Difícil tarefa alimentar este fogo.
Tarefa, não: missão. Por demais custosa.
Fico admirado comigo diante da chama.
Reluzente, meu rosto é quente.
Sua temperatura acende brilhos,
fulgurantes incêndios...
Noites se desfazem em mim, aquecidas
todas as súplicas, minhas injúrias...
O fogo me queima o peito. Arde.
Ó amor, incinera-me,
torna-me cinzas, traz o vento,
sopra-me (não me alivia),
espalha-me, me leva...
Incansável, incansável...
Bater de coração insondável, coração
de batidas compassadas, coração-rotina.
Tua percussão ecoa no peito.
Teu sentir é desejo. És absoluto
no luto e na festa. Mas alegria
te estremece mais. Assim triste
não me percebes de ti dependente.
Ando exausto, incansável coração.
Sossega. Dá-me quietude. Descansa...
Penso em tudo e o pensar é delírio.
Pensamento voraz, inconcluso.
Não há tormenta que o atormentado
desconheça. Conhece todos os padecimentos.
A mais impossível de todas as coisas.
A mais inviável de todas as forças.
Tudo fica na terra. O plantio
é a esperança de nada, espírito
dos dias, restante de algo perdido.
Penso em tudo e pensar é sofrer.
Pensamento espesso de imagens ásperas.
Dói mais ainda o repensar...
Sob árvores, passo a ser sombra.
Percebo meus olhos tardiamente.
Quer me oprimir? Tire-me as paisagens.
Impregnado a elas sou aprendiz.
Um anjo cândido escreveu com nuvens:
O verde um dia será azul!
Posso aprofundar-me; e o meu orgulho?
Ando fatigado de ser eu mesmo,
com essa cabeça sem face, esse corpo,
pensamentos que me fazem sofrer, dolorosos.
Sendo a sombra fruto de árvores, então sou.
De todos os conflitos,
o maior é não ter uma resposta, uma sequer.
De todas as aflições,
viver carregado de questionamentos, muitos,
é a maior delas.
Certezas não me dão descanso. Ao contrário.
Nunca tenho certeza de nada. A não ser
a insegurança da busca. Que certeza é essa?
Há uma margem de perigo
Junto
Vivo com rigor, por isso vivo a duras penas.
Posso até levitar, mas não quero. Paixão é paixão.
Desejo é diferente da celebração espiritual.
Questiono e me torno conflitante.
No conflito resolvo meus questionamentos.
Grito ao nada. Nada responde.
Sensação de vazio nas lembranças.
No silêncio é vazia a sensação.
Quem me ama sabe pouco de mim.
Tanta beleza sem vir à tona, ocultas
as mais frágeis estrelas de meu céu interior.
Estas perdurarão para sempre, desconhecidas.
Últimas, talvez. Únicas, certamente.
Galáxia de recordações que me bastam.
Emudecido passado, que hoje nada mais
consegue dizer. Faltam-lhe palavras perfeitas.
Poderia tentar com lágrimas. Não!
Lágrimas derreteriam minhas constelações.
Sobre ti me inclino. Louvado seja
teu abrigo aquecido para minha fome e fúria,
meu ereto desejo que te procura,
sua forma latente de sangue concentrado,
tão espantoso e natural,
que só com suspiros para traduzir tudo.
Namoro a noiva e devoro a mulher.
Endoideço. Por um momento, cadê juízo?
Há algo de secreto nesses olhos.
Não consigo captar, mas me intriga.
Sinto ciúmes. Um enigma. Machuca.
Não ouço este silêncio inatingível.
Tão oculto que me desdenha.
Seria inteiro não fosse a insegurança.
Há algo de secreto. Eu sei que há.
Sofrer é tudo que menos mereço.
Quando há muito não ouvia tua voz,
ficava imaginando. Sons se confundiam.
Saudade não se reproduz assim. Feições
de lembranças, nacos de felicidade,
precipícios onde se cai para a vida toda.
Tua voz, inconfundível, não me vinha,
por mais que meus ouvidos a quisessem,
por mais que eu te chamasse...
Sempre fui muito afoito para esperar tanto.
Gosto mais na luz de sua velocidade.
Para mim, tua voz veio iluminada.
Não sei explicar como me clareou.
Este clarão disse tudo que eu queria ouvir.
