flávio Almeida Patrocínio

Caixa Postal 4016

ACF Casa Branca

74.120-970 – GOIÂNIA – GO.

 

*Os livrinhos são:

1) A plástica desnecessária

2) Riso sem siso

3) Intermináv

4) Mas, e o humour?

 

terça-feira, 6 de março

 

p/ James Joyce

 

A

E

I

O

Ulisses

 

Pôs o pé na peia.

Inda bem que tava de meia.

 

segunda-feira, 5 de março

 

Não basta, pois é pouco.

Aliás, é o mínimo, um nada.

É preciso descontentar-se,

pois.

 

Anda cheio de palavras.

Cheio das palavras.

 

Incolor, não tem odor,

isso é flor?

Ou rima pobre de amor?

- Só se for.

 

Há uma gota de sangue em cada

placa de microscópio.

 

Minha canção do exílio,

compus em terra distante.

Me foi luxuoso auxílio

naquele saudoso instante.

Nem por isso virou estribilho.

E a vida seguiu adiante.

 

Na cozinha lá de casa

cultivo cheiro verde,

hortaliças e verduras

em lavoura que tudo dá.

Planto de tudo um pouco.

Delícias que colho frescas

pra família se fartar.

Têm também abacaxis,

maçãs, bananas, laranjas,

uvas, melões e peras,

que ceifadas vão para a cesta

ou conservadas na geladeira.

- São frutas de meu pomar.

De alto a baixo a vizinhança,

ao sentir o cheiro no vento,

já grita, alvoroçada:

- Manda um pouco pra cá.

De minha safra o que sobra,

exporto pelo elevador,

amostrinhas pra cada andar.

Eu, urbano roceiro,

moro em um arranha-céu

no centro de uma cidade,

tão grande que igual não há.

Tenho mão boa pra planta.

Sou fazendeiro do lar.

 

Estamos na margem do infinito

a que chamamos abismo

(mas que se oferece a nós

como amplidão).

 

quarta-feira, 28 de fevereiro

 

Quem conhece o gosto e o cheiro,

agora vai conhecer o som

Recentemente foi lançado "PEQUI", o 19º CD do amigo Marcelo Barra, consagrado cantor e compositor goiano. A música título tem letra minha. O arranjo é do maestro Natan Marques (um cara que eu, desde rapazola, sempre admirei e curto muito), braço direito e músico de todas as horas da cantora Elis Regina. Sinto-me feliz em dividir este momento todo especial com você... Clique e ouça PEQUI

 

PEQUI

(Marcelo Barra – Rinaldo Barra – Flávio Almeida Patrocínio)

 

Tem que ser devagarinho,

rói daqui, raspa dali.

Py é casca, Qui espinho,

seu nome vem do Tupi.

 

Ouro e carne do cerrado,

gosto forte e exótico.

Com seu verde e dourado

é um fruto patriótico.

 

'Tá em todas as receitas,

sejam doces ou salgadas

e são muito bem aceitas,

mundo afora apreciadas.

 

O sabiá, o canarinho

e o atento bem-te-vi

têm o peito amarelinho

de tanto bicar pequi.

 

Cata pequi no cerrado,

cata pequi.

Cata pequi no cerrado,

cata pequi.

 

Não existe similar,

trem igual eu nunca vi.

Pro sertanejo caryocar

basta só comer pequi.

 

Viagra do sertão,

seu cheiro atrai paixão.

Quando é tempo de pequi

é cada um por si.

 

Arranjo, violões e viola: Natan Marques

Baixo: Marcelo Maia

Percussão: Heckton Rhádzzy

Piano: Napa

Vocal: Mara, João Marcelo e Lila

 

sexta-feira, 19 de janeiro

desenhei um navio na areia

                            do deserto

 

e não é que eu vi

o que diziam não haver

e lamento muito não ter gritado:

- nada à vista

 

Essa não é minha praia
para morrer afogado

 

voltamos para casa

de onde nunca devíamos ter

saído

ainda que a casa tivesse

caído

e que o movimento tenha

ruído

 

pênsil

logo

euxisto

 

deus

é dos meus

estou dentre

os seus

 

dito e feito

quem diria

que alguém faria

 

quinta-feira, 11 de janeiro

O poema exige: quero sair.

Por onde, não interessa.

Que isso depende muito

da qualidade do poeta.

 

Quando te vejo,

não sei porque,

mas bate uma coisa,

dá um trem,

sinto um troço,

acontece um negócio,

e eu fico te olhando

feito bobo, babando,

sentindo teu cheiro

na imaginação.

 

No princípio era o verbo.

E, pretérito imperfeito,

Ele cria.

Eu, presente do indicativo,

creio.

 

Tarde demais.

Eu que antes somente

abotoava a presilha

de minha armadura,

agora mandei soldar.

Não posso mais sair.

Ninguém vai entrar.

 

mínimo

mi   mo

 

Não aconteceu nada

e quando nada acontece

nada pode ter acontecido

e isso é tudo

 

Se te perdi

é porque me descuidei

e eu sou mesmo desatento

um avoado

que nem havia percebido que havia

te ganho (ou ganhado)

 

Dou por dividida a solidão.

Reparto-a em duas.

À minha metade: rejeição.

São ambas tuas.

Se tu a causaste em mim,

acho mais do que justo.

Solidão de amor é assim,

tem sempre um custo.

 

O meu relógio parou

na hora errada

e ainda por cima

atrasado.

 

Já fui mais.

Lá vi muito.

Cá estou eu.

Só vou se

 

Cuida de saber quantas vezes

tantas outras resultarão naquelas que

somadas serão suficientemente totalizadas

em todas as contagens no afinal de tudo pronto

 

Ninguém acende a estrela.

Ela é que não se apaga.

Brilha na distância para vê-la.

Vaga.

 

O amor é cego,

meu bem.

E no escurinho é bom

também.

Vem ver além.

 

Briga de galo.

Briga de foice.

Sangue.

Brigada vermelha.

 

Como antes,

desde o primeiro:

Lucy in the sky

with diamantes,

Lucy in the sky

de brigadeiro.

 

quarta-feira, 10 de janeiro

Du Soleil.

 

Fugiu

com o circo.

 

Chora flui

desanuvia transpira

transborda.

Agora dilui

esvazia respira

acorda.

 

Leia minha mão esquerda.

Ela não sabe escrever.

 

Não penso mais.

Sentir muito menos.

Meus dias são de paz.

Estão serenos

(plenos).

Problemas? Tanto faz.

Aliás,

deixei-os para trás,

são pequenos.

 

Os outros

não são

nosotros.

 

Andei pensando.

Aí parei.

Inclusive de pensar.

 

Sobre fundo branco

o alvo.

 

Eu vi algo

que não existe.

Quem não viu,

desiste.

Só eu vi

e (também)

nunca existi.

 

Melhor sozinho

que só desacompanhado.

 

Batatinha quando nasce

é da infância o refrão.

 

2006

 

domingo, 24 de dezembro

 

poeminhas escritos em 25/12/86, do livro scribendi nullus finis 

Maria deu a luz

nasceu Jesus

Hosana

é Natal

 

Não foi cesariana

foi parto normal

 

Jesus ficou neném

bem além

 

Hotel não tem

pensão também

não há nem

casa de ninguém

(com ou sem

mil ou cem)

 

- Ah não, José, que trem!

- calMaria, meu bem

 

Assim Cristinho

nasceu alegrinho

em Belém

 

sábado, 23 de dezembro

 

Um poeminha de 1978, publicado à página 71

de meu primeiro livro “Fardos Azuis”.

Presépio celeste é adornado.

O menino pobre o vê

e conforma-se.

Há uma criatura singela

na manjedoura.

Sente o calor dos bois,

acolhido na manta da mãe.