Tua voz é este brilho. Não ouço. Vejo.
Abriu-se uma clareira em minha vida.
Cercado de silêncio por todos os lados,
vislumbrei um espaçoso rumo por habitar
com meus dois olhos sem fundo.
Minha vida seria uma obra prima
acaso juntos tivéssemos prosseguido.
Recomecemos, me dizes. Não vês o aceno
de duas décadas perdidas? Passado banido.
Fui degredado. Fiquei exilado. Preso a ele.
Estamos tentando juntar as pontas.
Mas aquele tempo foi melhor que agora...
Agora caminhamos cada um com seu peso.
Estamos mais lentos, não percebes?
Falta-nos as ilusões instintivas.
As experiências que não tínhamos e temos.
As experimentações que fracassaram sem nós.
Invadem a memória aqueles encontros,
aqueles que só nós dois lembramos,
que ainda hoje arrepiam nossas almas,
mantém-nos acesos para o amor,
sobressaltaram nossas vidas,
sangraram em mel e calda nossos corações.
Habitamos neles. Com eles crescemos.
A primeira vez que te vi quis te ver outras.
Entre amedrontados e envergonhados
teus olhos notaram os meus:
envergonhados e amedrontados.
Desde então te amo.
E não há um só encontro nosso
que não tenha se eternizado em mim,
minha vida toda. Revejo-os.
Como na primeira vez que te vi
e vi teus meigos olhos.
Apaixonado, inesgotável para prazeres,
quero teu corpo como a um altar,
ponho-te no trono, faço-te caverna
de benfazejas loucuras desconhecidas
e juntos descobrimos o novo sempre.
Te amo com dor. Dói e queres mais
e eu mais, mais ainda.
Insondável amor. Insanável vontade.
Brutal sensibilidade. Ganância angelical.
Te querer com fúria. Te comer
com fome.
Estamos
Corpos ansiosos. Almas realizadas.
Palavras existem para serem silenciadas
na hora do bem bom, da graça intraduzível,
quando o que menos importa são coisas ditas,
linguagem desnecessária ante o ato que tudo diz.
Sentir é mais importante.
Viver assim é muito doido.
É muito fundo poder ir além da vida.
Anjos sussurram.
Não palavras, que o dizer deles é alado
e frases com asas ninguém na terra entende.
Tudo é celestial demais nessas horas. Vôo louco.
Grunhidos, sons de línguas molhando os lábios...
O melhor deste silêncio são teus sentidos gemidos.
As vezes uma lágrima muda,
furor de dentes na carne.
Estás
Integrada
Segues distraída.
Meu olhar te despe.
O horizonte está
O
Tens memória de nós.
De nosso tempo.
Te lembras perfeitamente.
Tão nítida.
Te percebo aqui.
Silêncio e som.
Fonte da vida toda.
Meu amor por ti é tudo.
Tua ausência por tão longo tempo
me tornou esquecido. Onde andei?
Fui somente um fragmento.
Tua volta me fez encontrar-me.
Agigantou-se meu coração.
Imensamente sou.
Eu comigo.
Agora tenho perguntas
para todas as respostas.
A saudade era tanta
que o tempo não ficou vazio.
Algo invisível jamais deixou de nos unir.
Confidências sussurradas. Beijos molhados.
Abraços imensos. Olhares perfeitos. Cheiro bom.
Tuas mãos nas minhas, completando-se.
Repartimo-nos
Multiplicamo-nos
Não inventei a saudade.
A saudade não foi criação minha.
Companheira, dona de recordações.
Acompanhou-me, leal comigo.
Fez do tempo do amor presença constante.
O amor presente preencheu-me.
Te descobri e agora te redescubro.
A permanência do ontem influi
nessa redescoberta. Muito ficou.
Tudo em nós foi duradouro.
E agora não tem mais fim.
Reencontramos-nos,
Desejo de vida.
Quando eras apenas memória,
lembranças me sustentaram.
Percorri os caminhos de outrora
abraçado à solidão de meus dias.
A vida, um esboço. Rascunho de amor.
Havia névoa logo à frente. Saudade
era a tradução do tempo.
Saudade de viver o desejado.
O tempo nos preservou.
Fez de nosso amor sua reserva de esperança.
Tão exato, o tempo. Atualiza-se
com a dimensão de sentimentos imensos.