Estrebaria colorida

pela noite de luz

recebe os pastores.

O pirralho absorto em fé

ganha de um deles

um pulôver

de lã azulada.

 

quinta-feira, 21 de dezembro

DESAFINADO 2

 

Eu desafino, amor,

e mal sei tocar violão.

Mas lhe peço por favor

- repare não,

dê valor à intenção.

 

Eu só quero lhe agradar,

revelar minha paixão.

Por isso ouso cantar

- deixe estar,

ouça com o coração.

 

Você sabe muito bem

o quão romântico sou,

e pode ver também

- nem vem!

no que isso me tornou.

 

Romantismo hoje em dia

é uma coisa démodé.

E eu até faço poesia

- hê, hê,

inspirado em você.

 

Se eu sou desafinado,

se me meto a tocador,

é que estou apaixonado

- então cuidado,

pois é frágil meu amor.

 

Sei que é muita pretensão,

coisa sem quê nem porquê.

Mas em compensação

- trem bão,

sou louquinho por você.

 

quinta-feira, 14 de dezembro

Vento só

pra

flauta

 

Fincou o pé.

Não tem para onde ir.

Não quer chegar.

Sequer caminha.

Ela é estátua de si mesma.

 

Amamente

com leite das pedras

esse filho impossível

o amor

 

Há vagas:

noções

memórias

lembranças

 

Quer que eu

te leve a sério?

Sorria

e faça-me rir.

 

Orgasmo

é gozado

Deixa pasmo

e passado

Entusiasmo

serenado

 

Sobreviva

acima da vida

Exercite o ato

de ressuscitar-se

 

Me encarrego

Me sobrecarrego

Me entrego

e não nego:

estou num prego

 

Será um cacófato

o elo perdido?

 

Tudo na vida tem um preço

E não vou deixar barato

se bem me conheço

 

Quando morrer

cremado não quero ser

apenas por saber

que sob minhas cinzas

- a arder –

nenhuma brasa há de haver

 

Pior que as inúteis

são as coisas

fúteis

 

A pressa

é arquiinimiga

da afeição

 

Íris

de teu arco

lança sete cores

e que em mim

mires

 

Cala-te

se estás feliz

Teu silêncio

não te contradiz

 

sábado, 9 de dezembro

Pelo visto

o imprevisto

impregnou isto:

o olhar

jamais visto

não é quisto

mas cisto

 

Então vamos deixar o americano do Norte

mandar e desmandar no planeta?

Se sentir dono do Mundo com sua ânsia

de ganância e toda exuberância bélica

e seu ilógico aparato tecnológico?

Deixar em dólar ser idolatrado,

e pelo ar, pelo mar, em qualquer lugar

ele botar os pés?

Não sei para que stress

se a resposta é yes.

 

Quer coisa mais inútil

nos dias de hoje

que um poeta e sua lira?

A realidade é inspiradora.

O sonho é de pirar.

O resto é ira.

 

Uma caverna

de qualquer montanha

do Afeganistão

Bin Laden

transformou em mansão

Ali vive muito bem

qual sultão

Ele e seu harém

 

Inventei uma palavra,

mas esqueci.

Meu neologismo

perdi.

Criou

não escreveu

Pensou

não anotou

não lembrou

ninguém leu.

A memória não perdoa.

A palavra voa.

Coisa à toa.

 

É

GO

Ego

Egoiás

 

Acordo cor

A cor do

amanhecer

 

p/ Décio Pignatari 

bob cheira cola
baby         coca
co co ca la  
naco  taco  toca

loca oca

ola
  
p(s)ignatári o

 

Vontade de fugir

para dentro de ti.

Ficar aí.

Nunca mais sair.

 

Pousada sobre uma pedra

a leveza da borboleta.

 

Afã de hífens:

efe-off-ufa-alf

-a

 

Beijo de língua.

Em qual?

Sei não.

Se por si só

o beijo já é tradução

universentimental.