O tempo contínuo. Ininterrupto.
Indiferente aos contratempos.
Veloz para os passatempos.
Perdurou em nós, em forma de amor.
Amor além do tempo. Esperança reservada
para o tempo presente.
Beijo mordo sugo acaricio apalpo
abraço
a extensão morena do teu corpo macio.
Beijo a extensão morena do teu corpo macio.
Mordo a extensão morena do teu corpo macio.
Sugo a extensão morena do teu corpo macio.
Acaricio a extensão morena do teu corpo macio.
Apalpo a extensão morena do teu corpo macio.
Abraço a extensão morena do teu corpo macio.
Adoro, venero tua sublime flor.
Ofereço-te a haste.
O mais é gôzo. E tudo é amor
nas planícies onduladas da extensão morena
do teu corpo macio.
Enquanto me procuravas feito louca pelas ruas,
andavas de lá-pra-cá na minha cabeça.
Não tive descanso. Mantive a lucidez
mesmo habitando uma esfera em torno de ti.
Por ti criei cores, tive idéias, suspirei sem-fim...
Através de ti olhei o mundo
Continuas
Sabes perfeitamente o sangüíneo caminho
que te leva ao meu coração.
Procura a quietude. Dorme comigo.
Acorda em mim o sossego. Minha cabeça
te segue e não te cansas de me procurar.
Só nos encontramos dentro de nós...
enquanto ceifei saudades
lembrei carinhos pelas metades
teus dedos cheios de promessas
tua voz permanecendo em sussurros
reproduzi teu semblante na mente
desatinei volúpias imaginárias
sofri calado e calado renunciei a tudo
muitas águas passadas
e muitas a passar
houve o tempo das sementes
do plantio em chão difícil
a paciência da espera
a colheita agora vem aos poucos
é nosso alimento nessa hora
as tardes ainda são azuis
tudo volta ao ponto de partida
este antigo amor é que nos renova
Não há encanto que não seja doce.
Lindamente poético e suave.
Nascente, poente, sol, lua...
Queria fulgurar, mas sou eu.
Eu sou apenas um restinho de luz,
um restinho de luz a ponto de empalidecer.
Há quanto tempo estou aqui?
Estes versos eram para ser encantados.
Neles há doçura. Parte do que sou,
eles revelam-me, sem fulgor.
Assim sou eu: um quase facho de luz,
um quase facho de luz já sem brilho...
minha casa
tem muitas
janelas
ainda assim
olho o mundo
pelas frestas
amor
amor é água
amor é água com sede
amor é água com sede até secar
amor é água com sede até secar e morrer
amor é água com sede até secar
e morrer e brotar
no
oco
de
mim
cai
em
si
no
oco
de
si
caio
em
mim
manhãs pálidas
não enamoram o sol
tardes quentes
seu mormaço penetra as noites
seu cheiro é o mesmo
ela me diz
exalo saudade
só isso
nunca houve um adeus
por certo um tchau
às vezes um até logo
outras um até breve
até qualquer hora
nunca haverá um adeus
gosto de tua pele
mais que isso
gosto de meus lábios
na morenice de tua pele
pode saber que tenho fome
meu coração
já foi uma pedra
ou continua sendo pedra
meu coração?
mas a paixão quando bate
torna a pedra macia
noites de teu sono escasso
enquanto eu dormia
e não tinha descanso
pesadelo meu
te imaginar acordada
nas noites que poderiam ser nossas
te almoço te merendo te janto
(gosto de deixar as coisas em pratos limpos)
se passou da conta é emoção
ela está toda melada toda molhada por dentro
desde o tempo do colégio
eu não queria aprender nada
só queria saber dela
pensava nela como deusa de todas as matérias
o amor deu conhecimentos etéreos
a este doutor em sensação
ainda aprendiz da paixão
eu penso nela
e estou sangrando e nada estanca
essa hemorragia interna
desejo secretamente
uns olhos
um corpo
e umas carícias
pego fogo
ardo queimo
imaginação gozosa
suspiro transpiro me viro
lindo e infindo:
nós dois
sentados naquele velho banco
até a matriz
era mais feliz
quando nosso amor
dava o ar da graça
na praça
tudo permanece intacto
lembranças físicas
sentimentos que não se extinguem
por todo esse tempo
venho contando pedrinhas do calçamento
faltam algumas
mas no mais é tudo como antes
terminou comigo
muitas vezes
não queria mais me ver
e quem acabava voltando
era eu
doido para vê-la
não passou
o passado
ficou no tempo
(e em nós)
parado
nosso
amor
não
tem
defeito
mas
também
não
tem
conserto
nossa
transa
é
um
transe
a vida toda
sequinho
por ela
quando cheguei
tava toda úmida
por mim
me conheces
d e m a s i a d a m e n t e
menos minha lágrima
oh! cidade
tuas velhas ruas
dizem às esquinas:
“um dia esses dois
caminharão juntos
por nós”
carambola
o súbito extravasa
em meu corpo
em brasa
(pausa)
chupamos uva em tua casa
leio cinco livros por dia
livros inéditos jamais escritos
nossa história de amor em fascículos
o melhor já aconteceu
ou ainda está por vir
nos próximos capítulos?