 

Para seu conhecimento

(não se desaponte),

a Praça Sete é um obelisco

no meio de um cruzamento

em Belo Horizonte.

 

A vida afetiva de efe é ativa.

A vida afetiva em nada afeta.

A vida afetiva não é festiva.

A vida afetiva é defectiva.

A vida afetiva é sim aflitiva.

A vida afetiva é quase furtiva.

A vida efetiva de efe é viva.

 

Sou de contemplações.

Vejo-te indo e vindo.

Sigo te olhando tanto.

És mina de emoções.

Nem o mar é tão lindo

quanto.

 

Entediado,

não porque chove

e sim por ter eu estiado.

Não com tempo de sol

e sim de céu nublado.

 

Em pleno vôo uma pena

da asa de um pássaro

cai.

A altura anestesia.

Não dói seguir.

Vai.

 

Por ser eu merecedor

quero o amor que me for dado.

Um amor sem tirar nem por,

amor há muito aguardado.

Para senti-lo peço por favor,

ao ganhá-lo direi obrigado.

 

Flores de árvores frutíferas:

vê-las apreciá-las

cheirá-las comê-las.

E sementes devolvê-las

para outras florações.

 

O outono,

essa estação

mono.

 

segunda-feira, 4 de dezembro

És toda encanto

e me deixas triste.

Meu amor é tanto

e para ti inexiste.

À fome suplanto,

o gorjeio resiste.

Te dou meu canto,

me tiras o alpiste.

 

À bela donzela

dei - e dou trela.

Estou na dela.

Só não sei

o que sou pra ela.

(É minha dona

essa amazona?)

Pronta, monta

(sinto o arreio

e seu esporeio).

Galopa, mela,

apronta, rela

até ficar tonta.

Ela é boa de sela.

 

quinta-feira, 30 de novembro

Mantém em ti o mistério,

questionadora criatura.

Teu silêncio me chega revelador.

Enigma de mil indagações.

Porque és mulher, me subornas

com tua voracidade. Em mim

alimentas se te insinuas

com códigos sutis.

A imaginar-te são meus dias febris.

 

Chove.

Mais dentro de mim estou.

O que sou se agasalhou.

 

Vai entender?

Antes cuida

para não pirar.

Tudo é possível

de se inexplicar.

 

De todos os modos.

Mas sempre diferentes

os modos todos.

 

Há de ser no íntimo,

onde ninguém alcança

(nem mesmo ela,

ao vasculhar recônditos).

Aí deve habitar a liberdade

e respirar sem couraça

a sensibilidade.

 

Mi casa tu casa.

Asa.

Tão frio faz.

Brasa.

Cio.

Estou com estás.

Fio pavio.

Voraz.

 

Páginas em branco o livro.

Histórias não vividas

como poderão ser escritas?

Leia-as com as palavras

da imaginação,

que estas mágicas são,

que nestas as magias estão.

O livro, páginas em branco.

Ou também este é só invenção?

 

quinta-feira, 23 de novembro

Esqueci teu nome,

tua voz e história.

Tua fisionomia

me vem e some

na aragem fria

da desmemória.

Sei que existes

e éramos tristes.

 

Ah, o vaga-lume:

ora aceso ora apagado,

só assim se assume.

 

Por mais distante que estejas,

que tu sejas

parte de mim.

Porque ainda que te ausentes,

tu te sentes

assim.

 

Mais que puro flerte,

realizo-me no sonho

de ainda pertencer-te.

 

quarta-feira, 22 de novembro

 

Em caldo te tomo

e em frutas como

de ti cada gomo.

 

Dei seta

indo por uma reta,

bati na imaginação.

E ela era concreta,

vindo na contramão.

 

Ágeis

e-mails

arroubos

& spans

 

Gaiolas

com pássaros

fora.

Estes cantam

e a liberdade

lhes é sonora.

 

Ordem estabelecida:

toda descida na ida

na volta vira subida.

 

Deixa de ser

besouro de pernas

para o ar,

a se debater

sem se virar.

 

autolhar

rever

se

 

N U N C A N E V E

r

 

se sou

sem sal

sendo só?

seu sim!

 

salve sua pele

vou arrancar o couro

lhe deixar toda esfolada

à flor da carne viva

 

sociedade protetora

de anymore

 

tudo

em

rima

tudo

en

sina

tudo

a

cima

 

deserto desertor

de idéias

até

tu

cáctus?

 

Z

pode ser

N

coisas

 

sede

de jus

taça

 

sem sentir não

faz sentido

 

Ivo

viu

o

oco

Ivo

ouviu

o

eco

uivo

 

propaga

anda

nega

a alma

do ócio

 

mental

mente

tal

ente

 

O U T

B L A C K W H I T E

 

PLANETA

TER

ERRA

 

impactou

zero

a

zero

fixou

 

no

mato

sem

cacho

 

o coração

parou

de abater

se

 

ou

infinito

ou

ínfimo

 

      MIRA

ADMIRA

      ME

 

para o túmulo

não levas

acúmulo

 

- muito prazer

- fôdo meu

 

chega

de convers

afiada

 

ensimesmado

em si

mesmo

 

então

é ex-planeta

Plutão?

 

segunda-feira, 20 de novembro

Deu um tiro no pé.

Usava um 38.

 

É a partir do rascunho

que sou original.

Só que de meu punho

tende sair algo de cunho

intelectual.

Então me acabrunho,

pois não me alcunho

como tal.

O verso que empunho

é cerebral.

É frio (eu testemunho),

por demais racional,

como que pensado em junho

por um poeta invernal

a curtir o sentir no sal.

Por isso me rasgo, me unho

para que a arte final

simples seja, e sentimental.

 

sábado, 18 de novembro

Ao fundo Bob Dylan canta “The Times They Are A - Changin'…”

 

Germina flor

Arrebenta asfalto nuvem seda pele plasma

Cresce floresce enfeita colore perfuma suaviza

E antes de murchar secar

poliniza

se pereniza

 

Se é virtual

programado equipamento

frio comportamento  

Enter com

enternecimento

 

Perdeu a chave

Pior:

não sabe

se está fora

ou dentro

Mas cabe

em si

 

Asas

a duras penas

voam

vão

 

Caço coisas

Faço coisas

Traço coisas

Passo coisas

Asso coisas

Laço coisas

Algumas coisas

Essas coisas

Outras coisas

e loisas

 

Sou um

sem número

de estatísticas

 

Se perder dói

padece perdoe

Perdura mas perece

Prescreve se perde

Era passou se foi

 

O que pede a pedra

que pedra pede pouco:

solo para estar

mão para armar

alvo para mirar

Acata

Cata a inanimada

matéria de si

por si só fragmentada

sólida e ambígua

Pedra não pede carícia

afago pedra não pede

Rolando se lapida

Insensível não cede

Atira-a sem feri-la

que sua filosofia

é polir-se sem chorar

mesmo quando lápide

 

Não era para

Não passou de

Não deu em

Não chegou a

Não foi como

 

Tem

dias

que

não

Há noites que sim

Raro clarão

 

Rasuras

Ranhuras

Agruras

E auroras auguras

Sóis inauguras

em juras aventuras

dores e curas

Em ti todas as criaturas

 

Embora nada tenha

dou-te meu loguin

confio-te minha senha

Acesse-me

Venha!

 

Ando indo

Eu me concluo

na medida em que fluo

Sou estou

e jamais me findo

 

Ela tem um quê

- de querida

- de quem nada quer

 

domingo, 12 de novembro

Reações à Traição Amorosa no Brasil

 

Cada qual em seu Estado

sabe enfrentar o drama,

ao pegar outro enroscado

com sua mulher na cama.

 

NO SUL

 

O gaúcho fica de boa

quando ocorre a traição.

Assassina a patroa

e não larga o Ricardão.