desperdiçamos emoções
quantas deixamos pelo caminho
ficaram para trás
esquecidas nunca perdidas
emoções se renovam
são as mesmas e despertam
com o cheiro o tato o gosto o ato
não se extinguem nossos vulcões
deles jorram novas emoções
a namorada do poeta
até então não sabia
que o melhor verso
a maior poesia
estava no êxtase
de sua primazia
o prazer
tem pulsações
de mil e umas erupções
quando são únicos
nossos corações
se pudesse dizer
com certeza
diria:
aquela tristeza bruta
agora é pura alegria
o pássaro parou no ar
atiraram-lhe uma pedra
a pedra ganhou asas
levou o pássaro embora
confundem pedra e pássaro agora
depois de muitos anos
novamente ouvi-a dizer:
eu te amo
a frase estava presa
refém do passado
mas comovida e emocionada
tantos anos depois confesso:
não estava preparado
ouví-la dizer que me ama
me fez sentir novamente amado
ninguém nunca te disse
de minha gulodice?
não haviam te falado
que sou um esfomeado?
não minto:
– sou faminto!
como-te a partir do nome
– que fome!
como-te como quiseres
– repasto meu para mil talheres!
e quanto mais te adoro
mais te devoro!
quero te comer comer comer
e te dar prazer muito prazer!
jamais tentei te esquecer
jamais
sempre te lembrei comigo
te revivo como imagem liberta do espelho
tua face flutua sobre meus sonhos
todos os dias te vi e te confessei meu silêncio
é impossível não dar teu nome à minha vida
minha vida te chama e é teu nome que ecoa
a poesia tinha dado um tempo
agora que ela voltou dou meu tempo a ela
transbordante ela jorra
faz de meu coração um jarro
qual pássaro senhor de suas penas
vivo incubado em espaço delimitado
- esse mundinho minúsculo -
asas cercadas domínio diminuto
não há vôo – e pior - desaprendi voar
o horizonte nem é ali – é aqui
a um pássaro preso resta este canto
como
nossos
corações
têm
boa
memória
estão
com
a
incumbência
de
re/viver
nossa
inesquecível
história
é possível um pássaro voar na contramão
ou este espaço todo é uma imensa via
de mão dupla?
o matador
nem sei
quanta saudade já matei
mas estou certo
que há sempre outra por perto
saudade é infinita
nasce não morre e já ressuscita
a quase perfeição: amor
a vida toda é tua miséria
nada te fere mais que o silêncio
e este te requer sem ação
amor de sempre pela metade
e ainda que pelas bordas, não se esgotou,
se fortaleceu em sua frágil plenitude
é tanto delírio tanta alucinação
amor: estou entregue
nada me consome mais que tua procura
alma de quietude
se basta num instante de muitos séculos
talvez me conheças melhor agora
não que eu tenha te revelado a essência
a essência és tu e eu me nutro dessa serenidade
a mansidão de meu peito
há de superar tanta espera
nos encontramos dentro de nós mesmos
aqui ninguém nos descobre
e quando nos descobrirem
nos descobrirão únicos
para sempre unidos
estive por muitos anos ausente de
mim
em algum infinito
nalgum horizonte
dentro dos olhos dela
perdido entre as imagens
que ela viu quando as fitava comigo
teus olhos são as memórias vivas do
que fui
a história presente do que resta de mim
e ainda sou