 

O catarinense só acredita

quando flagra sua senhora.

Se o barriga-verde se irrita?

“Depende da posição e da hora”.

 

O curitibano se cala

diante de tal artimanha.

É que o guampo não fala

se a pessoa lhe é estranha.

 

NO SUDESTE

 

O paulista, se traído

entra numas de apatia.

E frustrado, enrustido

recorre à terapia.

 

Já o corno carioca

não sofre nem se incuba.

Se por outro ela o troca,

ele e os dois fazem suruba.

 

O capixaba, nesse negócio,

não recrimina sua boneca.

Ele a chama, mais ao “beócio”,

pra comerem uma moqueca.

 

O mineiro é tradicional,

este jamais se acanha.

Mata o amante conjugal

e mantém sua piranha.

 

NO CENTRO OESTE

 

O sul-mato-grossense, por zelo,

age de modo natural.

Cura a dor de cotovelo

pescando no Pantanal.

 

O mato-grossense: “Eu não ligo,

pra essa conversa sem nexo.

A bichinha é casada comigo,

nada sabe sobre sexo”.

 

O goiano atraiçoado

contra a depressão peleja,

e com outro corneado

monta dupla sertaneja.

 

O brasiliense fica possesso

- chifre lhe causa desgosto.

Corre para o Congresso

e inventa um novo imposto.

 

NO NORTE

 

O tocantinense é sangue frio,

não tem mágoas nem traumas.

Põe a trairagem na conta do cio

que vem do calor de Palmas.

 

Paraense não é machista,

só resmunga um Belém-bem.

E por mais que ela insista,

nunca mais fica de bem.

 

O amapaense não liga pro “sócio”.

“Preocupar com isso pra quê?

Chifre Linha do Equador Equinócio

a gente sabe que tem, mas não vê”.

 

O roraimense tem muito medo

de passar por um vexame.

Ele sabe, mas guarda segredo,

pois “o outro é só um Ianomâmi”.

 

O amazonense conformado,

solta um sorriso maroto.

“Quem com ela está deitado

não é homem, é um boto”.

 

O acreano perdoa o xodó,

vai ao Daime, aceita, discreto.

E sob efeito do chá de cipó

redobra o carinho e afeto.

 

O rondoniano, pioneiro bom,

não desespera, não tem insônia.

Inclusive fundou a ASCRON:

Associação dos Cornos de Rondônia.

 

NO NORDESTE

 

O baiano mantém a calma,

não estressa, não se ouriça.

“Lavar a honra e a alma

dá trabalho; ai, que preguiça”.

 

Sergipano, cabra-macho,

se sua mulher o engana,

mata a traíra e seu cacho

e amasia com outra fulana.

 

O alagoano, com fama de brabo,

ao invés de chegar o chicote,

senta em cima do próprio rabo

e traça um Sururu de Capote.

 

Pernambucano nem pia,

não põe a coisa em relevo.

Veste sua fantasia

e se esbalda no frevo.

 

Não há paraibano que aceite:

“Corno não; NEGO, não me acho”.

Mas já perdoa o café-com-leite,

até mesmo com mulher-macho.

 

“Fazer o quê?”, diz o Potiguar.

“Sarapatel com minha peixeira?

Cerca ela sempre vai pular,

pois é louca por macaxeira”.

 

O cearense fica na dele

com essa coisa meia a meia,

pois vê que não é só ele

que pega mulher feia.

 

O piauiense é bem teórico

ao absolver sua colombina.

Chifre é achado pré-histórico,

um dos orgulhos de Teresina.

 

O maranhense, a par de tudo,

a hora exata e com quem foi,

bota o enfeite pontiagudo

e cai no Bumba-meu-Boi.

 

(...)

 

Mas, e Fernando de Noronha?

O arquipélago fica reservado...

Vai que o corno quer morder a fronha

e vingar com chumbo trocado...

 

sexta-feira, 10 de novembro

 

Hoje é dia de